Escrita Lição 5, Betel, A importância do jejum na vida dos discípulos de CRISTO, 1Tr26, Com. Extras Pr. Henrique, EBD NA TV
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PIX 33195781620 (CPF) Luiz Henrique de Almeida Silva
EBD
BETEL (Revista Editora Betel), Tema: OS DISCÍPULOS DE JESUS CRISTO – Crescendo em
maturidade espiritual e vivendo a missão até a eternidade com Jesus Cristo
ESBOÇO DA LIÇÃO
1-
COMPREENDENDO O JEJUM
1.1. O jejum
bíblico
1.2. O jejum
dos hipócritas
1.3.
Humilhando-se diante de DEUS
2- A
IMPORTÂNCIA DO JEJUM
2.1. Jejum e
arrependimento
2.2. Jejum e
oração
2.3. Jejum e
domínio próprio
3- A RESPOSTA
AO JEJUM DO JUSTO
3.1. Ester
enfrentou o desafio com jejum
3.2. Josafá
buscou a Deus com oração e jejum
3.3. Daniel
jejuou por amor à sua nação
TEXTO ÁUREO
“E disse-lhes:
Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração e jejum” Marcos
9.29.
VERDADE
APLICADA
O jejum bíblico
é um exercício espiritual que expressa nosso interesse em buscar primeiro o
Reino de Deus e a nossa completa dependência do Senhor.
OBJETIVOS DA
LIÇÃO
Reconhecer o valor espiritual de jejuar e orar conjuntamente.
Identificar o jejum como uma prática vista em toda a Bíblia.
Ressaltando que Jesus afirmou a relevância do jejum.
TEXTOS DE
REFERÊNCIA – Mt 4.1-2; 6.16-18
MATEUS 4.1- Então, foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser
tentado pelo diabo.
2- E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; 3E,
chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas
pedras se tornem em pães.
MATEUS 6.16- E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os
hipócritas, porque desfiguram o rosto, para que aos homens pareça que jejuam.
Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.
17- Porém tu, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto,
18- para não pareceres aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está
oculto; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará.
LEITURAS
COMPLEMENTARES
SEGUNDA | Ed 8.21 Proclamando o jejum.
TERÇA | Dn 9.3 Buscando a Deus em oração e jejum.
QUARTA | 2Cr 20.3 A busca pelo Senhor em jejum.
QUINTA | Mt 6.16 O jejum não visa recompensas humanas.
SEXTA | JI 2.12 Deus se agrada do jejum de Seus servos.
SÁBADO | Ne 1.4 O jejum nos fortalece espiritualmente.
HINOS SUGERIDOS: 5,88, 370
MOTIVO DE
ORAÇÃO: Ore para que a Igreja de Cristo
continue a jejuar em consagração a Deus.
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SUBSÍDIOS
EXTRAS PARA A LIÇÃO – LIVROS, REVISTAS ANTIGAS E GOOGLE
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RESUMO
RÁPIDO DO Pr Henrique
INTRODUÇÃO
O jejum é uma
prática milenar presente em diversas culturas e religiões, especialmente no
contexto cristão, onde assume significados profundos de busca espiritual,
consagração e transformação pessoal. Mais do que a simples abstinência de
alimentos, o jejum envolve disciplina, oração e reflexão, sendo utilizado tanto
para fins espirituais quanto para benefícios à saúde. Na Bíblia, o jejum é
visto como um ato de humildade e entrega, capaz de aproximar o indivíduo de
Deus, fortalecer a fé e promover arrependimento sincero. Exemplos de
personagens bíblicos como Moisés, Ester, Daniel e Jesus ilustram a importância
e o poder dessa prática em momentos decisivos. O texto explora os diferentes
tipos de jejum, seus propósitos, cuidados necessários e o impacto espiritual e
social que podem gerar, destacando que o verdadeiro valor do jejum está na
intenção do coração e na busca por uma vida alinhada à vontade divina.
ACABE, MESMO
SENDO UM TERRÍVEL PECADOR, ALCANÇOU FAVOR DE DEUS DEVIDO A UM JEJUM SEGUIDO DE
ARREPENDIMENTO.
²⁵ Porém
ninguém fora como Acabe, que se vendera para fazer o que era mau aos olhos do
Senhor; porque Jezabel, sua mulher, o incitava. ²⁶ E fez grandes abominações,
seguindo os ídolos, conforme a tudo o que fizeram os amorreus, os quais o
Senhor lançou fora da sua possessão, de diante dos filhos de Israel. ²⁷
Sucedeu, pois, que Acabe, ouvindo estas palavras, rasgou as suas vestes, e
cobriu a sua carne de saco, e jejuou; e jazia em saco, e andava mansamente. ²⁸
Então veio a palavra do Senhor a Elias tisbita, dizendo: ²⁹ Não viste que Acabe
se humilha perante mim? Por isso, porquanto se humilha perante mim, não trarei
este mal nos seus dias, mas nos dias de seu filho trarei este mal sobre a sua
casa. 1 Reis 21:25-29
JEJUM ERA
PRÁTICA NORMAL E OBRIGATÓRIA ORDENADA POR DEUS ENTRE OS JUDEUS
¹⁹ Assim diz o
Senhor dos Exércitos: O jejum do quarto, e o jejum do quinto, e o jejum do
sétimo, e o jejum do décimo mês será para a casa de Judá gozo, alegria, e
festividades solenes; amai, pois, a verdade e a paz. Zacarias 8:19
JEJUM DEVE SER
CONVOCADO PELA LIDERANÇA DA IGREJA
¹⁵ Tocai a
trombeta em Sião, santificai um jejum, convocai uma assembleia solene.
¹⁶ Congregai o
povo, santificai a congregação, ajuntai os anciãos, congregai as crianças, e os
que mamam; saia o noivo da sua recâmara, e a noiva do seu aposento.
¹⁷ Chorem os
sacerdotes, ministros do Senhor, entre o alpendre e o altar, e digam: Poupa a
teu povo, ó Senhor, e não entregues a tua herança ao opróbrio, para que os
gentios o dominem; por que diriam entre os povos: Onde está o seu Deus? ¹⁸
Então o Senhor se mostrou zeloso da sua terra, e compadeceu-se do seu povo. Joel
2:15-18
1-
COMPREENDENDO O JEJUM
Jejum é
a abstinência voluntária de alimentos, bebidas ou outros prazeres por um
período, com propósitos que variam de religiosos (busca espiritual, consagração,
purificação, cura física, ou mental ou espiritual, fortalecimento, busca por
batismo com o ESPÍRITO SANTO ou DE DONS DO ESPÍRITO SANTO) a medicinais/saúde
(desintoxicação, perda de peso, benefícios metabólicos), envolvendo privação
total ou parcial e acompanhado frequentemente de oração e amor ao próximo,
exigindo cautela e, idealmente, orientação médica para evitar riscos à saúde (se
possível).
Tipos e
Propósitos
- Espiritual/Religioso: Comum em diversas denominações
cristãs, busca aproximar-se de Deus, focar na oração, amor e humildade,
como no jejum bíblico de Daniel, que abriu mão de alimentos saborosos por
21 dias buscando uma resposta de DEUS.
- Saúde/Intermitente: Focado em benefícios físicos como
desintoxicação, melhoria mental e controle de peso, com jejuns como o de
"pão e água" (apenas pão e água) ou restrições de janelas de
alimentação e dias.
Como Funciona
- Abstinência: Pode ser total (nada além de água)
ou parcial (redução de refeições, jejum de certos alimentos).
- Duração: Varia de horas a dias, com jejuns
mais longos exigindo acompanhamento.
- Acompanhamentos: Fortemente ligado à oração, leitura
de escrituras e atos de amor ao próximo para um propósito mais profundo,
especialmente no contexto religioso.
Cuidados
Essenciais
- Orientação
Médica:
Fundamental
para jejuns prolongados ou para pessoas com condições preexistentes, para
evitar desidratação, desnutrição, hipoglicemia e fraqueza.
- Intenção:
O jejum
espiritual não é só sobre o corpo, mas sobre a mente e a alma, buscando força
espiritual e foco, não apenas privação física.
Em resumo, o
jejum é uma prática antiga e multifacetada, que se adapta a diferentes
objetivos, mas sempre requer autodisciplina e, para ser seguro e eficaz, deve
considerar tanto os aspectos físicos quanto os espirituais, com a devida
orientação
1.1.
O jejum bíblico
Na Bíblia, o
jejum é uma prática espiritual de abstinência (de comida, bebida, ou
outras coisas) para buscar a Deus, expressar arrependimento, orar com
intensidade, buscar direção divina ou se preparar para um evento importante,
sendo uma forma de focar no espiritual e não no físico, com Jesus ensinando que
deve ser feito com motivação interior e não para exibição pública. É uma
prática tanto do Antigo (Moisés, Ester) quanto do Novo Testamento (Jesus,
Apóstolos) e, embora não seja um mandamento direto no NT, é uma expectativa
clara, com foco na entrega a Deus e, idealmente, em atos de amor ao próximo.
Propósitos do
Jejum Bíblico
- Busca e Conexão com
Deus: Uma forma de orar com o corpo, demonstrando total dependência
de Deus.
- Arrependimento e luta contra o
pecado: Sinal de tristeza pelos pecados, como no Dia da Expiação (Lv
16:29).
- Preparação: Ester jejuou
juntamente com todo seu povo por três dias para obter favor do rei. Moisés
(40+40), Elias e Jesus jejuaram 40 dias. JESUS antes de iniciar seu
ministério (Mt 4:1-2).
- Angústia e Decisão: Usado
por personagens como Davi e Ester em momentos de grande necessidade ou
decisão.
- Consagração: Para se
separar para um propósito divino, como em Daniel (Dn 9:3).
- Superação Espiritual: Uma
"arma espiritual" para fortalecer a fé e conquistar vitórias
espirituais.
Como Jejuar
(Segundo a Bíblia)
- Motivação Correta:
Não para ser
visto por outros, mas para Deus (Mt 6:16-18).
- Humildade:
Jesus instrui a
não demonstrar tristeza externa, mas sim manter a aparência normal, com o Pai
sabendo.
- Foco:
O jejum deve
ser acompanhado de oração, meditação e, idealmente, amor para com os
necessitados, podendo converter o que se economiza em ajuda ao próximo (Is
58:6-7).
- Variedade:
Pode ser de
alimentos, ou de outras coisas que distraiam, com o objetivo de focar em DEUS (TV,
Celular, internet, por exemplo).
Exemplos na
Bíblia
- Antigo Testamento: Moisés
(Êx 34:28), Elias (1Rs 19:8), Ester (Est 4:16), Daniel (Dn 9:3).
- Novo Testamento: Jesus (Mt
4:1-4), os discípulos de João (Mt 9:14), a igreja primitiva em Antioquia
(At 13:2-3).
1.2.
O jejum dos hipócritas
Na Bíblia, o
jejum dos hipócritas, descrito em Mateus 6:16-18, refere-se à
prática de jejuar publicamente com aparência abatida e desarrumada para chamar
a atenção e serem elogiados pelos homens, em vez de buscar a Deus em
secreto; Jesus ensina que essa é a única recompensa que eles recebem, pois
Deus, que vê o que é feito em secreto, os recompensará quando o jejum for feito
com humildade, lavando o rosto e ungindo a cabeça, para que somente
Ele perceba.
Características
do Jejum Hipócrita (Mateus 6:16-18):
- Motivação: Ser visto por outros e receber
louvor humano.
- Aparência: Desfiguram o rosto, mostram-se
tristes, desarrumados e contristados para que as pessoas notem seu jejum.
- Recompensa: Já receberam sua recompensa nos
elogios das pessoas.
O Jejum Correto
Segundo Jesus:
- Intenção: Fazer para Deus, em secreto, e não
para exibição.
- Ação: Lave o rosto, penteie o cabelo e
cuide da aparência normal, para que ninguém perceba o jejum, exceto DEUS e
sua família. Os escritores falaram sobre o jejum de JESUS porque sabiam de
seus jejuns (Ele os confidenciou a eles)
- Recompensa: Deus, que vê em secreto,
recompensará o fiel.
Em Resumo:
Jesus contrasta o jejum motivado pelo exibicionismo (hipócritas) com o jejum
feito com humildade e devoção secreta a Deus, enfatizando que a aprovação
divina é superior ao reconhecimento humano.
1.3.
Humilhando-se diante de DEUS
Humilhar-se
diante de Deus no jejum significa submeter-se totalmente a Ele,
reconhecendo sua fraqueza e dependência, e priorizando o Senhor sobre os
desejos carnais, não para mostrar aos outros, mas para buscar a presença de
Deus, abrir o coração e receber Sua graça, pois Ele exalta os humildes, como
ensinam passagens como Tiago 4:10 e Mateus 6:16-18.
Significado da
Humilhação no Jejum:
- Prioridade
de Deus: O jejum, com oração,
mostra que Deus é mais importante que os prazeres, estabelecendo uma
prioridade espiritual.
- Abertura
do Coração: É um
ato de submissão para ter comunhão com Deus, deixando o orgulho de lado e
se tornando dócil à Sua vontade.
- Dependência: Revela nossa fraqueza, permitindo
que Deus se torne forte em nós e nos dando Sua graça.
- Reconhecimento: É um ato de busca profunda pela
presença divina, como descrito em Salmos 35:13, onde o salmista se humilha
com jejum em sua angústia.
Como se
Humilhar no Jejum (Segundo a Bíblia):
- Seja
discreto: Não faça disso um
espetáculo para os homens. Lave o rosto, penteie-se, para que só seu Pai,
que vê em segredo, saiba.
- Não por
sofrimento, mas por honra: O
foco não é o sofrimento, mas honrar a Deus ao resistir aos desejos e se
dedicar a Ele.
- Busque
comunhão: Além de pedir, foque em
ter um relacionamento íntimo, deixando o mundo espiritual constrangido
pela sua atitude.
- Exemplo de
Daniel: Daniel se humilhou ao
dispor o coração para buscar a Deus, não comendo coisas agradáveis e
cuidando da vaidade, e suas palavras foram ouvidas.
O Propósito:
- Para abrir o coração e
se converter.
- Para que Deus, que vê em
segredo, recompense.
- Para que Ele nos levante
e anime, pois Deus exalta os humildes.
¹⁴ E se o meu
povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar (com jejum), e orar, e
buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos
céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra. 2 Crônicas 7:14
Observação - (com
jejum) inserção minha.
2- A
IMPORTÂNCIA DO JEJUM
A importância
do jejum na Bíblia reside em fortalecer a fé, buscar a Deus com mais
intensidade, demonstrar arrependimento, buscar direção e libertação, e preparar
para momentos cruciais, unindo a abstinência física à oração e amor ao próximo,
não como ritual vazio, mas como um ato de humildade e dependência de Deus para
vencer tentações e alcançar intimidade com Ele, transformando a renúncia em
ajuda ao próximo.
Propósitos do
Jejum Bíblico:
- Intimidade
e Busca por Deus: Aproxima
o crente de Deus, fortalecendo a fé e a dependência Dele.
- Arrependimento
e Conversão: Sinal de
contrição e desejo de mudar de vida, como em Joel 2:12.
- Busca de
Direção e Milagres: Usado em
momentos de decisões difíceis ou clamor por intervenção divina, como
Ester.
- Preparação
Espiritual: Jesus
jejuou antes do início do seu ministério; é um preparo para desafios
espirituais.
- Disciplina
e Domínio Próprio: Ajuda a
controlar os desejos da carne e a viver mais pelo Espírito.
- Solidariedade
e Caridade: A
abstinência deve se converter em ajuda aos necessitados, combatendo o
materialismo.
O Que a Bíblia
Ensina:
- O Jejum
Verdadeiro: É
motivado pelo coração, não por exibição. Deve ser feito em secreto, com
oração e meditação, não para ser visto pelos homens, mas por Deus (Mateus
6:16-18).
- Não é
Ritual Vazio: Isaías
58 enfatiza que Deus não se agrada de jejuns que não resultam em justiça e
amor ao próximo, mas sim em oprimir o trabalhador ou viver na maldade.
- Ferramenta
de Poder: É uma "arma
espiritual" para vencer o pecado e alcançar o propósito de
Deus.
Exemplos
Bíblicos:
- Moisés e
Elias: Jejum de 40 dias em situações
sobrenaturais.
- Jesus: Jejum de 40 dias no deserto,
preparando-se para o ministério.
- Daniel: Jejum de 21 dias por um propósito divino
(Daniel 10:3).
- Ester e o
Povo: Jejum coletivo por libertação
e salvação (Ester 4:16).
- Ninivitas
- Jonas 4.7-10 - Escaparam da
destruição e matança que lhes estava designada.
- Acabe - Sucedeu, pois, que Acabe, ouvindo estas
palavras, rasgou as suas vestes, e cobriu a sua carne de saco, e jejuou; e
jazia em saco, e andava mansamente 1Rs 21.27 – DEUS o livrou do mal em
seus dias.
Em resumo, o
jejum bíblico é uma disciplina espiritual profunda para buscar a Deus, refletir
humildade e transformar a renúncia em amor prático, alinhando o coração com a
vontade divina.
2.1.
Jejum e arrependimento
Na Bíblia, o
jejum de arrependimento é uma prática antiga e poderosa, onde o povo se volta
para Deus com o coração quebrantado, chorando, lamentando e se humilhando, não
apenas externamente (rasgando roupas), mas interiormente, como em Joel 2:12-13,
buscando perdão e restauração, o que pode levar ao avivamento e à bênção de
Deus, como exemplificado por Davi e o chamado de Joel à nação de Israel
Características
do Jejum de Arrependimento Bíblico:
- Humildade
e Sinceridade:
O ponto central
é a condição do coração, não a aparência externa. A ordem é "Rasguem
o coração, e não as suas vestes" (Joel 2:13).
- Dor e
Lamentação:
É um ato de
tristeza genuína pelos pecados, com choro e pranto, buscando a Deus em vez de
se esconder, como Davi fez após seu pecado com Bate-Seba.
- Retorno a
Deus:
Significa uma
virada completa (conversão), abandonando os maus caminhos para viver a vontade
de Deus, como um passo para o avivamento.
- Justiça e
Compaixão:
O jejum que
agrada a Deus (Isaías 58:6-7) inclui atos práticos de libertar oprimidos,
partilhar o pão, abrigar os necessitados e cuidar dos parentes.
- Foco em
Deus:
Jesus instruiu
a jejuar em segredo, para que apenas o Pai veja, sendo recompensado por Ele, e
não por outros.
Para os
Cristãos Hoje:
- Não é uma obrigação legalista
(como o Dia da Expiação no Antigo Testamento), mas uma prática voluntária.
- O jejum, quando feito por
arrependimento, é um meio para fortalecer a fé, buscar a Deus e manifestar
um coração transformado e o desejo de santificação.
2.2.
Jejum e oração
Na
Bíblia, jejum e oração andam de mãos dadas como uma prática espiritual
para buscar a Deus, buscar direção, arrependimento, libertação de opressões e
fortalecimento na batalha espiritual, sem ser uma barganha, mas um ato de
humildade e devoção concentrada, com muitos exemplos bíblicos mostrando essa
união em momentos de necessidade e consagração, como em Joel
2:12-13 e Atos 13:3.
Propósitos do
Jejum com Oração na Bíblia:
- Busca por
Direção Divina: Paulo
e Barnabé jejuaram e oraram para buscar a vontade de Deus ao escolher
líderes para a evangelização (Atos 14:23).
- Arrependimento
e Perdão: Joel convoca o povo a se
voltar para Deus com jejuns, choro e pranto (Joel 2:12).
- Libertação
Espiritual: Jesus
ensina que certas "castas" (demônios) só saem com oração e jejum
(Marcos 9:28-29).
- Humilhação
e Entrega: Esdras
e o povo jejuaram para se humilhar diante de Deus e pedir proteção em sua
jornada (Esdras 8:21-23).
- Intercessão: Ester convocou jejum e oração para
suplicar por seu povo (Ester 4:16).
- Foco e
Prioridade: O
jejum concentra a devoção e a oração, afastando distrações e focando nas
prioridades espirituais (Isaías 58:3-7).
Exemplos
Bíblicos Chave:
- Daniel: Jejuou por 21 dias, combinando
restrição alimentar com oração intensa por seu povo (Daniel 10:3).
- Davi: Jejuou e orou por uma criança doente
(2 Samuel 12:16) e se humilhou com jejum e oração diante de falsas
acusações (Salmo 35:13).
- Jesus: Jejuou por 40 dias no deserto,
acompanhado de tentações e oração, antes de iniciar Seu ministério (Mateus
4:1-2).
Conexão
Essencial:
- O jejum é um ato físico de
abstinência que apoia e intensifica a oração, permitindo uma comunhão mais
profunda e indivisa com Deus, colocando-O acima das necessidades físicas,
sem ser um meio para barganhar com Ele.
2.3.
Jejum e domínio próprio
Na Bíblia,
jejum e domínio próprio estão interligados como práticas espirituais para
fortalecer a fé, subjugar os desejos carnais e buscar a Deus, sendo o jejum um
exercício de autodisciplina para dominar a carne e focar no espírito,
permitindo maior autoridade espiritual e sensibilidade à vontade divina, com
exemplos de Jesus e figuras bíblicas mostrando seu poder contra tentações e
forças espirituais.
- Sinal de
Arrependimento e Busca: Sinaliza
luto, arrependimento e um desejo profundo de proximidade com Deus, como
visto em figuras como Daniel e Moisés.
O Que é Domínio
Próprio na Bíblia?
- Autocontrole: Significa controlar as próprias
inclinações, desejos e emoções, subjugando a carne (inclinações físicas).
- Virtude
Cristã: É uma característica
fundamental para os seguidores de Cristo, como um fruto do Espírito.
- Alertar
Contra o Mal: 1
Pedro 5:8 adverte para termos domínio próprio e estarmos alertas, pois o
diabo age como leão rugindo.
A Conexão:
Jejum como Exercício de Domínio Próprio
- Subjugar a
Carne: O jejum é um treinamento
para dominar os desejos do corpo (comer por prazer, por exemplo),
fortalecendo o espírito para resistir ao pecado e às tentações.
- Autoridade
Espiritual: Ao
praticar o jejum e o domínio próprio, cristãos ganham autoridade
espiritual, como Jesus ensinou (Mateus 17:21), para vencer obstáculos
espirituais.
- Fortalecimento: Jejuar nos torna mais dependentes de
Deus e mais sensíveis à Sua voz, desenvolvendo um relacionamento mais
profundo e disciplina.
Versículos
Chave:
- Mateus
17:21: "Mas esta casta não
sai senão pela oração e pelo jejum" (falando sobre libertação de
espíritos).
- 1 Pedro
5:8: "Sede sóbrios,
vigiai. O vosso adversário, o diabo, anda em derredor, bramando como leão,
buscando a quem possa tragar. Onde deve estar o domínio próprio?"
(Alerta para vigilância e autocontrole).
- Gálatas
5:22-23: Menciona o "domínio
próprio" como qualidade do fruto do Espírito Santo (não diretamente
ligado ao jejum, mas à virtude).
Em resumo,
jejuar é uma disciplina que aprimora o domínio próprio, essencial para uma vida
cristã vitoriosa e próxima de Deus, ensinando o crente a viver mais pelo
espírito e menos pela carne.
3- A
RESPOSTA AO JEJUM DO JUSTO
A resposta
bíblica ao jejum do justo não é um simples "receber o que pediu", mas
sim uma transformação profunda na vida do indivíduo e a manifestação da vontade
de Deus, com ênfase especial no jejum descrito em Isaías 58. O verdadeiro
jejum, para Deus, está intrinsecamente ligado à justiça social, amor ao próximo
e retidão.
Aqui estão as
respostas/recompensas bíblicas ao jejum praticado da forma correta:
1. A Resposta
Prometida em Isaías 58 (O Jejum Verdadeiro)
Quando o jejum
é acompanhado de libertar os oprimidos, repartir o pão com o faminto e acolher
o pobre, Deus promete:
- Luz e
Cura: "A tua luz romperá
como a alva, e a tua cura brotará rapidamente" (Isaías 58:8).
- Aparência
da Justiça: "A
tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua
retaguarda" (Isaías 58:8).
- Resposta
Imediata à Oração: "Então
clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me
aqui" (Isaías 58:9).
- Guiamento
Contínuo: "O Senhor te guiará
continuamente, fartará a tua alma em lugares áridos e fortificará os teus
ossos" (Isaías 58:11).
- Frutificação: A pessoa se torna como um
"jardim regado" e um "manancial cujas águas nunca
faltam" (Isaías 58:11).
2. Respostas
Espirituais e Práticas (Novo Testamento e outros exemplos)
- Poder
contra o Mal: O
jejum é uma arma espiritual para fortalecer a vontade e dominar os
desejos, preparando para a batalha espiritual (Jesus no deserto - Mt
4,1-11; Mateus 17:21).
- Discernimento
e Direção: O
jejum possibilita maior clareza para ouvir a voz de Deus e discernir Sua
vontade, especialmente em momentos de decisão (Atos 13:2, Atos 14:23).
- Humildade
e Dependência: É
uma forma de humilhar a própria alma, reconhecendo a dependência absoluta
de Deus (Salmo 35:13).
- Recompensa
do Pai: Jesus ensinou que, quando
o jejum é feito em segredo (não para ser visto pelos homens), "teu
Pai, que vê em secreto, te recompensará" (Mateus 6:18).
O que NÃO é a
resposta ao jejum
A Bíblia
(especialmente Isaías 58:3-5) adverte que Deus não aceita jejuns realizados por
orgulho, hipocrisia, para brigar ou enquanto se explora funcionários. Nesses
casos, o jejum é inútil e não alcança resposta.
3.1.
Ester enfrentou o desafio com jejum
Ester enfrentou
o desafio de um decreto real que ordenava a destruição de todo o povo judeu no
Império Persa, orquestrado por Hamã. Para reverter essa sentença de morte,
Ester arriscou a sua própria vida indo ao rei sem ser chamada — o que era
contra a lei e punível com a morte.
O Jejum de
Ester (Ester 4:16):
- O Desafio: Aparecer perante o rei Assuero sem
autorização para interceder por seu povo.
- A
Preparação: Ester
convocou todos os judeus em Susã para jejuar por ela durante três
dias, sem comer nem beber, dia e noite.
- A Atitude: Ela demonstrou fé e coragem com a
famosa frase: "Se perecer, pereci".
Resultado:
Após o jejum, Ester foi recebida pelo rei, o plano de Hamã foi revelado e
frustrado, e o povo judeu foi salvo. Esse episódio deu origem à festa judaica
de Purim.
3.2.
Josafá buscou a Deus com oração e jejum
Em 2
Crônicas 20:3-4, o rei Josafá buscou a Deus com oração e jejum quando o
exército inimigo de Amom, Moabe e Seir ameaçou invadir Judá, reunindo o povo
para pedir socorro ao Senhor, demonstrando dependência total e recebendo a
promessa de vitória divina.
Detalhes do
relato em 2 Crônicas 20:
1.
Medo e Oração: Diante da
iminente invasão, Josafá sentiu medo e decidiu buscar o Senhor.
2.
Jejum Proclamado: Ele
proclamou um jejum para todo o Judá, e o povo se reuniu para pedir socorro a
Deus.
3.
Petição no Templo: Josafá se
pôs na Casa do Senhor e orou, reconhecendo a soberania de Deus, sua dependência
e a injustiça da invasão.
4.
Resposta Divina: O
Espírito do Senhor veio sobre o profeta Jaaziel, que trouxe a mensagem de Deus:
"A batalha não é de vocês, mas de Deus".
5.
Vitória por Louvor: Josafá
colocou cantores à frente do exército, louvando a Deus. Ao começarem a cantar,
o Senhor confundiu os inimigos, que se destruíram mutuamente, garantindo a
vitória sem luta para Judá.
Em resumo, a
história de Josafá em 2 Crônicas 20 é um exemplo bíblico de como buscar a Deus
em tempos de grande aflição através da oração e jejum, confiando Nele em vez de
na força humana.
3.3.
Daniel jejuou por amor à sua nação
A história
de Daniel orando e um anjo trazendo a resposta está em Daniel,
capítulo 10, onde, após 21 dias de oração e jejum, um anjo
(identificado como Gabriel) aparece para ele, explicando que suas orações foram
ouvidas desde o primeiro dia, mas houve uma batalha espiritual contra o
"príncipe da Pérsia" que atrasou a resposta, sendo necessária a ajuda
do Arcanjo Miguel para que a mensagem chegasse, revelando eventos futuros para
Daniel.
Detalhes da
Narrativa (Daniel 10:12-14):
- Oração e
Jejum: Daniel estava buscando
entendimento e se humilhando perante Deus por semanas.
- A
Resposta: No 21º dia, um ser
angelical apareceu, dizendo a Daniel para não temer, pois suas palavras
foram ouvidas desde o início..
- A Batalha
Espiritual: O
anjo revelou que foi impedido por 21 dias pelo "príncipe do reino da
Pérsia" (um poder espiritual), mas recebeu ajuda de Miguel, o
arcanjo-chefe de Israel, para chegar até Daniel.
- A
Mensagem: A visão era sobre o
futuro do povo de Daniel, revelando coisas que aconteceriam nos últimos
dias.
Lições
Principais:
- Deus ouve: Deus ouve as orações desde o
primeiro momento.
- Batalha
Espiritual: Podem
existir obstáculos e forças espirituais que atrasam as respostas, mas a fé
e a persistência são essenciais.
- Persistência: Daniel não desistiu, mesmo sem ver a
resposta imediata, e Deus enviou a ajuda e a mensagem.
CONCLUSÃO
O jejum,
conforme apresentado, é uma prática multifacetada que une abstinência física à
busca espiritual, sendo valorizado tanto por seus benefícios à saúde quanto por
seu poder de transformação interior. Na perspectiva bíblica, o jejum é um ato
de humildade, arrependimento e entrega, realizado com discrição e motivação
sincera, visando agradar a Deus e não aos homens. Ele fortalece a fé, promove
domínio próprio e aproxima o praticante de Deus, tornando-se uma ferramenta
para vencer tentações e buscar direção divina. Exemplos como Moisés, Elias, Ester,
Davi, Josafá, Daniel, JESUS e os
discípulos ilustram como o jejum pode ser decisivo em momentos de crise,
trazendo respostas e livramentos. No entanto, o verdadeiro valor do jejum está
em sua capacidade de transformar o coração, promover justiça e solidariedade, e
alinhar o indivíduo à vontade divina. Assim, o jejum não é um fim em si mesmo,
mas um meio de crescimento espiritual, comunhão com Deus e prática do amor ao
próximo.
))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))
O JEJUM
O jejum é uma das mais eficazes ferramentas espirituais quando relacionado com
a oração. Desejo que você leia estas orientações do pastor Bill Bright sobre o
jejum e que cada membro da Igreja seja eficiente nesta disciplina espiritual
até vermos a glória do Senhor cobrindo nossa cidade "como as águas cobrem
o mar". Isaias 58 :3-10
COMO COMEÇAR O SEU JEJUM.
Como começar e conduzir o seu jejum irá determinar grandemente o seu sucesso.
Seguindo estes sete passos básicos para o jejum, você irá tomar o seu tempo com
o Senhor muito mais significativo e espiritualmente recompensador.
1° Passo: Defina o seu Objetivo - Por que você está jejuando? É para a sua
renovação espiritual, por direção, cura, solução dos problemas, graça especial
para enfrentar uma situação difícil? Peça ao Espírito Santo que mostre
claramente a sua direção e os objetivos para o seu jejum e oração. Isto irá
capacitá-lo a orar mais específica e estrategicamente. Através do jejum e da
oração, nós nos humilhamos perante Deus de tal forma que o espírito Santo irá
avivar o nosso espírito, despertar as nossas igrejas e sarar a nossa terra de
acordo com II Crônicas 7.14. Faça disso prioridade no seu jejum. Até mesmo para
emagrecer e poder ser mais usado por DEUS é válido o jejum.
2° Passo: Faça o seu Compromisso - Ore sobre o tipo de jejum que você deve
adotar. Jesus deu a entender que todos os Seus seguidores deveriam jejuar
(Mateus 6.16-18; 9.14,15). Tu, porém, quando jejuares, unge a tua
cabeça, e lava o teu rosto Mateus 6:17
Para Ele a questão
era quando os crentes iriam jejuar e não se eles jejuariam. Antes de jejuar,
decida sobre os tópicos abaixo:
Qual será a duração do seu jejum? - uma refeição, um dia, uma semana, várias
semanas, quarenta dias (os iniciantes devem começar lentamente, até alcançar
jejuns mais prolongados).
Que tipo de jejum Deus quer que você adote? (de água, apenas, ou de água e
sucos; de comida; de ambos).
Que atividades físicas ou sociais você irá restringir-se?.
Quanto tempo por dia você dedicará à oração e Palavra de Deus?.
Fazer esses compromissos com antecedência irá ajudá-lo a sustentar o seu jejum
quando as tentações físicas e as pressões da vida tentarem fazê-lo abandonar o
seu jejum.
3° Passo: Prepare-se Espiritualmente - O fundamento básico do jejum e oração é
o arrependimento. Pecados não confessados irão bloquear as suas orações. Aqui
estão algumas coisas que você pode fazer para preparar o seu coração:
1. Peça a Deus para ajudá-lo a fazer uma lista abrangente dos seus pecados.
2. Confesse cada pecado que o Espírito santo trouxer a sua mente e aceite o
perdão de Deus (I Jo 1.9).
3. Procure obter o perdão de todos os que você ofendeu e perdoe a todos os que
o feriram (Mc 11.25; Lc 11.4; 17:3,4).
4. Faça restituições à medida que o Espírito Santo lhe mostrar.
5. Peça a Deus para enchê-lo com o Seu Espírito Santo de acordo com a sua ordem
em Efésios 5.18 e a Sua promessa em I Jo 5:14,15.
6. Entregue a sua vida completamente a Jesus Cristo como o seu Senhor e Mestre;
recuse-se a obedecer a sua natureza mundana (Rm 12.1,2).
7. Medite sobre os atributos de Deus, Seu amor, soberania, sabedoria,
fidelidade, graça, compaixão, e outros (Sl 48.9,10; 103.1-8,11-13).
8. Comece o seu tempo de jejum e oração com uma expectativa no seu coração (Hb
11.6).
9. Não subestime a oposição espiritual. Satanás muitas vezes intensifica a
batalha natural entre o corpo e o espírito (Gl 5.16,17).
4° Passo: Prepare-se Fisicamente - Jejum requer precauções conscientes.
Consulte o seu médico em primeiro lugar, especialmente se você toma alguma
medicação ou tem uma enfermidade crônica. Algumas pessoas nunca devem jejuar
sem a supervisão de um profissional. Preparação física faz com que uma mudança
drástica na sua rotina alimentar seja mais fácil, de tal modo que você possa concentrar
toda a sua atenção para o Senhor em oração.
Antes de jejuar
a) Não comece o seu jejum abruptamente.
b) Prepare o seu corpo. Coma pequenas refeições antes de começar o jejum. Evite
alimentos de alto teor de gordura e açúcar.
c) Coma frutas e verduras cruas por 2 dias antes de começar o jejum.
Enquanto você jejuar
Seu tempo de jejum e oração chegou. Você está se abstendo de todas as comidas
sólidas e está buscando ao Senhor. Aqui estão algumas sugestões úteis a serem
consideradas:
a) Evite medicações, mesmo as medicações a base de ervas naturais e
homeopáticas. As medicações devem ser retiradas apenas com a supervisão do seu
médico.
b) Limite as suas atividades.
c) Exercite-se moderadamente. Ande 1a 4 Km por dia, se for conveniente e
confortável.
d) Descanse o máximo que o seu horário permitir.
e) Prepare-se para um período de desconforto mental temporário como:
impaciência, irritabilidade e ansiedade.
f) Espere algum desconforto físico, especialmente no segundo dia. Você poderá
ter breves dores causadas pela fome, tonturas ou algo "esquisito". A
retirada de café e açúcar pode causar cefaleia. O mal-estar físico pode incluir
fraqueza, cansaço ou sonolência.
Os primeiros dois ou três dias são geralmente os mais difíceis. A partir do
momento que você prossegue com o jejum, você irá experimentar uma sensação de
bem-estar, tanto físico como espiritual. Quando sentir a
"dor-de-fome", aumente a ingestão de líquidos.
5º Passo: Mantenha-se no Programa - para um aproveitamento espiritual máximo,
separe bastante tempo para estar sozinho com o Senhor. Ouça a sua direção.
Quanto mais tempo você passa com Ele, mais significativo será o seu jejum.
De manhã:
1. Comece o seu dia com louvor e adoração.
2. Leia e medite na Palavra de Deus.
3. Convide o Espírito Santo a trabalhar em você para querer e realizar a Sua
boa vontade de acordo com Filipenses 2.13.
4. Convide Deus a usá-lo. Peça a Ele para mostrar a você como influenciar seu
mundo, sua família, sua igreja, sua comunidade, seu País e assim por diante.
5. Ore para ter a visão de como Ele deseja usar a sua vida e por poder para
realizar a Sua vontade.
De tarde:
1. Volte para a oração e a Palavra de Deus. Faça uma breve caminhada de oração
intercessória pelos líderes de sua comunidade e Nação, pelas milhares de
pessoas não alcançadas, por suas necessidades especiais.
De noite:
1. Fique um tempo sozinho, sem pressa para "buscar a Sua face".
2. Se outras pessoas estiverem jejuando com você, encontrem-se para orar.
3. Evite a televisão e outras formas de distração que possam desviar o seu foco
espiritual.
Quando possível, comece e termine cada dia ajoelhado com o seu cônjuge ( se
tiver, e também for crente ) para um breve momento de louvor e agradecimento a
Deus. Períodos maiores com o nosso Senhor em oração e estudo da Sua Palavra são
sempre melhores quando estamos sozinhos. Uma rotina diária é vital também. Dr.
Júlio C. Rubial (nutricionista, pastor e especialista em jejum e oração) sugere
uma lista de sucos que podem ser úteis e satisfatórios para você.
Dicas sobre o jejum de líquidos
Consumir suco de frutas irá diminuir a sua "dor-de-fome" e fornecerá
alguma energia natural do açúcar. O sabor e o estímulo irão motivar
fortalecê-lo para continuar o jejum.
Os melhores sucos são feitos a partir de melancias, limões, uvas, maçãs,
repolhos, beterrabas, cenouras, salsões ou folhas de legumes verdes frescos. Em
tempos frios você poderá desfrutar de um caldo de vegetais quentes.
Misture os sucos ácidos (laranja, tomate) com água para não comprometer seu
estômago.
Evite bebidas com cafeína. Evite também os chicletes ou mentolados, mesmo que o
seu hálito esteja ruim. Eles estimulam a ação digestiva do seu estômago.
6° Passo: Termine o Jejum Gradualmente - Comece a comer gradualmente. Não coma
comidas sólidas imediatamente após o seu jejum. A introdução súbita de
alimentos sólidos no seu estômago irá causar consequências negativas ou até
mesmo perigosas. Se você terminar o seu jejum gradualmente, os efeitos
benéficos, físicos e espirituais irão resultar em uma boa saúde. Eis algumas
sugestões para ajudá-lo a finalizar o seu jejum apropriadamente:
Termine um jejum prolongado de líquidos com frutas como melancia.
1) Enquanto continuar a beber sucos de frutas ou verduras, adicione o seguinte:
Primeiro dia: Adicione a salada crua.
Segundo dia: Adicione a batata assada ou cozida, sem manteiga e sem temperos.
Terceiro dia: Adicione uma verdura cozida no vapor.
Os dias seguintes: Comece a retornar a sua dieta normal.
2) Retorne gradualmente a comer regularmente com vários lanches pequenos
durante os primeiros dias. Comece com uma sopa pequena e frutas frescas como
melancia ou melão. Prossiga com algumas colheres de comida sólida como fruta e
verdura fresca ou uma salada crua e batata assada.
7° Passo: Espere os Resultados - Se você se humilhar sinceramente perante o
Senhor, arrepender-se, orar e procurar a face de Deus; se você meditar
consistentemente na Sua Palavra, você irá experimentar uma percepção maior da
Sua presença (João 14.21). O Senhor irá dar um vigoroso e novo discernimento
espiritual. Sua confiança e fé em Deus irão se fortalecer. Você se sentirá
mentalmente, espiritualmente e fisicamente renovado. Você verá respostas para
as suas orações. Um único jejum entretanto, não é um remédio
"cura-tudo" espiritual. Assim como precisamos de um novo enchimento
do Santo Espírito diariamente, nós também precisamos de novos períodos de jejum
perante Deus. Um jejum de 24 horas cada semana tem sido altamente recompensador
para muitos cristãos. Leva tempo para fortalecer seu “músculo” do jejum
espiritual. Se você falhar em fortalecê-lo no primeiro jejum, não desanime.
Você pode ter tentado um jejum muito prolongado na primeira vez ou talvez
precise fortalecer seu entendimento e determinação. Assim que possível,
submeta-se a um outro jejum até que seja bem-sucedido. Deus haverá de honrá-lo
pela sua fidelidade. Eu o encorajo a juntar-se a mim no jejum e na oração, uma
vez após outra, até que nós experimentemos verdadeiramente um reavivamento em
nossas casas, nossas igrejas, nossa Nação amada e em todo o mundo.
evangelizacaopessoal@evangelizacaopessoal.com - Pr. Claúdio Galvão
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JEJUM (DAVE
ROBERSON)
Ministério Ana Maria Dias - Caixa
Postal 254 Barueri – SP 06455-972
Fone/Fax: (11) 4191-6425 www.minamd.org.br
DAVE ROBERSON
Querido amigo,
Há uns seis meses, aqui no Centro de Oração da Família, o Senhor
nos deu palavras poderosas sobre a chave do jejum. Ele anexou muitas promessas
a essa importante chave e em muitos momentos Ele ofereceu a Sua graça para nos
ajudar a jejuar.
Nós reunimos algumas destas profecias recentes que se referem
especificamente ao jejum. Eu gostaria de compartilhá-las com você neste mês
para a sua edificação.
Porque o Senhor continua falando conosco sobre o jejum, também
quero lhe enviar uma carta de ensino sobre este assunto para ajudá-lo a
entender o que o jejum fará por você. Lembre-se que você não precisa jejuar
quarenta dias e noites para ter um jejum eficaz. Existem tipos diferentes de
jejum, como períodos de jejum, jejum parcial, jejum de Daniel etc.
Qualquer jejum ajuda, porque não importa o nível de jejum em que
você opera, ele produzirá uma medida de verdade posicionada que lhe é trazida
através do jejum. Em outras palavras, o jejum lhe ajudará a executar a posição
de Jesus sobre a sua carne, destruindo o seu jugo sobre a sua vida na medida em
que você se entrega a Deus e resiste ao diabo.
Se no momento você tem limitações físicas, aconselho que você
consulte um médico antes de jejuar. Mas em qualquer situação, assegure-se de
que haverá uma forma de jejum que funcionará para você.
Seu colaborador
DAVE ROBERSON
PROFECIAS SOBRE O JEJUM
No período que se aproxima, como antes, estou lhe chamando para o
jejum. Estou lhe chamando para o jejum, diz o Senhor. Então, se entregue a esta
chave, pois há coisas que eu preciso parar e há coisas que precisam ganhar
velocidade. Portanto, estou lhe chamando para períodos de jejum. Você que tem
ouvidos para ouvir, ouça e meça isto dentro de você, obedecendo de acordo com o
que Eu lhe dou para fazer.
Receba as instruções com graça. Pois à medida que você se mortifica
através do jejum, a Minha graça e de fato, a Minha força se tornará a sua
força. Então, agrade-se desta tarefa, pois Eu estou lhe chamando para estas
coisas.
Dave - Sobre a questão do jejum, a resposta é SIM. É Deus falando
com você. É o desejo Dele que todos participem em jejum no primeiro trimestre
deste ano.
Ao pôr sua carne em posição para o que Eu tenho para você, de fato,
seu espírito avançará com clareza. Eu tomarei conta da resistência da carne, e
você compensará por ouvir Minha voz como nunca. Então, prepare-se para as
instruções neste ano que se aproxima; prepare-se para mudanças.
Aquele que tem ouvidos para ouvir ouça o que o Espírito diz. Com
muita edificação, exortação e consolo Eu falo. Quando Eu falar neste ano,
muitos se regozijarão e ficarão muito felizes, pois vocês entenderão coisas que
não entendiam antes. Pois, não é linha sobre linha, preceito sobre preceito, um
pouco aqui e um pouco lá?
Ouça o que o Espírito diz: Esse é o ano em que muitos entrarão no
que eu tenho para vocês. Porque na medida em que muitas atividades são formadas
ao redor de Meu fundamento, todos vocês verão como Eu começo a construir com o
sobrenatural muitas daquelas coisas que coloquei diante de vocês como verdades
durante todo este tempo. Quando os fundamentos destas coisas começar a se
formar e estas coisas começarem a acontecer, muitos verão o próximo lugar para
o qual Eu irei. Isto lhes dará fé e confiança para receber Minha graça e tomar
um próximo passo.
Seja forte, tenha um compromisso neste ano de jejuar bastante, orar
bastante, vindo a Minha presença para Me conhecer. Pois, é Meu desejo ter
comunhão com você intensamente, na medida em que você toma este novo passo,
saindo das trevas e entrando na luz – para entender como Eu opero, como Eu movo
e como Eu emprego Meus dons em uma cidade como esta que Eu dei a vocês, diz o
Senhor.
De fato, o seu tempo de preparação será diminuído porque o semeador
superará o ceifeiro. Todas estas coisas que Eu lhe dou para realizar a graça
liberam o posicionamento de Jesus em sua vida.
Pois de fato, o semeador superará o ceifeiro, na medida em que você
combina a chave do jejum com a chave da assimilação, a chave da oração em
línguas e a chave da adoração pessoal. Quando estas coisas estão em seu devido
lugar, elas operarão igualmente umas com as outras, fazendo com que você se
levante na graça e no posicionamento que está em Meu Filho.
Durante os dias do estabelecimento do fundamento, foi o Meu desejo
que por muitos anos isso acontecesse num ciclo, para então, voltar e
restabelecer a edificação para ter o cuidado de você não se distanciar muito do
fundamento, diz o Senhor. Mas, agora que o fundamento está ganhando força e
tudo está entrando nos eixos, Eu estou pronto para edificar dons de poder e
manifestações.
O suficiente dos aqui presentes entenderá a maneira com a qual Eu
estou movendo. Nem sempre Eu moverei nos cultos, mas trarei a luz para os
lugares escuros que não querem ir para onde a luz está. Oh, haverá uma unção de
evangelização que irá até onde o doente está para evangelizar. E haverá os que
irão aonde a dúvida está e aonde estão os sem
doutrinas e os destruídos pela razão.
Neste dia de libertação, Eu Me manifestarei poderosamente com
sinais e maravilhas. Então, você verdadeiramente saberá que estes sinais
acompanham aqueles que estão movendo em Mim na colheita.
Portanto, regozije-se e prepare-se para estas duas chaves: a chave
do jejum, com a qual você ganhará força na adoração. Na medida que você ganha
força, Eu o manterei através do dom de revelação de orar em línguas para
entender o mistério de tudo o que Cristo é em você, a esperança da glória.
Há alguns anos atrás, o mundo cristão ficou chocado e esmorecido
pela notícia de que evangelistas muitos conhecidos na televisão haviam
sucumbido à carne. Mesmo hoje, quando ouvimos histórias sobre ministros ou
irmãos que caem no pecado, nos perguntamos o porquê. Por que a carne é tão
forte? Existe algo que possamos fazer para controlá-la?
Sim, existe. É por isso que eu quero ensinar sobre uma das mais
poderosas e, provavelmente, uma das chaves, do poder de Deus, mais mal-entendidas
– O JEJUM!
Para entender porque o jejum é tão poderoso, precisamos entender
também porque a CARNE é tão poderosa. Quando o termo “carne” é usado na Palavra
de Deus, é definido na maioria das vezes como desejos carnais ou como o lado da
natureza da pessoa que quer se entregar às tentações do diabo.
Romanos 6:12 nos avisa sobre esta definição da carne:
Não reine, portanto, o
pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões.
Como pessoas de Fé, provavelmente, entendemos sobre a posição que
nosso espírito tem em Cristo Jesus. Entendemos que somos a justiça de Deus em
Cristo; estamos sentados em lugares celestiais em Cristo Jesus, e somos
completos Nele (2 Co 5:21; Ef. 2:6; Col. 2:10). Contudo, não temos entendido a
posição que nosso corpo carnal tem.
Veja, o plano de redenção que Deus está operando em nossas vidas,
eventualmente, resultará na nossa restauração total. Este plano está sendo
executado em duas partes. Primeiramente, quando recebemos Jesus, nosso espírito
humano nasceu de novo. Nós recebemos a vida eterna e estamos sentados em
lugares celestiais em Cristo Jesus, com respeito aos nossos direitos e
autoridade.
Em segundo lugar está a redenção de nossos corpos. Em um dia
destes, você e eu ouviremos o som da trombeta. Quando isso acontecer, nossos
corpos serão transformados de corruptíveis para incorruptíveis – como a Palavra
diz, “Em um momento, num abrir e fechar de olhos.”
Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas
transformados seremos todos, Num momento, num abrir e fechar de olhos, ao
ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão
incorruptíveis, e nós seremos transformados.
Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da
incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. 1
Co.15:5l-53
É na segunda fase que nosso corpo será restaurado. O problema é que
ainda estamos usando o corpo que nos foi dado por Adão. Contudo, enquanto
estamos esperando pelos nossos corpos ressuscitados, certa verdade posicionada
foi conferida ao velho corpo que estamos usando agora. Quando executamos essa
verdade posicionada, quebramos o jugo que nossa carne tem sobre nossas vidas e
nosso espírito.
Para entendermos porque o jejum é uma ferramenta tão poderosa,
precisamos primeiro entender o propósito que o jejum tem com respeito à nossa
carne. Romanos 8:10 diz, Se porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade,
está morto por causa do pecado, mas o espírito é vida, por causa da
justiça.
Note que o homem espiritual tem uma posição de “vida” declarada a
ele! Vivemos na vida de Deus por causa da nossa justiça e da nossa posição em
Cristo. A Palavra não diz que estamos “vivos”. Afinal, as pessoas no inferno
estão vivas! A Palavra diz “vida”, querendo dizer que o nosso espírito entrou
no tipo de “zoe” de Deus e agora está sentado em lugares celestiais com o tipo
de vida de Jesus Cristo!
Mas, no mesmo versículo, note a outra posição que nosso corpo tem:
MORTO POR CAUSA DO PECADO. Para quebrar o jugo de Satanás sobre a nossa carne
de maneira posicionada, Deus a declarou morta até que recebamos nossos corpos
ressurretos ao som da trombeta.
Quanto mais usarmos as armas de Deus para executar estas duas
posições que nossa carne e nosso espírito têm na redenção, mais poderosos e
cheios de fé seremos. É claro que orar no Espírito Santo (orar em línguas) edifica
o homem espiritual, executando a posição de vida que nosso espírito recebeu e
na qual ele foi declarado.
Mas o que o jejum faz? O jejum acentua a posição que a Bíblia
declara sobre nossa carne – que ela está morta. O jejum quebra o jugo que o
diabo tem sobre nossa fé, ajudando-nos a mortificar o que ele usa para
controlar nossa vida – como medos e tormentos, principalmente as tentações de
pecado.
Para ajudá-lo a entender esta verdade considere isto: Se uma pessoa
jejuar dois meses apenas com água, sua carne não o incomodaria mais. Ela NÃO
PODERIA incomodá-lo, pois seu corpo estaria morto e o seu espírito estaria no
Céu.
É claro que não vamos embarcar neste tipo drástico de jejum. No
entanto, quando alguém jejua por, até mesmo, três dias seguidos, o jejum tem o
mesmo efeito. Ele executa a morte da carne passo a passo, até que o jugo da
carne sobre nosso espírito é quebrado e nossa fé começa automaticamente a
crescer.
Veja, o jejum lida com o pior tipo de falta de fé. Estou falando
sobre aquele tipo sutil que impede uma pessoa de fazer mais para Deus, pois
coloca uma barreira invisível na vida daquela pessoa, a qual ela não sabe como
quebrar.
Você lembra o que Jesus disse aos Seus discípulos em Mateus
17:19,20 quando eles perguntaram porque não podiam expulsar o diabo daquele
menino lunático?
Então, os discípulos,
aproximando-se de Jesus, perguntaram em particular: Por que motivo não pudemos
nós expulsá-lo?
E ele lhes respondeu: POR
CAUSA DA PEQUENEZ DA VOSSA FÉ...
Veja, a falta de fé que Jesus está falando não é do tipo malicioso
da dos fariseus, aquela que faz com que uma religião esteja contra outra. Jesus
se referia ao tipo de falta de fé que impede uma pessoa de fazer mais para o
Reino de Deus – aquele tipo sutil de falta de fé que a pessoa nem sabe que
possui, até tentar fazer mais para Deus e não conseguir. Por qual outra razão
os discípulos teriam perguntado aquilo a Jesus? Certamente eles não
perguntariam se já soubessem a razão pela qual não conseguiram exorcizar aquele
demônio!
Mas, graças a Deus, Jesus não responderia àquela pergunta sem nos
dizer o que podemos fazer sobre este tipo de falta de fé: Mas esta casta não se
expele senão por meio de oração e jejum. (v.21)
Então, se a falta de fé foi a principal causa para impedir o demônio
de sair do menino, podemos concluir que o jejum não tem nada a ver com Deus.
Pelo contrário, o jejum tem TUDO a ver com a eliminação do tipo sutil de falta
de fé.
O jejum tem uma maneira de mortificar aquelas coisas que agem como
barreiras e nos impedem de receber de Deus. Ele tem uma maneira de lidar com o
verdadeiro problema – a nossa incapacidade de experimentar a vitória em certas
áreas de nossas vidas, por causa da falta de fé imposta pela carne.
Você já viu alguém encarando uma situação que parecia ficar cada
vez pior? Talvez esta pessoa parecesse estar crendo em Deus com tudo o que
tinha; no entanto, as circunstâncias continuaram ficando pior até que
finalmente esta pessoa olhou para você com lágrimas nos olhos e disse, “Eu não
consigo entender. Não sei porque não consigo receber”.
Sentimentos como a falta de esperança e o desespero podem
substituir o esforço mais nobre de fé de uma pessoa, à medida que ela tenta
mudar estas coisas no âmbito natural. Mas, graças a Deus, o jejum tem uma
maneira de mortificar esse tipo de sentimentos negativos! Por exemplo,
sentimentos de falta de esperança e desespero podem literalmente dominar uma
pessoa que vê alguém querido morrer com uma doença ou quem vê seu dinheiro ir
pelo ralo quando seus negócios estão ruins. Muitas vezes, uma pessoa nesta condição
não fala nada para os outros. Mas em seu íntimo ela pergunta, Por que, Deus? Eu
achava que estava crendo em Você sobre esta situação, mas estou perdido. Não
aconteceu.
O que eu estou falando aqui é sobre a mesma coisa que Jesus disse
em Mateus 17:21. O tipo de fé tão sutil que não sabemos ter até sermos
desafiados. E porque não sabemos que a temos, ficamos pasmados e abalados
quando aplicamos todas as fórmulas da fé e ainda assim não conseguimos fazer
com que algo aconteça! Ou então, vemos uma pessoa que está nas promessas de
Deus, confessando a Palavra, mas nada parece mudar em sua vida. Dizemos àquela
pessoa, “Continue firme” – mas a verdade é que não sabemos o que fazer ou o que
dizer.
O diabo tenta nos programar com medo, preocupação, tormento e falta
de fé, usando a carne como uma ferramenta. (Quando eu digo “carne”, estou
falando da parte em nós que pode ser tentada para pecar e desistir). A carne e
o diabo nos cansam até que, finalmente, o programa psicológico do diabo começa
a controlar nossas ações e passamos a planejar nossas vidas como se Deus não
estivesse envolvido. Este programa funciona como uma barreira no subconsciente
contra a fé, pois ela literalmente se exalta contra o conhecimento de Deus.
Suponha que este programa demoníaco aconteça quando uma crise se
levanta em sua vida ou quando um ministro prega uma mensagem excepcional de fé,
inspirando-o. Podemos tentar nos colocar contra o problema, ou tentar fazer
mais para Deus. Mas, descobriremos que um pequeno momento de inspiração não é
suficiente para competir com anos e anos de programação negativa.
Novamente, é aí onde o jejum entra, pois ele tem uma maneira de
mortificar a programação negativa que nos prende ao desânimo e derrota!
Por muito tempo em minha própria vida, eu sabia que o jejum
funcionava, mas não sabia como e porque ele funcionava. Naquela época eu
pensava que se tratava de um sacrifício pessoal para Deus – Eu queria agradá-lo
tanto que jejuava no Dia de Ação de Graças (dia de grande festa para nós
americanos), pois significava que eu estava desistindo mais de mim! Mesmo não
entendendo o que o jejum realmente fazia, era maravilhoso experimentar vitórias
e ver o poder de Deus repentinamente transformar uma situação impossível em
vitória.
Quando você jejua, você literalmente corta a carne em sua fonte de
suprimento, pois a comida é o apetite mais básico da carne. Quando você corta a
carne em sua fonte, algo maravilhoso acontece: Seu espírito finalmente pode
ficar sobre a barreira da carne – é nesse momento que as orações antigas
começam a ser respondidas! Não significa que você jejuou o suficiente para
mover Deus; Ele não é o que está parado. Você exerceu a posição que Deus
declarou sobre a sua carne: Ela está MORTA, não tem mais poder sobre você!
Isso é verdade, principalmente nas situações difíceis da vida,
quando parece que você está em um beco sem saída. Por exemplo, o jejum é uma
ferramenta muito poderosa se você já está no ministério e não experimentou um
aumento na unção para pregar e ministrar aos doentes.
Espero que este ensino venha encorajá-lo para considerar o jejum de
uma maneira diferente. Deixe-me lhe dizer uma outra coisa sobre este assunto:
Existem maneiras diferentes de jejuar, como jejum por um período longo (uma
semana ou mais), jejum periódico (fazendo um dia sim, outro não ou mais dias) e
um jejum parcial (apenas bebendo sucos ou eliminando algumas coisas do seu
hábito diário, como carne ou doces). Ao buscar Deus e Sua Palavra, você verá
que Ele o guiará em um jejum que, com a oração, o levarão a um andar mais
poderoso e mais próximo Dele.
