Escrita Lição 1, CPAD, O chamado para os gentios, 3Tr26, Com. Extras Pr. Henrique, EBD NA TV
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ESBOÇO DA LIÇÃO
I – O
NASCIMENTO DA MISSÃO GENTÍLICA
1. Antioquia: um centro escolhido por DEUS (v.1).
2. Profetas e
doutores servindo ao Senhor (vv.1,2).
3. A separação
de Paulo e Barnabé (vv.2,3).
II – O ESPÍRITO
SANTO E A OBRA MISSIONÁRIA
1. O ESPÍRITO
que conduz a missão.
2. O poder do
ESPÍRITO na evangelização dos gentios.
3. Evidências
da ação missionária do ESPÍRITO (At 13—14).
III – A IGREJA
COMO AGÊNCIA MISSIONÁRIA
1. A Igreja que
ouve a voz de DEUS.
2. Uma igreja
que envia e sustenta seus missionários.
3. Uma igreja
que cumpre a Grande Comissão.
I – O
NASCIMENTO DA MISSÃO GENTÍLICA
II – O ESPÍRITO
SANTO E A OBRA MISSIONÁRIA
III – A IGREJA
COMO AGÊNCIA MISSIONÁRIA
TEXTO ÁUREO
“E, servindo
eles ao Senhor e jejuando, disse o ESPÍRITO SANTO: Apartai-me a Barnabé e a
Saulo para a obra a que os tenho chamado.” (At 13.2)
VERDADE PRÁTICA
Quando a igreja
ouve o ESPÍRITO, o Evangelho avança e vidas são alcançadas para a glória de
DEUS.
LEITURA DIÁRIA
Segunda - At 1.8 Sem o ESPÍRITO SANTO não há missão verdadeira
Terça - At 11.26 A identidade e a missão caminham juntas
Quarta - Mt 6.16-18 O jejum fortalece nossa sensibilidade
espiritual
Quinta - Is 61.1 O ministério de JESUS começou pela unção do
ESPÍRITO
Sexta - At 4.31 A Igreja Primitiva avançava porque estava
cheia do ESPÍRITO
Sábado - Rm 10.14,15 Como ouvirão, se não há quem pregue?
LEITURA BÍBLICA
EM CLASSE - ATOS 13.1-12
1 - Na igreja
que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé, e
Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes,
o tetrarca, e Saulo. 2 - E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o
ESPÍRITO SANTO: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho
chamado.
3 - Então,
jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. 4 - E assim
estes, enviados pelo ESPÍRITO SANTO, desceram a Selêucia e dali navegaram para
Chipre. 5 - E, chegados a Salamina, anunciavam a palavra de DEUS nas sinagogas
dos judeus; e tinham também a João como cooperador. 6 - E, havendo atravessado
a ilha até Pafos, acharam um certo judeu, mágico, falso profeta, chamado
Barjesus, 7 - o qual estava com o procônsul Sérgio Paulo, varão prudente. Este,
chamando a si Barnabé e Saulo, procurava muito ouvir a palavra de DEUS. 8 - Mas
resistia-lhes Elimas, o encantador (porque assim se interpreta o seu nome),
procurando apartar da fé o procônsul. 9 - Todavia, Saulo, que também se chama
Paulo, cheio do ESPÍRITO SANTO e fixando os olhos nele, disse: 10 - Ó filho do
diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça,
não cessarás de perturbar os retos caminhos do Senhor? 11 - Eis aí, pois,
agora, contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo.
No mesmo instante, a escuridão e as trevas caíram sobre ele, e, andando à roda,
buscava a quem o guiasse pela mão. 12 - Então, o procônsul, vendo o que havia
acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor.
HINOS
SUGERIDOS: 24, 340, 358 da Harpa Cristã
)))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))
SUBSÍDIOS
EXTRAS – BÍBLIAS, GOOGLE, LIVROS E REVISTAS ANTIGAS
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COMETÁRIOS
RÁPIDO DO Pr. Henrique
PRIMEIRA TAREFA PARA MINISTRAR ESTA AULA - LER OS CAPÍTULOS 9 E 13 DE ATOS DOS APÓSTOLOS.
INTRODUÇÃO
AO ESTUDO
A história da
chamada missionária de Barnabé e Saulo, registrada em Atos 13:2–3, é um marco
na expansão da Igreja primitiva. Até
então, o Evangelho havia se espalhado principalmente entre os judeus e alguns
gentios próximos (Filipe em Samaria – Atos 8:4-8, 26-39, Pedro na casa de
Cornélio - Atos 10 e pregações esporádicas de alguns gregos - At 11.20 - e de Paulo). Mas em Antioquia, uma comunidade
multicultural e fervorosa, o ESPÍRITO SANTO revelou um novo passo: -Atos 13 - separar
Barnabé e Saulo para uma obra missionária que ultrapassaria fronteiras
culturais e geográficas.
Esse episódio
nos mostra que a missão não nasce de projetos humanos, mas da iniciativa
divina. DEUS chama, a igreja confirma e envia, e os obreiros obedecem. É um
modelo que continua válido até hoje. A oração e o jejum foram o ambiente em que
o ESPÍRITO falou; a imposição de mãos simbolizou o reconhecimento e apoio
comunitário; e a obediência dos missionários abriu caminho para que o Evangelho
chegasse até nós.
Assim, estudar
essa chamada é mais do que olhar para o passado: é compreender como DEUS
continua levantando homens e mulheres para cumprir Sua obra. É também um
convite para cada cristão refletir sobre seu papel na missão — indo,
sustentando e intercedendo.
O apóstolo
Paulo foi divinamente comissionado para ser o principal evangelizador dos povos
não judeus (gentios). Essa missão de levar o Evangelho a todas as nações define
seu ministério e é amplamente documentada nos livros de Atos dos Apóstolos e em
suas próprias cartas.
Referências
Principais
- O Chamado Divino: Logo após sua
conversão, DEUS revela sua missão a Ananias: "Vai, porque este é para
mim um vaso escolhido, para levar o meu nome perante os gentios..."
(Atos 9:15).
- A Confirmação do Apostolado:
Paulo relata que Tiago, Pedro e João reconheceram seu chamado específico:
"viram que a mim me havia sido confiada a pregação do evangelho aos
incircuncisos", ou seja, aos gentios (Gálatas 2:7).
- O "Apóstolo dos
Gentios": Em Romanos, ele ratifica seu título: "Porque convosco
falo, gentios! Visto que eu sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu
ministério" (Romanos 11:13).
- O Mistério Revelado: Ele
explica aos efésios que a graça lhe foi dada para anunciar aos gentios
"as insondáveis riquezas de CRISTO" (Efésios 3:8).
- Justificativa Profética: Em
Atos 13:46-47, Paulo e Barnabé explicam aos judeus que, devido à rejeição
deles à mensagem, eles se voltariam para os gentios, citando a ordem de
DEUS: "Eu te pus para luz dos gentios, para que sejas para salvação
até os confins da terra".
CONTEXTO
BÍBLICO (https://ebdnatv.blogspot.com/)
- A igreja em Antioquia estava em
oração e jejum.
- O ESPÍRITO SANTO falou:
“Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.”
- Após jejuarem e orarem
novamente, os líderes impuseram as mãos sobre eles e os enviaram.
🔑 Pontos
Didáticos
- Origem da Missão: não foi
iniciativa humana, mas direção clara do ESPÍRITO SANTO.
- Preparação Espiritual: oração e
jejum precederam a escolha e envio.
- Consagração: imposição de mãos
simbolizou reconhecimento e apoio da igreja.
- Envio Missionário e sustento:
Barnabé e Saulo foram separados para levar o Evangelho além das fronteiras
judaicas.
🧭 Aplicações
Práticas
- A missão
nasce da comunhão com DEUS e da sensibilidade ao ESPÍRITO SANTO.
- O jejum e a oração são
fundamentais para discernir a vontade divina.
- A igreja tem papel ativo: ora,
confirma e envia os obreiros, sustentando-os.
- A chamada missionária é tanto
pessoal (DEUS chama) quanto comunitária (a igreja reconhece e apoia).
✅ Síntese
Esse episódio
mostra que a obra missionária é iniciativa divina, sustentada pela oração e
pela igreja. Barnabé e Saulo se tornam modelo de obreiros que respondem ao
chamado com fé e obediência.
¹³ Porque todo
aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. ¹⁴ Como, pois, invocarão aquele
em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como
ouvirão, se não há quem pregue? ¹⁵ E como pregarão, se não forem enviados?
Como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz;
dos que trazem alegres novas de boas coisas. Romanos 10:13-15 | ACF
O MISTÉRIO DA
ECONOMIA DIVINA: A MISSÃO GENTÍLICA SOB A ÓTICA DE ATOS 13
O texto de Atos
13.1-12 marca a transição da pax judaica eclesiástica para a universalização
soteriológica do Evangelho. Sob a soberania do ESPÍRITO SANTO, a Igreja
Primitiva rompe as fronteiras geográficas e étnicas, consolidando o plano
eterno de redenção que engloba o cosmos e a totalidade da raça humana.
1.
EPISTEMOLOGIA DE TERMOS BÍBLICOS
Para
compreender a profundidade desse movimento missionário, é indispensável
perscrutar o vocabulário original que fundamenta a transição dos povos e a
comissão eclesiástica.
|
Termo
Original |
Transliteração |
Significado
Teológico e Contextual |
|
גּוֹיִם (Hebraico) |
Goyim |
No
Antigo Testamento, designa as nações pagãs em contraste com o povo da aliança
(Am). Sob a ótica profética, aponta para os povos que viriam a render-se ao
DEUS de Israel. |
|
ἔθνη
(Grego) |
Ethne |
Termo
correspondente a "gentios" ou "nações". Em Atos,
representa a quebra do monopólio salvífico judaico, indicando que a graça
engloba todas as etnias. |
|
ἀφορίσατε
(Grego) |
Aphorisate |
Imperativo
do verbo aphorizo ("separar", "apartar",
"consagrar"). Indica uma separação cirúrgica e soberana promovida
pelo ESPÍRITO para uma obra exclusiva. |
|
λειτουργούντων
(Grego) |
Leitourgounton |
Particípio
do verbo leitourgeo ("servir", "ministrar"). Refere-se
originalmente ao culto sagrado e sacerdotal. A missão em Antioquia nasce de
uma liturgia de adoração profunda. |
2. A
ECLESIOLOGIA DE ANTIOQUIA: DIVERSIDADE E LITURGIA
A comunidade de
Antioquia da Síria funcionou como o ventre eclesiológico da missão
transcultural. Enquanto Jerusalém tendia ao conservadorismo etnocêntrico (por
isso mesmo se desvaneceu no tempo), Antioquia se destaca por sua
heterogeneidade social e cultural.
A análise
histórica confirma que a comunidade cristã de Jerusalém — que vivenciou o Dia
de Pentecostes original — enfraqueceu progressivamente até desaparecer nos
dias atuais, devido ao seu forte vínculo com o judaísmo. Na teologia e na
história do cristianismo primitivo, esse grupo é academicamente classificado
como judeo-cristianismo ou Igreja Mãe de Jerusalém.
Enquanto a
vertente liderada pelo Apóstolo Paulo se expandia globalmente ao romper com as
exigências da Lei de Moisés, a Igreja de Jerusalém manteve-se estrita ao
cumprimento das tradições judaicas, o que selou o seu isolamento e posterior
extinção.
Como o vínculo
judaico enfraqueceu a Igreja de Jerusalém
- Isolamento Étnico: A liderança local, sob a influência de
figuras como Tiago, insistia na guarda da Torá, na circuncisão e nas leis
dietéticas puras (kosher), transformando o cristianismo local em
uma ramificação restrita aos judeus. [1]
- Rejeição de Ambos os Lados: Os judeo-cristãos passaram a ser vistos
como traidores pelo judaísmo rabínico tradicional e, ao mesmo tempo,
tornaram-se irrelevantes para a crescente Igreja gentílica greco-romana.
- O Golpe do Ano 70 d.C.: Com a destruição do Templo e de Jerusalém
pelos romanos, o centro geográfico e teológico desse grupo foi
pulverizado. Os sobreviventes migraram para regiões como a Transjordânia.
[1]
- Dissolução em Seitas: Isolados, os remanescentes dessa linha
teológica judaizante fragmentaram-se ao longo dos séculos II e III em
grupos menores (como os ebionitas e nazarenos), considerados heréticos
pela Igreja majoritária, até desaparecerem por completo.
[
O Modelo Eclesiológico de Antioquia ]
│
┌─────────────────────┼─────────────────────┐
▼ ▼ ▼
DIVERSIDADE
ÉTNICA LEITOURGIA SACRAL MATURIDADE TEOLÓGICA
(Profetas e
Mestres) (Oração e
Jejum)
(Discernimento da Voz)
A liderança
mosaica de Antioquia englobava desde a nobreza helenista até a ancestralidade
africana, demonstrando que o Evangelho nivelou as distinções humanas. O chamado
missionário não derivou de um pragmatismo mercadológico ou estratégico humano;
foi o resultado de uma leitourgia — uma atmosfera de adoração, consagração e
jejum. O ESPÍRITO SANTO não apenas comissiona, mas habita a adoração da
comunidade para revelar Seus desígnios decretivos.
3. A
PNEUMATOLOGIA MISSIONÁRIA E O CONFRONTO APOLOGÉTICO
O ESPÍRITO
SANTO opera em Atos como o Agente Primário da Missio Dei. O imperativo ἀφορίσατε
(aphòrisate) evoca a autoridade absoluta da Terceira Pessoa da Trindade sobre o
corpo eclesiástico. A imposição de mãos subsequente não conferiu poder mágico a
Paulo e Barnabé, mas chancelou juridicamente e espiritualmente o que o ESPÍRITO
já havia decretado na esfera invisível.
No episódio em
Pafos (Chipre), o confronto entre Saulo (agora identificado pelo nome romano,
Paulo) e o falso profeta Barjesus (Elimas) revela duas realidades
pneumatológicas:
- O Confronto de Poder (Power
Encounter): A feitiçaria e o engano satânico que tentavam reter a elite
romana (o procônsul Sérgio Paulo) sob as trevas são desmascarados pela
autoridade apostólica.
- O Juízo Pedagógico: A cegueira
física imposta a Elimas funciona como um sinal visível da sua própria
escuridão interior, levando o governante pagão a render-se não meramente
ao milagre, mas à doutrina do Senhor.
4. SÍNTESE
TEOLÓGICA DA TRANSIÇÃO MISSIOLÓGICA
A expansão aos
gentios fundamenta-se em bases teológicas bem definidas que diferenciam a
postura eclesial:
|
Eixo
de Transição |
Perspectiva
de Jerusalém (Início) |
Perspectiva
de Antioquia (Expansão) |
|
Foco
Geográfico |
Centripeta
(Atração para o Templo) |
Centrífuga
(Expansão até os confins da Terra) |
|
Público-Alvo |
Circuncisos
(Os da Aliança Judaica) |
Ethne
(A totalidade das Nações/Gentios) |
|
Identidade
da Liderança |
Colegiado
Apostólico Tradicional |
Profetas
e Mestres Plurais |
|
Resultado
Espiritual |
Consolidação
de Comunidades Locais |
Ruptura
de Paradigmas, Plantação Transcultural
e Multiplicação |
NOTA DE
RELEVÂNCIA TEOLÓGICA:
A Igreja
contemporânea é a herdeira direta da ruptura teológica de Antioquia.
Compreender o "Chamado para os Gentios" exige que a comunidade de fé
atual rejeite o isolacionismo cultural e assuma seu papel de agência
pneumática, sensível à soberania do ESPÍRITO SANTO e destemida diante dos
embates ideológicos e espirituais da pós-modernidade.
A missão aos
gentios iniciada em Atos 13 não é um capítulo isolado da história eclesiástica,
mas a expressão máxima da soberania divina que submete geografia, política e
culturas ao senhorio absoluto de JESUS CRISTO.
ESTUDO
AMPLIADO: A CHAMADA MISSIONÁRIA DE BARNABÉ E SAULO
1. 📖 Contexto Histórico
- Antioquia da Síria: cidade
multicultural, com judeus e gentios convivendo. Foi ali que os discípulos
foram chamados pela primeira vez de “cristãos” (Atos 11:26).
- Barnabé: homem de caráter,
chamado “filho da consolação”, já reconhecido como líder e incentivador.
- Saulo (Paulo): recém-integrado
à comunidade cristã (3 anos e meio talvez), mas já demonstrando profundo
conhecimento das Escrituras (encontro com JESUS na Arábia) e zelo
missionário (Barnabé foi a Tarso, na província romana da Cilícia e o
trouxe para Antioquia onde passou a ensinar a Palavra de DEUS).
2. 🔥 Ação do ESPÍRITO SANTO
- O ESPÍRITO SANTO fala à igreja
durante oração e jejum, mostrando que a missão nasce da comunhão.
- A ordem é clara: “Apartai-me a
Barnabé e a Saulo”. Isso indica separação para um propósito específico.
- O envio não é humano, mas divino:
DEUS é o autor da missão.
3. 🙏 Preparação Espiritual
- Jejum e oração: antes e depois
da revelação, a igreja insiste em buscar direção espiritual.
- Imposição de mãos: ato
simbólico de consagração, reconhecimento e apoio comunitário.
- A igreja não apenas libera, mas
participa espiritualmente da missão.
4. 🌍 Dimensão Missionária
- Esse momento marca o início das
viagens missionárias de Paulo, levando o Evangelho ao mundo gentílico.
- A missão rompe barreiras
culturais e geográficas, mostrando que o Evangelho é universal.
- Barnabé e Saulo tornam-se
pioneiros da expansão cristã fora do contexto judaico. Depois Silas, Lucas,
Timóteo e Tito se destacam como companheiros de Paulo.
5. 🧭 Aplicações para Hoje
- Chamado divino: a verdadeira
missão nasce da voz de DEUS, não apenas de projetos humanos.
- Discernimento espiritual:
oração e jejum continuam sendo fundamentais para ouvir a direção do
ESPÍRITO.
- Participação da igreja: toda
comunidade tem papel ativo em reconhecer, apoiar e enviar missionários.
- Obediência: Barnabé e Saulo não
resistem ao chamado, mas se colocam à disposição.
6. ✅ Síntese
A chamada
missionária de Barnabé e Saulo nos ensina que:
- DEUS é quem chama, separa e
capacita.
- A igreja ora, confirma, envia e
sustenta.
- Os obreiros obedecem e partem.
Esse tripé (DEUS–igreja–missionários) continua sendo o modelo bíblico para
missões até hoje.
ROTEIRO
DIDÁTICO – A CHAMADA MISSIONÁRIA (ATOS 13:2–3)
1. Introdução
- Contexto: Igreja em Antioquia,
multicultural e fervorosa.
- Discípulos já chamados de
“cristãos” (Atos 11:26).
- Barnabé e Saulo como líderes
reconhecidos.
2. Ação do
ESPÍRITO SANTO
- O ESPÍRITO fala: “Apartai-me a
Barnabé e a Saulo”.
- Missão nasce da iniciativa
divina, não humana.
- Separação para propósito
específico: evangelizar os gentios.
3. Preparação
Espiritual
- Igreja em oração e jejum antes
e depois da revelação.
- Imposição de mãos: consagração
e reconhecimento comunitário.
- Envio missionário com apoio
espiritual da igreja.
4. Obediência
dos Missionários
- Barnabé e Saulo aceitam o
chamado sem resistência.
- Partem em obediência e fé.
- Tornam-se pioneiros das viagens
missionárias de Paulo.
5. Lições para
Hoje
- Chamado missionário é obra de
DEUS, não apenas projeto humano.
- Oração e jejum são fundamentais
para discernir a vontade divina.
- A igreja deve confirmar, apoiar
e enviar missionários.
- Obreiros precisam estar prontos
para obedecer e partir.
6. Conclusão
- Modelo bíblico da missão: DEUS
chama → Igreja confirma → Missionários obedecem.
- Esse tripé continua válido para
missões contemporâneas.
- A chamada missionária é tanto
pessoal quanto comunitária.
📝 PERGUNTAS
DE REVISÃO – A CHAMADA MISSIONÁRIA (ATOS 13:2–3)
1. Contexto
- Onde
estava localizada a igreja que enviou Barnabé e Saulo?
- Qual era a
característica marcante dessa igreja em Antioquia?
2. Ação do
ESPÍRITO SANTO
- Quem tomou
a iniciativa da chamada missionária?
- Qual foi a
ordem específica dada pelo ESPÍRITO SANTO?
3. Preparação
Espiritual
- Quais
práticas espirituais a igreja realizou antes e depois da revelação?
- O que
simboliza a imposição de mãos sobre Barnabé e Saulo?
4. Obediência
dos Missionários
- Como
Barnabé e Saulo reagiram ao chamado?
- Qual foi a
importância da obediência deles para a expansão do Evangelho?
5. Aplicações
para Hoje
- O que
aprendemos sobre o papel da igreja na obra missionária?
- Qual deve
ser a atitude de cada cristão diante do chamado de DEUS?
✅ Sugestão
de Dinâmica
- Divida os
alunos em grupos e peça que cada grupo responda uma parte (Contexto,
ESPÍRITO SANTO, Igreja, Missionários, Aplicações).
- No final,
cada grupo compartilha suas respostas, reforçando o aprendizado coletivo.
✅ RESPOSTAS
MODELO – A CHAMADA MISSIONÁRIA (ATOS 13:2–3)
1. Contexto
- Onde
estava localizada a igreja? Em Antioquia da Síria, uma cidade
multicultural.
- Qual era a
característica marcante dessa igreja? Era fervorosa em oração e jejum, e
aberta ao agir do ESPÍRITO SANTO.
2. Ação do
ESPÍRITO SANTO
- Quem tomou
a iniciativa da chamada missionária? O ESPÍRITO SANTO.
- Qual foi a
ordem específica? “Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os
tenho chamado.”
3. Preparação
Espiritual
- Quais
práticas espirituais a igreja realizou? Oração e jejum antes e depois da
revelação.
- O que
simboliza a imposição de mãos? Consagração, reconhecimento e apoio
comunitário.
4. Obediência
dos Missionários
- Como
Barnabé e Saulo reagiram? Obedeceram prontamente, sem resistência.
- Qual foi a
importância da obediência deles? Iniciaram a expansão missionária, levando
o Evangelho aos gentios.
5. Aplicações
para Hoje
- O que
aprendemos sobre o papel da igreja? A igreja deve confirmar, apoiar e
enviar missionários.
- Qual deve
ser a atitude de cada cristão? Estar disposto a obedecer ao chamado de
DEUS, seja local ou transcultural.
🌟 MINI-DEVOCIONAL
DE ENCERRAMENTO
Texto-chave:
“Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.” (Atos
13:2)
✝️ Reflexão
A missão não
nasceu em planos humanos, mas no coração de DEUS. O ESPÍRITO SANTO falou, a
igreja confirmou, e os obreiros obedeceram. Esse tripé continua sendo o modelo
da obra missionária: DEUS chama, a igreja envia, e os servos obedecem.
Barnabé e Saulo
não sabiam todos os detalhes do caminho, mas sabiam quem os estava enviando. A
confiança não estava nas circunstâncias, mas na voz do ESPÍRITO. Assim também
nós, quando ouvimos o chamado de DEUS, precisamos responder com fé e
disposição.
🙏 Aplicação
- DEUS ainda
chama hoje: alguns para ir, outros para sustentar, todos para participar.
- A igreja
continua sendo o lugar onde o ESPÍRITO fala e confirma.
- A
obediência é o passo que transforma o chamado em realidade.
🌍 Desafio
Seja sensível à
voz do ESPÍRITO. Pergunte: “Senhor, qual é a obra para a qual me tens chamado?”
Talvez seja evangelizar um vizinho, discipular alguém, apoiar missões, ou até
mesmo ir a outro lugar. O importante é estar pronto para dizer: “Eis-me aqui,
envia-me a mim.”
🙌 Oração
Final
“Senhor, assim
como chamaste Barnabé e Saulo, continua chamando hoje. Dá-nos ouvidos atentos,
corações obedientes e pés dispostos a caminhar. Que a nossa vida seja resposta
ao Teu chamado. Em nome de JESUS, amém.”
HINO SUGERIDO –
TEMA MISSIONÁRIO
1. “Eis-me
Aqui, Senhor”
- Um
clássico que expressa disponibilidade ao chamado de DEUS.
- Letra
central: “Eis-me aqui, Senhor, pra fazer Tua vontade, pra viver do Teu
querer…”
- Ideal para
encerrar a aula com entrega e consagração.
2. “Ide e
Pregai” (Hinário da Harpa Cristã – nº 515)
- Fala
diretamente da ordem missionária de JESUS: “Ide por todo o mundo, pregai o
Evangelho…”
- Reforça o
papel da igreja em enviar e sustentar missionários.
3. “Sou Feliz
com JESUS” (Harpa Cristã – nº 187)
- Embora não
seja especificamente missionário, transmite alegria em obedecer ao Senhor.