Deus disse em II Co.10:4 que ...porque as armas da nossa milícia
não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas. Jejuar é
uma destas “armas da nossa milícia”. Eu insisto que você peça a Deus por Sua
direção ao usar esta chave vital para buscar um andar mais íntimo com o Pai.
Seu Amigo e colaborador
DAVE ROBERSON
))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))
JEJUM - Luciano Subirá –
O Cuidado Do Corpo – Sabedoria Bíblica Para O Bem-Estar Físico E Espiritual – Editora
Mundo Cristão
Copyright © 2024 por Luciano Subirá
Os textos bíblicos foram extraídos da Nova Almeida
Atualizada (NAA), da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo as seguintes
indicações: Almeida Revista e Corrigida (ARC) e Tradução Brasileira (TB), ambas
da Sociedade Bíblica do Brasil; Bíblia de Jerusalém (BJ), da Editora Paulus;
Nova Versão Internacional (NVI), da Bíblica, Inc.; Nova Versão Transformadora
(NVT), da Tyndale House Foundation; Versão Fácil de Ler (VFL), da Bible League
Internacional; e A Mensagem, de Eugene Peterson, da Editora Vida. Destaques em
textos bíblicos e citações em geral referem-se a grifos do autor. Todos os
direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610, de 19/02/1998.
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deste livro, por quaisquer meios (eletrônicos, mecânicos, fotográficos,
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S934c
Subirá, Luciano
O cuidado do corpo [recurso eletrônico] : sabedoria
bíblica para o bem-estar físico e espiritual / Luciano Subirá. - 1. ed. - São
Paulo : Mundo Cristão, 2024.
recurso digital Formato: e-pub
Requisitos do sistema: adobe digital editions
Modo de acesso: world wide web
ISBN 9978-65-5988-286-1 (recurso eletrônico)
1. Saúde - Aspectos religiosos - Cristianismo. 2. Corpo e
mente. 3. Vida espiritual Cristianismo. 4. Livros eletrônicos. I. Título.
23-87359 CDD: 248.4 CDU: 27-584:613.8
Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439
Edição
Daniel Faria
Revisão Raquel Carvalho Pudo
Produção, diagramação e e-book Felipe Marques
Colaboração Ana Luiza Ferreira, Raquel Xavier
Capa Jonatas Belan
Publicado no Brasil com todos os direitos reservados por:
Editora Mundo Cristão
Rua Antônio Carlos Tacconi, 69, São Paulo, SP, Brasil
CEP 04810-020 Telefone: (11) 2127-4147 www.mundocristao.com.br
Categoria: Inspiração
1a edição eletrônica: fevereiro de 2024
Quero honrar e registrar meu apreço e gratidão a duas
pessoas especiais que ganharam o coração de toda a minha família:
Minha nora Priscilla e meu genro Kalebe.
Vocês são mais do que cônjuges exemplares que
proporcionam realização a meus filhos. São exemplos de fé e compromisso com
Deus e sua Palavra. São servos apaixonados por seu Senhor e comprometidos com
seu Reino. Saber que meus netos serão criados por referenciais como vocês enche
meu coração de júbilo e gratidão. Amo vocês!
SUMÁRIO
Prefácio
Introdução
Renovação da mente
Espiritualidade exagerada
O céu pode esperar
A mordomia do corpo
Evite a sobrecarga
Alimentação
Restrições alimentares
Os saudáveis efeitos do jejum
Descanso
Exercício físico
Convicção e constância
Como desenvolver a constância
Sobre o autor
PREFÁCIO
Meu coração se alegra sempre que meu esposo lança um novo
livro porque, antes de propagar uma mensagem, ela nos toca primeiramente como
casa, família, igreja.
Testemunhar meu marido escrevendo e promovendo este
livro, em especial, me deixa muito orgulhosa; este ensino é fruto de uma
metanoia, isto é, uma mudança pessoal que ele vivenciou e que acabou inspirando
muitos outros a também buscá-la. Trata-se de uma transformação radical, tanto
de mentalidade como de estilo de vida, que me permitiu ter um cônjuge muito
mais saudável.
A transformação foi mais do que a grande perda de peso, a
nova disciplina de atividades físicas, o aprendizado de que o sono é valioso e
o cuidado com a nutrição. Foi, essencialmente, sobre o conceito de plantio e
colheita. Ou seja, a consciência de que nossas escolhas de hoje estão
totalmente associadas com a qualidade de vida que teremos amanhã.
Sei que a mudança de velhos hábitos é desafiadora e a
sustentação de um novo estilo de vida só pode ser mantida quando há uma mudança
de valores, de crenças. Essa, por sua vez, tem a compreensão das verdades
bíblicas como ponto de partida. Acho impressionante como a Bíblia, que gostamos
de denominar “o manual do fabricante”, nos ensina sobre tantas áreas distintas.
Confesso que fiquei impactada com o volume de verdades sobre o cuidado com o
corpo que foram apresentadas neste livro. Eu as recebi de antemão, acompanhando
e testemunhando de perto enquanto o Luciano adentrava a compreensão dessas
descobertas e não apenas as aplicava em sua própria vida, mas também, como lhe
é peculiar, transbordava o assunto em inúmeras conversas particulares. Ouvi meu
esposo falar mais dessas verdades nas conversas de mesa com familiares, amigos
e muitos irmãos em Cristo, do que em púlpitos.
Aliás, vale ressaltar que presenciei, repetidas vezes, os
pedidos que muita gente lhe fez ao longo dos últimos anos: “Você precisa pregar
e ensinar mais sobre o assunto” ou “Você deveria escrever um livro acerca
disso”. Também testemunhei sua determinação em não sair apregoando nada que ele
não estivesse, primeiro, vivendo intensamente. Agora, anos depois desse
processo de aprendizado, mudança de mente e dedicação para viver tais
princípios, finalmente fomos agraciados com esta obra. E afirmo que o Espírito
Santo também o instruiu acerca do tempo certo de promover esse ensino.
Creio que você, leitor, será abençoado, instruído e desafiado com estas verdades bíblicas e encorajado a cuidar melhor de seu corpo e de sua saúde. Boa leitura! KELLY SUBIRÁ
INTRODUÇÃO - Porque ninguém jamais odiou o seu próprio corpo. Ao contrário, o alimenta e cuida dele, como também Cristo faz com a igreja. EFÉSIOS 5.29
As palavras acima, extraídas da carta do apóstolo Paulo à
igreja de Éfeso, apontam para uma verdade básica: nosso corpo precisa de
alimentação e cuidado. O verbo grego traduzido por “cuida” é thalpó, cujo
significado é “aquecer, manter quente“, ou, em sentido metafórico, “cuidar com
amor terno”.1 As Escrituras, portanto, não se referem apenas à nutrição, mas a
um cuidado tal que se compara ao modo como Cristo cuida de seu próprio corpo, a
Igreja.
Cuidar do corpo é um exercício de amor-próprio, mas não
se trata necessariamente de um ato egoísta. Antes, é um comportamento sábio
que, além de garantir melhor qualidade de vida, também nos permite servir
melhor a Deus e às pessoas. E o fato é que a Bíblia aborda o assunto com mais
frequência do que imaginamos. É imperativo buscar uma dimensão de entendimento
bíblico mais clara e profunda acerca do tema, se desejamos corresponder nossa
vida com a vontade de Deus e obedecer a seus princípios. Foi em resposta a essa
necessidade que este livro nasceu.
Durante muitos anos, em conversas com pessoas próximas,
repeti uma declaração: “Vivi uma vida sem arrependimentos”. O objetivo de minha
fala nunca foi contrariar o arrependimento de pecados. Afinal, é lógico que
cometo erros e preciso de um coração que se permite quebrantar. O sentido era
outro: falar de escolhas que fiz ao longo da vida, desde muito pequeno.
Nasci num lar cristão; fui instruído na Palavra de Deus e
no temor do Senhor. Curvei-me ao senhorio de Cristo bem cedo. Antes mesmo de
entrar na pré-adolescência, fui batizado nas águas e recebi uma chamada divina
ao ministério. Aos 15 anos, fui cheio do Espírito Santo, e minha vida seguiu
profundamente marcada pelo Senhor. Escolhi andar em integridade diante de Deus
e dos homens, conforme me havia sido ensinado, e assim perseverei.
Em 1995, casei-me com a melhor esposa que poderia ter —
acredito nisso tanto da perspectiva da união de propósitos como da
compatibilidade relacional, o que inclui nossas diferenças. Kelly e eu geramos
e criamos dois filhos preciosos que também amam, temem e servem ao Senhor.
Hoje, já casados, vivendo o modelo bíblico da família, continuam a alegrar-nos
com suas próprias escolhas em Deus. Soma-se a tudo isso a fase que estamos
vivendo agora, enquanto escrevo estas páginas: a de desfrutar dos netos (só quem
já é avô entende esse tipo de orgulho e alegria).
Além disso, tenho feito muitas amizades e mantido ótimos
relacionamentos ao longo da vida. Cada doação, entrega e sacrifício feitos a
Deus, a seu reino, à família, aos amigos e até a desconhecidos ainda me enche
de satisfação.
Não tenho nada do que me arrepender quanto a todas essas
escolhas e experiências; muito pelo contrário, a gratidão que carrego no íntimo
é imensa. Nunca tive de lidar com nenhum assunto considerado de “grande
proporção”, que me fizesse querer voltar no tempo para remediar. Foi sob esse
prisma, portanto, que afirmei repetidas vezes: “Não carrego arrependimentos”.
Porém, essa percepção mudou nos últimos anos. Atualmente,
há algo de que posso dizer que me arrependo. E muito. Se possível fosse,
entraria em uma máquina do tempo para voltar atrás e fazer tudo diferente.
Refiro-me a ter vivido tantos anos sem entender a mentalidade bíblica sobre o
cuidado do corpo.
No momento em que escrevo este livro, já contabilizei uma
diminuição de peso de, aproximadamente, 65 quilos em quinze anos. Já cheguei a
pesar, no auge da obesidade, 153 quilos. Não fui obeso a vida toda. Meus pais
também não foram, nem meus irmãos. Sendo assim, não posso alegar — ou usar como
desculpa — que meu problema foi causado por propensão genética, tampouco por
uma cultura alimentar errada. O fato é que, em algum momento, deixei que a vida
tomasse o rumo errado nessa área. Obviamente, não acontece da noite para o dia;
esse é o tipo de erro que podemos classificar como um processo. Ou seja,
trata-se de uma sucessão de conceitos e escolhas erradas que mostram suas
consequências no longo prazo.
Hoje, reconheço que não falhei apenas na alimentação (o
que, quando e quanto deveria comer), mas também no cuidado com o corpo de forma
mais abrangente. Negligenciei outras questões importantes, como não dar o
devido valor ao sono e à prática de exercícios físicos. Todas essas
negligências exerceram, é claro, impacto negativo sobre minha saúde.
Graças a Deus, acordei a tempo e peguei o caminho de
volta. Mediante o entendimento das verdades da Palavra de Deus sobre o assunto,
reformulei minha forma de pensar, ajustei meus valores e mudei de hábitos.
De igual modo, espero ajudar o máximo de pessoas a
trilhar o mesmo caminho. Afinal, não fui o primeiro nem serei o último a ter de
lidar com essa questão. São muitos os que negligenciam o cuidado com o corpo;
alguns por ignorância, outros por deliberada negligência.
Vale ressaltar que não me aprofundarei em questões
médicas, porque não tenho conhecimento técnico nem capacitação para tal, embora
tenha me proposto citar comentários de especialistas da área. Este livro
tampouco é um manual de dietas. Minha intenção não é substituir, nem muito
menos desestimular a busca por acompanhamento especializado, e sim o oposto
disso. E, para os que querem implementar a prática de exercícios físicos,
recomendo que o façam sob orientação dos profissionais da área.
Por fim, friso o propósito deste ensino: levar aqueles
que creem na Bíblia — o “manual do fabricante” cujo autor é o Criador de todas
as coisas — a entenderem as leis que regem tanto o mundo espiritual quanto o
natural. Entendendo-as, creio que haverá um impulso à responsabilização com o
cuidado do corpo. Assim, meu desejo e oração é que Deus use as verdades
contidas nestas páginas, direcionando muitos leitores não só a uma nova
mentalidade, mas a um novo estilo de vida.
1 Bible Hub, verbete thalpó, G2282, <h ps://biblehub.com/greek/2282.htm>.1
RENOVAÇÃO DA MENTE
E não vivam conforme os padrões deste mundo, mas deixem
que
Deus os transforme pela renovação da mente, para que
possam experimentar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
ROMANOS 12.2
Nesse clássico trecho bíblico, Paulo aborda a
transformação progressiva do cristão, ou seja, a santificação, que é a
continuidade do processo de mudança iniciado no momento da conversão. Para a
eficácia do processo, o apóstolo ressalta a necessidade de um elemento-chave: a
mudança de mentalidade.
A razão me parece óbvia: depois de anos de determinadas
condutas, que se repetem como que guiadas por um piloto automático, escrever
uma nova história requer, em primeiro lugar, uma reprogramação da mente. Nossas
práticas são extensão ou consequência de nossos valores, quer tenhamos
consciência disso quer não. Ninguém viverá de modo diferente daquilo que, por
muito tempo, foi seu padrão de vida, a menos que haja uma reforma de conceitos.
Penso ser essa a razão pela qual muitos afirmam que quanto mais velhos somos
mais dificilmente mudamos nossos hábitos.
Vale destacar, ainda, que mudanças costumam ser
precedidas por um episódio que gera choque. O impacto funciona como um gatilho
que dispara uma medida de receptividade à mudança na mente e, consequentemente,
também pode conduzir a uma alteração no comportamento. Ao fim, a mudança pode
ser tanto para melhor como para pior, dependendo de como cada pessoa reage ao evento
gatilho.
Pois bem, o conteúdo que compartilho neste livro teve um
ponto de partida em minha história. Tudo começou com um problema e o choque da
constatação não só de sua existência, mas também de sua gravidade. O
entendimento despertado pelo choque, então, desenvolveu-se mediante um
posicionamento, que envolveu busca por conhecimento e cultivo deliberado,
embora não imediato, de uma mudança de mentalidade.
Vivi, nas últimas décadas, um longo processo: de enorme
ganho de peso ao emagrecimento. Entre um extremo e outro, obviamente, houve
fases de oscilação. O que quero compartilhar, no entanto, não é apenas o drama
dos resultados aferidos na balança, e sim uma incrível descoberta dos valores
bíblicos referentes ao cuidado do corpo — o que é mais abrangente do que tão
somente a questão do peso.
Como já dito na introdução, esta é uma obra de ensino bíblico, e não a promoção de algum tipo de dieta. Contarei nestas páginas as correções e o aprendizado que Deus acrescentou à minha vida por meio de sua Palavra, seu Espírito Santo e pessoas usadas por ele. Aqui se encontram lições que me sinto encarregado de compartilhar com aqueles que, como eu, creem nas Sagradas Escrituras como única regra de fé e prática. Este livro, portanto, é escrito por um cristão cujas mais profundas convicções são oriundas da Bíblia e que se destina a outros cristãos que compartilham do mesmo código de crença. Dito isso, é hora de prosseguir.
O problema
Ao longo da década de 1990, meu ganho de peso foi lento e
gradual, progredindo ano após ano. Contudo, entre 2005 e 2007, atingi o
“recorde” do excesso de peso: 153 quilos. Inevitavelmente, deparei com as
consequências da negligência com a saúde: hipertensão arterial chegou primeiro
e, depois de um tempo, diabetes. Assustei-me com a combinação das duas ameaças
e, em algum momento depois de já estar pagando essa alta conta, mudei
radicalmente minha alimentação. Em menos de um ano, perdi quase trinta quilos;
tanto a pressão arterial como o nível de açúcar no sangue praticamente
normalizaram. Com isso, veio uma sensação de alívio, e aquele susto, causado
pela constatação daquelas ameaças à saúde, foi embora. O resultado foi que
nunca mais retornei à condição anterior; não prossegui, entretanto, perdendo
peso como deveria.
Os anos se passaram e, em junho de 2014, tive uma
conversa interessante com o dr. Aldrin Marshall, em seu consultório (na época,
em Belo Horizonte). Eu me orgulhava de ter perdido tanto peso, embora fizesse
vista grossa ao fato de que ainda houvesse quase a mesma quantidade de quilos
por eliminar. Sentia-me confortável por já ter experimentado alguma melhora. O
susto inicial havia passado e o temor das consequências da obesidade diminuído,
de modo que a intensidade com que lidara anteriormente com o assunto se
arrefeceu.
Não fui até o dr. Aldrin para uma consulta; apenas estava
na cidade, pregando na igreja dele, então, por indicação de amigos, fui ao
consultório no intuito de conhecê-lo. O dr. Aldrin se mostrou preocupado com
minha saúde e enfatizou a necessidade de mudança de mentalidade e conduta, caso
eu realmente quisesse viver para cumprir todo o propósito de Deus para minha
vida. Aproveitei para contar como já vinha emagrecendo e mudando hábitos, ou
seja, como já me cuidava mais e melhor. Tentei deixar claro que havia sido
tocado pela necessidade de mudar. Naquele momento da conversa, ele aproveitou
para dizer:
— Pastor, eu também ministro a Palavra de Deus; não tanto
quanto você, que faz isso quase todo dia, mas sou um pregador. Uma das coisas
mais frustrantes para mim, como quem proclama a Palavra de Deus, é ver alguém
sair de seu lugar, ir à frente na hora do apelo, chorar e dizer a si mesmo que
mudará de vida, mas, depois de um tempo, esquecer-se completamente daquele
toque inicial que havia recebido.
Então, emendou uma pergunta:
— Você também sente isso?
— Claro que sim — concordei, embora incerto do rumo
daquela conversa.
Ele prosseguiu:
— Mas você concorda comigo que, se essa pessoa lesse mais
a Bíblia para manter acesa a consciência uma vez despertada, seria bem mais
fácil preservar aquilo que ela recebeu na hora em que estava ouvindo a
pregação?
Novamente, admiti que concordava com ele. Por fim, ele
disparou:
— É assim que me sinto agora, do lado de cá da mesa.
Estou vendo você todo “tocado” com nossa conversa, mas já imaginando que, daqui
uns dias, essa sua consciência terá ido embora.
Foi um choque. Entendi sua frustração a partir de minha
própria perspectiva de pregador. Além disso, enxerguei a forma leviana com que
vinha tratando o assunto da saúde. Sim, foi mesmo um choque.
O dr. Aldrin finalizou com outra analogia:
— Eu sugeriria que você, a partir de hoje, lesse mais a
minha Bíblia.
— Como assim, a sua Bíblia? — perguntei.
— Refiro-me às informações da medicina a respeito do
funcionamento fisiológico do corpo e das medidas de cuidado que necessitam ser
tomadas. Refiro-me, também, à importância da boa alimentação, do sono de
qualidade e da prática de exercícios físicos. Tudo isso ajudará você não
somente a compreender o que digo, mas também será útil no sentido de mantê-lo
mais consciente de sua responsabilidade de cuidar da saúde. Sem contar que você
também enxergará um caminho prático para viver tudo isso.
Como sempre fui muito curioso, decidi, após aquela
conversa, entender melhor o funcionamento do corpo e seu devido cuidado. Antes,
contudo, decidi que estudaria o assunto à luz das Sagradas Escrituras. Posso
dizer que, desde então, tem sido de grande valia entender melhor não apenas
questões fisiológicas, mas, principalmente, a revelação bíblica de verdades que
antes eu ignorava.
Meu desejo é ajudar muitos a alcançarem essa compreensão bíblica mais profunda sobre saúde, a qual me dediquei a buscar, pois sei — e constatei na prática — que sem mudança de mentalidade jamais haverá mudança de comportamento. Trata-se do ponto de partida para a transformação.
Mudança de mentalidade
Embora a proposta desta obra seja, como já afirmado,
oferecer ensino e orientação bíblica, não tenho como fazê-lo sem contar minha
própria história. Fatos que têm relação com o tema abordado — e envolvem erros
e acertos — precisam ser contados, ainda que de forma resumida. Em vários
momentos, compartilharei episódios que entendo terem sido importantes como pano
de fundo de minhas descobertas; creio que ajudarão na comunicação dos valores
bíblicos implícitos.
Por muitos anos, eu estive acima, muito acima, do peso
ideal, o que exigiu uma transformação de grandes proporções. No entanto, ela
não se deu só do lado de fora; começou interiormente, com a assimilação de
novos valores. A manifestação externa foi uma espécie de efeito colateral.
Anos atrás, ouvi alguém afirmar que não se muda uma
estrutura sem antes mudar seus valores. Em uma igreja, por exemplo, qualquer
transição de uma estrutura de ministério para outra requer que se trabalhe,
primeiro, na mudança de valores, de mentalidade. Tratamos isso como
fundamental. Em nossa estrutura de vida, as mudanças se dão da mesma forma.
Portanto, toda mudança comportamental inicia com a mudança de mentalidade.
Voltemos ao início do capítulo, à exortação de Paulo. As
Escrituras nos mostram que o próprio Deus, que anseia conduzir-nos à
transformação, instituiu o princípio da mudança de mentalidade:
Portanto, irmãos, pelas misericórdias de Deus, peço que
ofereçam o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Este é o
culto racional de vocês. E não vivam conforme os padrões deste mundo, mas
deixem que Deus os transforme pela renovação da mente, para que possam
experimentar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Romanos 12.1-2
Tanto o corpo quanto a maneira de pensar são citados pelo
apóstolo como ingredientes necessários à mudança que deve ocorrer em nossa
vida. O Altíssimo não trabalha sozinho. Em sua soberania, o Criador decidiu que
agiria com a interação humana. Renovar a mente é um dos mais importantes
fatores para que ocorra qualquer tipo de mudança, e faz parte do que podemos
efetuar para interagir com ele na busca por transformação. A Versão Fácil de
Ler apresenta assim a declaração de Paulo: “Não sejam mais moldados por este
mundo mas, pela nova maneira de vocês pensarem, vivam uma vida diferente”.
Precisamos de uma dimensão mais profunda de
conscientização das verdades bíblicas. O apóstolo enfatizou aos crentes de
Éfeso: “vocês foram instruídos a […] se deixar renovar no espírito do
entendimento” (Ef 4.22-23). O contexto dessa afirmação é a mudança de
comportamento.
A ignorância escraviza. Deus afirmou, por meio do profeta
Oseias: “O meu povo está sendo destruído, pois lhe falta o conhecimento” (Os
4.6). Em contrapartida, sabemos que o conhecimento é libertador; Cristo
declarou: “conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.32).
Obviamente, o foco dessas afirmações é o entendimento da verdade espiritual,
revelada na Palavra de Deus. Portanto, mais do que abordar a importância do
conhecimento científico, quero dar ênfase ao ensino bíblico sobre saúde e cuidado
do corpo.
Foi precisamente o que aconteceu comigo: nova visão e
mentalidade foram geradas em virtude de uma nova percepção dos princípios
bíblicos. O apóstolo Paulo declarou: “para que, com o encorajamento que
recebemos de Deus, possamos encorajar outros” (2Co 1.4, NVT). Sinto-me na
responsabilidade de ajudar outros como eu mesmo fui ajudado ao descobrir e
compreender essas verdades das Escrituras.
No entanto, é importante registrar que não mudei minha
mentalidade e meu comportamento de forma instantânea. O processo foi gradual. À
medida que fortalecia a convicção dos valores da Palavra de Deus, as mudanças
foram, pouco a pouco, encontrando seu lugar. Também retrocedi algumas vezes,
seja na questão do peso seja em outros aspectos do cuidado do corpo, como
alimentação correta, descanso e atividade física, por não fortalecer
devidamente essa consciência (e preparei um capítulo inteiro para abordar apenas
esse ponto).
Por ora, vale dizer que o que tratamos neste livro merece
atenção especial. Mais do que uma leitura rápida, o assunto demanda meditação.
Sugiro que você reserve um tempo para orar sobre o que está lendo e, ainda,
discuta o assunto com outras pessoas. Uma reflexão mais profunda requer tempo e
retorno repetido às mesmas verdades.
Aliás, a repetição é parte de qualquer processo didático
e de treinamento. Não importa se falamos de educar os filhos, de capacitar um
profissional ou do processo de instrução espiritual apresentado nas Escrituras,
a repetição sempre está lá. Penso que foi justamente por isso que Paulo afirmou
aos crentes de Filipos: “Escrever de novo as mesmas coisas não é um problema
para mim e é segurança para vocês” (Fp 3.1). Um pouco adiante, no mesmo
capítulo, o apóstolo reconheceu que “repetidas vezes eu lhes dizia e agora
digo…” (Fp 3.18). A repetição estava tanto no passado quanto no presente; ou
seja, ela seguia sendo aplicada.
Provavelmente, essa deve ser a mesma razão que levou o
escritor de Hebreus a asseverar: “importa que nos apeguemos, com mais firmeza,
às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos” (Hb 2.1). Verdades
não são ditas apenas para que sejam conhecidas, no sentido de meramente
absorver informação, mas, também, para que gerem convicção e firmeza de mente.
É só assim que o comportamento é impactado.
Meu ponto aqui é: tudo começa com mudança de mentalidade, mas mudança de mentalidade não começa sozinha nem se sustenta sem um esforço intencional. Se precisamos dela, temos de fazer algo a respeito. Minha proposta é que esse “algo a respeito” seja sua disposição de ler, meditar, orar e compartilhar sobre a verdade bíblica que já comecei a expor aqui e pretendo aprofundar capítulo a capítulo, até que seja gerada uma firme convicção em seu interior. Isso transbordará, virá para fora, mudando comportamentos e gerando novos e bons hábitos. A diferença é que, por ter sido construído sobre uma base firme, não desmoronará com facilidade nem cederá às pressões do tempo.
Para onde estamos indo?
A probabilidade de muitos terem uma saúde debilitada num
futuro próximo é assustadora. A pesquisa Vigitel 2021, realizada pelo
Ministério da Saúde, constatou que quase seis em cada dez brasileiros (57,25%)
estavam com sobrepeso naquele ano. Em 2019, antes da pandemia, a taxa era
menor, de 55,4%. A condição era maior entre homens (59,9%) do que entre
mulheres (55%). Já na distribuição por faixas etárias, o problema era mais
incidente nas faixas de 45 a 54 (64,4%), 55 a 64 (64%) e 35 a 44 (62,4%).1
Os dados são assustadores. E pior: crescem ano após ano.
Ainda assim, a maioria da população não se dá conta do perigo iminente, e nós,
cristãos, além de abraçarmos a mesma negligência, ainda “espiritualizamos” o
assunto e nossas desculpas. Ignoramos as advertências divinas e, ao mesmo
tempo, transferimos para o Criador a responsabilidade de abençoar-nos com
saúde, vivendo contraditoriamente em deliberada negligência do cuidado do
corpo.
Que o Senhor nos ajude a entender e enxergar essas verdades de modo a cuidar melhor de nós mesmos. Dessa maneira, poderemos honrá-lo em tudo, inclusive na maneira como nos alimentamos. Como disse o apóstolo Paulo: “Portanto, se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Será que a forma como nos alimentamos tem glorificado nosso Criador e Senhor?
Guardar é princípio
Uma advertência digna de nota é a que nosso Senhor fez à
igreja de
Filadélfia: “Venho sem demora. Guarda bem o que tens,
para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3.11, TB). Nossa responsabilidade como
guardiões daquilo que temos recebido de Deus é claramente enfatizada nesse
texto.
A palavra traduzida por “guarda bem” na Tradução
Brasileira também é vertida como “conserva”, na Nova Almeida Atualizada, e
“retenha”, na Nova Versão Internacional. No grego, o termo usado é krateó e
significa “ter poder, apoderar-se, controlar, reter”.2 Ou seja, além da ideia
de segurar, manter sob controle, sem risco de perda, ainda há o conceito de
governo relacionado ao assunto.
Entretanto, governar bem nossa vida e guardar o que temos
não são ordenanças que se limitam somente a dádivas espirituais. Nossa saúde
também deve ser guardada e, como veremos, é nossa responsabilidade, não de
Deus!
A maneira como terminaremos nossos dias neste mundo — e a
duração de nossa vida — está estreitamente ligada às escolhas que fazemos. Um
comentário que Jacó faz, no fim de sua vida, chama a atenção:
José levou Jacó, seu pai, e o apresentou a Faraó; e Jacó
abençoou Faraó. Então Faraó perguntou a Jacó:
— Quantos anos o senhor já tem?
Jacó lhe respondeu:
— São cento e trinta anos de peregrinação. Foram poucos e
maus os anos de minha vida e não chegam aos anos de vida de meus pais, nos dias
das suas peregrinações.
Gênesis 47.7-9
Ao mencionar sua idade e observar que vivera bem menos
que seus pais, o patriarca classificou seus anos como “poucos e maus”.
Questiono-me o quanto o estilo de vida de Jacó, diferentemente do de Abraão e
Isaque, pode ter afetado sua saúde e, consequentemente, seu tempo de vida.
Referindo-se aos vinte anos em que trabalhou com Labão, ele reconheceu: “De
maneira que eu andava, de dia consumido pelo calor, de noite, pela geada; e o
meu sono me fugia dos olhos” (Gn 31.40).
Devemos nos questionar: estamos guardando ou
desperdiçando a saúde que nos foi concedida? Guardar o que recebemos é
princípio bíblico. Paulo, escrevendo a Timóteo, exortou: “guarde o que lhe foi
confiado” (1Tm 6.20). Dirigindo-se aos filipenses, o apóstolo enfatiza que eles
estavam “preservando a palavra da vida” (Fp 2.16). Cristo advertiu a igreja de
Sardes: “Lembre-se, pois, do que você recebeu e ouviu; guarde-o” (Ap 3.3). Se é
necessário guardar as dádivas espirituais, por que concluiríamos ser diferente
com a dádiva divina da saúde?
Recentemente, um pastor amigo, Humberto Albuquerque, de
Recife, comentou que foi assim abordado por alguém que percebeu sua dedicação
ao cuidado da saúde: “Você está se cuidando por quê? Está com medo de morrer?”.
Amei a resposta que ele me confidenciou ter dado: “Não, de forma alguma. Não
tenho nenhum medo de morrer, só não quero ser o responsável por isso”.
Convido-o, portanto, a abrir o coração para essa jornada
de aprendizado e autoavaliação. Deixe que a Palavra de Deus e o Espírito Santo
mudem sua mente e a despertem para a responsabilidade de cuidar do corpo e da
saúde. Afinal, ele tem propósitos para o seu tempo de vida neste mundo, e estar
saudável para executá-los demanda que você faça o que estiver ao seu alcance.
Jonas Valente, “Mais da metade dos brasileiros estava com
sobrepeso em 2021”, Agência Brasil, 8 de abril de 2022, <h
ps://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2022-04/mais-dametade-dos-brasileiros-estava-com-sobrepeso-em-2021>.
Bible Hub, verbete krateó, G2902, <h ps://biblehub.com/greek/2902.htm>.2
ESPIRITUALIDADE EXAGERADA
E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites,
teve fome.
MATEUS 4.2
Em 2007, quando eu já havia atingido o auge de meu peso,
uma amiga de nossa família, Roselen Faccio, que iniciou e lidera o Ministério
Sabaoth, com base em Milão e com dezenas de igrejas espalhadas pela Itália e
outros países, fez-nos uma visita em Curitiba. Outra irmã, uma médica,
acompanhava-a na ocasião. Tão logo entrou em minha casa, a expressão de susto
ao reparar meu tamanho não pôde ser disfarçada. Ela foi direto ao assunto:
— Pastor, perdoe-me… Você sabe que eu sou médica, e não
posso deixar de externar minha preocupação com o fato de que você está cada vez
mais pesado. Por isso, preciso perguntar: você fez algum check-up médico
recentemente?
— Sim, fiz um há uns dois meses — respondi. — Quais foram
os resultados? — indagou ela.
— Excelentes! Está tudo bem…
Diante de sua cara de descrença, pedi que minha esposa
buscasse os exames, o que ela dispensou, dizendo não ser necessário. Depois de
questionar se o check-up havia sido conduzido por um cardiologista e se as
taxas de colesterol, triglicerídeo, glicose e pressão sanguínea estavam mesmo
em ordem, eu garanti que sim, enfatizando:
— Está tudo perfeito.
— E o que seu médico lhe disse? — ela indagou.
Eu, todo orgulhoso, respondi:
— Ele jogou meus exames na mesa, visivelmente aborrecido,
e disse que eu tinha mais sorte do que juízo. Que achava surpreendente que
alguém com mais de 150 quilos estivesse com resultados tão bons.
Naquele momento, com toda a franqueza, ela replicou:
— Pastor, perdoe-me por discordar da fala desse médico.
Você não está tendo sorte. Só está ganhando tempo! É que você ainda é novo — eu
estava com 34 anos na época — e ainda não deu tempo de as consequências de seu
descuido se manifestarem.
Ela arrematou a conversa com uma frase que aguilhoou
minha consciência pelos anos seguintes:
— O corpo é como um cartão de crédito. Primeiro você o
usa, e depois chega a fatura, cobrando aquilo que você gastou. Por enquanto,
você só está gastando, e muito. Mas eu garanto que, daqui a pouco, a fatura
chegará, e chegará bem alta!
Ainda tentei lutar contra aquilo, resmungando em meu
íntimo: “Que nada! Eu sou um homem de Deus!”, como se exercer fé fosse uma
forma de anular leis criadas pelo próprio Deus para serem respeitadas e
obedecidas na dimensão natural. Eu, naquela época, achava que podia ser
irresponsável e, depois, pela fé, abortar a colheita de minha semeadura de
negligência quanto ao cuidado do corpo. Como podemos ser tão insensatos e ainda
espiritualizar nossos erros? Cerca de dois anos depois daquela conversa, a tal
da “fatura” chegou. E ela veio mais rápido do que eu esperava. Como já afirmei,
primeiro chegou a conta da pressão alta e, pouco depois, a fatura do diabetes.
Fiquei chocado! Descobri que, mesmo sendo um homem de Deus, eu era vulnerável
às consequências de minhas escolhas. Percebi tardiamente — ainda que não tarde
demais — que meu corpo sofreria os resultados das leis naturais sob as quais
fora criado para viver, e portanto não era certo tratar o assunto com uma
espiritualidade exagerada.
Com o choque daquela constatação, resolvi ouvir os
conselhos médicos e mudar a maneira de me alimentar. Cortei a ingestão de
açúcar, diminuí drasticamente o consumo de trigo refinado (o que incluía pães e
massas), passei a dar preferência a legumes e saladas e, em cerca de um ano,
perdi quase trinta quilos.
Embora não fosse todo o peso que eu deveria eliminar, foi
o suficiente para normalizar a pressão e o açúcar no sangue. Perdi peso e
melhorei a saúde. A parte ruim eu já contei: acomodei-me por cerca de quatro
anos àquele novo peso, até que outras circunstâncias voltassem a chacoalhar
tudo.
Antes de seguir com essa história, é necessário enfatizar os danos que o engano da espiritualidade exagerada tem trazido a muitos, como trouxe a mim. Nós já aprendemos o caminho: temos de expor a mente à verdade da Palavra de Deus para, assim, ser possível reprogramá-la. Vamos ao que a Bíblia diz a esse respeito.
O ser completo
A constituição plena do ser humano envolve partes
distintas. Observe o que Paulo escreveu aos tessalonicenses:
O mesmo Deus da paz os santifique em tudo. E que o
espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados íntegros e
irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.
1Tessalonicenses 5.23
A palavra grega que Paulo usou nesse versículo, traduzida
por “em tudo”, é holotelés, que significa “perfeito, completo em todos os
aspectos”.1 O conceito é de uma santificação completa, o que se confirma em
outras traduções: “os santifique inteiramente” (NVI) ou “os torne santos em
todos os aspectos” (NVT).
O que compõe o ser humano inteiro? Quais são as partes do
todo? O apóstolo declarou que o ser humano completo é composto por espírito,
alma e corpo — isto é, temos aqui o que na teologia é classificado como
tricotomia, a divisão tríplice de nosso ser integral. Por conseguinte,
entende-se do recado aos tessalonicenses que a santificação total abrange as
três partes que integram o ser humano.
Em outra epístola, Paulo elucida um pouco mais o assunto
ao separar a impureza da carne e a do espírito (sem mencionar a alma, o que
abordaremos a seguir). Ele enfatiza que deve existir um trabalho de purificação
tanto de uma quanto de outra parte, ou seja, não se trata de santificação por
atacado. A isso Paulo chamou de aperfeiçoamento da santidade:
Portanto, meus amados, tendo tais promessas,
purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito,
aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus.
2Coríntios 7.1
Se o processo de aperfeiçoar a santidade implica lidar
com impurezas em partes distintas até que sejamos santificados holotelés
(completamente), é imprescindível enxergar e compreender a tripartição humana e
suas particularidades.
E isso pode ser visto nos detalhes que a Bíblia apresenta
quando descreve a criação do homem:
Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe
soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente.
Gênesis 2.7, ARA
O relato bíblico da criação revela a partição do ser
humano. Deus fez um boneco de barro (aqui se originou o corpo), soprou nele o
fôlego de vida (aqui se originou o espírito) e então, da combinação destes,
resultou aquilo que define o homem (aqui se originou a alma vivente).
Desde o início de todas as coisas, já vemos essa
constituição tripla. Há aqueles que defendem a dicotomia (segundo a qual os
termos “alma” e “espírito” são usados de forma intercambiável para definir a
mesma parte), contudo quero mostrar, com base nas Escrituras, a verdade da
tricotomia humana.
Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o
nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de
dia em dia.
2Coríntios 4.16, ARA
Nesse trecho da carta aos coríntios, Paulo destaca
somente duas partes: o homem interior e o homem exterior. No entanto, a
aparente dicotomia se dissolve quando olhamos para outras informações
complementares da Palavra de Deus, que nos mostram uma subdivisão do homem
interior em espírito e alma. Ou seja, temos, sim, homem exterior e interior,
mas não apenas isso, porque o lado de dentro também é apresentado como sendo de
constituição dupla. Observe outros versículos:
Com minha alma suspiro de noite por ti e, com o meu espírito dentro de mim, eu te busco ansiosamente.Isaías 26.9
Então Maria disse: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador”.Lucas 1.46-47
Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para julgar os pensamentos e propósitos do coração.Hebreus 4.12
O trecho de Hebreus, em especial, ilustra bem a
separação. Juntas e medulas estão próximas, mas são distintas. O mesmo conceito
é verdadeiro quanto a espírito e alma: estão juntos, mas são diferentes um do
outro e, ainda, podem ser separados.
Essa subdivisão do homem interior também é constatada na
tipologia do tabernáculo de Moisés. Considerado o lugar da habitação de Deus,
ele possuía duas partes visíveis: a coberta (a tenda da congregação) e a
descoberta (átrio exterior). Contudo, seria equivocado chamá-lo de bipartido,
visto que a tenda da congregação, por sua vez, era composta por dois ambientes:
o lugar santo e o santo dos santos (ou lugar santíssimo), separados apenas por
um véu. Hoje, o homem é chamado nas Escrituras de “morada de Deus” (Ef 2.22) e
“santuário de Deus” (1Co 3.16), pois o Espírito Santo nele habita. O ser humano
é o atual tabernáculo do Senhor. Assim como o interior do tabernáculo de
Moisés, o interior do tabernáculo humano também é subdividido em duas partes:
espírito e alma.
Em suma, o que as Escrituras ensinam é que somos homem exterior (corpo) e homem interior (alma e espírito). Em ordem de relevância: espírito, alma e corpo. Somos tripartidos, divididos em três partes distintas, e a obra santificadora também difere em cada uma delas, pois são partes distintas que requerem atenção e cuidados distintos.
Espiritual versus natural
Nosso entendimento sobre o homem integral (espírito, alma
e corpo) inevitavelmente afetará nossa maneira de lidar com aspectos práticos
da vida cristã. Durante muito tempo, questões que muitos cristãos não
consideravam espirituais eram classificadas como sem valor. No entanto, o homem
não é somente um ser espiritual; ele também é constituído de alma e corpo, e
nessas duas dimensões há necessidades que não serão supridas apenas pelo que é
espiritual.
Por exemplo, Adão, o primeiro homem, quando estava no
Éden, antes da queda, encontrava-se em perfeita comunhão com Deus, que o
visitava diariamente. Ele não tinha nenhuma necessidade espiritual não suprida.
Contudo, as Sagradas Escrituras nos mostram que o próprio Criador reconheceu
que o homem estava solitário, de modo que decidiu criar-lhe uma companhia, uma
esposa (Gn 2.18). A verdade, assentida pelo próprio Deus, é que havia no ser
humano uma solidão que não poderia ser preenchida por aquilo que é espiritual;
o que o homem apresentava era uma necessidade distinta, na esfera emocional.
Semelhantemente, encontramos na Palavra outra questão que
envolve o corpo, e não somente o espírito e a alma. O Senhor ordenou ao homem
que se alimentasse das árvores do jardim do Éden, com exceção das árvores da
vida e do conhecimento do bem e do mal. Ninguém questiona se Adão, por ocasião
da criação e antes da queda, estava ou não plenamente suprido na dimensão
espiritual. De igual modo, nenhum de nós deixa de admitir que Adão também
precisava de alimento, uma vez que seu corpo terreno não sobrevivia apenas de
recursos espirituais.
Outro exemplo bíblico que sustenta a mesma lógica é o
episódio da tormenta que levou ao naufrágio o navio que conduzia Paulo a Roma,
onde seria julgado por César.
Enquanto amanhecia, Paulo rogava a todos que se
alimentassem, dizendo:
— Hoje é o décimo quarto dia em que, esperando, vocês
estão sem comer, não tendo provado nada. Por isso peço que comam alguma coisa,
pois disto depende a sobrevivência de vocês. Porque nenhum de vocês perderá nem
mesmo um fio de cabelo.
Atos 27.33-34
Cabe recordar que Deus havia alertado Paulo, por meio de
um anjo, de que haveria livramento e salvação para o iminente naufrágio. Isso,
além de ser uma excelente notícia, mostrava a vontade e o compromisso divino de
salvá-los da morte prematura.
Contudo, o pedido do apóstolo aos tripulantes para que se
alimentassem revela que, mesmo havendo a promessa de livramento sobrenatural da
morte por acidente, eles poderiam, sim, morrer devido à saúde debilitada. Se
isso acontecesse, os únicos responsáveis seriam eles mesmos, e não Deus.
Não podemos confundir aquilo que recebemos do Senhor por
meio de recursos espirituais com aquilo que, por ser natural, é de nossa
inteira responsabilidade. Mesmo sabendo que Deus salvaria aquelas vidas, o
apóstolo insistiu que cada um realizasse a parte natural; ou seja, que
comessem.
Depois que o navio encalhou e começou a ser destruído, o
comandante “ordenou que os que soubessem nadar fossem os primeiros a lançar-se
ao mar e alcançar a terra” (At 27.43). E os que não sabiam nadar? Para eles, a
instrução foi “que se salvassem, uns, em tábuas, e outros, em destroços do
navio” (At 27.44). Ninguém espiritualizou a forma de alcançar o livramento
prometido. Ninguém disse: “Se foi Deus que prometeu, que ele nos salve! Nós nos
recusamos a nadar ou boiar agarrados em destroços, porque a intervenção tem de
ser espiritual”. Nada disso: eles aceitaram a combinação de uma provisão
espiritual de livramento com atitudes práticas que efetivassem o livramento. O
resultado está registrado nas Escrituras: “E foi assim que todos se salvaram em
terra” (At
27.44).
A história mostra que a Igreja, ao longo dos séculos, desprezou assuntos que não considerava espirituais. Por muito tempo, por exemplo, a questão da vida sexual dos casais não era abordada nem ensinada aos crentes, a não ser para destacar algo carnal, impuro e pecaminoso. A atual geração deveria erguer as mãos aos céus em gratidão pelo que se entende e ensina nessa área hoje em dia. Alguns desses equívocos só começaram a ser ajustados quando se passou a enxergar o homem como mais que um espírito; ele também é constituído de alma e corpo. Estamos crescendo, mas ainda há muito engano a ser confrontado.
O que é da carne é carne
Um texto bíblico que chamou minha atenção enquanto
refletia sobre o desequilíbrio entre o que definimos como “espiritual” e
“carnal” se encontra em João, no relato da conversa de Jesus com Nicodemos,
homem chamado de “mestre” em Israel:
Havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um
dos principais dos judeus. Este, de noite, foi até Jesus e lhe disse:
— Rabi, sabemos que o senhor é Mestre vindo da parte de
Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que o senhor faz, se Deus não
estiver com ele.
Jesus respondeu:
— Em verdade, em verdade lhe digo que, se alguém não
nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus.
Nicodemos perguntou:
— Como pode um homem nascer, sendo velho? Será que pode
voltar ao ventre materno e nascer uma segunda vez?
Jesus respondeu:
— Em verdade, em verdade lhe digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não fique admirado por eu dizer: “Vocês precisam nascer de novo”.João 3.1-7
A conversa gira em torno da verdade do novo nascimento,
uma questão que Nicodemos, a princípio, não conseguia entender; na visão dele
era necessário voltar ao ventre materno e repetir o nascimento natural. Para
esclarecer seu equívoco, Jesus explica que “o que é nascido da carne é carne, e
o que é nascido do Espírito é espírito”. O novo nascimento é essencialmente
espiritual, e essa dimensão espiritual deve ser entendida e desenvolvida em
nossa vida. Contudo, isso não muda o outro aspecto destacado por Cristo: “o que
é nascido da carne é carne”. Não deixamos de ser seres físicos, naturais, só
porque, espiritualmente, nascemos de novo.
O novo nascimento não muda nossa condição física. Se
alguém era obeso antes do novo nascimento, não o deixa de ser,
instantaneamente, só porque nasceu de novo. Isso também se dá com nossa altura,
nosso cabelo e qualquer outro detalhe de nosso corpo físico.
As experiências espirituais não anulam a simplicidade da
vida natural, que, assim como o âmbito espiritual, também funciona debaixo dos
princípios que Deus estabeleceu. O fato de Jesus ser o Filho de Deus, por
exemplo, não o isentou de lidar com as necessidades físicas enquanto esteve em
um corpo terreno. Jesus teve fome (Mt 4.2). Teve sede (Jo 19.28). Sentiu
cansaço (Jo 4.6). E precisou oferecer a seu corpo natural os devidos cuidados:
Jesus teve de comer e beber (Lc 7.34), descansar e dormir (Mt 8.24). Não
podemos espiritualizar essas questões. Fazê-lo seria insensatez. Nossas
necessidades espirituais demandam atenção da mesma forma que as naturais, mas
cada esfera tem sua própria provisão e, obviamente, uma não supre a outra.
Observe o que Cristo disse na ocasião em que Satanás o
tentou a transformar pedras em pães:
— Está escrito: “O ser humano não viverá só de pão, mas
de toda palavra que procede da boca de Deus”.
Mateus 4.4
Jesus não disse que as pessoas não precisam de pão para alimentar-se. Ele disse que as pessoas não vivem só de pão, mas também da Palavra de Deus. Ou seja, o espírito necessita de alimento espiritual, o pão divino, a Palavra de Deus, enquanto o corpo precisa do pão terreno. São dimensões distintas, e cada uma tem necessidade própria de provisão alimentar. Não podemos inverter as coisas; o pão terreno não tem o propósito de alimentar o espírito, assim como a Palavra de Deus não tem o propósito de alimentar o corpo. Apesar da simplicidade dessas constatações, muitos, na prática, por meio de seu estilo de vida, parecem ignorá-las completamente.
Cuidados naturais
Encontramos na Bíblia um conselho de Paulo a Timóteo
sobre não espiritualizar aquilo que é natural:
Não beba somente água; beba também um pouco de vinho, por
causa do seu estômago e das suas frequentes enfermidades.
1Timóteo 5.23
Sabemos que Deus é um Deus que cura. Um dos nomes com os
quais ele se revela nas Escrituras é Jeová-Rafá, que significa “O SENHOR que
sara” (Êx 15.26). Há promessas e relatos de cura em toda a Bíblia, bem como na
vida e no ministério de Paulo. Entretanto, não vemos o apóstolo aconselhando
seu discípulo a apenas orar e aplicar fé para resolver o problema. Também não
encontramos nenhuma indicação de que Paulo tenha orado pelo assunto. Ele tão
somente deu um conselho prático.
Especula-se que o motivo de acrescentar vinho à ingestão
de bebidas devia-se à má qualidade da água onde Timóteo se encontrava. Isso,
porém, é mera inferência; a verdade é que não sabemos ao certo qual foi o
motivo. Talvez a enfermidade nem fosse oriunda de um problema com a água.
Entretanto, o que sabemos com certeza é que Timóteo sofria de um problema
natural, físico, uma enfermidade frequente. Então, o apóstolo sugeriu uma forma
natural de resolver a questão. Por quê? Porque não havia necessidade de espiritualizar
aquela situação. Hernandes Dias Lopes, comentando a primeira epístola de Paulo
a Timóteo, afirma:
Timóteo era um jovem tímido e doente. Cuidava dos outros,
mas estava descuidando de si mesmo. Precisava dar atenção à sua saúde para
poder cuidar da igreja. As pressões do ministério são enormes, e Timóteo estava
à frente da maior igreja da época, a igreja de Éfeso. Éfeso era a capital da
Ásia Menor, uma cidade complexa e com muitos desafios. Os falsos mestres
perturbavam a igreja, e Timóteo precisava lidar com essas pressões que vinham
de fora e também com as tensões que vinham de dentro da igreja. O desgaste
emocional e os reflexos que esse desgaste tinham na saúde de Timóteo levaram
Paulo a orientar o jovem pastor a cuidar de sua saúde. O ideal romano era uma
mente sã num corpo são.
[…] os efeitos benéficos do vinho como remédio contra
distúrbios dispépticos, tônico e forma de contrabalancear os efeitos da água
impura eram geralmente reconhecidos na Antiguidade. O vinho era usado tanto
para doenças físicas como emocionais (Pv 31.6). O pai da medicina, Hipócrates,
recomendava doses moderadas de vinho a pacientes para os quais a água sozinha
faria mal ao estômago. Plutarco declara que o vinho é a mais útil das bebidas e
o mais agradável dos remédios. Paulo é enfático em dizer que Timóteo, por
motivos terapêuticos, deveria usar um pouco de vinho, e não muito vinho.
É claro que este texto não pode e nem deve ser usado para
justificar o consumo de álcool. Paulo se refere a cuidados medicinais e não a
uma licença para beber. De acordo com William Barclay, “Paulo simplesmente está
dizendo que não há nenhuma virtude em um ascetismo que faz ao corpo mais mal do
que bem”.2
Semelhantemente, hoje em dia também há muitas
enfermidades e problemas de saúde que poderiam ser resolvidos com ajustes de
alimentação, sono e exercício físico. Contudo, insistimos em tratar questões
naturais de forma espiritual.
Um pastor que conheci sofreu com diabetes por anos,
sempre pedindo oração por isso. Os médicos diziam que a prática de exercícios
físicos ajudaria, e ele tentou: decidiu fazer caminhadas diárias. Fez por um
tempo, e nada, nenhuma melhora. Deduziu, assim, que não funcionava. Um dia,
outro médico propôs que ele fizesse um teste: aumentar a dose de exercícios até
chegar a duas horas diárias de caminhada. Resultado: ele ficou completamente
curado!
Não nego, de forma alguma, o poder curador de Cristo.
Tenho testemunhado intervenções divinas por anos, tanto em minha vida como na
de muitas outras pessoas. À luz do ensino bíblico, contudo, não posso aceitar
que a única forma de melhorar a saúde seja por meios espirituais, especialmente
quando a pessoa optou por viver em deliberada negligência quanto aos princípios
de cuidado do corpo instituídos pelo próprio Criador.
Eu mesmo ignorei, durante anos, os sábios conselhos sobre
cuidado do corpo que muitos me davam. Por quê? Porque cometi a insensatez de
imaginar que, por ser um homem de Deus, não teria problemas de saúde. É verdade
que contamos com provisão divina de cura e saúde para nosso corpo.
Paralelamente, contudo, também é verdade que temos a responsabilidade de cuidar
do corpo para evitar problemas.
Quando Cristo foi ressuscitar Lázaro, deu primeiro uma
ordem aos homens que lá estavam. Essa voz de comando precisou ser obedecida
antes que se realizasse o milagre:
Então Jesus ordenou:
— Tirem a pedra.
Marta, irmã do falecido, disse a Jesus:
— Senhor, já cheira mal, porque está morto há quatro
dias.
Jesus respondeu:
— Eu não disse a você que, se cresse, veria a glória de
Deus?
Então tiraram a pedra. E Jesus, levantando os olhos para
o céu, disse:
— Pai, graças te dou porque me ouviste.
João 11.39-41
Para mim, a lição é clara. Aprendi isso com meu pai,
quando ainda era garoto. Jesus não tirou a pedra; mandou que os homens fizessem
isso. Há duas verdades reveladas aqui: uma fala da responsabilidade humana, a
outra, do poder divino. Servimos a um Deus de intervenções sobrenaturais. Essa
é uma verdade maravilhosa. Jesus ressuscitou um homem que estava morto havia
quatro dias, já cheirando mal. Um milagre espetacular! Entretanto, mesmo
dispondo-se a fazer aquilo que nenhum ser humano poderia fazer, Jesus se
recusou a fazer aquilo que o homem poderia fazer.
Muitos cristãos, porém, não têm compreendido nem vivido dessa forma. Querem desfrutar de cura e saúde unicamente por meio de intervenção divina, sem que precisem fazer sua parte de cuidar do corpo.
Sabedoria da prevenção
Melhor do que a possibilidade de apenas corrigir
determinados problemas é saber que podemos preveni-los. De igual modo, mais
importante do que buscar a intervenção divina em nossa saúde é saber
preservá-la. “É melhor prevenir do que remediar”, já diziam os antigos.
Há várias questões práticas da vida natural que não devem
ser espiritualizadas. A relação íntima do casal é uma delas. A Bíblia nos
revela que precisamos dar a devida manutenção a esse aspecto da relação
conjugal. E não se faz isso de forma espiritual, mas de maneira prática,
natural:
Não se privem um ao outro, a não ser talvez por mútuo
consentimento, por algum tempo, para se dedicarem à oração. Depois, retomem a
vida conjugal, para que Satanás não tente vocês por não terem domínio próprio.
1Coríntios 7.5
As Sagradas Escrituras orientam os cristãos de forma bem
clara nessa matéria: um casal não deve se privar de sua vida de intimidade
física, sexual — esse é o contexto da afirmação de Paulo aos coríntios. A
orientação divina explicou, ainda, a exceção: só se justifica uma pausa na
intimidade quando há mútuo consentimento dos cônjuges, por um breve intervalo e
para se dedicar à oração. Contudo, ainda que o motivo seja uma busca mais
intensa de Deus, Paulo instrui o casal a não alongar demasiadamente a pausa, para
evitar que Satanás explore uma possível falta de controle sobre o desejo não
satisfeito de um dos cônjuges.
Sempre ouvi que a forma de manter o diabo longe era por
meio da oração, e isso é verdadeiro. Entretanto, quando o assunto é o casamento
e a relação íntima dos cônjuges, a Palavra de Deus nos revela que, apesar da
oração, a negligência de cuidado com as necessidades sexuais do cônjuge abrirá
uma porta para a tentação de Satanás em vez de mantê-lo longe. Isso é muito
sério!
Se o casal quiser espiritualizar sua relação e viver só
de oração, acabará criando um ambiente de vulnerabilidade que poderá
destruí-lo. Isso, é claro, não diminui o valor da oração, mas mostra que
devemos entender a responsabilidade de, também, cuidar de forma bem prática
daquilo que é natural. O fato de Deus desejar abençoar espiritualmente o
matrimônio não dá a ninguém o direito de negligenciar a responsabilidade de
cuidado físico e emocional com o cônjuge. Igualmente, o fato de Deus ter feito
promessas de cura e saúde não nos dá o direito de negligenciar o cuidado com
nosso próprio corpo.
Observe outro exemplo dessa praticidade da vida natural,
que é a ordem divina para a prevenção de acidentes em uma casa:
Quando você construir uma casa nova, faça um parapeito no
terraço, para que você não traga culpa de sangue sobre a casa, se alguém de
algum modo cair do terraço.
Deuteronômio 22.8
Apesar de a Bíblia conter promessas de proteção para o
povo de Deus, nela também há ordens de prevenção e cuidado. O Senhor
estabeleceu um princípio claro: se a casa tem terraço, precisa ter parapeito
também. Para quê? Para evitar acidentes.
A prevenção é prática, e não pode ser ignorada pelo fato
de existir uma provisão espiritual de proteção. Não há na Bíblia orientação
para que pessoas fiquem orando para que outras não caiam do terraço; a
instrução divina é para que se construam parapeitos. É importante ressaltar
que, se alguém caísse por falta de parapeito e viesse a machucar-se ou falecer,
a culpa do sangue viria sobre o dono da casa que não preveniu o acidente.
Apesar disso, muitos têm se recusado a “construir
parapeitos” em diversas áreas da vida e, tristemente, ainda atribuem os
acidentes à vontade de Deus, como se tudo fosse inevitavelmente regido apenas
por um “plano superior divino”, e não pelas próprias escolhas individuais. E o
pior é que agimos assim muito embora Deus tenha mostrado claramente como os
acidentes poderiam ser evitados. Temos uma responsabilidade para com a
prevenção, e ela é nossa, não de Deus.
Tentar Deus
Quando Jesus foi tentado no deserto, uma das propostas do
maligno foi que Cristo espiritualizasse o que é natural. Observe:
Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre
o pináculo do templo e disse:
— Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui, porque está
escrito:
“Aos seus anjos ele dará ordens a seu respeito.
E eles o sustentarão nas suas mãos, para que você não
tropece em alguma pedra.”
Mateus 4.5-6
Qual foi a proposta do diabo?
Ele insinuou que uma promessa divina de proteção poderia
ser usada em caso de negligência humana para com a responsabilidade, e o bom
senso, de proteger a si mesmo. Por que Satanás fez tal proposta?
Para tentar destruir o Messias, mesmo objetivo que tem
para conosco — o que se torna possível, quando caímos nesse tipo de engodo.
Como Jesus, nosso referencial, lidou com o assunto?
Atente para a resposta de nosso Senhor:
Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o
Senhor, teu Deus.
Mateus 4.7, ARA
Negligenciar a devida — e prática — prevenção a acidentes
em nome da fé e confiança no cuidado divino é classificado, nas Escrituras,
como tentar a Deus. É o que está registrado na Bíblia. Paulo afirmou aos
romanos que “tudo o que no passado foi escrito, para o nosso ensino foi
escrito” (Rm 15.4). Deveríamos aprender com essas lições bíblicas, em vez de
tentar o Senhor com nossas negligências espiritualizadas.
Nosso comportamento denuncia no que acreditamos: que as
promessas divinas farão tudo por conta própria, mesmo que não cuidemos de nosso
corpo. Então, simplesmente não fazemos nada em prol de nossa saúde. Estamos
tentando a Deus quando agimos assim! Com efeito, precisamos parar de
espiritualizar aquilo que é natural.
Muitas desgraças poderiam ser evitadas caso agíssemos
corretamente. Simples assim. Muitos crentes creditam ao Senhor e a suas
escolhas soberanas a razão de toda e qualquer tragédia na vida deles. Atribuem
e transferem a Deus a responsabilidade por tudo o que os acomete. A Palavra de
Deus não concorda com isso; pelo contrário, mostra que há circunstâncias que
enfrentamos desnecessariamente pelo simples fato de não darmos ouvidos à
advertência divina. Foi o que o apóstolo Paulo reconheceu a bordo daquele navio,
que, depois de uma grande tempestade, acabou naufragando próximo à Ilha de
Malta:
Havendo todos estado muito tempo sem comer, Paulo,
pondo-se em pé no meio deles, disse:
— Senhores, na verdade, era preciso terem-me atendido e
não partir de Creta, para evitar este dano e perda.
Atos 27.21
O apóstolo havia advertido a não seguir viagem, mas o
centurião responsável deu mais crédito ao dono do navio e ao piloto (At
27.911). Ainda que o Senhor tenha tirado proveito daquela situação (houve
evangelização dos moradores da ilha por meio de Paulo), não significa que
precisava ter acontecido daquela forma. Pelo contrário, o apóstolo afirmou que
a perda poderia ter sido evitada.
Sofri, durante o período em que mantive o excesso de
peso, de vários problemas na coluna, o que incluía algumas hérnias. Por meio de
intervenção divina, sobrenaturalmente, recebi curas e melhoras, mesmo quando os
médicos diziam ser impossível. A cada intervenção divina, eu me tornava ainda
mais confiante na atitude errada: não me preocupar com o cuidado de meu próprio
corpo. Pensava comigo: “Eu tenho, à minha disposição, cura e saúde divinas”.
Certo dia, enquanto orava, fui surpreendido com uma
advertência clara do Espírito Santo em meu íntimo: “Eu não suspenderei para
sempre as leis da natureza em seu favor”. Comecei a perceber, a partir daquele
dia, que as manifestações de cura — expressões de amor e misericórdia divinos —
não deveriam ser uma desculpa para a deliberada negligência no cuidado do
corpo.
Temos de cuidar para não aceitar a sugestão do diabo de
tentar o Senhor, isentando-nos de responsabilidade. Podemos estar mascarados
com uma espiritualidade exagerada, tendo atrás da máscara faces doentes — que
não precisavam estar assim, caso houvesse um cuidado responsável, de ordem
natural e prática, com a saúde do corpo. Não é porque somos espirituais e nossa
pátria é o céu que podemos negligenciar o corpo que Deus nos deu para cuidar
enquanto ainda estamos neste mundo.
Nossas escolhas, principalmente aquelas que tomamos em
contrariedade às advertências divinas, trarão consequências. E isso vale para
todas as áreas de nossa vida, incluindo a saúde. Falarei mais acerca disso no
capítulo a seguir.
Bible Hub, verbete holotelés, G3651, <h
ps://biblehub.com/greek/3651.htm>.
Hernandes Dias Lopes, Comentário expositivo do Novo Testamento: Atos e epístolas paulinas (São Paulo: Hagnos, 2019), p. 2224-2225. 3
O CÉU PODE ESPERAR
Estou cercado pelos dois lados, tendo o desejo de partir
e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Mas, por causa de
vocês, é mais necessário que eu continue a viver.
FILIPENSES 1.23-24
Em novembro de 2013, conheci pessoalmente, em São Paulo,
o pastor Paulo Canuto. Já tinha ouvido falar repetidas vezes a seu respeito e
de suas experiências com Deus. Aproximei-me dele depois de ter pregado num
evento onde ele também seria um dos oradores e, enquanto jantávamos, iniciei a
conversa com uma observação sobre o prato que ele havia feito para si —
bastante seletivo na escolha do que comer e também na quantidade de comida.
Muito mais para puxar conversa do que esperando que o
assunto se desenvolvesse, fiz um comentário relacionado ao prato dele:
— Tá se cuidando, hein?
Ele respondeu com uma pergunta:
— Quantos anos você tem?
Imaginando que receberia um sermão de alguém uns vinte
anos mais velho que eu, repliquei um pouco temeroso:
— Completo quarenta e dois anos no mês que vem.
Em lugar do “sermão”, veio a explicação:
— Eu perguntei a sua idade porque imaginei mesmo que você
estivesse em torno dos quarenta. É que, quando eu tinha quarenta e quatro anos,
eu morri.
— Você o quê? — indaguei meio cético.
— Eu morri — ele afirmou categoricamente. E emendou: —
Foi registrado o laudo médico da minha morte. — Apontando para Eva, sua esposa,
ele declarou: — Ela foi testemunha do ocorrido, além do médico que me atendeu.
Depois de pedir-lhe que me contasse essa impressionante
história com mais detalhes, ele passou a narrar o ocorrido, que vou resumir
aqui.
— Apesar de ainda novo, meu corpo entrou em falência. Fui
levado ao hospital, e lá os médicos me reanimaram por cinco vezes. Nas quatro
primeiras vezes, eu voltei. Na quinta vez, já não voltei mais. Foi quando me vi
saindo, em espírito, do meu corpo. E assim, nesse estado, assisti a tudo o que
aconteceu naquela sala. Minha história confere, em detalhes, com o que o médico
e minha esposa presenciaram. Ouvi nitidamente o que o médico disse a Eva quando
tirou a aliança do meu dedo e entregou a ela. Vi no relógio da parede o horário
em que o laudo da minha morte foi assinado. Tudo o que aconteceu na sala
confere exatamente com o que vi. Enquanto estava ali, em espírito, ao lado do
meu corpo, o Senhor Jesus apareceu atrás de mim. Não sentia ter permissão para
me virar e encará-lo, mas sabia que era ele antes mesmo que ele falasse comigo.
Então Cristo falou bem próximo ao meu ouvido: “Você é um suicida. Eu tinha um
propósito por cumprir em sua vida, e você conseguiu abortar meus planos por
nunca ter cuidado do seu corpo”.
Nesse momento eu o interrompi com uma pergunta (motivada
pela suspeita de que ele queria censurar meu excesso de peso à época):
— Você estava com sobrepeso? Se sim, pode ser direto
comigo e falar abertamente.
Surpreendentemente, ele me respondeu que não. E
acrescentou:
— Eu dormia apenas duas a três horas por noite, pois
passava a maior parte das minhas noites orando. Jejuava sem sabedoria e sem
entendimento, no desejo de ter mais do Senhor em minha vida. Viajava
exaustivamente para ministrar aos outros, sem me permitir o devido descanso.
Tudo isso porque achava que essa era a forma correta de viver intensamente para
Deus e agradá-lo.
Eu estava ouvindo aquilo tudo chocado e chacoalhado. E
comentei isso com ele. O pastor Canuto, então, afirmou:
— Calma que ainda fica pior… Nessa hora eu tive uma visão
do que teria sido o meu velório no dia seguinte. Essa é uma coisa muito
estranha de se ver, o seu próprio velório. Eu me vi arrumado no caixão,
familiares e amigos chorando, até que alguém se aproximou do meu corpo e
comentou: “O Paulo era uma bênção. Por que será que o Senhor o recolheu tão
novo?”. Foi então que Jesus falou novamente comigo: “Além de abortar meu plano
para sua vida, sua falta de cuidado com o próprio corpo faz que, agora, eu seja
julgado pelas pessoas. Eu não recolhi você. Foi você que se matou por não ter
cuidado devidamente de si mesmo”.
E ele finalizou a história dizendo:
— Então eu perguntei a Jesus: “Considerando que ainda
estou aqui, e depois de ouvir tudo o que ouvi, isso significa que terei outra
chance?”.
E, diante do consentimento do Senhor, ele prometeu:
“Daqui em diante eu prometo que vou me cuidar”. Foi quando voltou a seu corpo
e, para surpresa de todos na sala, reviveu.
Acho importante ressaltar que Jesus o advertiu de que ele
enfrentaria um longo e doloroso processo de recuperação da saúde como
consequência de suas más escolhas no cuidado de seu corpo (ele também foi
advertido sobre a importância de selecionar cuidadosamente sua alimentação,
priorizando os alimentos naturais, criados por Deus, e evitando os
industrializados e processados — mas isso é assunto para outro capítulo).
Toda essa narrativa se deu em resposta à minha pergunta:
“Tá se cuidando, hein?”. Mas penso que Deus planejou e permitiu essa conversa
como mais uma oportunidade para me despertar. Eu estava literalmente atordoado
com o que acabara de ouvir. E sei que não foi algo meramente emocional. Não
fiquei impressionado apenas com a história compartilhada. Algo aconteceu dentro
de mim, e não sei descrever com precisão o que houve. Foi como se uma
consciência espiritual despertasse. Comecei a pensar em tantos homens de Deus
que morreram de modo prematuro, especialmente aqueles que não cuidaram da
própria saúde. E, quando me levantei para deixar aquela mesa, prometi a Deus em
meu íntimo: “Nunca mais, Senhor, tu terás de chamar minha atenção dessa forma
novamente! Reconheço que tenho negligenciado tuas advertências por muitos anos,
mas, hoje, arrependo-me disso. Dá-me algum tempo para processar os novos
valores que preciso absorver e passarei a viver de forma diferente”.
E foi a partir desse momento que me propus seguir
perdendo peso e também rever tudo em que eu acreditava sobre o cuidado com a
saúde e o corpo. Decidi que iria crescer tanto na compreensão da perspectiva
fisiológica, científica, e também, principalmente, no entendimento bíblico
dessas verdades, uma vez que devemos viver em função do que a Palavra de Deus
ensina.
Esse foi o início de uma jornada de descobertas e de
renovação da mente. Foi um divisor de águas em minha vida, e os que me conhecem
e acompanham de perto testificam isso.
Um entendimento equivocado nos leva a uma crença
equivocada, que por sua vez nos leva a práticas equivocadas. Em contrapartida,
um entendimento correto nos leva a uma crença correta, que por sua vez nos leva
a práticas corretas. Nosso comportamento negligente com o cuidado do corpo é um
dos efeitos colaterais provenientes de crenças erradas. É preciso renovar a
mente com os valores da Palavra de Deus! Somente assim nosso comportamento
poderá ser ajustado.
Uma das crenças equivocadas que muitos cristãos carregam é a de que nada que façam mudará o plano divino que, supostamente, lhes foi predeterminado. Acreditam que há uma hora marcada para morrer e que nada, absolutamente nada, pode mudar isso. Assim, não conseguem concluir que tenham qualquer responsabilidade por sua longevidade (ou falta dela).O que, porém, as Sagradas Escrituras têm a dizer sobre isso?
Há um tempo determinado para nossa morte?
É comum ouvir pessoas afirmando, especialmente no
contexto de morte e sepultamento de alguém, o conhecido clichê: “Quando chega a
hora de alguém, não há nada que possa mudar isso”.
Será que é mesmo verdade?
Há um tempo predeterminado para a morte de cada um?
Não entendo que seja assim. E não digo isso por causa da
experiência que compartilhei há pouco, porque nossas convicções de fé não se
baseiam em experiências individuais e sim naquilo que as Sagradas Escrituras
dizem. Meu propósito, ao contar a experiência do pastor Canuto, foi tão somente
testemunhar meu despertamento para essas verdades, bem como ilustrar, na
prática, os argumentos bíblicos sobre o assunto que apresentarei neste
capítulo.
A meu ver, a noção de um determinismo divino e um
fatalismo absoluto tem nos prejudicado sobremaneira. Muitas pessoas não se
preocupam em cuidar de si mesmas e de sua saúde porque acreditam que nada do
que façam ou venham a fazer pode mudar o dia de sua morte.
É verdade que, na Bíblia, encontramos exemplos de pessoas
que Deus recolheu porque assim o quis, como é caso de Enoque (Gn 5.24). Não
significa, porém, que todos os que morreram foram recolhidos, em dia e hora
específicos, por determinação divina. Além disso, observe que a Bíblia também
apresenta a possibilidade de alguém morrer antes da hora, prematuramente:
Não seja demasiadamente perverso, nem seja tolo; por que
você morreria antes da sua hora?
Eclesiastes 7.17
A Nova Versão Internacional (NVI) optou pela expressão
“por que morrer antes do tempo?”. Temos duas verdades nesse versículo que
merecem nossa atenção:
Há um tempo certo. A própria expressão “morrer antes do
tempo” indica que há, no plano divino, uma “hora” ideal em que cada um deveria
partir.
O tempo pode ser alterado. Porém, ao revelar a
possibilidade de se morrer antes do tempo, as Escrituras mostram que esse
“tempo certo” pode ou não ser cumprido. E isso não depende apenas de Deus.
Depende também de nós e de nossas escolhas.
Via de regra, o plano divino para o ser humano, revelado
na Palavra de Deus, é que a morte chegue em boa velhice. A Bíblia compara esse
momento da vida do homem com o do trigo que tem o seu tempo para ser colhido:
Você irá para a sepultura em pleno vigor, como um feixe
recolhido no devido tempo.
Jó 5.26, NVI
Afirmei que esse é o plano divino generalizado porque
também encontramos na Bíblia exceções, isto é, pessoas que o próprio Senhor
advertiu que morreriam em um tempo e formato diferente, e isso não pode ser
ignorado. O martírio em prol do evangelho é um exemplo que cabe nessa
classificação, como afirmou o Senhor Jesus:
Um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai entregará
o filho. Haverá filhos que se levantarão contra os seus pais e os matarão.
Todos odiarão vocês por causa do meu nome; aquele, porém, que ficar firme até o
fim, esse será salvo.
Mateus 10.21-22
Falo essas coisas para que vocês não se escandalizem.
Eles expulsarão vocês das sinagogas, e até chegará a hora em que todo aquele
que os matar pensará que, com isso, está prestando culto a Deus. Isso farão
porque não conhecem o Pai nem a mim. Mas estou falando essas coisas para que,
quando chegar a hora, vocês se lembrem de que eu já tinha dito isto para vocês.
João 16.1-4
Em João 21.18-19, Jesus comenta sobre o tipo de morte com
que Pedro iria glorificar a Deus. Demonstrou, assim, que o apóstolo seria
martirizado. E o próprio Pedro reconhece, no fim de seus dias, a iminência do
evento predito por Jesus:
Também considero justo, enquanto estou neste tabernáculo, despertar essas lembranças em vocês, certo de que estou prestes a deixar o meu tabernáculo, como efetivamente nosso Senhor Jesus Cristo me revelou. Mas, de minha parte, me esforçarei ao máximo para que sempre, mesmo depois da minha partida, vocês se lembrem dessas coisas.2Pedro 1.13-15
O apóstolo Paulo fez declaração semelhante quanto à sua
partida: “Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da
minha partida é chegado” (2Tm 4.6). Ele sabia que seu martírio se aproximava e
chamou isso de libação, isto é, uma oferta derramada ao Senhor. No Antigo
Testamento a libação poderia envolver o derramamento de óleo (Gn 35.14), vinho
(Êx 29.40) ou água (2Sm 23.16), e o conceito se aplicava também ao sangue do
sacrifício dos animais (Hb 9.22).
A mesma analogia foi usada pelo apóstolo em sua epístola
aos filipenses:
Entretanto, mesmo que eu seja oferecido como libação sobre o sacrifício e serviço da fé que vocês têm, fico contente e me alegro com todos vocês.Filipenses 2.17
Porém, mesmo diante da possibilidade de morte por
execução, não natural, Paulo demonstra, em carta a Timóteo, que havia cumprido
o propósito divino para sua vida:
Quanto a mim, já estou sendo oferecido por libação, e o
tempo da minha partida chegou. Combati o bom combate, completei a carreira,
guardei a fé. Desde agora me está guardada a coroa da justiça, que o Senhor,
reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que
amam a sua vinda.
2Timóteo 4.6-8
Há mortes, portanto, que não são naturais e que, ainda
assim, podem glorificar a Deus. Mas é óbvio que os exemplos bíblicos em nenhum
momento retratam uma morte por negligência no cuidado do corpo como sendo para
a glória de Deus. E ainda vale acrescentar que, mesmo sabendo e afirmando que
não morreria com uma morte natural, Paulo já estava velho, o que claramente
pode ser visto em sua afirmação a Filemom:
Prefiro, no entanto, pedir em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho, e agora também prisioneiro de Cristo Jesus.Filemom 1.9
Ou seja, mesmo na iminência de ser martirizado, Paulo não
havia sabotado sua longevidade por meio de negligência no cuidado do corpo.
Apresentei essa possibilidade de que alguém morra antes da velhice sem,
necessariamente, estar fora da vontade de Deus. Porém, o inverso nem sempre é
verdadeiro. Ou seja, não significa, de forma alguma, que todos os que estão
morrendo antes da velhice estejam partindo por determinação divina.
As Sagradas Escrituras advertem, repetidas vezes, sobre a
importância de obedecermos a Deus, e comunicam também a consequência dessa
obediência, que envolve a bênção da longevidade. Por outro lado, as mesmas
Escrituras revelam que uma das consequências da desobediência a Deus e seus
mandamentos é a possibilidade de diminuir os dias de vida. Em outras palavras,
alguém pode viver mais ou menos tempo em virtude de sua própria decisão sobre
como viver. Não se trata de uma decisão divina determinando o tempo de vida das
pessoas, mas, sim, de uma decisão humana.
Observe a declaração que o Senhor fez aos israelitas por
meio de Moisés:
Vejam! Hoje coloco diante de vocês a vida e o bem, a morte e o mal. Se guardarem o mandamento que hoje lhes ordeno, que amem o SENHOR, seu Deus, andem nos seus caminhos e guardem os seus mandamentos, os seus estatutos e os seus juízos, então vocês viverão e se multiplicarão, e o SENHOR, seu Deus, os abençoará na terra em que estão entrando para dela tomar posse. Mas, se o coração de vocês se desviar, e não quiserem ouvir, mas forem seduzidos, se inclinarem diante de outros deuses e os servirem, então hoje lhes declaro que, certamente, perecerão; não permanecerão muito tempo na terra na qual, passando o Jordão, vocês vão entrar para dela tomar posse. Hoje tomo o céu e a terra por testemunhas contra vocês, que lhes propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolham, pois, a vida, para que vivam, vocês e os seus descendentes, amando o SENHOR, seu Deus, dando ouvidos à sua voz e apegando-se a ele; pois disto depende a vida e a longevidade de vocês. Escolham a vida, para que habitem na terra que o SENHOR, sob juramento, prometeu dar aos pais de vocês, a Abraão, Isaque e Jacó.Deuteronômio 30.15-20
O Senhor declarou que viver em bênção ou maldição
dependeria de como os israelitas decidiriam caminhar: em obediência ou em
desobediência a seus mandamentos. Isso é repetido várias vezes nas Escrituras:
Portanto, guardem os seus estatutos e os seus mandamentos
que hoje lhes ordeno, para que tudo vá bem com vocês e com os seus filhos
depois de vocês e para que vocês prolonguem os seus dias na terra que o SENHOR,
seu Deus, lhes está dando para todo o sempre.
Deuteronômio 4.40
São estes os mandamentos, os estatutos e os juízos que o
SENHOR, seu Deus, ordenou que fossem ensinados a vocês, para que vocês os
cumprissem na terra em que vão entrar e possuir, para que durante todos os dias
da sua vida vocês, os seus filhos, e os filhos dos seus filhos temam o SENHOR,
seu Deus, e guardem todos os seus estatutos e mandamentos que eu lhes ordeno, e
para que os seus dias sejam prolongados.
Deuteronômio 6.1-2
De igual modo, quando Salomão assumiu o trono, sucedendo
Davi, seu pai, o Senhor lhe fez a mesma advertência:
Se você andar nos meus caminhos e guardar os meus
estatutos e os meus mandamentos, como fez Davi, seu pai, eu prolongarei os seus
dias.
1Reis 3.14
Meu filho, não se esqueça dos meus ensinos, e que o seu coração guarde os meus mandamentos, porque eles aumentarão os seus dias e lhe acrescentarão anos de vida e paz.Provérbios 3.1-2
E a advertência da sabedoria, falando de forma
personificada, segue enfatizando a mesma verdade no Livro de Provérbios:
Porque por mim se multiplicarão os seus dias, e aumentarão os anos de sua vida.Provérbios 9.11
Ou seja, podemos aumentar ou diminuir nosso tempo de
vida, e isso depende das escolhas que fazemos. Mas passemos agora às afirmações
do Novo Testamento. O apóstolo Paulo, escrevendo aos cristãos em Éfeso,
apresenta aos gentios, os crentes da nova aliança, o princípio predeterminado
por Deus, desde a antiga aliança, sobre a maneira de tratar os pais, destacando
que a atitude de honra para com eles atrairá a longevidade. E também deixa
claro que isso não era mera frase de efeito, mas que se trata do primeiro
mandamento com promessa:
“Honre o seu pai e a sua mãe”, que é o primeiro mandamento com promessa, “para que tudo corra bem com você, e você tenha uma longa vida sobre a terra.”Efésios 6.2-3
Em suma, a maneira correta de tratar nossos progenitores
pode aumentar nossos dias. Em contrapartida, a palavra de juízo dada ao
sacerdote Eli, sobre seus filhos morrerem na flor da idade e não mais haver
idosos em sua casa (1Sm 2.31-33), nos ensina que a maneira errada de tratar
nossa família pode diminuir nossos dias. Ou seja, viver mais ou menos tempo não
é apresentado na Bíblia como algo em que Deus decide arbitrária e
unilateralmente, mas é também algo que pode decorrer das escolhas humanas.
Um exemplo claro de juízo divino seguido de morte com
ênfase na responsabilidade humana se encontra em Levítico 10.1-2:
Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu
incensário, puseram fogo dentro deles, e sobre o fogo colocaram incenso; e
trouxeram fogo estranho diante da face do SENHOR, algo que ele não lhes havia
ordenado. Então saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram diante
do SENHOR.
Esses sacerdotes não morreram porque tinham “hora marcada
para tal”. Colheram o fruto de suas escolhas. Estas, por sua vez, se houvessem
sido diferentes, poderiam levar a outro tipo de consequência e eles
permaneceriam vivos. A prova disso está nas advertências feitas a Arão e seus
outros filhos:
Moisés disse a Arão e aos seus filhos Eleazar e Itamar:
— Não deixem os cabelos sem pentear, nem rasguem as suas roupas, para que vocês não morram, nem venha grande ira sobre toda a congregação; mas os seus irmãos, toda a casa de Israel, poderão lamentar o fogo que o SENHOR causou. Não se afastem da porta da tenda do encontro, para que vocês não morram; porque sobre vocês está o óleo da unção do SENHOR.E fizeram conforme a palavra de Moisés.Levítico 10.6-7
A expressão “para que vocês não morram” atesta,
indubitavelmente, que a morte dos demais membros da primeira família sacerdotal
poderia ser tanto evitada como provocada. E isso dependeria deles, de suas
próprias escolhas, e não de Deus.
Aliás, o juízo divino que encurta os dias de alguém não é
algo exclusivo do Antigo Testamento, como bem podemos ver no exemplo de Ananias
e Safira (At 5.5-10) e na carta à igreja de Tiatira, no episódio envolvendo a
mulher classificada por Jesus como Jezabel (Ap 2.20-23). O apóstolo Paulo, por
sua vez, falou de gente morrendo prematuramente na igreja de Corinto em
decorrência de uma vida espiritual desordenada. Ou seja, acabaram, por meio de
suas escolhas, colocando-se debaixo de juízo divino:
É por isso que há entre vocês muitos fracos e doentes e
não poucos que dormem. Porque, se julgássemos a nós mesmos, não seríamos
julgados.
1Coríntios 11.30-31
Constatar que há pessoas morrendo prematuramente, fora da
vontade divina, deveria nos trazer temor. Hoje em dia também há muitos
cristãos, à semelhança dos coríntios, que estão fracos e doentes ou que já
morreram antes do tempo em razão de más escolhas — o que envolve, também, a
maneira como cuidam de sua saúde (ou como deixam de fazê-lo).
As Escrituras nos apresentam, ainda, relatos de pessoas que obtiveram mais tempo de vida do que o supostamente determinado, como aconteceu com o rei Ezequias e o apóstolo Paulo. E também nos apresenta aqueles que partiram antes de ter completado seu tempo e missão, como o profeta Elias. Em todas essas situações, vemos o elemento da escolha humana não apenas participando como também, de certo modo, determinando o processo. Observemos mais detalhadamente o que a Palavra de Deus diz sobre cada um desses casos.
O profeta Elias
Logo depois de sua grande vitória sobre os profetas de
Baal e Aserá, no monte Carmelo, quando fogo desceu dos céus sobre o sacrifício
e os israelitas caíram de joelhos declarando “só o SENHOR é Deus”, Elias fugiu
diante da ameaça de Jezabel, mulher do rei Acabe. A Bíblia assim relata:
Acabe contou a Jezabel tudo o que Elias havia feito e
como havia matado todos os profetas à espada. Então Jezabel mandou um
mensageiro a Elias para dizer-lhe:
— Que os deuses me castiguem se amanhã a estas horas eu
não tiver feito com a sua vida o mesmo que você fez com a vida de cada um
deles!
Elias ficou com medo, levantou-se e, para salvar a vida,
se foi e chegou a Berseba, que pertence a Judá. E ali ele deixou o seu servo.
1Reis 19.1-3
Contudo, ao chegar a Berseba, o profeta, que havia fugido
justamente para salvar a própria vida, desistiu de viver e pediu ao Senhor para
morrer:
Ele mesmo, porém, foi para o deserto, caminhando um dia
inteiro. Por fim, sentou-se debaixo de um zimbro. Sentiu vontade de morrer e
orou:
— Basta, SENHOR! Tira a minha vida, porque eu não sou
melhor do que os meus pais. 1Reis 19.4
Elias estava, naquele momento, desistindo não somente do
ministério mas também da própria vida. E é evidente que Deus aceitou a “carta
de demissão” apresentada pelo profeta quando lemos a resposta que lhe foi dada:
Então o SENHOR disse a Elias:
— Vá, volte ao seu caminho para o deserto de Damasco.
Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria. Unja também Jeú, filho de Ninsi,
como rei de Israel e Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, como profeta em
seu lugar.
1Reis 19.15-16
A instrução de ungir Eliseu “em seu lugar” deixa claro
que Elias seria substituído — e não apenas sucedido — por Eliseu. Ele desistiu
de continuar vivendo, pediu para si a morte e Deus a aceitou, embora tenha
exigido que o profeta fosse responsável e deixasse alguém para terminar aquilo
que ele mesmo já não poderia concluir: sua missão.
A Bíblia não diz que a partida do profeta se deveu ao fato de que Deus não queria mais a presença de Elias neste mundo ou o queria lá no céu, como foi o caso de Enoque. Pelo contrário, a Palavra de Deus revela que quem não quis mais permanecer na terra foi Elias e que Deus atendeu o pedido e escolha do profeta.
O rei Ezequias
Em contrapartida, encontramos também, nas Escrituras,
exemplos de pessoas que escolheram ficar mais tempo neste mundo, como o rei
Ezequias e o apóstolo Paulo. Sobre Ezequias, a Bíblia relata:
Por esse tempo, Ezequias adoeceu de uma enfermidade mortal. O profeta Isaías, filho de Amoz, foi visitá-lo e lhe disse: — Assim diz o SENHOR: “Ponha em ordem a sua casa, porque você morrerá; você não vai escapar.” Então Ezequias virou o rosto para a parede e orou ao SENHOR, dizendo: — Ó SENHOR, lembra-te de que andei diante de ti com fidelidade, com coração íntegro, e fiz o que era reto aos teus olhos. E Ezequias chorou amargamente. Antes que Isaías tivesse saído do pátio central, a palavra do SENHOR veio a ele, dizendo:
— Volte e diga a Ezequias, príncipe do meu povo: Assim diz o SENHOR, o Deus de Davi, seu pai: “Ouvi a sua oração e vi as suas lágrimas. Eis que eu vou curá-lo e, ao terceiro dia, você subirá à Casa do SENHOR. Acrescentarei quinze anos à sua vida e livrarei das mãos do rei da Assíria tanto você quanto esta cidade. Defenderei esta cidade por amor de mim e por amor a Davi, meu servo.” 2Reis 20.1-6
Esse relato mostra que é possível acrescentar mais dias à nossa vida. Além da questão de se obedecer a Deus, vemos nessa porção das Escrituras que oração e fé também podem ser formas pelas quais se pode prolongar os dias na terra. Cabe ressaltar, porém, que essas não são as únicas formas de obter isso. Além das leis e questões espirituais também temos as leis e questões naturais; abordarei isso mais adiante.
O apóstolo Paulo
Em sua epístola à igreja de Filipos, Paulo faz uma
declaração que também precisa ser levada em consideração:
Minha ardente expectativa e esperança é que em nada serei
envergonhado, mas que, com toda a ousadia, como sempre, também agora, Cristo
será engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Porque para
mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se eu continuar vivendo,
poderei ainda fazer algum trabalho frutífero. Assim, não sei o que devo
escolher. Estou cercado pelos dois lados, tendo o desejo de partir e estar com
Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Mas, por causa de vocês, é mais
necessário que eu continue a viver. E, convencido disto, estou certo de que
ficarei e permanecerei com todos vocês, para que progridam e tenham alegria na
fé.
Filipenses 1.20-25
Observe que o apóstolo diz estar constrangido diante de
uma escolha. E o dilema nos é apresentado pelo apóstolo como se dando entre a
decisão de “partir e estar com Cristo” (morrer) ou a de “permanecer na carne”
(continuar a viver). Depois de apresentar seu dilema, ele conclui revelando
estar convencido de que permaneceria por mais tempo com os irmãos a fim de dar
mais fruto e vê-los progredir. Ou seja, ele concluiu que era mais valioso e
estratégico viver um pouco mais neste mundo, em vez de escolher partir mais
cedo, e decidiu ficar.
Foi do entendimento dessa afirmação de Paulo que decidi
usar como título deste capítulo a expressão “O céu pode esperar”. Teremos a
eternidade toda para usufruir nosso pleno relacionamento com Deus e as
recompensas eternas. Não há necessidade de apressar esse encontro. Pelo
contrário, podemos usar com sabedoria e intensidade nossos dias neste corpo
terreno a fim de dar mais fruto para Deus.
Penso que, assim como esses exemplos bíblicos, também
podemos escolher viver mais ou menos tempo, não somente por causa de oração e
fé, mas também pela forma como decidimos tratar nosso corpo enquanto vivemos
aqui na terra. Certa vez, ouvi alguém dizer que o cuidado com a saúde pode nos
proporcionar não somente mais dias de vida como também mais vida em nossos
dias.
O salmista, por inspiração do Espírito Santo, declarou:
Quem de vocês ama a vida e quer longevidade para ver o
bem?
Salmos 34.12
Eu posso, simplesmente porque amo viver e porque quero a longevidade, escolher viver de tal modo que viabilize isso. Os versículos posteriores desse salmo (que aconselho você a ler e nele meditar com calma em outro momento) nos mostram que precisamos viver de forma diferenciada para que isso se torne possível.
A lição de Robert Murray M’Cheyne
Em 2013, o pastor Gustavo Bessa, na ocasião em que nos
conhecemos, me abordou, com franqueza e honestidade, pedindo-me que cuidasse
melhor de meu corpo e saúde. Foi aquele tipo de conversa que, a princípio, me
constrangeu, embora depois eu a tenha classificado como importante e
necessária.
Nessa ocasião ele me perguntou se eu já tinha ouvido
falar de Robert Murray M’Cheyne, um avivalista escocês. Respondi que sim e que
até tinha a citação de uma frase dele em um dos meus livros.
O Gustavo insistiu:
— Mas sabe qual é a frase mais conhecida dele?
— Não tenho certeza se as que conheço estão nessa
classificação — retruquei.
— Então você não conhece, senão saberia exatamente qual é
a frase — afirmou.
O Gustavo então me apresentou, resumidamente, a história
de Robert Murray M’Cheyne. Pastor e pregador escocês do início do século 19,
M’Cheyne se doou ao ministério e chacoalhou sua geração, mas faleceu antes
mesmo de completar trinta anos de idade, vítima de uma epidemia de tifo. Em seu
leito de morte, ele declarou: “Deus me deu um cavalo e uma mensagem. Eu matei o
cavalo e já não posso levar a mensagem”.
M’Cheyne sentiu essa grande tristeza, não apenas pela
perda de sua própria vida, mas principalmente pela perda da oportunidade de
pregar mais o evangelho.
Infelizmente, muitos mensageiros também seguem matando
“seu cavalo” em nossos dias. Muito do que poderíamos fazer para o Senhor tem
sido sabotado por nossa falta de cuidado do corpo.
Lembro-me de uma frase que ouvi numa conversa com o dr. Aldrin Marshall: “Comer errado provavelmente não o impedirá de ir para o céu, mas certamente o levará para lá mais depressa!”.
A questão da soberania divina
Apresentei diversos textos bíblicos que mencionam pessoas
cujos dias foram aumentados ou diminuídos por sua própria escolha. Isso se deu
não só pela obediência ou desobediência aos mandamentos divinos, pela oração e
fé (em situações específicas), mas também, como demonstrarei nos capítulos
posteriores, pela maneira como essas pessoas decidiram cuidar (ou não) de seu
corpo.
Essa noção, contudo, choca algumas pessoas por parecer
conflitar com aquilo que elas entendem da soberania divina. Alguns acreditam
que a soberania divina só pode ser vista onde Deus não dá ao homem o direito de
escolha. Mas isso não é verdade. Até porque, se o Criador só pudesse ser
soberano do jeito que nós determinamos (e não o dele), o próprio conceito de
soberania já estaria minado. Deus é soberano do jeito que ele mesmo quer! E foi
ele mesmo quem decidiu dar ao ser humano o direito de escolha e a capacidade de
determinar aspectos de seu próprio destino.
A ideia de que tudo se encontra predeterminado e agendado
por Deus para, inevitavelmente, acontecer depois, provém, entre outras razões,
de um entendimento equivocado de alguns textos bíblicos, como, por exemplo, a
seguinte afirmação de Davi:
Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e
no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e
determinado, quando nem um deles ainda existia.
Salmos 139.16
O fato de que os detalhes de nossa vida, incluindo nosso
futuro, estão registrados não significa que cada um deles foi, arbitrária e
soberanamente, determinado por Deus. Eles simplesmente são conhecidos pela
presciência e onisciência divinas.
Paulo, escrevendo aos romanos, fala de Deus declarando o
que seria de Jacó e Esaú antes mesmo que tivessem nascido (Rm 9.11-13). O
apóstolo diz explicitamente que, antes de fazerem o bem ou mal, a eleição já
estava sendo demonstrada. Mas o que é a eleição e como ela se manifesta? Deus
decide todo o destino das pessoas sem que elas possam fazer escolhas? Ou será
que Deus pode afirmar as coisas antecipadamente porque também conhece
previamente as escolhas que elas farão?
A Bíblia destaca a eleição conectada com a presciência de
Deus. Observe:
Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são
forasteiros da Diáspora no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na
Bitínia, eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do
Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo. Que a graça
e a paz lhes sejam multiplicadas.
1Pedro 1.1-2
O que o texto sagrado diz é “eleitos, segundo a
presciência de Deus Pai”. A eleição se baseia no pré-conhecimento divino das
escolhas humanas. O ser humano recebeu o livre-arbítrio e é responsável, assim,
tanto por suas escolhas como também pelas consequências que delas provêm.
Que Deus permitiu que o homem fizesse as próprias
escolhas, e que não o “atropelará” obrigando-o a fazer o que não queira, pode
ser visto em vários textos bíblicos. Mas quero citar apenas um, visto que a
ideia não é exaurir o tema aqui (trata-se de assunto para outro livro).
— Homens teimosos e incircuncisos de coração e de
ouvidos, vocês sempre resistem ao Espírito Santo. Vocês fazem exatamente o
mesmo que fizeram os seus pais.
Atos 7.51
Nessas palavras, Estevão, em sua última pregação, afirma
que os israelitas de seus dias, a exemplo de seus antepassados, resistiram ao
Espírito Santo. Não o fizeram apenas uma vez ou outra, mas o faziam sempre.
Isso significa que o homem pode resistir a Deus?
Claro que sim!
Não porque seja mais forte, tampouco porque Deus não seja
soberano. Pelo contrário, foi justamente por causa da escolha soberana de Deus
que o homem recebeu seu livre-arbítrio, seu direito de escolha.
Judas escolheu se matar. Saul também. Qualquer pessoa
pode acabar com sua vida “antes do tempo”, bem como com a vida dos outros. Por
isso Deus ordenou ao homem que não matasse. Se isso fosse possível somente por
determinação divina, o Criador não precisaria nem mesmo nos proibir de matar
alguém! Se tal determinismo fatalístico fosse verdadeiro, então ninguém deveria
ser culpado de matar outro, já que não teria sido sua própria escolha tirar a
vida de alguém. Antes de Caim matar seu irmão Abel, o Senhor o advertiu:
— Por que você anda irritado? E por que essa cara
fechada? Se fizer o que é certo, não é verdade que você será aceito? Mas, se
não fizer o que é certo, eis que o pecado está à porta, à sua espera. O desejo
dele será contra você, mas é necessário que você o domine.
Gênesis 4.6-7
Observe as frases em destaque. Deus advertiu Caim de que
o pecado o rodeava e que era responsabilidade dele dominar o desejo que o levou
a matar o próprio irmão.
Nossas escolhas e as consequências que delas provêm não
anulam a soberania de Deus. Ele mesmo foi quem quis que as coisas fossem assim.
Além do mais, ele conhece todas as coisas, mesmo as que ainda não aconteceram,
e não pode ser pego de surpresa por nada nem ninguém. E, no entanto, ele nos
deixou escolhas que podem, entre outras coisas, afetar nossa saúde e nosso
tempo de vida.
Não estou dizendo que podemos decidir até quando
viveremos, mas sim que devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para
garantir que não abortemos o que poderíamos experimentar em termos de
longevidade. Gosto de uma afirmação da dra. Denise Portugal, em seu livro Start
para o bem-estar, e a compartilho aqui:
Costumo dizer que não somos donos do tempo. Ninguém sabe
o dia de amanhã, só sabe que vai morrer um dia. Não é porque sou saudável que
vou viver mais ou menos. Existem algumas probabilidades, quando se é saudável,
de que se tenha menos riscos de contrair doenças. Porém, uma coisa é certa:
minha qualidade de vida será melhor, independentemente de quantos anos vou
viver. Se eu viver mais 10, 20 ou 50 anos, terei certeza de que fiz minha parte
com relação ao meu corpo. E você? O que está fazendo com o seu templo?1
Que sejamos sábios e façamos as escolhas corretas. O céu,
por mais maravilhoso que seja, poderá ser desfrutado eternamente. Porém o
galardão eterno a ser recebido lá depende do quanto trabalhamos do lado de cá.
Por isso aconselho você a também preferir viver mais e experimentar a bênção da
longevidade.
1 Denise Portugal, Start para o bem-estar: Todo dia é um
novo começo (Rio de Janeiro: Central Gospel, 2017), p. 25-26.
4
A MORDOMIA DO CORPO
Será que vocês não sabem que o corpo de vocês é santuário
do
Espírito Santo, que está em vocês e que vocês receberam
de Deus, e que vocês não pertencem a vocês mesmos? Porque vocês foram comprados
por preço. Agora, pois, glorifiquem a Deus no corpo de
vocês.
1CORÍNTIOS 6.19-20
Anteriormente falei da responsabilidade que temos de
cuidar do corpo e da saúde. Agora ampliarei um pouco mais esse conceito, e o
farei sob outra perspectiva, com base em outro princípio bíblico: a boa
mordomia.
Uma das principais razões pelas quais devemos cuidar do
corpo é porque ele não é nosso, mas pertence ao Senhor, como destacado no versículo
acima. O apóstolo deixa claro, em duas frases distintas, o fato de que somos
propriedade de Deus. Primeiramente ele afirma que não nos pertencemos. Depois,
declara que fomos comprados, que é a razão de não sermos de nós mesmos.
E por que Deus se tornou proprietário?
Porque ele nos comprou!
Sim, o texto bíblico declara exatamente isso: “Porque
vocês foram comprados”. A Palavra de Deus diz que Jesus, com sua morte, nos
comprou para Deus:
[…] e cantavam um cântico novo, dizendo:
“Digno és de pegar o livro e de quebrar os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra.” Apocalipse 5.9-10
Isto é redenção. Para muitos cristãos, a palavra “redenção” não significa nada mais do que “salvação” ou “perdão dos pecados”. Mas seu significado vai muito além disso. “Redenção” significa “resgate” ou “remissão”. Retrata a ação de readquirir uma propriedade perdida.
Entendendo a redenção
Quando a Bíblia afirma que nós temos a redenção pelo
sangue de Jesus (Ef 1.7), está fazendo uma aplicação espiritual de uma lei
natural, pois a lei mosaica não era apenas a Escritura Sagrada do povo hebreu,
mas era, também, a constituição, o código civil, daquele povo.
O livro de Rute, por exemplo, nos mostra Boaz como um
redentor, um resgatador das propriedades de Noemi (o que incluía a
responsabilidade de casar-se com Rute). Nessa ocasião ele estava readquirindo
uma posse perdida de alguém com parentesco, e teve de fazê-lo seguindo todos os
princípios dessa lei.
A premissa bíblica era clara desde a antiga aliança: toda
dívida precisava ser paga. Se uma pessoa não tivesse recursos para honrar seus
compromissos, deveria dar seus bens em pagamento, e, se estes também não fossem
suficientes, ela deveria dar suas terras. E, se isso ainda não bastasse para a
quitação de sua dívida, o próprio indivíduo (e às vezes até a própria família)
deveria ser entregue como pagamento, o que faria dele um escravo!
Em 2Reis 4.1-7, lemos que uma viúva teria seus filhos
levados como escravos caso ela não pagasse sua dívida. Nessa trágica condição,
só havia duas formas de a pessoa sair da escravidão: ou alguém teria de pagar
sua dívida (um redentor), ou ela teria de esperar nessa condição até que o Ano
do Jubileu chegasse, o que ocorria a cada cinquenta anos. A exceção a esse
prazo se dava somente quando o escravo também fosse um hebreu; então, serviria
por seis anos e no sétimo sairia livre (Êx 21.2). Veja o que a lei de Moisés
dizia a esse respeito:
Se alguém do seu povo empobrecer e vender alguma parte
das suas propriedades, então virá o seu resgatador, seu parente, e resgatará o
que esse seu irmão vendeu. Se alguém não tiver resgatador, porém vier a
tornar-se próspero e achar o bastante com que a remir, então contará os anos
desde a sua venda, e o que ficar restituirá ao homem a quem vendeu; e assim
poderá voltar à sua propriedade. Mas, se as suas posses não lhe permitirem
reavê-la, então a propriedade que for vendida ficará na mão do comprador até o
Ano do Jubileu; porém, no Ano do Jubileu, sairá do poder deste, e aquele poderá
voltar para a sua propriedade.
Levítico 25.25-28
Nesse texto, que trata somente da perda da terra, e não
da escravidão, vemos que havia três formas de alguém recuperar suas posses: 1)
a redenção (o pagamento feito por um parente); 2) o perdão de sua dívida,
proclamado no Ano do Jubileu; e 3) sua própria possibilidade de pagar a dívida
caso viesse a prosperar (o que não ocorria no caso dos escravos). Para o
escravo, porém, só havia duas formas de ficar livre: no Ano do Jubileu ou pela
redenção.
A redenção era o pagamento da dívida, feito por um
parente próximo. Por meio da quitação da dívida, comprava-se de volta tudo
aquilo que se havia perdido. Assim, a pessoa que fora escravizada não mais
pertenceria a quem antes ela devia, embora passasse a pertencer (até o próximo
Jubileu) àquele que quitou sua dívida. Por exemplo: se eu me endividasse a
ponto de perder todas as minhas posses e fosse transformado em escravo, e meu
irmão me resgatasse, eu não deixaria de ser escravo. Eu somente mudaria de dono.
Passaria a ser escravo de meu irmão, porque ele teria me
comprado.
E qual seria o proveito disso?
De que adiantaria ficar livre de um, para se tornar
escravo de outro?
A diferença era que o novo dono era um parente e só havia
pagado aquela dívida por amor (uma vez que, dependendo do valor da dívida,
podia-se comprar um escravo por bem menos), e, justamente por causa de seu
amor, ele trataria o escravo com brandura e misericórdia.
Foi exatamente isto que Jesus fez por nós! Ele nos
comprou para Deus através de sua morte na cruz. Reapresento aqui o registro de
João em Apocalipse: “com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de
toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e
sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra” (Ap 5.9b-10). Nossa redenção pode
ser vista, no reino espiritual, como o paralelo de uma transação comercial
semelhante à que constatamos na lei de Moisés.
Vejamos, agora, um breve panorama da condição humana e do
que Cristo fez por nós.
O homem transformou-se em escravo de Satanás ao render-se
ao pecado no jardim do Éden. A Bíblia declara que “aquele que é vencido fica
escravo do vencedor” (2Pe 2.19), e foi o que ocorreu ao primeiro casal. Eles
foram separados da glória de Deus e perderam sua filiação divina. A condição de
pecado e morte espiritual passou a todos os homens (Rm 5.12), e não havia como
a humanidade resolver por conta própria seu problema, pois a dívida do pecado
era impagável:
Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o pode remir,
nem pagar por ele a Deus o seu resgate — pois a redenção
da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre —, para que
continue a viver perpetuamente e não venha a morrer.
Salmos 49.7-9
Mas Jesus veio pagar a dívida de nosso pecado, e, ao
fazê-lo, garantiu nossa libertação das mãos de Satanás:
Ele nos libertou do poder das trevas e nos transportou
para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a remissão dos
pecados.
Colossenses 1.13-14
Essa redenção foi um ato de compra, efetuado pelo
pagamento da dívida do pecado:
Cancelando o escrito de dívida que era contra nós e que
constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente,
cravando-o na cruz. E, despojando os principados e as potestades, publicamente
os expôs ao desprezo, triunfando sobre eles na cruz.
Colossenses 2.14-15
A Bíblia Sagrada revela que Jesus despojou — isto é,
privou de posse, desapossou — os príncipes malignos. Isso nos faz questionar o
que, exatamente, Jesus tomou desses principados malignos.
O que eles possuíam que pudesse interessá-lo?
Nada, a não ser nossa vida!
Portanto, o despojo somos nós, que fomos comprados por
ele para seu Pai, e, a partir de então, passamos a ser propriedade de Deus.
Repetidas vezes encontramos a ênfase de que o Senhor
Jesus Cristo nos comprou para si. E o preço não foi pago com moeda terrena, e
sim com seu próprio sangue:
Sabendo que não foi mediante coisas perecíveis, como
prata ou ouro, que vocês foram resgatados da vida inútil que seus pais lhes
legaram, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e
sem mácula.
1Pedro 1.18-19
É justamente aqui que entendemos a necessidade de Deus,
na pessoa de Jesus, encarnar e tornar-se um de nós. Pois somente um semelhante,
alguém com consanguinidade, poderia levantar-se como redentor de outro ser
humano.
Entendendo a consequência da redenção
Portanto, quando Jesus nos comprou, ele nos livrou da
escravidão do diabo, mas nos fez escravos de Deus! E, como um ato de compra, a
redenção fez de Deus nosso Senhor e Amo. Consequentemente, fez de nós sua
propriedade. Agora tudo o que somos e temos pertence a Deus. Coisa alguma do
que “possuímos” é de fato propriedade exclusivamente nossa. Nem a nossa própria
vida pertence a nós mesmos.
Somos propriedade de Deus! Ele é o nosso Dono! Portanto,
tudo aquilo que nos pertence é dele também. Referindo-se ao Espírito Santo em
nós, Paulo o chamou de “o penhor da nossa herança, para redenção da possessão
de Deus” (Ef 1.14, ARC). Observe que o termo “herança” aparece associado a
“redenção” e “possessão”, pois é disto que o princípio da redenção sempre
trata: o resgate da propriedade.
É exatamente assim que as Escrituras se referem a nós.
Somos agora chamados de propriedade de Deus:
Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação
santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamar as virtudes
daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.
1Pedro 2.9
Quando Paulo, naquele navio que acabou naufragando na
ilha de Malta, relata que um anjo lhe aparecera, ele declara: “Porque, esta
mesma noite, um anjo de Deus, de quem eu sou e a quem sirvo, esteve comigo” (At
27.23). As palavras “de quem sou” [a quem pertenço] e “a quem sirvo” [de quem
sou escravo] mostram o entendimento do apóstolo sobre a redenção e suas
consequências. Somos de Deus. Servimos a Deus.
Essa compreensão nos remete, finalmente, a outro importante princípio bíblico: a mordomia cristã.
A questão da mordomia
O mordomo (a quem hoje chamaríamos de gerente ou
administrador) tinha basicamente duas funções. Em primeiro lugar, era o
encarregado de cuidar das coisas de seu senhor, como José, no Egito, diante de
Potifar (Gn 39.4). E a segunda função era a de prestar contas de sua
administração, do trabalho realizado, princípio que pode ser constatado no
ensino de Jesus (Lc 16.2).
Portanto, administrar e prestar contas da administração
era o que se esperava de um mordomo. E podemos afirmar que, em nosso caso, como
mordomos de Deus, ainda é exatamente o que segue sendo esperado.
A boa mordomia envolve cuidar de tudo o que nos diz
respeito. Desde nossa família até nossos bens. Quando Paulo trata do assunto de
sermos comprados, enfatiza especialmente o cuidado do corpo:
Fujam da imoralidade sexual! Qualquer outro pecado que
uma pessoa cometer é fora do corpo; mas aquele que pratica imoralidade sexual
peca contra o próprio corpo. Será que vocês não sabem que o corpo de vocês é
santuário do Espírito Santo, que está em vocês e que vocês receberam de Deus, e
que vocês não pertencem a vocês mesmos? Porque vocês foram comprados por preço.
Agora, pois, glorifiquem a Deus no corpo de vocês.
1Coríntios 6.18-20
Paulo está dizendo que não temos o direito de entregar o
corpo à imoralidade porque o corpo não é mais nosso, mas de Deus, que o
comprou. E que, como bons mordomos que têm a responsabilidade de cuidar do
corpo que nos foi confiado (e, posteriormente, prestar contas disso), devemos
mantê-lo longe da imoralidade. Quando assim agimos, estamos honrando e
glorificando a Deus, que é o dono do corpo.
Portanto, separar-se do pecado e santificar-se para Deus
é glorificá-lo por meio do corpo. Não é um culto de palavras, mas não deixa de
ser uma exaltação ao Redentor. É um culto de santidade e boa mordomia!
Celebramos a redenção divina não somente por meio de cânticos e dança, mas
também por meio de atitudes. Quando reconhecemos que Deus comprou nosso corpo e
cuidamos dele com a consciência de que ele é de Deus, estamos cultuando ao
Senhor.
Mas o conceito de glorificar ao Senhor com nosso corpo
não se limita apenas a mantê-lo longe da imoralidade. Também se estende ao
cuidado da saúde.
O cuidado com o corpo
As Sagradas Escrituras nos apresentam um conceito muito
específico quanto ao cuidado do corpo. Escrevendo aos efésios, Paulo abordou os
conceitos de “amor” e “cuidado” para com o corpo.
Assim também o marido deve amar a sua esposa como ama o
próprio corpo. Quem ama a esposa ama a si mesmo.
Efésios 5.28
Obviamente, ele não se referia ao conceito grego antigo
de “culto ao corpo”, até porque a palavra traduzida por “amor” é agapaó, que
indica um amor terno, elevado.1 E, depois de falar de amar o próprio corpo, ele
também fala de “alimentar” esse corpo e “cuidar” dele:
Porque ninguém jamais odiou o seu próprio corpo. Ao
contrário, o alimenta e cuida dele, como também Cristo faz com a igreja; porque
somos membros do seu corpo.
Efésios 5.29-30
Creio que devemos guardar em mente a seriedade com que o
próprio Deus trata a questão do cuidado do corpo. O texto diz que ninguém
jamais odiou a própria carne. Portanto, o oposto de amar e cuidar é odiar. Quem
cuida do corpo, expressa amor por ele; mas quem negligencia o cuidado do templo
do Espírito, odeia-o, sabota-
o. O exemplo dado é o da ação de Cristo com sua Igreja.
Ele alimenta e cuida de seu corpo, que é a Igreja. E esse deveria ser nosso
modelo de cuidado a ser exercido com nosso próprio corpo.
A advertência bíblica acerca do julgamento de quem opta
pela atitude oposta me parece muito evidente:
Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o
Espírito de Deus habita em vocês? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus
o destruirá. Porque o santuário de Deus, que são vocês, é sagrado.
1Coríntios 3.16-17
A declaração feita a quem destrói seu corpo, o santuário
do Espírito, é cristalina: “Deus o destruirá”. Muitos acreditam que o termo
“destruir o corpo” se limita ao suicídio, a quem tira a própria vida pela
destruição do corpo. Mas não há nada nessa afirmação que exclua uma destruição
gradual, não instantânea.
Aqui, obviamente, refiro-me ao descuido da saúde e não ao
envelhecimento, que é um processo natural. Sobre a questão do envelhecimento,
Paulo declarou:
Por isso não desanimamos. Pelo contrário, mesmo que o
nosso ser exterior se desgaste, o nosso ser interior se renova dia a dia.
2Coríntios 4.16
Costumo brincar que o envelhecimento é uma morte à
prestação; pagamos um gigantesco “carnê” com prestações diárias (talvez a nova
geração precise pesquisar para descobrir o que era esse carnê). O apóstolo diz
que o homem exterior, o corpo, ou seja, nossa casca, se desgasta. A palavra
usada no original grego e traduzida por “desgaste” é diaphtheiró, que significa
“corromper, destruir, arruinar, consumir”.2 Ou seja, uma mudança para pior. O
corpo já vive um processo natural de deterioração por meio do envelhecimento.
Mas ninguém precisa acelerar o processo, antecipando seus anos de vida, por
mera negligência quanto ao cuidado do corpo.
Creio que vale acrescentar, aqui, uma percepção
importante sobre como envelhecemos. O dr. Aldrin Marshall, em seu livro Rumo
aos
120: Como desfrutar a realidade bíblica e científica de
uma vida plena, comenta:
Para falarmos sobre envelhecimento, precisamos
compreender os processos e escolhas que faremos em nosso estilo de vida que
podem levar-nos a um envelhecimento saudável (senescência) ou não saudável
(senilidade).
A senescência abrange todas as alterações produzidas no
organismo de um ser vivo e que são diretamente relacionadas a sua evolução no
tempo, levando a um declínio da reserva funcional sem nenhum mecanismo de
doença reconhecido. Como exemplos de senescência temos a queda ou o
embranquecimento dos cabelos, a perda de flexibilidade da pele e o aparecimento
de rugas. São fatores que podem incomodar, mas nenhum deles provoca
encurtamento da vida ou alteração funcional.
Já a senilidade pode ser definida como as condições que
acometem o indivíduo no decorrer da vida baseadas em mecanismos
fisiopatológicos (geradores de doenças). São, dessa forma, doenças que
comprometem a qualidade de vida das pessoas, mas não são comuns a todas elas em
uma mesma faixa etária. Por exemplo: a perda hormonal no homem que impede a
vida sexual ativa, a osteoartrose, demência e o diabetes, entre outros
comprometimentos. Todas essas circunstâncias não são normais da idade e nem
comuns a todos os idosos, por isso são caracterizadas como quadro de
senilidade.
Para que possamos desfrutar de uma longevidade saudável
(senescência) é necessário uma atitude preventiva e intervencionista.
Sempre digo para meus pacientes que eu não quero tratar
nenhuma doença neles, mas sim que eles não fiquem doentes. Para isso, é
necessária uma mudança de atitude, saindo de uma posição passiva para a ativa,
para que a idade biológica fique cada vez mais distante da idade cronológica. E
isso se dá com ações que evitem ou minimizem fatores que podem levar a essas
doenças, estabelecendo verdadeiros pilares do envelhecimento saudável.3
Que nossa compreensão mude! Que o cuidado do corpo seja
não um mero ato de vaidade, mas, sim, a valorização da saúde e, acima de tudo,
um ato de boa mordomia que expressa nosso entendimento da redenção e a
responsabilidade que temos de cuidar bem do que nos foi confiado — mas que não
é nosso.
Apresento, novamente, o texto utilizado no início do
capítulo, desta vez, utilizando a paráfrase bíblica A Mensagem:
Ou vocês não sabem que o corpo é um lugar sagrado, onde mora o Espírito Santo? Vocês percebem que não podem viver de qualquer maneira, desperdiçando algo pelo qual Deus pagou um preço tão alto? A parte física não é mero apêndice da parte espiritual. Tudo pertence a Deus. Portanto, deixem que as pessoas vejam Deus no corpo de vocês e através dele.1Coríntios 6.19-20
Você já foi redimido?
Encerro este capítulo chamando sua atenção para algo
ainda mais importante que o cuidado do corpo: a salvação de sua alma.
O passo inicial, para viver essa redenção plena e
duradoura, é a rendição completa de nossa vida a Cristo. A mensagem de Jesus
era muito clara: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo;
arrependam-se e creiam no evangelho” (Mc 1.15). As pessoas devem se arrepender
de seus pecados e crer no evangelho da salvação.
Depois do arrependimento deve vir a fé: “Deus amou o
mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele
crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Não se trata apenas de crer
que Jesus existe e é o Filho de Deus; deve-se crer em sua morte e ressurreição
como um sacrifício feito em nosso lugar — os verdadeiros merecedores da
sentença que ele suportou.
E essa fé necessita ser verbalizada. A Palavra de Deus
assegura: “Se com a boca você confessar Jesus como Senhor e em seu coração crer
que Deus o ressuscitou dentre os mortos, você será salvo. Porque com o coração
se crê para a justiça e com a boca se confessa para a salvação” (Rm 10.9-10).