- Pode ser
usado como cântico de gratidão após a reflexão sobre o chamado.
🙌 SUGESTÃO
DE ENCERRAMENTO
1. Faça a leitura de Atos 13:2–3.
2. Reforce o tripé da missão: DEUS chama
→ Igreja confirma → Missionários obedecem.
3. Cante o hino escolhido com a classe.
4. Termine com uma oração de consagração, pedindo que DEUS levante novos Barnabés e Saulos em nossos dias.
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ESTUDOS BEP -
CPAD
13.2
SERVINDO... E JEJUANDO. O cristão cheio do ESPÍRITO é muito sensível ao que o
ESPÍRITO SANTO comunica durante a oração e o jejum (ver Mt 6.16). Aqui, a
comunicação da parte do ESPÍRITO SANTO provavelmente foi uma palavra profética
(cf. v. 1).
13.2 PARA A
OBRA A QUE OS TENHO CHAMADO. Paulo e Barnabé foram chamados à obra missionária
e enviados pela igreja de Antioquia. As características dessa obra estão
descritas em At 9.15; 13.5; 22.14,15,21 e At 26.16-18. (1) Paulo e Barnabé
foram chamados para pregar o evangelho e conduzir homens e mulheres à salvação
em CRISTO. As Escrituras não indicam em lugar nenhum que os missionários do NT
foram enviados aos campos para realizarem trabalhos sociais ou políticos, i.e.,
propagar o evangelho e fundar igrejas mediante o exercício de todos os tipos de
atividades sociais ou políticas para o bem da população do Império Romano. O
alvo dos missionários era conduzir pessoas a CRISTO (At 16.31; 20.21),
livrá-las do poder de Satanás (At 26.18), levá-las a receber o ESPÍRITO SANTO
(At 19.6) e organizá-las em igrejas. Nesses novos cristãos, o ESPÍRITO SANTO
veio habitar e manifestar-se através do amor; Ele deu dons espirituais (1 Co
12.1-14.40) e transformou esses fiéis de tal maneira que suas vidas
glorificavam ao seu Salvador. (2) Os missionários do evangelho de hoje devem
ter a mesma atividade prioritária: ser ministros e testemunhas do evangelho,
que levem outros a CRISTO, livrando-os do domínio de Satanás (At 26.18),
fazendo-os discípulos, motivando-os a receber o ESPÍRITO SANTO e os seus dons
(At 2.38; 8.17) e ensinando-os a observar tudo quanto CRISTO ordenou (Mt
28.19,20). Isto deve ser acompanhado de sinais e prodígios, cura de enfermos e
libertação de oprimidos pelos demônios (At 2.43; 4.30; 8.7; 10.38; Mc 16.17,18).
Esta tarefa suprema de pregar o evangelho, no entanto, deve também incluir atos
pessoais de amor, de misericórdia e de bondade para com os necessitados (cf. Gl
2.10). Deste modo, todos que são chamados a dar testemunho do evangelho
servirão na causa divina segundo o modelo de JESUS (ver Lc 9.2).
13.3 OS
DESPEDIRAM. Com estas palavras começa o grande
movimento missionário da igreja até aos confins da terra (1.8). Os princípios
missionários vistos no capítulo 13 são um modelo para todas as igrejas que
enviam missionários. (1) A atividade missionária é originada pelo ESPÍRITO
SANTO, através de líderes espirituais que estão profundamente dedicados ao
Senhor e ao seu reino, buscando-o com oração e jejum (v. 2). (2) A igreja deve
estar atenta ao ministério e atividade proféticos do ESPÍRITO SANTO e sua
orientação (v. 2). (3) Os missionários que são enviados, devem fazê-lo segundo
a chamada e a vontade específicas do ESPÍRITO SANTO (v. 2b). (4) Mediante a
oração e o jejum, a igreja buscando constantemente estar em harmonia com a
vontade do ESPÍRITO SANTO (vv. 3,4), confirma a chamada divina de determinadas
pessoas à obra missionária. O propósito é que a igreja envie somente aqueles
que forem da vontade do ESPÍRITO SANTO. (5) Pela imposição de mãos e o envio de
missionários, a igreja indica que se compromete a sustentar e assistir os que
saem à obra. A responsabilidade da igreja que envia missionários inclui
demonstrar amor e cuidado para com eles de um modo digno de DEUS (3 Jo 6), orar
por eles (v. 3; Ef 6.18,19) e sustentá-los financeiramente (Lc 10.7; 3 Jo 6-8).
Isso inclui ofertas especiais de amor para necessidades específicas deles (Fp
4.10, 14-18). O missionário é uma projeção do propósito, interesse e missão da
igreja que os envia. Essa igreja fica sendo, portanto, uma cooperadora da
verdade (Fp 1.5; 3 Jo 8). (6) Aqueles que saem como missionários devem estar
dispostos a expor a vida pelo nome de nosso Senhor JESUS CRISTO (At 15.26).
13.8 ELIMAS, O
ENCANTADOR. Este judeu encantador (feiticeiro)
era provavelmente um astrólogo. Os astrólogos ensinavam que o destino de cada
pessoa é determinado pela posição dos astros em relação ao nascimento dessa
pessoa. Toda feitiçaria e astrologia são formas de espiritismo, o qual se opõe
ao evangelho de CRISTO, porque são coisas de Satanás e seus demônios. Ver as
frases resistia-lhes Elimas e inimigo de toda a justiça (vv. 8,10; ver Dt
18.9-11).
13.9 SAULO...
CHEIO DO ESPÍRITO SANTO. Mesmo quem foi
batizado no ESPÍRITO, como Paulo o foi (9.17), pode, em ocasiões de necessidade
específica, receber novos enchimentos do ESPÍRITO. Semelhantes enchimentos
repetidos são necessários: (1) no enfrentamento da oposição ao evangelho (At
4.8); (2) no avanço do evangelho (4.8-12,31) e (3) ao enfrentar diretamente a
atividade satânica (At 13.9). Enchimentos repetidos do ESPÍRITO SANTO devem ser
normais a todos os crentes batizados no ESPÍRITO SANTO.
13.11 FICARÁS
CEGO. Os milagres do NT iam além de curas.
Alguns, como nos casos da ira de DEUS contra Elimas (vv. 8-11) e Herodes (At
12.20-23), envolveram juízo contra os ímpios. O caso de Ananias e Safira (At 5.1-11)
é um exemplo de julgamento sob a forma de milagre, revelando a ira divina
contra o pecado dentro da igreja.
13.31 SUAS
TESTEMUNHAS PARA COM O POVO. Testemunha (gr.
martus) é alguém que testifica, por atos ou palavras, da verdade . Testemunhas
cristãs são as que confirmam e atestam a obra salvífica de JESUS CRISTO através
das suas palavras, ações e vida e, se necessário, através da sua própria morte.
Ser testemunha envolve sete princípios: (1) Dar testemunho de CRISTO é a
obrigação de todos os crentes (At 1.8; Mt 4.19; 28.19,20). (2) A testemunha
cristã deve ter uma mentalidade missionária, visando alcançar todas as nações,
e levar a salvação divina até aos confins da terra (At 11.18; 13.2-4; 26.16-18;
Mt 28.19,20; Lc 24.47). (3) A testemunha cristã fala principalmente a respeito
da vida de CRISTO, da sua morte, ressurreição, poder salvífico e da promessa do
ESPÍRITO SANTO (Atos 2.32,38,39; 3.15; 10.39-41,43; 18.5; 26.16; 1 Co 15.1-8).
(4) A testemunha cristã precisa produzir convicção quanto ao pecado, a justiça
e ao juízo (At 2.37-40; 7.51-54; 24.24,25; ver Jo 16.8). Mediante tal
testemunho, as pessoas são levadas à fé salvífica (At 2.41; 4.33; 6.7; 11.21).
(5) A testemunha cristã sofrerá às vezes (At 7.57-60; 22.20; 2 Co 11.23-29). A
palavra mártir deriva da palavra grega que significa testemunha. Ser discípulo
do Senhor subentende compromisso, custe ele o que custar ao discípulo. (6) O
testemunho cristão deve ser paralelo a uma separação do mundo (2.40), a uma
vida de justiça (Rm 14.17) e a uma confiança total no ESPÍRITO SANTO (At
4.29-33) que resulta na sua manifestação com poder (1 Co 2.4). (7) O testemunho
cristão deve ser profético (At 2.17), revestido de poder (1.8) e inspirado pelo
ESPÍRITO (At 2.4; 4.8).
13.48 ORDENADOS
PARA A VIDA ETERNA. Alguns entendem que este versículo
ensina a predestinação arbitrária. Entretanto, nem o contexto nem a palavra
traduzida ordenados (gr. tetagmenoi, do verbo tasso, justifica essa
interpretação). (1) O versículo 46 enfatiza explicitamente a responsabilidade
humana na aceitação ou rejeitação da vida eterna. A melhor interpretação de
tetagmenoi, portanto, é estavam dispostos : e creram todos quantos estavam
dispostos para a vida eterna . Esta interpretação concorda totalmente com as
afirmações de 1 Tm 2.4; Tt 2.11; 2 Pe 3.9. (2) Além disso, segundo Rm 11.20-22,
ninguém é incondicionalmente destinado à vida eterna.
13.52 ESTAVAM
CHEIOS ... DO ESPÍRITO SANTO. O verbo grego
traduzido cheios está no pretérito imperfeito, indicando ação contínua num
tempo passado. Os discípulos recebiam continuamente, dia após dia, a plenitude
e o revestimento de poder do ESPÍRITO SANTO. A plenitude do ESPÍRITO não é
meramente uma experiência inicial que ocorre uma só vez, mas, sim, uma vida de
repetidos enchimentos para as necessidades e tarefas da parte de DEUS (cf. Ef
5.18).
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Este artigo
visa explorar 33 fatos relevantes da vida de Paulo, abrangendo desde seu
nascimento em Tarso até suas viagens, ensinamentos e tribulações no campo
missionário.
Cada aspecto de
sua jornada ilustra não apenas a sua dedicação e impacto no cristianismo
primitivo, mas também a obra poderosa e transformadora de DEUS em sua vida e,
por extensão, na vida da igreja até os dias atuais.
1. Nasceu em
Tarso, filho de pais judeus da tribo de Benjamim
Paulo,
conhecido inicialmente como Saulo, nasceu em Tarso, uma cidade significativa na
Cilícia. Como filho de pais judeus da tribo de Benjamim, ele herdou tanto a
rica herança cultural judaica quanto os privilégios da cidadania romana
(Filipenses 3:5). Essa mistura única de heranças influenciou profundamente sua
vida e ministério.
2. É criado em
Jerusalém e estuda sob a instrução de Gamaliel
Educado aos pés
do renomado rabino Gamaliel em Jerusalém, Paulo se tornou um fariseu erudito e
devoto. A rigorosa educação religiosa sob um dos mais respeitados mestres da
Lei Judaica lhe deu uma base sólida na Escritura e nas tradições judaicas (Atos
22:3).
3. É
cidadão de Roma
Sua cidadania
romana, uma condição incomum e valiosa para um judeu da época, foi um fator
crucial em várias ocasiões, garantindo-lhe certos direitos legais e proteções
que influenciaram o curso de seu ministério, (Atos 16:37 e 22:25-28).
4. É fariseu,
cumpridor da Lei Mosaica
Como fariseu,
Paulo era um estrito observador da Lei Mosaica, profundamente comprometido com
os costumes e crenças judaicas. Essa identidade moldou sua visão de mundo até
seu encontro transformador com CRISTO, (Atos 23:6 e 26:5; Filipenses 3:5).
5. Aprendeu e
exerceu a profissão de fabricar tendas
Paulo era um
fabricante de tendas de profissão, um ofício que lhe permitiu sustentar-se
financeiramente durante suas viagens missionárias. Este trabalho manual
simboliza sua dedicação ao princípio do trabalho árduo e da autossuficiência,
(Atos 18:3; 1ª Coríntios 4:12; 1ª Tessalonicenses 2:9).
6. Foi um
perseguidor da igreja e participa da morte de Estevão
Antes de sua
conversão, Paulo foi um perseguidor fervoroso da Igreja, consentindo na morte
de Estevão e participando ativamente na opressão dos seguidores de JESUS. Essa
fase sombria foi transformada em um testemunho poderoso de redenção e graça
(Atos 7:58, 8:1 e 9:1-2; Gálatas 1:13-14; 1ª Timóteo 1:13).
7. Fica cego
sendo curado de sua cegueira
Sua conversão
dramática no caminho para Damasco envolveu uma experiência de cegueira física
seguida de uma cura milagrosa, simbolizando sua passagem das trevas espirituais
para a luz em CRISTO. Este evento marcou o início de sua vida como um dedicado
apóstolo de JESUS, (Atos 9:3-18).
8. Tem um
encontro com JESUS ressuscitado
O encontro
pessoal com o JESUS ressuscitado foi o momento decisivo de sua vida, transformando-o
de um perseguidor da Igreja em um dos seus mais fervorosos defensores e
missionários, (Atos 9:3-6).
9. Vai até o
terceiro céu
Paulo relata
uma experiência sobrenatural na qual foi arrebatado ao terceiro céu, recebendo
revelações divinas que fortaleceram sua fé e compreensão dos mistérios
celestiais, (2ª Coríntios 12:2-4).
10. Ministrou
em diversas cidades
Após sua
conversão, Paulo passou um tempo na Arábia antes de retornar a Damasco e ficar
ali por 3 anos, iniciando seu ministério de pregação. Ele também viajou
extensivamente, levando o evangelho a regiões distantes e estabelecendo
comunidades cristãs, (Gálatas 1:17-21).
11. Morou em
Antioquia
Em Antioquia,
Paulo encontrou um lar missionário e uma base para muitas de suas viagens.
Aqui, ele ensinou, fortaleceu a igreja local enviado em sua primeira viagem
missionária (Atos 11:25-26).
12. Viaja a
Jerusalém e regressa a Antioquia
Paulo manteve
uma conexão vital com a igreja-mãe em Jerusalém, participando do intercâmbio
entre as comunidades judaicas e gentílicas cristãs e fortalecendo as redes de
apoio mútuo, (Atos 12:25).
13. Sentia amor
por missões
Comissionado
pela igreja em Antioquia, Paulo embarcou em sua primeira viagem missionária,
marcando o começo de uma série de jornadas que expandiriam o cristianismo por
todo o Império Romano, (Atos 13:1-3).
14. Inicia a
primeira viagem missionária
Durante sua
primeira viagem missionária, Paulo e seus companheiros estabeleceram igrejas em
regiões-chave, enfrentando desafios e perseguições, mas também testemunhando
conversões milagrosas e o crescimento da comunidade de crentes, (Atos 13:3-4).
...
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Referência
Bibliográfica
BÍBLIA.
Português. Bíblia de Estudos Almeida. Tradução de João Ferreira de
Almeida. 2ª edição, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
Joao Paulo -
Teologia Bíblica Interconfessional
Conhecido
inicialmente como Saulo, ele foi um judeu nascido em Tarso, uma cidade
localizada na região da Cilícia, que fazia parte do Império Romano.
Profundamente
enraizado nas tradições e práticas do judaísmo farisaico. Saulo não apenas
observava estas leis; ele as defendia fervorosamente, acreditando que estava
protegendo a pureza e a continuidade de sua fé.
Esta dedicação
o levou a se tornar um dos mais notáveis e temidos perseguidores dos primeiros
seguidores de JESUS, vistos por ele e muitos outros como uma ameaça à lei
judaica.
Raízes judaicas
de seus familiares
Saulo nasceu em
Tarso, mas era de origem judaica, da tribo de Benjamim, uma informação que ele
mesmo oferece em Filipenses 3:5, e fariseu quanto à lei.
Sua dupla
nacionalidade, judeu e cidadão romano, é um aspecto distintivo de sua
identidade. A cidadania romana era um privilégio valioso naquela época,
concedendo-lhe certos direitos e proteções legais.
A família de
Saulo, embora não detalhada nas escrituras,
era provavelmente de posição social e econômica razoável, possibilitando-lhe
uma boa educação e o benefícios de cidadania romana.
Contudo, sua
origem e vantagens não o impediram de se dedicar completamente à causa do
cristianismo, renunciando a muitos desses privilégios em favor de sua missão.
Educação e
influências formativas
Saulo estudou
sob a tutela de Gamaliel, um dos mais renomados mestres da lei judaica em
Jerusalém. Este detalhe sobre sua formação é mencionado em Atos 22:3.
A educação sob
Gamaliel não apenas implicava um profundo
conhecimento das Escrituras e da lei judaica, mas também o colocava em contato
com debates e interpretações variadas, essenciais para um fariseu da época.
A influência de
Gamaliel é vista na forma como Paulo articula seus argumentos e interpreta as
escrituras, demonstrando um conhecimento sofisticado e uma habilidade de
argumentação que ele usou extensivamente em sua missão.
Facilidade de
comunicação com outros povos
Quanto aos
idiomas, é amplamente aceito que Saulo era poliglota. Ele falava aramaico e
hebraico, línguas de sua herança judaica, e grego, a língua franca do Império
Romano, além de possivelmente ter conhecimento do latim.
O grego, em
particular, era essencial para sua missão no mundo greco-romano, permitindo-lhe
comunicar-se efetivamente com gentios e judeus da diáspora.
Seus escritos,
preservados no Novo Testamento, são todos em grego, demonstrando sua fluência e
habilidade em expressar conceitos teológicos complexos nessa língua.
Essa combinação
de formação religiosa rigorosa e habilidade linguística equipou Paulo para o
trabalho apostólico entre diversos povos e culturas.
Ele utilizou
sua formação para fundamentar suas epístolas em argumentos sólidos e
persuasivos, promovendo o cristianismo além das fronteiras do judaísmo.
Saulo foi
casado?
Não há
evidências conclusivas nas Escrituras sobre o estado civil de Paulo, mas
algumas passagens sugerem que ele era solteiro durante seu ministério.
Em suas
epístolas, especialmente em 1ª Coríntios 7:7-8, Paulo menciona que preferiria
que os outros fossem como ele, ou seja, solteiros, porém reconhece que cada um
tem seu próprio dom de DEUS.
Algumas
tradições sugerem que Saulo poderia ter sido casado antes, talvez como um
fariseu cumpridor da lei, já que o casamento era algo comum e até esperado para
um homem judeu de sua estatura. No entanto, se foi casado, sua esposa não é
mencionada.
O celibato de
Paulo, é significativo para ele, por afirmar que o estado de solteiro era uma
oportunidade para se dedicar mais completamente ao serviço do Senhor.
Sua
participação ou associação com o Sinédrio
Como fariseu, é
provável que Saulo fosse membro ou tivesse associação com o Sinédrio, o
conselho governante e tribunal religioso em Jerusalém.
O Sinédrio era
composto por sacerdotes, anciãos e escribas, responsáveis por grandes decisões
políticas, administrativas e religiosas na comunidade judaica.
Sua
participação ou associação com o Sinédrio é sugerida por seu zelo inicial em
perseguir os seguidores de JESUS, como uma maneira de proteger as tradições
judaicas das influências consideradas heréticas.
No entanto,
após sua conversão, Paulo se afasta dessas responsabilidades e direciona seu
zelo para a disseminação do cristianismo.
A compreensão
de Paulo sobre o Sinédrio e suas operações internas, juntamente com seu
treinamento farisaico, lhe deram uma perspectiva única em suas abordagens
missionárias e debates teológicos.
Ele dialoga
frequentemente com o judaísmo, utilizando-se de sua formação para explicar e
expandir a mensagem do evangelho em um contexto judaico e, posteriormente,
gentílico.
Sua atuação
como perseguidor
Antes de sua
conversão no caminho para Damasco, Saulo, era infame por sua perseguição
implacável aos seguidores do Cristianismo nascente.
Seu zelo
religioso e sua lealdade às tradições judaicas o motivavam a combater o que ele
via como uma ameaça herética à lei e à ordem estabelecidas.
Atos 8:3 nos dá
uma visão vívida de suas ações, mostrando-o como alguém que invadia casas e,
arrastava homens e mulheres para a prisão, visando erradicar a comunidade de
fiéis que crescia em torno da mensagem de JESUS.
Este período de
sua vida reflete a intensidade de sua devoção ao judaísmo e prefigura a paixão
com a qual ele mais tarde defenderia o Cristianismo.
Conclusão
Paulo de Tarso
é uma figura cuja vida e trabalho continuam a influenciar o cristianismo e a
teologia da atualidade.
De perseguidor
a apóstolo, de judeu a missionário entre gentios, sua história é uma das mais
dramáticas transformações pessoais registradas na história religiosa. Suas
epístolas formam a espinha dorsal de muitos ensinamentos cristãos e sua
teologia continua a ser debatida, estudada e admirada por sua profundidade e
relevância.
Joao Paulo -
Teologia Bíblica Interconfessional
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Revista
antiga com muitos estudos para nosso trimestre:
Lição 1, O
Mundo do Apóstolo Paulo
Lições Bíblicas
- 4º Trimestre de 2021 - CPAD - Para adultos
Tema: O
Apóstolo Paulo - Lições da vida e ministério do apóstolo dos gentios para a
igreja de CRISTO - Comentário: Pr. Elienai Cabral
Complementos, ilustrações e vídeos: Pr. Henrique
Lição 1, O
Mundo do Apóstolo Paulo
Escrita
https://ebdnatv.blogspot.com/2021/09/escrita-licao-1-o-mundo-do-apostolo.html
Slides
https://ebdnatv.blogspot.com/2021/09/slides-licao-1-o-mundo-do-apostolo.html
TEXTO ÁUREO
“Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido para
levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis, e dos filhos de Israel.” (At
9.15)
VERDADE PRÁTICA
Segundo a sua soberana vontade, DEUS usa as circunstâncias para fazer uma
grande obra.
LEITURA DIÁRIA
Segunda - Rm 1.1; 1 Co 1.1; Ef 1.1 Paulo, chamado para ser apóstolo
Terça - At 26.16-18 Enviado para os gentios
Quarta - 1 Co 8.5,6 Paulo, um defensor da fé
Quinta - At 22.3 Paulo declara sua identidade judaica
Sexta - Gl 1.14 Seu zelo pela religião judaica
Sábado - Atos 13.1-3 O chamado de Paulo para missões
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE - Atos 26.1-7
1 - Depois, Agripa disse a Paulo: Permite-se-te
que te defendas. Então, Paulo, estendendo a mão em sua defesa, respondeu: 2 -
Tenho-me por venturoso, ó rei Agripa, de que perante ti me haja, hoje, de
defender de todas as coisas de que sou acusado pelos judeus, 3 - mormente
sabendo eu que tens conhecimento de todos os costumes e questões que há entre
os judeus; pelo que te rogo que me ouças com paciência. 4 - A minha vida, pois,
desde a mocidade, qual haja sido, desde o princípio, em Jerusalém, entre os da
minha nação, todos os judeus a sabem. 5 - Sabendo de mim, desde o princípio (se
o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita da nossa religião,
vivi fariseu. 6 - E, agora, pela esperança da promessa que por DEUS foi feita a
nossos pais, estou aqui e sou julgado, 7 - à qual as nossas doze tribos esperam
chegar, servindo a DEUS continuamente, noite e dia. Por esta esperança, ó rei
Agripa, eu sou acusado pelos judeus.
Resumo da Lição 1, O Mundo do Apóstolo Paulo
I – O MUNDO DE
PAULO NO IMPÉRIO ROMANO
1. Entendendo a origem de Paulo.
2. A geografia
do mundo de Paulo.
3. Paulo,
chamado para os gentios.
II – O MUNDO
CULTURAL DE PAULO
1. A língua mundial daqueles dias era o grego.
2. O mundo
cultural do apóstolo Paulo.
3. A influência
da filosofia grega.
III – O MUNDO
RELIGIOSO DE PAULO
1. Paulo se identifica como judeu.
2. Paulo foi
criado dentro da fé judaica.
3. O mundo:
palco da mensagem de Paulo ao povo gentílico.
INTRODUÇÃO
Estudaremos
neste trimestre sobre o apóstolo aos gentios. PAULO.
No trimestre
veremos as seguintes lições:
Lição 01 – O
Mundo do Apóstolo Paulo.
Lição 02 – Saulo de Tarso, o Perseguidor
Lição 03 – A Conversão de Saulo de Tarso.
Lição 04 – Paulo, a Vocação para ser Apóstolo.
Lição 05 – “Jesus Cristo, e este Crucificado” – Mensagem do Apóstolo.
Lição 06 – Paulo no Poder do Espírito.
Lição 07 – Paulo, o Plantador de Igrejas.
Lição 08 – Paulo, o Discipulador de vidas.
Lição 09 – Paulo e a sua Dedicação aos Vocacionados.
Lição 10 – Paulo e seu Amor pela Igreja.
Lição 11 – O Zelo do Apóstolo Paulo pela Sã Doutrina.
Lição 12 – A Coragem do Apóstolo Paulo diante da Morte.
Veremos nesta
lição1 o mundo de Paulo no império romano, sua origem, a geografia do mundo de
Paulo, seu chamado para os gentios.
Veremos o mundo
cultural de Paulo, a língua mundial daqueles dias era o grego, o mundo cultural
do apóstolo Paulo, a influência da filosofia grega.
O mundo
religioso de Paulo, ele se identifica como judeu, ele foi criado dentro da fé
judaica, o mundo, palco da mensagem de Paulo ao povo gentílico.
Paulo de Tarso,
da tribo de Benjamim, Judeu, que falava Hebraico, Aramaico, Grego e latim (na
minha opnião, pois era a língua falada peos romanos).
Paulo, o maior
imitador de CRISTO. Também chamado "Paulo, o velho" (Fm 1:9), "O
prisioneiro de CRISTO" (Fm 1:9).
Paulo escreveu mais da metade dos livros do NT.
Considero Hebreus escrito por Paulo.
Paulo influenciou a escrita do evangelho de Lucas.
Paulo era usado em todos os dons do ESPÍRITO SANTO
Pedro abriu a
porta, mas quem percorreu todos os cômodos da casa e se instalou nela foi
Paulo.
Foi Paulo usado por DEUS para transformar a "seita dos nazarenos" em Igreja de CRISTO.
Paulo usava escrituras,
livros e pergaminhos.
Anotava sempre o que ia recebendo de DEUS.
É o maior instrumento do ESPÍRITO SANTO para nossos ensino, sempre baseado nós
ensinos de JESUS CRISTO.
No tempo de
JESUS e de Paulo (eram contemporâneos, com diferença de idade entre 9 e 12
anos) o Império romano se impõe como reino que não tem adversário a altura.
Politicamente e belicamente não havia concorrentes.
A cultura grega dominava, mas prevalecia a autoridade Romana.
Império romano
governava desde a Inglaterra até a Persia.
Entre anos 60 e 150, governo romano experimentou seu apogeu e a Pax romana, com
estradas ligando todo o império, possibilitando assim a intercomunicação e o
comércio entre todos os países do império.
Mar
mediterrâneo e norte da África também eram dominados pelo império romano.
COMENTÁRIOS DE
LIVROS A RESPEITO DO ASSUNTO
A Quinta Defesa
de Paulo - Atos 26:1-11 - Comentário Bíblico - Matthew Henry (Exaustivo)
AT e NT
Agripa era a pessoa mais ilustre na assembleia,
tendo o título de rei que lhe fora concedido, embora sob outros aspectos
tivesse somente o poder dos outros governadores sob o imperador e, mesmo não
sendo superior aqui, era veterano em relação a Festo; e por isso, depois de
Festo ter aberto a sessão, Agripa, como o orador da corte, concede a Paulo
licença para que se defenda (v. 1). Paulo ficou em silêncio até que tivesse
conseguido essa liberdade; porque não são os mais dispostos a falar que são os
mais preparados para falar e falam melhor. Esse era um favor que os judeus não
lhe dariam, ou não sem dificuldade; mas Agripa de bom grado o dá a ele. E a
causa de Paulo era tão boa que ele não queria mais que ter a liberdade de falar
por si mesmo; ele não precisava de advogado, de nenhum Tértulo para falar por
ele. Seu gesto é registrado: Ele estendeu sua mão, como alguém que não estava
em nada consternado, mas tinha perfeita liberdade e domínio de si mesmo; e isso
também dá a entender que ele estava falando sério e esperava a atenção deles
enquanto respondia por si. Observe: Ele não insistiu em seu apelo a César como
uma desculpa para ficar em silêncio, ele não disse: “Eu não mais serei
examinado até que eu vá ao imperador em pessoa”; mas amavelmente abraçou a oportunidade
de honrar a causa pela qual ele sofria. Se nós devemos estar sempre preparados
para responder com mansidão e temor a qualquer que nos pedir a razão da
esperança que há em nós, muito mais a cada homem de autoridade (1 Pe 3.15).
Sendo assim, nessa última parte do discurso:
I
Paulo dirige-se com um respeito muito particular a Agripa (vv. 2,3). Ele
respondeu amavelmente diante de Félix, porque ele sabia que tinha sido por
muitos anos juiz para aquela nação (Atos 24.10). Mas sua opinião quanto a
Agripa vai mais além. Observe: 1. Sendo acusado pelos judeus, e tendo muitas
coisas desprezíveis postas em sua acusação, ele está contente que tenha uma
oportunidade de se esclarecer; tão longe está ele de imaginar que por ser um
apóstolo estaria isento da jurisdição dos poderes civis. A magistratura é uma
ordenança de DEUS, da qual todos nós nos beneficiamos, e, portanto, todos devem
estar sujeitos a ela. 2. Visto que é forçado a responder por si mesmo, ele está
contente em estar diante do rei Agripa, que, sendo ele mesmo um prosélito da
religião judaica, entendia todas as questões relativas a ela melhor do que os
outros governadores romanos: Eu sei que tens conhecimento de todos os costumes
e questões que há entre os judeus. Parece que Agripa era um erudito, e era
particularmente versado no ensino judaico, que era perito nos costumes da
religião judaica, e conhecia a natureza deles, e que eles não estavam
designados a serem universais ou perpétuos. Ele também era perito nas questões
que surgiam sobre aqueles costumes, determinando que os próprios judeus não
pensavam todos da mesma forma. Agripa era bem versado nas escrituras do Antigo
Testamento, e, portanto, podia fazer, mais do que outros, um julgamento melhor
sobre a controvérsia entre ele e os judeus a respeito de JESUS poder ser o
Messias. É um encorajamento para um pregador ter ouvintes que são inteligentes
e que podem discernir coisas que diferem entre si. Quando Paulo diz: julgai vós
mesmos o que digo, ele está falando como a sábios (1 Co 10.15). 3. Ele,
portanto, roga que ele o ouça pacientemente, makrothymos – com longo ânimo.
Paulo planeja um longo discurso, e implora que Agripa o ouça por completo, e
não fique entediado; ele planeja um discurso claro, e roga que o ouça com
mansidão, e não fique furioso. Paulo tem uma certa razão em temer que, como
Agripa, sendo judeu, era bem versado nos costumes judeus, e por isso um juiz
tanto mais competente de sua causa, ele fosse também influenciado em alguma
medida pelo fermento judeu, e portanto podia carregar um preconceito contra
Paulo como o apóstolo dos gentios; ele portanto diz isso para abrandá-lo: eu
rogo a ti que me ouças pacientemente. Com certeza, o mínimo que podemos
esperar, quando pregamos a fé em CRISTO, é sermos ouvidos pacientemente.
II
Ele declara que embora fosse odiado e estigmatizado como apóstata, ainda assim
aderia a todo aquele bem no qual fora educado e instruído no início; sua
religião sempre foi construída sobre a promessa de DEUS feita aos pais; e sobre
isso ele ainda construía.
1. Veja aqui qual era sua religião em sua juventude: Sua vida, todos os judeus
a sabem (vv. 4,5). Na verdade, ele não nasceu em sua própria nação, mas foi
criado entre eles em Jerusalém. Embora ele tivesse nos últimos anos tido
contatos com os gentios (o que havia causado grande ofensa aos judeus),
contudo, em suas viagens pelo mundo, ele estava intimamente ligado com a nação
judaica, e agia inteiramente em seu benefício. Sua formação não era nem
estranha nem obscura; estava entre sua própria nação em Jerusalém, onde a
religião e a instrução floresciam. Todos os judeus a conheciam, tudo isso
poderia ser lembrado por muito tempo, porque Paulo tornou-se notável ainda
moço. Aqueles que o conheciam desde o princípio poderiam testificar por ele que
ele era fariseu, que ele era não somente da religião judaica, e um observador
de todas as ordenanças dela, mas que ele era da mais severa seita da nossa
religião, mais exigente e exato em observar por si mesmo as suas instituições,
e mais rígido e crítico ao impô-las a outros. Ele não somente era chamado de
fariseu, mas ele viveu fariseu. Todos que o conheceram sabiam muito bem que
nunca qualquer fariseu se conformou mais pontualmente às regras de sua ordem do
que ele. E ainda mais, ele era do melhor tipo de fariseu; porque ele fora
educado aos pés de Gamaliel, que foi um rabino eminente da escola ou casa de
Hillel, que era de muito maior reputação para a religião do que a escola ou
casa de Shamai. Sendo assim, se Paulo era fariseu, e viveu como fariseu: (1)
Então ele era um erudito, um homem instruído, e não um ignorante, iletrado; os
fariseus conheciam a lei e eram bem versados nela, e nas suas exposições
tradicionais. Havia uma censura aos outros apóstolos por não terem tido uma
formação acadêmica, mas tinham sido treinados como pescadores (Atos 4.13).
Portanto, para que os judeus descrentes pudessem ser deixados sem desculpa,
aqui está um apóstolo destacado que havia se assentado aos pés de seus doutores
mais eminentes. (2) Então ele era um moralista, um homem de virtude, e não um
jovem dissoluto ou pervertido. Se ele viveu como fariseu, não era nenhum bêbado
ou fornicador; e, sendo um jovem fariseu, podemos esperar que ele não era
nenhum extorquidor, nem tinha ainda aprendido as artes que os velhos fariseus
astutos e cobiçosos praticavam de devorar as casas das viúvas pobres; mas era,
segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Ele não era culpado de nenhum
exemplo de vício e profanação conhecidos; e, portanto, como não se podia
considerá-lo desertor de sua religião por não conhecê-la (pois ele era um homem
instruído), também não se podia considerar que ele desertara dela porque não a
amava, ou não tinha afeição às suas obrigações, pois ele era um homem virtuoso,
e não era inclinado a nenhuma imoralidade. (3) Então ele era ortodoxo, são na
fé, e não um deísta ou cético, ou um homem de princípios corruptos que levam à
infidelidade. Ele era fariseu, em oposição aos saduceus; ele aceitava aqueles
livros do Antigo Testamento que os saduceus rejeitavam, acreditava num mundo de
espíritos, na imortalidade da alma, na ressurreição do corpo e nas recompensas
e castigos do estado futuro, tudo que os saduceus negavam. Eles não podiam
dizer: Ele abandonou sua religião por falta de um princípio, ou por falta do
devido respeito para com a revelação divina; não, ele sempre tivera uma
veneração pela antiga promessa feita por DEUS aos pais, e construíra sua
esperança sobre ela.
Ora, embora Paulo soubesse muito bem que tudo isso não o justificava diante de
DEUS, nem era justificação para ele, ele sabia que isso valia por sua reputação
entre os judeus, e um argumento ad hominem – como Agripa deveria sentir, que
ele não era um homem tal qual eles o fizeram parecer. Embora ele considerasse
tudo isso como perda para que pudesse ganhar a CRISTO, ainda o mencionava
quando podia servir para honrar a CRISTO. Ele sabia muito bem que em todo esse
tempo ele era um estranho à natureza espiritual da lei divina, e à religião do
coração, e que a menos que sua justiça excedesse isso, ele jamais iria para o
céu; no entanto, ele reflete sobre isso com alguma satisfação de que antes da
sua conversão não tinha sido um ateu, profano ou corrupto, mas, de acordo com a
luz que ele possuía, tinha andado diante de DEUS com toda a boa consciência.
2. Veja aqui o que é sua religião. Na verdade, ele não tem grande zelo pela lei
cerimonial como ele teve em sua juventude. Os sacrifícios e ofertas designados
por essa lei, ele pensa, são superados pelo grande sacrifício que eles
tipificavam; ele não leva mais em consideração as contaminações e suas
purificações cerimoniais, e pensa que o sacerdócio levítico foi nobremente
absorvido pelo sacerdócio de CRISTO; mas quanto aos princípios fundamentais de
sua religião, ele é tão zeloso por eles como sempre, e mais ainda, ele está
pronto a viver e morrer por eles.
(1) Sua religião é edificada sobre a promessa feita por DEUS aos pais. Está
edificada sobre a revelação divina, que ele recebe e crê, e na qual arrisca sua
alma; ela está edificada sobre a graça divina, a graça manifestada e
transmitida pela promessa. A promessa de DEUS é o guia e a base de sua
religião, a promessa feita aos pais, que era mais antiga do que a lei
cerimonial, essa aliança que foi confirmada diante de DEUS em CRISTO, e que a
lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não invalida, de forma a
abolir a promessa (Gl 3.17). CRISTO e o céu são as duas grandes doutrinas do
evangelho – que DEUS nos deu a vida eterna e essa vida está em seu filho. Sendo
assim, essas duas são a substância da promessa feita aos pais. Ela pode
remontar até a promessa feita ao pai Adão, a respeito da semente da mulher, e
aquelas descobertas de um estado futuro em cuja fé os primeiros patriarcas
agiram, e foram salvos por aquela fé; mas ela diz respeito principalmente à
promessa feita ao pai Abraão, de que por sua semente todas as famílias da terra
seriam abençoadas, e que DEUS seria um DEUS para ele e para sua semente depois
dele: a primeira quer dizer CRISTO, a última, o céu; porque, se DEUS não
tivesse preparado uma cidade para eles, Ele teria se envergonhado de chamar a
si mesmo de seu DEUS (Hb 11.16).
(2) A sua religião consiste nas esperanças dessa promessa. Ele não a
estabelece, como eles fizeram, em comidas e bebidas, e na observação de
mandamentos carnais (DEUS tem muitas vezes mostrado quão pouco Ele se importa
com eles), mas na dependência confiante da graça de DEUS na aliança, e na
promessa, que foi a grande carta régia pela qual a igreja foi inicialmente
fundada. [1] Ele tinha esperança em CRISTO como a semente prometida; ele esperava
ser abençoado nele, para receber a bênção de DEUS e ser verdadeiramente
abençoado. [2] Ele tinha esperanças do céu; isso é expressamente afirmado, como
aparece na comparação com o capítulo 24.15: de que há de haver ressurreição de
mortos. Paulo não confia na carne, mas em CRISTO; nenhuma expectativa de
grandes coisas deste mundo, mas de coisas do outro mundo maiores do que
qualquer uma que este mundo possa almejar; ele tem seu olhar voltado para um
estado futuro.
(3) Nisso, ele concordava com todos os judeus piedosos; sua fé não estava só de
acordo com as Escrituras, mas de acordo com o testemunho da igreja, que era um
apoio para ela. Embora eles o pusessem como um marco ele não era singular:
“nossas doze tribos, o corpo da igreja judaica, continuamente servindo a DEUS
noite e dia, esperavam atingir essa promessa, isto é, o bem prometido”. O povo
de Israel é chamado de doze tribos, porque assim eles eram no início; e, embora
nós não leiamos do retorno das dez tribos em um corpo, ainda assim podemos
pensar em muitas pessoas em particular, mais ou menos de cada tribo, que
retornaram à sua terra; talvez, gradualmente, a maior parte daqueles que foram
levados cativos. CRISTO fala das doze tribos (Mt 19.28). Ana era da tribo de
Aser (Lc 2.36). Tiago endereça sua epístola às doze tribos que andam dispersas
(Tg 1.1). “Nossas doze tribos, que formam o corpo de nossa nação, à qual eu e
outros pertencemos. Ora, todos os israelitas professam crer nessa promessa,
tanto de CRISTO quanto do céu, e esperam alcançar os benefícios delas. Todos
eles esperam por um Messias futuro, e nós que somos cristãos esperamos em um
Messias que já veio; de maneira que todos nós concordamos em edificar sobre a
mesma promessa. Eles esperam pela ressurreição dos mortos e a vida do mundo vindouro,
e isso é o que eu espero também. Por que eu deveria ser visto como tendo
apresentado algo perigoso e heterodoxo, ou como um apóstata da fé e do culto da
igreja judaica, quando concordo com eles nesse artigo fundamental? Eu espero
por fim chegar ao mesmo céu a que eles esperam chegar; e, se nós esperamos nos
encontrar de maneira tão feliz em nosso fim, por que deveríamos nos desentender
de forma tão infeliz no caminho?” E mais, a igreja judaica não somente esperava
alcançar essa promessa, mas, na esperança dela, eles estão servindo a DEUS
continuamente, noite e dia. O serviço do templo, que consistia em uma série
contínua de deveres religiosos, manhã e tarde, dia e noite, do início ao fim do
ano, e era mantido pelos sacerdotes e levitas, e pelos homens fixos, como eram
chamados, que continuamente assistiam ali para pôr suas mãos sobre os
sacrifícios públicos, como os representantes de todas as doze tribos, esse
serviço baseava-se na profissão de fé na promessa da vida eterna, e, na
expectativa dela, Paulo insistentemente serve a DEUS dia e noite no evangelho
de seu Filho. As doze tribos por meio de seus representantes fazem o mesmo com
relação à lei de Moisés, mas ele e elas o fazem na esperança da mesma promessa:
“Por isso, eles não deveriam me olhar como um desertor de sua igreja, já que eu
me sustento pela mesma promessa pela qual eles se sustentam”. Muito mais
deveriam os cristãos, que esperam pelo mesmo JESUS, pelo mesmo céu, embora
diferindo nos modos e cerimônias de culto, esperar o melhor uns dos outros, e
viverem juntos em santo amor. Ou isso pode ser uma referência a pessoas
particulares que continuaram na comunhão da igreja judaica e foram muito
devotas a seu modo, servindo a DEUS com grande intensidade e forte aplicação da
mente, e constantes nisso, noite e dia, como Ana, que não saía do templo, mas
servia a DEUS (a mesma palavra é usada aqui) com jejuns e orações de noite e de
dia (Lc 2.37). “Nesse caminho eles esperavam alcançar a promessa, e eu espero
que eles a alcancem.” Note: Só podem esperar com bons motivos a vida eterna
aqueles que são diligentes e constantes no serviço de DEUS; e a boa esperança
dessa vida eterna deveria nos estimular à diligência e constância em todos os
exercícios religiosos. Nós devemos continuar com nossa obra tendo o céu em
nossa mira. E devemos julgar de maneira caridosa aqueles que insistentemente
servem a DEUS noite e dia, ainda que não do nosso jeito.
(4) E isso era pelo que ele agora estava sofrendo – por pregar essa doutrina
que eles mesmos, caso eles a entendessem corretamente, deveriam reconhecer: eu
sou julgado pela esperança da promessa feita aos pais. Ele se prendia à
promessa, contra a lei cerimonial, enquanto seus acusadores se prendiam à lei
cerimonial contra a promessa: “Por essa esperança, ó rei Agripa, eu sou acusado
pelos judeus – porque eu faço aquilo que eu me considero obrigado a fazer pela
esperança dessa promessa”. É comum aos homens odiar e perseguir em outros o
poder daquela religião da qual eles, não obstante, se orgulham na forma. A
esperança de Paulo era o que esses mesmos também esperam (Atos 24.15), e, no
entanto, eles estavam, desse modo, enfurecidos contra ele por agir de acordo
com aquela esperança. Contudo, era uma honra que quando ele sofria como cristão
ele sofria pela esperança de Israel (Atos 28.20).
(5) Isso era o que ele deveria persuadir a adotar todos que o ouviam
cordialmente (v. 8): Julga-se coisa incrível entre vós que DEUS ressuscite os
mortos? Isso parece vir de maneira um tanto brusca; mas é provável que Paulo
tenha dito muito mais do que está aqui relatado, e que ele tenha explicado a
promessa feita aos pais como sendo a promessa da ressurreição e vida eterna, e
provado que estava no caminho certo na busca de sua esperança daquela
felicidade porque ele acreditava em CRISTO, que tinha ressuscitado dos mortos,
o que era um penhor e garantia daquela ressurreição pela qual os pais
esperavam. Paulo está, portanto, certo de conhecer a virtude da ressurreição de
CRISTO, que por ela ele podia chegar à ressurreição dos mortos; veja Fp 3.10,11.
Agora, muitos de seus ouvintes eram gentios, a maioria deles talvez, Festo
particularmente, e nós podemos supor que quando eles o ouviram falar tanto da
ressurreição de CRISTO quanto da ressurreição dos mortos, pela qual as doze
tribos esperavam, eles zombaram, como fizeram os atenienses, que começaram a
rir e a murmurar uns com os outros que coisa absurda era aquela, o que levou
Paulo, desse modo, a argumentar com eles. Pois quê? Julga-se coisa incrível
entre vós que DEUS ressuscite os mortos? Assim pode ser lido. Se isso for
maravilhoso aos olhos do resto deste povo, será também maravilhoso aos meus
olhos? Diz o Senhor dos exércitos (Zc 8.6). Se estiver acima do poder da
natureza, contudo, não está acima do poder do DEUS da natureza. Note: Não há
razão por que nós devamos pensar ser incrível que DEUS ressuscite os mortos.
Não somos obrigados a acreditar em nada que seja inacreditável, qualquer coisa
que implique uma contradição. Há motivos de credibilidade suficientes para nos
sustentar em todas as doutrinas da religião cristã, e de maneira especial isso
vale para a ressurreição dos mortos. Acaso DEUS não tem poder infinito, para o
qual nada é impossível? Não criou Ele o mundo do nada, com apenas uma palavra?
Não formou Ele nossos corpos a partir do barro e soprou em nós o sopro de vida?
E não pode o mesmo poder formá-los novamente a partir de seu próprio barro e
pôr vida neles novamente? Não vemos um tipo de ressurreição na natureza, na
volta de cada primavera? O sol tem uma força semelhante de ressuscitar plantas
mortas, e deveria parecer incrível para nós que DEUS ressuscitasse corpos
mortos?
III
Ele reconhece que enquanto continuava fariseu, era inimigo amargo dos cristãos
e do cristianismo, e ele pensava que deveria ser assim, e continuou assim até o
momento em que CRISTO operou essa maravilhosa mudança nele. Isso ele menciona:
1. Para mostrar que o fato de se tornar cristão e pregador não era o produto e
resultado de nenhuma disposição ou inclinação prévia a esse movimento, ou
qualquer avanço gradual de pensamento a favor da doutrina cristã; ele não se
convenceu a favor do cristianismo por uma seqüência de argumentos, mas foi
introduzido no grau mais elevado de certeza dele, imediatamente do mais alto
grau de preconceito contra ele, pelo que parecia que ele foi feito cristão e
pregador por um poder sobrenatural; de maneira que sua conversão de tal modo
miraculoso não era somente para ele, mas para outros também, uma prova
convincente da verdade do cristianismo.
2. Talvez ele pretenda com isso uma desculpa a seus acusadores, como CRISTO fez
pelos seus, quando Ele disse: Eles não sabem o que fazem. O próprio Paulo uma
vez pensou que fez o que deveria fazer quando perseguia os discípulos de
CRISTO, e ele caridosamente considera que eles agiam sob o mesmo engano.
Observe:
(1) Quão tolo ele era em sua opinião (v. 9): Ele pensava consigo mesmo que
contra o nome de JESUS, o Nazareno, devia praticar muitos atos, tudo que estava
em seu poder, contrário à sua doutrina, sua honra e seu interesse. Esse nome
não fez nenhum mal, contudo, porque ele não concordava com a noção que ele
tinha do reino do Messias, ele estava pronto para fazer tudo que pudesse contra
esse nome. Ele pensava prestar um bom serviço a DEUS ao perseguir aqueles que
invocavam o nome de JESUS CRISTO. Note: É possível que os que estão
evidentemente no caminho errado estejam confiantes de que estão no caminho
certo; e que os que estão voluntariosamente persistindo no maior dos pecados
pensem que estão fazendo o seu dever. Aqueles que odiavam seus irmãos e os
expulsavam, diziam: O Senhor seja glorificado (Is 66.5). Sob o disfarce e
pretexto de religião, as vilanias mais bárbaras e desumanas têm sido não apenas
justificadas, mas santificadas e exaltadas (Jo 16.2).
(2) Com que fúria ele agia (vv. 10,11). Não há um princípio mais violento no
mundo do que a consciência mal informada. Quando Paulo considerava ser seu
dever fazer tudo que pudesse contra o nome de CRISTO, ele não poupava esforços
nem custo nessa tarefa. Ele dá um relato do que fez nesse sentido, e o agrava
como algo pelo qual estava verdadeiramente arrependido: fui blasfemo, e
perseguidor (1 Tm 1.13). [1] Ele encheu as celas com cristãos, como se eles
fossem os piores criminosos, cogitando por esse meio não somente
aterrorizá-los, mas torná-los odiosos ao povo. Ele era o diabo que lançava
alguns deles na prisão (Ap 2.10), os levava sob custódia, para que fossem
processados. Encerrei muitos dos santos nas prisões (v. 10), tanto homens como
mulheres (Atos 8.3). [2] Ele tornou-se o agente dos principais sacerdotes.
Deles recebeu poder, como um oficial inferior, para pôr suas leis em execução,
e orgulhava-se muito de que era um homem com autoridade para esse propósito.
[3] Ele era muito solícito para se manifestar, mesmo que não solicitado, a favor
da entrega dos cristãos à morte, particularmente Estêvão, em cuja morte Saulo
consentiu (Atos 8.1), e assim tornou-se particeps criminis – cúmplice no crime.