Se você ainda não tomou a decisão de fazer de Cristo seu Senhor e Salvador,
pode fazê-lo agora mesmo. A redenção, realizada por Jesus Cristo, requer
apropriação pessoal. Ou, caso já tenha feito isso um dia, e porventura tenha se
afastado dele e se desviado do caminho da justiça, você também pode
consertar-se com Deus imediatamente. Com a finalidade de ajudá-lo a expressar
sua fé, registro adiante uma oração que, se você entende que expressa, de forma
sincera, aquilo em que seu coração, com o entendimento bíblico recebido, passou
a crer, deve ser declarada em voz alta de modo a verbalizar a fé do coração:
Senhor Jesus, reconheço hoje minha condição de pecador e
também o fato de que tu és o Salvador da humanidade. Eu me arrependo de meus
pecados que custaram tua morte e me aproprio, pela fé, da redenção consumada em
tua ressurreição. Entrego o controle de minha vida em tuas mãos e oro para que,
a partir de hoje, teu Espírito faça de mim uma nova criatura. Recebo tua graça
e a justificação que dela provém. Creio que agora sou teu filho e que pertenço
totalmente a ti. Peço que me guies nessa nova jornada, em nome de Jesus, amém!
Se você fez sua decisão por Cristo, há algumas coisas que
serão indispensáveis a partir de agora. Você não deve tentar viver sua fé
sozinho; procure uma igreja evangélica para ser batizado e poder congregar com
parte de sua nova família, a família de Deus. Adquira uma Bíblia e passe a ler
e meditar nela diariamente. Procure orar com frequência. Esses recursos serão
muito importantes para o seu crescimento espiritual.
Bible Hub, verbete agapaó, G25, <h
ps://biblehub.com/greek/25.htm>.
Bible Hub, verbete diaphtheiró, G1311, <h
ps://biblehub.com/greek/1311.htm>.
Aldrin Marshall de Toledo Rocha, Rumo aos 120: Como desfrutar a realidade bíblica e científica de uma vida plena (São Paulo: Hagnos [no prelo]).5
EVITE A SOBRECARGA
Quando ele fez menção da arca de Deus, Eli caiu da
cadeira para trás, junto ao portão da cidade, quebrou o pescoço e morreu. Ele
era um homem velho e pesado, e havia julgado Israel durante
quarenta anos. 1SAMUEL 4.18
Alguns anos atrás, ainda no início do processo de
entender os valores bíblicos sobre o cuidado do corpo e, a partir daí, ajustar
meu estilo de vida, o Senhor chamou minha atenção para um texto bíblico:
Se alguma mulher crente tem viúvas em sua família,
socorra-as, para que a igreja não fique sobrecarregada e possa socorrer as
viúvas que não têm ninguém.
1Timóteo 5.16
O escrito de Paulo se refere, obviamente, ao cuidado com
as viúvas e a necessidade de que a igreja sustentasse aquelas senhoras que se
encontravam sem amparo familiar. Uma orientação clara sobre a importância de
recompensar os progenitores na velhice já havia sido dada (1Tm 5.4), e agora o
apóstolo instrui Timóteo a respeito de quais viúvas seriam cuidadas pela
igreja, e quais não seriam. A razão de tal distinção é “para que a igreja não
fique sobrecarregada”.
Recordo que, enquanto meditava nesse texto, o Espírito
Santo me falou ao coração: “Nenhuma sobrecarga é sábia…” A princípio, deduzi
que Deus queria me mostrar alguma verdade acerca das atividades da igreja — que
é o contexto do versículo — quando a frase foi completada: “… nem mesmo o seu
excesso de peso!”.
Nesse instante, entendi que a lógica por trás de uma
instrução dada às igrejas supervisionadas por Timóteo era exatamente a mesma
que devemos considerar ao refletir acerca de nosso próprio peso.
Consequências do excesso de peso
Sem dúvida, quando há muito peso em qualquer coisa — ou
pessoa — a tarefa de se carregar aquilo que é pesado torna-se mais desafiadora.
Uma casa cuja construção se torna mais pesada do que podem suportar seus
alicerces seguramente terá problemas. Um automóvel que extrapola o peso limite
que sua suspensão pode aguentar certamente sofrerá danos. De igual modo, uma
embarcação que excede o peso ideal de carga pode vir a afundar. Em tais
circunstâncias, aliviar o peso talvez seja o único modo de evitar tragédias
piores. Isso é parte de um entendimento antigo — e básico — que sempre foi
respeitado na navegação. É curioso observar que as Escrituras também registram
isso no já mencionado relato do naufrágio sofrido pelo apóstolo Paulo:
Açoitados severamente pela tormenta, no dia seguinte
começaram a jogar a carga no mar. E, no terceiro dia, nós mesmos, com as
próprias mãos, lançamos ao mar a armação do navio.
Atos 27.18-19
Por que eles jogaram a carga no mar? Ora, a carga era
valiosa, e provavelmente seu transporte era parte do motivo daquela viagem,
talvez a principal. Porém, para evitar o risco de ir a pique, o navio precisava
de alívio daquele peso.
Se o excesso de peso é danoso em qualquer outra
circunstância, por que deduziríamos que carregar peso extra no corpo não nos
afetará?
Será que não temos nos recusado a admitir que, para não
naufragar em nossa saúde física, seria sensato nos livrarmos dos (vários)
quilos extras que muitos de nós carregamos?
Sei que esse não é o único parâmetro de uma avaliação da
saúde e seus riscos, mas a obesidade, indubitavelmente, está entre os que
deveriam ser classificados como principais. Uma pesquisa do centro
norte-americano de pesquisa em saúde Kaiser Permanente destacou que “quem é
obeso morre mais cedo do que as pessoas com um peso normal ou com sobrepeso”. A
pesquisa durou doze anos e analisou o índice de massa corporal (IMC) e a morte
em 11.326 adultos. Embora o foco tenha sido a mortalidade, e não a qualidade de
vida, a pesquisa constatou que “existem diversas consequências negativas para a
saúde associadas à obesidade, incluindo pressão alta, colesterol alto e
diabetes”.1
Outra matéria, publicada na Veja Saúde, enfatiza que “vai
longe o tempo em que a obesidade era apenas um problema estético”. Décadas de
estudos mostraram que os quilos além da conta desencadeiam uma porção de
malefícios à saúde. E quando a gordura se acumula na região da barriga o
estrago tende a ser maior. “O tecido gorduroso entremeado naquela área colabora
para a produção de substâncias inflamatórias que estão por trás de males
cardiovasculares”, diz o cardiologista Álvaro Avezum, da Sociedade de Cardiologia
do Estado de São Paulo. Essas malfeitoras geralmente circulam por todo o
organismo e, não raro, acabam trombando com as artérias e favorecendo a
aterosclerose e o infarto.2
O dr. David Pelure, médico neurologista e autor do livro
A dieta da mente: Descubra os assassinos silenciosos do seu cérebro, adverte
que o sobrepeso, além do risco de diabetes e ao sistema cardiovascular (sem
contar o dos danos às juntas e articulações), também proporciona dano cerebral:
A maioria das pessoas tem uma ideia razoável de que
carregar peso extra é ruim para elas. Mas se você precisa de apenas uma razão a
mais para perder os quilos em excesso, talvez o medo de perder a cabeça —
física e literalmente — vai motivá-lo a tirar o traseiro da cadeira. […]
Hoje sabemos que as células adiposas desempenham na
fisiologia humana um papel muito maior do que simplesmente armazenar calorias.
As massas de gordura corporal formam órgãos hormonais complexos e sofisticados,
que são tudo, menos passivos. Sim, você leu isso mesmo: a gordura é um órgão. E
um órgão que pode ser dos mais industriosos do corpo, desempenhando várias
funções além de nos manter aquecidos e protegidos. Isso é particularmente
verdadeiro em relação à gordura visceral — aquela que envolve nossos órgãos
internos, “viscerais”, como o fígado, os rins, o pâncreas, o coração e os
intestinos. A gordura visceral foi muito abordada pela mídia, nos últimos anos,
por um bom motivo: hoje sabemos que é o tipo mais devastador para nossa saúde.
Podemos lamentar coxas que se encostam, o músculo do tchauzinho, os pneuzinhos,
as celulites e os popozões, mas o pior de todos os tipos de gordura é aquele
que não podemos ver, sentir ou tocar. Em casos extremos, podemos vê-la em
barrigas salientes e dobrinhas, que são sinais exteriores de órgãos internos
envolvidos por gordura (exatamente por isso, a medida da cintura costuma ser
uma medida de “saúde”; quanto maior a circunferência da cintura, maior é o
risco de doenças e mortes).
Resumindo: mais que um simples predador à espreita atrás
de uma árvore, a gordura visceral é uma inimiga armada e perigosa. O número de
problemas de saúde hoje relacionados a ela é enorme, desde os mais óbvios, como
a obesidade e a síndrome metabólica, até os não tão óbvios — câncer,
transtornos autoimunes e doenças cerebrais.3
O neurologista ainda assevera que “para cada quilo a mais
no corpo, especialmente obesidade central, que se define por uma alta razão
entre a cintura e o quadril, o cérebro fica um pouco menor. É irônico que, à
medida que o corpo cresce, o cérebro diminui”.4
O dr. Joseph Mercola adverte, em seu livro Combustível
para a saúde, sobre os riscos da circunferência abdominal aumentada, um dos
indicativos de sobrepeso e obesidade:
A circunferência abdominal é uma medida importante, pois
ela é uma referência bem precisa para prever seu risco de morte por ataque
cardíaco, entre outras causas. […]
Sua circunferência abdominal é um prognóstico tão importante da saúde porque o tipo de gordura armazenada na sua cintura, chamada de “gordura visceral”, está relacionada com a liberação de proteínas e hormônios que provocam inflamação, o que pode danificar suas artérias e afetar como você metaboliza açúcares e gorduras. Por isso, a gordura visceral está muito ligada com diabetes tipo 2, doenças cardíacas, AVC, mal de Alzheimer, além de outras doenças crônicas.5
Uma nova epidemia
A obesidade está sendo denominada por muitos
profissionais da área da saúde como “a nova epidemia”. Em artigo intitulado
“Doenças desencadeadas ou agravadas pela obesidade”,
disponibilizado pelo site da Associação Brasileira para o
Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), a dra. Maria Edna de Melo
pontua os riscos da obesidade:
A obesidade é uma doença cada vez mais comum, cuja
prevalência já atinge proporções epidêmicas. Uma grande preocupação médica é o
risco elevado de doenças associadas ao sobrepeso e à obesidade, tais como
diabetes, doenças cardiovasculares (DCV) e alguns cânceres. […]
Vários estudos têm demonstrado que a obesidade está
fortemente associada a um risco maior de desfechos, sejam cardiovasculares,
câncer ou mortalidade. No estudo National Health and Nutrition Examination
Study III (NHANES III), que envolveu mais de 16 mil participantes, a obesidade
foi associada a um aumento da prevalência de diabetes tipo 2 (DM2), doença da
vesícula biliar, doença arterial coronariana (DAC), hipertensão arterial
sistêmica (HAS), osteoartrose (OA) e de dislipidemia. Resultados de outros estudos,
entre eles o Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe (SHARE) e o
Swedish Obese Study (SOS), apontam para uma forte associação entre obesidade e
a prevalência de doenças associadas e queixas de saúde física.
A obesidade é causa de incapacidade funcional, de redução
da qualidade de vida, redução da expectativa de vida e aumento da mortalidade.
Condições crônicas, como doença renal, osteoartrose, câncer, DM2, apneia do
sono, doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), HAS e, mais importante,
DCV, estão diretamente relacionadas com incapacidade funcional e com a
obesidade. Além disso, muitas dessas comorbidades também estão diretamente
associadas à DCV. Muitos estudos epidemiológicos têm confirmado que a perda de
peso leva à melhora dessas doenças, reduzindo os fatores de risco e a
mortalidade. […]
Além das doenças acima, uma série de outras doenças, que
podem acometer qualquer órgão ou sistema, foi reconhecida como associada ao
aumento de peso. Podem ser citadas a doença do refluxo gastroesofágico, a asma
brônquica, insuficiência renal crônica, infertilidade masculina e feminina,
disfunção erétil, síndrome dos ovários policísticos, veias varicosas e doença
hemorroidária, hipertensão intracraniana idiopática
(pseudotumor cerebri), disfunção cognitiva e demência.6
É fato que os relatos da presença de obesos na sociedade
remontam a épocas antigas, como os períodos bíblicos do Antigo Testamento.
Observe a menção de Eglom, rei dos moabitas, por exemplo:
Então os filhos de Israel clamaram ao SENHOR, e o SENHOR
lhes suscitou um libertador: Eúde, homem canhoto, filho de Gera, benjamita. Por
meio dele, os filhos de Israel enviaram tributo a Eglom, rei dos moabitas. Eúde
fez para si um punhal de dois gumes, do comprimento de quase meio metro; e
cingiu-o debaixo da sua roupa, do lado direito. Então ele levou o tributo a
Eglom, rei dos moabitas. Eglom era um homem muito gordo. Depois de entregar o
tributo, Eúde saiu com os carregadores do tributo. Ele, porém, voltou do ponto
em que estavam as imagens de escultura ao pé de Gilgal e disse ao rei: — Tenho
uma palavra secreta para o senhor, ó rei.
O rei disse:
— Cale-se.
Então todos os que estavam com o rei saíram de sua
presença. Eúde entrou numa sala de verão, que o rei tinha só para si, e onde
ele estava sentado. Eúde disse:
— Tenho uma palavra de Deus para o senhor.
E Eglom se levantou da cadeira. Então Eúde estendeu a mão
esquerda, puxou o seu punhal do lado direito e o cravou na barriga do rei, de
tal maneira que entrou também o cabo com a lâmina; e, porque não tirou o punhal
da barriga, a gordura se fechou sobre ele. Eúde saiu por uma portinhola, passou
para a antessala, depois de fechar e trancar as portas atrás de si.
Juízes 3.15-23
A ênfase, na narrativa bíblica, é de que o rei era muito
gordo. Não apenas gordo, mas muito gordo. Era tão obeso a ponto de o cabo do
punhal usado para golpear sua barriga ter sido “engolido” pela gordura!
Outro exemplo bíblico é o de Eli, sumo sacerdote durante
a infância do profeta Samuel:
Quando ele fez menção da arca de Deus, Eli caiu da
cadeira para trás, junto ao portão da cidade, quebrou o pescoço e morreu. Ele
era um homem velho e pesado, e havia julgado Israel durante quarenta anos.
1Samuel 4.18
O texto destaca que ele “era um homem velho e pesado”.
Penso que sua morte não é atribuída apenas ao acidente em si, à queda da
cadeira, mas ao fato de ser pesado — além de velho —, bem como ao impacto
amplificado pelo peso na queda.
O fator mais importante, no entanto, não é especular
sobre a razão da morte de Eli, e sim destacar a presença de pessoas obesas,
pesadas, ao longo da história. Pessoas com peso acima do padrão não são
novidade. A diferença entre a antiguidade e a atualidade, entretanto, tem a ver
com a quantidade de gente com sobrepeso. O que já foi, no passado, exceção,
está se tornando comum, corriqueiro. E, justamente por isso, nossa capacidade
de perceber a seriedade do problema acaba desvanecendo.
Sei que as pessoas que estão acima do peso, de forma
geral, não gostam desse tipo de conversa que visa alertá-las. Por diversas
razões. Talvez seja por uma abordagem hostil, não apropriada. Talvez se deva ao
aspecto emocional, por soar como desaprovação ou mesmo condenação. Talvez seja
por expor uma realidade que não queremos admitir ou enfrentar. Ou por outros
fatores. Ou mesmo a soma de vários deles. Eu, particularmente, recordo que não
gostava das conversas do tipo “quem avisa amigo é” quando estava bem acima do
peso. E diria que até hoje não sei classificar com exatidão a razão de meu
incômodo — talvez fosse a soma de alguns deles.
Mas, como diziam os antigos, temos de “dar nomes aos
bois”. Obesidade é doença. Ela não apenas contribui para o desenvolvimento (e
agravamento) de muitas outras doenças e enfermidades; ela própria é
classificada como uma doença. A jornalista Juliana Conte, em artigo intitulado
“Por que a obesidade é considerada doença crônica?”, postado no Portal Drauzio
Varella, afirma:
Em 2013, a American Medical Association, uma das
organizações médicas mais influentes do mundo, decidiu classificar a obesidade
como doença. Ao longo dos anos, outras entidades médicas internacionais —
incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS) — reconheceram a condição como
um problema crônico, que necessita de tratamento específico e de longo prazo.
Em termos médicos, a obesidade é definida como um
depósito de excesso de gordura que prejudica a saúde.7
“O impacto da obesidade”, artigo no site do Ministério da
Saúde apresenta a questão do seguinte modo:
Falar em excesso de peso e obesidade vai muito além dos
números da balança. A obesidade é uma doença complexa, de origem multifatorial:
existem diversas causas envolvidas em seu surgimento, que podem ser de natureza
individual, coletiva, social, econômica, cultural e ambiental. Isso significa
dizer que a condição de obesidade não está relacionada apenas a atitudes e
comportamentos individuais.
A obesidade é uma doença que tem crescido no Brasil e no
mundo. Traduzindo em números, aproximadamente 60% dos adultos brasileiros já
têm excesso de peso, o que representa cerca de 96 milhões de pessoas, e 1 em
cada 4 tem obesidade, num total de mais de 41 milhões de pessoas, segundo a
Pesquisa Nacional de Saúde PNS/2020. Em 2021 9,1 milhões de indivíduos adultos
atendidos na APS já tinham diagnóstico de excesso de peso e mais de 4 milhões,
de obesidade, sendo que 624 mil tinham obesidade grave (grau III).
Pensando no futuro da sociedade, esses dados servem de
grande alerta. Isso porque o crescimento da obesidade confere grandes impactos
para o sistema de saúde, e essas consequências não se limitam aos custos
econômicos. Entram nessa lista os custos sociais, como a diminuição da
qualidade de vida, a perda de produtividade, a mortalidade precoce e os
problemas relacionados às interações sociais. Estamos falando especificamente
dos estigmas sofridos pelas pessoas com obesidade, o que pode ser traduzido em
preconceitos, bullying, discriminação, entre outros. Atitudes que prejudicam os
relacionamentos e reduzem o bem-estar emocional das pessoas com sobrepeso e
obesidade.
Sobre o impacto financeiro, Leandro Rezende, que é
epidemiologista e professor adjunto do Departamento de Medicina Preventiva da
Universidade Federal de São Paulo (USP), menciona que já existe um estudo que
mostra os custos diretos com tratamentos ambulatoriais e hospitalares de
aproximadamente 30 doenças e agravos em saúde que estão relacionados ao excesso
de peso e à obesidade e o percentual do custo total que poderia ser atribuído à
obesidade. O resultado mostrou que dos 6 bilhões de reais que foram utilizados,
em 2019, com tratamento de doenças crônicas, aproximadamente 22% ou 1,5 bilhão
foram atribuídos ao excesso de peso e à obesidade.
Mas além dessa amostra, o médico relembra que existem
custos que podem ser classificados como pessoais, sendo aqueles que saem
diretamente do bolso do cidadão, como a perda da qualidade de vida, perda de
produtividade no trabalho e mortalidade precoce.8
A sobrecarga de peso é, inquestionavelmente, um problema.
Pode até, para alguns, não parecer que seja, no momento, mas precisa ser visto
como tal no longo prazo. Recordo da ocasião em que fui questionado por um
médico, o dr. Jucenir, quando estava no auge de minha obesidade mórbida, sobre
quantas pessoas eu conhecia com excesso de peso em idade avançada. Respondi que
não me lembrava de ninguém.
— É porque é muito raro você achar algum idoso com tanto sobrepeso — pontuou o doutor. — Por que ao envelhecer emagrecemos? — questionei. — Não. É porque as pessoas com tanto peso costumam morrer mais cedo que as demais — ele respondeu.
Fiquei chocado. Mas agradeço a Deus por ter sido
confrontado desse modo. Essa foi uma de várias “peças do quebra-cabeça” que
estava sendo montado em minha nova forma de pensar o assunto.
Em outra ocasião, brinquei com um amigo — sempre zeloso
com sua saúde — que tentava me chamar a atenção para a importância de
emagrecer.
— Preciso que você me dê um bom motivo para emagrecer —
provoquei.
— Se a vida já é tão pesada, para que carregar tantos
quilos a mais?
— ele retrucou.
Eu ri. Mas ri sozinho. Ele não estava brincando.
Nenhuma sobrecarga é sábia. Além das muitas consequências
que já foram enfatizadas, precisamos pensar no que o sobrepeso fará com nossas
costas, joelhos e juntas do corpo de forma geral. O sobrepeso não ajuda a
mobilidade do presente e praticamente condena a do futuro, comprometendo o que
poderia ser uma “boa velhice”. Como já foi dito, a boa velhice não tem a ver
apenas com acrescentar anos à sua vida, mas sobretudo com acrescentar vida a
seus anos.
A obesidade é um problema. E sério. E esse problema
precisa ser resolvido. Os prognósticos estatísticos, no entanto, são
alarmantes. Uma matéria publicada no G1 aponta:
A obesidade deve atingir quase 30% da população adulta do
Brasil em 2030. É o que estima o Atlas Mundial da Obesidade 2022, publicado
pela Federação Mundial de Obesidade (World Obesity Federation), uma organização
voltada para redução, prevenção e tratamento da obesidade.
O Brasil está entre os países com maiores índices de
obesidade no mundo. Segundo a federação, estamos entre os 11 países onde vivem
a metade das mulheres com obesidade e entre os nove que abrigam metade dos
homens com obesidade.9
A matéria, datada de 9 de maio de 2022, ainda registra a
seguinte — e assustadora — previsão:
O levantamento também prevê que um bilhão de pessoas em
todo o mundo viverão com obesidade em 2030 (17,5% de toda a população adulta).
Segundo o atlas, uma a cada cinco mulheres e um a cada sete homens estarão
obesos daqui a oito anos.
A federação alerta que os países não apenas não
alcançarão a meta da OMS para 2025 de interromper o aumento da obesidade nos
níveis de 2010, mas que “o número de pessoas com obesidade está prestes a
dobrar em todo o mundo”.
“Os líderes políticos e de saúde pública precisam
reconhecer a gravidade do desafio da obesidade e agir. Os números em nosso
relatório são chocantes, mas o que é ainda mais chocante é o quão inadequada
nossa resposta tem sido. Todos têm um direito básico à prevenção, tratamento e
acesso à gestão que funcione para eles. Agora é a hora de uma ação conjunta,
decisiva e centrada nas pessoas para mudar a maré da obesidade”, disse
Johanna Ralston, CEO da Federação Mundial de Obesidade.10
Reconheça o problema
Reconhecer o problema é o primeiro passo para revertê-lo.
Deus age assim conosco. Certa ocasião me perguntaram o que eu achava sobre o
toque angelical, com brasa viva tirada do altar, na boca do profeta Isaías.
Permita-me transcrever a passagem bíblica antes de comentá-la:
Então eu disse:
— Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios
impuros, e hábito no meio de um povo de lábios impuros; e os meus olhos viram o
Rei, o SENHOR dos Exércitos!
Então um dos serafins voou para mim, trazendo na mão uma
brasa viva, que havia tirado do altar com uma pinça. Com a brasa tocou a minha
boca e disse:
— Eis que esta brasa tocou os seus lábios. A sua
iniquidade foi tirada, e o seu pecado, perdoado.
Isaías 6.5-7
O profeta reconheceu que seu problema tinha a ver com a
boca, com lábios impuros, ou seja, com pecados cometidos com a língua, por meio
da fala. Onde Deus o tocou? Naquela mesma área em que ele reconheceu que tinha
um problema!
É assim que Deus age. Os homens são chamados ao
arrependimento, que é, em essência, o reconhecimento de uma situação espiritual
deficiente. A admissão do problema costuma ser gerada por uma nova consciência
— que obviamente não se tinha antes — e que, por sua vez, foi gerada pela
pregação da Palavra. Sabemos que essa obra transformadora da salvação não é
alcançada de forma unilateral, excluindo a ação divina. Por outro lado, também
não é um ato unilateral divino. O ser humano é chamado a interagir com o Senhor
e deve corresponder à pregação que, antes de oferecer solução, ajuda
primeiramente no diagnóstico espiritual da condição do pecador.
Isso é um fato. E, seguindo o paralelo, se não começarmos
pelo reconhecimento de que a falta de cuidado do corpo é um problema grave (e,
dentro desse contexto, o excesso de peso), jamais teremos a capacidade de
ajustá-lo.
Milhares de estudos, com muitos milhares de pessoas, por
longos períodos de avaliação, seguem atestando, no mundo todo, que o excesso de
peso é causador de inúmeras enfermidades e deficiências em nossa saúde. Até
quando tentaremos, nas palavras da geração de meus pais, “tapar o sol com a
peneira”?
A obesidade é um problema a ser combatido, jamais aceito.
E precisamos focar o ponto certo. Lembro-me, quando ainda estava excessivamente
pesado, de ouvir um comentário condenando a gula e falta de domínio próprio dos
obesos. Misturando assuntos, a pessoa ainda mencionou “a falta de jejum”. Eu
nem dava ouvidos a tais comentários. Por quê? Porque jejuava mais do que a
maioria das pessoas que assim falavam. Não significava, entretanto, que eu não
deveria evitar o excesso de comida de outros momentos e melhorar no quesito
domínio próprio. Mas a abordagem errada em alguns aspectos não me ajudava a
enxergar a verdade comentada por outras pessoas.
Ouvi muita gente próxima de mim, com um pouco mais de
convívio, fazer o seguinte comentário na época de meu excesso de peso: “Você
come bem menos do que eu imaginava”. E eu pensava comigo: “Eles me julgam um
glutão só pelo meu peso?”, e, dessa forma, deduzia que não era um glutão. O
fato, no entanto, que eu viria a constatar depois, é que embora não fosse tão
glutão quanto alguns imaginavam, não significava que, em certa medida, eu não o
fosse.
A obesidade é acarretada por vários fatores, e não apenas
pela quantidade de ingestão calórica. Eu não dormia direito, não me alimentava
direito (e aqui refiro-me ao que comer, e não somente a quanto) e também não me
exercitava. E ainda tinha um estilo de vida bem estressante. Comento isso
porque o cuidado do corpo precisa ser visto como algo maior do que apenas
consertar o quesito peso e alimentação e, mesmo dentro desse espectro, outras
questões devem ser consideradas. É o que veremos a seguir.
“Excesso de peso pode gerar consequências devastadoras
para o coração, o fígado e a libido, por exemplo”, Correio Braziliense, 29 de
dezembro de 2009, <h
ps://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-esaude/2009/12/29/interna_ciencia_saude,163332/excesso-de-peso-pode-gerar-consequenciasdevastadoras-para-o-coracao.shtml>.
“Sobrepeso e excesso de gordura abdominal são
prejudiciais ao coração”, Veja Saúde, 10 de março de 2014, <h
ps://saude.abril.com.br/bem-estar/sobrepeso-e-excessode-gordura-abdominal-sao-prejudiciais-ao-coracao/>.
David Perlmu er, A dieta da mente: Descubra os assassinos silencioso do seu cérebro (São Paulo: Paralela, 2020), p. 162-163. Ibid., p. 164.
Joseph Mercola, Combustível para a saúde: A
revolucionária dieta para prevenir doenças e auxiliar no combate ao câncer, no
aumento da capacidade cerebral e energia vital e na manutenção do peso (São
Paulo: nVersos, 2017), p. 134.
Dra. Maria Edno de Mello, “Doenças desencadeadas ou
agravadas pela obesidade”, Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e
da Síndrome Metabólica (ABESO), 4 de maio de 2011, <h
ps://abeso.org.br/wp-content/uploads/2019/12/5521afaf13cb9-1.pdf>.
Juliana Conte, “Por que a obesidade é considerada doença
crônica?”, Portal Drauzio Varella, <h
ps://drauziovarella.uol.com.br/reportagens/por-que-a-obesidade-econsiderada-doenca-cronica/>.
“O impacto da obesidade”, Ministério da Saúde, 7 de junho
de 2022, <h
ps://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/eu-quero-ter-pesosaudavel/noticias/2022/
o-impacto-da-obesidade>.
“Obesidade deve atingir quase 30% dos adultos no Brasil em 2030, diz levantamento”, G1, 5 de setembro de 2022, <h ps://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/09/obesidade-deveatingir-quase-30percent-dos-adultos-no-brasil-em-2030-diz-levantamento.ghtml>. 10 Ibid. 6
ALIMENTAÇÃO
Tudo o que se move e vive servirá de alimento para vocês. Assim como lhes dei a erva verde, agora lhes dou todas as coisas. Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, vocês não devem comer. GÊNESIS 9.3-4
Penso ser necessário, antes de qualquer discussão sobre
comida na Bíblia, estabelecer o propósito divino por trás do que comemos.
O primeiro fundamento é o reconhecimento de Deus como o
Criador de todas as coisas — tanto dos que consomem alimentos como do próprio
alimento. O segundo fundamento está relacionado ao propósito para o qual os
alimentos foram criados.
Quanto ao primeiro, convém reconhecer que as Escrituras Sagradas atribuem a Deus a criação e a dádiva dos alimentos: E Deus disse ainda:
— Eis que lhes tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso servirá de alimento para vocês. E para todos os animais da terra, todas as aves dos céus e todos os animais que rastejam sobre a terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes servirá de alimento. E assim aconteceu. Gênesis 1.29-30
E não podemos concluir que, depois da criação, o Senhor
tenha se ausentado dos processos para garantir o ciclo de provisão alimentar
que foram por ele mesmo estabelecidos. O salmista declarou:
Tu visitas a terra e a regas; tu a enriqueces
grandemente.
Os ribeiros de Deus são abundantes de água; provês o cereal, porque para isso preparas a terra, regando-lhe os sulcos e desmanchando os torrões. Tu a amoleces com chuviscos e lhe abençoas a produção. almos 65.9-10
Do alto de tua morada, regas os montes; a terra farta-se do fruto de tuas obras. Fazes crescer a relva para os animais e as plantas que o ser humano cultiva, para que da terra tire o seu alimento. Salmos 104.13-14
Nosso Senhor Jesus, no Sermão do Monte, também afirmou
que o Pai celeste segue comprometido com a provisão alimentar de sua criação:
Observem as aves do céu, que não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros. No entanto, o Pai de vocês, que está no céu, as sustenta. Será que vocês não valem muito mais do que as aves? Mateus 6.26
De acordo com a instrução de Cristo, o Criador segue
sustentando os animais e, ainda mais, a nós que, a seus olhos, temos mais valor
que as aves.
Fato: o Criador é o responsável pela origem dos alimentos
e de sua necessidade. Portanto, os alimentos foram criados para ser fonte de
energia, de sustento. Daí a instrução divina a Noé, antes do dilúvio: “Leve com
você todo tipo de comida e armazene-a com você; isso será para alimento, a você
e a eles” (Gn 6.21).
Mas a comida possui somente essa finalidade, o sustento
das criaturas de Deus? Não! Ela também é, de acordo com as Escrituras, fonte de
prazer. Esse é o segundo fundamento. O Senhor poderia ter feito um único fruto,
com uma só cor, sabor, cheiro, textura e tamanho; nele poderiam estar contidos
todos os nutrientes necessários ao corpo, garantindo assim nossa subsistência.
Em vez disso, ele optou pela diversidade. Criou frutos com quase todas as
cores, sabores, aromas, texturas, tamanhos e formatos. Isso indica que o
Criador quis que nosso paladar degustasse uma variedade de sabores, que nosso
olfato desfrutasse uma diversidade de aromas, que nosso tato diferenciasse a
multiplicidade de texturas e, ainda, que nossos olhos curtissem a variedade de
cores, tamanhos e formatos desses frutos. Como está escrito: “Então o SENHOR
Deus fez nascer do solo todo tipo de árvores agradáveis aos olhos e boas para
alimento” (Gn 2.9).
Por isso, várias passagens bíblicas falam de saciedade e
alegria no consumo dos alimentos, seguidos de gratidão a Deus:
Vocês comerão e ficarão satisfeitos, e louvarão o SENHOR,
seu Deus, pela boa terra que lhes deu.
Deuteronômio 8.10
Vão para casa, comam e bebam o que tiverem de melhor. E
mandem porções aos que não têm nada preparado para si. Porque este dia é
consagrado ao nosso Senhor. Portanto, não fiquem tristes, porque a alegria do
SENHOR é a força de vocês.
Neemias 8.10
O alimento envolve uma satisfação que vai além do
sustento. Tem a ver com sentimentos, como a determinação de alegrar-se diante
do Senhor comendo o que se tem de melhor.
Se o primeiro fundamento é o reconhecimento de Deus como
o Criador, tanto dos alimentos como daqueles que se alimentam, o segundo tem a
ver com o propósito dessa criação: o alimento é fonte de energia vital e também
de deleite. Não se trata de reconhecer um ou outro, mas sim ambos. Todavia, é a
parte do prazer, mais do que a do sustento, que requer de nossa parte
equilíbrio, moderação e uma maneira correta de relacionar-se com a comida.
Em outras palavras, se o primeiro fundamento tem a ver com o reconhecimento dos alimentos como algo bom, procedente de Deus, o segundo tem a ver com o entendimento de que, associado ao deleite que nos é permitido ter, devemos ser responsáveis ao usufruir da comida. Isso implica saber conter nossos desejos e fazer escolhas saudáveis, moderando não apenas a quantidade como também a qualidade dos alimentos ingeridos.
Um perigo que muitos não enxergam
Deus criou muitas coisas, todas elas boas, mas advertiu
que podemos errar no modo como nos relacionamos com elas. Ou seja, errado não é
necessariamente aquilo que se fez; por vezes o erro é definido por como se faz
algo e não pelo que é feito.
Um exemplo disso é o descanso, assunto que abordaremos
mais à frente. Trata-se de uma instituição divina. Na esfera do descanso cabe
reconhecer que necessitamos, entre outras coisas, do repouso do sono.
Entretanto, alguém pode cruzar os limites do descanso sadio e exceder-se,
adentrando o terreno da preguiça; e o excesso de tempo na cama, diferentemente
do sono em si, é condenado nas Escrituras:
Vá ter com a formiga, ó preguiçoso!
Observe os caminhos dela e seja sábio. Não tendo ela
chefe, nem oficial, nem comandante, no verão prepara a sua comida, no tempo da
colheita ajunta o seu mantimento.
Ó preguiçoso, até quando vai ficar deitado?
Quando se levantará do seu sono? Um pouco de sono, um
breve cochilo, braços cruzados para descansar, e a sua pobreza virá como um
ladrão, a miséria atacará como um homem armado.
Provérbios 6.6-11
Outra forma de entender esse princípio diz respeito ao
ato sexual. O sexo é parte do plano divino, uma bênção que foi dada aos que
abraçaram a aliança matrimonial. Não se limita à procriação e está relacionado
ao deleite dos cônjuges:
Que o marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, de igual modo, a esposa, ao seu marido. A esposa não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e também, de igual modo, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim a esposa. Não se privem um ao outro, a não ser talvez por mútuo consentimento, por algum tempo, para se dedicarem à oração. Depois, retomem a vida conjugal, para que Satanás não tente vocês por não terem domínio próprio. 1Coríntios 7.3-5
Evidentemente, ao determinar que não haja períodos
prolongados de privação da intimidade física do casal, a Bíblia sinaliza uma
frequência que não condiz apenas com a ideia de procriação — um suposto
propósito exclusivo do ato conjugal, como é defendido pela Igreja Católica,
que, também por causa dessa crença, nunca foi favorável aos métodos
anticoncepcionais. Deduz-se, portanto, que o sexo não é nem sujo, nem
vergonhoso, nem pecaminoso. É criação e projeto divino e, como tal, santo, puro
e bom.
Entretanto, aquilo que não é errado em si mesmo pode se
tornar errado quando praticado incorretamente. Observe a advertência encontrada
na epístola aos Hebreus:
Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito conjugal sem mácula; porque Deus julgará os impuros e os adúlteros. Hebreus 13.5
Deus determinou duas coisas a serem honradas por todos: o
matrimônio e o leito conjugal sem mácula. Ele também prometeu julgar dois tipos
de comportamentos: os impuros e os adúlteros.
Quem são os adúlteros? Os que desonram o matrimônio e se
envolvem sexualmente com alguém que não é seu cônjuge. Portanto, o sexo
praticado dentro do matrimônio é correto, é uma bênção. No entanto, quando essa
aliança é quebrada pelo ato sexual com outra pessoa que não seja o cônjuge, o
pecado não está no sexo em si, mas em como (ou com quem) ele foi praticado.
E não é apenas pela manutenção da exclusividade do ato
sexual entre marido e mulher que Deus mandou honrar o matrimônio. Ele também
ordenou ao casal que preservasse sem mácula o leito conjugal. Logo, há certas
práticas — ainda que preservando a exclusividade sexual entre os cônjuges — que
podem macular o leito conjugal daqueles que não adulteram. Isso derruba o mito
de que “dentro de quatro paredes vale tudo”. Sob essa lógica, quem são, então,
os impuros mencionados no texto? Os impuros, diferentemente dos adúlteros, não
erram em com quem decidiram manter a intimidade sexual, e sim em como optaram
por fazer isso.1
Ou seja, assim como no dilema do descanso versus
preguiça, temos aqui o dilema do ato sexual puro versus adultério ou impureza.
É quando o erro não está na coisa em si, e sim na maneira como lidamos com ela.
Dito isso, é hora de reafirmar: a comida é ideia e
criação de Deus, mas seu uso incorreto, fora do padrão divino, pode configurar
erro e, até mesmo, pecado.
Sendo assim, como a comida tem afetado a humanidade? Será
que nos damos conta da força e influência que ela exerce sobre nós? É
necessário um melhor entendimento do assunto mediante a avaliação de vários
exemplos bíblicos.
Em que aspecto o ser humano foi primeiramente tentado? Em
qual área Satanás concentrou seus esforços iniciais? Embora possamos nos
aprofundar nos muitos elementos contidos na proposta maligna, precisamos
reconhecer que a desgraça da humanidade começou com uma tentação cuja “máscara”
envolvia também a comida.
De igual modo, em que aspecto Jesus, o último Adão, foi
primeiramente tentado? Os Evangelhos de Mateus e Lucas nos mostram que também
foi na área da comida, quando o diabo tentou explorar a fome que Jesus sentia
depois de quarenta dias em jejum. Vale destacar, porém, que, diferentemente do
primeiro Adão, o último saiu vitorioso sobre a proposta maligna.
Foi por causa da fome e do desejo por comida que Esaú
vendeu seu direito de primogenitura, que incluía perpetuar a bênção e os
propósitos divinos concedidos a Abraão (Gn 25.29-34). Como nos alerta o autor
de Hebreus, “cuidem para que não haja nenhum impuro ou profano, como foi Esaú,
o qual, por um prato de comida, vendeu o seu direito de primogenitura” (Hb
12.16).
A Palavra de Deus destaca, acerca do povo de Israel, que
“no seu coração, voltaram para o Egito” (At 7.39). Qual o motivo dessa saudade
do lugar da escravidão? Entre eles, a comida:
E o populacho que estava no meio deles veio a ter grande
desejo das comidas dos egípcios. Também os filhos de Israel começaram a chorar
outra vez, dizendo:
— Quem nos dará carne para comer? Lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito. Que saudade dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos! Mas agora a nossa alma está seca, e não vemos nada a não ser este maná. Números 11.4-6
Somando as expressões “desejo”, “lembrança”, “saudade” e
“alma” destacados no texto bíblico, evidencia-se que o prazer da comida não se
limita ao paladar, à capacidade de desfrutar da diversidade dos sabores dos
alimentos. Trata-se de algo que também é emocional, que afeta a alma, a sede da
vontade, dos sentimentos e dos pensamentos. Mas os efeitos da comida excedem o
aspecto físico (do paladar) e emocional (da alma); eles também afetam a vida
espiritual. Os exemplos de Adão e Eva, de Esaú e dos israelitas confirmam isso.
Penso ser essa a razão pela qual Paulo, escrevendo à
igreja em Filipos, refere-se a alguns que são “inimigos da cruz” e assim os
denuncia: “o deus deles é o ventre” (Fp 3.18-19). E, escrevendo aos cristãos de
Roma, o apóstolo expõe outros com rótulo semelhante: “não servem a Cristo,
nosso Senhor, e sim a seu próprio ventre” (Rm 16.18). A comida, para alguns,
tem se tornado um ídolo. Assim como a avareza (Cl 3.5). E o que os dois
exemplos têm em comum? É que o dinheiro, assim como o alimento, não é errado em
si mesmo; no entanto, a forma errada de lidar com ele tem levado muitos ao
tropeço — inclusive na vida espiritual (1Tm 6.9-10).
Essa compreensão deveria nos levar a tratar o assunto com
cuidado. A mesma Bíblia que apresenta a comida como fonte de prazer, e não
apenas de sustento, mostra a sabedoria de quem aprende a manter a perspectiva
de prazer sob controle. Como está escrito:
Feliz é você, ó terra cujo rei é filho de nobres e cujos
príncipes se sentam à mesa a seu tempo para refazer as forças e não para se
embriagar.
Eclesiastes 10.17
Nem toda refeição deveria ser tratada como festiva e fonte de prazer. A gula, diferentemente da fome, não persegue o sustento, a nutrição saudável, a renovação das forças de que o corpo tanto precisa. Ela está mirando o prazer insistente e, embora seja parte do pacote, não deveria determinar o padrão de como nos alimentamos. A prova disso é que o mesmo Criador que disponibilizou prazer na alimentação sempre estabeleceu, para o ser humano, restrições alimentares.
Domínio próprio
Não podemos falar de alimentação sem abordar a questão do
domínio próprio. Uma vida de alimentação saudável não se limita somente a
quanto comemos; ela também envolve, inquestionavelmente, as escolhas do que
comemos (muito embora o segundo não exclua o primeiro; são aspectos
complementares e não divergentes).
Comer muito mel não é bom; assim, procurar a própria
honra não é honra. Como cidade derrubada, que não tem muralhas, assim é aquele
que não tem domínio próprio.
Provérbios 25.27-28
A expressão hebraica que foi traduzida por “domínio
próprio” aponta para aquele que “não pode conter o seu espírito”, como consta
na Tradução Brasileira. A Nova Versão Internacional recorre à expressão “não
sabe dominar-se”, enquanto a Nova Tradução na Linguagem de Hoje opta por “não
sabe se controlar”. Em todas as versões, porém, preserva-se a comparação da
pessoa com uma cidade sem muros. Ou seja, a analogia indica que a falta de
controle deixa a pessoa vulnerável, sem proteção (essa é a função dos muros).
Precisei aprender a dizer não a muita coisa enquanto Deus
trabalhava comigo o entendimento bíblico do cuidado do corpo. Por vezes, o
domínio sobre o desejo me obrigava a dizer não à quantidade de alimento e parar
enquanto ainda desejava comer. Por vezes, tive de dizer não à qualidade do
alimento. Em outras ocasiões ainda, precisei dizer não a ambos.
A verdade é que a Bíblia não fala muito de glutonaria,
pelo menos não da perspectiva que imaginamos. Embora as versões mais antigas
derivadas da tradução de João Ferreira de Almeida tenham feito uso da palavra
“glutonarias” na lista paulina das obras da carne (Gl 5.23), a grande maioria
das versões modernas evitou essa tradução.
A palavra empregada nos manuscritos gregos é komos, que
indicava, segundo Russel Champlin:
um cortejo festivo, em honra ao deus pagão do vinho,
Dionísio. Era uma refeição e um banquete festivos; mas com frequência seus
participantes perdiam o domínio próprio e tudo se transformava em ocasião de
glutonaria e bebedeiras, de orgia das piores. Assim essa palavra veio a indicar
“glutonaria” e “orgia”, sendo possível que a lista de vícios, preparada por
Paulo, queria levar-nos a compreender ambos esses sentidos da palavra. As
traduções modernas escolhem um ou outro desses significados.2
Como a palavra “bebedices” já havia sido mencionada na
lista das obras da carne, presume-se que a ênfase não recaiu sobre a bebedice,
e sim sobre a glutonaria e/ou orgias que acompanhavam essas festas.
A palavra “glutão” aparece duas vezes no Novo Testamento.
Em ambas foram empregadas em um ataque ao Senhor Jesus:
Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e as pessoas
dizem: “Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!”
Mateus 11.19; ver também Lucas 7.34
No Antigo Testamento, a expressão aparece no livro de
Provérbios:
Quando você se assentar para comer com um governador,
leve bem em conta quem está diante de você. Encoste uma faca na sua própria
garganta, se você é glutão.
Não cobice os pratos deliciosos que ele serve, porque
essa comida é enganadora.
Provérbios 23.1-3
Por que estou destacando a falta de ênfase bíblica na
gula?
Porque desenvolvemos conceitos errados a respeito do
assunto. A maioria de nós pensa na gula como um pecado alimentar relacionado à
quantidade de comida. A verdade é que o oposto do domínio próprio, um dos
“gomos” do fruto do Espírito, é a falta de controle em qualquer área. Em
relação aos alimentos é a falta de controle, a incapacidade de dominar o
desejo. Independentemente dos excessos da quantidade, basta que haja falta de
controle. Isso se aplica, por exemplo, a alimentos que deveríamos evitar e
alegamos não conseguir fazê-lo.
Convém ressaltar essa questão, porque desviamos o foco da
falta de controle do desejo para o do volume de alimentos ingeridos.
Evidentemente, isso também é falta de domínio próprio, mas não se limita aos
tropeços da quantidade. A vitória sobre as obras da carne depende do domínio
próprio quanto ao desejo em si, e não apenas a quanto se deseja ou se consome
algo.
O problema do primeiro casal, com o fruto proibido no
Éden, não estava ligado à quantidade de frutos consumidos. O problema residiu
na falta de domínio sobre o interesse despertado. O tropeço de Esaú também não
enfatiza a quantidade de comida, mas sim a falta de controle (ou de paciência).
Os israelitas que tiveram saudade das comidas do Egito e reclamaram do maná
podem até ter comido mais do que o normal, mas no relato bíblico a ênfase de
seu pecado está no desejo, e não apenas na quantidade de comida ingerida. Veja
duas menções, no livro dos Salmos, acerca desse episódio:
Também fez chover sobre eles carne como poeira e aves
numerosas como a areia do mar. Fez com que caíssem no meio do arraial deles, ao
redor de suas tendas.
Então comeram e se fartaram a valer; pois lhes fez o que
desejavam. Porém não reprimiram o apetite. Ainda tinham o alimento na boca,
quando se elevou contra eles a ira de Deus, e entre os seus mais robustos
semeou a morte, e prostrou os jovens de Israel.
Salmos 78.27-31
Entregaram-se à cobiça, no deserto; e, nos lugares áridos, puseram Deus à prova. Salmos 106.14
Para a glória de Deus
Há uma instrução bíblica que tem sido de grande ajuda na
reformatação de minha maneira de pensar e agir quanto ao cuidado do corpo e, em
especial, quanto à alimentação:
Portanto, se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer
outra coisa, façam tudo para a glória de Deus.
1Coríntios 10.31
Como Deus pode ser glorificado por meio de nossa forma de
comer e beber?
Nossa comida ou bebida jamais dará, diretamente, glória a
Deus. São objetos inanimados, que não possuem esse poder. As Escrituras falam
sobre como lidamos com a comida e o resultado que isso produz. Aliás, o
contexto da afirmação paulina diz respeito ao impacto que nossas ações
relacionadas à comida, à bebida ou a qualquer coisa exerce sobre as pessoas à
nossa volta (ver 1Co 10.2730), como, por exemplo, minha liberdade para comer
aquilo que fere a consciência de um irmão. Na sequência, o apóstolo adverte:
Não se tornem motivo de tropeço nem para judeus, nem para
gentios, nem para a igreja de Deus, assim como também eu procuro, em tudo, ser
agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para
que sejam salvos.
1Coríntios 10.32-33
Essa aplicação prática do significado de glorificar a
Deus por meio do que comemos e bebemos não exclui, em contrapartida, outras
percepções que a própria Bíblia nos oferece acerca do assunto. Uma delas é o
ato de adorar e honrar ao Senhor, dando-lhe o louvor que lhe é devido. Mas não
podemos deixar de reconhecer, ainda, que quando o propósito divino é
devidamente executado ele é glorificado.
Observemos esta afirmação feita aos crentes romanos:
“Portanto, acolham uns aos outros, como também Cristo acolheu vocês para a
glória de Deus” (Rm 15.7). Jesus nos acolheu em sua família, para a glória de
Deus! A ênfase, aqui, não tem a ver com pessoas cultuando, nem com o bom
testemunho diante de outros, mas sim com o propósito divino da redenção se
cumprindo.
Por isso, para glorificar a Deus com o que comemos e
bebemos, devemos procurar entender o propósito da criação divina dos alimentos,
nossa fonte de energia e nutrientes, e também do corpo, o receptor e
processador desses alimentos, de modo a esforçar-nos para cumpri-lo.
Em sua primeira epístola aos coríntios, Paulo apresentou
o estômago e os alimentos como uma criação “casada”, isto é, um foi feito para
o outro.
Os alimentos são para o estômago, e o estômago existe
para os alimentos. Mas Deus destruirá tanto o estômago quanto os alimentos.
1Coríntios 6.13
A palavra grega traduzida por “estômago” é koilia, que se
refere à “barriga inteira, toda a cavidade; o abdome inferior, a região
inferior, o receptáculo do excremento; o ventre, o lugar onde o feto é
concebido e sustentado até o nascimento”, e, em sentido metafórico, “a parte
mais interna do homem, a alma, coração como o lugar do pensamento, sentimento,
escolha”.3 Essa é a razão por que versões mais antigas, como a Almeida Revista
Corrigida e a Tradução Brasileira, optam pelo uso da palavra “ventre”.
Os manjares são para o ventre, e o ventre, para os
manjares; Deus, porém, aniquilará tanto um como os outros.
1Coríntios 6.13, ARC
O Dicionário Vine também indica que o uso da palavra
koilia está relacionado, algumas vezes, ao “útero” (Mt 19.12; Lc 1.15; Jo 3.4;
Gl 1.15) e, em sentido figurado, à “parte interior” do homem, isto é, o
coração, a alma (Jo 7.38).4 Mas não posso deixar de observar que, em outros
casos, seu sentido aponta para a barriga como um todo, abrangendo os órgãos
internos, como esôfago, estômago e intestino. Um exemplo disso é o ensino de
Jesus acerca daquilo que contamina o homem, mostrando que o conceito da nova aliança
acerca de impurezas não estaria relacionado à ingestão de alimentos:
Convocando ele, de novo, a multidão, disse-lhes: Ouvi-me,
todos, e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa
contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina. [Se alguém tem ouvidos
para ouvir, ouça.] Quando entrou em casa, deixando a multidão, os seus
discípulos o interrogaram acerca da parábola. Então, lhes disse: Assim vós
também não entendeis? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem
não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para
lugar escuso? E, assim, considerou ele puros todos os alimentos. E dizia: O que
sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos
homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os
homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a
inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro
e contaminam o homem.
Marcos 7.14-23, ARA
Evidentemente, o uso da expressão “ventre” (koilia) feita
por Cristo não apontava para o útero, tampouco para o ser interior. Refere-se,
indubitavelmente, ao lugar por onde alimentos entravam e saíam. Aliás, a
expressão traduzida por “lugar escuso”, no original grego, é aphedrón, que
remete ao “lugar onde as evacuações de resíduo humano são descarregadas;
privada, fossa, banheiro”.5 A Bíblia de Jerusalém traduziu essa expressão como
“sai para a fossa”.
Qual a importância de reconhecer que o uso da palavra
koilia não se limita a “estômago”? A Bíblia trata de forma genérica e
abrangente o lugar por onde os alimentos entram, são processados e, depois de
seu devido uso, eliminados. Isso aponta para todo o sistema gastrointestinal.
Dessa forma, somos direcionados à relação entre os alimentos e ao sistema
digestório como um todo — ambos criados por Deus com uma relação específica
entre si. Portanto, Jesus e Paulo não mencionaram, como pode ser equivocadamente
interpretado, apenas o estômago, mas todo o conjunto de órgãos relacionados ao
processo digestivo.
Em outras palavras, precisamos entender a alimentação
conforme planejada por Deus, isto é, como nosso corpo digere e processa os
alimentos de acordo com o plano do Criador. Atualmente, dispomos de
conhecimento científico e biológico como nunca — o que penso ser parte do
cumprimento da afirmação feita a Daniel, acerca do tempo do fim, de que “o
saber se multiplicará” (Dn 12.4). Isso nos permite entender ainda mais o corpo
e seu funcionamento correto, revelando com mais riqueza de detalhes os
propósitos divinos acerca do funcionamento do corpo e, consequentemente, da
manutenção da saúde.
Por isso, creio que também precisamos compreender melhor
a forma de trabalhar do sistema digestório e, em especial, do intestino.
Afinal, sem a compreensão de qual é o correto funcionamento daquilo que o
Criador planejou, como poderemos cumprir o propósito da criação e, assim,
dar-lhe glória?
O dr. Helion Póvoa, médico especialista em nutrição e
bioquímica, afirma em seu livro O cérebro desconhecido:
A verdade é que ninguém se interessa pelo que acontece
com os alimentos que ingere depois que se levanta da mesa. Mas esse é um
equívoco muito grande na nossa cultura, pois apenas o fato de entender o
processamento deles no organismo já seria útil para que tivéssemos um controle
maior para a saúde. Além disso, é fantástico perceber como são perfeitos os
mecanismos que garantem a digestão e a absorção de tudo o que comemos.6
O processo digestivo começa na boca, com a trituração dos
alimentos, quando os mastigamos, e a ação da saliva que não apenas ajuda a
dissolver a comida como também atua no equilíbrio das bactérias. Aliás, o
entendimento da flora intestinal, também denominada de microbiota intestinal —
que é, basicamente, o conjunto de bactérias que habitam naturalmente o
intestino —, é fundamental para a compreensão dos processos necessários para a
nutrição do organismo e o fortalecimento da imunidade.
Esse processo, por sua vez, engloba desde a separação dos distintos tipos de grupos alimentares ingeridos até a eliminação, quando em seu estado saudável, de toxinas, bactérias e outros elementos nocivos ao corpo. Os nutrientes necessários são absorvidos, e o que é prejudicial ao organismo é separado e descartado.
O “segundo” cérebro
Qual a importância desse sistema que recebe e processa os
alimentos ingeridos? Penso ser importante essa compreensão, e quero enfatizar
as funções do intestino, onde o que se iniciou no estômago terá, mais do que
continuidade do processo, um desenvolvimento maior do que às vezes imaginamos.
Se não entendermos o propósito e funcionamento dessa “máquina” fantástica
chamada intestino, provavelmente também não conseguiremos mensurar a
importância de uma alimentação correta.
Antigamente não havia tanto entendimento científico
acerca do assunto como temos hoje, embora o foco da medicina antiga, antes da
era farmacêutica, sempre foi a alimentação correta. E quando digo “antigamente”
não me refiro apenas aos dias em que a Bíblia foi escrita; falo de um tempo que
se estendeu até algumas décadas atrás.
Giulia Enders, autora do sucesso de vendas O discreto
charme do intestino, expõe que a falta de entendimento sobre o intestino também
se dá até mesmo no meio da classe médica:
Durante a faculdade, percebi como essa área é
negligenciada na medicina. No entanto, o intestino é um órgão excepcional. Ele
forma dois terços do sistema imunológico, tira energia de sanduíches e
salsichas de tofu e produz mais de vinte hormônios próprios.
Durante sua formação, grande parte dos médicos aprende
muito pouco sobre ele.7
Helion Póvoa esclarece a importância do entendimento do
sistema gastrointestinal para o cultivo da boa saúde:
O intestino repousou durante muitos anos no esquecimento.
Esquecido pelas pessoas, que dele só se lembravam quando comiam algo que não
lhes fazia bem, e pela ciência, que sempre considerou os trâmites intestinais
como um departamento secundário dentro da medicina. Até bem pouco tempo, era
suficiente para os cientistas conhecer sobre este órgão apenas sua função
básica de absorção, em que os nutrientes dos alimentos são enviados para o
organismo, depois de devidamente digeridos.
Hoje a situação é bem diferente. Depois de reconhecido
como um “órgão inteligente” pela sua capacidade de selecionar entre o que
comemos o que nos é ou não útil, o intestino foi recentemente proclamado o
“segundo cérebro” por ser o único órgão do corpo humano capaz de executar
funções independentemente do sistema nervoso central. Agora, está cada vez mais
evidente que o sistema gastrointestinal está no âmago dos processos que
garantem a vida saudável. […]
Hoje, os mecanismos e trocas químicas que garantem o seu
funcionamento são fundamentais nas pesquisas das mais diversas doenças.
Está claro para muitos cientistas que a simples
felicidade depende fundamentalmente do que se passa no sistema
gastrointestinal, por conta das condições que cada organismo tem de secretar a
serotonina, o neurotransmissor responsável pela alegria e bem-estar. Afinal,
ele não é encontrado apenas no cérebro, como se imaginava, mas também no
intestino. […]
É por esta razão, inclusive, que a absorção dos alimentos
vem sendo considerada um novo paradigma para a saúde. Essa fantástica função,
quando exercida de forma insatisfatória, pode desencadear uma série de
distúrbios que lentamente vão provocar reações em cascata pelo organismo.8
O intestino e seu funcionamento são fascinantes e
destacam sua importância. No entanto, quando ignoramos sua forma de funcionar,
deixamos de entender quais escolhas deveríamos fazer quanto ao que comer.
Comer e beber para a glória de Deus envolve não apenas a
moderação da quantidade de alimentos, mas a seletividade que deveríamos, com
bom senso, praticar. Também envolve a compreensão de quando comer. Esse combo
de entendimentos específicos nos ajudará a determinar nosso padrão de
alimentação, assunto do próximo capítulo.
1 Aos que desejam aprofundar esse entendimento, recomendo
a leitura do meu livro
O propósito da família: A importância da visão familiar
na relação com Deus (São Paulo: Vida, 2022). Nele trato detalhadamente do
assunto do qual o propósito deste livro não me permite tratar a fundo.
R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo
por versículo, Vol. 4 (São Paulo:
Hagnos, 2014), p. 650.
Bible Hub, verbete koilia, G2836, <h
ps://biblehub.com/greek/2836.htm>.
W. E. Vine, Merril F. Unger, William White Jr, Dicionário
Vine: O significado exegético e expositivo das palavras do Antigo e do Novo
Testamento (Rio de Janeiro: CPAD, 2002), p. 428, 1052.