Talvez ele tenha, por seu grande zelo, embora jovem, se tornado um membro do
sinédrio, e ali votado pela condenação dos cristãos à morte; ou, depois que
eles eram condenados, ele justificava o fato, e o celebrava, tornando-se assim
culpado ex post facto – depois de cometido o ato, como se ele tivesse sido um
juiz ou jurado. [4] Ele os punia com castigos de uma natureza inferior, nas
sinagogas, onde eles eram castigados como transgressores das regras da
sinagoga. Ele teve participação no castigo de muitos; mais ainda, parece que as
mesmas pessoas eram por seus meios castigadas muitas vezes, como ele mesmo foi
cinco vezes (2 Co 11.24). [5] Ele não somente os punia pela religião deles,
mas, orgulhando-se de triunfar sobre a consciência das pessoas, ele as forçava
a abjurar de sua religião, entregando-as à tortura: “Os obriguei a blasfemar
contra CRISTO, e a dizer que Ele era um enganador e que eles haviam sido
enganados por Ele – compelia-os a negar seu Mestre, e a renunciar a suas
obrigações para com Ele”. Nada será mais pesado sobre os acusadores do que
forçar a consciência dos homens, por mais que eles possam agora triunfar pelos
prosélitos que eles fizeram pela violência. [6] Sua fúria cresceu tanto contra
os cristãos e o cristianismo que a própria Jerusalém tornou-se um palco muito
estreito para ele agir, e assim, ele declara: E, enfurecido demasiadamente
contra eles, até nas cidades estranhas os persegui. Ele estava furioso contra
eles, para ver o quanto eles tinham a dizer a favor de si mesmos, não obstante
tudo que ele fazia contra eles, enfurecido por vê-los se multiplicar ainda mais
por serem afligidos. Ele estava enfurecido demasiadamente; e o rio de sua fúria
não admitiria nenhuma margem, nenhum limite, contudo ele era um terror tão
grande para si mesmo como era para eles, tamanho era seu tormento dentro de si
mesmo pelo fato de não poder vencer, como era grande também sua indignação
contra eles. Perseguidores são homens enfurecidos, e alguns deles
demasiadamente enfurecidos. Paulo estava irritado por ver que aqueles em outras
cidades não eram tão violentos contra os cristãos, e por isso se ocupou onde
ele não tinha obrigações, e perseguiu os cristãos até mesmo em cidades
estrangeiras. Não há um princípio mais incansável do que fazer o mal,
especialmente aquele que aparenta consciência.
Esse era o caráter de Paulo, e essa a sua maneira de viver no início de sua
carreira; e por isso não se poderia presumir que ele fosse cristão por educação
ou costume, ou que tivesse sido atraído pela esperança de promoção, porque
todas as objeções exteriores imagináveis estavam contra ele ser cristão.
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Atos 26:1-7 -
Comentário - NVI (F. F. Bruce)
Alcançamos o
zénite desse ministério especial no que concerne à Palestina. Após as
apresentações feitas por Festo, Agripa assumiu a sessão e,
imediatamente, deu oportunidade a Paulo para que falasse em sua
defesa (26.1).
4) A defesa de Paulo diante de Agripa e Festo (26.2-23)
O conteúdo e o estilo da defesa. Essa fala não é uma defesa e um testemunho
improvisado, como foi a sua mensagem à multidão no cap. 22, pois Paulo tinha
tido tempo suficiente para o preparo e percebeu a importância da ocasião.
Por isso, o discurso é tão rico em conteúdo doutrinário, histórico
e apologético e, portanto, muito difícil de ser resumido em espaço
limitado. Alguns estudiosos nos informam que Paulo lembrou das suas lições
em retórica que tinha aprendido em Tarso, visto que nessa ocasião dá
atenção especial ao estilo, embora a língua seja, evidentemente, grego
helenístico, e não clássico. Outros, no entanto, consideram extremamente
duvidoso que ele tenha estudado em uma escola grega em Tarso,
interpretando At 22.3 como significando que Jerusalém foi a cidade da sua
adolescência e juventude.
O preâmbulo (v. 2,3). O preâmbulo era obrigatório nessas “apologias” diante de
juízes distintos, e mais uma vez Paulo soube como combinar polidez e
verdade, podendo de fato considerar-se feliz em expor os
seus argumentos diante de um soberano profundamente versado em questões
judaicas, e não ignorante acerca do início do cristianismo.
Saulo, o fariseu (v. 4,5). Paulo gostaria que a sua conversão e ministério
cristão fossem vistos contra o pano de fundo da sua história inicial como judeu
ortodoxo, adepto do partido mais rigoroso, o dos fariseus.
Embora fosse nativo de Tarso, cidade de gentios, a sua vida tinha
sido vivida entre os de seu povo, embora isso não excluísse influências
gregas.
Paulo entregou-se à esperança de Israel (v. 6-8). Ele não era nenhum
separatista perigoso, mas se apegava firmemente à esperança que se originava
nas promessas fundamentais dadas à nação (Gn 12—15) e que tiveram seu
cumprimento na ressurreição; pois desde o início Abraão tinha
aprendido a confiar no DEUS que dá vida aos mortos (Rm 4.16-25). A
nação ideal das 12 tribos (naquele momento representada pelo remanescente fiel)
nunca tinha aberto mão dessa esperança no desenrolar da sua adoração
a DEUS, e a ressurreição dos mortos é incrível somente para os que
não conhecem DEUS.
Saulo, o perseguidor (v. 9-11). Paulo volta à sua história e mostra que não
somente era fariseu, mas o grande líder da primeira perseguição geral
da igreja em Jerusalém.
Podemos observar os detalhes vívidos daquele período trágico e da sua fúria
contra eles, os cristãos. E difícil entender a relutância de alguns estudiosos
em admitir que a afirmação e quando eles eram condenados à morte eu
dava o meu voto contra eles signifique que Saulo, apesar de muito jovem,
era membro do Sinédrio, pois cortes inferiores não podiam sentenciar a
pena de morte.
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A
Vida e a Época do Apóstolo Paulo - 220.92 - Biografia - Ball. Charles Ferguson – A VIDA E OS
TEMPOS DO APÓSTOLO PAULO -
Charles Ferguson Ball - 1° ed. - Rio de Janeiro: Casa Publicadora das
Assembleias de DEUS, 1998. ISBN 85-263-0186-1 - Biografia. 2. História Bíblica.
Grande parte da
vida e da época de Paulo nos tem sido preservada no Novo Testamento,
principalmente nos escritos pessoais do apóstolo. Numa narrativa envolvente,
Charles Ferguson Ball apresenta, pormenorizadamente, a vida do grande apóstolo
dos gentios. Onde a história se cala, o autor busca prováveis detalhes em suas
pesquisas, mantendo sempre a conformidade com o registro bíblico.
OS PORTOES DO
OCIDENTE
A província da Cilícia estendia-se numa
estreita faixa de terra a nordeste do mar Mediterrâneo. Medindo apenas 112
quilômetros de norte a sul, alongava-se do ocidente para o oriente da Panfília,
indo até as montanhas da Síria. As águas azuis do Mediterrâneo banhavam as
costas ao sul, formadas de planícies férteis e montanhas onduladas, até chegar
aos sombrios montes Tauros.
Os rochedos, dos três lados da Cilícia, isolavam-na completamente de seus
vizinhos, exceto por duas conhecidas passagens nas montanhas.
As passagens eram fáceis de serem vigiadas, pois, através delas, só podia
transitar um veículo de cada vez e, mesmo assim, com dificuldade. Em todo o
Oriente eram mui afamadas como as guardiãs do único acesso, por terra, entre a
Síria e o Ocidente.
Na estrada para Antioquia, em direção ao sul, ficava a passagem conhecida como
o Portão da Síria. Todo o trânsito procedente da Ásia e do Sul tinha de ser
feito por mar ou pelas estradas montanhosas da Cilícia. Na extremidade
ocidental da Cilícia, cruzando os rochedos escarpados em direção às longínquas
Grécia e Europa, encontrava-se a outra passagem estreita, chamada Portão da
Cilícia ou Ciliciano.
Durante séculos, comerciantes e viajores entraram e saíram por esses portões.
Sua localização estratégica proporcionou imensos lucros à Cilícia. Entretanto,
por esses mesmos portões marcharam também os exércitos imperiais; e, em caso de
guerra, vencia a batalha o comandante que primeiro dominasse as estradas das
montanhas. A Cilícia fora conquistada e reconquistada muitas vezes. Disputada
por gregos e romanos, agora pertencia a Roma. Não obstante, o idioma falado nas
ruas das cidades continuou a ser o grego.
Se esses portões pudessem contar sua história, que formidável narrativa não
seria! Conquistadores e cruzados, soldados e mendigos, peregrinos e ladrões -
todos passavam por eles em suas viagens entre a Europa e a Ásia. Na verdade,
ali estava o portão de saída para o Ocidente.
O rio Cnido, nascido nas rochas de um vale profundo, ia saltando de saliência
em saliência até chegar às terras baixas do Sul. Ao longo do percurso,
reuniam-se-lhe outros rios menores, cada um transbordando com a neve derretida
das altas serranias dos montes Tauros. Assim aumentado, alargava-se e percorria
preguiçosamente seu caminho em direção ao mar.
Pequenas aldeias, fazendas e cabanas de barro escuro salpicavam a planície.
Para o ocidente, a terra era ondulada e menos fértil. Por não se prestar ao
cultivo, era usada como pastagem para o rebanho. Na direção leste, porém, o
solo era rico e as colheitas boas. Aninhada entre os picos altaneiros, cobertos
de neve, e o mar azul e quente, a Cilícia era um lugar mui agradável.
Tarso, a Cidade Natal de Paulo
Tarso, onde Paulo nasceu e foi criado, era a capital e principal cidade da
Cilícia. Era uma das maiores cidades do Império Romano. Hoje, não passa de uma
insignificante cidadezinha turca. Alguns de seus largos muros de proteção ainda
existem, mas em completa ruína, com flores e mato crescendo pelas frestas.
Fora da atual Tarso encontra-se uma ponte sob cujos arcos o rio Cnido correra
no passado. (Se essas pedras pudessem falar!) Hoje só podemos olhar as ruínas e
os registros históricos da cidade que abrigou Paulo em sua juventude, e
imaginar a influência que suas escolas, academias e ginásios exerceram sobre
ele.
Apesar de sua grandeza, Tarso não se destacava por sua antiguidade. Embora
fundada antes de Atenas e Roma, se comparada a Damasco, ou a Jerusalém, não
passava de uma criança. Ela experimentou suas primeiras glórias nos dias de
Alexandre, o Grande, quando muitos gregos abastados construíram ali suas
residências e palácios. A fama lhe proveio principalmente de seu entusiasmo
pela cultura. Suas escolas atraíam filósofos e professores de renome internacional.
A afirmação de que ofuscava qualquer cidade como centro cultural era bem
justificada.
Uma Cidade Famosa
Bem antes dos dias de Paulo, os filósofos e eruditos de Tarso já ensinavam
retórica, matemática, ética, gramática e música. Paulo ainda não brincava nas
ruas da cidade, quando grandes poetas, médicos, oradores e filósofos, treinados
nas escolas de Tarso, levavam-lhe o nome para outras terras. Era tão grande a
reputação da cidade que César Augusto, ele mesmo educado por Atenodoro de Tarso,
escolheu Nestor, outro educador da cidade, como mestre de seu filho.
Tarso possuía inúmeros prédios públicos além de palácios e casas humildes.
Havia ali um enorme teatro ao ar livre, construído para acomodar milhares de
pessoas, num grande espaço aberto, aos pés de uma encosta, com fileiras e
fileiras de bancos de mármore dispostos num largo semicírculo. Peças gregas
eram encenadas no palco central, atraindo multidões. Ali também se apresentava
a música da moda e liam-se poesias. O teatro ocupava um lugar importante na
vida de ricos e pobres.
Marco Antônio, famoso general romano, morara em Tarso. Gostava tanto da cidade,
que lhe deu autonomia; isto é, permitiu que seus cidadãos fizessem suas
próprias leis sem qualquer interferência de Roma e sem lhes cobrar quaisquer
impostos. O imperador Augusto, por sua vez, ficou tão impressionado com a
cultura da cidade que lhe permitiu ter seus próprios tribunais e nomear seus
magistrados. Tarso tornou-se um centro favorecido, despertando a inveja das
cidades vizinhas.
Sua fama não lhe provinha apenas da cultura. Tarso era também um centro
financeiro. As rotas comerciais davam-lhe proeminência. Nos dias de Paulo, o
rio Cnido era tão largo que navios de grande porte subiam por seu leito, cerca
de 19 quilômetros, e descarregavam suas mercadorias nos desembarcadouros da
cidade. O cais era um espetáculo pitoresco. Transitavam por aqui egípcios de
rosto acobreado, e africanos negros e fortes. Navios de Creta, Chipre, Rodes e
Jope carregavam em seu bojo uma estranha mistura de marinheiros alegres que
exaltavam a grandeza e o cosmopolitismo de Tarso.
Homens desciam o rio Cnido em balsas e barcos rústicos, transportando as
mercadorias de suas fazendas e oficinas. Eram os fardos transportados para os
navios e trocados por grãos, peles, lã, e barris de óleo e vinho. Os portos
eram uma confusão de homens e longas fileiras de jumentos, mulas e cavalos.
Quando o navio finalmente acabava de ser carregado, os gritos dos marinheiros e
estivadores enchiam o ar à medida que as cordas eram desamarradas e o barco
abria caminho no mar cintilante. Esse era o cotidiano no porto de Tarso.
O Barco Dourado de Cleópatra
O mais esplêndido navio que já aportara em Tarso era, agora, apenas uma
lembrança, mas ainda perdurava a profunda impressão que deixara. Ficou
conhecido como o barco dourado de Cleópatra, a lendária rainha do Egito. Ela
fora encontrar-se ali com Marco Antônio para seduzi-lo com os seus encantos.
Tinha os lábios pintados de vermelho e as unhas de um amarelo brilhante, cor de
açafrão. Por toda parte corria a fama de sua beleza.
Naquele dia longínquo, pessoas ansiosas ajuntavam-se às margens do rio,
procurando vislumbrar a belíssima rainha. O dia estava ensolarado e alegre, e o
céu, azul. No alto do mastro, uma grande vela de seda vermelha flutuava ao
sabor da brisa; flâmulas amarelas, carmesins, azuis e brancas esvoaçavam no
mastro principal da embarcação. Um espírito festivo permeava a cidade enquanto
o barco subia o rio. Os espectadores podiam ver a sua popa incrustada de ouro e
coberta por um dossel dourado. Sob o dossel, num divã, entre macias almofadas,
reclinava-se Cleópatra, enfeitada de jóias resplendentes.
Os largos remos, revestidos de prata, rebrilhavam, enquanto feriam aquelas
águas. Aquele fora um dia inesquecível. Sem dúvida, a história do seu esplendor
seria contada e recontada no decorrer dos anos.
Os Jogos
Os gregos e romanos gostavam de competições atléticas. Apreciavam tanto o
jovem que se destacava nas corridas quanto o homem que vencia uma batalha. De
seus heróis e campeões, erguiam estátuas e monumentos. A pista de corrida era
um lugar enorme, aberto, como um teatro. De um lado, enfileiravam-se as
arquibancadas, construídas em forma de estádio para as multidões que iam
assistir aos jogos e corridas. Milhares de jovens treinavam para os jogos, e
sua maior ambição era a conquista dos prêmios.
A leste da cidade, na encosta de um monte, um grande prédio erguia-se em toda a
sua magnificência. Era o ginásio - lugar onde os meninos aprendiam a ser ágeis
e fortes. Dos 16 aos 18 anos, os rapazes nada aprendiam além de atletismo.
Outras áreas da sua educação seriam cuidadas mais tarde. Afinal, o que mais
importava para os gregos e romanos era o condicionamento físico. Os meninos
aprendiam a correr, saltar, lutar e nadar. Havia ali banhos quentes e frios.
Depois dos jogos, eles banhavam-se e esfregavam o corpo com óleo de oliva.
O ginásio era um lugar animado; ressoava com os gritos e risos de centenas de
rapazinhos. O edifício era majestoso, com enormes pilares e estátuas esculpidas
em mármore, representando grandes mestres, filósofos e homens vigorosos. Os
meninos ficavam então cercados de exemplos de homens cultos e fortes - os
líderes da sua época.
A Grandeza de Paulo
De todos os homens ilustres de Tarso, produtos do ginásio e das famosas
escolas, ninguém foi maior que Paulo. Ele galgou alturas superiores a todos os
demais. Todos foram esquecidos e, apesar de tanta grandeza, deixaram apenas uma
pequena marca na história. O grande apóstolo de CRISTO, porém, cativou de tal
forma o coração de milhões de pessoas em todas as eras, e alçou-se a tal
proeminência, que a própria Tarso é lembrada, não por suas escolas e comércio,
mas porque Paulo ali viveu.
O Mundo de Paulo
Naqueles dias, toda a vida do mundo concentrava-se no Mediterrâneo. Todas
as grandes civilizações desenvolveram-se junto ao mar cujo nome aludia ao
centro da terra. A palavra Mediterrâneo é formada por dois vocábulos que,
juntos, significam "o meio da terra". Todos os interesses da vida
humana achavam-se concentrados numa estreita faixa que se estendia pela costa
sul da Europa, pela costa norte da África e pelas costas ocidentais da Síria e
Palestina. Além dessa fronteira, havia regiões inexploradas, onde viviam povos
bárbaros, que só entrariam na corrente da civilização anos mais tarde.
Três nações da época foram suficientemente grandes e fortes para deixar sua
marca sobre as demais: Roma, Grécia e Israel.
ROMA
Os romanos governavam o mundo. Conquistaram esse direito pela força dos
seus exércitos. Eles possuíam o dom da colonização e do governo (sua pequena
espada, gladium, fez sucesso e era eficiente), as estratégias de guerra era
infalível para as conquistas de seus exércitos.
Devido ao poder de suas legiões estacionadas em todas as colônias, eram os
donos do mundo. Embora poderosos, não se aproveitavam dos povos conquistados;
pelo contrário, procuravam integrá-los ao seu império, dando-lhes um lugar de
honra.
Roma enviou grandes construtores e arquitetos, que edificaram magníficas
estradas e levantaram prédios e templos por toda parte. As leis e instituições
políticas romanas eram famosas por sua justiça, garantindo o direito de todos
os cidadãos. Paulo apelou a esta lei, quando se tomou evidente o preconceito
dos tribunais da Judéia contra si.
O cenário, porém, não era inteiramente luminoso. Com o aumento do poder e
da riqueza, Roma tornou-se corrupta e frívola, presa à sensualidade, ao pecado
e ao luxo. Em consequência, o povo fez-se dolente e fraco. O império de que
tanto se orgulhavam desmoronou-se diante dos bárbaros vindos do Norte, que o
invadiram e saquearam. Mesmo nos dias de seu maior poderio, não tinham força
espiritual; deleitavam-se em prazeres vulgares e brutais, como as lutas de
gladiadores. Durante os feriados, os lutadores combatiam até a morte nas arenas.
No reinado de Trajano, dez mil gladiadores lutaram num período de apenas seis
meses. Lutavam entre si como tigres e leões, e milhares de espectadores
aplaudiam-nos enquanto mutuamente se matavam. Multidões acorriam ao Coliseu de
Roma para assistir à morte de cristãos devorados pelas feras.
Tanto por sua grandiosidade quanto por sua fraqueza, os romanos deixaram na
história a sua marca indelével. A seu favor deve ser dito que construíram o
maior império que o mundo já viu.
Grécia
Se os romanos foram os líderes mundiais no tocante à lei e ao governo, os
gregos lideraram na cultura e no conhecimento. A arte, a ciência e a literatura
desenvolveram-se mais na Grécia que em qualquer outra parte. Embora o império
fosse romano, a língua grega foi reconhecida como o idioma empregado pelas
pessoas cultas. Os eruditos de todas as nações orientais falavam e escreviam o
grego. Essa é a razão de o Antigo Testamento ter sido traduzido para o grego
muito antes do nascimento de CRISTO, e das cópias mais antigas do Novo Testamento
estarem em grego.
Os gregos eram um povo genial. Guiados por Alexandre, o Grande, conquistaram o
mundo e procuraram helenizá-lo. Desempenharam tão bem sua tarefa que, mesmo
após a morte de Alexandre e a divisão de seu império, uma porção da arte e da
literatura gregas permaneceu em cada nação. Os professores e filósofos gregos
eram os intelectuais reconhecidos da época. Eles divulgaram, em todas as
nações, a literatura, arquitetura e pensamento científico de seu país.
Muitos judeus, nos dias de Paulo, liam as Sagradas Escrituras na tradução grega
- a Septuaginta (Até mesmo JESUS usou suas citações) - pois o hebraico estava
se tornando rapidamente uma língua morta.
Quando o Cristianismo surgiu, toda praça de mercado tinha seu grupo de eruditos
gregos que se deleitavam em discutir palavras e frases, e cujo talento
degenerava em confusão. A balbúrdia era às vezes tão grande que milhares de
pessoas, tanto conquistadores como conquistados, abandonavam a crença em seus
deuses e sistemas filosóficos. As religiões pagãs achavam-se à beira de um
completo colapso, decadência e corrupção. Essa era a situação cultural do
mundo, quando JESUS e Paulo nasceram.
ISRAEL
A nação, porém, que mais marcou a civilização mundial foi Israel. Sua marca
jamais se apagará. Embora os judeus não tivessem poderio militar, destacaram-se
por sua religião. Dispersos por todas as terras, construíam sinagogas para
adorar a DEUS. Estrabão, um dos grandes historiadores da época de CRISTO,
escreveu: "E difícil encontrar um único lugar na terra que não haja
admitido essa tribo de homens e sido por ela influenciado".
Isso se dera devido ao fato de a Assíria, Babilônia e Roma terem invadido a
Palestina, e levado daqui milhares de judeus para o cativeiro. Onde quer que
fosse, o povo escolhido levava consigo as Sagradas Escrituras e as profecias de
um Messias vindouro.
Eram homens orgulhosos e exclusivistas, envolvendo-se em seus mantos de justiça
enquanto voltavam as costas ao grande propósito para o qual haviam sido
chamados: representar a DEUS entre os demais povos. Escrevendo aos Romanos,
Paulo resume o lugar de Israel no mundo, e aponta suas falhas em palavras
contundentes:
Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em
DEUS; e sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por
lei; e confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instruidor
dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na
lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas
que não se deve furtar, furtas?... Porque, como está escrito, o nome de DEUS é
blasfemado entre os gentios por causa de vós (Rm 2.17-21,24).
Embora seja penosamente óbvio o fracasso dos judeus em executar os planos
divinos, eles estabeleceram sinagogas desde a longínqua Babilônia até a cidade
de Roma. Na história do Pentecostes, os judeus que voltaram a Jerusalém,
abrangiam conterrâneos de todas as províncias do império romano:
Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, e Judéia, e
Capadócia, Ponto e Ásia. E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a
Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes
(At 2.9-11).
Lucas faz um resumo, dizendo que os judeus eram de "todas as nações que
estão debaixo do céu" (At 2.5).
Onde quer que os judeus construíssem suas sinagogas e cumprissem seus rituais,
estabeleciam um centro para a adoração do DEUS Único e Verdadeiro.
Sua presença no Império Romano foi de grande ajuda, servindo de porta para o
programa futuro da Igreja. Quando Paulo viajava para um novo local, sempre
procurava a sinagoga para pregar, e isso geralmente dava início a uma nova
igreja.
O Plano de DEUS
Eis aí um vislumbre do mundo em que Paulo nasceu. O cenário era de
confusão, conflito, insatisfação e necessidade - necessidade que não podia ser
satisfeita pela lei romana, erudição grega ou religião judaica.
Entretanto, DEUS decidiu enviar a este mundo um homem que, pelos seus dons
naturais, pôde cativar toda classe de pessoas. Com seus antecedentes e preparo,
estava apto a falar com autoridade aos romanos, gregos e hebreus. DEUS separou
esse homem, mudou todo o curso de sua vida e usou-o para fortalecer a Igreja de
maneira milagrosa. Saulo de Tarso, o escolhido de DEUS, tornou-se um dos maiores
pensadores e, certamente, o maior líder e teólogo da Igreja.
O LAR EM TARSO
Jamais foi escrita uma biografia completa do
apóstolo Paulo. Essa tarefa é simplesmente impossível por nos faltarem o início
e o fim de sua história. Nosso registro de suas atividades começa em sua
juventude, pouco antes de ele iniciar o apostolado. Foi aí que Lucas o conheceu
e incluiu-o em sua história da Igreja Primitiva. Além disso, só temos algumas
notas pessoais nas 13 epístolas eclesiásticas e pastorais escritas por ele em
diferentes partes do Império Romano. Apesar das muitas lacunas desses
registros, temos o suficiente para tornar o relato um dos mais emocionantes da
História.
Está claro que não houve monotonia na vida de Paulo. Sumariando esse período,
ele menciona vividamente alguns episódios:
Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui
açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma
noite e um dia passei no abismo. Em viagens muitas vezes, em perigos de rios,
em perigos de salteadores, em perigos dos da. minha nação, em perigos dos
gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em
perigos entre os falsos irmãos. Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas
vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez (2 Co 11.2427).
Em lugar algum, porém, esta história é inteiramente contada. Além do breve
relato de um naufrágio, os outros não são mencionados. Não há nenhuma narrativa
da noite e do dia terríveis passados em alto mar, agarrado talvez a um
destroço. Nem é feita a descrição dos assaltos nas passagens montanhosas, onde
os ladrões tornaram-se tão ameaçadores para os viajantes, que estes tinham de
se organizar em caravanas. A seguir vieram os rios caudalosos e as enchentes,
com apenas algumas pontes para cruzá-los. Para os de viva imaginação, essas
aventuras são verdadeiramente estimulantes!
Embora não haja registro da infância de Paulo, uma história muito interessante
pode ser montada a partir das informações colhidas da história, da tradição e
das notas pessoais nos escritos paulinos.
O Nascimento de Paulo
O grande apóstolo nasceu por volta do ano três de nossa era, no lar de um
piedoso casal, no bairro judeu de Tarso. As ruas eram estreitas e as casas
pobres, mas aquele dia foi de imensa felicidade para a família. Contemplaram o
rosto do filho, e sentiram-se satisfeitos e orgulhosos.
Embora vivessem numa cidade gentia, seus pais resolveram dedicá-lo ao serviço
de DEUS, e fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para educá-lo como um
verdadeiro israelita.
O pai pertencia à tribo de Benjamim e gabava-se disso sempre que os vizinhos
mencionavam suas árvores genealógicas. Todos sabiam que Saul, o primeiro rei de
Israel, era benjamita.
Apesar de morar em Tarso, a família considerava as montanhas orientais da
Palestina o seu verdadeiro lar como o faziam os judeus piedosos. Para eles,
Jerusalém era a cidade mais bela do mundo, pois ali estava a Casa de DEUS. Eles
enviavam ofertas para os reparos do Templo, e a cada ano planejavam visitar a
Cidade Santa por ocasião da Páscoa.
Oito dias após o nascimento do menino, os pais deram-lhe um nome. A cerimônia
foi seguida de uma ceia, para a qual todos os amigos e parentes foram
convidados, e cada um levou o seu presente. Ele recebeu o bom nome hebreu de
Saulo. Esse era um nome mui querido de todos os descendentes de Benjamim porque
assim se chamava o primeiro rei de Israel. Mas como viviam no mundo romano,
usaram também a forma latina do nome — Paulo.
Nos negócios, ele era Paulo, porque isso impressionava os gentios. Mas a mãe
sempre o chamava de Saulo, pois esse nome agradava-lhe o coração.
Primeiros Ensinamentos em Casa
O pai de Saulo era muito severo. Sendo fariseu, acreditava que os
mandamentos de Moisés, como interpretados pelos rabinos e escribas, deveriam
ser observados à risca.
Uma caixa metálica brilhante, medindo 2x7 centímetros, ficava pendurada no
batente de sua porta. Quando os visitantes chegavam, ou saíam, tocavam-na e
beijavam os dedos, resmungando algumas palavras da Escritura. Dentro da caixa,
escritos num pedaço de pergaminho, estavam versículos da lei de Moisés,
começando com aquelas palavras tão familiares: "Ouve, Israel, o Senhor
nosso DEUS é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu DEUS de todo o teu
coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder" (Dt 6.4-5). Esta
caixa era chamada de mezuzah. Antes de o pequeno Saulo ter idade suficiente
para falar, provavelmente já imitava os outros. Do colo da mãe, esticava o
bracinho roliço para tocar a caixa brilhante, beijando em seguida a mão como
vira outros fazerem. Prazenteira, a mãe sorria, acariciando-lhe a cabecinha.
À medida que Saulo crescia, aprendeu a ajoelhar-se com o rosto voltado à
distante Jerusalém e, com as mãos cruzadas à frente, já fazia uma oração pela
manhã e outra à noite. Quando perguntou a razão de ter de olhar para Jerusalém,
foi-lhe dito que o SANTO Templo estava ali, e que no Lugar SANTO, por trás da
grande cortina púrpura, DEUS habitava no meio de seu povo. O menino não
compreendia tudo, mas ficava impressionado porque a voz da mãe tornava-se
solene, e ela curvava a cabeça todas as vezes que falava de DEUS.
Ela também contava-lhe como o profeta Daniel, quando exilado numa nação gentia,
jamais se esquecera de abrir as janelas em direção à Cidade Santa, e falar com
o seu DEUS. Instado a não mais orar, recusou-se a obedecer o edito do rei e,
como castigo, foi lançado à cova dos leões. Mas as feras não lhe fizeram mal
algum, porque DEUS fechara-lhes a boca.
A mãe de Saulo contou-lhe as histórias de seu povo. Falou da opressão do Egito
e de como DEUS libertara o povo das mãos de Faraó, fazendo-o atravessar em
triunfo o mar Vermelho. Ela nunca se cansava de mencionar Saul, o rei de quem o
filho levava o nome, e como ele fora o mais alto, belo e majestoso de todos os
homens de Israel. Enfatizava repetidamente o fracasso dos juizes e a humildade
de Saul, o primeiro rei de Israel. "Por causa de sua humildade",
repetia-lhe a mãe, "ele foi honrado por DEUS".
Mas o fim trágico de Saul ficou gravado para sempre no coração de seu jovem
homônimo, numa advertência de como DEUS rejeita o que dEle se desvia para
buscar a própria glória. A mãe de Saulo costumava concluir seus ensinamentos,
citando a Escritura: "Aos que me honram honrarei, porém os que me
desprezam serão envilecidos" (1 Sm 2.30). De igual modo, contou a Saulo
sobre Abraão, o pai do seu povo; Moisés, o grande legislador; Gideão, Sansão e
a rainha Ester, filha de judeus pobres. Os heróis da nação judaica tornaram-se
parte dos seus pensamentos e da sua conversa diária. Suas histórias preferidas
eram as de aventuras e combates.
Quando o sol enorme e quente descia por trás dos morros da Panfília e as
estrelas surgiam no céu púrpura, era a hora de todo menino dormir. Saulo e a
irmã sentavam-se, então, nos joelhos da mãe e ouviam-na falar de Davi, o
pastorzinho que matara um urso e um leão que tentaram devorar-lhe as ovelhas.
Ela contava também sobre o grande rei Salomão, cuja glória maravilhava o mundo
inteiro; falava ainda sobre a rainha de Sabá que fora a Israel verificar se era
verdade tudo o que se dizia sobre a sabedoria e riqueza do rei Salomão.
Uma das histórias favoritas de Saulo era a do profeta Elias, que se escondera
numa caverna e fora alimentado pelos corvos. Num dia glorioso, no monte
Carmelo, com todos os profetas de Baal contra si, Elias pediu fogo do céu, e
mostrou ao povo quem era verdadeiramente o DEUS Todo-Poderoso.
Aos poucos, mas solidamente, foi-se desenvolvendo no menino a consciência de
que pertencia a um grande povo. Orgulhava-se de que, embora minoria em Tarso,
os judeus tinham Jeová por DEUS, que sempre os abençoava quando eles o
reverenciavam.
Nas longas noites de inverno em Tarso, com os postigos e portas bem fechados
para impedir a entrada dos ventos frios do Norte, a família reunia-se ao redor
da lâmpada de óleo que brilhava. A mãe tecia o pano para fazer um casaco para o
pequeno Saulo. Enquanto seus dedos guiavam os fios, contava aos filhos sobre a
túnica que Jacó dera a José, e como este, despertando os ciúmes dos irmãos,
fora por eles vendido ao Egito. Mas DEUS estava com José, que se tornou o
primeiro - ministro no governo de Faraó, rei do Egito. José foi o meio usado
para salvar o seu povo da grande fome que sobreviera à terra de Canaã.
Mãe alguma tinha uma reserva tão grande de histórias, nem jamais as contara com
tanto orgulho e convicção.
A Sinagoga
A mãe de Saulo levou-o à sinagoga quando ele atingiu a idade apropriada. Ao
chegar, lavaram os pés empoeirados e depois sentaram-se na seção das mulheres e
crianças, separada da dos homens adultos por uma treliça de pedra. Através da
treliça, ele podia ver o pai sentado no chão com os homens, ouvindo enquanto o
rabino lia a Lei, e dirigia-se à congregação.
Ouve, Israel, o Senhor nosso DEUS é o único Senhor. Amarás pois o Senhor teu
DEUS de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E
essas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as intimarás a
teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e
deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão e te serão
por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e
nas tuas portas (Dt 6.4-9).
O pequeno Saulo não compreendia muita coisa do que se passava na sinagoga. Mas
a mãe achava que ele deveria conhecê-la desde a mais tenra idade para, mais
tarde, sentir-se estimulado a frequentá-la regularmente. Ela podia imaginá-lo
dentro de poucos anos, sentado com os outros homens, discutindo os caminhos de
DEUS e, depois, como rabino, explicando as Escrituras. Seu coração estremecia
com o privilégio de educar um filho de Israel que frequentasse a sinagoga de
Tarso durante toda a sua vida.
Durante aqueles primeiros anos, a mãe de Saulo foi sua única professora. Olhos
puros fitavam olhos confiantes. E, assim, Saulo passou a viver conforme o
padrão escolhido pela mãe. Ela sabia que era seu dever levar o filho a conhecer
e a amar as Escrituras conforme ensinara Moisés:
Quando teu filho te perguntar pelo tempo adiante, dizendo: Quais são os
testemunhos, e estatutos e juízos que o Senhor nosso DEUS vos ordenou? Então
dirás a teu filho: Éramos servos de Faraó no Egito, porém o Senhor nos tirou
com mão forte do Egito
(Dt 6.20,21).
Os Ensinamentos do Pai
Os rabinos da antiguidade diziam que as lições em casa deviam começar aos
cinco anos. O pai seria o principal professor nesse período, cuidando da
educação do filho. A escola começou então oficialmente para Saulo nessa idade.
Depois disso, o aprendizado não se baseava tanto nas histórias, mas na
memorização de versículos do Antigo Testamento e dos cânticos da sinagoga. Os
salmos de Davi eram usados como hinos de adoração, e cada menino tinha de
aprendê-los, juntamente com os mandamentos de Moisés e as tradições dos grandes
rabinos.
Grande parte da educação resumia-se em decorar textos. Para Saulo, este
exercício iniciou-se aos cinco anos e continuou até os trinta. Os judeus não
precisavam estudar outros livros didáticos. As Escrituras continham todos os
conhecimentos relativos à vida. As histórias do seu povo eram o seu único
prazer, e extrair conhecimento de quaisquer outras fontes era desencorajado e
visto com desconfiança.
A primeira lição de Saulo, baseada num versículo de Deuteronômio, foi-lhe
transmitida em grego. Ele a repetiu várias vezes até decorá-la: "O que o
Senhor requer de mim, senão adorá- lo e andar em seus caminhos, amá-lo e
servi-lo de todo o meu coração e alma, e guardar os mandamentos que DEUS ordena
neste dia para o meu bem?"
Depois disso, Saulo decorou verso após verso das muitas promessas divinas, pois
os seus pais acreditavam que, se um judeu fosse bom e adorasse a DEUS, o Senhor
abençoaria sua casa, campos e negócios. Mas, se não amasse e adorasse ao
Senhor, certamente DEUS o castigaria, retirando-lhe sua bênção. Desde a
infância, Saulo foi levado a crer em tudo o que a Escritura dizia. Mais tarde,
não teve dificuldade em aceitar tudo o que ensinava o rabino.
Aos seis anos, seus pais o levaram pela mão à escola de rabinos. Com um olhar
de medo e saudade, o menino largou a mão da mãe, que o entregou ao professor. O
ambiente não era tão confortável como sua casa. O mestre era um estranho
barbudo. O pai ficou ali mais algum tempo, observando o filho sentar-se de
pernas cruzadas na companhia de outros trinta garotos, que olhavam fixamente à
face severa do mestre.
Os pais voltaram para casa experimentando uma mistura de sentimentos.
Orgulhavam- se pelo fato de o menino estar crescendo, mas entristeciam-se
porque o tempo de seu aprendizado no lar chegara ao fim. Todavia, sentiam-se
satisfeitos porque o filho ia ser educado como um verdadeiro hebreu, embora
estivesse numa cidade grega e distante do Templo de Jerusalém.
Diferentemente das escolas gregas, não havia na escola da sinagoga nem aula de
desenho nem de pintura. Traçar a figura de um homem, pássaro ou animal era
proibido pela Lei. Os jogos e esportes gregos também não tinham espaço nas
escolas rabínicas; eram costumes pagãos desprezados pelos eruditos judeus.
Em casa e na escola, Saulo aprendeu que a maior coisa do mundo era adorar a
DEUS de todo o coração e obedecer aos mandamentos de Moisés.
Não havia necessidade de carregar livros, pois nem o professor os possuía. Em
voz alta e monótona, este repetia as lições aos alunos até que tudo lhes
ficasse gravado na memória. Era repetir, repetir e repetir.
Como todos os meninos, Saulo fazia inúmeras perguntas. Seus pais encorajavam-no
a isso, especialmente no que dizia respeito aos rituais religiosos. Saulo devia
perguntar por que a mãe varria a casa e acendia a lâmpada, entregando esta
depois ao pai a fim de procurar migalhas em todos os aposentos. Por que comiam
pão sem fermento, com as cabeças cobertas, como se estivessem prontos a fugir
do inimigo? Por que a mãe acendia uma vela a cada noite, até que, depois de
oito noites, a casa ficasse toda iluminada? Por que esperavam tão ansiosamente
a lua nova? Ele perguntava todas essas coisas e muitas outras. O pai, muito
orgulhoso, explicava-lhe o significado de cada uma delas: como eles celebravam
os grandes dias de sua história, e como DEUS lhes ordenara que essas datas
fossem lembradas. Os judeus eram diferentes de todos os povos do mundo; nessa
diferença, repousava o seu orgulho e alegria.
A seguir, veio o aprendizado do alfabeto, tanto hebraico quanto grego. Se na
sinagoga, o hebraico era falado e lido, em casa e nas ruas, até os judeus
falavam o grego. Saulo teve, portanto, de aprender ambos os idiomas. O pai
retirava os rolos sagrados da caixa, entregava-os ao filho, e punha-se a
contemplá-lo satisfeito, enquanto o menino fazia a leitura na amada língua
hebraica.
O Dia de Sábado
Como as escolas não funcionavam aos sábados, as crianças judaicas esperavam
ansiosas por esse dia. Os cidadãos de Tarso não guardavam o sábado, e odiavam
os judeus por serem tão diferentes. O pai suspendia o trabalho mais cedo na
sexta-feira, e parecia contente ao ver a casa varrida e arrumada, os filhos
vestidos com as melhores roupas e a refeição da noite sobre a mesa. O dia de
descanso começava com o pôr-do-sol na sexta-feira e ia até o fim do sábado.
Quando a escuridão descia sobre a cidade, o som da trombeta era ouvido do alto
da sinagoga. Os pais de Saulo inclinavam-se juntos. Em seguida, o chefe de
família impetrava a bênção sobre o lar. Ato contínuo, lavava as mãos numa bacia
de água e colocava um pouco de vinho na taça. Reunidos em volta da mesa, todos
provavam do cálice. Então o pai dizia algumas palavras a respeito do Senhor e,
mergulhando um naco de pão no sal, oferecia-o a cada membro da família.
Esse era o começo do melhor dia da semana.
Eles sentavam-se para uma refeição composta de peixe, sopa, pão e frutas. Era o
dia de descanso solene e não se avistava nenhuma fumaça evolando-se das casas
judias, pois DEUS ordenara fosse o sábado um dia de repouso. Nenhum fogo era
aceso; nenhum alimento, cozido; e o pai declarava gravemente que quem
desobedecesse devia ser morto. Moisés não condenara à morte o homem flagrado
colhendo gravetos para acender o fogo no sábado?
Nesse dia, todos iam à sinagoga. Por trás da treliça que separava as mulheres e
crianças da parte principal do prédio, Saulo podia ver o pai no grande salão
onde ardia o castiçal de sete hastes. O pai removia os sapatos e amarrava
filactérios nos braços e na testa; colocava um xale azul na cabeça, e
voltava-se em direção a Jerusalém, para orar com os outros homens.
As portas eram então fechadas e, de algum ponto, uma voz cantava: "Bendito
o Senhor, o Rei do universo, que fez a luz e as trevas, que envia a paz e cria
todas as coisas e quem, na sua misericórdia, dá luz à terra; quem, na sua
bondade, renova dia a dia as obras da criação". Podia se ouvir dos lábios
dos ouvintes um "amém" em voz baixa, enquanto todas as cabeças
mantinham-se inclinadas.
Enquanto observava, Saulo viu um dos homens pegar um rolo grande de pergaminho
e fazer a leitura em hebraico. Era a lei de Moisés. Cada sentença era repetida
em grego a fim de que todos pudessem entender. A seguir, um dos principais da
sinagoga comentava o trecho lido. Às vezes, argumentava acaloradamente, citando
opiniões dos grandes rabinos. Eles também faziam perguntas difíceis e
procuravam respondê-las demonstrando grande autoridade.
Depois das perguntas, uma breve bênção despedia o povo que saía em silêncio. Às
vezes, reuniam-se nas casas, mas nunca passeavam a pé, já que era proibido
andar mais de 960 metros até 1,2 km nesse dia. Quando o sol se punha, o pai
reunia a família e orava por cada um em particular, pedindo a bênção de DEUS
sobre o dia que terminava.
O Rigor dos Fariseus
Todas as regras que Saulo aprendia na escola eram seguidas rigorosamente
pelo pai; este era meticuloso até na forma de lavar as mãos. No lar de Saulo,
havia mais rigor e disciplina que na maioria dos de seus amigos. Seu pai era
fariseu e decidira que o filho também o seria. Ser fariseu significava
pertencer a mais importante seita do Judaísmo.
Os saduceus pertenciam à classe alta e rica; eram a aristocracia; ocupavam a
maioria dos altos cargos, mas não se importavam com a fé nem com a moral.
Aceitavam as Escrituras de modo geral, mas não acreditavam no céu, nem nos
anjos, ou na vida após a morte. Os fariseus apiedavam-se deles; achavam que o
desejo de ser modernos virara-lhes a cabeça.
Por seu turno, os fariseus não só aceitavam integralmente as Escrituras, como
também as tradições orais dos rabinos. Diziam que as tradições originavam-se da
Palavra de DEUS. Eles estavam continuamente brigando e discutindo com os
saduceus, por acharem ter alcançado uma posição superior à de qualquer outra
classe. Orgulhosos e intolerantes, agradeciam a DEUS por não serem como os
demais.
Andar uma milha, carregar um graveto, ou acender o fogo no sábado era
considerado ofensa grave por Saulo e seu pai. Até mesmo comer um ovo posto por
uma galinha no sábado era considerado pecado. Saulo pensava, trabalhava e
crescia segundo os ensinamentos do farisaísmo. Preparou-se gradualmente para
liderar outros nessa tradição, sem jamais sonhar que, um dia, despojar-se-ia
dela como de algemas pesadas, liberto que seria por CRISTO.
Influências Gentias
Ao norte da cidade ficava a pista onde eram disputadas as provas de
atletismo. A cidade inteira comparecia para apreciar tais eventos. Menino algum
que crescesse em Tarso poderia fugir à influência desse lugar. Os jovens da
Grécia e de Roma gostavam tanto de correr, e davam a isso tamanha importância,
que um vencedor tornava-se herói nacional, e tinha uma estátua erguida em sua
honra.
Saulo foi tão influenciado por essa pista de corrida que, mais tarde, em seus
escritos, comparou a vida cristã a uma prova atlética. Considerou que a vida em
CRISTO tem um ponto de partida, uma pista e um alvo. O cristão não é alguém sem
rumo; tem um alvo diante de si e concentra-se na busca do prêmio. À medida que
a vida de Saulo aproximava-se do fim, sua mente voltava à pista. E ele escreveu
a Timóteo: "Completei a carreira" (2 Tm 4.7).
Saulo provavelmente nunca teve permissão para assistir a esses jogos. Era um
passatempo gentio e impróprio para um bom judeu, principalmente se fosse
fariseu. Não obstante, ele via os jovens gregos treinando para as corridas, e
não podia deixar de se interessar pelo vencedor.
O teatro também atraía milhares de pessoas cultas; o melhor no campo da música,
poesia e drama era apresentado ali. Os judeus, porém, não apreciavam tais
frivolidades. O pai de Saulo considerava-as supérfluas e inadequadas ao filho
de um fariseu.
Quando permitia que Saulo fosse ao ginásio ver os rapazes saltar, correr e
praticar todo tipo de esportes, dizia-lhe que o exercício físico era necessário
à formação de bons soldados, mas o jovem que estudasse a lei de Moisés seria um
homem melhor.
O Filho da Lei
Quando Saulo completou 13 anos, sua vida passou para um estádio totalmente
novo. Aos poucos foi tomando consciência das responsabilidades da vida pessoal
e comunitária. Conforme ensinavam os rabinos, ao chegar aos 13 anos, o jovem
torna-se responsável por seus atos e já pode ser admitido na seção masculina da
sinagoga. A fim de marcar tal mudança, Saulo foi levado à sinagoga para uma
cerimônia conhecida atualmente como bar mitzvah.
O pai disse-lhe que até então ele estivera aprendendo a Lei, mas chegara a hora
de obedecê-la. Chegara a hora da responsabilidade. Como bons pais, tinham feito
o possível para educá-lo na pureza da fé. Agora, achava-se ele por conta
própria aos olhos da Lei Mosaica; se deixasse de obedecê-la, poderia ser
castigado pelo tribunal da sinagoga como qualquer outro judeu.
Depois de submetido a um exame solene, Saulo foi declarado apto para ter o
filactério amarrado no braço, como sinal de haver adentrado a idade adulta. Na
sinagoga mal iluminada, os amigos da família reuniram-se enquanto o pai
apresentava o filho ao rabino. Este prendeu a pequena caixa preta na parte
superior do braço de Saulo, e recomendou-lhe que nunca entrasse na sinagoga sem
ela. A seguir, pela primeira vez em público, ele procedeu à leitura da Tora,
mostrando ter sido educado como um verdadeiro hebreu. Depois disso, o rabino -
seu velho amigo e professor fez-lhe um discurso, no qual resumiu muitas das
lições que lhe ensinara. Com palavras de conselho, o líder espiritual acolheu-o
na comunhão da sinagoga.
Na audiência, por trás da treliça, a mãe de Saulo ouviu seu menino ser
declarado filho da Lei. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Nunca mais ele se
sentaria ao seu lado na sinagoga. Ela suspirou e chorou. Saulo tornara-se
repentinamente um homem, e mãe alguma está preparada para tal mudança.
Na caixa presa ao braço de Saulo, havia trinta versículos da Escritura,
escritos em pergaminho, começando com a admoestação:
E te será por sinal sobre tua mão, e por lembrança entre teus olhos; para que a
lei do Senhor esteja em tua boca: porquanto com mão forte o Senhor te tirou do
Egito. Portanto, tu guardarás este estatuto (Êx 13 9,10).
Veio a seguir a festa em casa; os amigos levaram presentes e deram-lhe os
parabéns. Era a aceitação pública de Saulo como homem. Ele passou assim da
infância para a idade adulta aos olhos de seu povo. Não era mais um simples
escolar, e sim um estudante. Não abandonou os estudos; só mudou a maneira de
estudar.
Fabricante de Tendas
Afirma o ditado rabínico: "O homem que não ensina um ofício ao filho
quer que ele se tome ladrão, pois quem não trabalha para ganhar o próprio pão
come o de outrem". Sabendo disso, o pai de Saulo desejava que o filho
tivesse uma profissão. Ele era fabricante de tendas e fora morar em Tarso
atraído pela fama de seus tecelões. Essa reputação devia-se ao fato de o
cilicium, um tipo especial de tecido, ser um produto da província. Era
fabricado com o fio comprido do pêlo das cabras que pasciam nos montes da
Cilícia, a oeste e ao norte da cidade. O cilicium era considerado o melhor
material para tendas, pois, de tão duro, tornava-se quase impermeável. Também
era empregado nas velas dos barcos e trajes externos dos pescadores e
marinheiros.
Havia uma pequena oficina nos fundos da casa de Saulo. Era um barracão comprido
e baixo, aberto numa das extremidades, contendo um tear, rodas para tecer o
fio, caldeirões para tingir o pelo de cabra, e um banco para cortar o couro e
costurar as tendas. Fardos de peles de cabra amontoavam-se num canto, do jeito
que haviam saído das mãos do pastor.