Bible Hub, verbete koilia, G2836, <h
ps://biblehub.com/greek/856.htm>.
Helion Póvoa, O cérebro desconhecido: Como o sistema
digestivo afeta nossas emoções, regula nossa imunidade e funciona como um órgão
inteligente (Rio de Janeiro: Objetiva, 2002), p. 14.
Giulia Enders, O discreto charme do intestino: Tudo sobre
um órgão maravilhoso (São Paulo:
WMF Martins Fontes, 2015), p. 13.
Póvoa, O cérebro desconhecido, p. 9-11. 7
RESTRIÇÕES ALIMENTARES
Porque do Senhor é a terra e a sua plenitude.
1CORÍNTIOS 10.26
Apesar de ter criado inicialmente, lá no jardim do Éden,
todo tipo de alimento para o ser humano, o Senhor também desde o princípio
estabeleceu restrições. Foi o caso da árvore do conhecimento do bem e do mal:
E o SENHOR Deus ordenou ao homem:
— De toda árvore do jardim você pode comer livremente,
mas da árvore do conhecimento do bem e do mal você não deve comer; porque, no
dia em que dela comer, você certamente morrerá.
Gênesis 2.16-17
Vale observar que, a princípio, não houve nenhuma
instrução divina para que o homem comesse outra coisa a não ser vegetais. O
consumo da carne de animais seria introduzido posteriormente, após o dilúvio.
Mas também seria introduzido combinado a restrições alimentares: não se comeria
o sangue dos animais dos quais os homens passariam a se alimentar.
Tudo o que se move e vive servirá de alimento para vocês.
Assim como lhes dei a erva verde, agora lhes dou todas as coisas. Carne, porém,
com sua vida, isto é, com seu sangue, vocês não devem comer.
Gênesis 9.3-4
Ou seja, desde sua criação, o ser humano foi orientado a
ter a consciência de que não se deve comer de tudo. No Éden, ele podia comer
ervas e frutos, mas havia restrição a uma árvore específica e seu fruto. Depois
do dilúvio, foi introduzido o consumo de carne, mas a restrição ao sangue
também foi claramente definida. Séculos adiante, Deus estabeleceria, através da
lei concedida a Moisés, uma série de restrições alimentares (Lv 11.1-45) e
concluiria essa enorme lista com a seguinte advertência:
Esta é a lei a respeito dos animais, das aves, de todo
ser vivo que se move nas águas e de toda criatura que rasteja sobre o chão,
para fazer diferença entre o impuro e o puro e entre os animais que podem ser
comidos e os animais que não podem ser comidos.
Levítico 11.46-47
Foi por causa dessas determinações divinas que Daniel, na
corte do rei da Babilônia, “resolveu não se contaminar com as finas iguarias do
rei, nem com o vinho que ele bebia; por isso, pediu ao chefe dos eunucos que
lhe permitisse não se contaminar” (Dn 1.8). Mais do que uma questão dietética,
tratava-se de padrões que regiam também a vida espiritual.
A revelação neotestamentária esclarece que não estamos
mais debaixo dessas ordenanças. Paulo atestou que “o fim da lei é Cristo” (Rm
10.4) e que “Cristo aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças” (Ef
2.15). O escritor de Hebreus explica que “quando se muda o sacerdócio,
necessariamente muda também a lei” (Hb 7.12). Com a alternância do sacerdócio
levítico, da antiga aliança, para o sacerdócio de Jesus Cristo, a nova aliança,
houve mudança de lei.
Mudança de lei é diferente de cessação de lei. Ainda há
lei, embora não seja a mesma que regia a vida dos santos do Antigo Testamento.
Jesus afirmou que nos deu um novo mandamento (Jo 13.34), e Paulo sustentou e
explicou claramente essa verdade: “não estando sem lei para com Deus, mas
debaixo da lei de Cristo” (1Co 9.21).
E o questionamento a ser feito é: na nova lei, a de
Cristo, há restrições alimentares? E a resposta é sim, elas ainda existem.
Antes, porém, de delinear as atuais restrições, é necessário destacar a mudança
das restrições antes impostas. Jesus ensinou que as impurezas, na nova aliança,
não estão associadas aos alimentos que ingerimos, e sim aos diferentes tipos de
comportamento, contrários à lei divina, que podemos acalentar no coração:
Jesus lhes disse:
— Então vocês também não entendem? Não compreendem que
tudo o que está fora da pessoa, entrando nela, não a pode contaminar, porque
não entra no coração dela, mas no estômago, e depois é eliminado?
E, assim, Jesus considerou puros todos os alimentos. E
dizia:
— O que sai da pessoa, isso é o que a contamina. Porque de dentro, do coração das pessoas, é que procedem os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as maldades, o engano, a libertinagem, a inveja, a blasfêmia, o orgulho, a falta de juízo. Todos estes males vêm de dentro e contaminam a pessoa. Marcos 7.18-23
Essa afirmação é incontestável e dispensa qualquer
malabarismo de interpretações mirabolantes: “Jesus considerou puros todos os
alimentos”. Ainda assim, até que houvesse clareza de entendimento sobre a
mudança de lei — assunto largamente abordado e explicado por Paulo —, esse novo
entendimento foi difícil de digerir. Até mesmo o apóstolo Pedro, inicialmente,
teve dificuldade para assimilar o fato:
Viu o céu aberto e um objeto como se fosse um grande
lençol, que descia do céu e era baixado à terra pelas quatro pontas, contendo
todo tipo de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. E ouviu-se uma voz
que se dirigia a ele:
— Levante-se, Pedro! Mate e coma. Mas Pedro respondeu: — De modo nenhum, Senhor! Porque nunca comi nada que fosse impuro ou imundo. Pela segunda vez, a voz lhe falou: — Não considere impuro aquilo que Deus purificou.
Atos 10.11-15
Essa passagem, isolada, não determina que Deus tenha
tornado puro os alimentos anteriormente declarados impuros. Mas, combinada à
clareza dos demais textos que sustentam isso, ela se torna um excelente
adicional dessa compreensão. Afinal de contas, embora em sua essência a visão
visasse levar Pedro a não considerar os gentios (a quem ele estava na iminência
de ser conduzido pelo próprio Senhor para lhes pregar o evangelho) impuros — e,
anteriormente, pela lei mosaica, assim eles eram considerados —, é evidente que
Deus, que não se contradiz, não mandaria o apóstolo fazer algo pecaminoso nem
mesmo em uma visão. Assim como a mudança de lei removeu a impureza do contato
com os gentios, também removeu a impureza dos alimentos.
Cristo, o novo sacerdote e legislador, considerou todos
os alimentos puros — que é exatamente o oposto de impuros! Por que Pedro
considerava alguns daqueles alimentos impuros? Porque conhecia bem a lei
mosaica e havia pautado toda a sua vida por ela, fosse na questão dos alimentos
ou do convívio com os gentios. Porém, não foi dito ao apóstolo que ele estava
errado em observar, por toda a sua vida, as restrições alimentares da lei.
Apenas lhe foi comunicado uma mudança: Deus purificou o que antes não
considerou puro. Outras afirmações corroboram isso:
Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nada é
impuro em si mesmo, a não ser para aquele que pensa que alguma coisa é impura;
para esse é impura.
Romanos 14.14
Ao observar o contexto dessa declaração, percebemos que
Paulo falava acerca de comida, bem como de crenças equivocadas sobre restrições
alimentares. O apóstolo havia declarado: “Um crê que pode comer de tudo, mas
quem é fraco na fé come legumes” (Rm 14.2). Embora seu ensino ajudasse os mais
maduros a não julgar nem discutir opiniões com os fracos na fé, é evidente que
Paulo tomou partido quando, em contraponto com a afirmação dos que creem poder
comer de tudo — algo que ele sequer insinuou estar errado —, ele ainda adjetiva
os que acreditavam não ser permitido (pela Palavra de Deus) comer de tudo como
“fracos na fé”.
A instrução dada aos crentes de Corinto também é clara e
dispensa comentários ou interpretações:
Comam de tudo o que se vende no mercado, sem
questionamento algum por motivo de consciência. Porque do Senhor é a terra e a
sua plenitude.
1Coríntios 10.25-26
Paulo também abordou o assunto na carta a Timóteo, seu
discípulo, com a seguinte instrução:
Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos
tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a
ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm a
consciência cauterizada, que proíbem o casamento e exigem abstinência de
alimentos que Deus criou para serem recebidos com gratidão pelos que creem e
conhecem a verdade. Pois tudo o que Deus criou é bom, e, se recebido com
gratidão, nada é recusável, porque é santificado pela palavra de Deus e pela
oração.
1Timóteo 4.1-5
Observe que a apostasia começa com a obediência a
espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Como isso alcança alguns
cristãos? Não se trata de aparições demoníacas, mas de um ensino corrompido
propagado e difundido por meio de pessoas que se encontram dentro das igrejas.
É por isso que a sã doutrina é tão importante e necessária.
Aqueles que “exigem abstinência de alimentos que Deus
criou para serem recebidos com gratidão pelos que creem e conhecem a verdade”
estão falando uma mentira. Os que conhecem a verdade, por sua vez, sabem que as
restrições alimentares da antiga aliança prescreveram. A Escritura é clara:
“tudo o que Deus criou é bom, e, se recebido com gratidão, nada é recusável”.
Tudo é bom, nada é recusável. Simples assim.
Não se deixem levar por doutrinas diferentes e estranhas,
porque o que vale é ter o coração confirmado com graça e não com alimentos, que
nunca trouxeram proveito aos que se preocupam com isso.
Hebreus 13.9
As restrições alimentares da lei foram descontinuadas,
indubitavelmente. As instruções da nova aliança são claras a esse respeito:
Pois não passam de ordenanças da carne, baseadas somente
em comidas, bebidas e diversas cerimônias de purificação, impostas até o tempo
oportuno de reforma.
Hebreus 9.10
Há uma clara restrição alimentar, no entanto, anterior à lei de Moisés e que permanece mesmo no Novo Testamento. É a ingestão do sangue.
Ingestão de sangue
Alguns judeus foram a Antioquia, a primeira igreja
organizada entre os gentios, e começaram a criar um tumulto doutrinário
afirmando que os gentios não seriam salvos caso não se circundassem. A Bíblia
relata que, “tendo surgido um conflito e grande discussão de Paulo e Barnabé
com eles, foi resolvido que esses dois e mais alguns fossem a Jerusalém, aos
apóstolos e presbíteros, para tratar desta questão” (At 15.2). Quando lá
chegaram, encontraram “alguns membros do partido dos fariseus que haviam
crido”, e estes “se insurgiram, dizendo: ‘É necessário circuncidá-los e
ordenar-lhes que observem a lei de Moisés’” (At 15.5). Então os apóstolos e os
presbíteros se reuniram para examinar a questão, o que gerou “grande debate”
(At 15.7). Depois de Pedro, Barnabé e Paulo falarem, Tiago se levantou e trouxe
uma palavra esclarecedora. E a conclusão da reunião, que posteriormente seria
conhecida como “O Concílio de Jerusalém”, foi enviada por meio de uma carta:
“Os irmãos, tanto os apóstolos como os presbíteros, aos
irmãos gentios em Antioquia, Síria e Cilícia, saudações.
Visto sabermos que alguns que saíram de nosso meio, sem
nenhuma autorização, perturbaram vocês com palavras, transtornando a mente de
vocês, pareceu-nos bem, chegados a pleno acordo, eleger alguns homens e
enviá-los a vocês com os nossos amados Barnabé e Paulo, homens que têm
arriscado a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, estamos
enviando Judas e Silas, os quais pessoalmente lhes dirão as mesmas coisas. Pois
pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês maior encargo além destas
coisas essenciais: que vocês se abstenham das coisas sacrificadas a ídolos, bem
como do sangue, da carne de animais sufocados e da imoralidade sexual; se
evitarem essas coisas, farão bem.
Passem bem.”
Atos 15.23-29
Das quatro orientações oferecidas aos gentios
convertidos, tratadas como questões essenciais, que envolvem não praticar
imoralidade nem idolatria, duas dizem respeito a abster-se do sangue. Uma das
orientações para abster-se da ingestão do sangue é explícita; já a que diz
respeito à carne de animais sufocados é um desdobramento da outra. Trata-se do
mesmo mandamento:
Qualquer homem da casa de Israel ou dos estrangeiros que
peregrinam entre vocês que comer sangue, contra ele me voltarei e o eliminarei
do seu povo. Porque a vida da carne está no sangue. Eu o tenho dado a vocês
sobre o altar, para fazer expiação pela vida de vocês, porque é o sangue que
fará expiação pela vida. Portanto, tenho dito aos filhos de Israel: nenhum de
vocês comerá sangue, nem o estrangeiro que peregrina entre vocês o comerá.
Qualquer homem dos filhos de Israel ou dos estrangeiros
que peregrinam entre vocês que caçar animal ou ave que se pode comer derramará
o sangue e o cobrirá com pó. Porque a vida de toda carne é o seu sangue. Por
isso, tenho dito aos filhos de Israel que não comam o sangue de nenhuma carne,
porque a vida de toda carne é o seu sangue; todo o que comer será eliminado.
Levítico 17.10-14
O que era a carne sufocada? Era aquela em que o sangue do
animal não foi derramado, e a comida foi preparada juntamente com o sangue.
Era, por assim dizer, um consumo indireto. No Brasil temos alguns pratos que
são preparados com sangue, como o chouriço e o sarapatel. E um exemplo de carne
sufocada é a chamada galinha ao molho pardo, em que, via de regra, a ave é
morta tendo seu pescoço quebrado e sua carne é cozida sem que se derrame o
sangue.
O consumo direto e indireto do sangue (e aqui temos de
distinguir entre o soro de um bife rosado e o sangue propriamente dito) segue,
mesmo na nova aliança, sendo proibido, e essas verdades precisam ser ensinadas
em nossas igrejas.
Estou abordando esses tópicos porque, além de serem parte
do ensino bíblico acerca dos alimentos, precisamos entender que sempre houve
(antes, durante e depois da lei de Moisés) restrições alimentares.
Vejo isso como uma mensagem divina que aponta para a
necessidade de critérios em nossas escolhas e condutas quanto à comida.
Atualmente, a única proibição que, se ignorada, é tratada
como pecado, é o consumo de sangue e da carne sufocada. Porém, aquilo que
tratamos no capítulo 4, acerca da boa mordomia do corpo, deve nos remeter a uma
mentalidade de escolhas saudáveis.
O que devemos comer?
A questão, portanto, não deveria girar em torno do que
podemos, mas sim do que devemos comer. Uma vez que a única proibição alimentar
bíblica, para os crentes da nova aliança, diz respeito à ingestão do sangue e
da carne sufocada, sabemos que podemos — no sentido permissivo — comer de todos
os demais alimentos. Não significa, entretanto, que deveríamos comer de tudo.
De vez em quando alguém me questiona: “Você está dizendo
que o consumo de uma alimentação errada vai me impedir de ir para o céu?”.
Gosto de responder com uma frase que ouvi de alguém: “De jeito nenhum. Mas
talvez esse tipo de alimentação leve você mais cedo para lá”.
Alguns acreditam que o que precisam para abandonar o
consumo de todo tipo de junk food, trocando-o por escolhas mais saudáveis, é
que coloquemos um rótulo de “pecaminoso” nesses alimentos. De acordo com a sã
doutrina, não posso fazer isso. Esse rótulo cabe apenas ao sangue e à carne
sufocada. No entanto, não podemos ignorar o que Paulo ensinou acerca da
abstinência praticada em nome do amor aos de consciência mais fraca (Rm
14.15-21). Ou seja, às vezes alguns pecam não pelo que fazem, mas como o fazem.
Ainda assim, o que às vezes sinto vontade de fazer,
munido de dados e mais dados de pesquisas científicas, é colocar um rótulo que
denuncie a estupidez das escolhas de muitos. Nosso alto consumo de comidas
industrializadas, processadas, associado a um estilo de vida altamente
destrutivo ao corpo, certamente cobrará a conta. Ouvi o dr. Aldrin Marshall
afirmar, certa ocasião, que “quanto maior é o prazo de validade de um alimento,
menor é o prazo de vida de quem o consome”. Você tem noção de quanto dano e intoxicação
o consumo de corantes, conservantes e outros inúmeros produtos químicos
adicionados a nossos alimentos produz em nosso corpo?
Falando dos alimentos, o apóstolo Paulo asseverou que
“tudo o que Deus criou é bom” (1Tm 4.4). Portanto, o foco alimentar bíblico é
aquilo que Deus criou. Isso envolve, basicamente, como já apontado, o consumo
de alimentos vegetais e animais.
Cabe observar, no entanto, que os alimentos, em sua forma original, sejam os vegetais ou animais, não carregavam a carga tóxica de hoje em dia. Insumos agrícolas, que basicamente estão repletos de veneno e dos mais variados produtos químicos, fazem que o alimento atual, mesmo o que é considerado natural, esteja bem distante do padrão saudável da antiguidade. Acrescente-se a isso a era dos transgênicos — alimentos geneticamente modificados — e a coisa só piora. (Por isso, aliás, o trigo de hoje, diferentemente da antiguidade, traz consigo uma carga de glúten que tem acarretado muitos problemas à saúde.) Medicamentos, hormônios e outros produtos nocivos nas rações alteraram, significativamente, a qualidade dos diversos tipos de carne que consumimos hoje em dia. Isso tem remetido os que se preocupam com a saúde — que é profundamente afetada pelo que se come — a investir cada vez mais em alimentos orgânicos.
Usando o bom senso
Se a escolha dos alimentos criados por Deus já é,
atualmente, um desafio para preservar a saúde, o que dizer do alto consumo de
alimentos artificiais? Nossa cultura moderna de alimentos industrializados,
processados, sobrecarregados de trigo e açúcar, repletos de conservantes,
saborizantes, aromatizantes, corantes e tantos outros produtos químicos, está
nos levando pela contramão do bom funcionamento do corpo. Devemos, portanto,
apelar ao bom senso — mesmo não dispondo hoje de uma lista bíblica de alimentos
proibidos.
Por que razão nós, os evangélicos, de forma geral, somos
tão contrários ao fumo? Não há nenhum versículo da Bíblia contendo a proibição
“não fumarás”. Não significa, entretanto, que não tenhamos um entendimento
bíblico sobre o assunto. O que precisamos, nesse caso, é observar as
declarações bíblicas relacionadas ao tema. Consideremos, então, alguns desses
princípios:
O fato de ser prejudicial à saúde. A Biblioteca Virtual
em Saúde, do Ministério da Saúde, alerta que o tabagismo “obriga os fumantes a
inalarem mais de 4.720 substâncias tóxicas, como: monóxido de carbono, amônia,
cetonas, formaldeído, acetaldeído, acroleína, além de 43 substâncias
cancerígenas, sendo as principais: arsênio, níquel, benzopireno, cádmio,
chumbo, resíduos de agrotóxicos e substâncias radioativas”. Além disso, há
“mais de 50 doenças relacionadas ao consumo de cigarro. Estatísticas revelam que
os fumantes, comparados aos não fumantes, apresentam um risco 10 vezes maior de
adoecer de câncer de pulmão, 5 vezes maior de sofrer infarto, 5 vezes maior de
sofrer de bronquite crônica e enfisema pulmonar e 2 vezes maior de sofrer
derrame cerebral”.1 Logo, o fumo acarreta dano ao corpo, o templo do Espírito
Santo. E Paulo indagou aos coríntios: “Será que vocês não sabem que o corpo de
vocês é santuário do Espírito Santo, que está em vocês e que vocês receberam de
Deus, e que vocês não pertencem a vocês mesmos?” (1Co 6.19). E também pontuou:
“Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em
vocês? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá. Porque o
santuário de Deus, que são vocês, é sagrado” (1Co 3.16-17). Se nosso corpo é o
santuário do Espírito de Deus e não pode ser destruído, por que decidiríamos
acreditar que está tudo bem fumar? E que isso não seria uma deliberada quebra
de princípios divinos?
A questão da dependência. O mesmo artigo do Ministério da
Saúde aponta que “o hábito de fumar é reconhecido como uma doença epidêmica que
causa dependência física, psicológica e comportamental semelhante ao que ocorre
com o uso de outras drogas como álcool, cocaína e heroína. A dependência ocorre
pela presença da nicotina nos produtos à base de tabaco”. O que as Escrituras
dizem sobre isso? “‘Todas as coisas me são lícitas’, mas nem todas convêm.
‘Todas as coisas me são lícitas’, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma
delas” (1Co 6.12). Logo, nada que se constitui vício, ou seja, que nos domina,
deve ser aceitável, ainda que se alegue ser algo lícito, não proibido.
O dano a terceiros. Evitamos algumas coisas não somente
por serem danosas a nós mesmos, mas também por serem danosas a outros — até
mesmo quando não o são para nós. Assim escreve o apóstolo Paulo: “Se o seu
irmão fica triste por causa do que você come, você já não anda segundo o amor.
Não faça perecer, por causa daquilo que você come, aquele por quem Cristo
morreu. Não seja, pois, difamado aquilo que vocês consideram bom” (Rm
14.15-16). E também sustenta, como complemento lógico do raciocínio empregado nos
versículos citados, o seguinte: “Assim, pois, sigamos as coisas que contribuem
para a paz e também as que são para a edificação mútua. Não destrua a obra de
Deus por causa da comida. Todas as coisas, na verdade, são puras, mas não é bom
quando alguém come algo que causa escândalo. É bom não comer carne, nem beber
vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve um irmão a tropeçar” (Rm
14.1921). Paulo abordou o mesmo assunto com a igreja em Corinto, enfatizando os
alimentados consagrados a ídolos: “Quanto a comer alimentos sacrificados a
ídolos, sabemos que o ídolo, por si mesmo, nada é no mundo e que não há senão
um só Deus. […] Entretanto, nem todos têm esse conhecimento. Alguns,
acostumados até agora com o ídolo, ainda comem desses alimentos como se fossem
sacrificados a ídolos; e a consciência destes, por ser fraca, vem a
contaminar-se. Não é a comida que nos torna agradáveis a Deus, pois nada
perderemos, se não comermos, e nada ganharemos, se comermos” (1Co 8.4,7-8). O
apóstolo pontuou que a comida sacrificada a ídolos não é, em si mesma,
condenável. Mas lembrou que, em alguns casos, como para os fracos na fé, ela
pode ser vista como tal. E, então, focado na lei do amor, que evita promover o
dano a terceiros mesmo que não estejamos trazendo dano a nós mesmos, adverte:
“Mas tenham cuidado para que essa liberdade de vocês não venha, de algum modo,
a ser tropeço para os fracos. Porque, se alguém enxergar você, que tem
conhecimento, sentado à mesa no templo de um ídolo, será que a consciência do
que é fraco não vai ser induzida a participar de comidas sacrificadas a ídolos?
E, assim, por causa do conhecimento que você tem, perde-se o irmão fraco, pelo
qual Cristo morreu. E, deste modo, pecando contra os irmãos, ferindo a
consciência fraca que eles têm, é contra Cristo que vocês estão pecando. E, por
isso, se a comida serve de escândalo ao meu irmão, nunca mais comerei carne,
para que não venha a escandalizá-lo” (1Co 8.9-13). O fumo oferece dano a
terceiros? Sim, de duas formas; além do mal testemunho prejudicial a quem toma
ciência de um cristão preso ao vício do cigarro, ainda temos o chamado “fumo
passivo”. O já citado artigo sobre tabagismo, do Ministério da Saúde assevera:
“Ao respirar a fumaça do cigarro, os não fumantes correm o risco de ter as
mesmas doenças que o fumante. As crianças, especialmente as mais novas, são as
mais prejudicadas, já que respiram mais rapidamente. Em crianças que vivem com
fumantes em casa (cerca de metade das crianças do mundo), há um aumento de
incidência de pneumonia, bronquite, agravamento de asma, além de uma maior
probabilidade de desenvolvimento de doença cárdio vascular na idade adulta”.
O bom senso e, sobretudo, a coerência bíblica nos levam,
portanto, a não apenas evitar como também combater essa prática nociva à saúde.
Igualmente, devemos usar o bom senso e a coerência na
seletividade de nossos alimentos, na determinação de quantidades ingeridas e no
respeito às pausas necessárias que dão descanso não somente ao estômago e
intestino, mas também à produção hormonal.
Portanto, mesmo sem uma relação bíblica de restrições alimentares, podemos criar nossa própria lista de restrições autoimpostas. Ela deve focar o quando, o quanto e o que comemos.
Quando comer?
Quando devemos comer? Obviamente, salvo exceções como a
prática do jejum, a alimentação (assim como o sono) é um evento diário. Tiago
escreveu: “Se um irmão ou uma irmã estiverem com falta de roupa e necessitando
do alimento diário…” (Tg 2.15). Quantas refeições diárias, porém, seria correto
fazer? Que intervalos devem ser respeitados entre os períodos de alimentação?
O fato é que a Palavra de Deus não estabelece os horários
de alimentação, embora nos deixe o registro de como as pessoas, cujas histórias
estão registradas no Livro Sagrado, comiam. E, nesses registros, encontramos
três refeições principais: o desjejum, o almoço e a ceia (ou jantar).
Encontramos, aliás, exemplos de Jesus fazendo cada uma dessas três refeições.
Desjejum. A Bíblia registra pessoas comendo logo ao
amanhecer. Um desses exemplos envolve Cristo e os discípulos.
Ao romper o dia, Jesus estava na praia, mas os discípulos
não reconheceram que era ele.
Jesus lhes perguntou:
— Filhos, será que vocês têm aí alguma coisa para comer?
Eles responderam:
— Não.
João 21.4-5
Outro exemplo é o de um levita que morava na região
montanhosa de Efraim e foi visitar seu sogro em Belém de Judá:
No quarto dia, madrugaram e se levantaram para partir.
Mas o pai da moça disse a seu genro:
— Coma alguma coisa, para você ter mais força para a
viagem. Depois disso vocês podem ir embora.
Juízes 19.5
Almoço. Além do café da manhã, também temos registros de
gente almoçando, ou seja, comendo ao meio-dia:
Quando José viu que Benjamim estava com eles, disse ao
administrador de sua casa:
— Leve estes homens para casa, mate um animal e prepare
tudo, pois estes homens comerão comigo ao meio-dia.
Gênesis 43.16
Outro exemplo envolve, novamente, o Senhor Jesus:
Ali ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus
sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia.
Nisso veio uma mulher samaritana tirar água. Jesus lhe
disse:
— Dê-me um pouco de água.
Pois os seus discípulos tinham ido à cidade comprar
alimentos. […] Enquanto isso, os discípulos pediam a Jesus, dizendo:
— Mestre, coma!
João 4.6-8,31
Ceia. Quando Jesus, depois de ressuscitado, aparece a
dois discípulos no caminho de Emaús, eles, ao hospedá-lo ao fim do dia, lhe
ofereceram comida:
Quando se aproximavam da aldeia para onde iam, ele fez
menção de passar adiante. Mas eles o convenceram a ficar, dizendo:
— Fique conosco, porque é tarde, e o dia já está chegando
ao fim.
E entrou para ficar com eles. E aconteceu que, quando
estavam à mesa, ele pegou o pão e o abençoou; depois, partiu o pão e o deu a
eles.
Lucas 24.28-30
Um detalhe importante é que a refeição não se deu tarde
da noite, e sim ao fim do dia, e parece ter sido o que classificaríamos de um
lanche mais leve. Outro exemplo envolve Isaque e diz respeito a um banquete, ou
seja, a refeição não teria, necessariamente, sido leve.
Então Isaque lhes deu um banquete, e comeram e beberam.
Levantando-se de madrugada, juraram de parte a parte. Isaque os despediu, e
eles se foram em paz.
Gênesis 26.30-31
Honestamente, o texto não pontua, com toda a clareza, o
horário da refeição. Fala do banquete e, depois, dos hóspedes se levantando de
madrugada para ir embora. Portanto, presumimos que comeram à noite. Até pela
natureza da refeição festiva; fazendo-a depois do pôr do sol evitava-se o calor
do dia e preservava-se o horário de trabalho.
Não significa, contudo, que tenhamos de comer as três
principais refeições e que elas devam ser feitas no mesmos horários. Mas a
verdade é que elas são predominantes no mundo todo e estão presentes em toda a
história da humanidade, desde a antiguidade até os dias de hoje.
Um conselho a ser dado acerca do jantar (ou ceia) é que
deve ser uma refeição leve e consumida um bom tempo antes da hora de dormir.
Joseph Mercola, em sua obra Combustível para a saúde, comenta sobre a última
refeição diária:
Muitos também consomem a maior parte de suas calorias
diárias tarde da noite, que é exatamente quando seu corpo precisa da menor
quantidade de energia como calorias da alimentação. Por isso, eu recomendo que
você evite comer por pelo menos 3 horas antes de dormir — e isso inclui todo
mundo, não importa que tipo de dieta você siga ou não. Esse acesso contínuo à
comida impede seu corpo de passar pelos processos de reparo e rejuvenescimento
que ocorrem durante o jejum.2
Até recentemente, muitos profissionais da área da
nutrição advogavam a importância de se comer de três em três horas. Há grande
controvérsia sobre essa questão. Essa recomendação se apoiava em diversos
motivos, entre eles o equilíbrio metabólico — a ideia era manter o metabolismo
sem muitas variações — e o controle da quantidade de alimentos, uma vez que
quem come mais vezes ao dia tende, supostamente, a ingerir quantidades menores
em cada uma dessas diversas refeições pela ausência de fome.
Essa teoria, porém, quando se leva em conta o todo do
organismo humano e o funcionamento dos processos digestivos, esbarra em algumas
incoerências. O ser humano, ao longo da história, nunca dispôs da abundância
atual de alimentos, nem da facilidade de acesso a eles. As pessoas não
dispunham de condições de manter esses intervalos de alimentação e, portanto,
não creio que Deus tenha criado o corpo humano com uma necessidade que, na
maior parte da história, não teria sido atendida.
Além disso, intervalos menores na alimentação podem até
manter certo equilíbrio metabólico, mas, certamente, geram desequilíbrio
hormonal. “E hormônios como a insulina, por exemplo?”, perguntam os médicos
nutrólogos. A resposta é que sem intervalos maiores entre as refeições a
insulina se mantém alta, o que não é bom. Insulina constantemente alta
significa que o corpo responderá com resistência insulínica e vários problemas
de saúde se instalarão. Jason Fung, autor do esclarecedor livro O código da
obesidade, explica detalhadamente a questão do equilíbrio da insulina:
A insulina é um regulador-chave do metabolismo
energético, e é um dos hormônios fundamentais que promovem a acumulação e o
armazenamento de gordura. A insulina facilita a absorção de glicose nas células
para a obtenção de energia. Sem insulina suficiente, a glicose se acumula na
corrente sanguínea. A diabetes tipo 1 resulta da destruição autoimune, no
pâncreas, das células produtoras de insulina, o que, consequentemente, baixa
sensivelmente os níveis de insulina. […]
Quando comemos, os carboidratos ingeridos causam um
aumento da glicose disponível a uma quantidade maior do que a necessária. A
insulina ajuda a levar essa glicose abundante pela corrente sanguínea para ser
armazenada e reservada para uso posterior.
Nós armazenamos essa glicose, transformando-a, no fígado,
em glicogênio — um processo conhecido como glicogênese. (“Gênesis” quer dizer
“criação de”, portanto, esse termo significa “criação de glicogênio”.) As
moléculas de glicose são concatenadas em cadeias longas para formar o
glicogênio. A insulina é o principal estímulo da glicogênese. Podemos converter
a glicose em glicogênio e esse de volta em glicose com muita facilidade.
Mas o fígado tem um espaço de armazenamento limitado para
o glicogênio. Uma vez preenchido esse espaço, os carboidratos em excesso serão
transformados em gordura — um processo chamado “neolipogênese”. (Ou seja,
“criar gordura de novo”.)
Horas após uma refeição, os níveis de açúcar no sangue e
insulina começam a cair. Há menos glicose disponível para ser usada pelos
músculos, pelo cérebro e por outros órgãos. O fígado começa a decompor o
glicogênio em glicose para liberá-la na circulação geral com o objetivo de
gerar energia — o processo reverso de armazenamento de glicogênio. Em geral,
isso acontece de madrugada, se assumirmos que você não come nesse horário.
O glicogênio é liberado com facilidade, mas seu
suprimento é limitado. Durante um curto período de jejum (“jejum” significa que
você não come nada), seu corpo possui glicogênio disponível em quantidade
suficiente para operar. Durante um jejum prolongado, seu corpo pode criar nova
glicose a partir de suas reservas de gordura — um processo chamado
gliconeogênese (“criação de novos açúcares”). A gordura é queimada para liberar
energia, a qual é então enviada para o corpo — o processo reverso de
armazenamento de gordura.
A insulina é um hormônio de armazenagem. A ampla ingestão
de alimentos leva à liberação de insulina. A insulina, em seguida, ativa o
armazenamento de açúcar e gordura. Quando não há ingestão de alimentos, os
níveis de insulina caem e a queima de açúcar e gordura é ativada.
Esse processo acontece todos os dias. Normalmente, esse
sistema bem projetado e equilibrado mantem-se sob controle. Nós comemos, a
insulina aumenta, então nós armazenamos energia em forma de glicogênio e
gordura. Nós ficamos sem comer, a insulina baixa e usamos nossa energia
armazenada. Enquanto nossos períodos de alimentação e jejum estiverem em
equilíbrio, esse sistema também se manterá equilibrado. No caso de tomarmos o
café da manhã às 7 horas e terminarmos de jantar às 19 horas, as 12 horas de
alimentação equilibram as 12 horas de jejum.3
O que esse entendimento tem a ver com os intervalos entre
as refeições? A verdade é que, cientificamente falando, não precisamos comer
mais do que as três refeições e que os períodos de jejum entre a última
refeição de um dia e a próxima do dia seguinte deveriam respeitar um intervalo
de, no mínimo, doze horas. Evite “beliscar” entre as refeições. Além da questão
insulínica, já explicada, reduzir refeições pode significar, também, redução
calórica. Uma conta interessante que devemos fazer é a soma desses “lanchinhos”
ao longo do ano. Carl Dreizler e Mary E. Ehemann, no livro Comece hoje a perder
peso, questionam:
Você sabia que as trezentas calorias acrescentadas
diariamente pelo lanche aumentarão seu consumo energético em aproximadamente
110 mil calorias em um ano? Isso é uma quantidade enorme de sobrepeso provocado
por um pequeno e inofensivo lanche.4
Adotei isso como padrão alimentar há um tempo. Raramente
como com menos de doze horas de intervalo de um dia para o outro. Muitas vezes,
estendo o chamado “jejum intermitente” (falarei mais sobre isso no próximo
capítulo) para períodos de dezesseis a dezoito horas, deixando apenas de seis a
oito horas para comer. Isso se tornou um hábito quando deixei de tomar o café
da manhã e concentrei as refeições no almoço (um bom almoço, de preferência) e
em um lanche mais leve ao anoitecer. O dr. Mercola afirma que “esse acesso
contínuo à comida impede seu corpo de passar pelos processos de reparo e
rejuvenescimento que ocorrem durante o jejum”.5
Evidentemente, estou apresentando algo que merece ser
classificado como “conselho”, e não como “doutrina”. Alguns preferem evitar
comer sempre que não sentem fome, mas a dificuldade com isso tem a ver com as
rotinas necessárias ao corpo.
Quanto comer?
Quanto devemos comer? O alimento é apresentado nas
Escrituras como fonte de sustento: “Tendo sustento e com que nos vestir,
estejamos contentes” (1Tm 6.8). No capítulo anterior, contudo, vimos que a
comida não é somente fonte de sustento, mas também de prazer. O problema se dá
quando tratamos a alimentação como se fosse tão somente fonte de prazer. A
verdade é que não é necessário promover festas e celebrações diárias. Sem mudar
essa mentalidade teremos problemas com a maneira de nos alimentar.
Recordo-me da época em que ainda lutava com a obesidade e
pedi um conselho a um amigo, o pastor Francisco — que exerceu grande influência
em minha vida e hoje já se encontra com o Senhor. Na ocasião em que
conversamos, ele não havia experimentado quase nenhuma alteração de peso nas
últimas quatro décadas. Pergunteilhe como conseguia aquela “façanha”. A
resposta dada é que tinha tudo a ver com a mentalidade, o conceito que temos
sobre alimentação. E disparou: “Eu não vivo para comer; eu como para viver”.
Acho que isso resume a perspectiva que precisamos desenvolver e sustentar
acerca da comida.
O ideal, salvo as exceções de ocasiões festivas, é comer
somente aquilo de que precisamos para a manutenção do corpo, tanto de
nutrientes quanto de energia. A mesma Bíblia que apresenta a comida como fonte
de prazer, e não apenas de sustento, mostra a sabedoria de quem aprende a
manter a perspectiva de prazer sob controle:
Feliz é você, ó terra cujo rei é filho de nobres e cujos
príncipes se sentam à mesa a seu tempo para refazer as forças e não para se
embriagar.
Eclesiastes 10.17
Nem toda refeição deveria ser tratada como festiva. O
foco deve ser o sustento do corpo. “Coma alguma coisa, para você ter mais força
para a viagem” (Jz 19.5). Uma boa nutrição nos fornece a energia necessária
para nossas atividades e preserva a saúde. Comer em excesso é prejudicial. É
possível que, atualmente, tenhamos mais gente morrendo no mundo por excesso de
alimento do que pela falta dele.
Uma boa forma de avaliar se o quanto comemos (e até mesmo
o que comemos) está correto é se o fazemos para saciar a fome ou se levantamos
da mesa empanturrados. Muita gente come por questões emocionais, buscando
conforto e prazer nos alimentos. Nosso objetivo deveria ser saciar a fome — que
é o sinal do corpo da necessidade de comer. Observe alguns exemplos bíblicos:
No dia seguinte, quando saíram de Betânia, Jesus teve
fome. E, vendo de longe uma figueira com folhas, foi ver se nela acharia alguma
coisa. Aproximando-se dela, nada achou, a não ser folhas; porque não era tempo
de figos.
Marcos 11.12-13
O que levou Jesus a procurar figos? A Bíblia pontua que o
motivo foi a fome, e nada além disso. A alimentação deve ser, via de regra,
orientada ao sustento, à nutrição que provê as necessidades do corpo, salvo
exceções, como eventuais ocasiões de celebração.
No dia seguinte, enquanto eles viajavam e já estavam
perto da cidade de Jope, Pedro subiu ao terraço, por volta do meio-dia, a fim
de orar. Estando com fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a comida,
sobreveio-lhe um êxtase.
Atos 10.9-10
A Bíblia poderia apenas ter relatado que Pedro, enquanto
orava, teve uma experiência sobrenatural, uma visão. Mas acrescentou o detalhe:
“Estando com fome, quis comer”. Qual o propósito desse registro? Paulo
assegurou, escrevendo aos crentes de Roma, que “tudo o que no passado foi
escrito, para o nosso ensino foi escrito” (Rm 15.4).
Vale ressaltar que, quando discutimos o quanto comemos,
isso deve ser avaliado pelas necessidades diárias de nosso corpo, não se
limitando ao tamanho da refeição. Joseph Mercola, estimulando a prática do
jejum intermitente, afirma:
Em vez de ajustar a quantidade de alimento, como acontece
na restrição calórica de longo prazo, você só precisa modificar quando come e,
claro, escolher os alimentos com inteligência. Demonstrou-se que apenas o ciclo
entre períodos de alimentação e jejum em um cronograma diário, semanal ou
mensal proporciona muitos dos mesmos benefícios da restrição calórica. Escolher
quando comer e quando jejuar dessa forma é conhecido como “jejum intermitente”.
Como observa meu colega e defensor do jejum, o Dr. Dan Pompa: “Não coma uma
menor quantidade, coma menos vezes”.6
Além de avaliar se estamos comendo mais do que o necessário pelo estado de nosso estômago quando levantamos da mesa, também devemos levar em conta a questão do peso. Quilos excedentes são um indicativo — ainda que haja outras questões de saúde envolvidas — de que necessitamos de mudança em nossa alimentação, seja a quantidade ou a qualidade dos alimentos que ingerimos. Aliás, o que comer é o próximo assunto.
Quais alimentos evitar?
Os alimentos devem ser divididos em, pelo menos, dois
grupos básicos: os saudáveis e os não saudáveis. Os não saudáveis são aqueles
compostos pelo grupo dos que apresentam, naturalmente, propriedades que não
produzirão boa resposta em nosso organismo, que tenham muitas toxinas, ou mesmo
os industrializados e processados que, obviamente, também estão poluídos pela
química de conservantes, corantes, saborizantes e aromatizantes.
Há um episódio, narrado nas Escrituras, que me faz
refletir sobre a qualidade dos alimentos que temos escolhido ingerir.
Eliseu voltou para Gilgal. Havia fome naquela terra.
Quando os discípulos dos profetas estavam sentados diante dele, Eliseu disse ao
seu servo:
— Ponha a panela grande no fogo e faça um cozido para os
discípulos dos profetas.
Então um deles saiu para o campo a fim de apanhar ervas.
Ele achou uma trepadeira silvestre e, colhendo os frutos, encheu a sua capa com
eles. Voltou para casa, cortou os frutos em pedaços e os pôs na panela, mesmo
sem saber o que eram. Depois, deram de comer aos homens. Enquanto comiam do
cozido, gritaram:
— Morte na panela, ó homem de Deus!
E não puderam comer. Mas Eliseu disse:
— Tragam farinha.
Ele a colocou na panela e disse:
— Sirva às pessoas para que comam.
E já não havia mal nenhum na panela.
2Reis 4.38-41
O que era essa “morte na panela”? O fruto colhido para
fazer aquele cozido era, certamente, tóxico. Não penso que o Livro Sagrado
registre o grito “morte na panela” apenas como força de expressão. Warren
Wiersbe especula: “Quais foram as evidências de que a comida estava envenenada?
Talvez o primeiro indício tenha sido o gosto amargo na panela, e é possível que
os homens tenham sentido dor de estômago e náuseas”.7
A palavra utilizada no original hebraico, traduzida nesse
texto por “frutos”, é paqquʿah,
que significa “cabaças”. Muitas versões bíblicas traduziram por “colocíntidas”.
F. F. Bruce comenta: “Pensam os estudiosos que essa trepadeira tenha sido a
citrullus colocynthus, uma fruta amarela com poderes laxantes. O grito: Morte
na panela! (v. 40) pode não ter sido nada mais do que um despreocupado ‘Estão
nos envenenando!’”.8 Mahew Henry aponta: “Alguns pensam que fosse conquintida,
uma erva extremamente catártica, e, se não atenuada, perigosa”.9 Russel
Champlin apresenta um comentário semelhante: “Talvez a planta ofensora fosse a
colocíntida, que facilmente poderia ser confundida com uma cabaceira. Era uma
fruta parecida com a laranja. Tratava-se de um poderoso catártico, que, em
grandes quantidades, tornava-se bastante venenoso”.10
Por que um alimento tóxico, não saudável, prejudicial,
foi parar na panela? O texto bíblico sinaliza que o erro não foi intencional;
antes, provinha da ignorância de quem preparou a comida. Isso me parece um
perfeito paralelo de nossa condição atual. Atualmente, também temos morte em
nossas panelas! Muito daquilo que comemos tem levado ao corpo uma série de
disfunções, debilidades, doenças e, até mesmo, morte prematura.
O milagre operado por Eliseu está mais para exceção do
que para regra. Não há registro de que tenham voltado a ingerir as colocíntidas
só porque uma intervenção divina se manifestou na primeira vez que comeram o
fruto tóxico. E, não, não há nenhum versículo bíblico que proibia alimentar-se
de colocíntida. O bom senso, no entanto, como já observado, deve guiar-nos a
restrições autoimpostas quanto aos alimentos que não são saudáveis.
Por isso aconselho, seguramente, que se evite, o máximo
possível, o consumo de alimentos industrializados e processados. Além disso,
devemos ser cautelosos com o consumo de alimentos como os derivados do leite,
por exemplo. Não apenas por causa da lactose, mas também por ser um alimento
altamente inflamatório. O glúten também tem deixado um rastro de problemas de
saúde maior do que mensuramos.
A seletividade alimentar não visa apenas a boa nutrição.
Nosso intestino, que é diretamente impactado pelo que comemos, também é
responsável por boa parte da produção hormonal e regula a imunidade. Conforme
observa o dr. Helion Póvoa: “É impressionante que o intestino responda por 80%
do nosso potencial imune, e todos devemos ficar muito atentos para esse dado,
pois a imunidade é um dos maiores pilares da boa saúde”.11
Diferentemente do moço que saiu em busca de alimento para
os discípulos dos profetas, não seja ignorante acerca daquilo que você coloca
em sua panela. Tenho investido tempo e recursos estudando a alimentação e o
funcionamento do corpo para não mais cometer esse tipo de erro — uma vez que
muitos anos de minha vida foram um paralelo dessa história.
Acredito ainda que, além de adotar uma alimentação
saudável, todo cristão também deveria acrescentar a prática do jejum a seu
estilo de vida. E não me refiro apenas aos benefícios espirituais dessa
disciplina, mas, também, a seu impacto positivo sobre nossa saúde — assunto que
abordaremos no próximo capítulo.
Biblioteca Virtual em Saúde, “Tabagismo”, Ministério da
Saúde, <h ps://bvsms.saude.gov.br/tabagismo-13/>.
Joseph Mercola, Combustível para a saúde: A
revolucionária dieta para prevenir doenças e auxiliar no combate ao câncer, no
aumento da capacidade cerebral e energia vital e na manutenção do peso (São
Paulo: n Versos, 2017), p. 215.
Jason Fung, O código da obesidade: Decifrando os segredos
da prevenção e cura da obesidade (São Paulo: nVersos, 2019), p. 73-74.
Carl Dreizler e Mary E. Ehemann, Comece hoje a perder
peso (Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2012), p. 23.
Mercola, Combustível para a saúde, p. 215.
Mercola, Combustível para a saúde, p. 220.
Warren W. Wiersbe, Comentário Bíblico Expositivo, Vol. 2
(Santo André: Geográfica, 2006), p. 506.
F. F. Bruce, Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo
Testamentos (São Paulo: Vida, 2012), p.
412.
Mahew Henry, Comentário Bíblico Antigo Testamento, Vol. 2
(Rio de Janeiro: CPAD, 2018), p. 561.
R. N. Champlin, O Antigo Testamento interpretado
versículo por versículo, Vol. 3. (São Paulo:
Hagnos, 2018), p. 27.
Póvoa, O cérebro desconhecido, p. 75.8
OS SAUDÁVEIS EFEITOS DO JEJUM
Quando vocês jejuarem… MATEUS 6.16
Continuando o assunto das restrições alimentares, temos
agora de abordar a questão do jejum. O que é, exatamente, o jejum? Cito a
definição extraída de meu livro, A cultura do jejum (aliás, a maior parte do
conteúdo deste capítulo foi extraído e adaptado de lá):
O jejum bíblico é, em essência, uma abstinência
intencional de alimentos visando a propósitos espirituais. Pode incluir, em
períodos menores, a privação da ingestão de água, embora seja feito normalmente
sem tal contenção. Também possui variações que admitem a abstinência parcial,
excluindo apenas determinados grupos de alimentos, porém permitindo outros.
A palavra empregada nos manuscritos gregos e traduzida
como “jejum” é nesteia (νηστεια). Derivada de ne, elemento de negação, e
esthio, “comer”, significa abstinência de alimentos. Podem ser adotadas outras
formas de abstinência além da alimentar, conquanto, fundamentalmente, jejum
consiste em privação de comida. […]
O jejum não é — como alguns pensam — uma espécie de
“moeda de troca” ou ferramenta de barganha. Também não é um sacrifício que, por
si só, gera recompensas. Isso tudo seria uma contradição à graça, revelada em
Cristo, que se acessa mediante a fé (Rm 5.2). […]
Embora Jesus tenha garantido que haveria recompensa, “E o
seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa” (Mt 6.18), o jejum não é, em
si mesmo, o fator responsável pelo resultado — apesar de ser, indubitavelmente,
um excelente auxílio para o exercício da fé que, sim, conduz-nos a resultados.
O jejum é, antes de mais nada, uma ferramenta, utilizada
na busca a Deus, que contribui ao processo de rendição. Ele potencializa a
mortificação da carne e seus apetites, de modo a levar-nos a aspirar,
desimpedidamente, pelas coisas celestes. Outras bênçãos, decorrentes de seu uso
adequado, são mera consequência; elas constituem efeito colateral, e não
propósito.1
Para nós, cristãos, o propósito dessa abstinência
alimentar autoimposta é, sobretudo, de ordem espiritual. Isso significa que o
jejum possui propósitos espirituais que nos levam a combiná-lo com oração e
outras devoções, como adoração, além de leitura, meditação e estudo das
Escrituras Sagradas. Não quer dizer, no entanto, que a lista de benefícios do
jejum não inclua o aspecto físico e que o jejum não possa ser feito visando,
também, o impacto saudável que exerce sobre o cuidado do corpo. Ainda que esse
aspecto seja visto como mero efeito colateral, o impacto saudável, na vida de
quem o pratica de modo recorrente, é inquestionável.
O jejum é, seguramente, parte das disciplinas espirituais
esperadas dos cristãos, ainda que alguns tentem se esquivar dessa prática
usando desculpas teologicamente mal formuladas, que alegam que esse tipo de
abstinência não seja para nossos dias, ao passo que outros insinuam que, embora
possamos jejuar, não significa que “tenhamos” de fazê-lo.
O que a Bíblia diz acerca do jejum? Meu propósito aqui
não é esgotar o tema — ato que me propus no já mencionado livro acerca do
assunto. Mas precisamos de algumas considerações básicas. As Escrituras ordenam
que jejuemos? Apesar de evidentemente não haver um imperativo, uma ordenança
explícita sobre jejuar, o Novo Testamento está repleto de menções ao jejum e
indicativos claros de que ele seria parte de nosso estilo de vida e, de igual
modo, instruímos sobre o modo correto de praticá-lo.
Ao considerar o ensino de Jesus, não há como negar que o
Mestre contava que jejuássemos:
Quando vocês jejuarem, não fiquem com uma aparência
triste, como os hipócritas; porque desfiguram o rosto a fim de parecer aos
outros que estão jejuando. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua
recompensa. Mas você, quando jejuar, unja a cabeça e lave o rosto, a fim de não
parecer aos outros que você está jejuando, e sim ao seu Pai, em secreto. E o
seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa.
Mateus 6.16-18
Embora, aparentemente, Jesus não estivesse ordenando
jejuar, ao menos não no sentido de um imperativo, suas palavras revelam que, no
mínimo, ele esperava de seus discípulos a prática do jejum. Cristo não disse
“se jejuarem”, mas colocou ênfase na instrução sobre o jejum para “quando” o
fizéssemos. E, além de instruir sobre a motivação correta ao jejuar, ainda
destacou que tal prática produz resultados. Como deduzir outra coisa diferente
de que nosso Senhor manifestou clara expectativa de que seus seguidores
jejuassem?
Houve, convém observar, um momento em que questionaram a
Cristo o fato de seus discípulos não jejuarem. Naquele tempo, era costume dos
fariseus jejuar dois dias por semana (Lc 18.12), às segundas e quintas.2 A
resposta oferecida pelo Mestre é muito esclarecedora:
Será que vocês podem fazer com que os convidados para o
casamento jejuem enquanto o noivo está com eles? No entanto, virão dias em que
o noivo lhes será tirado, e então, naqueles dias, eles vão jejuar.
Lucas 5.34-35
Observe a afirmação de Jesus. Ele não disse ser contra a
prática do jejum por seus discípulos, apenas enfatizou que se tratava de uma
questão de tempo — depois que fosse tirado do convívio direto com os
discípulos, voltando ao céu, então eles haveriam de jejuar. Ou seja, quando
Cristo falou sobre o jejum, não se restringiu somente àquele tempo, mas apontou
para um período específico: quando estariam sem o noivo, a partir de sua morte
e ressureição. A declaração do Mestre, portanto, derruba por terra o argumento
de que o jejum foi uma determinação exclusiva e restrita aos judeus da antiga
aliança. Como negar, diante de tamanha clarificação bíblica, que o jejum seja
algo que nosso Senhor espera de todos os seus remidos? Como negar que tal
orientação tenha sido dada também à Igreja? Ou que a própria Igreja o tenha
praticado desde o início da era cristã?
Observe dois registros bíblicos sobre a igreja em
Antioquia:
Enquanto eles estavam adorando o Senhor e jejuando, o
Espírito Santo disse:
— Separem-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os
tenho chamado.
Então, jejuando e orando, e impondo as mãos sobre eles,
os despediram.
Atos 13.2-3
E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de
presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor, em quem
haviam crido.
Atos 14.23
Assim como em Antioquia, uma igreja composta
majoritariamente de gentios, encontramos, novamente, a prática da oração com
jejuns em outras igrejas estabelecidas entre os gentios. Isso aponta para a
cultura do jejum se estabelecendo além do ambiente judaico e não se limitando,
portanto, à antiga aliança.
Se alguém não quiser viver uma vida marcada pelo hábito
de jejuar, é sua escolha — assim como também serão suas as consequências da
negligência dessa disciplina. Entretanto, ninguém possui o direito de
contrariar as Escrituras, afirmando que o jejum não é importante ou mesmo
necessário.
O que a Palavra de Deus não define é a duração, o tipo e a periodicidade com que se deve jejuar. Isso significa que cada um decide como, quando (e até quando) e de quanto em quanto tempo fará aquilo que ele tem de fazer. Há liberdade sobre a maneira de praticar o jejum; o jejum, no entanto, não pode ser tratado como opcional.
É saudável ao corpo?
Enquanto alguns são absolutamente contrários ao jejum, na
discussão de ser ou não uma prática saudável, outros a defendem amplamente.
Certa ocasião, o dr. Aldrin Marshall, um médico amigo, cristão, que vem me
acompanhando de perto em vários jejuns prolongados desde 2018, confidenciou-me:
“A verdade é que, na medicina, há muita discussão teórica e pouco laboratório
prático; não temos muitos estudos de caso, porque o jejum, especialmente o
prolongado, tornou-se uma prática pouco comum”. Nos jejuns em que ele me
ofereceu acompanhamento médico (o que tem ocorrido em todos os meus jejuns
prolongados), pediu uma bateria de exames antes e outra depois. Recentemente,
adicionamos algumas no meio do período. O propósito, além de monitorar meu
estado de saúde, era entender um pouco melhor os efeitos do jejum no corpo,
quanto à perspectiva fisiológica. Sempre houve melhoras significativas em meu
estado de saúde, não o contrário.
Decidi, nos últimos anos, estudar tudo o que pudesse
sobre a fisiologia do jejum e também me dispor a ser uma espécie de “cobaia” de
estudos e experimentos. E afirmo: estou mais do que convencido, munido de
inúmeras pesquisas científicas, e com o apoio da experiência prática,
documentada por meio de diversos exames médicos, que o jejum é uma ferramenta
poderosa para aqueles que querem cuidar do corpo.
O jejum é uma prática antiga, milenar. Vem sendo testada
há muito tempo. Os que a atacam normalmente não compõem o grupo dos que
costumam jejuar nem parecem apresentar estudos de caso consistentes. Comumente
oferecem especulações teóricas e, não raro, preconceituosas. O dr. Jason Fung,
nefrologista, reconhecido como um dos maiores especialistas mundiais na prática
do jejum para perda de peso e reversão da diabetes tipo 2, autor do livro O
código da obesidade, é um defensor do jejum e reconhece-o como um antigo
remédio:
O jejum é um dos remédios mais antigos da história humana
e tem sido parte da prática de quase todas as culturas e religiões do planeta.
[…]
Como uma tradição de cura, o jejum tem uma longa
história. Hipócrates de Kos (aprox. 460-370 a.C.) é considerado por muitos o
pai da medicina moderna. Entre os tratamentos que ele prescreveu e preferiu,
encontra-se o jejum e o consumo de vinagre de maçã. Hipócrates escreveu: “Comer
quando você está doente é alimentar sua doença”. O escritor grego antigo e
historiador Plutarco (aprox. 46-120 d.C.) também refletiu esses sentimentos.
Ele escreveu: “Em vez de usar remédios, é melhor jejuar hoje”. Platão e seu estudante
Aristóteles também foram apoiadores convictos do jejum.
Os gregos antigos acreditavam que o tratamento médico
poderia ser descoberto por meio da observação da natureza. Os seres humanos,
assim como os animais, não comem quando adoecem. Pense na última vez que você
teve um resfriado. Provavelmente, a última coisa que você gostaria de fazer era
comer. Jejuar parece uma resposta universal a diversas formas de doenças e está
conectada à herança humana, tão antiga quanto a própria humanidade. O jejum é,
de certa forma, um instinto. […]
Outros gigantes intelectuais também foram grandes
proponentes do jejum. Para celso (1493-1541), o fundador da toxicologia e um
dos três pais da medicina oriental moderna (junto com Hipócrates e Galeno),
escreveu: “O jejum é o maior dos remédios; é o médico interior”. Benjamin
Franklin (1706-1790), um dos pais fundadores dos Estados Unidos da América e
reconhecido por seu grande conhecimento, certa vez escreveu sobre o jejum: “O
melhor de todos os remédios é o repouso e o jejum”.3
Às pessoas que justificam não jejuarem alegando não se
tratar de uma prática saudável, devo dizer que estão ignorando pesquisas e
apontamentos médicos robustos. Além disso, creio que muitas delas desconhecem,
de forma prática, os impactos do jejum em seu próprio corpo, especialmente o
efeito desintoxicador. Asseguro que é impressionante como o intestino não
apenas é limpo mas também se regula depois do jejum; a limpeza na pele é
perceptível com poucos dias; ânimo, vigor e energia são todos positivamente afetados.
Valnice Milhomens comenta que “morre mais gente por falta de jejum, do que de
comida. Se houvesse mais jejum, haveria menos doenças”.4
O maior questionamento, portanto, não deveria ser quão
saudável ou não é a prática do jejum, e sim se devemos — biblicamente falando —
jejuar. Hipoteticamente, se os cientistas comprovassem que orar não é saudável,
eu ainda seguiria praticando a vida de oração. Por quê? Porque tenho um
direcionamento bíblico claro acerca da oração e não faria deliberadamente
nenhuma escolha contrária às Escrituras. Comecei a jejuar por causa daquilo que
a Palavra de Deus diz, e não porque, cientificamente falando, seja aconselhável
jejuar.