Várias vezes ao ano, o pai de Saulo viajava para as montanhas distantes, a fim
de comprar peles. Ele sabia onde encontrar os pastores que vendiam 3s peles de
pêlo mais longo e resistente de toda a Cilícia. Completadas as compras,
carregava os jumentos com sua mercadoria e voltava à oficina. O pêlo tinha de
ser então penteado e preparado para ser tecido. Uma parte era tingida de
vermelho, outras de amarelo, roxo e verde, para atrair os mercadores. O fio era
depois enrolado em fusos e preparado para as lançadeiras e o grande tear
manual.
Preparado o tecido, vinha a fabricação da tenda. Saulo observava o pai cortar o
material em tiras e costurá-lo com um fio bem forte e uma grande agulha de
bronze. O segredo era costurar tão bem e tão apertado, que nem uma gota de
chuva pudesse atravessar, ou vento algum rasgar o material. Não era fácil fazer
uma boa tenda. Era preciso prepará-la, enrolar a corda, fazer as estacas e
colocar ilhoses e ganchos de couro para pendurar caldeirões, panelas e arreios.
A seguir vinham as decorações. Algumas tendas eram coloridas com largas faixas
amarelas, vermelhas ou azuis. Mas o tipo comum não tinha faixas, era sempre
preto ou cinza.
Com o passar do tempo, Saulo tornou-se um perito na profissão e podia fabricar
tendas tão fortes e boas quanto as de seu pai. Ele nunca se esqueceu do seu
ofício e, anos mais tarde, voltou a praticá-lo em muitas das cidades que
visitou, pois não aceitava dinheiro das igrejas para o seu sustento. Um
fabricante de tendas de Tarso era sempre bem recebido. Sua habilidade nessa
profissão foi reconhecida em todo o mundo.
Todavia, seus pais queriam que ele fosse um professor da Lei de Moisés, um
rabino. Naqueles dias, todo rabino tinha um ofício, pois não era costume
aceitar dinheiro pelo ensino.
Não use a Lei como enxada para cavar - disse um dos mais famosos.
Faça qualquer tipo de trabalho - disse outro. - Nem que seja tirar a pele de um
cavalo à beira da estrada; e não diga para justificar-se: "Sou um
sacerdote".
Os Feriados Judeus
A semana mais importante do ano era a da Páscoa. Era uma grande data
nacional; tinha um profundo significado religioso. A Páscoa celebrava a
libertação dos israelitas do cativeiro no Egito. É claro que havia outros
feriados, tal como o da Festa dos Tabernáculos, quando as crianças iam ao campo
com os pais, e cortavam ramos para construir uma cabana em cima da casa, na
parte plana do teto. Isso era feito para que se lembrassem da época distante,
quando os judeus, ao deixarem o Egito, passaram a morar em tendas. Sem uma
habitação permanente, vaguearam entre as rochas do deserto.
Havia também a Festa da Colheita, o Purim e o Dia da Expiação. Para cada grande
dia, vários peregrinos piedosos deixavam Tarso e voltavam a Jerusalém. Saulo
era ainda muito jovem para ir; mas, desde que Tarso ficava junto à estrada
principal, ele se acostumara a ver centenas de judeus descansando ali, à noite,
na longa viagem para o Sul. Por várias vezes, tios, primos e outros parentes
haviam pernoitado em sua casa. Saulo lembrava-se de como, pelo menos uma vez ao
ano, seu pai juntava-se a esses grupos de viajantes. Ele embrulhava suas melhores
roupas a fim de vesti-las quando chegasse a Jerusalém, e depois arreava um
jumento e partia alegre pela estrada que o levaria através das montanhas até o
SANTO Templo.
Após meses de ausência, o pai voltava admirado, cheio de histórias de grandes
aventuras, que entreteriam a família durante semanas. O menino, que nunca
estivera em Jerusalém, ouvia extasiado as descrições entusiasmadas do pai e
pensava que a grande cidade deveria estar logo abaixo do céu em glória e
grandeza. O pai falava do toque das trombetas dos sacerdotes, ao iniciar-se o
dia de adoração no Templo, e dos coros dos levitas, vestidos de branco,
cantando os grandes salmos nos degraus de mármore.
As ruas ficavam cheias de multidões alegres; turistas de todas as partes do
mundo. Costumes interessantes podiam ser vistos em toda parte, e línguas
estrangeiras eram ouvidas quando os grupos se juntavam nos pontos de reunião. O
jovem Saulo ouvia essas histórias até sua mente ficar repleta de sonhos e
visões. Quando ele também poderia ir a Jerusalém?
- Seja paciente, meu filho, não falta muito para você poder ir com seu pai -
dizia-lhe a
mãe.
De fato, na última viagem, o pai fizera alguns planos. Ele sempre esperara e
ambicionara tirar o filho da cidade gentia de Tarso, dando-lhe a vantagem de
uma escola em Jerusalém. Todo bom rabino fora treinado ali. Para ser bom
professor era necessário ter contato com os grandes rabinos do templo.
Desde que a mãe concordara com o plano, não havia mais dúvidas. Os negócios na
fábrica de tendas tinham sido bons e, para o filho, não queria nada menos que o
melhor. Enquanto estivera em Jerusalém, só se falava do grande Gamaliel. Muitos
o procuraram durante os feriados para ouvir-lhe a sabedoria. Não se tratava de
um simples boato. Seus discursos eram poderosos, pois ele falava com
autoridade. Ficou então decidido que Saulo iria para a Cidade Santa, e talvez
retornasse mais tarde como um dos grandes rabinos de Israel.
NA ESCOLA DE
GAMALIEL
A sinagoga de Tarso muito se orgulhou ao saber
que um de seus rapazes iria estudar com os grandes rabinos de Jerusalém. Muitos
dos vizinhos tinham amigos ou parentes nesta cidade, e ofereceram-se para
escrever-lhes contando sobre a ida de Saulo, e pedindo-lhes que o acolhessem.
Todos queriam ser úteis, e na ceia, oferecida em sua homenagem, levaram-lhe
presentes, apresentaram-lhe as congratulações e até lhe ofereceram alguns
conselhos. Todos sabiam que Saulo era um bom estudante e dele esperavam grandes
coisas. Foram unânimes em afirmar que, um dia, ele voltaria para falar, e
talvez ensinar, em sua própria sinagoga.
Semanas antes da viagem, a mãe de Saulo ocupou-se fazendo-lhe roupas novas e
arrumando as coisas que ele deveria usar na cidade grande. Ter várias mudas de
roupas era sinal de riqueza e boa educação, e ela queria que o filho tivesse um
bom começo. Medo e alegria subiam e desciam pelos corredores de sua alma,
perseguindo-se mutuamente, quando pensava no filho saindo de casa e no grande
vazio que lhe ficaria; mas ao mesmo tempo, pensava na honra e privilégio de
sacrificar-se, como é dever de toda mãe, Para que o filho convivesse com os
poderosos de Israel. O pai mantinha-se silencioso e distante, mas um brilho de
orgulho surgia em seus olhos quando imaginava seu menino na escola de Gamaliel.
Muitas vezes Saulo observara as caravanas carregadas com todo tipo de
mercadorias, partindo de manhã bem cedo, para aproveitar ao máximo a luz do
dia. Houve ocasiões em que olhara para aquelas caravanas com inveja; agora iria
partir com elas, e talvez permanecesse fora durante vários anos. Uma sensação
de medo e solidão o envolvera. Era a primeira vez que ficaria longe de casa. E
o mundo, agora, lhe parecia tão grande. Todavia, não estava triste, pois eram
tidos como bem-aventurados os que podiam fazer a viagem. Nem todos tinham tais
oportunidades ou um futuro assim promissor.
Para o leste, numa faixa branca e estreita, a estrada estendia-se pela vasta
planície e desaparecia nos montes distantes. Um grito alegre elevou-se da
caravana, enquanto os peregrinos acenavam com ramos verdes àqueles que tinham
ido à sua despedida.
A Despedida
Saulo juntou-se à estranha caravana de velhos e jovens, ricos e pobres que,
vagarosamente, iam deixando Tarso para trás. Seus olhos encheram-se de lágrimas
enquanto, repetidas vezes, voltava-se para acenar aos pais, até que a longa
estrada fez com que estes e a cidade desaparecessem de vista. O pequeno grupo
continuou marchando lentamente, rindo, conversando e trocando histórias. Mas o
coração de Saulo estava tão pesado que ele mal disse uma palavra o dia inteiro.
Pensava em sua casa e em seus pais. Como tinham sido bons, e quão
cuidadosamente protegeram-lhe a vida contra tudo que fosse errado! Agora,
porém, estava por conta própria, e sua ambição era fazer com que os pais se
orgulhassem dele. Jamais esqueceria as lágrimas da mãe em sua despedida.
O sol já se punha quando os peregrinos se aproximaram da cidade de Adana, a
cerca de 32 quilômetros de casa, e armaram as tendas para passar a noite.
Alguns mais ricos foram até a estalagem de Adana, mas a maioria acampou fora
dos muros da cidade. A estalagem era um simples espaço aberto, cercado por um
muro. No meio do cercado havia um poço, e ao longo do muro alinhavam-se
pequenos pórticos em forma de arco, onde os viajantes se deitaram a fim de
passar a noite. Não havia qualquer tipo de mobília. Cada um desenrolava sua
esteira, preparando o próprio leito; todos levavam panelas e potes para
cozinhar. Pelo menos estavam a salvo de ladrões.
Aquele era um bando interessante de viajores. Havia um velho mendigo com seu
bordão e roupas em frangalhos. Fizera a viagem muitas vezes e nada mais o
surpreendia. Havia também o menino de olhos vivazes, que viajava com o pai.
Montavam cavalos e mantinham-se longe dos outros, pois eram ricos. E o mercador
gordo, de turbante que, com uma faca na cinta, andava ao lado de suas mulas
carregadas. Parecia desconfiar das pessoas e não falava muito. Em sua maioria,
porém, os viajantes eram alegres e tagarelas, e os dias iam-se passando
rapidamente. Cheios de expectativas, os viajantes pensavam no fim da jornada.
Atravessando Terras Históricas
Viajaram dia após dia, armando as tendas e levantando acampamento. As
pedras que pavimentavam a estrada eram lisas e gastas, pois os exércitos de
várias nações haviam marchado sobre elas. Mercadores com seus camelos
caminhavam por essa estrada. Levas de escravos cansados, presos uns aos outros
com correntes, tinham sido impelidos como gado ao longo desse mesmo caminho,
até que seus pés sangrassem feridos. No quarto dia, os viajantes
aproximar-se-iam do litoral, pois a estrada passava por uma larga baía de águas
azuis, na extremidade oriental do Mediterrâneo. Em breve, voltar-se-iam para o
sul, nas fronteiras da Cilícia.
A sua frente, levantavam-se as serranias da Síria. A estrada serpenteava pelos
morros, subindo de saliência em saliência, até chegar a uma passagem estreita e
difícil, que marcava a fronteira entre a sua província e a Síria. Era o Grande
Portão da Síria. Depois de atravessar essa passagem, Saulo estaria do outro
lado das montanhas que haviam sido a fronteira do seu mundo.
A velha cidade de Antioquia ficava logo adiante, estranha e diferente com seus
muros maciços, parecendo uma fortaleza no alto de um morro. Antioquia era a
capital da Síria. Seus teatros e templos eram mais esplêndidos que os de Tarso.
Herodes, o Grande, de Jerusalém, pavimentara a rua principal e a enfeitara com
pilares de mármore. A cidade era belíssima, e ainda mais rica que Tarso.
De Antioquia, eles seguiram para a estrada elevada de Damasco e depois pelas
montanhas, até aproximarem-se da Terra Prometida. As neves do Monte Hermom
brilhavam à distância, muito claras ao sol; e as florestas do Líbano, com suas
lindas árvores de cedro, fizeram-no lembrar dos salmos que conhecia e tanto
amava.
Chegaram a Nazaré, uma cidade de hospedadas, onde as caravanas sempre
pernoitavam. Mas não passava de uma cidadezinha e não tinha boa reputação. Os
viajantes apressaram-se por chegar ao rio Jordão. Aí, finalmente, Saulo estava
chegando às terras que a história dos judeus tornara famosas. Ele pensou em
Josué que, muitos anos antes, guiara os israelitas para uma terra que manava
leite e mel. O monte Tabor, com suas densas florestas, fora onde Débora e
Baraque reuniram dez mil homens e derrotaram Sísera com seus carros de ferro.
Ao sul do Tabor ficava o vale de Jezreel, salpicado de vilarejos e campos
verdejantes. Grandes batalhas travaram-se ali. À distância adivinhava-se o
monte Gilboa, onde o rei Saul jogara-se contra a própria espada, depois de
perder uma difícil batalha.
O povo de Samaria era hostil aos judeus. Por isso, evitando atravessar a
região, os viajantes que iam para a Cidade Santa passavam para a margem leste
do rio Jordão, entrando em Decápolis e Peréia. Deixando rapidamente Samaria,
Saulo e seus companheiros chegaram ao lugar onde, mil anos antes, os israelitas
haviam cruzado o Jordão. O grupo entrou alegremente nas águas frias, como fazem
os viajantes judeus até hoje. Atravessaram para o outro lado, e Saulo pôde,
enfim, pisar pela primeira vez a terra tão amada pelos benjamitas. Aqui ficava
a cidade que fora inexpugnável -Jerico - mas cujos muros caíram ao som das
trombetas de Josué. Aqui também localizava-se Gilgal, onde o povo reunira-se
para coroar Davi. Cada pedra, ribeiro, vale e colina tinha alguma história
preciosa ao coração do judeu. E Saulo viu, pela primeira vez, a terra onde seu
povo tornara-se grande e mui poderoso. Para além de Jerico, a terra tomava-se
mais inóspita e a planície estreitava-se num vale cercado por montes íngremes e
próximos. A estrada mostrava-se sinuosa como uma serpente, e eles corriam o
risco de se depararem com bandos de salteadores. A subida era íngreme e os
viajantes estavam cansados, mas alegravam-se com a perspectiva de poderem ver,
dentro em breve, o monte das Oliveiras e a cidade mais bela da terra.
A Cidade de DEUS
Finalmente, do alto da estrada, avistaram a Cidade de DEUS, construída
sobre um monte mais baixo que o das Oliveiras. Do outro lado do vale profundo,
seus muros, torres e prédios abobadados apresentaram-se magníficos à luz
dourada do sol poente. Entusiasmados, os peregrinos entreolharam-se com olhos
úmidos. Experimentaram o mesmo ímpeto de alegria e orgulho pela grandeza da sua
terra nativa. Algumas das cúpulas e torres eram revestidas de puro ouro. Do
alto da montanha, Saulo contemplou o outro lado do vale do Cidrom e viu o pátio
do templo; do ponto mais elevado, avistou também o prédio onde, sob as asas
estendidas dos querubins de ouro, habitara Jeová.
Enquanto apreciava com interesse e reverência o cenário, o grupo de peregrinos
começou a cantar um dos salmos que, através dos séculos, os viajantes entoavam
ao aproximar- se dos muros de Jerusalém:
De bela e alta situação, alegria de toda terra é o monte Sião aos lados do
norte, a cidade do grande Rei. Dai voltas a Sião, ide ao redor dela; contai as
suas torres. Notai bem os seus antemuros, percorrei os seus palácios, para que
tudo narreis à geração seguinte. Porque este DEUS é o nosso DEUS para todo o
sempre; ele será nosso guia até a morte (SI 48.2,12-14).
O Templo
Na manhã seguinte, quando o sol surgiu no céu oriental, as ruas já estavam
coalhadas de gente. Três toques de trombeta soaram dentro dos muros do Templo,
proclamando o amanhecer de um novo dia de adoração. Eram necessários vinte
homens para abrir os portões do templo. Quando as portas maciças giraram nos
gonzos, a multidão invadiu os pátios externos. Saulo achou-se pela primeira vez
no Templo do Senhor, e a primeira coisa que viu foi o sacrifício matutino
queimando sobre o altar. Erguendo os olhos à cobertura dourada do Lugar SANTO,
ele fez as orações matinais com uma sensação de força e proximidade que nunca
antes experimentara.
Naquele lugar, os hinos de Israel pareciam ganhar um novo significado:
Quão amáveis são os teus tabernáculos, SENHOR dos Exércitos! A minha alma está
anelante e desfalece pelos átrios do SENHOR; o meu coração e a minha carne
clamam pelo DEUS vivo! Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si
e para sua prole junto dos teus altares, SENHOR dos Exércitos, Rei meu e DEUS
meu. Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvar-te-ão continuamente
(Sela). Porque vale mais um dia nos teus átrios do que em outra parte, mil.
Preferiria estar à porta da Casa do meu DEUS, a habitar nas tendas da
impiedade... Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do Senhor (SI
84.1-4,10; 122.1).
O grande pátio externo era calçado com pedras coloridas, e muitos adoradores de
países estrangeiros encontravam-se ali. Junto aos muros havia redis e gaiolas
de madeira, onde se vendiam ovelhas e pombos para os sacrifícios diários. Havia
também cambistas trocando moedas romanas e gregas pelo dinheiro de Israel, pois
só a moeda hebraica era aceita como oferta no Templo. Ali comprava-se e
vendia-se, pechinchava-se e enganava-se, pois os vendedores de animais não
partilhavam a mesma reverência dos visitantes.
Saulo jamais vira pilares tão esplêndidos, nem um piso de tamanha
magnificência; ajuntamentos de sacerdotes vestidos de branco, e tantas pilhas
de dinheiro. Na extremidade do pátio, uma longa fileira de degraus levava a um
terraço superior.
Quando Saulo aproximou-se deles, leu em grego e latim estas palavras: "O
estrangeiro não deve subir estes degraus, sob pena de morte".
Ele subiu ao pátio interno. Nem sonhava que um dia, exatamente ali, sua vida
seria ameaçada. As mulheres não podiam ir além desse segundo pátio, mas Saulo
cruzou-o rapidamente, subiu um segundo lance de escadas e passou pela Porta de
Nicanor, feita de prata e ouro puros, entrando no pátio dos homens e dos
sacerdotes.
Ali, no centro do pavimento, estava o grande altar onde o fogo nunca se
apagava. Suas pedras eram rústicas, pois nunca martelo ou cinzel as tocara. Ele
viu as mesas onde as ovelhas eram mortas, e as longas filas de adoradores que
carregavam ovelhas ou pombos, esperando a sua vez, enquanto os sacerdotes
ofereciam os sacrifícios um a um.
A seguir, noutro terraço ainda mais alto, ficava o magnífico Lugar SANTO. Suas
pedras eram revestidas de ouro. Grandes pilares brancos sustentavam o teto. Do
lado de dentro havia uma porta de ouro puro, coberta por uma cortina externa
tecida de azul e escarlate, roxo e branco. Por trás da cortina e da porta de
ouro, onde ninguém podia entrar, exceto o sumo sacerdote uma vez ao ano, havia
coisas tão sagradas que Saulo teve até medo de olhar para aquele lado.
Ajoelhou-se com os olhos fechados e o rosto no chão, profundamente comovido,
orando ao Senhor DEUS que habitava no Lugar SANTO.
Saulo sabia que a construção do Templo iniciara-se 40 anos antes, mas ainda não
havia sido concluída. Havia casas para os sacerdotes e os guardas; era uma
cidade dentro da cidade. O número de sacerdotes chegava a vinte mil e o de
levitas e guardas era ainda maior. Cada homem tinha de servir apenas duas
semanas no ano; portanto, não ficavam sobrecarregados, exceto nas grandes
festas, quando todos deviam estar presentes. Os levitas eram cantores, músicos
ou porteiros.
Essa não era uma simples sinagoga, mas o centro cultural de uma grande nação. O
tesouro do Templo era o lugar mais seguro do mundo para se guardar ouro e
joias. Ricos presentes de judeus abastados, pratos de ouro de príncipes
estrangeiros, e pilhas de artigos preciosos, enviados de todas as terras,
achavam-se aí custodiados. As ofertas diárias dos adoradores, recolhidas dos
gazofilácios, eram também depositadas na sala do tesouro.
No pátio externo, havia muitos pórticos com colunatas onde multidões se
aglomeravam para ouvir os rabinos. Ouviam um deles por algum tempo e depois iam
ouvir outro. Algumas vezes, o rabino falava com voz clara e forte, outras, com
voz baixa e fraca. Alguns eram oradores, atraindo grandes multidões; outros
tinham apenas pequenos grupos, atraídos mais por sua sabedoria que por seu
timbre de voz. Enquanto passava de um para outro, Saulo não ouviu nada de novo.
Era praticamente a mesma coisa que aprendera em Tarso. Nada questionou, pois
nunca duvidara do conhecimento desses grandes homens. Fora ali para adorar aos
seus pés. Só quando o sol já descambava no horizonte e o sacrifício noturno
terminava, é que ele deixou os pátios. Aquela era, para ele, a Casa de DEUS.
Chegara finalmente ao templo dourado.
Passou dias e dias nos pátios do Senhor, aprendendo tudo sobre a adoração a
DEUS. Impressionava-se cada dia mais com a beleza e o esplendor do lugar.
Chegaria a hora quando poderia dizer que conhecia e amava cada pedra do Templo.
Enquanto Saulo adorava diante do altar, sua ambição de ensinar a Lei de DEUS
foi tornando-se cada vez mais forte. Muitas vezes imaginava-se como um rabino
famoso, sentado num dos alpendres fechados, interpretando a Lei de DEUS ao
povo, mostrando que dominava perfeitamente o conhecimento de todas as eras.
A Escola de Gamaliel
Dentre os muitos rabinos de Jerusalém, o pai de Saulo escolhera Gamaliel.
Em primeiro lugar porque, sendo fariseu, advertiria Saulo contra os saduceus;
em segundo, pela grande reputação de sua sabedoria e bondade; e, em terceiro,
porque era filho do rabino Simeão, e neto do rabino mais culto que já houvera
em Israel. O avô Hillel morrera há muito tempo, mas todas as opiniões modernas
ainda baseavam-se no que ele dissera ou escrevera. Ser neto de um mestre tão
ilustre dava a Gamaliel um prestígio que ninguém mais possuía.
Gamaliel era um homem de meia-idade, forte e vigoroso. O povo o considerava
tanto que o chamava de rabino. Embora fosse um fariseu severo, era justo e mais
tolerante que a maioria de seus pares. Anos mais tarde, quando o apóstolo Pedro
fosse julgado perante o Sinédrio por falar de JESUS, Gamaliel aconselharia seus
colegas a deixá-lo em paz: "Agora vos digo: Dai de mão a estes homens,
deixai-os; porque se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas,
se é de DEUS, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura,
achados lutando contra DEUS" (At 5-38-39).
É certo que Gamaliel seguiu os passos do pai e do avô em sua tolerância; havia,
porém, rabinos mais severos e inflexíveis. O rabino Shammai era tão estreito de
mente que foi chamado de "o Presilha". Ele prendia seus seguidores
com tantas regras, que a religião tornara-se-lhes enorme fardo. Hillel, por
outro lado, como fosse bondoso, generoso e tolerante, recebeu o título de
"o Afrouxador". Ele iniciara como porteiro, carregando fardos pesados
nas costas, e fora tão pobre nos tempos de estudante, que não podia sequer
comprar roupas quentes.
Gamaliel olhou para o jovem Saulo e, com um amável bem-vindo, recebeu-o em sua
escola. Logo Gamaliel descobriu que Saulo era um aluno dedicado e obediente. Em
pouco tempo, já demonstrava grande simpatia pelo novo aluno, esperando deste
grandes resultados. Percebeu no rapaz reais possibilidades de liderança. Saulo
era tão sincero em seu aprendizado que cativou o coração do professor. Mais que
isso, os pais de Saulo haviam cuidado para que o filho considerasse a religião
o ponto mais importante de sua vida. Alguns estudantes não nutriam um
verdadeiro amor pela cultura e adoração. Mas em Saulo havia um sentimento quase
fanático, que o levava a ser piedoso não só nos dias de festas, mas em todo o
tempo. Paulatinamente, o Zelo de Saulo foi-se fortalecendo. Ele descobriu que a
vida em Jerusalém era diferente da de Tarso. Aqui ninguém ria nem perseguia os
judeus. Não havia nada que lhe prejudicasse o desenvolvimento. Não havia
influência gentia; só encorajamento para mergulhar cada vez mais fundo nos
mistérios do Judaísmo.
Durante os meses que se seguiram, o rapazinho transformou-se num homem
independente. Gamaliel alegrou-se com seu progresso. Passado um ano, os pais de
Saulo viajaram a Jerusalém para festejar a Páscoa, mas o principal motivo era
ver o filho. Aquele foi um grande dia! Ficaram observando orgulhosos, enquanto
Saulo discutia vários aspectos da Páscoa. Julgaram ouvir uma nota de autoridade
em sua voz, ao ouvi-lo discorrer sobre as coisas que aprendera de Gamaliel,
provando-as com passagens das Escrituras. Ele sabia até apresentar argumentos
contra os saduceus. Concluíram que Saulo sempre soubera raciocinar e argumentar
com lógica, mas agora isso estava sendo trazido à superfície. Que satisfação
lhes dava o filho!
Predição do Messias Vindouro
Quando analisado, o Judaísmo parecia uma simples religião de promessas e
esperanças. Em seu âmago, a tristeza mesclava-se com o esplendor. Todo judeu
sentia pesadamente o jugo de Roma; ansiava e orava pelo dia em que a nação
seria liberta, e os exércitos de Roma, expulsos. Os mesmos peregrinos que se
gloriavam no Templo também choravam amargamente em suas casas, clamando ao
Senhor por livramento. Todos os sacrifícios e cerimônias perderiam o
significado se os judeus tivessem de continuar sob o jugo de um rei
estrangeiro. Certamente, um dia DEUS haveria de livrar e abençoar o seu povo,
como fizera no passado.
Havia um grupo organizado de judeus patriotas, conhecidos como zelotes, que
realizavam reuniões secretas e planejavam uma revolta contra Roma. As
autoridades romanas mantinham-se ocupadas em procurá-los e castigá-los. Mas a
sociedade trabalhava ocultamente, mantendo viva a esperança de que, um dia,
DEUS enviaria um libertador poderoso como Moisés, que tiraria seu povo do
cativeiro e novamente o exaltaria sobre todas as nações.
Havia uma coisa que Gamaliel ensinava com grande convicção. Não era um simples
raio de esperança. Tratava-se do ensinamento dos antigos profetas sobre a vinda
de um líder enviado por DEUS. Ele reuniria o povo de todas as partes do mundo
para expulsar os romanos, e reinaria em Jerusalém para todo o sempre. Essa era
a promessa que DEUS fizera a Davi: seu trono jamais desapareceria, por mais
negro que o céu se tornasse. Esse grande Redentor, que traria a salvação a
Israel, era o Messias.
Saulo sabia que a vinda do Messias tinha sido mencionada pelos profetas há mais
de mil anos. E Gamaliel falava disso mais que qualquer rabino de Tarso, pois o
esperava a qualquer momento. O sábio professor lia passagem após passagem sobre
o CRISTO nos profetas, e até descobria promessas de sua vinda na Tora. Contava
como seria o Messias e como julgaria todas as nações. Ele esmagaria o mal e
reinaria com justiça.
Todo judeu sabia que o Messias pertenceria a tribo real de Judá, e nasceria em
Belém, pois o profeta Miquéias predissera-o claramente. O professor de Saulo
contou-lhe que, quando Ele viesse, ficaria oculto por algum tempo. A seguir,
reuniria o povo e marcharia sobre Jerusalém, para dispersar os romanos e reinar
para sempre pelo poder de DEUS.
Duas Opiniões
O que Saulo não sabia, até então, é que os rabinos estavam divididos em
suas opiniões sobre o Messias. Alguns liam que Ele seria um príncipe poderoso,
livrando seu povo pela guerra, e que as montanhas seriam tingidas de vermelho
com o sangue dos seus inimigos. Certos rabinos chegavam a afirmar que chamas
sairiam de sua boca para destruir os opositores.
Havia um grupo menor, porém, que estava muito confuso com certas passagens,
como o capítulo 53 de Isaías e o Salmo 22. Esses versículos deixavam claro que
o Messias muito sofreria. Ao mesmo tempo, ninguém podia negar que Ele viria
para reinar com poder. Portanto, cresceu a idéia de que haveria dois Messias -
um sofredor; e o outro, um rei triunfante. Nas sinagogas e nos alpendres
fechados do Templo, essa diferença era discutida e defendida com grande
eloquência pelos eruditos.
Saulo começou a ver muito claramente que as esperanças da nação dependiam desse
Salvador vindouro. Passou então a procurar zelosamente um líder e guerreiro,
que reunisse grandes exércitos para lutar contra Roma. Os rabinos contavam
muitas histórias sobre o Messias que estava para vir. Algumas delas não
passavam de sonhos absurdos e tolos. Outras eram fantásticas e irreais, não se
baseando de modo algum nas promessas de DEUS. As últimas eram produto da
imaginação de um povo oprimido, que não compreendia os caminhos de DEUS. Alguns
dos rabinos odiavam tanto os romanos, que descreviam o Messias fazendo toda
sorte de crueldades contra estes, a fim de vingar os judeus.
Os anos gastos por Saulo nos estudos foram cheios de reverência, mas, até certo
ponto, também de rotina e monotonia. Não havia incentivo para desenvolver
qualquer coisa original; o estudo servia apenas para aumentar a capacidade de
sua memória. Com esse treinamento, não é de surpreender que a vida de Saulo se
tornasse cada vez mais estreita.
Os fariseus eram a sua única companhia e, pouco a pouco, achou-se ele
mergulhado cada vez mais nas regras humanas. Seu gosto pela discussão fez com
que se transformasse no centro de muitas disputas. Sempre que surgia a
oportunidade de defender os sacerdotes ou rabinos, ou o sistema de adoração do
Templo contra os estrangeiros, Saulo entrava na arena com a língua afiada e o
espírito em chamas.
A Volta de Saulo a Tarso
Exigia-se que os professores estudassem dez anos para que fossem
considerados aptos a lecionar. Depois disso, ainda era necessário muito tempo
para se construir boa reputação e falar com autoridade. Antes de chegar aos 25
anos, Saulo voltou para sua casa em Tarso.
Seus dias de estudo e aprendizado jamais terminariam. Como, porém, estivera
bastante tempo com Gamaliel, já possuía um amplo e profundo conhecimento das
opiniões dos grandes rabinos. Sentiu então que já podia firmar-se sobre os próprios
pés. Aprendera e vira muita coisa. Conhecera pessoas de todo o mundo e
tornara-se um excelente aluno de sua história, especialmente em relação ao
Império Romano. Chegara a hora de deixar Jerusalém e os grandes rabinos, e
retornar a Tarso levando o conhecimento e a experiência que adquirira. Voltaria
a fabricar tendas com o pai, na esperança de que sua cultura o tornasse
conhecido e procurado como rabino em Tarso.
De uma coisa tinha certeza - a única esperança para sua nação era a vinda do
Messias. Entre os judeus piedosos, esse era o tópico principal das conversas.
Em cada coração havia um anseio profundo. Alguns até achavam que Ele já tivesse
descido à terra, e estivesse apenas aguardando o momento marcado por DEUS para
se apresentar à nação.
OS INÍCIOS DA
IGREJA
Saulo deixou Jerusalém e voltou a Tarso
provavelmente em 26 A.D. Não era ainda um rabino, pois não tinha idade
suficiente para ocupar tal posição. Mas tomou lugar junto aos homens da
sinagoga, sentando-se nas principais cadeiras. Foi reconhecido por todos como
um culto e jovem judeu, pois retornava da fonte do conhecimento. À medida que
crescesse em idade e experiência, poderia ser aceito como rabino; mas até lá,
dedicar-se-ia ao comércio de tecelão, costurando tendas e vendendo-as no mercado.
Saulo morou em Tarso durante nove ou dez anos, aumentando o seu zelo por Israel
e ganhando o respeito dos amigos. Todos estavam certos de que ele viria a ser o
seu líder um dia. Na sinagoga, seus argumentos já eram ouvidos com maior
interesse que os do rabino. Era uma voz nova Que surgia, e seu contato com o
grande Gamaliel dera-lhe uma fama que poucos poderiam alcançar. Tudo que
precisava agora era da autoridade conferida pela vida adulta; dentro de poucos
anos, seria um líder destacado em Tarso.
Alvorada da Era Cristã
Enquanto Saulo aguardava pacientemente em Tarso, um evento da maior
importância teve lugar na Palestina. JESUS, da pequena cidade de Nazaré,
reunira ao redor de si um grupo de amigos; a maioria, seguidores de João
Batista. Este de tal maneira havia pregado que milhares de pessoas o aceitaram
como profeta de DEUS, talvez comparável a Isaías ou a Jeremias. Ele tinha
muitos discípulos e o seu ministério era conhecido em toda a zona rural.
Quando, porém, apareceu JESUS, João saiu de cena, apontando o Nazareno como o
Messias há muito esperado. Durante algum tempo, houve grande entusiasmo, e
alguns se perguntavam se JESUS os guiaria na revolta contra Roma. Mas em vez
disso, Ele reuniu alguns discípulos e retirou-se para o campo a fim de ensiná-los
sobre o reino dos céus.
Três meses mais tarde, JESUS foi ao Templo de Jerusalém e, contemplando-o em
toda a sua beleza, ousou contradizer grande parte dos ensinamentos dos rabinos.
Falara com tanta segurança que ofendeu os sacerdotes. De fato, deixara-os tão
zangados que todas as sinagogas foram instruídas para que não o recebessem em
suas reuniões. Os sacerdotes e rabinos tentaram desesperadamente apanhá-lo em
alguma contradição com respeito ao sábado a fim de condená-lo à morte.
Ao conhecer os rabinos do SANTO Templo, Saulo passou a nutrir por eles o maior
respeito. A interpretação que faziam das Escrituras era para ele algo
inquestionável, divino. Isso não aconteceu com JESUS. A cada passo, Ele entrava
em conflito com as tradições dos homens e, quando falava, era com a autoridade
de DEUS. Os líderes religiosos estavam irados porque JESUS afirmava ser DEUS, e
confirmava tal alegação com prodígios, sinais e maravilhas. Alguns diziam que o
Nazareno merecia a morte pois, corajosamente, os havia desafiado a destruir o
Templo que levara 49 anos para ser construído. Ouviram-no dizer claramente que
o reconstruiria em três dias.
Era fácil para alguns ignorá-lo, acreditando-o louco. Mas a questão era que
muitos dentre o povo ouviram-no pregar, e agora testemunhavam que Ele
alimentara mais de cinco mil pessoas com apenas cinco pães e dois peixinhos.
Milhares criam que Ele era o Messias prometido, e dispunham-se a lutar contra
Roma, sob a sua liderança. Alguns diziam que JESUS só conseguia atrair a
escória - publicanos, pecadores e indivíduos de reputação duvidosa. Mas era
sabido que diversas autoridades e rabinos também o haviam procurado em segredo;
muitos destes foram transformados e saíram a pregar que JESUS era, de fato, o
Messias de Israel.
Os Ensinamentos de JESUS
Chegou então a hora! JESUS fez um grande discurso, proclamando os
princípios do seu reino. O sermão era revolucionário; colocava a palavra de
JESUS acima da de Moisés. Para o judeu isso era inconcebível e tão pecaminoso
quanto uma blasfêmia. Não havia dúvidas: Ele merecia morrer! Infringira o
sábado, afirmara perdoar pecados e, diante dos fariseus, admitira ser o
Messias, o Filho de DEUS!
JESUS repreendeu repetidamente os fariseus e saduceus, usando uma linguagem
contundente e enérgica. Em certa ocasião, chamou-os de "sepulcros
caiados" e "raça de víboras" (Mt 23.27,33). Disse-lhes que não
eram filhos de DEUS, mas do diabo (Jo 8.44). Não é de surpreender que os
rabinos o odiassem tanto; não podiam se sentir confortáveis em sua presença.
Quando o viam, desmanchavam-se em ódio por não suportarem a luz de sua
sabedoria. Em seus conselhos, eles já o haviam condenado à morte.
Os rabinos diziam que homem algum podia ensinar antes de haver passado muitos
anos na escola de Jerusalém. Saulo fora educado desse modo. Mas ali estava o
Homem da Galiléia. Ele falava com mais autoridade que todos os rabinos, e era
capaz de curar todo tipo de enfermidade. Alguns tinham visto Lázaro depois de
ressurreto, e não podiam negar um fato por demais notório e evidente. Mas como
JESUS jamais frequentara tal escola, acusaram-no de estar ensinando sem
autorização. Os sacerdotes ordenaram ao povo que não mais desse ouvido aos seus
ensinamentos.
Quando, porém, os coxos passavam a andar, e os cegos a enxergar, regra alguma,
mesmo as estabelecidas pelo sumo sacerdote, era capaz de manter os necessitados
longe de JESUS. Estes chegavam aos milhares, e retornavam para suas casas
curados de todas as suas enfermidades, proclamando a todos que haviam
encontrado o Messias. E Ele os curara!
Durante três maravilhosos anos, JESUS andou pelos campos, pregando na Judéia,
Samaria, Decápolis, Galiléia e Peréia. Sua fama espalhara-se por toda a terra,
e os líderes de Israel já não sabiam o que fazer. Chegou então o dia quando Ele
entrou em Jerusalém sob a aclamação do povo. Gritavam para quem quisesse ouvir
que o seu rei chegara. Essa seria talvez a centelha que levaria o povo a
revoltar-se contra Roma.
JESUS, entretanto, foi direto ao Templo, e escandalizou deliberadamente °s
sacerdotes. Fazendo um chicote de cordas trançadas, passou a açoitar os
vendedores de pombas e ovelhas que se achavam nos pátios do santuário. Com um
grito de indignação, derrubou as mesas dos cambistas, fazendo as moedas rolarem
pelo pavimento multicolorido. O povo ficou ali parado, com medo, pois ninguém
jamais ousara perturbar o SANTO Templo daquela maneira. Os sacerdotes e rabinos
encheram-se de horror e indignação. Os adoradores haviam assistido a uma
demonstração de autoridade que jamais esqueceriam. Muitos dos israelitas sentiam-se
incomodados com os redis de ovelhas e gaiolas de pombas que profanavam a Casa
de DEUS. Há muito que os sacerdotes já deveriam ter endireitado as coisas. Mas
ninguém tivera coragem.
A raiva dos sacerdotes transbordou. Quiseram pegá-lo, mas temiam a multidão,
pois a maioria considerava-o profeta. Em toda a história dos judeus, ninguém
jamais pronunciara palavras tão cortantes. JESUS acusou os líderes de colocarem
pesados fardos sobre o povo; fardos estes que eles nem ao menos se dignavam a
mover com o dedo mínimo. Faziam obras para serem vistos pelos homens; desejavam
sempre os primeiros lugares na sinagoga, e gostavam de ser chamados de rabinos.
Com o fogo do céu rebrilhando nos olhos, JESUS pronunciou infortúnios sobre os
escribas e fariseus, chamando-os de hipócritas. Eles fechavam o reino dos céus
aos homens; não entravam e ainda serviam de obstáculo aos que o desejavam.
Chamou-os ainda de guias cegos, pois limpavam o lado de fora do copo enquanto o
seu interior continuava sujo; eram tão estreitos de visão, que coavam o
mosquito, mas engoliam o camelo.
A Crucificação
Não é de admirar que os sacerdotes e rabinos hajam se reunido no palácio de
Caifás, para planejar furtivamente a prisão e morte de JESUS, antes que o povo
se amotinasse. Foi nessa ocasião que Judas fez um trato com eles para
entregar-lhes o Senhor por trinta moedas de prata.
No Getsêmani, o Messias orava ajoelhado, enquanto os discípulos dormiam. Os
inimigos chegaram em meio à oração. Guiados por Judas, entraram no horto com
espadas e porretes. O traidor sabia que JESUS ia sempre orar no Getsêmani. A
multidão estava decidida a levá-lo à força ao sumo sacerdote.
O Sinédrio foi convocado no palácio do sumo sacerdote. Não queriam deixar a
reunião para o dia seguinte, temendo que o povo viesse a sabê-lo e exigisse a
soltura de JESUS. Agora que as autoridades tinham-no em seu poder, cuidariam
para que nada os detivesse. O tribunal reuniu-se então à noite, e a sentença
foi lida: "Morte ao Nazareno!"
Porém, segundo a lei romana, nenhum tribunal judaico tinha competência jurídica
para aplicar a pena morte. Por conseguinte, era necessário levar JESUS a
Pilatos. No entanto, ao saber que JESUS era galileu, o governador romano, para
livrar-se daquela responsabilidade, enviou-o a Herodes, representante de César
em toda a Galiléia. O rei Herodes, porém, mandou-o de volta a Pilatos que,
procurando agradar os judeus, entregou-lhes o Senhor para que fosse
crucificado. A execução se deu num monte chamado Calvário (ou Caveira), não
muito longe dos muros da cidade.
Com a morte de JESUS, os sacerdotes e rabinos suspiraram aliviados. O problema
estava finalmente resolvido. O povo não mais seria perturbado pelo falso
CRISTO. Isso seria o fim do pequeno grupo que o seguia. Por sentirem-se
desanimados e derrotados, seus discípulos retornaram à vida antiga mais
mistificados que nunca; o coração pesava-lhes de tristeza pela forma como tudo
terminara.
A RESSURREIÇÃO E A ASCENSÃO
No primeiro dia da semana, findo o sábado, o
pequeno e abatido grupo ganhou vida com o maior milagre já ocorrido: JESUS saíra
da sepultura e aparecera aos discípulos! Eles experimentaram então o sabor da
vitória. Esta certeza jamais os abandonaria; levaria-os a preferir a morte a
negar o que tinham visto com os próprios olhos.
Durante quarenta dias, o Salvador encontrou-se com os discípulos, provando-lhes
a realidade de sua ressurreição, e fortalecendo-lhes a fé. Mas veio o dia em
que Ele os deixou, pois tinha de retomar o seu lugar na glória do Pai. Diante
deles, JESUS subiu aos céus até ser ocultado por uma nuvem.
Antes de deixá-los, porém, prometera-lhes que, em breve, receberiam o dom do
ESPÍRITO SANTO que os habilitaria a pregar o Evangelho a partir de Jerusalém
até alcançar os confins da terra.
O Pentecostes
O pequeno grupo de crentes reuniu-se em Jerusalém para orar e esperar o dom
prometido. Certa manhã, chegada a festa de Pentecostes, reuniram-se eles
novamente para orar. De súbito, o poder de DEUS sacudiu o lugar, e o ESPÍRITO
SANTO desceu sobre eles. A experiência foi tão tremenda Que os discípulos
gritaram de alegria. E era tão forte o poder de DEUS, que eles o louvam em
línguas estranhas. Esse milagre era outra evidência de que o Senhor continuava
no meio deles, cumprindo sua promessa.
Diante do milagre, uma multidão reuniu-se à volta dos discípulos. Alguns diziam
que estes pareciam tão felizes que deviam estar embriagados. A fim de
justificar o estranho evento, Pedro pôs-se de pé e começou a pregar para aquela
enorme audiência.
Ele explicou-lhes que a vinda do ESPÍRITO SANTO era um cumprimento da profecia.
Em seguida, acusou-os de haverem matado o Messias. Contou-lhes também como DEUS
ressuscitara a JESUS em cumprimento às palavras de Davi. Pedro terminou o
sermão, dizendo que todos os seguidores de JESUS eram testemunhas de sua
ressurreição. E, agora, anunciavam o Evangelho com a total aprovação do céu.
Quando Pedro terminou o sermão, muitos dos presentes, profundamente comovidos,
perguntaram-lhe o que deveriam fazer.
"Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de JESUS
CRISTO" foi a resposta (At 2.38). Eles arrependeram-se, deixando-se
convencer pelo ESPÍRITO de DEUS quanto à veracidade das palavras do apóstolo.
Aquele foi um grande dia para os seguidores de JESUS. Era o início da Igreja.
Em poucas frases, Lucas faz uma bela descrição da alegria e júbilo que tomaram
conta dos primeiros cristãos.
Esse não foi o único milagre a fortalecer a fé dos primeiros cristãos. Pedro e
os demais discípulos saíram a pregar, e muitos prodígios e sinais eram feitos
por seu intermédio em nome de JESUS. Os inimigos empenharam-se ao máximo para
anular o testemunho da Igreja. Os sacerdotes e rabinos opunham-se-lhes
violentamente. Mas em vão. Pois os adeptos da "nova seita", como eram
chamados, inclusive já se reuniam no primeiro dia da semana, e não aos sábados,
pois fora num domingo que o Senhor ressuscitara dentre os mortos.
A Vida dos Primeiros Cristãos
A vida dos primeiros cristãos era marcada pela simplicidade e amor. Eles
procuravam viver como JESUS vivera. Havia entre si um laço tão forte, unindo-os
fraternalmente, que o seu coração transbordava de alegria. Sua vida era uma
oração contínua, levando-os testemunhar zelosamente de CRISTO onde quer que
fossem.
A Igreja crescia diariamente à medida que o povo ouvia o Evangelho. Os
discípulos falavam de CRISTO no Templo e nas casas. No trabalho, continuavam a
dar testemunho da graça salvadora. O poder de DEUS acompanhava suas palavras de
modo que, em toda parte, homens e mulheres eram atraídos a CRISTO mediante o
contato com estes homens simples, mas convictos.
Os discípulos tinham agora uma mensagem para pregar. Mensagem esta que lhes
transformara as vidas e dera-lhes não só esperança para esta vida como também a
promessa de ressurreição depois da morte.
Onde quer que fossem, saudavam-se com a palavra maranatha: "O Senhor
Vem". A vinda do Senhor era a sua única esperança, pois JESUS prometera
voltar. E enquanto o observavam subir ao céu, foram consolados pelos entes
angelicais com estas palavras: "Varões galileus, por que estais olhando
para as alturas? Esse JESUS que dentre vós foi assunto ao céu, assim virá do
modo como o vistes subir" (At 1.11).
A Igreja vivia cada dia como se o Salvador fosse voltar a qualquer hora, pois a
promessa de sua volta causara-lhes profunda impressão, purificando-os e
afastando-os deste mundo. A promessa encheu o horizonte de suas vidas,
levando-os a se dedicarem a CRISTO.
Mas nem tudo andava bem com os membros da Igreja Primitiva. Eram olhados com
desconfiança e ódio pelos fariseus e saduceus e por todos os líderes de Israel.
Os inimigos de JESUS continuavam a ser inimigos de sua Igreja, e empenhavam-se
em esmagar os que eram do "Caminho".
OS MINISTÉRIOS DE PEDRO E JOÃO
Certo dia, quando Pedro e João subiam ao Templo
na hora da oração, um mendigo, coxo de nascença, achava-se sentado à porta do
santuário, pedindo esmolas. Era seu costume mendigar todos os dias, e tudo que
esperava era uma ajuda para sustentar-se. Mas Pedro, movido pelo poder de DEUS,
curou o homem daquela enfermidade.
Imediatamente, formou-se um grande ajuntamento em volta dos discípulos, pois
todos estavam cheios de assombro e admiração. Pedro aproveitou-se da
oportunidade e, colocando-se num dos pórticos do pátio externo, onde os rabinos
geralmente ensinavam, pregou-lhes um sermão. O tema do seu discurso era JESUS,
o Messias.
Pedro deixou bem claro ao povo que o poder de curar não era dele, mas do
Senhor. E continuou a falar, mostrando-lhes que o DEUS de Abraão, Isaque e Jacó
glorificara a seu Filho, JESUS, a quem haviam entregue a Pilatos, e condenado à
morte. Contou-lhes como DEUS levantara a JESUS da sepultura e o levara para o
céu, onde permaneceria até que as profecias fossem cumpridas. Então, Ele
voltará para o seu povo, trazendo juízo sobre todos os seus inimigos. Em
seguida, Pedro convidou o povo a arrepender-se e a converter-se, para que os
seus pecados fossem apagados. Através desse testemunho, cerca de cinco mil pessoas
creram. E, assim, a Igreja crescia com espantosa rapidez.
Os sacerdotes, as autoridades do Templo e os saduceus, que não criam na vida
além-túmulo, enfureceram-se com o atrevimento daqueles homens que, embora não
fossem rabinos, pregavam a ressurreição de JESUS. Por isso, enviaram os guardas
do Templo para suspender a reunião e prender ambos os discípulos.
No dia seguinte, os discípulos foram levados diante do conselho, composto de
setenta membros, que lhes perguntou com que autoridade faziam tais coisas. Eles
responderam que ensinavam e curavam em nome do Senhor JESUS. Pedro, que jamais
perdia uma oportunidade, pregou o Evangelho de CRISTO diante do Sinédrio. Ao
ouvir-lhes a declaração, o Conselho percebeu que, embora indoutos, falavam
corajosamente. Maravilhados, disseram entre si que tal coragem devia-se ao fato
de eles haverem estado com JESUS. A autoridade com que JESUS falava permanecia
em sua lembrança. Resolveram, pois, adverti-los a que não mais testemunhassem
em nome de JESUS. Em seguida, libertaram-nos. Pois sabiam que o coxo era
conhecido, e condenar os que haviam operado tão grande milagre poderia provocar
a ira da multidão.
Novos crentes iam sendo acrescentados à Igreja. O poder do ESPÍRITO que operava
nos discípulos, juntamente com o exemplo destes, levou grande número de pessoas
a converter-se. A sua fé era confirmada por muitos milagres.
Os saduceus fizeram uma segunda tentativa de extinguir a nova fé. Lançaram os
apóstolos na prisão. Mas ficaram abalados ao saber que um anjo os libertara, e
que já se encontravam na companhia dos outros discípulos.