Não obstante, devemos concluir, com o uso de uma lógica
simples, que a mesma Bíblia que nos orienta a não destruir o corpo — o templo
do Espírito Santo — não nos orientaria a uma prática não saudável. Portanto,
afirmo: o jejum, feito de modo correto, é saudável não só para nossa vida
espiritual como também para nosso corpo. Questionar esse fato é questionar as
próprias Escrituras.
E, além da questão da fé, ainda temos a ciência ao nosso
lado; e cito o dr. Fung: “Faz mal à saúde? A resposta é não. Estudos
científicos concluem que o jejum traz benefícios significativos à saúde. O
metabolismo aumenta, a energia aumenta e a glicemia diminui”.5
O dr. Aldrin Marshall, em apêndice médico-científico para
meu livro A cultura do jejum, comenta:
O aspecto espiritual do jejum não pode ser separado do
médico-científico e, para isto, faz-se necessário entender quais mecanismos
bioquímicos estão por trás do ato de jejuar e quais os benefícios advindos
desta prática milenar, que transcende culturas e religiões.
[…]
Em 2016, o cientista japonês Yoshinori Oshumi recebeu o
Prêmio Nobel de Medicina por seus estudos sobre autofagia. O termo autofagia se
origina das palavras gregas auto, que significa “eu”, e phagein, que significa
“comer”. Assim, autofagia significa “auto comer”. Essencialmente, é o mecanismo
do corpo que se ocupa de livrar-se de todas as máquinas celulares antigas,
defeituosas (organelas, proteínas e membranas celulares), quando não há mais
energia suficiente para sustentá-las. É um processo regulamentado e ordenado
para degradar e reciclar componentes celulares. A autofagia foi descrita pela
primeira vez em 1962, quando os pesquisadores notaram um aumento no número de
lisossomos (a parte da célula que destrói o material antigo) em células
hepáticas de ratos após a infusão de glucagon. O cientista, também ganhador do
Prêmio Nobel, Christian de Duve, foi quem cunhou o termo autofagia.2 Sobre o
processo, em suma, partes subcelulares danificadas e proteínas não usadas
tornam-se marcadas para destruição e, em seguida, são enviadas aos lisossomos
para que terminem o trabalho de destruí-las.
Diante do conhecimento adquirido sobre processos
celulares fundamentais à homeostase (equilíbrio) das células, vários artigos
começaram a ser publicados sobre a possível relação entre a prática do jejum e
a otimização do processo de autofagia e seus efeitos sobre a longevidade
saudável e a prevenção de doenças.
No contexto médico, podemos classificar o jejum em três
categorias:
Restrição calórica: uma pessoa que precisa de 2.500
calorias diárias e consome 1.500 calorias está no que pode ser chamado um
processo de jejum.
Jejum fisiológico: é aquele em que se passa pelo menos 12
horas sem consumir nada que tenha calorias, podendo ingerir água, café, chás ou
chimarrão.
Jejum metabólico: é o jejum no qual, neste período mínimo
de 12 horas, não se promove o aumento da insulina, hormônio relacionado ao
metabolismo da glicose. Pode-se até comer, mas somente alimentos que não ativam
a insulina; ela não é ativada, por exemplo, quando se consome gorduras. Uma das
estratégias utilizadas é o café “bulletproof” (café com óleo de coco e
manteiga),6 no qual o jejum fisiológico é quebrado, mas não o metabólico. Esse
controle é importante, porque a insulina elevada cria um terreno para
inflamação.7
As descobertas das pesquisas apontam cada vez mais na mesma direção. Por isso, entendo ser importante compreender o que o jejum faz em nosso corpo — para além de seus evidentes resultados espirituais. Passemos a um resumo do aspecto fisiológico do jejum.
A psicologia do jejum
Muitos crentes têm receio do jejum, e digo isso por
experiência própria. Em minhas primeiras experiências com o jejum, mesmo os de
um dia só, eu imaginava que poderia morrer de fome — e não se trata de mera
força de expressão!
Com o tempo e a prática, os temores desapareceram.
Constatei não apenas que não há ameaças ao corpo (salvo exceções, que indicarei
adiante), como, pelo contrário, há benefícios provenientes da desintoxicação
promovida pela abstinência alimentar. Confesso, avaliando as coisas pelo
entendimento que tenho hoje, que gostaria de ter tido acesso às informações
fisiológicas desde o início de minha prática de jejuar.
É necessário remover os medos provenientes da
desinformação. Desse modo, quero incentivar a perseverança na prática de
jejuar, porque assim cada jejuador poderá provar e comprovar seus efeitos. Um
passo para desmistificar o jejum é compreender que não se trata de algo
sobrenatural — embora possamos obter do Senhor o que denomino de “uma graça
para jejuar”. Via de regra, o jejum é algo natural, ou seja, humanamente
possível.
A fase inicial costuma gerar certo mal-estar. Em caso de
jejum prolongado, pode levar três dias para que os sintomas de desintoxicação
desapareçam — tudo dependerá de quão saudável é a alimentação de cada um e se
houve ou não preparo para esse tipo de jejum.
Já ouvi desculpas das mais absurdas para não jejuar, mas
uma merece destaque: “É que eu fico com fome”, disse alguém. Respondi rindo: “A
ideia é justamente essa!”. Sim, há um medo da fome, porém mais que isso: as
pessoas receiam não apenas a fome em si, mas o que ela pode fazer ao corpo. Por
isso é fundamental trazer à tona o aspecto fisiológico do jejum para que tal
engano seja desfeito e o medo se dissipe.
Para melhor esclarecer o ponto, citarei outra explicação
do médico Jason Fung, extraída do livro O código da obesidade. O dr. Fung
possui larga experiência (e também um belo “laboratório de análise”) no
tratamento a obesos e diabéticos do tipo 2, tendo como uma de suas principais
ferramentas o jejum. Observe o que ele diz sobre o efeito do jejum no corpo
humano:
A glicose e a gordura são as principais fontes de energia
do corpo. Quando a glicose não está disponível, o corpo se ajusta para usar a
gordura, sem qualquer prejuízo à saúde. […] A transição do estado alimentado
para o estado de jejum ocorre em várias etapas:
Alimentação: durante as refeições, os níveis de insulina
aumentam. Isso permite a absorção de glicose por tecidos como o músculo ou
cérebro para uso direto como energia. O excesso de glicose é armazenado como
glicogênio no fígado.
A fase pós absorção (6 a 24 horas após o início do
jejum): os níveis de insulina começam a cair. A quebra do glicogênio libera
glicose para energia. Os depósitos de glicogênio duram aproximadamente 24
horas.
Gliconeogênese (24 horas a 2 dias): o fígado fabrica nova
glicose a partir de aminoácidos e glicerol. Em pessoas não diabéticas, os
níveis de glicose caem, mas permanecem dentro da faixa normal.
Cetose (um a três dias após o início do jejum): a forma
de armazenamento de gordura, os triglicerídeos, é decomposta na espinha dorsal
de glicerol e três cadeias de ácidos graxos. O glicerol é usado para
gliconeogênese. Ácidos graxos podem ser usados diretamente para produção de
energia por muitos tecidos no corpo, mas não pelo cérebro. Corpos cetônicos,
capazes de cruzar a barreira hematoencefálica, são produzidos a partir de
ácidos graxos para ser usado pelo cérebro. As cetonas podem fornecer até 75% da
energia usada pelo cérebro. Os dois principais tipos de cetonas produzidas são
o beta hidroxibutirato e o aceto acetato, que podem aumentar em mais de 70
vezes durante o jejum.
Fase de conservação de proteínas (após cinco dias): altos
níveis de hormônio do crescimento mantêm a massa muscular e os tecidos magros.
A energia para manutenção do metabolismo basal é quase totalmente obtida pelo
uso de ácidos graxos livres e cetonas. Os níveis elevados de neropinefrina
(adrenalina) evitam a diminuição da taxa metabólica.
O corpo humano é bem adaptado para lidar com a ausência
de comida. O que estamos descrevendo aqui é o processo ao qual o corpo é
submetido para passar da queima de glicose (em curto prazo) para a queima de
gordura (em longo prazo). A gordura é, simplesmente, a energia de alimentos
armazenada no organismo. Em tempos de escassez de comida, o alimento armazenado
(gordura) é naturalmente liberado para preencher esse vácuo. O corpo não
“queima músculo” para se alimentar até que todos os depósitos de gordura sejam
usados.8
A verdade é que, em um jejum prolongado, só com água, por
exemplo, a pessoa não está privada de alimento; o que acontece é uma troca do
alimento externo por um alimento interno — as reservas de gordura do corpo.
Deus não nos orientaria, em sua Palavra, a uma prática
que acarretasse danos ao corpo, e devemos crer na veracidade, autoridade e
utilidade das Escrituras. De uma vez por todas, o assunto deve ser
desmistificado. Ressalto que há exceções a considerar, mas destaco que as
exceções não anulam a regra.
Sempre oriento as pessoas a iniciarem a prática do jejum de forma lenta, embora também diga que a prática deve ser progressiva. Assim, você descobrirá por si só, na prática, a importância e os efeitos do jejum (em sua vida espiritual e física) e ainda aprenderá quais são as respostas e os limites de seu próprio corpo.
Os benefícios do jejum
Joseph Mercola, em sua obra Combustível para a saúde,
relaciona os confirmados efeitos positivos do jejum em nosso corpo e saúde:
Estabilização da glicemia. Ao não absorver calorias, os
níveis de glicemia caem para os níveis normais de jejum, bem abaixo de 100.
Eles também estabilizam quando o fígado começa a produzir glicose pelo processo
de glineogênese, pelo menos em não diabéticos.
Redução dos níveis de insulina e melhora à resistência à
insulina. Com a queda da glicemia, seu corpo não precisa liberar tanta insulina
para transportar a glicose da corrente sanguínea para as células, então os
níveis de insulina também caem e seu corpo se cura da resistência à insulina.
Descanso para o intestino e sistema imunológico. Com o
jejum, o trato digestivo descansa e regenera sua mucosa. Além disso, o sistema
imunológico não fica sob o estresse contínuo a se dedicar a um fluxo constante
de antígenos alimentares, deixando-o livre para participar na regeneração dos
órgãos. Além disso, jejuns breves provocarão a ativação das células-tronco para
produzir novos glóbulos brancos, aumentando a imunidade.
Produção de cetonas. Como as cetonas fornecem uma fonte
alternativa de energia, elas também preservam a massa muscular. E, claro, elas
são uma alternativa necessária à glicose para o cérebro e o sistema nervoso
central.
Aumento da taxa metabólica. Seus níveis de adrenalina se
elevam para dar energia na ausência de alimento, significando que sua taxa
metabólica geral aumenta (em oposição ao mito de que o jejum paralisa o
metabolismo e coloca seu corpo em “modo de fome”).
Limpeza das células danificadas. O jejum provoca a
autofagia, uma rotina de limpeza natural usada por seu corpo para limpar
resíduos celulares, incluindo toxinas, enquanto também recicla os componentes
celulares danificados. A autofagia ou “comer a si mesmo” […] contribui com
muitas funções importantes, ajudando suas células-tronco a reter a habilidade
de manter e reparar seus tecidos, refrear a inflamação, desacelerar o processo
de envelhecimento, diminuir o crescimento do câncer e otimizar a função biológica.
Diminuição da fome. Ao contrário da crença popular, uma
vez adaptado ao jejum, suas sensações subjetivas de fome diminuem. Por quê? Em
grande parte, porque o jejum baixa os níveis de insulina e leptina e melhora a
sensibilidade aos receptores de insulina e leptina. Essas duas melhorias
metabólicas ajudam a mobilizar a oxidação das reservas de gordura e outros
grandes incentivos hormonais à obesidade e doença crônica.
Perda do excesso de gordura corporal. Nos meus 30 anos de
clínica prática, eu percebi claramente que o jejum intermitente foi uma das
formas mais eficazes, e fáceis, de se livrar do excesso de gordura corporal sem
perder a massa magra. Quando você passa por um longo período sem comer, você
consome menos calorias gerais, significando que a composição corporal é
naturalmente regulada para proporções ideais. […]
Redução dos níveis de hormônios que provocam o câncer.
Fazer intervalos regulares na ingestão alimentar não só reduz os níveis de
insulina e leptina, mas também o fator de crescimento semelhante à insulina
tipo 1 (IGF-1), um hormônio potente que age na sua glândula pituitária para
induzir efeitos metabólicos e endócrinos poderosos, incluindo o crescimento e a
replicação celulares. Os níveis elevados de IGF-1 estão associados com muitos
cânceres, incluindo o de mama e o de próstata. As células cancerígenas têm mais
receptores para esse hormônio do que as normais, e a redução dos níveis de
IGF-1 está associada com uma proliferação celular reduzida em muitos cânceres.
O jejum também reduz os níveis das citocinas pró inflamatórias, pequenas
proteínas que também têm uma função na promoção do câncer.
Desaceleração do envelhecimento. Além de aumentar os
níveis de hormônio do crescimento humano, o jejum diminui o acúmulo de radicais
livres nas suas células, prevenindo assim o dano oxidativo a proteínas
celulares, lipídios e DNA. O dano é muito associado com o envelhecimento e a
maioria das doenças crônicas. O jejum também inibe a via da proteína alvo da
rapamicina em mamíferos (mTOR), que […] é uma via de sinalização celular antiga
que controla a insulina, a leptina e o IGF-1, e é responsável pelo crescimento
ou reparo, dependendo se for estimulada ou inibida. Inibir a mTOR é
precisamente seu objetivo, se sua intenção for regular para cima a manutenção e
o reparo, aumentar a longevidade e reduzir seu risco de câncer. Isso significa
que é uma boa ideia para quase todo mundo, exceto fisiculturistas e atletas
competitivos.
Estimula a queima de gordura. Ao comer o dia todo, você
nunca precisa recorrer às suas reservas de glicogênio (glicose armazenada).
Quando você passa pelo menos 18 horas sem se alimentar, se você ainda não
estiver queimando a gordura como principal combustível para seu corpo, ou 13
horas se estiver, as reservas de glicogênio no seu fígado se esgotam
radicalmente. Nesse ponto, seu corpo é forçado a recorrer à sua reserva de
gordura para ter energia — e aqui começa o estado da queima de gordura […].
Proteção do funcionamento cerebral. O jejum também pode
ter um impacto benéfico no seu funcionamento cerebral, e pode até ser a chave
para a prevenção da doença de Alzheimer e outros transtornos mentais crônicos.9
E o dr. Mercola ainda acrescenta: “Outro benefício desse jejum é que você conseguirá passar horas sem uma queda de energia, porque a gordura fornece uma fonte de combustível contínua, ao contrário da glicose, que provoca picos de glicose/insulina, pontadas de fome frequentes e quedas de energia”.
Contraindicações
Há contraindicações ao jejum? O dr. Mercola, estudioso e
entusiasta do jejum em seus diferentes formatos, incluindo o jejum intermitente
(que inclui, mais comumente, intervalos diários de doze a dezoito horas sem
comer), também apresenta algumas contraindicações do jejum que não podem ser
ignoradas. Elas servem tanto para a prática do intermitente como também de
jejuns maiores:
Embora eu creia que o jejum intermitente […] seja uma
forma poderosa de melhorar a sua função fisiológica e até o seu nível
mitocondrial, ele não serve para todos. Indivíduos que tomem medicação,
especialmente os diabéticos, precisam de supervisão médica, caso contrário há
um risco de hipoglicemia.
Caso você tenha problemas nas adrenais, doença renal
crônica, vive com estresse crônico (fadiga adrenal) ou tiver cortisol
desregulado, deverá resolver essas questões antes de implementar o jejum
intermitente. Além disso, não faça o jejum caso tenha uma doença chamada
porfiria.
Caso seu objetivo seja desenvolver músculos ou praticar
esportes competitivos, como corridas de curta distância, que demandam glicose
para as fibras musculares de contração rápida, o jejum intermitente pode não
ser a melhor estratégia.
Mulheres grávidas e no período de amamentação não devem
praticar o jejum intermitente, pois o bebê precisa de uma maior variedade de
nutrientes antes e após o nascimento, e não há pesquisas corroborando a
segurança do jejum durante esse importante período.
Crianças abaixo de 18 meses também não devem fazer o
jejum por períodos longos. Pessoas de qualquer idade que estiverem preocupadas
com a subnutrição ou estiverem abaixo do peso (com um índice de massa corporal,
ou IMC, abaixo de 18,5), ou tiverem um distúrbio alimentar como anorexia
nervosa, devem evitar o jejum.
Quando você implementar o jejum intermitente, observe
quaisquer sinais de hipoglicemia, ou queda na glicemia, que incluem:
Tontura. - Tremedeira.- Confusão. - Desmaios.- Suor excessivo.- Visão embaçada. - Fala arrastada.
Sensações de arritmia. - Sensações de pontadas e formigamento na ponta dos dedos.
Caso você suspeite de uma queda no açúcar, coma algo que não tenha impacto nos seus níveis de glicemia, como óleo de coco no café ou no chá.
Como jejuar?
Há grande liberdade pessoal para que cada um pratique o
jejum como bem entender. A instrução bíblica se limita ao fato de que devemos
praticá-lo; ou seja, ela é focada em “quê”, e não “como” ou “quando”.
Muitos me perguntam sobre as regras do jejum. Paulo
afirmou: “o atleta não é coroado se não competir segundo as regras” (2Tm 2.5);
diferentemente do esporte, porém, o jejum não vem com um manual de regras.
Gosto de brincar que a regra é que não há regras! O que temos, nas Escrituras
Sagradas, são princípios e orientações, que nos ajudam mais em relação ao “por
que” fazemos (motivações e propósitos) do que ao “como” fazemos.
Alguém pode jejuar um dia por semana, por mês ou com
qualquer outra periodicidade. Pode escolher o tipo de jejum e qual será sua
duração. Não há, portanto, regras pré-definidas. Cada um gerencia como melhor
entender ou conforme a direção que receber do
Espírito Santo.
Tipos de jejum
Os diferentes tipos de jejum que encontramos na Bíblia
são:
Parcial. O jejum parcial é a abstinência de determinados
tipos de alimentos, porém não de todos. Admite a ingestão de líquidos, e não só
água, além de alimentos de que o jejuador não tenha se proposto privar-se. O
exemplo mais claro desse tipo de jejum foi feito por Daniel, o que tem levado
muitos a usarem as expressões “jejum de Daniel” e “jejum segundo Daniel” como
referência ao jejum parcial. “Naqueles dias, eu, Daniel, fiquei de luto por
três semanas. Não comi nada que fosse saboroso, não provei carne nem vinho, e
não me ungi com óleo algum, até que passaram as três semanas” (Dn 10.2-3).
Obviamente, Daniel não estava fazendo uma dieta — sim, às vezes percebo alguns
banalizarem dessa forma o jejum do profeta. Jejuns são feitos com propósitos
espirituais, inclusive os parciais. Um anjo de Deus falou com Daniel ao final
daquele jejum e disse que o profeta “dispôs o coração a compreender e a se
humilhar na presença do seu Deus” (Dn 10.12), uma clara aprovação do ato. Que
Daniel tinha o hábito de jejuar, fica atestado no capítulo anterior: “Voltei o
rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, vestido
de pano de saco e sentado na cinza” (Dn 9.3). Fato é que Daniel fazia jejuns e,
ao que tudo indica, não apenas na modalidade parcial, apesar de ser um ícone
dessa forma específica de jejuar. João Batista, por exemplo, alimentava-se de
gafanhotos e mel silvestre (Mt 3.1-6).
Normal. A Palavra de Deus, ao falar do jejum de Jesus,
revela que ele “nada comeu naqueles dias, ao fim dos quais teve fome” (Lc 4.2).
Observe as expressões “nada comeu” e “teve fome”. Diferentemente dos relatos
bíblicos de jejum absoluto, não há menção de que Cristo “não bebeu”, tampouco
de que ele “teve sede”.
Total (ou absoluto). O jejum total — ou absoluto como
alguns preferem denominar — caracteriza-se pela abstinência completa. Ou seja,
não se trata apenas da abstinência de alimentos, mas também de água. É um dos
mais austeros tipos de jejum. No Antigo Testamento, houve um jejum total, de
três dias, requisitado por Ester (Et 4.16). Nos mesmos termos, vemos o decreto
do rei de Nínive (Jn 3.7). Já no Novo Testamento, constatamos que o jejum de
Paulo, em sua conversão, também foi absoluto: “Esteve três dias sem ver,
durante os quais nada comeu, nem bebeu” (At 9.9). Ainda temos o exemplo de um
profeta, enviado por Deus a Betel: “assim me ordenou o SENHOR Deus pela sua
palavra, dizendo: Não coma nem beba nada naquele lugar” (1Rs 13.9). Não
costumamos encontrar, nem nos relatos bíblicos nem entre os que praticam jejum
total, períodos maiores do que três dias. O corpo humano, composto em grande
parte de água, necessita dela para a sobrevivência, por isso uma desidratação
intensa e prolongada pode gerar sérios danos físicos. Há, no entanto, exceções
tanto bíblicas quanto históricas que enquadro como jejum sobrenatural, entre
elas o episódio de Moisés jejuando por quarenta dias sem comer nem beber; não
se pode ignorar que ele o fez imerso na nuvem da glória de Deus e que esse
jejum tem, decididamente, o rótulo de sobrenatural.
A maneira de distinguir, na Bíblia, se o jejum é total,
sem água ou normal, com água, é observando a própria descrição. Quando, de
fato, não houve ingestão de água, os escritos mencionam tal nível de
abstinência; veja o exemplo de Esdras:
Esdras se retirou de onde estava, diante da Casa de Deus,
e foi para a câmara de Joanã, filho de Eliasibe. Ao entrar ali, não comeu pão
nem bebeu água, porque pranteava por causa da infidelidade dos que tinham
voltado do exílio.
Esdras 10.6
Contudo, quando a Bíblia não detalha essa especificidade,
é porque houve ingestão de água. Em resumo, o jejum normal é a abstinência de
todo tipo de alimento, contudo sem privação de água, diferenciando-o, assim, do
jejum total.
De todos os tipos de jejum, o parcial é o que possibilita
a maior diversidade. Alguém pode permanecer muitos dias fazendo uso do jejum
intermitente, por exemplo, pulando certa quantidade de refeições. Outro pode
não diminuir a quantidade de refeições, mas incluir privação de determinados
alimentos. É possível passar dias apenas com sucos de frutas e caldos de
legumes. Como tenho afirmado com recorrência, cada um determina seu próprio
tipo de jejum — ou segue uma direção personalizada do Espírito Santo.
Ademais, é possível somar a jejuns regulares também uma
vida jejuada, a exemplo de Daniel e João Batista. Trata-se de uma rotina de
abstenção alimentar parcial com benefícios patentes ao corpo e ao espírito.
Quanto tempo deve durar um jejum? Como já estabelecido, a
Bíblia não determina regras. Cada um é livre para escolher quando, como e
quanto jejua. É possível, contudo, encontrar exemplos de jejuns com duração
distinta nas Escrituras. Eles não necessariamente determinam a duração de nosso
jejum, mas ampliam nossa perspectiva, principalmente acerca da possibilidade de
jejuar por períodos maiores. Os exemplos bíblicos, acerca dos prazos de
duração, são:
Um período do dia. Josué se prostrou, com o
rosto em terra, diante do Senhor, depois da derrota em Ai, “até a tarde”
(expressão que indicava o fim do dia). Apesar de o texto não explicitar o
jejum, sua prostração com o rosto em terra, sem nenhuma outra atividade, sugere
que houve jejum (Js 7.6). Outro exemplo diz respeito aos israelitas, quando
entraram em guerra civil com os benjamitas: “Então todos os filhos de Israel,
todo o povo, foram a Betel, choraram, estiveram ali diante do SENHOR e jejuaram
aquele dia até a tarde” (Jz 20.26). Um terceiro exemplo é Davi lamentando a
morte de Saul e Jônatas: “Então Davi rasgou as suas próprias roupas, e todos os
homens que estavam com ele fizeram o mesmo. Prantearam, choraram e jejuaram até
a tarde por Saul, por Jônatas, seu filho, pelo povo do SENHOR e pela casa de
Israel, porque tinham caído à espada” (2Sm 1.12). Alguns especulam que a
expressão “até a tarde” signifique o ciclo do dia completo dos hebreus e não se
trate de apenas uma parte do dia; entretanto, tanto no caso de Josué como no
Davi, o jejum foi decidido de improviso, ao longo do dia, depois da notícia
recebida — isso implica um jejum inferior a 24 horas.
1 dia. O jejum do Dia da Expiação, como já
vimos, acontecia em um dia consagrado ao Senhor e era observado por 24 horas
(Lv 16.29-31).
3 dias. Tanto o jejum de Ester (Et 4.16) como
o de Paulo (At 9.9) tiveram essa duração.
7 dias. Entre os exemplos de jejuns com uma
semana de duração estão o dos moradores de Jabes-Gileade, por luto, por ocasião
da morte de Saul (1Sm.31.13), e o de Davi, quando intercedia pela criança
gerada por Bate-Seba (2Sm 12.15-18).
14 dias. O jejum involuntário de Paulo e dos
que com ele estavam no navio durou duas semanas, em meio a uma grande tormenta
(At 27.33).
21 dias. O jejum de Daniel, em favor de
Jerusalém, durou três semanas inteiras (Dn 10.3).
40 dias. Exemplos de jejum por 40 dias, maior
prazo encontrado na Bíblia, são o de Moisés (Êx 34.28) e o do Senhor Jesus, no
deserto (Lc 4.1-2).
Quando menciono o jejum intermitente, um extraordinário recurso para o cuidado do corpo, alguns me perguntam em qual tipo ele se encaixa. A expressão “intermitente” significa “intervalado” ou “interrompido” e tem a mais a ver com o quesito duração do que com o tipo de jejum. Trata-se de determinar uma janela diária de tempo para se alimentar e deixar de comer no restante do dia (a maior parte dele). Um exemplo disso, que pratico frequentemente, é comer apenas entre as 12h e 18h e jejuar depois da última refeição de um dia até a primeira do dia seguinte. Dessa forma, alimento-me apenas durante um período de seis horas por dia e permaneço sem comer pelas outras dezoito restantes.
Preparação
A abstinência alimentar gera desconforto, isso é fato.
Não precisa, contudo, ser algo insuportável, ou um processo compulsório de
sofrimento que não possa ser amenizado.
A maioria das pessoas reclama de dor de cabeça,
irritação, além da falta de energia e disposição, sintomas que são comuns em
jejuns menores ou no início dos maiores. Evidentemente, o jejum é, em seu
início, para a maioria das pessoas, uma experiência fisicamente desconfortável,
o que destaca a importância de uma preparação. O preparo ideal depende do tipo
de jejum. O jejum parcial, por exemplo, requer menos tempo de preparação que o
normal e o total. No jejum parcial, o processo de desintoxicação será mais ameno
porque a pessoa ainda come, apesar de diminuir a quantidade ou o tipo de
alimento. No jejum normal e no total, contudo, a interrupção brusca da
alimentação — a menos que se trate de alguém com alimentação altamente
saudável, que não é o caso da maioria que consome produtos industrializados e
processados — causará desconforto do primeiro ao terceiro dia (essa é uma média
genérica, podendo variar em certos casos).
Para jejuns de até 24 horas, a preparação não parece ser
tão necessária quanto para os de três dias ou mais. Ainda assim, a decisão de
remover, de três a sete dias antes do início do jejum, alimentos com maior
volume de toxinas — carne vermelha, café e determinados tipos de chá com alta
quantidade de cafeína — pode aliviar as dores de cabeça. Embora nem todos
reajam da mesma forma à abstinência de cafeína, a maioria parece incomodar-se
com a interrupção do consumo — não é o meu caso —, por isso a preparação faz
diferença.
O consumo de frutas e alimentos com fibras também ajudará
na limpeza do intestino nos dias de preparação. Algo que me tem sido um ótimo
auxiliar nesse processo preparatório, há muitos anos, é o uso de carvão vegetal
(que se pode adquirir nas farmácias sem necessidade de prescrição, embora seja
tanto prudente quanto necessário, como eu fiz, consultar um médico sobre seu
uso).
E, ao iniciar-se o jejum, deve-se ingerir o máximo
possível de água; de dois a quatro litros por dia. Depois dos primeiros dias,
parece ficar mais difícil tomar água; beba-a, então, aos poucos, mas ao longo
de todo o dia. Exercícios que o levem a transpirar também são de grande auxílio
no curso da preparação, visando a desintoxicação.
Finalizo encorajando-o a fazer do jejum um estilo de
vida. Passei a maior parte dos dois últimos anos em jejuns intermitentes. Mas,
como exposto, ainda podemos diversificar com o uso de jejuns parciais e também
com os de um dia de duração por semana — uma prática excelente para o descanso
do sistema gastrointestinal e demais benefícios apresentados.
Luciano Subirá, A cultura do jejum (São Paulo: Hagnos,
2022), p. 71, 73-74.
R. N. Champlin, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e
Filosofia, Vol. 3 (São Paulo: Hagnos, 2015), p. 442.
Jason Fung, O código da obesidade: Decifrando os segredos
da prevenção e cura da obesidade (São Paulo: nVersos, 2019), p. 219-220.
Valnice Milhomens Coelho, O jejum e a redenção do Brasil
(São Paulo: Palavra da Fé Produções, 2020), p. 229.
Fung, O código da obesidade, p. 230.
Saiba mais sobre o café metabólico em “Café com óleo de
coco e manteiga”, Canal Metanoia Saúde (YouTube), 7 de junho de 2020, <h
ps://youtu.be/1w47vONqX74>.
Subirá, A cultura do jejum, p. 247-250.
Fung, O código da obesidade, p. 221.
Mercola, Combustível para a saúde, p. 216-219.
Ibid., p. 224.
Ibid., p. 226-227.
DESCANSO
… eles pensavam que tivesse falado do repouso do sono.
JOÃO 11.13
As Sagradas Escrituras não só falam do descanso,
referindo-se a uma necessária pausa do trabalho com a finalidade do ser humano
se recompor, como também o relacionam diretamente com a questão do sono — como
constatamos no versículo acima. Neste capítulo quero apontar a importância de
ambos para nossa saúde e, de modo especial, advertir uma geração hiperativa e
notívaga a preocupar-se mais com a questão do sono como expressão da boa
mordomia do corpo.
O descanso não é um luxo, é uma questão de sobrevivência.
Ele afetará não apenas a duração de nossa vida como também a qualidade de vida
que teremos.
Confesso que nem sempre entendi isso. Costumava dizer,
como parte do time dos hiperativos e notívagos, que se houvesse algum tipo de
comprimido para tomar a fim de não precisar dormir eu o faria com certa
regularidade (descobri, tempos depois, que esses comprimidos já existiam). E
costumava transbordar minha imensa ignorância dizendo: “Dormir, para mim, é
perda de tempo. Gastamos um terço da vida completamente improdutivos, fazendo
absolutamente nada”.
Muitos daqueles que nunca repetiram algo semelhante
provavelmente já ouviram essa tolice sendo afirmada por outros. A pergunta a se
fazer, aos que creem na Palavra do Deus bendito, Criador de todas as coisas, é:
Alguma coisa do que Deus fez não foi bem planejada? Não reflete a infinitude de
sua sabedoria? O fato de não termos as explicações de que gostaríamos sobre
todos os detalhes da criação divina não nos dá o direito de desconfiar do Deus
cujo caráter está acima de qualquer suspeita e cujas obras são perfeitas.
Insisto em repetir que meu propósito, neste livro, é
destacar o ensino bíblico sobre o cuidado do corpo. Não sou médico e não tenho
conhecimento fisiológico profundo, embora cite, em várias porções deste ensino,
comentários de cientistas e especialistas de saúde de áreas diversas. A
intenção, com tais citações, é tão somente enfatizar que a ciência segue
“descobrindo” verdades que as Escrituras já expunham há muito tempo.
O sono, com tudo o que proporciona em nosso estado de repouso, é mais do que uma necessidade fisiológica a ser respeitada; é parte do plano divino a ser obedecido. Tal consciência, devidamente corroborada pelo entendimento bíblico, deveria produzir em nós uma radical mudança de pensamento e comportamento.
Determinação divina
Deus, desde a criação, estabeleceu e destacou a
importância do descanso:
Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e tudo o que neles há. E, havendo Deus terminado no sétimo dia a sua obra, que tinha feito, descansou nesse dia de toda a obra que tinha feito. E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, tinha feito. Gênesis 2.1-3
A observação de um dia semanal santificado de repouso
seria, posteriormente, incorporada ao Decálogo, os dez mandamentos que foram
comunicados a Moisés e, por seu intermédio, a toda a nação de Israel:
Lembre-se do dia de sábado, para o santificar. Seis dias você trabalhará e fará toda a sua obra, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao SENHOR, seu Deus. Não faça nenhum trabalho nesse dia, nem você, nem o seu filho, nem a sua filha, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu animal, nem o estrangeiro das suas portas para dentro. Porque em seis dias o SENHOR fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou Êxodo 20.8-11
Não estou defendendo aqui a guarda do sábado, em caráter
de mandamento, em nossos dias. Sabemos que, na nova aliança, o sábado passou a
ser reconhecido como o simbolismo de um bem vindouro. Nas palavras do apóstolo
Paulo:
Portanto, que ninguém julgue vocês por causa de comida e
bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido
sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo.
Colossenses 2.16-17
Se entendesse o sábado como um mandamento divino a ser
guardado nestes tempos, Paulo diria que ninguém deveria ser julgado por causa
do sábado? Claro que não! Dirigindo-se aos romanos, ele comenta a questão da
distinção de determinados dias:
Acolham quem é fraco na fé, não, porém, para discutir
opiniões. Um crê que pode comer de tudo, mas quem é fraco na fé come legumes.
Quem come de tudo não deve desprezar o que não come; e o que não come não deve
julgar o que come de tudo, porque Deus o acolheu. Quem é você para julgar o
servo alheio? Para o seu próprio dono é que ele está em pé ou cai; mas ficará
em pé, porque o Senhor é poderoso para o manter em pé.
Alguns pensam que certos dias são mais importantes do que
os demais, mas outros pensam que todos os dias são iguais. Cada um tenha
opinião bem-definida em sua própria mente. Quem pensa que certos dias são mais
importantes faz isso para o Senhor. Quem come de tudo faz isso para o Senhor,
porque dá graças a Deus. E quem não come de tudo é para o
Senhor que não come e dá graças a Deus. Romanos 14.1-6
Paulo fala de diferentes opiniões que não deveriam ser
discutidas entre os cristãos. Além de questões alimentares, ele aborda a
diferenciação de dias mencionando que “alguns pensam que certos dias são mais
importantes do que os demais” e contrastando-os com os que “pensam que todos os
dias são iguais”. E pontua, diante da divergência de conceitos dos dois grupos,
que “cada um tenha opinião bem-definida em sua própria mente”. Isso parece ser,
para você, a abordagem de quem acreditava na guarda do sábado como um
mandamento para a igreja gentílica? Para mim, definitivamente não.
O apóstolo ainda repreendeu os gálatas, que estavam
voltando aos rudimentos da lei, com as seguintes palavras: “Vocês guardam dias,
meses, tempos e anos. Receio que o meu trabalho por vocês tenha sido em vão”
(Gl 4.10-11). Essa, seguramente, não seria a declaração de quem enxergava a
observância do sábado como mandamento.
O livro de Hebreus, que, a exemplo de Colossenses, também
aponta que a lei não tinha a imagem exata das coisas e sim a sombra dos bens
vindouros (Hb 10.1), sinaliza que “resta um repouso sabático para o povo de
Deus” (Hb 4.9), relacionando-o, assim, com a plena redenção. Sei que o assunto
da releitura do Novo Testamento sobre o sábado merece mais atenção do que estes
breves comentários, mas não é nosso foco aqui. O ponto é que, ainda que tenha
dado um mandamento com prazo de validade, visto que a lei seria reformada (Hb
9.9-10) e que Deus estava mirando uma mensagem posterior, e não apenas o tempo
da ordenança literal do dia de descanso, não podemos negar um princípio prático
por trás dele: a necessidade de descanso.
O Criador estabeleceu um descanso semanal para o homem e
um repouso de um ano, após seis de trabalho, para a terra. (Em Levítico
25.2-4, constatamos o estabelecimento de um ano sabático
no cultivo do solo.)
Tudo o que é natural foi criado com essa característica
da necessidade de repouso, embora no plano espiritual possamos concluir que
seja diferente. Por exemplo, o descanso do próprio Deus não é literal, nos
termos em que necessitamos de repouso, uma vez que a Bíblia apresenta o Senhor
como incansável: “Será que você não sabe, nem ouviu que o eterno Deus, o
SENHOR, o Criador dos confins da terra, nem se cansa, nem se fatiga?” (Is
40.28).
O ponto a ser enfatizado é que, embora hoje o sábado não
tenha o peso de um mandamento, o princípio por trás de sua instituição — além
da sua tipologia profética — é de que necessitamos de descanso. O destaque a
essa necessidade surge quando vemos promessas divinas que sustentam o paralelo
do descanso até mesmo para a alma humana:
O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome.
Salmos 23.1-3
Ele fortalece o cansado e multiplica as forças ao que não
tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços, de exaustos,
caem, mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como
águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.
Isaías 40.29-31
— Venham a mim todos vocês que estão cansados e
sobrecarregados, e eu os aliviarei. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de
mim, porque sou manso e humilde de coração; e vocês acharão descanso para a sua
alma.
Mateus 11.28-29
Apresentei a visão do descanso relacionada ao sábado,
ainda que, obviamente, ela não se limite a isso. Desde o início o Criador
planejou cotas de descanso diário que se dão no turno da noite.
Jesus respondeu: — Não é verdade que o dia tem doze horas? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz.
Tendo dito isso, acrescentou: — Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou para despertá-lo.
Então os discípulos disseram: — Senhor, se dorme, estará salvo.
Jesus falava da morte de Lázaro, mas eles pensavam que
tivesse falado do repouso do sono. Então Jesus lhes disse claramente:
— Lázaro morreu. Por causa de vocês me alegro de que não estivesse lá, para que vocês possam crer. Mas vamos até ele. João 11.9-14
Antes de falar sobre Lázaro, nosso Senhor destaca que o
dia tem doze horas. Ou seja, o período de iluminação natural que permite
trabalho, trânsito e outras atividades é de metade do dia. As outras doze
horas, de escuridão, são limitadoras. Por isso Jesus afirmou que se alguém
“andar de noite, tropeça, porque nele não há luz”. Tão logo diferenciou o dia
da noite, o período de atividade do de inatividade, Cristo falou sobre Lázaro
ter adormecido e sua intenção de despertá-lo. O que os discípulos concluíram? O
texto sagrado aponta que “eles pensavam que tivesse falado do repouso do sono”.
Por que associaram isso ao sono literal? Porque era o contexto da conversa. E
para onde essa lógica, destacada na conversa deles, nos leva? Para o propósito
pelo qual o Criador dividiu o dia em luz e trevas, claridade e escuridão.
Indiscutivelmente havia um propósito por trás do plano divino: que o homem não
focasse apenas a necessidade de produtividade, mas também a necessidade de
descanso.
E Deus disse:
— Que haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem
separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais, para estações, para
dias e anos. E sirvam de luzeiros no firmamento dos céus, para iluminar a
terra.
E assim aconteceu. Deus fez os dois grandes luzeiros: o
maior para governar o dia, e o menor para governar a noite; e fez também as
estrelas. E os colocou no firmamento dos céus para iluminarem a terra, para
governarem o dia e a noite e fazerem separação entre a luz e as trevas. E Deus
viu que isso era bom.
Gênesis 1.14-18
E a conclusão final dessa divisão também apresenta um
ponto que não pode ser ignorado: “Deus viu que isso era bom”. Se já conseguimos
chegar a essa mesma conclusão de Deus, isto é, de que se trata de algo bom, é
outra conversa. O ponto é que o descanso é parte do projeto divino da criação e
precisa ser entendido como tal.
O descanso do sono deve ser observado tanto em sua
recorrência, em cotas diárias, como também em sua duração e horários devidos.
Desde o início do advento da eletricidade e, piorando com todo o avanço
tecnológico, a escuridão da noite — fator que foi um inquestionável limitador
na produtividade humana — vem perdendo o poder de nos fazer parar para o tão
necessário descanso. Observe esta declaração de Jesus:
— Se um de vocês tiver um amigo e for procurá-lo à
meia-noite, dizendo: “Amigo, me empreste três pães, porque outro amigo meu
chegou de viagem e eu não tenho nada para lhe oferecer”; e se o outro lhe
responder lá de dentro: “Deixe-me em paz! A porta já está fechada, e eu e os
meus filhos já estamos deitados. Não posso me levantar para lhe dar os pães”,
digo a vocês que, se ele não se levantar para dar esses pães por ser seu amigo,
ele o fará por causa do incômodo e lhe dará tudo de que tiver necessidade.
Lucas 11.5-8
Enquanto nosso Senhor ensinava sobre a oração, destacou a
importância da persistência nas súplicas. E, no exemplo que deu, apontou que à
meia-noite a família toda encontrava-se deitada. Antigamente o termo
“meia-noite” tinha significado literal. Tratava-se da metade da noite. Hoje, no
entanto, muitos de nós nem mesmo foram para a cama nesse horário!
Não estou advogando que se deva dormir às oito horas da
noite, como faziam os antigos. Há adequações inevitáveis na modernidade. Por
outro lado, se não percebermos que há uma hora necessária para interromper a
produtividade, dando lugar ao descanso, entraremos em colapso — físico e
mental. O repouso é essencial não somente à duração da vida como também à sua
qualidade. Já mencionei o que alguém me disse, com muita propriedade: “Não
estou apenas tentando acrescentar mais anos à minha vida; estou procurando, também,
acrescentar mais vida aos meus anos”.
Se a necessidade de descanso é tão abrangente, a ponto de
se estender à integralidade do ser humano (espírito, alma e corpo), será que
ele deveria ser negligenciado em qualquer uma dessas dimensões? Obviamente que
não. Entretanto, essa não é a história que mais se repete:
[O Senhor] disse: “Este é o descanso; deem descanso ao
cansado.
E este é o refrigério.” Mas eles não quiseram ouvir. Isaías 28.12
O que encontramos nessa porção das Escrituras? De um
lado, constatamos Deus tanto determinando quanto oferecendo descanso; do outro,
a negligência de seu povo: “mas eles não quiseram ouvir”. Triste, mas a
humanidade segue achando-se mais sábia do que o próprio Criador e ignorando,
conscientemente ou não, seus santos conselhos.
E qual é o resultado de tal rebeldia? O que acontece quando não observamos os princípios divinos?
Uma hora a conta chega
Um pensamento que nos é comum, no vigor da juventude, é o
de que o descanso negligenciado jamais cobrará sua conta. Grande engano, é só
uma questão de tempo; uma hora a conta chega! Ao instituir as leis acerca do
ano sabático que a terra deveria observar, o Criador também fez advertências
sobre as consequências de se quebrar o princípio:
Então a terra celebrará nos seus sábados, todos os dias
da sua assolação, e vocês estarão na terra dos seus inimigos; nesse tempo, a
terra descansará e observará os seus sábados. Durante todos os dias da
assolação a terra descansará, porque não descansou nos sábados de vocês, quando
vocês moravam nela.
Levítico 26.34-35
A advertência divina foi explícita, sem dificuldade de
interpretação ou compreensão. Se os israelitas não respeitassem o descanso
sabático do solo a conta chegaria mais tarde — e com alto preço. Eles seriam
desterrados e, assim, durante o tempo de sua assolação, a terra coletaria o
direito ao descanso que anteriormente lhe fora negligenciado.
Costumo repetir que o princípio espiritual que você
quebra acabará quebrando você. Foi o que aconteceu com o povo de Deus, que não
guardou a determinação do descanso e acreditou que, por alguma razão
inexplicável, a conta nunca chegaria.
Quando os judeus foram levados em cativeiro para a
Babilônia, cumpriu-se a advertência dada previamente:
Os caldeus queimaram a Casa de Deus e derrubaram a
muralha de Jerusalém. Queimaram todos os seus palácios, destruindo também todos
os seus objetos de valor. Os que escaparam da espada, a esses ele levou para a
Babilônia, onde se tornaram escravos dele e de seus filhos, até o tempo do
reino da Pérsia. Isto aconteceu para que se cumprisse a palavra do SENHOR, por
boca de Jeremias, até que a terra desfrutasse dos seus sábados. Durante todos
os dias da sua desolação a terra repousou, até que os setenta anos se cumpriram.
2Crônicas 36.19-21
Como podemos chegar à conclusão, diante do reconhecimento
desse princípio espiritual, de que o descanso negligenciado de nosso corpo não
terá consequências?
Ainda que a negligência do descanso se baseie em
ignorância de informação — seja das determinações divinas do descanso, seja dos
detalhes dos resultados que tal omissão produzirá —, não significa que seremos
poupados das inevitáveis consequências. Como está escrito: “O meu povo está
sendo destruído, pois lhe falta o conhecimento” (Os 4.6).
O neurocientista e especialista em sono Mahew Walker,
autor do livro Por que nós dormimos, pontua que dois terços dos adultos em
todos os países desenvolvidos não seguem a recomendação da Organização Mundial
de Saúde de oito horas de sono por noite. E, na sequência, observa:
Duvido que esse dado tenha surpreendido você, mas talvez
as suas consequências o espantem. O hábito de dormir menos de seis ou sete
horas por noite abala o sistema imunológico, mais do que duplicando o risco de
câncer. Sono insuficiente é um fator de estilo de vida decisivo para determinar
se um indivíduo desenvolverá a doença de Alzheimer. Sono inadequado — até as
reduções moderadas por uma semana — altera os níveis de açúcar no sangue de
forma tão significativa que pode fazer com que a pessoa seja classificada como
pré-diabética. Ele também aumenta a probabilidade de as artérias coronárias
ficarem bloqueadas e quebradiças, abrindo assim o caminho para doenças
cardiovasculares, derrame cerebral e insuficiência cardíaca congestiva. […]
Talvez você também tenha reparado que sente mais vontade
de comer quando está cansado. Isso não é coincidência: a insuficiência de sono
eleva a concentração de um hormônio que nos faz sentir fome ao mesmo tempo que
refreia um hormônio
complementar que, ao contrário, gera satisfação
alimentar. Apesar de estar satisfeito, você ainda quer comer mais — uma receita
comprovada para o ganho de peso tanto em adultos como em crianças com
deficiência de sono. […]
Ao somar as consequências para a saúde já citadas, fica
mais fácil aceitar uma relação comprovada: quanto mais breve é o seu sono, mais
breve será a sua vida. Portanto, a velha máxima “Dormirei quando estiver morto”
é infeliz — adote tal atitude e você estará morto mais cedo e a qualidade dessa
vida (mais curta) será pior. O elástico da privação de sono só pode esticar até
certo ponto antes de arrebentar. Infelizmente, os seres humanos são a única
espécie que se priva deliberadamente de sono sem obter um ganho legítimo. Todos
os componentes da saúde física, mental, emocional e incontáveis costuras do
tecido social estão sendo erodidos pelo nosso oneroso estado de negligência do
sono: tanto humano quanto financeiro.1
A privação do sono mata? Se a considerarmos os resultados
em curto prazo, só pela perspectiva do dano autoimposto, salvo algum transtorno
genético que envolva uma insônia progressiva, normalmente a resposta seria não.
Mas e as outras formas de dano causadas pelas consequências de sua negligência?
O livro de Atos registra um episódio — não tão incomum na história da
humanidade — de outras formas de danos causadas pela administração errada da
necessidade do sono:
No primeiro dia da semana, nós nos reunimos a fim de
partir o pão. Paulo, que pretendia viajar no dia seguinte, falava aos irmãos e
prolongou a mensagem até a meia-noite. Havia muitas lâmpadas no cenáculo onde
estávamos reunidos. Um jovem, chamado Êutico, que estava sentado numa janela,
adormecendo profundamente durante a prolongada mensagem de Paulo, vencido pelo
sono, caiu do terceiro andar abaixo. Quando o levantaram, estava morto.
Mas Paulo desceu, inclinou-se sobre ele e, abraçando-o,
disse:
— Não fiquem alvoroçados, pois ele está vivo.
Subindo de novo, Paulo partiu o pão e comeu. E lhes falou
ainda muito tempo até o amanhecer. E, assim, partiu. Então conduziram vivo o
rapaz e sentiram-se grandemente confortados.
Atos 20.7-12
Acho tremendo que a condição de morte para vida tenha
sido mudada por intervenção divina na história do jovem Êutico, evento que
provavelmente não teria ocorrido sem a participação de um homem de fé como o
apóstolo Paulo. Fico imaginando, porém, se a expressão “conduziram vivo o
rapaz” não indicaria algum nível de consequência da queda que o tenha
impossibilitado de voltar para casa sozinho e por si mesmo. A verdade ignorada
é que muitos acidentes, seja no transito, no trabalho ou em casa, ainda seguem acontecendo
por negligência ao sono e ao descanso.
Walker apresenta uma assombrosa estatística quanto a esse
tipo de dano produzido pela falta de sono:
Dirigir com sono é a causa de centenas de milhares de
acidentes de trânsito e tragédias todos os anos. E nesse caso não é só a vida
dos privados de sono que está em risco, mas a de quem está à sua volta.
Tragicamente, a cada hora nos Estados Unidos uma pessoa morre em um acidente de
trânsito em virtude de erros relacionados à fadiga. É alarmante saber que o
número de acidentes causados por sonolência ao volante excede o dos causados
pelo álcool e drogas combinados.
O bom senso segue concordando com as verdades aqui apresentadas. Se não observarmos a necessidade — e importância — do descanso, a conta acabará chegando. Walker ainda observa outro aspecto que confere seriedade maior a isso, que é o fato de o sono perdido não poder ser completamente recuperado: “é importante observar que, seja qual for a quantidade de oportunidades de recuperação, o cérebro nunca chega perto de reaver todo o sono que perdeu”.
Tudo o que Deus fez é bom
Como já vimos, à medida que as realizações do Criador iam
sendo executadas, ocorria também uma avaliação das etapas do processo. Em cada
uma delas, a constatação divina era semelhante: “E Deus viu que a luz era boa”
(Gn 1.4). Depois, a frase “E Deus viu que isso era bom” se repete por cinco
vezes (Gn 1.10,12,18,21,25). Por fim, a conclusão de toda a obra é arrematada
com a afirmação “Deus viu tudo o que havia feito, e eis que era muito bom” (Gn
1.31).
É necessário entender essa verdade acerca das leis da
natureza, determinadas pelo próprio Autor da criação: tudo o que ele fez é bom.
Salomão, observando e analisando a realidade com diferenciada sabedoria e
escrevendo sob inspiração divina, reconheceu: “Deus fez tudo formoso no seu
devido tempo” (Ec 3.11). O Deus Altíssimo, ao determinar que toda a criação
necessita de descanso, revelou que, mais uma vez, como sempre, faz tudo muito
bem.
E essas leis não são mutáveis nem transitórias. Elas
permanecem eternamente.
Sei que tudo o que Deus faz durará eternamente, sem que
nada possa ser acrescentado nem tirado, e que Deus faz isto para que as pessoas
o temam.
Eclesiastes 3.14
O profeta Daniel asseverou que o Senhor “é justo em tudo
o que faz” (Dn 9.14) e, ao estabelecer as leis que regem o mundo natural, sua
própria criação, ele não faltaria com a justiça — traço inquestionável de seu
caráter.
Então por que não aceitamos isso com fé, da forma mais
simples possível? Por que resistimos ao funcionamento de suas leis? O sono não
é exigência exclusiva dos seres humanos — embora tenhamos algumas
características singulares, especialmente no tocante aos sonhos. Mahew Walker
assevera: “Sem exceção, todas as espécies animais estudadas até hoje dormem ou
fazem algo notavelmente parecido com dormir”.4 O especialista do sono pontua
ainda que não temos dormido como deveríamos, e que “o número de turnos de sono,
sua duração e o momento em que ele ocorre foram totalmente distorcidos pela
modernidade”.5
Jesus, enquanto vivia na condição humana, demonstrou
respeito às leis naturais — o que incluía o reconhecimento de limitações
humanas como o cansaço e a devida resposta a isso: o descanso. Pois tudo o que
Deus fez é bom.
Assim, Jesus chegou a uma cidade samaritana, chamada
Sicar, perto das terras que Jacó tinha dado a seu filho José. Ali ficava o poço
de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do
meio-dia.
João 4.5-6
Mesmo sendo o Filho de Deus, Cristo viveu limitado a um
corpo que se cansava. Foi o que aconteceu nessa viagem, uma vez que ele e os
discípulos haviam caminhado uma longa distância sob o sol intenso (o texto diz
que “era por volta do meio-dia”). A menção de Jesus sentando-se junto ao poço,
por motivo de cansaço, não sugere outra coisa que não a necessidade de
recompor-se fisicamente.
Outra passagem bíblica que chama minha atenção nesse
sentido trata da ocasião em que nosso Senhor dorme em um barco, em meio a uma
tempestade:
Ora, levantou-se grande temporal de vento, e as ondas se
arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava se enchendo de água.
E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro. Os discípulos o acordaram
e lhe disseram:
— Mestre, o senhor não se importa que pereçamos?
Marcos 4.37-38
Quem conseguiria dormir em uma embarcação agitada pelas
águas, sendo encharcado pela chuva e pelas ondas que se arremessavam contra o
barco? Somente alguém que se encontra extremamente cansado. Já dormi em aviões
e veículos chacoalhando e, sempre, isso só se deu quando eu me encontrava
esgotado fisicamente.
Não creio que esses detalhes sobre a vida ministerial de
Jesus — o que inclui tanto sua produtividade quanto sua necessidade de descanso
— foram registrados à toa, uma vez que a própria Escritura atesta que “tudo o
que no passado foi escrito, para o nosso ensino foi escrito” (Rm 15.4). Jesus
demonstrou, com seu estilo de vida, que devemos nos sujeitar às leis divinas da
criação e dar a nosso corpo o devido descanso.
Quais seriam então os propósitos e benefícios do sono?
Walker resume-os com as seguintes palavras:
Ele proporciona vários benefícios garantidores da saúde,
passíveis de serem adquiridos pelo uso contínuo a cada 24 horas caso se queira
(Muitos não querem.)
No cérebro, o sono potencializa uma diversidade de
funções, incluindo a nossa capacidade de aprender, memorizar e tomar decisões e
fazer escolhas lógicas. Ao benevolentemente reparar nossa saúde psicológica, o
sono calibra nossos circuitos cerebrais emocionais, permitindo-nos enfrentar os
desafios sociais e psicológicos do dia seguinte com sereno autocontrole. […]
No andar de baixo, no restante do corpo, o sono
reabastece o arsenal o do nosso sistema imune, ajudando a combater o câncer,
prevenindo infecções e nos protegendo contra todo tipo de doenças. O sono
reforma o estado metabólico do corpo ajustando o equilíbrio de insulina e
glicose circulante. Também regula o apetite, ajudando a controlar o peso
corporal ao substituir uma alimentação repulsiva pela escolha de alimentos
saudáveis. O sono abundante mantém um florescente microbioma no intestino, no
qual — como já se sabe — boa parte da nossa saúde nutricional começa. O sono
adequado está intimamente associado à boa forma do sistema cardiovascular,
baixando a pressão sanguínea ao mesmo tempo que mantém o coração em boa
condição.
Sim, uma alimentação equilibrada e a prática de
exercícios são de importância vital, porém agora o sono é tido como a força
preponderante nessa trindade da saúde. O prejuízo físico e mental causado por
uma noite de sono ruim é maior do que os causados por uma equivalente falta de
alimento ou de exercício. É difícil imaginar qualquer outro estado — natural ou
criado pelo uso de medicamentos — que propicie uma reparação mais poderosa da
saúde física e mental em todos os níveis de análise.
Com base em uma rica e nova compreensão científica do
fenômeno do sono, já não é preciso perguntar para que serve dormir. Agora somos
obrigados a questionar se há alguma função biológica que não seja beneficiada
por uma noite bem dormida. Até o momento, os resultados de milhares estudos
indicam que não há.6
Portanto, quando nos recusamos a respeitar a necessidade de descanso, nossa atitude, além de rebelde, também é tola. Como ignorar a sabedoria divina? Como podemos ser tão prepotentes a ponto de achar que entendemos melhor o funcionamento da criação do que o próprio Criador? Seguramente isso não é sensato.
Afiando o machado
O mundo da comunicação costuma usar um mote ao referir-se
à forma como se trabalha as artes visuais: “mais é menos e menos é mais”. A
essência, por trás da fala conclusiva, é a de que, não raro, muita informação
acaba tendo menos impacto, ao passo que, em contrapartida, menos informação
produz maior impacto.
Penso que, em termos de produtividade de nosso corpo, a
frase também funcione bem. Menos produtividade, em razão da interrupção do
descanso, é mais. Mais saúde, disposição, energia e longevidade, determinando
assim uma produtividade eficiente e contínua. Por outro lado, mais é menos. Ou
seja, quanto mais trabalhamos, sem a devida recomposição provida pelo descanso,
a qualidade da produtividade bem como sua continuidade acaba sendo
comprometida.
Uma verdade espiritual que se aplica muito bem nesse
contexto é a que nos foi comunicada no livro de Eclesiastes:
Quem arranca pedras será ferido por elas, e o que racha
lenha se expõe ao perigo. Se o machado está embotado e ninguém o afia, é
preciso redobrar a força; mas com sabedoria se obtém êxito.
Eclesiastes 10.9-10
Consideremos juntos essa verdade apresentada pelas
Escrituras. O contexto, exposto no versículo 9, aponta para quem racha lenha.
E, então, depois de enfatizar a atividade, passa a falar da ferramenta: o machado.
Se o corte do machado estiver embotado, será necessário mais esforço, energia e
tempo para concluir a tarefa do que o normal. Entretanto, se houver a sabedoria
de fazer uma pausa no trabalho com a finalidade de recuperar a eficiência da
ferramenta amolando seu corte, o resultado será uma produtividade maior com
menor consumo de energia e tempo. Essa é a razão de a Palavra de Deus afirmar
que a sabedoria (de se afiar o machado) é determinante no resultado do
trabalho.
Ninguém pode alegar não poder parar de cortar lenha para
afiar seu machado em nome do comprometimento da produtividade. A lógica aponta
para a direção contrária! Não pausar, temporariamente, para dar a sua
ferramenta melhores condições de trabalho, é que merece a classificação de
contraproducente. Ainda assim, muitos de nós — como foi o meu caso — deduzimos
que o descanso é perda de tempo.
Recordo-me da ocasião em que o dr. Aldrin Marshall
proporcionou-me esse entendimento por meio de uma ilustração. Ele disse:
— Imagine um parque de diversões que funciona todos os
dias, ininterruptamente, recebendo milhares de visitantes. Todos os dias,
quando as pessoas chegam, o parque está limpo e organizado, e o dia todo,
enquanto todos estão lá se divertindo, não há pausas para limpeza e manutenção
dos brinquedos. Considerando que é impossível não prover limpeza e manutenção
para que o parque siga funcionando, quando é que isso acontece? Durante a
noite! Agora imagine que o parque é o seu corpo, ativo todo dia, o dia todo, e
que, de modo semelhante, não pode ficar sem limpeza e manutenção. Quando isso
ocorre? A resposta segue sendo a mesma: à noite!
De repente, aquele pensamento tolo, de que dormir era
perda de tempo, começou a desvanecer-se. Parece surpreendente demais para algo
tão simples, mas foi a partir dessa conversa que se iniciou em minha vida um
processo de despertamento para a importância do sono.
Enquanto dormimos o machado está sendo afiado. O
descanso, uma pausa temporária em nossa produtividade, garante que ela não
sofra retrocessos. Tudo o que Deus fez é bom, e isso inclui a necessidade de
repouso reparatório.
Destaquei, alguns parágrafos atrás, que Jesus respeitou
os limites de seu próprio corpo sem perseguir, de forma insensata, uma dimensão
de produtividade fantasiosa. Acrescente-se a esse fato o modo como Cristo lidou
com a produtividade de seus discípulos, conforme apresentado intencionalmente
pela Bíblia:
Os apóstolos voltaram à presença de Jesus e lhe relataram
tudo o que tinham feito e ensinado.
E ele lhes disse:
— Venham repousar um pouco, à parte, num lugar deserto.
Isto porque eles não tinham tempo nem para comer, visto
serem muitos os que iam e vinham. Então foram de barco para um lugar deserto, à
parte.
Marcos 6.30-32
Quero destacar três coisas importantes nesses versículos
que, como já argumentei, não consistem em mero registro histórico. Paulo,
escrevendo aos coríntios e falando acerca daquela geração que saiu do Egito
rumo à Canaã, afirmou: “Estas coisas aconteceram com eles para servir de
exemplo e foram escritas como advertência a nós, para quem o fim dos tempos tem
chegado” (1Co 10.11). O mesmo pode ser dito do que foi registrado sobre os
discípulos de Jesus; trata-se de exemplos e advertências oferecidas a mim e a
você. Passemos, portanto, às constatações do texto bíblico:
O versículo 30 enfatiza a produtividade: tendo cumprido a
missão para a qual tinham sido enviados, os discípulos retornaram a Cristo, e
houve uma prestação de contas detalhada: “lhe relataram tudo o que tinham feito
e ensinado”.
Já o versículo 31 registra a importância da interrupção
temporária da produtividade, uma convocação ao descanso: “Venham repousar um
pouco, à parte, num lugar deserto”. Uma observação justa é que a proposta foi
pelo maior interessado em nossa produtividade ministerial: o próprio Cristo,
que nos comissiona a servi-lo.
O versículo 32 ressalta o motivo pelo qual a pausa do
repouso se mostrou necessária: “Isto porque eles não tinham tempo nem para
comer, visto serem muitos os que iam e vinham”. O trabalho demasiado se torna
comprometedor quando não há descanso. Quando eu era garoto ouvia os mais velhos
fazerem alusão à inutilidade de um parafuso quando apertado demais: “Não
adianta espanar a rosca”.
Como já reconhecido (e repetido), tudo o que Deus fez é
bom — inclusive a criação do ser humano com sua embutida necessidade de
descanso. Ainda que não tivéssemos acesso ao grande volume de informações sobre
a importância do sono, fruto de inúmeras descobertas e constatações
científicas, a simples crença na orientação bíblica deveria ser suficiente para
darmos mais valor e atenção ao descanso. Porém acrescente-se a essa
responsabilidade espiritual de andar no que determinam as Sagradas Escrituras
as claras informações a que hoje temos acesso, na perspectiva natural, sobre
por que precisamos de repouso, e ninguém será indesculpável se optar por
prosseguir em deliberada negligência.
O distúrbio das preocupações
A Palavra de Deus nos revela que o Criador espera que
possamos desfrutar de um sono tranquilo e livre de preocupações. Várias
passagens atestam isso:
Eu me deito e pego no sono; acordo, porque o SENHOR me
sustenta.
Salmos 3.5
Em paz me deito e logo pego no sono, porque só tu,
SENHOR, me fazes repousar seguro.
Salmos 4.8
Quando se deitar, você não terá medo; sim, você se
deitará e o seu sono será tranquilo.
Provérbios 3.24
Observe que as preocupações e os receios podem afetar a
qualidade — e o tempo — do sono. Por outro lado, o sono dos que não se
preocupam é apresentado como sendo agradável:
Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer
muito; mas a fartura do rico não o deixa dormir.
Eclesiastes 5.12
Os distúrbios do sono podem ser não somente fruto de
desordem fisiológica como também provenientes de desordem emocional (e até
mesmo espiritual).
Os que servem a Deus devem aprender a andar em fé e
confiança, que é outro tipo de descanso: o espiritual. A Escritura diz: “Nós,
porém, que cremos, entramos no descanso” (Hb 4.3). Que tipo de descanso é esse?
O versículo anterior fala dos israelitas que não fizeram proveito da “palavra
que ouviram”, ou seja, inutilizaram a promessa divina em sua vida. Por que
motivo? O próprio versículo responde: “visto não ter sido acompanhada pela fé
naqueles que a ouviram” (Hb 4.2). Sem esse descanso de fé, com emoções expostas
às preocupações e à ansiedade, é evidente que a qualidade do sono físico será
afetada.
Devemos levar em conta, ainda, o impacto negativo que as
desordens relacionais proporcionam. A Escritura adverte:
Fiquem irados e não pequem. Não deixem que o sol se ponha
sobre a ira de vocês, nem deem lugar ao diabo.
Efésios 4.26-27 - Por muito tempo, eu entendi que a frase “não deixem que o sol se ponha sobre a ira de vocês” indicava tão somente a necessidade de um conserto rápido, em uma perspectiva meramente relacional. Não havia considerado, até recentemente, que brigas e reações emocionais mais intensas afetam a qualidade do sono. Isso é fato. E tenho ouvido relatos de problemas dessa ordem ao longo de três décadas de aconselhamento pastoral.
Deus não apenas espera que descansemos como também deseja
que desfrutemos de um sono de boa qualidade, em todos os aspectos. Por causa
disso, entre outros fatores, nos adverte a que nos mantenhamos longe de
ansiedades e preocupações:
Não fiquem preocupados com coisa alguma, mas, em tudo,
sejam conhecidos diante de Deus os pedidos de vocês, pela oração e pela
súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo entendimento,
guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.
Filipenses 4.6-7 - Lancem sobre ele todas as suas ansiedades, porque ele cuida de vocês.
1Pedro 5.7 - Ainda que o enfrentamento da ansiedade seja um tema complexo, que demanda atenção especial a aspectos psíquicos e somáticos, e não caberia aqui discuti-lo a fundo, é imprescindível que o cristão compreenda a importância de lançar todas as preocupações sobre nosso Deus cuidadoso e revisitar constantemente as promessas de seu amor leal. Além de nos fortalecer na fé, isso resultará também em noites tranquilas de sono e, consequentemente, benefícios para nossa saúde. Ou seja, trata-se do combo completo: descanso espiritual, emocional e físico.
E a preguiça, não é condenada?
Por fim, muitos justificam a negligência quanto ao
descanso como se fosse uma espécie de contraponto à preguiça. Eu mesmo já o fiz
incontáveis vezes. Presumia que normalmente quem ataca a produtividade e a
incansável determinação de nós, hiperativos, deveria ser o tipo de gente
sossegada ao extremo, pessoas que eu julgava e classificava, em diferentes
níveis, como acomodadas e preguiçosas.
O problema é que comumente transitamos entre os extremos:
ou pensamos em termos de produtividade excessiva, sem respeito ao descanso, ou
em termos de completa falta de reconhecimento de sua importância, o que pode
nos levar a alimentar a negligência e a preguiça. E, vale destacar, é evidente
que a Palavra de Deus também condena a preguiça:
Ó preguiçoso, até quando vai ficar deitado? Quando se
levantará do seu sono? Um pouco de sono, um breve cochilo, braços cruzados para
descansar, e a sua pobreza virá como um ladrão, a miséria atacará como um homem
armado.
Provérbios 6.9-11
A mensagem aqui não é de condenação ao sono, e sim ao
cultivo da preguiça, ou seja, a falta de diligência na produtividade mascarada
por uma necessidade legítima. Tais advertências se repetem na Bíblia, o que
indica a transição do nível da mera informação para o da ênfase.
Não ame o sono, para que você não empobreça; abra os
olhos e você terá pão de sobra.
Provérbios 20.13
Ambos extremos serão danosos ao ser humano. A sabedoria
se encontra no devido equilíbrio entre o reconhecimento dos dois tipos de
valores bíblicos que nos são comunicados. É inquestionável que qualquer excesso
é errado, seja a preguiça ou a negligência do descanso.
O mesmo, aliás, poderia ser dito a respeito do exercício
físico, assunto de nosso próximo capítulo.
Mahew Walker, Por que nós dormimos: A nova ciência do
sono e dos sonhos (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018), p. 15.
Ibid.,
p. 19-20.
Ibid.,
p. 78.
Ibid.,
p. 70.
Ibid., p. 83.
Ibid., p. 19-20.10
EXERCÍCIO FÍSICO
Pois o exercício físico tem algum valor…
1TIMÓTEO 4.8
A princípio, alguém poderia estranhar a associação entre
a prática de exercício físico e as verdades espirituais da Palavra de Deus.
Será que a Bíblia de fato aborda o assunto?
A resposta é sim. Paulo, escrevendo a Timóteo, recomenda:
Exercite-se, pessoalmente, na piedade. Pois o exercício
físico tem algum valor, mas a piedade tem valor para tudo, porque tem a
promessa da vida que agora é e da que há de vir.
1Timóteo 4.7b-8
A palavra grega traduzida por “exercício” é gumnasia, de
onde procedem os termos “ginásio” e “academia”.1 Já a palavra traduzida por
“físico”, que define a natureza do exercício, é só matikos, isto é, “corporal,
corpóreo, aquilo que é pertinente ao corpo”.2 O apóstolo está se referindo
aqui, portanto, ao exercício corporal, conforme traduzem a Almeida Revista e
Corrigida, a Tradução Brasileira e outras versões mais antigas. Destaco isso
porque anteriormente ele havia encorajado seu discípulo a exercitar-se na
piedade, o que revela que, além do aspecto físico, há outras formas de
exercício.
Convém observar, no entanto, algumas verdades que por
vezes passam despercebidas, em virtude das diferenças culturais entre aquele
tempo e o nosso, afetando assim a devida compreensão do contexto.
Tempos de sedentarismo
A primeira delas diz respeito às diferenças de movimento
corporal diário praticado pelos povos antigos e os contemporâneos. Naquele
tempo não havia meios de transporte como os atuais (por exemplo, bicicleta,
diferentes tipos de automóveis, transportes públicos). Ou seja, o sedentarismo,
que é definido como a falta, ausência ou diminuição de atividades físicas — um
dos grandes males de nossa época — praticamente inexistia naquela época. Todos
precisam caminhar diariamente; além disso, realizavam trabalhos manuais, como o
cultivo da terra (que envolvia limpar e arar o solo, plantar e colher sem os
recursos tecnológicos que temos atualmente), a pesca, a construção das próprias
casas, a confecção de roupas e móveis, e assim por diante.
A maioria das pessoas que, hoje, frequenta uma academia visa recuperar o movimento perdido em decorrência das facilidades da modernidade. Nos dias de Paulo, entretanto, não era assim. Ninguém frequentava o “ginásio” para meramente evitar o sedentarismo, mas sim para aumentar significativamente o volume de exercícios e seus resultados. Ou seja, esses eram os não sedentários que haviam sido influenciados pela cultura greco-romana do culto ao corpo e faziam questão de buscar definições musculares específicas. Os que não frequentavam o “ginásio”, por sua vez, não eram pessoas cuja saúde corria risco por falta de movimentação básica. Hoje, o apelo ao resgate da prática de exercícios físicos, de modo geral, busca recuperar a movimentação saudável ao próprio corpo. Trata-se do que é classificado essencial para a saúde, e não necessariamente de “esculpir” o corpo, muito embora, em proporções menores, esse grupo ainda exista.
O exercício físico tem valor
A segunda verdade que merece destaque diz respeito ao
valor que atribuímos ao exercício físico. A frase “o exercício físico tem algum
valor” foi traduzida, em outras versões, com ênfase no proveito. Frases como “o
exercício físico para pouco é proveitoso” (ARA), “o exercício físico é de pouco
proveito” (NVI) e “o exercício corporal para pouco é proveitoso” (TB) comprovam
isso.
Reconheço que, por muitos anos, eu fazia uma leitura
equivocada desse versículo. Onde está escrito pouco proveito eu lia nenhum. E é
evidente que essa não é a mensagem bíblica. A palavra traduzida por “pouco
proveito” ou “algum valor”, no grego original, é pros, “em benefício de”.3
Quando ponderamos os elementos necessários a uma decisão, normalmente avaliamos
os “prós” (o que é favorável, benéfico) e os “contras” (aquilo que é
desfavorável ou até mesmo maléfico). É disso que o apóstolo falava. O exercício
tem seus prós, aquilo que o torna favorável. Honestamente, não sei como eu
conseguia interpretar que o exercício corporal não tinha nenhum proveito.
Essa avaliação de valor, no entanto, precisa se dar sob o
prisma correto. A comparação do valor dos exercícios foi feita com algo que tem
valor ainda maior: a piedade. A expressão “a piedade tem valor para tudo”
indica isso. A palavra grega utilizada por Paulo é óphelimos, um adjetivo que
poderia ser traduzido por “lucrativo”.4 Ou seja, em linguagem atual, a
declaração seria mais ou menos a seguinte: “o exercício físico tem seus prós,
mas a piedade é ainda mais valiosa”. A ideia, no contraste apresentado, não é
subtrair valor do exercício, e sim ampliar o valor da piedade.
E o que torna a piedade mais proveitosa? O argumento foi
apresentado na sequência: “porque tem a promessa da vida que agora é e da que
há de vir”. Enquanto o exercício físico afeta apenas a vida terrena, a piedade,
por sua vez, afeta tanto a vida terrena como a eterna (a vida que há de vir).
Resumindo, se o exercício físico tinha seus prós, mesmo
para quem já não era sedentário e garantia a saúde física com o mínimo de
movimento, a piedade é ainda mais proveitosa e requer tempo e dedicação.
Devemos nos exercitar nela.
Cabe observar, porém, que o contraste feito com o
exercício físico, cujo benefício é meramente terreno, não visa excluir o
exercício corporal, mas sim garantir que o exercício da piedade também esteja
lá. Outra ilustração do exercício físico foi usada por Paulo como pano de fundo
para destacar a dedicação às coisas espirituais:
Vocês não sabem que os que correm no estádio, todos, na
verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Corram de tal maneira que ganhem o
prêmio. Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa
corruptível; nós, porém, a incorruptível.
1Coríntios 9.24-25
Não estou insinuando que a Palavra de Deus esteja
tentando nos converter em atletas de alta performance. Quero apenas destacar
que o conceito de descanso, dedicação aos treinos e domínio próprio na
alimentação já eram conhecidos e praticados naqueles dias e não seriam usados
para ilustrar a dedicação às coisas espirituais se fossem algo ruim.
As Escrituras Sagradas não nos oferecem detalhes
fisiológicos acerca da importância ou dos resultados dos exercícios; tão
somente registram que há benefícios. E isso basta. Não temos textos bíblicos
que detalham o processo de hidratação oriundo da ingestão de água, mas nenhum
de nós questionaria quão essencial é essa prática alegando falta de detalhes do
aspecto fisiológico na Bíblia. Devemos reconhecer que, no pacote da visão
bíblica de cuidado do corpo, o exercício está incluso.
John Wesley, avivalista e fundador do metodismo, entendeu
a importância do exercício físico, pôs seu entendimento em prática e também o
ensinou a outros:
Em 1714, quando tinha onze anos, João Wesley foi levado a
Londres para estudar em Charter house, uma escola pública, onde era aluno
interno. As dificuldades eram muitas, especialmente a falta de recursos para a
boa alimentação do menino. Foi aí que o pai lhe recomendou que corresse todas
as manhãs dando três voltas em torno dos jardins da escola, um percurso de
cerca de três quilômetros. Essa prática de exercícios físicos, que Wesley nunca
mais abandonou, acabou sendo responsável pela resistência física que tinha e,
talvez, à luz da ciência de hoje, por sua longevidade. Quando tinha 80 anos,
ele costumava andar até dez quilômetros para um local de pregação e ainda dizia
que o único sinal de velhice que sentia era “não poder andar nem correr tão
depressa como antes”. Durante toda sua vida pastoral, Wesley não se cansou de
recomendar exercícios físicos aos seus seguidores.5
Em suas anotações do texto bíblico, Wesley comentou a afirmação de Paulo “o exercício físico tem algum valor” (1Tm 4.8) com a frase: “aumenta a saúde e a força do corpo”.
Condicionamento físico
O conceito de condicionamento físico remonta a tempos
ainda mais antigos. Atente para estas palavras de Deus ao profeta Jeremias: “se
você se cansa correndo com homens que vão a pé, como poderá competir com os que
vão a cavalo?” (Jr 12.5). O indicador aqui é claro: há níveis distintos de
exercício e, relacionado à dedicação a eles, diferentes níveis de
condicionamento físico. Quando comecei a fazer musculação, ficava com os
músculos doloridos depois; mas, à medida que passei a me dedicar aos treinos, o
corpo se habituou. O mesmo se deu com a prática dos exercícios
cardiovasculares; migrei da falta de fôlego no início, do cansaço e da
respiração ofegante em tempos e ritmos menores para um ritmo mais intenso e
períodos maiores de exercícios que se tornaram fáceis. Não precisei de nenhuma
revelação bíblica para saber disso; trata-se de um processo natural, normal.
Mas acho, no mínimo, interessante observar que a Palavra
de Deus mencione esses fatos. Embora o propósito da Bíblia não seja detalhar
essas informações na perspectiva fisiológica, ela de fato os registra. Em
1Samuel 4.12-14, lemos sobre um homem que fugiu do campo de batalha quando a
arca de Deus foi tomada pelos filisteus; o texto destaca que ele correu e, no
mesmo dia, chegou a Siló. Esse evento é considerado um dos mais antigos
desafios de corrida no mundo (ocorreu entre os anos 1094 a 1036 a.C.), que antecede
a própria maratona (originada de um ocorrido por volta de 490 a.C. e
oficializada, no formato moderno, em 1896 d.C.) e tem distância de percurso
similar. Hoje em dia é possível participar de uma maratona em Israel, feita
nesse mesmo percurso.7 Grandes distâncias podiam ser corridas em um só dia
porque havia um contexto de vida não sedentária, de movimento do corpo.
O livro de Atos revela que Cornélio, o centurião romano,
tendo recebido a visita de um anjo de Deus, mandou chamar Pedro em Jope. O
apóstolo então fez o trajeto até Cesareia Marítima em apenas dois dias (At
10.23-24). São cerca de sessenta quilômetros de distância! Isso significa que
Pedro caminhou uma média de trinta quilômetros por dia. A maioria de nós,
pregadores, não daria conta de manter esse ritmo de caminhada hoje. Observe
outro detalhe registrado no mesmo livro:
Um anjo do Senhor disse a Filipe:
— Levante-se e vá para o Sul, no caminho que desce de
Jerusalém a Gaza; este se acha deserto. Filipe se levantou e foi.
Havia um etíope, eunuco, alto oficial de Candace, rainha
dos etíopes, o qual era superintendente de todo o seu tesouro. Ele tinha vindo
adorar em Jerusalém e estava regressando ao seu país. E, assentado na sua
carruagem, vinha lendo o profeta Isaías. Então o Espírito disse a Filipe:
— Aproxime-se dessa carruagem e acompanhe-a.
Correndo para lá, Filipe ouviu que o homem estava lendo o
profeta Isaías. Então perguntou:
— O senhor entende o que está lendo?
Ele respondeu:
— Como poderei entender, se ninguém me explicar?
E convidou Filipe a subir e sentar-se ao seu lado.
Atos 8.26-31
Filipe, o evangelista, um dos sete primeiros diáconos
estabelecidos na igreja de Jerusalém, recebeu clara orientação divina para ir
ao caminho que descia de Jerusalém a Gaza. Tão logo obedeceu ao comando
celestial, apareceu um etíope que viajava em uma carruagem. Quando o carro
puxado por cavalos passou, Filipe foi direcionado pelo Espírito Santo a
aproximar-se da carruagem e acompanhá-la; e ele o fez. Ele correu ao lado dela
tempo suficiente para ouvir a leitura da Escritura (que se fazia em voz alta),
oferecer ajuda na interpretação do texto e ser convidado a subir na carruagem.
Quantos de nós, atualmente, teríamos condicionamento físico para tal tarefa?
Penso que hoje a ordem divina teria de ser mais para algo assim: “entre na
frente da carruagem e pare o veículo a fim de conseguir pregar”.
Não estou dizendo que temos de voltar a fazer tudo a pé,
sem usufruir dos benefícios da modernidade. Mas certamente temos ignorado como
o Criador fez o corpo e quais são os princípios de seu funcionamento. O
sedentarismo nunca foi parte do plano divino. A falta de mobilidade gera
atrofia muscular. Isso significa que não fomos criados para permanecer parados.
A baixa atividade física e muscular pode não trazer atrofia, mas, ainda assim,
é nociva à saúde. É verdade que os discípulos de Jesus não são apresentados nas
Escrituras como esportistas, mas apresentavam condicionamento físico que
corresponde, em certa medida, aos que hoje denominamos corredores.
No primeiro dia da semana, de madrugada, quando ainda
estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra da entrada tinha
sido removida. Então correu e foi até onde estavam Simão Pedro e o outro
discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes:
— Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o
colocaram.
Com isso, Pedro e o outro discípulo saíram e foram até o
túmulo. Ambos corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa do que
Pedro e chegou primeiro ao túmulo.
João 20.1-4
Esses exemplos bíblicos de condicionamento físico nos
remetem, mais uma vez, ao fato de que Deus criou nosso corpo com uma estrutura
que demanda o devido cuidado para que possa funcionar adequadamente, conforme
os propósitos do Criador.
Benefícios dos exercícios físicos
Um primeiro ponto a ser destacado, relacionado à maneira
como Deus nos criou, é que sem a prática de exercícios comprometemos o tônus e
a força muscular no longo prazo. Embora o sedentarismo não gere atrofia
muscular — pelo menos não aquela completa que alguém plenamente privado de
movimentos sofre — ainda assim nos rouba de uma mobilidade melhor no fim da
vida.
O envelhecimento é inevitável. A diminuição da força e do
vigor físicos da juventude também. Acerca disso a Palavra de Deus atesta:
A glória dos jovens é a sua força, e a beleza dos velhos são os seus cabelos brancos. Provérbios 20.29
O contraste é evidente: a força dos jovens de um lado e
os cabelos brancos dos velhos do outro. Mas essa diferença não precisa ser tão
drástica como a que constatamos na vida dos que não se exercitam. É possível
ter uma velhice saudável, cheia de vigor e mobilidade. Um exemplo disso é
Calebe, um dos doze espias enviados por Moisés à terra de Canaã. A geração que
saiu do Egito havia chegado ao limiar da terra prometida, mas acabou retornando
ao deserto, onde, sob juízo divino, perambulou por quarenta anos. O Senhor,
contudo, prometeu que Josué e Calebe entrariam na terra. Posteriormente, no
momento da divisão da terra entre as tribos de Israel, a conversa entre os dois
revelaria um Calebe que, ainda na velhice, se conservava forte e com disposição
física para a guerra:
Os filhos de Judá chegaram a Josué em Gilgal. E Calebe,
filho de Jefoné, o quenezeu, lhe disse:
— Você sabe o que o SENHOR falou a Moisés, homem de Deus,
em Cades-Barneia, a respeito de mim e de você. Eu tinha quarenta anos quando
Moisés, servo do SENHOR, me enviou de Cades-Barneia para espiar a terra. E eu
lhe relatei o que estava no meu coração. Os meus irmãos que tinham ido comigo
amedrontaram o povo, mas eu perseverei em seguir o SENHOR, meu Deus. Então
Moisés, naquele dia, jurou, dizendo: “Certamente a terra em que você pôs o pé
será sua e de seus filhos, em herança perpétua, pois você perseverou em seguir
o SENHOR, meu Deus.”
— E, agora, eis que o SENHOR me conservou com vida, como
prometeu. Quarenta e cinco anos se passaram desde que o SENHOR falou essas
palavras a Moisés, quando Israel ainda andava no deserto; e, agora, eis que
estou com oitenta e cinco anos. Estou tão forte hoje como no dia em que Moisés
me enviou. A força que eu tinha naquele dia eu ainda tenho agora, tanto para
combater na guerra como para fazer o que for necessário. Dê-me agora este monte
de que o SENHOR falou naquele dia, pois, naquele dia, você ouviu que lá estavam
os anaquins, morando em cidades grandes e fortificadas. Se o SENHOR Deus
estiver comigo, poderei expulsá-los, como ele mesmo prometeu.
Josué o abençoou e deu a cidade de Hebrom a Calebe, filho
de Jefoné, para ser a herança dele.
Josué 14.6-13
Não podemos apenas espiritualizar esse evento e
atribui-lo exclusivamente a Deus, que fizera a promessa. Pessoas que se mantêm
fisicamente ativas ao longo da vida terão mais mobilidade, vigor e disposição
na velhice e evitarão o sofrimento e arrependimento que os que negligenciam os
exercícios acabam experimentando.
Os benefícios da atividade física são diversos, mas quero enfatizar alguns.
Saúde cerebral
Além da importância comprovada dos exercícios para a
estrutura muscular e para o sistema cardiovascular, as descobertas científicas
indicam efeitos positivos na saúde cerebral. Isso mesmo. Há um impacto
neurológico extremamente benéfico gerado pelo exercício físico.
O médico neurologista David Perlmu er, autor do livro
A dieta da mente, assegura que “nada poderia ter um impacto mais positivo
na saúde e no funcionamento do cérebro que o bom e velho exercício”.8 Ao
comentar sobre a neurogênese (processo de criação de novos neurônios), ele
destaca a importância, entre outros fatores, do exercício físico:
A pergunta que não quer calar: é possível criar novos
neurônios cerebrais? Em outras palavras, o que influencia a neurogênese? E o
que podemos fazer para estimular esse processo natural?
Esse processo, como seria de esperar, é controlado pelo
nosso DNA. Especificamente, um gene localizado no cromossomo 11 que tem o
código da produção de uma proteína chamada “fator neurotrófico derivado do
cérebro”, ou BDNF. O BDNF desempenha um papel fundamental na criação de novos
neurônios. Mas além de seu papel na neurogênese, o BDNF protege os neurônios
existentes, garantindo sua capacidade de sobrevivência ao mesmo tempo em que
estimula a formação de sinapses, a conexão de um neurônio ao outro — processo
vital para o raciocínio, o aprendizado e níveis mais altos de funcionamento
cerebral. Na verdade, pesquisas mostram níveis inferiores de BDNF em pacientes
de Alzheimer, o que, considerando o que se sabe sobre o funcionamento do BDNF,
não é motivo de surpresa. […]
Pesquisadores da Universidade de Boston descobriram que,
em um grupo de mais de 2.100 idosos acompanhados durante dez anos, 140
desenvolveram demência. Aqueles com níveis mais elevados de BDNF no sangue
tinham menos da metade do risco de demência, se comparados com os que possuíam
níveis mais baixos de BDNF. Comparando-se aqueles que tinham o nível de BDNF
mais baixo no início do estudo com os que tinham o nível mais alto, os idosos
na faixa superior do BDNF tinham um risco até 50% menor de desenvolver demência.
A correlação entre BDNF e Alzheimer é tão poderosa que é vista hoje em dia como
um “biomarcador” capaz de prever a capacidade da pessoa de resistir ao declínio
cognitivo do Alzheimer. Os níveis de BDNF não estão apenas relacionados ao
Alzheimer; estão associados a uma série de condições neurológicas, inclusive a
epilepsia, a anorexia nervosa, a depressão, a esquizofrenia e o transtorno obsessiva-compulsivo.
Pesquisas mais recentes mostraram até mesmo que níveis reduzidos em mulheres
podem ser sinônimo de um risco maior de suicídio.
Agora temos uma compreensão firme dos fatores que fazem
nosso DNA produzir BDNF. E felizmente esses fatores estão, na maioria, sob
nosso controle direto. O gene que aciona o BDNF é ativado por uma série de
hábitos pessoais, que incluem exercícios físicos, restrição calórica, uma dieta
cetogênica e o acréscimo de certos nutrientes, como a curcumina e o DHA, uma
gordura ômega 3. […]
De fato, o exercício físico é como um botão que liga a
produção de BDNF, além de uma das maneiras mais poderosas de alterar seus
genes. Em termos simples, quando se exercita, você literalmente treina seus
genes. Exercícios aeróbicos, em especial, não apenas ativam seus genes
relacionados à longevidade, mas também estimulam o BDNF, o “hormônio de
crescimento” do cérebro. Mais especificamente, descobriu-se que os exercícios
aeróbicos aumentam o BDNF, revertem o declínio da memória nos idosos e, além
disso, aumentam o surgimento de novas células no centro de memória do cérebro.
O exercício não serve apenas para ter uma aparência esbelta e um coração forte;
talvez seu efeito mais poderoso passe a maior parte do tempo despercebido no
andar de cima, onde nosso cérebro habita.
O neurologista ainda pontua as formas direta e indireta que
os exercícios físicos têm de beneficiar o cérebro:
São, em termos gerais, duas as maneiras como o exercício
beneficia o cérebro (e o corpo, para ser mais exato). Diretamente, o exercício
reduz a resistência à insulina e os processos inflamatórios, ao mesmo tempo que
estimula a liberação de fatores de crescimento. Esses fatores de crescimento,
entre eles o BDNF, afetam a saúde dos neurônios, o crescimento de novos vasos
sanguíneos no cérebro e até mesmo a abundância e sobrevivência de novos
neurônios. Indiretamente, o exercício também turbina o cérebro, reduzindo o
estresse e a ansiedade e melhorando o sono e o humor.
Úrsula Neves, em artigo intitulado “O que acontece no
corpo quando fazemos exercício físico?”, resume a relação entre a atividade
física e a produção hormonal:
Uma série de hormônios é secretada durante e após uma
sessão de exercícios físicos, quando glândulas e outras partes do corpo são
estimuladas a produzir alguns hormônios importantes, entre os quais:
Irisina – Conhecida como o hormônio do esporte, é
produzida pelos músculos e promove gasto energético e metabolismo de gordura;
GH – Hormônio do crescimento, que promove o aumento dos
tecidos e fibra muscular e uma maior queima de gordura, também é produzido pela
hipófise, no cérebro;
Endorfina – Hormônio do bem-estar e relaxamento, é
produzida pela hipófise, no cérebro;
Dopamina – Neurotransmissor ligado à comunicação das
células nervosas, ao prazer e à coordenação motora, é sintetizada pelos
neurônios dopaminérgicos no cérebro (na área da substância negra) e,
principalmente, no intestino.
Serotonina – O hormônio da felicidade, que melhora humor
e memória, tem sua produção pelos neurônios serotoninérgicos no sistema nervoso
central (cérebro e medula) e no intestino;
Glucagon – Secretado pelo pâncreas, evita episódios de
hipoglicemia durante o exercício;
Adrenalina – Aumenta a frequência cardíaca e deixa o
cérebro mais alerta, sendo produzida pelas glândulas suprarrenais, que ficam
logo acima dos rins;
Cortisol – Contribui para o controle do estresse e a
redução da inflamação, e também é secretado pelas suprarrenais.
Vamos entender melhor?
No início, ocorre uma inibição da secreção de insulina em
contraponto com a elevação do glucagon — hormônio produzido pelo corpo que
possui um efeito oposto ao da insulina, ou seja, aumenta o açúcar no sangue,
evitando a hipoglicemia;
Vinte minutos de exercícios já são suficientes para
sentir os primeiros efeitos da dopamina, que é um dos neurotransmissores
causadores da sensação de bem-estar e de prazer do exercício, ajudando também
na transmissão neural e, consequentemente, no controle motor durante o
movimento;
Uma maior quantidade de hormônios é liberada pelas
suprarrenais durante o exercício mais vigoroso, permitindo maior
disponibilidade de glicose e ácidos graxos (gordura) para serem utilizados como
substratos durante e após o exercício. Dependendo da intensidade do exercício,
o corpo até pode utilizar a gordura circulante, mas geralmente prioriza a
glicose como principal substrato por ter metabolização mais rápida;
Entretanto, os efeitos do exercício no controle do peso
corporal não estão diretamente associados à utilização de gordura durante sua
execução, mas prioritariamente em sua resposta crônica, somado às alterações
metabólicas no pós-exercício, que podem permanecer por horas;
Um bom exemplo disso são as mudanças ocasionadas pela
prática regular do treinamento físico na transferência da gordura branca para
gordura marrom induzida por uma miocina secretada durante o exercício: a
irisina, conhecida como o hormônio do esporte, e que possui diversos efeitos
benéficos ao corpo.
A irisina estimula a biogênese mitocondrial nas células
de gordura, aumentando o gasto energético pela indução de calor (termogênese) e
estimulando o metabolismo de gordura; atuando nos neurônios cerebrais ajudando
a fixação da memória e, consequentemente, auxiliando na prevenção de doenças,
como o Alzheimer; ajudando a reduzir a resistência à insulina retardando a
possibilidade do aparecimento do diabetes, além de contribuindo no controle de
peso corporal, como esclarece Ronaldo Barros.
Durante o exercício, o encéfalo (cérebro) produz muito
mais neurotransmissores como endorfina, dopamina e serotonina. Esses
neurotransmissores são conhecidos como os hormônios da felicidade. E essa
sensação boa persiste, porque é justamente após o exercício que temos uma
descarga desses hormônios ainda mais elevada que nos traz uma importante
sensação de prazer e relaxamento.11
Saúde cardiorrespiratória
Um relatório especial de saúde, produzido pela Escola de
Medicina de Harvard, intitulado “Manual de exercícios físicos”, aponta que:
O exercício regular diminui o risco de doença
cardíaca, a doença de maior risco entre os americanos. Ele faz isso de várias
maneiras, como ajudando a prevenir o acúmulo de placas ao atingir um equilíbrio
mais saudável de lipídios no sangue (HDL, LDL e triglicerídeos) e ajudando as
artérias a manterem a resiliência, apesar dos efeitos do envelhecimento. Mesmo
que você já tenha uma doença cardíaca, o exercício diminui suas chances de
morrer por causa dela.
O exercício reduz a pressão arterial, um
benefício que favorece muitos dos seus sistemas corporais. A pressão alta de
longo prazo (hipertensão) dobra ou triplica as chances de desenvolver
insuficiência cardíaca e muitas vezes abre caminho para outros tipos de doença
cardíaca, AVC, aneurisma da aorta e doença ou insuficiência renal.12
A melhora da aptidão cardiorrespiratória, o chamado
condicionamento aeróbico, está relacionado ao aumento da longevidade e da
qualidade de vida. Úrsula Neves, no artigo já citado, esclarece:
Os músculos necessitam de mais oxigênio e mais nutrientes
durante o exercício, sendo os sistemas cardiovascular e respiratório
responsáveis por fornecê-los. Assim:
A frequência cardíaca e o débito cardíaco aumentam, o que
leva a um aumento do fluxo sanguíneo para os músculos, especialmente para os
que estão sendo mais utilizados;
O fluxo sanguíneo também aumenta para a pele e o cérebro,
enquanto diminui para o sistema gastrointestinal;
A pressão arterial, especialmente a pressão sistólica, se
eleva;
Os pulmões respondem aumentando a ventilação pulmonar
quase imediatamente, principalmente através da estimulação dos centros
respiratórios do tronco cerebral;
As respostas cardiovasculares e respiratórias ao
exercício resistido, como a musculação, são em sua maioria semelhantes ao
exercício aeróbico.
Uma exceção notável é quando fazemos exercícios contra
resistência, geralmente realizados com a utilização de pesos.
Neste caso, há um aumento mais significativo na pressão
arterial, o que pode ser explicado pelo fato do exercício resistido levar à
compressão das artérias menores e resultar em aumentos mais substanciais na
resistência arterial periférica, porém sem aumento significativo no risco de
eventos cardiovasculares em hipertensos. Cronicamente, o coração se
hipertrofia, a frequência cardíaca diminui, as artérias se dilatam, a pressão
arterial diminui, ou seja, o sistema cardiovascular aumenta a capacidade de “bombear”
mais sangue e entregar mais oxigênio e nutrientes, gastando menos energia.
Obviamente, variáveis como o tipo de exercício físico, a intensidade, a duração
e o grau de treinamento físico prévio fazem diferença […].
Assim que o treino termina, o corpo tenta retomar o quanto antes ao seu estado natural de repouso, baixando a quantidade de trabalho das suas engrenagens. E agora acontece o processo completamente inverso do realizado no início do exercício: todos os ajustes que foram rapidamente realizados no início agora são novamente rapidamente desativados. Assim, as frequências respiratória e cardíaca voltam à sua normalidade. É comum ainda suarmos mesmo depois da sessão de exercícios, pois a regulação da temperatura funciona mais lentamente.
Outros benefícios
A prática dos exercícios físicos pode, comprovadamente,
aumentar seus anos de vida. Em um estudo do National Institutes of Health com
mais de 650.000 adultos, foram analisados os efeitos de fazer (ou não) o mínimo
recomendado de 150 minutos por semana de atividade moderada ou 75 minutos de
exercício vigoroso. Descobriu-se que as pessoas que fizeram apenas metade dessa
quantidade viveram em média 1,8 anos a mais. Os que atingiram o nível
recomendado somaram 3,4 anos. Aqueles que fizeram o dobro do recomendado
somaram 4,2 anos.
Devemos pensar, entretanto, como já foi dito, não somente
em acrescentar anos à nossa vida, mas também vida a nossos anos. A atividade
física nos proporcionará uma melhor qualidade de vida independentemente da
duração dela. Ou seja, não se trata apenas de viver mais; trata-se também de
viver melhor.
Em manual de diretrizes para atividade física e
comportamento sedentário, a Organização Mundial da Saúde aponta que “quatro a
cinco milhões de mortes por ano poderiam ser evitadas se a população global
fosse mais ativa fisicamente”.15 Não podemos ignorar esses fatos!
Mas, além dos malefícios a serem evitados, devemos
ressaltar os benefícios provenientes da atividade física. O “Manual de
exercícios físicos” da Escola de Medicina da Harvard destaca os seguintes
benefícios (além dos cardiorrespiratórios já citados) que os exercícios
proporcionam à saúde:
O exercício pode ajudar a prevenir o diabetes
reduzindo o excesso de peso, diminuindo modestamente os níveis de açúcar no
sangue e aumentando a sensibilidade à insulina para que o seu corpo precise
menos dela. Se você já tem diabetes, o exercício ajuda a controlar o açúcar no
sangue.
O exercício reduz o risco de desenvolver
câncer de cólon, mama, endométrio (revestimento uterino), estômago, pulmão e
possivelmente próstata. Ao ajudá-lo a manter um peso saudável, o exercício
também diminui o risco de outros cânceres nos quais a obesidade é um fator.
O exercício ajuda a fortalecer os ossos, que
atingem o pico de densidade e força durante as primeiras três décadas de vida.
Com o tempo, os ossos tornam-se mais fracos e mais porosos à medida que sua
densidade diminui. Exercícios de sustentação de peso, quando combinados com
cálcio, vitamina D e medicamentos para a preservação dos ossos, se necessário,
ajudam a evitar a perda óssea.
O exercício ajuda a proteger as articulações,
aliviando o inchaço, a dor e a fadiga e mantendo a cartilagem saudável.
Músculos fortes sustentam as articulações e aliviam a carga sobre elas.
O exercício pode limitar ou até mesmo reverter
a dor no joelho ou no quadril, ajudando a controlar o peso — um grande
problema, já que cada quilo adicionado multiplica o estresse no joelho por
quatro.
O exercício pode elevar o seu ânimo, liberando
neurotransmissores que melhoram o humor, aliviando o estresse e promovendo uma
sensação de bem-estar. Em alguns estudos, o exercício regular aliviou a
depressão leve à moderada de forma tão eficaz quanto os medicamentos. Combinar
exercícios com medicamentos e terapia é ainda melhor.
O exercício reduz a insônia e melhora a
qualidade do sono. O exercício é a única maneira comprovada de aumentar a
quantidade de tempo que você passa em sono profundo, o qual restaura
particularmente sua energia. Além disso, o sono adequado reduz os riscos de
desenvolver doenças cardíacas, diabetes e até demência.
O exercício pode melhorar a apneia obstrutiva
do sono. Em uma análise de cinco estudos, programas de exercícios estruturados
ajudaram a reduzir a gravidade da apneia do sono em 35% e a sonolência diurna
em 28%, mesmo na ausência de perda de peso significativa.
O exercício pode ajudá-lo a evitar infecções.
Em uma análise de quatro estudos controlados randomizados, as pessoas que se
exercitavam em intensidade moderada cinco ou mais dias por semana, por 8 a 16
semanas, tinham 27% menos chances de contrair resfriados. E se ficassem
resfriados, se recuperavam de três a quatro dias mais rápido do que os que não
se exercitavam. Pesquisas adicionais mostram que o exercício provoca um aumento
modesto e de curto prazo nas células natural killer e nos glóbulos brancos, que
ajudam a suprimir a infecção.
O exercício pode até ajudar seu cérebro a funcionar
melhor.
Combine todos esses benefícios e você verá que o exercício é indispensável quando o assunto é saúde.
Qual a frequência ideal de exercícios?
Segundo a Organização Mundial de Saúde, “estimativas
globais indicam que 27,5% dos adultos e 81% dos adolescentes não atendem às
recomendações da OMS de 2010 para atividade física, com quase nenhuma melhora
observada durante a última década”. Enfatiza, ainda, que “qualquer atividade é
melhor que nenhuma”, mas apresenta as recomendações para a frequência de
exercícios:
Crianças e adolescentes devem fazer pelo menos uma média
de 60 minutos por dia de atividade física de moderada a vigorosa intensidade,
ao longo da semana, a maior parte dessa atividade física deve ser aeróbica.
Atividades aeróbicas de moderada a vigorosa intensidade, assim como aquelas que
fortalecem os músculos e ossos devem ser incorporadas em pelo menos 3 dias na
semana.
Adultos devem realizar pelo menos 150 a 300 minutos de
atividade física aeróbica de moderada intensidade na semana; ou pelo menos 75 a
150 minutos de atividade física aeróbica de vigorosa intensidade; ou uma
combinação equivalente de atividade física de moderada e vigorosa intensidade.
Adultos devem realizar também atividades de fortalecimento muscular de moderada
intensidade ou maior que envolvam os principais grupos musculares dois ou mais
dias por semana pois estes proporcionam benefícios adicionais à saúde. Adultos
podem aumentar a atividade física aeróbica de moderada intensidade para mais de
300 minutos; ou realizar mais de 150 minutos de atividade física aeróbica de
vigorosa intensidade; ou uma combinação equivalente de atividades físicas de
moderada e vigorosa intensidade ao longo da semana para benefícios adicionais à
saúde.
Idosos devem realizar pelo menos 150 a 300 minutos de
atividade física aeróbica de moderada intensidade; ou pelo menos 75 a 150
minutos de atividade física aeróbica de vigorosa intensidade; ou uma combinação
equivalente de atividades físicas de moderada e vigorosa intensidade ao longo
da semana para benefícios substanciais à saúde. Idosos devem também fazer
atividades de fortalecimento muscular de moderada intensidade ou maior que
envolvam os principais grupos musculares em dois ou mais dias da semana, pois
estas proporcionam benefícios adicionais para a saúde. Como parte da atividade
física semanal, idosos devem realizar atividades físicas multicomponentes que
enfatizem o equilíbrio funcional e o treinamento de força com moderada
intensidade ou maior, em 3 ou mais dias da semana, para aumentar a capacidade
funcional e prevenir quedas. Idosos podem aumentar a atividade física aeróbica
de moderada intensidade para mais de 300 minutos; ou fazer mais de 150 minutos
de atividade física aeróbica de vigorosa intensidade; ou uma combinação
equivalente de atividades físicas de moderada e vigorosa intensidade ao longo
da semana para benefícios adicionais à saúde.
Mulheres grávidas e no pós-parto, sem contraindicações,
devem: praticar atividade física regular durante a gravidez e no pós-parto.
Fazer pelo menos 150 minutos de atividade física aeróbica de moderada
intensidade ao longo da semana para benefícios substanciais à saúde. Incorporar
uma variedade de atividades aeróbicas e de fortalecimento muscular. Adicionar
alongamento leve também pode ser benéfico. Mulheres que antes da gravidez,
estavam habitualmente engajadas em atividades aeróbicas de vigorosa
intensidade, ou aquelas que eram fisicamente ativas, podem continuar essas
atividades durante a gravidez e no pós-parto.17
Para aqueles que iniciarão suas atividades físicas, saindo do sedentarismo, vale destacar a importância de um começo com ritmo mais lento e que progrida gradualmente à medida que o corpo se habitua ao novo ritmo. Orientação e acompanhamento de profissionais da área também são fundamentais para a prática correta de exercícios. Muitos, ao mudarem repentinamente sua rotina e migrarem do sedentarismo para a prática de exercícios, chegam até mesmo a lesionar-se por falta de entendimento de cuidados devidos. Portanto, insisto: busque orientação de profissionais da área.
Diferentes aspectos do condicionamento físico
Utilizei ao longo do capítulo, de modo alternado, as
palavras “atividade física” e “exercício” para englobar dois aspectos distintos
do combate ao sedentarismo. Vale, porém, entender a distinção das expressões. O
“Guia de atividade física para a população brasileira”, publicação do
Ministério da Saúde, esclarece:
A atividade física é importante para o pleno
desenvolvimento humano e deve ser praticada em todas as fases da vida e em
diversos momentos, como ao se deslocar de um lugar para outro, durante o
trabalho ou estudo, ao realizar tarefas domésticas ou durante o tempo livre. Os
exercícios físicos também são exemplos de atividades físicas, mas se
diferenciam por serem atividades planejadas, estruturadas e repetitivas com o
objetivo de melhorar ou manter as capacidades físicas e o peso adequado, além
de serem prescritos por profissionais de educação física. Todo exercício físico
é uma atividade física, mas nem toda atividade física é um exercício físico!18
O “Manual de exercícios físicos” da Escola de Medicina da
Harvard também ressalta as distinções entre atividade física e exercício:
Embora as palavras “exercício” e “atividade física” sejam
frequentemente trocadas, elas não são intercambiáveis. Atividade física
refere-se a qualquer movimento que você faz que desencadeia contrações
musculares e um aumento no metabolismo. Isso pode incluir atividades
cotidianas, como tarefas domésticas ou no quintal da casa. Todas as atividades
físicas são benéficas, mas o exercício é um programa estruturado de atividade
para ajudá-lo a se tornar fisicamente apto.19
O manual de Harvard apresenta ainda aspectos distintos do
condicionamento físico:
A aptidão física geral exige vários tipos de atividades.
Geralmente, os especialistas recomendam uma combinação de atividades aeróbicas
e exercícios de força, flexibilidade e equilíbrio. Os exercícios que promovem o
relaxamento geralmente recebem pouca atenção, embora não devam, pois podem
ajudá-lo a lidar com o estresse que prejudica a saúde.20
Segue um resumo da definição de cada uma das cinco áreas
destacadas no manual de Harvard:
1. Atividades aeróbicas. Essas atividades, voltadas à
queima de calorias e redução da gordura forçam os músculos grandes a se
contraírem e relaxarem repetidamente, promovendo um aumento temporário da
frequência cardíaca e respiração, permitindo que mais oxigênio chegue aos
músculos, e aumentando a resistência cardiovascular. Algumas dessas atividades
são: caminhada, andar de bicicleta (ou spinning), corrida e natação. Preciso
adicionar a essa lista o elíptico (meu cardio predileto).
Exercícios de força. O treino de força ou resistência
(que usa aparelhos de musculação, pesos livres e faixas ou tubos de
resistência) protege contra a perda óssea e constrói músculos — ato conhecido
como hipertrofia muscular. O treinamento de força ocorre sempre que seus
músculos enfrentam uma força contrária mais forte do que o normal. Subdivide-se
em ações isotônicas e isométricas. A primeira estimula os músculos a encurtar
ou alongar para mover a articulação anexa através da sua amplitude de
movimento. A segunda força os músculos a trabalhar contra uma resistência fixa,
de modo que não ocorre encurtamento ou alongamento. Basicamente, não há
movimento muscular; apenas contração.
Flexibilidade. Exercícios de flexibilidade como
alongamento e pilates revertem o encurtamento e o enfraquecimento dos músculos,
comuns ao avanço da idade. Fibras musculares mais curtas e rígidas podem
torná-los vulneráveis a lesões. A falta de flexibilidade também pode contribuir
para problemas de equilíbrio. Por outro lado, a prática frequente de exercícios
que isolam e alongam as fibras elásticas ao redor dos músculos e tendões ajuda
a neutralizar esse declínio. Incentivar o fluxo sanguíneo para os músculos os
torna mais flexíveis. E um músculo bem alongado atinge mais facilmente toda a
sua amplitude de movimento, o que melhora o desempenho atlético.
Equilíbrio. Melhoram a estabilidade, que tende a reduzir
com a idade. Eles oferecem uma excelente defesa contra quedas, que podem ser
muito mais perigosas do que você imagina. O equilíbrio geralmente piora com o
tempo, comprometido por condições médicas, medicamentos, alterações na visão e
falta de flexibilidade. Entre as atividades que melhoram o equilíbrio estão o
pilates, afundo e elevação do calcanhar.
Relaxamento. Esses não compõem a maioria dos programas de
condicionamento físico. No entanto, a redução do estresse aumenta a qualidade
de vida e a saúde. Algumas disciplinas, como pilates, por exemplo, combinam
movimentos de liberação de tensão com foco mental e meditação. Até mesmo
caminhar pode ser uma prática meditativa. O alongamento também libera a tensão
muscular e promove a calma interior.21
Cabe ressaltar que nós, cristãos que nos dedicamos à
meditação nas Escrituras, à oração, à contemplação e à adoração, não julgamos
os exercícios de relaxamento tão necessários. Não apenas por causa daquilo que
já praticamos em nossa expressão de fé, mas, também, em alguns casos, pela
divergência de crença com alguns formatos em que esses tipos de exercícios são
aplicados por determinados grupos. A ideia, portanto, é reproduzir a
classificação do relatório da conceituada Escola de Medicina de Harvard, não
dar pleno aval a todos os formatos que normalmente executam esse tipo de
exercício.
De todo modo, a fim de ajustar os hábitos e a rotina para
pôr em prática tudo o que temos visto até aqui, dois elementos se farão
fundamentais: a convicção e a constância. É o que veremos a seguir.
1 Bible Hub, verbete gumnasia, G1129, <h
ps://biblehub.com/greek/1129.htm>. 2 Bible Hub, verbete sómatikos, G4984,
<h ps://biblehub.com/greek/4984.htm>.
3 Bible Hub, verbete pros, G4314, <h
ps://biblehub.com/greek/4314.htm> 4 Bible Hub, verbete óphelimos, G5624,
<h ps://biblehub.com/greek/5624.htm>. 5 João Wesley Dornellas, Pequena
história do povo metodista (Rio de Janeiro: Federação de Homens da Primeira
Região Eclesiástica, 2007), p. 10.
Bíblia de Estudo John Wesley (Barueri: Sociedade Bíblica
do Brasil, 2020), p. 1510.
Mais informações em <www.marathonisrael.co.il>.
David Perlmu er, A dieta da mente: Descubra os assassinos
silencioso do seu cérebro (São Paulo: Paralela, 2020), p. 258.
Ibid., p. 178-180.Ibid.
Úrsula Neves, “ O que acontece no corpo quando fazemos
exercício físico?”, EU Atleta, 13 de janeiro de 2023, <h
ps://ge.globo.com/eu-atleta/saude/reportagem/2023/01/13/c-o-queacontece-no-corpo-quando-fazemos-exercicio-fisico.ghtml>.
Harvard Health Publishing, Manual de exercícios físicos:
Dez treinos completos para ajudá-lo a ficar em forma e saudável (Boston:
Harvard Health Publishing, 2020), p. 1.
Neves, “O que acontece no corpo quando fazemos exercício
físico?”.
Harvard Health Publishing, Manual de exercícios físicos,
p. 1.
Edina Maria Camargo e Ciro Romelio Rodriguez Añez,
“Diretrizes para atividade física e comportamento sedentário: num piscar de
olhos”, Organização Mundial da Saúde, 2020, <h
ps://ws.santabarbara.sp.gov.br/instar/esportes/downloads/guia_AF_OMS.pdf>.
Harvard Health Publishing, Manual de exercícios físicos,
p. 2-3.
Camargo e Añez, “Diretrizes para atividade física e
comportamento sedentário: num piscar de olhos”.
Ministério da Saúde, Guia de atividade física para a
população brasileira (Brasília: Ministério da Saúde, 2021),
<h
ps://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_atividade_fisica_populacao_brasileira.p
df>.
Harvard Health Publishing, Manual de exercícios físicos,
p. 7.
Ibid.Ibid., p. 7-10.
CONVICÇÃO E CONSTÂNCIA
Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando, pois o que dúvida
é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Que uma pessoa
dessas não pense que alcançará do Senhor alguma coisa, sendo indecisa e
inconstante em todos os seus caminhos.
TIAGO 1.6-8
Apresentei, no primeiro capítulo, a necessidade de
mudança de mentalidade como um requisito para alcançar a mudança
comportamental. A partir de então ofereci, de forma progressiva e complementar,
embasamento bíblico para uma nova forma de pensar, crer e agir. Iniciei essa
construção com o confronto à espiritualidade exagerada, abordei a
responsabilidade humana na duração de nossa vida (através de nossas escolhas) e
expus a resposta que devemos à redenção divina: a boa mordomia do corpo. Falei
também acerca da sobrecarga de peso, alimentação (e a abstinência dela, por
meio do jejum), exercício físico e descanso.
A pergunta prática é: Diante de tudo o que foi ensinado,
como proceder de modo a reformular nossa conduta? A mudança de mentalidade é um
processo e requererá mais do que a leitura deste livro. Nestes dois capítulos
finais quero oferecer um auxílio pragmático para a mudança de comportamento e
compartilhar o que Deus me instruiu ao longo desse processo que vivenciei nos
últimos quinze anos.
Passei por várias oscilações de comportamento — e de peso
— em minha jornada de descoberta e aplicação dessas verdades acerca do cuidado
do corpo. E é exatamente o que acontece com a maioria das pessoas que, seja
qual for a área, passa por algum tipo de mudança. Foram comportamentos
diferentes em épocas distintas, e atualmente, refletindo acerca deles, enxergo
alguns detalhes importantes que podem ser de grande valia àqueles que
necessitam de ajustes em sua vida. Trata-se dos princípios bíblicos relacionados
com convicção e constância. Para simplificar, vou dividir minha história em
duas fases distintas.
A primeira fase envolve a etapa anterior às experiências
que descrevo aqui. Diz respeito ao início de minha fase adulta, quando comecei
a ganhar peso e, na época, não me importava com isso. Como compartilhei no
início do livro, eu não mensurava nenhuma consequência futura, espiritualizava
o que não deveria e não dava ouvidos a quem quer que tentasse me ajudar com
conselhos sobre o cuidado do corpo. Ainda nessa época, quando ultrapassei os
limites de peso, dei início a algumas dietas. Quer fossem elas bem-sucedidas,
quer não, na questão da perda de peso, eu rapidamente esquecia o que havia me
motivado a começá-las até que algo me despertasse novamente para outra
tentativa que, por sua vez, também não teria continuidade. Foi uma época de
baixa convicção sobre os princípios bíblicos aqui abordados e quase nenhuma
constância.
Depois veio a segunda fase, quando, chocado pela
constatação de uma saúde que já dava sinais de comprometimento e tendo já
passado a chamada “idade da imortalidade” (quando achamos que a saúde nunca
faltará), dos 35 aos 40 anos, comecei a despertar para a consciência de
verdades bíblicas que deram início a uma reprogramação em minha forma de
pensar. Nesse novo nível de consciência parei de “brincar” de dietas e comecei
a reprogramar meu estilo de vida. Foi uma época de crescente convicção dos
princípios bíblicos relacionados ao assunto da saúde e uma igualmente crescente
constância.
Hoje estou vivenciando a terceira fase, que classifico
como um período de grande convicção e, consequentemente, de grande constância.
E pretendo demonstrar que a relação entre o nível de nossa convicção
determinando a dimensão de nossa constância é fato bíblico, e não apenas um elemento
de minha história pessoal.
Aliás, deixe-me aproveitar para dizer primeiro que
reeducação alimentar é aquilo de que precisamos, especialmente os com condição
de sobrepeso. Do contrário, a pessoa voltará a engordar. Se o que levou a
pessoa ao sobrepeso foi o estilo de vida e o padrão de alimentação errada, não
dá para imaginar que, depois da dieta, ao voltar aos velhos hábitos, o problema
não retornará. Ouvi, certa vez, o dr. Aldrin Marshall dizer que “dieta é algo
que tem tempo determinado para se aturar e depois terminar, regressando-se ao
comportamento anterior”. E, conscientemente ou não, as pessoas acabam voltando
às velhas práticas depois de metas de perda de peso alcançadas nas dietas e,
assim, aos poucos, retornam ao peso anterior.
Nesta reflexão sobre as duas primeiras fases desse
processo, percebi certas características ausentes em uma e presentes em outra
fase. A diferença entre elas me ajudou a entender algo. Além dos resultados
visíveis, como a diminuição de peso, eu diria que a mudança fundamental foi de
consciência. Uma nova forma de pensar, alicerçada em um novo nível de
entendimento, me ajudou a adotar um novo estilo de vida, com novas práticas.
Esse foi o fundamento inicial estabelecido no primeiro capítulo.
É honesto admitir, porém, que mesmo nessa fase de mudança
eu ainda experimentei várias oscilações. Na segunda fase deixei de viver o
“efeito sanfona” ou “gangorra”, como muitos denominam. Não era mais aquela
“montanha-russa”, aquele sobe e desce de peso como antigamente. Por várias
vezes, contudo, ainda oscilei de peso — muito embora em proporções menores.
Na primeira leva de quilos perdidos, por volta de 2010,
eu eliminei 27 quilos. Refiro-me àquela época que descrevi no início do livro,
quando cheguei a pesar 153 quilos. Nunca mais ultrapassei esse novo limite de
peso, apesar de ter demorado a perder o restante do excesso. Depois, numa
segunda etapa, em 2015, perdi mais 28 quilos. Porém, depois dessa segunda
emagrecida drástica, ainda cheguei a recuperar um pouco de peso algumas vezes.
No início de 2016, subi cerca de 15 quilos e, ao perceber
o deslize, voltei a perder peso. Em meados de 2018, pouco mais de dois anos
depois, engordei novamente os mesmos 15 quilos e, mais uma vez, aborrecido com
“a escorregada”, voltei a me cuidar. Nessa época, logo depois de uma rígida
dieta que me devolveu ao peso anterior, por uma direção divina que nada tinha a
ver com dieta ou perda de peso, fiz um jejum de quarenta dias só com ingestão
de água. O resultado, apesar de temporário, foi que cheguei a pesar 80 quilos,
peso que só me lembro de ter registrado no início da adolescência.
Tive acompanhamento médico antes, durante e depois do
jejum. Eu sabia que em um jejum prolongado sempre há muita perda de peso, mas
que esses quilos podem ser rapidamente repostos ao final do período de
abstinência alimentar. Já tinha feito vários jejuns prolongados com duração de
uma e duas semanas. Certa vez cheguei a fazer um de três semanas. E sabia que o
corpo apresenta hiper assimilação depois do jejum. Portanto, não estranhei
quando fui recuperando peso. O problema é que, poucos meses depois, no início
de 2019, eu tinha voltado à marca dos três dígitos na balança!
Foi nessa ocasião que entendi da parte de Deus o que vou
compartilhar neste capítulo. Enquanto eu orava por uma palavra para ministrar
em um treinamento que teríamos com os líderes de nossas igrejas, o Senhor me
guiou a um entendimento bíblico de que a convicção (ou fé) é a base da
constância. E me fez enxergar, tanto nos princípios bíblicos como na prática de
minha vida, que quando temos uma forte convicção de algo isso nos leva a uma
forte constância naquilo.
Por exemplo, já estou pregando há mais de trinta anos. Só
no ministério pastoral já são três décadas e tenho exercido também, a maior
parte desse tempo, em paralelo ao pastorado, um ministério itinerante. Minha
esposa e filhos sempre comentaram que ficavam impressionados com minha
determinação de trabalho e produtividade no Reino. Entendi que isso era um
exemplo prático do fruto de uma convicção que foi formada em mim mediante o
entendimento dos princípios bíblicos.
Nessa ocasião o Espírito Santo falou ao meu coração:
“Compartilhe com eles a necessidade de intensificar a convicção, porém não
limite isso apenas à produtividade no ministério. Você é forte na produtividade
ministerial porque se permitiu crescer na convicção do assunto. Em outras áreas
de sua vida, porém, onde não há o mesmo nível de convicção, você acaba
fraquejando, como na alimentação, por exemplo”.
Fiquei chocado. Tinha acabado de sair do que, na ocasião,
havia sido o maior jejum da minha vida e não achava que ainda me faltasse
convicção para lidar com o assunto como ocorria no passado. Avaliei a forma
como vinha me alimentando e não consegui entender aquela cobrança que,
honestamente, parecia-me exagerada.
O que não me toquei, na ocasião, é que o Senhor não falava apenas sobre o momento. Ele estava tentando me advertir do que ainda viria pela frente. Nos meses seguintes, aos poucos, meu peso voltou a subir. Embora não tenha chegado ao peso dos outros dois deslizes anteriores — recuperei cerca de uns dez quilos dessa vez — percebi que uma das coisas que me faltava era, de fato, uma convicção mais profunda. Então, mais uma vez, decidi começar de novo! Agora, porém, o foco não seria apenas a reeducação alimentar e o controle de peso, mas uma profunda mudança de mentalidade.
Mude sua mente
Antes de seguir falando de alimentação e saúde penso ser
importante mapear, de forma panorâmica, tanto o comportamento humano quanto as
orientações e advertências bíblicas sobre mudança de vida. Não é porque alguém
se converteu que tudo mudou instantânea e completamente. É verdade que quase
todo cristão experimenta uma boa “arrancada” de transformação no início de sua
vida de fé. Uma experiência impactante, seguida de forte empolgação, tem o
poder de alavancar o comportamento humano. Porém, é importante questionar:
“Isso era tudo de que precisávamos?”. E a resposta é não!
Basta conferirmos o ensino bíblico aos novos convertidos.
Do que eles precisavam para continuar mudando em níveis ainda não alcançados na
transformação inicial? No primeiro capítulo deste livro, tratei desse assunto e
julgo necessário retomá-lo e expandi-lo aqui.
As epístolas nos trazem repetidas advertências sobre a
necessidade de os novos crentes mudarem a forma de pensar a fim de que não
voltem às práticas mundanas:
E não vivam conforme os padrões deste mundo, mas deixem
que Deus os transforme pela renovação da mente, para que possam experimentar
qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Romanos 12.2 Paulo, escrevendo aos efésios, aborda
novamente esse assunto:
Quanto à maneira antiga de viver, vocês foram instruídos
a deixar de lado a velha natureza, que se corrompe segundo desejos enganosos, a
se deixar renovar no espírito do entendimento de vocês, e a se revestir da nova
natureza, criada segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.
Efésios 4.22-24
Em ambas as instruções fica evidente a necessidade de
mudança de mentalidade; não apenas de certa mudança, mas, principalmente, de
uma contínua e progressiva renovação do entendimento, ou seja, da forma de
pensar. Olhe para qualquer neófito e perceba que, apesar da mudança inicial,
ainda há muita coisa a ser ajustada na vida dele. Ninguém vive a transformação
plena de forma instantânea. Considere, por exemplo, um viciado em drogas que,
ao se converter, foi liberto. A maioria desses convertidos não volta ao vício.
Contudo, ainda sofrem recaídas até se firmarem plenamente.
O mesmo se dá em cada área do comportamento humano. Toda
transformação de hábitos requer primeiro uma mudança de mentalidade. E para que
isso aconteça, mais do que ter informação, necessita-se de uma nova convicção.
E a convicção precisa ser fortalecida até chegar ao ponto
em que assuma o controle. Muita gente fracassa no processo de mudança por falta
de convicção. Isso não significa que houve ausência plena de convicção; apenas
que não a alimentaram o suficiente. Essas pessoas acabam desistindo depois que
algumas tentativas de mudança de comportamento fracassaram. O foco, portanto,
deveria ser a mudança da mentalidade. E isso também não é instantâneo.
Requer mais do que tempo; requer certo investimento na
nova forma de pensar.
Muitas vezes adotamos uma nova mentalidade sem,
necessariamente, excluir a velha. O que conseguimos com isso é um conflito de
mentalidades, o que não é garantia de que a nova forma de pensar prevalecerá. E
as Escrituras Sagradas falam alguma coisa sobre isso? Sim! Ao abordar o
assunto, e falar de gente dividida na forma de pensar, a Palavra de Deus sempre
destaca pessoas que não conseguiam agir de forma correta. Consideremos alguns
exemplos bíblicos:
Então, Elias se chegou a todo o povo e disse: Até quando
coxeareis entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o; se é Baal,
segui-o. Porém o povo nada lhe respondeu. 1Reis 18.21, ARA
A palavra hebraica traduzida por “coxear” é pacach, que
significa “passar por cima, saltar por cima, mancar”. Refere-se a alguém que
caminha com dificuldade, pendendo o corpo de um lado para o outro.1 Já o termo
hebraico traduzido por “pensamentos” é saiph, “ambivalência, divisão, opinião
dividida”.2 Portanto, o profeta advertiu o povo de Israel a parar de oscilar
entre dois pensamentos, ou opiniões divididas. Os israelitas não haviam trocado
Deus por Baal; eles estavam tentando conciliar os dois. O que estava em jogo
era uma espécie de sincretismo, de mistura de pensamentos e crenças. Havia duas
mentalidades competindo e, obviamente, uma delas precisava ser eliminada. Elias
chegou ao ponto de dizer: “Se o SENHOR é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o”. Em
outras palavras, ele estava dizendo que eles deveriam ficar com um pensamento
só!
No Novo Testamento encontramos o mesmo tipo de
advertência. E qual seria a razão da repetição dessas advertências nas
Escrituras? Obviamente Deus quer que entendamos o dano que tal atitude de
indecisão pode nos trazer e que, por meio dessa compreensão, é possível evitar
o prejuízo que seria ocasionado em nossa vida. Tiago escreveu:
Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a
Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida.
Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que dúvida é semelhante à onda
do mar, impelida e agitada pelo vento. Não suponha esse homem que alcançará do
Senhor alguma coisa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus
caminhos.
Tiago 1.5-8, ARA
Tiago orientou-nos a buscar o melhor de Deus e abordou o
choque “fé versus dúvida”. Ao destacar o homem que dúvida, ele o classifica
como sendo de “ânimo dobre”. A palavra que consta nos manuscritos gregos é
dipsuchos, que significa “mente dupla, vacilante, incerto, duvidoso, de
interesse dividido”.3 E é justamente por causa dessa mente dupla, do interesse
dividido, que a pessoa se torna inconstante, instável, em seus caminhos. (A
Versão Fácil de Ler traduziu assim o versículo 8: “pois ela não sabe o que quer
e é inconstante em tudo o que faz”.) Já a palavra grega traduzida por
“caminhos” é hodos e seus possíveis significados são “caminho, estrada,
excursão, ato de viajar”, ou, metaforicamente, “curso de conduta, forma ou modo
de pensar, sentir, decidir”.4 Ou seja, tanto a possibilidade de tradução como a
lógica do texto admitem a possibilidade de entendermos a declaração de Tiago
assim: “Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; homem de
mente dupla, inconstante em toda a sua forma de pensar e, consequentemente, nos
caminhos que decide trilhar”.
O texto bíblico que destacamos não fala apenas sobre mente dividida ou forma de pensar. Fala ainda de fé ou incredulidade. E também de características relacionadas a cada uma delas. Isso é importante porque, se por um lado afirmamos que a fé não é racional, por outro não podemos dissociá-la de nosso entendimento, que é o que gera a convicção.
Relação entre fé e convicção e constância
Além de falar sobre crer ou não crer, Tiago ainda enfoca
quem recebe a intervenção divina e quem não. Em outras palavras, podemos tomar
seu ensino como uma espécie de receita para a cooperação com Deus. Ou para a
falta dela.
A fé sempre dá sinais de persistência, perseverança e
constância. Com a incredulidade é exatamente o oposto. A pessoa que duvida tem
ânimo dobre, mente dividida e é inconstante. Essas são características da
incredulidade. Tal pessoa não carrega convicção, que é uma forma inalterável de
pensar.
Uma das maneiras de avaliar se estamos andando em fé ou
incredulidade consiste nas manifestações das características de cada uma delas
em nossa vida. A Palavra de Deus também nos ensina:
Assim diz o SENHOR:
“Maldito aquele que confia no ser humano, que faz da
carne mortal o seu braço e cujo coração se desvia do SENHOR!
Porque ele será como um arbusto solitário no deserto e
não verá quando vier o bem; pelo contrário, morará nos lugares secos do
deserto, na terra salgada e inabitável.
“Bendito aquele que confia no SENHOR e cuja esperança é o
SENHOR.
Porque ele é como a árvore plantada junto às águas, que
estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor, porque
as suas folhas permanecem verdes; e, no ano da seca, não se perturba, nem deixa
de dar fruto.
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e
desesperadamente corrupto.
Quem poderá entendê-lo?
Eu, o SENHOR, sondo o coração.
Eu provo os pensamentos, para dar a cada um segundo os
seus caminhos, segundo o fruto das suas ações.”
Jeremias 17.5-10
O profeta está falando, da parte de Deus, a respeito de
confiar ou não no Senhor. E, depois de mostrar que há evidências que se
manifestam na vida dos que confiam e na dos que não confiam, ele diz que o
coração do homem é enganoso. E questiona: “Quem poderá entendê-lo?”. O que isso
significa? Que nem sempre saberemos o nível de confiança que temos tão somente
ao olhar para nosso coração.
Mas, depois de falar da dificuldade do homem em se
avaliar no quesito confiança, o Criador declara que é ele próprio quem sonda o
coração e os pensamentos. E o que o Senhor faz depois de nos examinar de uma
forma que não podemos fazer? Ele mesmo declara que o propósito dessa sondagem
interior é “dar a cada um segundo os seus caminhos, segundo o fruto das suas
ações”. Em outras palavras, depois de examinar nosso íntimo Deus tornará
visível o que está dentro de nós por meio das circunstâncias. Assim, as evidências
do que se encontra oculto, invisível, no interior se tornarão evidentes,
visíveis, no exterior.
Nessa ilustração bíblica, percebemos que a constância é
uma das evidências na vida dos que creem. Uma característica dos que confiam é
que eles serão “como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas
raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor, porque as suas folhas
permanecem verdes; e, no ano da seca, não se perturba, nem deixa de dar fruto”.
Como eu aprecio essa declaração! Manter a folhagem verde e não deixar de dar
fruto, mesmo diante do calor, é uma incontestável definição de constância.
Assim deveria ser a frutificação de cada cristão, independentemente das
circunstâncias.
A constância é gerada pela convicção, que é o oposto da
mente dividida. Quando o Novo Testamento fala de alguém fiel — constante em
seus valores, compromissos e missão — traz a mesma relação entre fé (convicção)
e constância. Deixe-me exemplificar isso com versículos bíblicos:
Quem é, pois, o servo fiel e prudente, a quem o senhor deixou encarregado dos demais servos, para lhes dar o sustento a seu tempo? Mateus 24.45
A palavra grega traduzida por “fiel” é pistos, cujas
acepções incluem “verdadeiro, fiel; de pessoas que se mostram fiéis na
transação de negócios, na execução de comandos, ou no desempenho de obrigações
oficiais; alguém que manteve a fé com a qual se comprometeu, digno de
confiança; aquilo que em que se pode confiar; persuadido facilmente; que crê,
que confia”.5 Portanto, um dos significados básicos de “fiel” é “aquele que
crê”. Veja um exemplo do uso de pistos para referir-se a quem crê:
Que harmonia pode haver entre Cristo e o Maligno? Ou que união existe entre o crente e o descrente? 2Coríntios 6.15
De igual modo, quando Paulo fala de Abraão na epístola
aos gálatas, ele diz: “de modo que os da fé [pistis] são abençoados com o
crente [pistos] Abraão” (Gl 3.9). Sobre Timóteo é dito que ele era “filho de
uma judia crente [pistos]” (At 16.1). Jesus disse a Tomé: “Não seja incrédulo
[apistos], mas crente [pistos]” (Jo 20.27). Nesses e em muitos outros textos
bíblicos a palavra “fiel” foi vertida como “crente”. Portanto, o fiel (pistos)
é alguém que tem fé (pistis). E enquanto a palavra “fiel” procede de “fé”, a
palavra “fé”, por sua vez, procede de peithó, que significa “persuasão”.6
O ponto a ser destacado aqui é que ser fiel (constante)
procede da fé (convicção), que, por sua vez, procede da persuasão (mudança de
pensamento). Um exemplo do uso dessas palavras pode ser encontrado quando, na
ocasião da crucificação de Cristo, um zombador declara:
— Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar. É rei de Israel! Que ele desça da cruz, e então creremos nele. Confiou em Deus; pois que Deus venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque ele disse: “Sou Filho de Deus”.Mateus 27.42-43
As palavras traduzidas por “creremos” e “confiou” são
distintas, embora transmitam o mesmo significado. “Creremos” é pisteuo, isto é,
“pensar que é verdade, estar persuadido de, acreditar, depositar confiança em;
de algo que se crê; acreditar, ter confiança”.7 Já “confiou” é peithó,
“persuadir, induzir alguém pelas palavras a crer; fazer amigos de, ganhar o
favor de alguém, obter a boa vontade de alguém, ou tentar vencer alguém,
esforçar-se por agradar alguém; tranquilizar; mover ou induzir alguém, por meio
de persuasão, para fazer algo; ser persuadido, deixar-se persuadir;
acreditar”.8
A relação entre fé e convicção na Bíblia é inegável.
Aliás, a fé, na própria definição bíblica, é apresentada como uma convicção,
uma certeza:
Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a
convicção de fatos que não se veem. Hebreus 11.1
Abraão é denominado, nas Escrituras, “pai da fé”. E a
Palavra de Deus o apresenta, dessa forma, como um modelo a ser seguido. Por
isso Paulo, escrevendo aos romanos, se refere aos que creem como sendo aqueles
que “andam nas pisadas da fé que teve Abraão” (Rm 4.12). E a mesma Bíblia que o
coloca como referência dos que creem também nos revela o tipo de fé que ele
tinha:
E, sem enfraquecer na fé, levou em conta o seu próprio corpo já amortecido, tendo ele quase cem anos, e a esterilidade do ventre de Sara. Não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que Deus era poderoso para cumprir o que havia prometido.Romanos 4.19-21
A característica apresentada acerca da fé do patriarca é
muito clara.
Ele estava “plenamente convicto”. Ou seja, Abraão não
tinha apenas “convicção”; ele estava “totalmente cheio” de convicção. Esse é o
significado da palavra utilizada nos manuscritos originais, plérophoreó, que
indica tanto a ação de “encher, preencher” como de “levar alguém a ter certeza,
persuadir, convencer”.9 O pai da fé estava completamente cheio de convicção.
Isso nos ensina que alguém pode até ter certo nível de convicção sem, porém,
estar totalmente preenchido. Ou seja, há espaço para mais convicção; ou melhor
dizendo, é possível que a convicção cresça até sua plena medida.
Fomos chamados a viver uma vida de fé, que também é
definida pela convicção. Mas temos tentado crer sem nos deixar ser plenamente
persuadidos. Dessa forma falhamos ao tentar, por mera mudança de comportamento,
ser fiéis. Portanto, para reprogramar a capacidade de ser fiel (constante),
temos de fortalecer a fé (convicção). Esta, por sua vez, não vem toda de uma
vez. A convicção vai nos enchendo aos poucos, por camadas, à medida que nos
deixamos ser persuadidos. Como você acha que vem a fé? A resposta bíblica é
objetiva: “E, assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo”
(Rm 10.17). A Palavra de Deus tem o poder de mudar nossa forma de pensar e,
consequentemente, nossas convicções.
Não deveríamos tentar mudar um comportamento apenas
porque alguém ordenou. Precisamos ser alimentados para essa mudança através da
Palavra de Deus. As Escrituras é que devem gerar em nós a convicção que nos
levará à constância. O conceito bíblico de certo e errado, do que é pecado ou
não, não depende apenas da observância de regras preestabelecidas. O apóstolo
Paulo ensinou isso aos crentes de Roma. Ele inicia tratando de questões
alimentares:
Acolham quem é fraco na fé, não, porém, para discutir opiniões. Um crê que pode comer de tudo, mas quem é fraco na fé come legumes. Quem come de tudo não deve desprezar o que não come; e o que não come não deve julgar o que come de tudo, porque Deus o acolheu.Romanos 14.1-3
E ao abordar as discussões entre os irmãos, sobre o que
se poderia e o que não se poderia comer, o apóstolo externa sua opinião sobre
quem acha que não pode comer tudo e o denomina de “fraco na fé”. Para a maioria
o assunto estaria resolvido aqui. Mas Paulo apela para a lei do amor e diz:
Portanto, deixemos de julgar uns aos outros. Pelo contrário, tomem a decisão de não pôr tropeço ou escândalo diante do irmão.Romanos 14.13
Isso não mudava a opinião de Paulo sobre o fato de que,
diferentemente dos tempos da lei mosaica, o cristão pode comer de tudo (como
definido no capítulo 7):
Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nada é
impuro em si mesmo, a não ser para aquele que pensa que alguma coisa é impura;
para esse é impura.
Romanos 14.14
Contudo, apesar de sua opinião, o apóstolo não queria que
houvesse contendas por aquele assunto e aconselhou os demais irmãos que
pensavam como ele a respeitarem uma opinião diferente. E os chama a serem
pacientes e amorosos com os que discordavam:
Se o seu irmão fica triste por causa do que você come,
você já não anda segundo o amor. Não faça perecer, por causa daquilo que você
come, aquele por quem Cristo morreu. Não seja, pois, difamado aquilo que vocês
consideram bom. Porque o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça,
paz e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a Cristo é
agradável a Deus e aprovado pelas pessoas.
Assim, pois, sigamos as coisas que contribuem para a paz e também as que são para a edificação mútua. Não destrua a obra de Deus por causa da comida. Todas as coisas, na verdade, são puras, mas não é bom quando alguém come algo que causa escândalo. É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve um irmão a tropeçar.Romanos 14.15-21
Não se trata de evitar conflito apenas para não ser
desagradável. Lendo as epístolas de Paulo constatamos que ele sabia confrontar
as pessoas e colocar o dedo na ferida quando necessário. O ponto em questão é
que as pessoas que acreditavam não poder comer de tudo — o que era diferente do
que o apóstolo praticava e ensinava — tinham um problema de fé e não apenas de
opinião. Portanto, não adiantava tentar mudar o comportamento delas sem que
houvesse, primeiro, uma mudança de mentalidade.
Isso fica evidente, a meu ver, quando o apóstolo sinaliza
que alguém poderia pecar comendo um tipo de alimento que não era pecado.
Observe:
A fé que você tem, guarde-a para você mesmo diante de
Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova. Mas aquele
que tem dúvidas é condenado se comer, pois o que ele faz não provém de fé; e
tudo o que não provém de fé é pecado.
Romanos 14.22-23
Você pode trocar a palavra “aprova” por “acredita” e o
significado da mensagem será o mesmo: “Bem-aventurado é aquele que não se
condena naquilo que acredita”. O apóstolo deixou claro que nenhum tipo de
alimento é impuro a não ser para aquele que pensa que é impuro. E enfatiza:
“para esse é impuro” (Rm 14.14). Isso significa que o que não é pecado para
outros pode ser para mim. Portanto, o tipo de crente que Paulo definiu como
sendo de “fé fraca” é alguém de baixa convicção em determinado assunto. E fazer
as coisas sem convicção recebe uma classificação forte, que não pode ser
ignorada: “tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm 14.23).
Não é possível viver a plenitude do propósito divino sem
convicção. E convicção vem de ouvir a Palavra de Deus. Não vem de outra forma!
Mas também não vem toda de uma vez. Procuremos entender isso melhor. Iniciei
este capítulo mencionando que minha família sempre elogia minha dedicação de
servir a Deus e a inspiração que isso proporciona. Mas se você me perguntasse
se eu sempre tive a mesma intensidade no ministério a resposta seria não.
Porque mesmo quando era mais novo e, portanto, tinha mais vigor físico, eu não
era tão fortemente movido por convicções interiores como sou hoje. O nível de
convicção do que Deus espera de mim, além do entendimento de meu próprio
chamado e propósito, cresceu com o tempo. Isso mesmo, convicção cresce! Todos
temos áreas de forte convicção e outras áreas de menor convicção. E precisamos
aprender a fortalecer a convicção por meio da meditação na Palavra de Deus.
Mesmo na época em que estava exageradamente acima do
peso, eu costumava jejuar. E muitas vezes, em jejuns prolongados, eu me sentava
à mesa com as pessoas que iriam comer e não me sentia tentado diante da comida.
Já fui a churrascarias sem comer, apenas para ter comunhão com amigos, enquanto
jejuava por semanas inteiras bebendo tão somente água. Menciono isso porque, de
vez em quando, minha esposa me dizia:
— Amor, se você consegue ser tão firme em dizer não à
comida quando está jejuando, por que não consegue ser tão forte quando está de
regime?
Eu me calava. Sentia vergonha. E não sabia o que dizer.
Uma vez arrisquei uma possível resposta:
— É que o jejum é para Deus e eu tenho que levar a sério!
Ela replicou:
— Então por que você não faz uma dieta para Deus?
Mas a verdade é que nem sempre conseguia fazer a dieta
para Deus como fazia o jejum. Demorei para perceber que minha convicção em cada
assunto era diferente. Em um deles, o jejum, eu havia estudado a fundo o que a
Bíblia diz, havia me exercitado na prática, e havia uma força dentro de mim — a
convicção — que não me deixava ceder. Mas no outro assunto, o da dieta, eu até
me animava com um pouco do encorajamento dos que estavam à minha volta, mas não
tinha muita convicção; portanto, acabava me faltando a firmeza, a constância. E
entender essas verdades me ajudou muito. Passei a trabalhar e fortalecer a
convicção antes de tentar mudar o comportamento.
Mas, assim como entender o que a Bíblia ensina sobre a constância como fruto da convicção é importante, entender o ensino bíblico de que a inconstância é fruto da falta de convicção é igualmente importante. E complementar. Agora, portanto, olhemos para o “outro lado da moeda”.
A inconstância reflete falta de convicção
O que nos move em nossas decisões e atitudes? Todos somos
movidos por alguma coisa. A orientação das Escrituras é que não podemos ser
movidos “pelo vento”. O termo “agitado pelo vento”, usado por Tiago, foi
relacionado com a inconstância:
Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando, pois o que dúvida
é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Que uma pessoa
dessas não pense que alcançará do Senhor alguma coisa, sendo indecisa e
inconstante em todos os seus caminhos.
Tiago 1.6
O que é ser movido, como a onda do mar, pelo vento? É não
ter uma força motriz interior, é ser agitado por fatores externos. O vento
simboliza a pressão das circunstâncias, as tentativas de nos demover de nossa
firmeza. Paulo usou essa mesma linguagem em sua epístola aos efésios:
Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno
conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura
da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como crianças, arrastados
pelas ondas e levados de um lado para outro por qualquer vento de doutrina,
pela artimanha das pessoas, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo
a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.
Efésios 4.13-15
É claro que o apóstolo não falava de um vento literal, e
sim de influências externas, de gente astuta que induz ao erro, movendo os
crentes imaturos que ainda não tinham convicção bíblica suficiente para poder
resistir.
O que orienta e movimenta você? Convicções profundas,
geradas pela Palavra de Deus, ou a falta delas?
A verdade é que inconstância e infidelidade (falta de fé,
de convicção) caminham juntas, sempre atreladas. Observe a declaração que o
salmista fez acerca disso:
Para que pusessem a sua confiança em Deus e não se esquecessem dos feitos de Deus, mas lhe observassem os mandamentos; e que não fossem, como seus pais, geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus.Salmos 78.7-8
A relação entre inconstância e infidelidade também é
clara nas Escrituras, da mesma forma que há uma relação entre constância e
fidelidade, como já vimos. Outro exemplo disso se encontra nos registros
bíblicos sobre a falha de Eva. O pecado externalizado de Eva foi a rebeldia.
Mas começou com incredulidade internalizada. A palavra de Deus foi posta em
xeque e a convicção que ela tinha foi, então, relativizada. Observe:
Mas a serpente, mais astuta que todos os animais
selvagens que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher:
— É verdade que Deus disse: “Não comam do fruto de
nenhuma árvore do jardim”?
A mulher respondeu à serpente:
— Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do
fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: “Vocês não devem comer
dele, nem tocar nele, para que não venham a morrer.”
Então a serpente disse à mulher:
— É certo que vocês não morrerão. Porque Deus sabe que,
no dia em que dele comerem, os olhos de vocês se abrirão e, como Deus, vocês
serão conhecedores do bem e do mal.
Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer,
agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu
fruto e comeu; e deu também ao marido, e ele comeu.
Gênesis 3.1-6
No Novo Testamento, encontramos uma exortação de Paulo,
aos irmãos coríntios, que faz uso desse exemplo da queda de Eva. O apóstolo faz
essa aplicação dentro de um contexto bem específico. Ele estava preocupado que
aqueles irmãos perdessem sua convicção e alicerce doutrinário, pois tinha
ciência tanto do evangelho corrompido que estava sendo proclamado como da falta
de convicção dos coríntios que os levaria à infidelidade.
Tenho zelo por vocês com um zelo que vem de Deus, pois eu preparei vocês para apresentá-los como virgem pura a um só esposo, que é Cristo. Temo que, assim como a serpente, com a sua astúcia, enganou Eva, assim também a mente de vocês seja corrompida e se afaste da simplicidade e pureza devidas a Cristo. Pois, se vem alguém que prega outro Jesus, diferente daquele que nós pregamos, ou se vocês aceitam um espírito diferente daquele que já receberam ou um evangelho diferente do que já aceitaram, vocês toleram isso muito bem.2Coríntios 11.3
Penso que Pedro não foi chamado de “homem de pequena fé”
por não ter conseguido permanecer sobre as águas, mas sim pela mente dividida
que se permitiu ter logo depois de ter tido fé para andar sobre as águas (Mt
14.28-31). Muitas vezes podemos experimentar o que Tiago classificou como
“ânimo dobre” ou “mente dividida”. O próprio João Batista vivenciou algo
parecido:
Todas estas coisas foram relatadas a João pelos seus
discípulos. E João, chamando dois deles, enviou-os ao Senhor para perguntar:
— Você é aquele que estava para vir ou devemos esperar
outro?
Quando os homens chegaram a Jesus, disseram:
— João Batista nos enviou para perguntar: O senhor é
aquele que estava para vir ou devemos esperar outro?
Não estamos falando de alguém que nunca acreditou. O precursor de nosso Senhor sabia que Jesus era o Cristo. João teve uma revelação divina, seguida da manifestação de uma voz audível e também da visão do Espírito Santo, como pomba, descendo sobre Jesus. Ele falou sobre Jesus com muita convicção! Entretanto, por alguma razão, quando estava preso, João Batista parece ter perdido sua convicção e passado por um momento de mente dividida.
E se isso aconteceu com gente que era tão convicta e usada por Deus, será que temos o direito de pensar que estamos imunes a esse tipo de problema? Eu sei que a mesma coisa pode acontecer conosco. E em diferentes áreas da vida. Já tive momentos em que a convicção bíblica do cuidado do corpo foi tão forte que mudei completamente a maneira de me alimentar, dormir e exercitar. Porém, por mais de uma vez, já percebi que a consciência dessas verdades pode ir, aos poucos, se diluindo e se perdendo. E a cada vez que isso me aconteceu acabei relaxando naquilo em que antes estava tão dedicado. Porque nossa constância — ou falta dela — sempre será determinada pelo nível de convicção que temos.
Para fechar essa ideia, embasando-a claramente na Palavra de Deus, quero analisar um último exemplo bíblico. O motivo pelo qual os israelitas não entraram na terra prometida, de acordo com o escritor de Hebreus, foi a incredulidade (ou falta de convicção na promessa divina):
Assim, vemos que não puderam entrar por causa da incredulidade.
Hebreus 3.19
E qual a definição das Escrituras a respeito de incredulidade? Isso é definido, alguns versículos depois, como a falta de misturar a Palavra de Deus com a fé (convicção):
Porque também a nós foram pregadas as boas-novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram.
Hebreus 4.2, ARC
Há variações na tradução do versículo acima. Algumas versões bíblicas optam pela expressão “acompanhada” (ARA, NVI), outras preferem “unida” (TB, NVT). A palavra grega, traduzida por “misturada” no ARC, é sugkerannumi e significa “misturar, unir, fazendo com que diferentes partes sejam organizadas numa estrutura orgânica, como o corpo; unir uma coisa a outra”.10 Em outras palavras, não houve uma união entre a Palavra de Deus e a fé; eles não misturaram a convicção com a informação recebida pela promessa divina.
Assim, até começaram bem dando ouvidos ao Senhor. Mas, em algum momento, perderam a convicção. Portanto, se queremos mudar nosso estilo de vida e, depois disso não retroceder, permanecendo com o novo comportamento, precisamos fortalecer nossa convicção. Não apenas procurar entender melhor os princípios bíblicos como também orar para acessar um novo nível de entendimento e revelação das Escrituras.
Diante disso, surge a pergunta prática: como viver a constância? É disso que trataremos no último capítulo.
Bible Hub, verbete pacach, H6452, <h ps://biblehub.com/hebrew/6452.htm>.
Bible Hub, verbete saiph, H5587, <h ps://biblehub.com/hebrew/5587.htm>
Bible Hub, verbete dipsuchos, G1374, <h ps://biblehub.com/greek/1374.htm>.
Bible Hub, verbete hodos, G3598, <h ps://biblehub.com/greek/3598.htm>.
Bible Hub, verbete pistos, G4103, <h ps://biblehub.com/greek/4103.htm>.
Bible Hub, verbete peithó, G3982, <h ps://biblehub.com/greek/3982.htm>.
Bible Hub, verbete pisteuo, G4100, <h ps://biblehub.com/greek/4100.htm>.
Bible Hub, verbete peithó, G3982, <h ps://biblehub.com/greek/3982.htm>.
Bible Hub, verbete plérophoreó, G4135, <h ps://biblehub.com/greek/4135.htm>.
Bible Hub, verbete sugkerannumi, G4786, <h ps://biblehub.com/greek/4786.htm>.
Ora, o Senhor conduza o vosso coração ao amor de Deus e à
constância de Cristo.
2TESSALONICENSES 3.5, ARA
Afirmei, no capítulo anterior, que a convicção (ou fé) é a base da constância. Mudanças comportamentais relacionadas à saúde começam com mudança de mentalidade, mas requerem continuidade, ou seja, constância. Essa, por sua vez, é gerada pela Palavra de Deus. Voltemos à declaração de Paulo à igreja em Roma:
E, assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo.
Romanos 10.17
Paulo já havia afirmado, apenas alguns versículos antes, essa característica da Palavra de Deus quando a denominou “a palavra da fé que pregamos” (Rm 10.8). Escrevendo a Timóteo, o apóstolo sustenta o mesmo princípio ao instruir seu discípulo a respeito do “alimento da fé”:
Expondo estas coisas aos irmãos, você será um bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que você tem seguido.
1Timóteo 4.6
Portanto, só há uma forma de alimentar a convicção (ou fé): alimentando o espírito e renovando a mente, regularmente, com as Sagradas Escrituras. Um envolvimento superficial com a Bíblia nos levará a ter o mesmo tipo de fé. Porém, um envolvimento mais profundo com a Palavra de Deus nos levará a uma fé igualmente profunda.
Mas não me refiro apenas ao conhecimento, à assimilação da informação, que adquirimos por meio de uma breve leitura. Se queremos experimentar convicção devemos alimentar a informação com reflexão, com exame mais profundo. Precisamos entender o que é fortalecer e manter viva a consciência de uma verdade para que ela não se dilua dentro de nós.
Por que, em sua opinião, Jesus instituiu uma ceia memorial? A frase “façam isto em memória de mim” (1Co 11.24) não indica que Cristo se preocupasse que sofreríamos uma espécie de amnésia. O que Jesus não queria é que nossa consciência do que foi feito por nós, na cruz, perdesse sua força. E, para garantir isso, ele estabeleceu uma memória recorrente. Por exemplo, eu e a Kelly, minha esposa, percebemos que compartilhar com outros o que entendemos acerca do cuidado do corpo ajuda a nos manter mais conscientes daquelas verdades que já sabemos. Porém, quando começamos a falar menos, ou mesmo não falar sobre o assunto, constatamos um enfraquecimento dessas verdades em nossa própria consciência.
Penso que, falando de forma generalizada, os cristãos de nosso tempo não têm entendido o que é relacionar-se com a Palavra de Deus e deixá-la alcançar uma dimensão maior de eficácia em suas vidas. A maioria dos cristãos com quem converso tem baixa interação com a Bíblia. Poucos se dedicam à leitura bíblica. E esse é apenas o nível de envolvimento com as Escrituras que nos leva à informação, ao conhecimento. Porém, se queremos entrar em outro nível, o do entendimento, temos de entender a importância da meditação na Palavra.
Hoje em dia fala-se pouco acerca disso, mas há uma distinção entre leitura e meditação. Analisemos, em primeiro lugar, as orientações sobre a leitura e, depois, sobre a meditação.
Deus ordenou aos israelitas que, quando entrassem na terra prometida e tivessem alguém que os governasse, seu regente deveria praticar a leitura diária do livro da Lei de Deus:
Também, quando se assentar no trono do seu reino, mandará escrever num livro uma cópia desta lei, feita a partir do livro que está com os sacerdotes levitas. O rei terá esse livro consigo e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o SENHOR, seu Deus, a fim de guardar todas as palavras desta lei e estes estatutos, para os cumprir. Deuteronômio 17.18-19
Jesus perguntou aos judeus dos seus dias: “Vocês nunca leram nas Escrituras…?” (Mt 21.42). Isso indica que, obviamente, ele esperava que seu povo lesse a Bíblia. Aliás, só no Evangelho de Mateus temos o registro de nosso Senhor fazendo seis vezes essa pergunta. Ainda há textos que falam da leitura pública das Escrituras, como a ordem do Senhor para reunirem todo o povo na Festa dos Tabernáculos (Dt
31.10-13) e a convocação feita aos israelitas por Neemias (Ne 9.3).
A leitura bíblica é fundamental. É o ponto de partida. Porém, além da leitura, há instruções específicas acerca da meditação. O próprio Deus orientou Josué acerca disso:
Não cesse de falar deste Livro da Lei; pelo contrário, medite nele dia e noite, para que você tenha o cuidado de fazer segundo tudo o que nele está escrito; então você prosperará e será bem-sucedido.
Josué 1.8
O salmista também menciona pessoas que, a exemplo de Josué, manifestam o mesmo nível de meditação que seu grande conquistador que os introduziu na terra de Canaã foi instruído a ter:
[…] o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.
Salmos 1.2
Ambos os textos falam de meditação dia e noite. Diferentemente da leitura, que não podemos fazer de maneira ininterrupta, a meditação deve ser feita o dia todo. Portanto, trata-se de ações distintas. A palavra hebraica empregada nos originais é hagah, cujas acepções incluem os verbos “gemer, rosnar, proferir, cismar, resmungar, meditar, inventar, conspirar, falar, imaginar, refletir”.1 Logo, “meditar” pode ser entendido como “murmurar” (no sentido de falar consigo mesmo), “refletir” (sobre algo que já sabemos) ou “imaginar” (colocar a mente para trabalhar em cima daquilo que conhecemos). Isso nos ajuda a enxergar uma perspectiva maior da aplicação da palavra utilizada nos originais, e é esse segundo nível de relacionamento com a Palavra que nos conduzirá a uma maior dimensão de crescimento.
Paulo orientou Timóteo, seu filho na fé, acerca disso:
Medite estas coisas e dedique-se a elas, para que o seu progresso seja visto por todos.
1Timóteo 4.15
Não há progresso sem meditação na Palavra de Deus. A mera leitura traz informação para a mente. A meditação (reflexão, releitura, avaliação) transforma a informação em convicção!
Quatro características da constância
A fim de apresentar um melhor entendimento dessa estabilidade do comportamento e orientar o leitor a vivê-la de modo prático, decidi destacar quatro características bíblicas da constância. Decidi extraí-las de exemplos da Palavra de Deus, tendo em mente o que Paulo declarou aos coríntios: “Estas coisas aconteceram com eles para servir de exemplo e foram escritas como advertência a nós…” (1Co
10.11).
Valores e princípios
José, um dos filhos mais novos de Israel, bisneto do patriarca Abraão, não tinha a mente dividida diante da sedução. Veja o relato bíblico:
Assim, depois de algum tempo, a mulher de Potifar pôs os olhos em José e lhe disse:
— Venha para a cama comigo.
Ele, porém, recusou e disse à mulher do seu dono:
— Escute! O meu senhor não se preocupa com nada do que existe nesta casa, porque eu estou aqui; tudo o que tem ele passou às minhas mãos. Não há ninguém nesta casa que esteja acima de mim. Ele não me vedou nada, a não ser a senhora, porque é a mulher dele. Como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?
Gênesis 39.7-9
Esse é um exemplo de alguém que foi fiel a Deus e seus propósitos. Por quê? Porque José era guiado por valores e princípios. Já vi muitas pessoas tentando justificar suas ações com base em sentimentos, sem compreender que deveriam ser norteadas por valores e princípios em vez de emoções ou circunstâncias. As desculpas para a queda são variadas:
“Ah, é que eu estava tão carente…”
“Minha vida era só sofrimento. Aí, quando surgiu uma oportunidade de prazer eu não desperdicei.”
“Eu me senti abandonado por Deus em meio a tantas dificuldades.”
José não misturou as coisas. O certo é certo e o errado é errado, independentemente das circunstâncias ou dos sentimentos. Aquele homem de Deus não estava preocupado apenas em respeitar seu amo terreno, mas sobretudo em não pecar contra seu Senhor celestial. E isso aponta para os valores que José aprendeu e processou interiormente mediante reflexão mais profunda.
Qual é o nível do seu envolvimento com as Escrituras?
Como isso se compara ao que o Senhor espera de nós?
Sim, Deus estabeleceu para seus filhos um padrão de envolvimento com a Bíblia: “Que a palavra de Cristo habite ricamente em vocês” (Cl 3.16). Precisamos nos encher da Palavra de Deus!
Quando nosso coração estiver cheio dos valores bíblicos, gerando profunda convicção, nossas ações refletirão isso na forma de fidelidade a Deus e constância em testemunho de vida.
Perseverança e paciência
As Escrituras Sagradas também destacam a perseverança dos profetas e a paciência de Jó como modelo a nos inspirar e orientar:
Irmãos, tomem como exemplo de sofrimento e de paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor. Eis que consideramos felizes os que foram perseverantes. Vocês ouviram a respeito da paciência de Jó e sabem como o Senhor fez com que tudo acabasse bem; porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão.
Tiago 5.10-11
A palavra grega traduzida por “paciência”, quando usada em relação aos profetas, é makrothumia, cujo significado é “paciência, tolerância, constância, firmeza, perseverança e longanimidade” e pode ainda incluir aplicações como “clemência e lentidão em punir pecados”.2 Ou seja, a firmeza e constância dos profetas devem ser imitadas. A capacidade deles de perseverar e manter ânimo longo (esse é o significado de longanimidade) é um padrão a ser seguido pelos santos da nova aliança.
Note também que a palavra “paciência” vem associada a “sofrimento”. Portanto, há uma ênfase muito específica e particular em ser fiel e constante em circunstâncias adversas. O Novo Testamento dá várias ênfases aos maus-tratos e à perseguição sofridos pelos profetas no Antigo Testamento:
Alegrem-se e exultem, porque é grande a sua recompensa nos céus; pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês.
Mateus 5.12
Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas, porque vocês edificam os sepulcros dos profetas, enfeitam os túmulos dos justos e dizem: “Se nós tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices, quando mataram os profetas!” Assim, vocês dão testemunho contra si mesmos de que são filhos dos que mataram os profetas. Portanto, tratem de terminar aquilo que os pais de vocês começaram.
Serpentes, raça de víboras! Como esperam escapar da condenação do inferno? Por isso, eis que eu lhes envio profetas, sábios e escribas. A uns vocês matarão e a outros crucificarão; a outros ainda vocês açoitarão nas sinagogas e perseguirão de cidade em cidade; para que recaia sobre vocês todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem vocês mataram entre o santuário e o altar. Em verdade lhes digo que todas estas coisas hão de vir sobre a presente geração.
Jerusalém, Jerusalém! Você mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, mas vocês não quiseram!
Mateus 23.29-37
Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu. Ou vocês não sabem o que a Escritura diz a respeito de Elias, como pediu com insistência diante de Deus contra Israel, dizendo: “Senhor, mataram os teus profetas, derrubaram os teus altares. Sou o único que sobrou, e procuram tirar-me a vida”.
Romanos 11.2-3
[…] porque também vocês sofreram, da parte de seus patrícios, as mesmas coisas que eles, por sua vez, sofreram dos judeus, os quais não somente mataram o Senhor Jesus e os profetas, como também nos perseguiram […]
1Tessalonicenses 2.14-15
Escolhi inserir vários textos bíblicos sobre a perseguição aos profetas para mostrar que isso é mais do que informativo, é enfático. Os profetas sofreram maus-tratos, perseguições e até mesmo a morte. Mas ainda assim eram fiéis e constantes. Eles “permaneceram firmes”. Nós também precisamos de firmeza! Por isso somos desafiados a tomá-los como exemplos.
E o que dizer de Jó? A Bíblia fala de sua paciência. A palavra grega traduzida por “paciência” no versículo 11 é diferente da que vimos no versículo 10. Trata-se da palavra hupomoné e retrata “a característica da pessoa que não se desvia de seu propósito e de sua lealdade à fé e piedade mesmo diante das maiores provações e sofrimentos; paciente, que espera por alguém ou algo lealmente; que persiste com paciência, constância, e perseverança”.3
Como Jó poderia ter falhado? É só olhar para o comportamento de sua esposa, que, diante do desânimo das circunstâncias terríveis e angustiantes que enfrentou, perdeu sua convicção (fé) acerca de Deus e disse: “Você ainda conserva a sua integridade? Amaldiçoe a Deus e morra!” (Jó 2.9). Mas o que esse homem de Deus respondeu a ela? Ele declarou: “Você fala como uma doida. Temos recebido de Deus o bem; por que não receberíamos também o mal?” (Jó 2.10). Esse foi o mesmo crente que também declarou:
Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra.
Jó 19.25
Não são apenas as circunstâncias que derrubam alguém. Jó e sua esposa passaram pelas mesmas perdas, mas tiveram reações diferentes. O que derruba alguém é sua falta de convicção. E essa procede de um relacionamento superficial com a Palavra de Deus.
Que sejamos mais parecidos com Jó e os profetas na convicção, firmeza e perseverança!
Decisão baseada em propósito
Outro aspecto da constância pode ser visto na firmeza oriunda de tomar decisões baseadas em propósito. Via de regra, isso está conectado ao entendimento de um propósito. Um bom exemplo bíblico refere-se a Jesus e sua firme decisão de ir a Jerusalém:
E aconteceu que, ao se completarem os dias em que devia ele ser assunto ao céu, manifestou, no semblante, a intrépida resolução de ir para Jerusalém e enviou mensageiros que o antecedessem. Indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos para lhe preparar pousada. Mas não o receberam, porque o aspecto dele era de quem, decisivamente, ia para Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João perguntaram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir? Jesus, porém, voltando-se os repreendeu [e disse: Vós não sabeis de que espírito sois]. [Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.] E seguiram para outra aldeia.
Lucas 9.51-56, ARA
Acho extraordinário que a Palavra de Deus tenha registrado e nos comunicado esse episódio da vida de Jesus. Com frequência, olhamos para Cristo como Deus e não como alguém que se despiu dos atributos divinos e viveu como um homem que agradava ao Pai e cumpria seu propósito na terra. Mas é justamente essa a lição que Deus quer que aprendamos. Você se lembra de quando Jesus disse a seus discípulos: “Porque eu lhes dei o exemplo, para que, como eu fiz, vocês façam também” (Jo 13.15)? Ele estava sempre agindo, intencionalmente, de forma exemplar. Cristo é nosso modelo e referência de comportamento em tudo. E nesse acontecimento não é diferente. Analisemos, então, as lições que podem ser extraídas do relato bíblico acima:
Intrépida resolução. Era visível, no rosto de nosso Senhor, uma decisão, uma forte resolução e determinação de fazer algo (ir a Jerusalém). Será que nossas decisões carregam tamanha convicção?
Metas requerem planejamento. Jesus enviou alguns mensageiros à sua frente para lhe preparar pousada. Uma viagem como essa requeria a devida logística. Pessoas que perseguem alvos entendem a necessidade de um plano organizado para alcançá-los.
Problemas no meio do caminho. Os discípulos enviados para organizar a hospedagem tentaram isso numa aldeia de samaritanos, que, segundo o relato bíblico, não se davam com os judeus (Jo 4.9). Como os samaritanos não queriam recebê-los, os discípulos oferecerem a Jesus uma solução tanto dramática como exagerada: fazer descer fogo do céu, à semelhança de Elias, e destruir os samaritanos.
Soluções práticas. Os determinados a alcançarem suas metas tendem sempre a dramatizar menos e buscar praticidade nas soluções necessárias. Cristo repreendeu os discípulos por serem tão emotivos e distantes do trato divino correto com as pessoas e ofereceu uma solução mais simples. Foram para outra aldeia. Em outras palavras, procurou outro lugar que o recebesse.
Por mais simples que pareçam, os princípios acima foram registrados para nos ajudar a viver a constância. Se entendemos o propósito divino para algo devemos persegui-lo com determinação. Para isso é necessário organizar-se com o intuito de chegar até o final. E quando os problemas surgirem no meio do caminho não podemos desistir. Devemos encontrar soluções práticas e seguir adiante.
Indesanimável e indesistível
Outra perspectiva dessa virtude denominada constância pode ser encontrada na firmeza que Paulo demonstrava. Tomando a liberdade de fazer uso de um neologismo (isto é, a criação de uma expressão nova visando definir novos conceitos), eu diria que o apóstolo era indesanimável e, portanto, indesistível. As circunstâncias, por piores que parecessem, não o detinham. Observemos alguns exemplos escriturísticos:
Por isso não desanimamos. Pelo contrário, mesmo que o nosso ser exterior se desgaste, o nosso ser interior se renova dia a dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um eterno peso de glória, acima de toda comparação, na medida em que não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem. Porque as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas.
2Coríntios 4.16-18
Algo que levava Paulo a ser indesanimável era a distinção das forças interiores e exteriores. Nessa sua afirmação aos coríntios ele deixa isso bem claro. Revela que não era movido pelo que acontecia do lado de fora, nas circunstâncias à sua volta. Ele era movido por uma força divina de renovação interior contínua. Não podemos, nas palavras de Tiago, “ser movidos pelo vento”, pelas circunstâncias. Isso define os inconstantes. Os constantes têm uma força motriz dentro de si que é uma determinação alimentada pelo Deus que a propôs, pela Palavra que alimenta a fé e a convicção de todos nós.
Outra coisa que levava o apóstolo dos gentios a agir com tamanha determinação era seu foco bem ajustado. Ele mostra que não atentava para aquilo que se via (com olhos naturais), ou seja, as circunstâncias. Onde Paulo fixava seus olhos? Naquilo que não se via, isto é, ele focava (com olhos espirituais) as verdades espirituais da Palavra de Deus.
Um terceiro comportamento a ser observado em Paulo era sua determinação de não abortar o processo, de ir até o fim. Ele tinha metas claras e sabia persegui-las:
Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficam para trás e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.
Filipenses 3.13-14
Muitos desistem por terem tropeçado no caminho. Emagreceram e voltaram a engordar. E isso parece ser suficiente para que a meta de perder peso e viver de forma saudável seja abandonada. Paulo dizia: “Eu me esqueço das coisas que ficam para trás”. Em outras palavras: “Eu supero, eu dou a volta por cima!”.
Às vezes ouço gente dizendo: “Eu não consigo emagrecer ou permanecer magro. Já tentei várias vezes…”. Nesse momento, gosto de responder: “Tente mais! Tente de novo e de novo e de novo, quantas vezes for necessário!”. Mas não tente apenas mudar o comportamento. Mude primeiro sua mente, suas convicções. Qual o problema de haver tropeçado na corrida? Levante-se novamente e volte a correr! Não desista!
Fortaleça suas convicções e deixe isso endireitar sua constância. Trabalhe sua mentalidade. Leia e releia este livro e reflita nestas verdades até que elas saturem sua mente. Você também pode mudar e permanecer mudado.
Bible Hub, verbete makrothumia, H3115, <h ps://biblehub.com/greek/3115.htm>.
Bible Hub, verbete hupomoné, G5281, <h ps://biblehub.com/greek/5281.htm>.
Luciano Subirá é pastor na Comunidade Alcance, em Curitiba, e responsável pelo ministério de ensino bíblico Orvalho.com. Autor de 24 livros que somam mais de dois milhões de exemplares distribuídos, tem servido a igreja brasileira em todo o território nacional e também em diversos países. É casado com Kelly, pai de Israel e Lissa e avô de Aela Maria e Fineas John.
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REVISTA NA ÍNTEGRA - A IMPORTÂNCIA DO JEJUM NA VIDA DOS DISCÍPULOS DE CRISTO, 1º TRIMESTRE DE 2026 - BETEL
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1- COMPREENDENDO O JEJUM
1.1. O jejum bíblico
2- A IMPORTÂNCIA DO JEJUM
2.1. Jejum e arrependimento
2.2. Jejum e oração
3- A RESPOSTA AO JEJUM DO JUSTO
3.1. Ester enfrentou o desafio com jejum
3.2. Josafá buscou a Deus com oração e jejum
“E disse-lhes: Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração e jejum” Marcos 9.29.
O jejum bíblico é um exercício espiritual que expressa nosso interesse em buscar primeiro o Reino de Deus e a nossa completa dependência do Senhor.
Reconhecer o valor espiritual de jejuar e orar conjuntamente.
Identificar o jejum como uma prática vista em toda a Bíblia.
Ressaltando que Jesus afirmou a relevância do jejum.
Ressaltando que Jesus afirmou a relevância do jejum.
MATEUS 4.1- Então, foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.
2- E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; 3E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.
MATEUS 6.16- E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas, porque desfiguram o rosto, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.
17- Porém tu, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto,
18- para não pareceres aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está oculto; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará.
18- para não pareceres aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está oculto; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará.
SEGUNDA | Ed 8.21 Proclamando o jejum.
TERÇA | Dn 9.3 Buscando a Deus em oração e jejum.
QUARTA | 2Cr 20.3 A busca pelo Senhor em jejum.
QUINTA | Mt 6.16 O jejum não visa recompensas humanas.
SEXTA | JI 2.12 Deus se agrada do jejum de Seus servos.
SÁBADO | Ne 1.4 O jejum nos fortalece espiritualmente.
QUARTA | 2Cr 20.3 A busca pelo Senhor em jejum.
QUINTA | Mt 6.16 O jejum não visa recompensas humanas.
SEXTA | JI 2.12 Deus se agrada do jejum de Seus servos.
SÁBADO | Ne 1.4 O jejum nos fortalece espiritualmente.
HINOS SUGERIDOS: 5,88, 370
MOTIVO DE ORAÇÃO: Ore para que a Igreja de Cristo continue a jejuar em consagração a Deus.
Jesus não somente jejuou, como também ensinou a maneira correta de fazê-lo. Aliás, a Bíblia está cheia de citações de pessoas que fizeram uso desta disciplina espiritual e nos instrui quanto à maneira correta de praticá-la. Assim, por toda sua relevância, nesta lição, analisaremos essa experiência espiritual à luz da Palavra de Deus.
O jejum é uma das disciplinas e práticas espirituais que têm acompanhado o povo de Deus desde o Antigo Testamento, como uma expressão de fé, contrição, total dependência de Deus, arrependimento, devoção. Veremos neste tópico a importância de conhecermos o que a Bíblia diz sobre o jejum, para evitarmos os extremos de praticar sem o necessário discernimento ou desprezar esta prática presente na vida de Jesus Cristo após o batismo em águas e na igreja primitiva.
O jejum é uma maneira de nos humilharmos diante de Deus. Esdras disse: “Apregoei ali um jejum […] para nos humilharmos diante da face do nosso Deus”, Ed 8.21. Neemias reuniu o povo “com jejum e pano de saco”, e os israelitas estavam abatidos por seus pecados (Ne 9.1-3). Naquele momento, o jejum e o pano de saco representavam submissão a Deus e arrependimento.
Jejuar é abster-se de alimentos por um período de tempo com o objetivo de nos aproximarmos de Deus.
No jejum, fortalecemos o espírito para que ele prevaleça sobre as coisas da carne. Essa prática nos ajuda a dizer não para os desejos e anseios humanos e nos ajuda a priorizar os valores eternos.
Não podemos achar que o jejum é sinônimo de arrependimento ou contrição. Lembremos que Jezabel convocou um jejum (1Rs 21.9). Em Isaías 58.1-14,0 o profeta denunciou a conduta do povo, pois a essência do jejum que agrada a Deus não se resume a abster-se de alimento ou subjugar o corpo. A mensagem de Isaías confirma o que o salmista declara, ou seja, o jejum não deve ser uma prática isolada de outras atitudes (Sl 66.18). O jejum precisa ser acompanhado de humildade, contrição e oração, além de expressar disposição de mudança, de concerto e de negar-se a si próprio.
Em um tempo com tantas distrações e ativismo, a prática do jejum e da oração pode contribuir muito para exercitarmos a autodisciplina. Paulo menciona as competições atléticas para enfatizar a importância do domínio próprio (1Co 9.24-27). Ele se esforçava para não ser dominado pelos desejos carnais. Assim, a prática do jejum bíblico está entre as disciplinas espirituais que o discípulo de Cristo pode praticar para aumentar o autocontrole diante das tentações e adversidades da vida.
A Bíblia traz muitas passagens em que o jejum está associado à oração.
Relatos de pessoas que Deus não decretou o jejum como algo obrigatório, mas muitos de Seus filhos jejuavam voluntariamente: Moisés (Dt 9.9); Davi (25m 1.12; 3.35; 12.16); Josafá (2Cr 20.3); Esdras (Ed 10.6); Neemias (1.4); Ester (Et 4.16); Daniel (Dn 9.3; 10.3); Jesus (Mt 4.2). Veremos, neste tópico, as lições que podemos extrair dos relatos do jejum de Ester, Josafá e Daniel.
Vemos, na atitude de Ester, que jejuar é mais do que se abster de alimentos, é um propósito espiritual profundo na busca por intervenção divina. Ester pediu aos judeus da cidade de Susã que jejuassem por três dias, e eles assim fizeram (Et 4.16). O propósito daquele jejum foi pela sua ida até a presença do rei Assuero para pedir a intervenção dele diante do decreto de morte aos judeus imposto por Hama (Et 4.1-3).
Jejuar é mais do que se abster de alimentos, é um propósito espiritual profundo na busca por intervenção divina.
CONCLUSÃO
Em tempos de tantas ocupações, que o Espírito Santo nos ajude a priorizar em nosso viver momentos de oração e jejum, como expressão de um sincero interesse em buscar primeiro o Reino de Deus, nossa dependência completa da graça do Senhor, buscar aguçar nossa sensibilidade espiritual, procurar conhecer e receber mais do Senhor e o desejo em exercitar a autodisciplina.

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