Crescimento Contínuo da Igreja Perseguida
Quanto mais os líderes judeus tentavam esmagar a Igreja, mais atiçavam-lhe
a chama. A ressurreição do Senhor dera ao povo a esperança e a segurança que antes
não existiam. Todos os anseios de Israel, profecias, sacrifícios e esperanças
foram cumpridos em JESUS. Contudo, a nação perdera a sua maior oportunidade,
rejeitando-o. Esse Evangelho, hoje tão evidente para milhões de cristãos,
estava apenas brotando no coração dos judeus.
Com a pregação do Evangelho, muitos estavam vendo, pela primeira vez, o
cumprimento de suas esperanças. Presos pela terceira vez, os discípulos foram
reconduzidos ao Sinédrio, sob a acusação de haverem desobedecido à ordem de não
pregar. Pedro colocou-se corajosamente diante do grupo e, em sua defesa,
proclamou de novo a ressurreição de CRISTO, responsabilizando os membros do
Conselho pela sua morte.
Ofendidos com tais palavras, eles pediram a morte dos discípulos. Finalmente
poderiam acabar com aquela seita, silenciando-lhe os principais pregadores e
líderes. Com calma e bom senso, Gamaliel, o famoso rabino que instruíra a Saulo
de Tarso, advertiu o Conselho. Lembrou- lhe de que outrora DEUS levantara
profetas que, embora rejeitados pelo povo, haviam cumprido fielmente a sua
missão. Aconselhou-os, pois, a soltarem os discípulos. Se a mensagem que
pregavam fosse de DEUS, nem o Sinédrio poderia destruí-la; e se não o fosse, a
seita desapareceria como tantas outras no passado. Sua conclusão foi tão
amorosa quanto sábia. Após açoitar os discípulos, o Conselho os deixou ir com
uma advertência.
A medida que a Igreja crescia e a perseguição aumentava, também elevava-se o
número de necessitados. Os apóstolos perceberam então que quase não lhes
sobrava tempo para outra coisa senão para socorrer os mais carentes. A fim de
terem mais tempo para a pregação e o ensino, indicaram sete diáconos para
atender aos pobres. Esse foi o início da organização do ministério
eclesiástico. DEUS abençoou a iniciativa dos apóstolos, usando-a para
fortalecer o seu povo.
O Ódio do mundo
Como nunca foi popular ser um verdadeiro cristão, os seguidores de JESUS
passaram a ser odiados e rejeitados pela sociedade. Eram demitidos de seus
empregos e tinham dificuldade em garantir o seu o sustento. Como sempre
houvesse necessitados, agrupavam-se para se protegerem e se encorajarem
mutuamente. Naqueles primeiros dias, o amor e o desprendimento eram tão reais,
que muitos vendiam seus bens e traziam o dinheiro para o fundo comum a fim de
socorrer os menos afortunados.
Ondas de ódio e perseguição sucediam-se ameaçando a Igreja. Alguns membros eram
tão fracos em suas convicções que, pensando apenas na segurança e conforto
pessoais, voltaram para o Judaísmo. A maioria, contudo, permaneceu sólida como
as rochas em dias de tempestade.
Cada vez que o braço armado do inimigo se erguia, DEUS suscitava outros heróis
para levar adiante a sua obra. Quando Herodes, ao perseguir a Igreja, mandou
que se degolasse a Tiago, irmão de João, julgou ter extinto para sempre o
trabalho do Senhor. Mas o relato da história, feito por Lucas em Atos,
encerra-se com esta afirmação: "Entretanto a palavra do Senhor crescia e
se multiplicava" (At 12.24).
Quanto maior a perseguição, maior o crescimento da Igreja. Muitas vezes, os
cristãos tiveram de adorar a DEUS em segredo, mas nunca vacilavam. Quando algum
pregador era preso, os outros reuniam-se para orar. O Senhor sempre lhes ouvia
as orações, abençoava o seu povo, e usava as dificuldades para fortalecer a
Igreja.
O Cristianismo contudo não ficou restrito a Jerusalém. Os que ouviram a
pregação de Pedro, no Dia de Pentecostes, procediam de todo o Império Romano. E
levaram as boas novas do Evangelho aonde quer que fossem.
LUTANDO CONTRA
DEUS
Quando ainda estava em Tarso, Saulo ouvira
várias histórias sobre JESUS. Algumas eram fantasiosas, pois as histórias
costumam desvirtuar-se quando transmitidas oralmente. Muitos dos amigos da
sinagoga haviam assistido as festas em Jerusalém, e sabiam o que estava
acontecendo no Templo. Na sua volta, Saulo e os principais da sinagoga foram
informados sobre o impostor de Nazaré, e ficaram enfurecidos com a idéia de que
alguém havia tido a coragem de profanar os pátios da Casa de DEUS com um ensino
tão blasfemo. Além disso, tal homem não tinha o direito de ensinar, pois não
aprendera com os rabinos. Todavia, todos que o ouviam, confirmavam: ninguém
jamais dissera palavras de tanta sabedoria - nem mesmo os grandes rabinos.
Ficou evidente para Saulo que JESUS não podia ser o Messias por ter acusado os
doutores da Lei, opondo-se às as suas regras. Ouvira dizer também que JESUS
ensinava o povo a desobedecer aos rabinos, provocando tamanhos tumulto nas
sinagogas que todo o verdadeiro judeu acabou por considerá-lo inimigo de
Israel.
Quando chegaram as notícias de que JESUS fora preso, julgado e crucificado,
todos agradeceram a DEUS: o blasfemador enfim fora silenciado. Ficava provado,
pois, que Ele não passava de mais um falso messias, que tudo fizera para
conturbar a religião judaica. Saulo e os demais fariseus aplaudiram a
crucificação de JESUS. Não podiam perdoar aquEle que, ousadamente, os havia
chamado de víboras e hipócritas.
Saulo não se considerava hipócrita. Seu objetivo era ser um judeu melhor e
obedecer a todas as regras dos grandes rabinos. Na sua opinião, essa era a
única maneira de se agradar a DEUS. Por isso, quem se opunha à antiga ordem
merecia morrer. Foi com um grande alívio que os principais da sinagoga de Tarso
ouviram que JESUS fora finalmente tirado do caminho, e os seus ensinamentos
interrompidos de vez. Segundo diziam, a justiça divina havia sido feita.
Sua indignação, porém, chegou ao ponto de ebulição ao saberem que os seguidores
do Nazareno não haviam sido dispersos, mas reuniam-se em pequenos grupos para
adorar a JESUS, declarando ter Ele ressurgido dos mortos. Resolveram então
fazer o possível para lutar contra a perigosa seita. Notícias chegadas de
Jerusalém davam conta de que alguns fariseus haviam deixado a verdade e se
juntado aos nazarenos. Membros da seita podiam ser encontrados também pregando
abertamente nos pátios do Templo e nas sinagogas, convencendo a todos de que
JESUS era o Messias. E milhares criam neles. Isso tornara-se uma grande ameaça,
pois até alguns sacerdotes estavam abandonando a velha ordem para seguir a
JESUS. De igual modo, iam os nazarenos pelas ruas da cidade, conversando com o
povo em suas casas, persuadindo-os a juntarem-se a si.
Saulo sentia raiva ao pensar neles. Ouvira dizer que alguns de seus líderes
haviam sido apanhados e levados diante do Sinédrio por haverem falado
abertamente no Templo, e que seu velho mestre, Gamaliel, mostrara-se
complacente e até recomendara o relaxamento de sua prisão. Ele sentiu-se
irritado com Gamaliel. Como poderiam manter pura a religião de Israel se
permitissem que qualquer um alegasse ser o Messias? Não havia dúvidas de que os
seguidores de JESUS mereciam a morte. O Conselho deveria ter eliminado para
sempre tal ameaça.
A Perseguição dos Nazarenos
Com tais pensamentos em mente, Saulo decidiu deixar Tarso e voltar a
Jerusalém. Estava tão insatisfeito, que decidiu lutar pessoalmente contra a
seita dos nazarenos. Desligando-se imediatamente de Gamaliel e de sua escola,
ofereceu seus préstimos ao sumo sacerdote a fim de eliminar todos os que se
opusessem ao Judaísmo. E já perseguia a Igreja com tamanha fúria que seu nome
tornou-se o terror de todo e qualquer ajuntamento cristão. Saulo era genioso e
cruel. Com a sua eloquência, atacou os cristãos que oravam e pregavam no
Templo. Rápido em suas ações, dispersou a muitas congregações e igreja locais.
Lançou homens e mulheres na prisão, condenando-os à morte. Tão cego em sua ira
e tão pronto para esmagar os seguidores de JESUS, que se achava disposto a
extirpar de dentre o seu povo todos quantos ousassem oferecer fogo estranho ao
Senhor. Com essas idéias fervilhando-lhe na mente e com o olhar brilhante de um
fanático, decidiu acabar sumariamente com a seita dos nazarenos.
Estêvão Confunde Saulo
Um dos sete escolhidos pela igreja de Jerusalém para encarregar-se dos
pobres era Estevão, o mais capaz e ativo dos diáconos. Grandes sinais e
prodígios se realizavam através de Estêvão. Ele não nascera em Jerusalém e até
recebera um nome grego. Debatendo com os rabinos, provou ser melhor que eles.
As suas palavras eram irresistíveis e cativantes como as de JESUS. Em suas
prédicas, afirmava que a salvação era obtida por meio de JESUS, o Messias, e
não pela obediência à Lei de Moisés. Como Jerusalém possuísse várias sinagogas
onde os judeus de diferentes nações costumavam reunir-se, Estêvão ia de uma
para outra, pregando o Evangelho e discutindo com os líderes.
A sinagoga alexandrina tivera ocasião de ouvi-lo. As congregações de Cirene e
da Cilícia conheciam-lhe os argumentos e lutavam ferozmente contra ele, pois
Estêvão persuadira alguns dentre os seus membros a crerem em JESUS.
É provável que tenha sido na sinagoga da Cilícia que Saulo tenha encontrado
Estêvão pela primeira vez. Ele ouviu-o com amargo desprezo; mesmo assim, pôde
sentir quão atraentes e poderosas eram as suas palavras. O cristão achava-se
possuído de um zelo tão santo que ele jamais vira em qualquer rabino. Quando
Estêvão falou da ressurreição, Saulo teve de admitir para si mesmo que essa
esperança era a doutrina central dos fariseus. Notou também que eram os
saduceus quem mais se opunham a esta crença.
Saulo desprezava os saduceus, apiedava-se deles. Fora apenas a questão da
ressurreição, Saulo sentia que poderia ouvir com agrado a esse homem. Mas ele
falava contra o Templo e desejava mudar os velhos costumes estabelecidos pelos
rabinos. Era, portanto, necessário silenciar-lhe a voz.
O jovem fariseu confrontou-o em um debate aberto, e ficou zangado ao descobrir
que, apesar de todo o seu conhecimento, não conseguia revidar os argumentos de
Estêvão. Seu orgulho sentia-se ferido; sua única defesa agora era um ódio cada
vez maior. Achava-se, pois, decidido a se lhe opor com todas as forças. Foi
então de sinagoga em sinagoga e descobriu que os seguidores de JESUS
encontravam-se em toda parte. Saulo convenceu as pessoas de que os nazarenos
deviam ser silenciados mesmo que fosse pela espada. Pois os seus ensinos eram
contrários à Lei. E quando diziam que JESUS era o CRISTO, blasfemavam contra
DEUS. Mas percebeu que até os analfabetos da seita sabiam citar as Escrituras,
e conheciam a história judia tanto quanto ele.
Como Estêvão parecia-lhe o mais poderoso e culto dos nazarenos, decidiu
persegui-lo e expulsá-lo de Jerusalém. Quem falasse contra a Lei de Moisés, ou
dissesse que o Carpinteiro de Nazaré era o Messias, seria julgado como
blasfemo! Onde quer que fosse, Saulo não tinha medo de repetir tal advertência.
Estava cansado dos enganadores que desviavam o povo da Lei. E sendo Estêvão um
dos piores agitadores, Saulo sentia estar prestando um grande serviço a DEUS
livrando-se dele.
Quanto mais pensava nessa seita e nos progressos que ela fazia, tanto mais
agitado ficava. Sua raiva transformou-se finalmente em claro preconceito - não
podia mais discutir com aquelas pessoas baseado nas Escrituras. Seu único
desejo era exterminá-las. Por acaso não foi exatamente isto que DEUS ordenara a
Saul? (1 Sm 15).
Estêvão Diante do Sinédrio
Quando chegaram as notícias de que Estêvão fora preso e devia agora
comparecer perante o Sinédrio, Saulo sentiu que o líder fora para sempre
silenciado, e que seria apenas uma questão de tempo até que todos os cristãos
fossem apanhados.
Naquele dia, Saulo compareceu a reunião do Sinédrio. Queria estar lá quando seu
oponente chegasse ao tribunal. Ele não era o único; centenas tinham ido
assistir ao interrogatório. Os saduceus achavam-se ali sorrindo
zombeteiramente. Aquele era o dia tão esperado. Os fariseus também
compareceram, juntamente com os sacerdotes, escribas e uma grande multidão que
ouvira Estêvão e admirara-se da sua coragem. Saulo tomou seu lugar, e sorriu
enquanto esperava.
Aquele era o mesmo Conselho que condenara JESUS. Anás e Caifás, ambos jubilados
do sumo sacerdócio, achavam-se presentes. Jônatas, o atual pontífice, era o
presidente do Conselho. Também entre eles encontrava-se Gamaliel. o sábio e
bondoso fariseu. Todos estavam cansados dessas interferências.
Desde a reunião em que JESUS fora condenado, os membros do Sinédrio haviam tido
problemas com Pedro e João. Não bastasse, a cada dia apareciam outros; a nova
seita mostrava- se incansável em sua blasfema propagação. Embora houvessem
recebido repetidas ordens para que se mantivessem silenciosos em relação a
JESUS, sempre desobedeciam. Aliás, os nazarenos haviam se tornado de tal forma
atrevidos, que chegaram ao cúmulo de acusar o Conselho de haver matado o
Messias.
Agora chegara a vez de Estêvão, o mais ousado de todos.
Quando Estêvão entrou no tribunal, todos os olhares voltaram-se à sua direção.
Algumas cabeças curvaram-se de medo, pois o seu rosto era calmo e sereno como a
face de um anjo. Chamadas as testemunhas, confirmaram terem-no ouvido falar
contra o Templo e os anciãos. Além disso, ensinava a todos que JESUS era o
Messias. Quando deram-lhe a oportunidade de responder às acusações, voltou-se à
multidão silenciosa, procurando um rosto amigo. Não encontrando ninguém,
entregou-se à misericórdia do Senhor. E, mostrando uma radiância celeste em sua
fisionomia, pôs-se a falar.
Começando com Abraão, Estêvão referiu-se à história judaica para mostrar que os
homens podiam adorar a DEUS em outros lugares além do Templo. Ele traçou os
caminhos de DEUS com o seu povo desde Abraão até Moisés, e provou que este
profetizara sobre o CRISTO: "O Senhor, vosso DEUS, vos levantará dentre
vossos irmãos um profeta como eu"(At 7.37).
Contou como Moisés recebera a planta do Tabernáculo e como Salomão construíra o
SANTO Templo. Em seguida, citou o profeta Isaías a fim de provar que o
Altíssimo não habita em templos feitos por mãos humanas: "O céu é o meu
trono, e a terra, o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis, diz o
Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso? Porventura, não foi, a minha mão que
fez todas estas coisas?" (Is 7.49,50).
Enquanto prosseguia, os ouvintes encaravam-no com ódio sombrio. No final,
chegando ao ponto alto de seu discurso, declarou corajosamente ao Sinédrio o
que vinha dizendo ao povo em cada sinagoga:
Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvido, vós sempre
resistis ao ESPÍRITO SANTO; assim, vós sois como vossos pais. A qual dos
profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que anteriormente
anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora fostes traidores e homicidas;
vós que recebestes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes (7.51-53).
Houve um espoucar de vozes no salão, pois as palavras de Estevão queimavam como
fogo e cortavam como afiadas lâminas. Acusações insultuosas! Desafiadoras! De
repente, ele se cala. No terrível silêncio que se segue, sua fronte ergue-se
para o céu e um sorriso emoldura-lhe a face como se houvera tido uma visão do
alto. E Estêvão declara: "Eis que vejo os céus abertos e o Filho do homem,
que está em pé à mão direita de DEUS" (7.56).
Não lhe foi permitido dizer mais nada. Alguns fariseus taparam os ouvidos para
não ouvir outras blasfêmias. Outros tentaram agarrar o prisioneiro. Estêvão,
então, foi rapidamente levado para fora do tribunal antes que a multidão o
linchasse. Nunca tinham ouvido palavras tão atrevidas e cortantes!
O Apedrejamento de Estêvão
Depois de o prisioneiro ter sido arrastado para fora, o veredicto foi
rapidamente concluído. Na opinião de todos, ele era culpado de morte. A Lei de
Moisés deixava isso bem claro: Aquele que blasfemar o nome do Senhor,
certamente morrerá; toda a congregação o apedrejará; assim o estrangeiro como o
natural, blasfemando o nome do Senhor, será morto (Lv 24.16).
Saulo ficou mui comovido com o julgamento, pois acompanhara cada palavra de
Estêvão. Gloriou-se na história de seu povo e impressionou-se pela forma como
Estêvão a contara. Jamais conhecera alguém com tamanho conhecimento da
Escritura. Pensou ainda nos rabinos e nas suas disputas. Como pareciam
mesquinhos! Considerou sua própria opinião sobre o Messias e o que Gamaliel lhe
ensinara. Enfim, compreendeu que os fariseus, embora cressem na ressurreição,
nunca haviam podido demonstrá-la. Mas ali estava uma demonstração plausível -
se ao menos fosse verdade! E como o rosto de Estêvão irradiava êxtase! Era como
se estivera vivendo num outro mundo. E as suas palavras finais? E se ele tivesse
realmente visto JESUS à mão direita de DEUS?
Não, isso era coisa de fanático. Estevão era um impostor. Aquelas últimas
palavras sobre a hipocrisia dos rabinos eram imperdoáveis. O homem era um
inimigo da Lei Divina. Morte aos inimigos de DEUS! Que seja apedrejado! Saulo
ficou tão convencido de que o julgamento fora justo que estava pronto a ajudar
na execução da sentença. As palavras insultuosas de Estêvão ainda soavam-lhe
aos ouvidos.
Cercado pelos guardas do Templo, Estêvão foi arrastado pelas ruas da cidade até
um lugar perto dos muros. De repente, o grito: "Morte ao blasfemo! Morte
ao nazareno!" A Lei de Moisés ordenava que a primeira pedra fosse atirada
pelas testemunhas que, despindo-se de seus mantos, empilharam-nos aos pés de
Saulo. A incumbência deste era cuidar para que as roupas não fossem roubadas.
Estêvão ajoelhou-se e, ignorando a multidão, orou: "Senhor JESUS, recebe o
meu espírito!" (At 7.59). As pedras foram atiradas, fazendo-o sangrar
mortalmente. Mas antes que sua alma deixasse a morada terrena, partindo para as
mansões celestes, clamou em alta voz: "Senhor, não lhes imputes este
pecado" (At 7.60). Estava tudo acabado. Sua alma já se encontrava com
JESUS.
A Difusão do Cristianismo
Saulo deixa a cena em silêncio. Testemunhara algo que jamais houvera visto.
Não podia negar que ficara grandemente abalado. Ouvira a oração de Estêvão.
Quem jamais orara por seus algozes? O ódio de Saulo era amenizado por um
estranho sentimento de piedade. Mas isso durou apenas alguns segundos. Ele não
permitiria que suas emoções o empolgassem. Estêvão merecia morrer! Sua execução
desanimaria outros, e quem sabe, acabasse de vez com a seita dos nazarenos.
Todavia, os eventos daquele dia ficariam para sempre em sua memória.
Depois da morte de Estêvão, Saulo passou a comandar a perseguição à Igreja. Ele
percebeu que a sua morte não tinha afetado os cristãos. Pelo contrário:
tornara-os mais audaciosos e fortes. Depois de consultar o Sinédrio e os
principais sacerdotes, concluiu que a melhor maneira de acabar com a ameaça ao
Judaísmo seria visitar cada sinagoga, descobrir quem se inclinava a crer em
JESUS e levar os infratores a julgamento.
Tendo em vista seus precedentes, Saulo cumpriu zelosamente a nova missão. Em
breve, tornou-se conhecido em toda a Judéia como o mais feroz inimigo de
CRISTO. Ele caçava os cristãos, atirando-os nas celas e ordenando-lhes a
execução. Sua indignação ardia como fogo, e seu grito soava amedrontador:
"Repudie a fé em JESUS ou morra!"
A perseguição tornou-se tão severa que os cristãos viram-se forçados a deixar
seus domicílios. Os de Jerusalém espalharam-se por toda a Judéia e Samaria.
Isso contudo não teve o efeito que Saulo e o Sinédrio desejavam, pois onde quer
que os discípulos fossem, contavam a história de CRISTO. Em vez de uma grande
Igreja em Jerusalém, muitos pequenos grupos de crentes passaram a reunir-se
secretamente nas casas. Os esforços de Saulo só fizeram com que o fogo se
espalhasse e se tornasse inextinguível.
Infelizmente, alguns preferiam abandonar a Igreja a enfrentar a perseguição e
as privações decorrentes desta. Outros foram compelidos a blasfemar o nome de
JESUS.
Muitos seguiram para o norte, em direção a Samaria, onde Paulo não tinha
qualquer jurisdição. Entre estes encontrava-se Filipe, um dos sete diáconos da
igreja de Jerusalém. Colaborador de Estêvão, teve de fugir para salvar a vida.
O povo de Samaria recebeu-o alegremente, pois lembrava-se de JESUS e de seu
ministério entre eles.
Samaria ficava ao norte de Jerusalém. Era habitada por um povo mestiço, parte
dele oriental e a outra parte de origem hebreia. As dez tribos de Israel
habitaram ali, mas os assírios levaram-nas para o cativeiro, deixando apenas um
remanescente na terra. Milhares de estrangeiros contraíram casamentos mistos
com aqueles judeus, resultando numa raça mestiça. Por isso, todo judeu de
sangue puro olhava para os samaritanos com desprezo. Filipe, contudo, pregou a
CRISTO livremente em Samaria, e DEUS abençoou o seu testemunho. Muitos foram os
que se fizeram seguidores do Senhor, porque viam e ouviam os sinais que Filipe
fazia.
Quando os apóstolos ouviram falar que uma grande obra estava sendo realizada em
Samaria, enviaram para lá Pedro e João para ver se era ou não autêntica. Pois
ainda não estavam convencidos de que alguém pudesse ser um verdadeiro cristão
sem primeiro ser judeu. Mas foi justamente ali, naquela terra odiada, que os
apóstolos descobriram que o ESPÍRITO SANTO também estava sendo derramado sobre
os samaritanos, quando lhes impuseram a mãos. Antes de partirem, Pedro e João
pregaram nas aldeias. E assim a igreja em Samaria cresceu sem que fosse
incomodada pela perseguição.
Início da Convicção de Saulo
Saulo enfrentava uma nova dificuldade. Embora houvesse dispersado os
nazarenos de Jerusalém, recebeu diversos relatórios de que estes continuavam
espalhando seus ensinamentos. A Igreja, em vez de diminuir, crescia mais e
mais. Ele então começou a se perguntar se todo o seu trabalho estava ou não
baldado ao fracasso. Será que o seu velho professor Gamaliel tinha razão ao
dizer que, se a seita dos nazarenos fosse de DEUS, nem o Sinédrio nem um
poderoso exército iria detê-la?
Seria realmente uma obra divina? Estaria Saulo lutando contra DEUS? É certo que
fora derrotado na discussão com os nazarenos, pois estes conheciam as
Escrituras e fizeram-no calar-se na sinagoga. Estêvão certamente vencera os
perseguidores, pois na hora de sua execução, um estranho poder o possuíra,
impressionando profundamente a Saulo. E os cristãos que seguiam para a morte
com uma expressão de vitória estampada no rosto? Até aquele ponto Gamaliel
acertara: A perseguição só ajudara a propagar o novo ensinamento.
As cenas se sucediam na mente de Saulo. Ele pensou em sua educação farisaica e
em todas as regras que aprendera. Acreditava que, seguindo-as, receberia a vida
eterna. Mas agora tinha de admitir: sua vida era vazia. Quanto aos ensinamentos
rabínicos, não seriam suficientes sem a esperança do Messias. Neste ponto,
Saulo surpreendeu-se pensando no Messias; desejava que Ele viesse logo.
Tinha certeza de que os nazarenos pregavam um falso messias. Todavia, tinha a
sensação de que o grande e misterioso poder que nEle se achava viera sobre
homens como Estêvão.
Saulo perguntou a si mesmo porque tais homens, a quem condenara à morte,
estavam dispostos a morrer pela nova religião. Ele sempre acreditara que as
pessoas defendiam coisas falsas enquanto lucrassem com isso; mas, quando a
espada era posta em suas gargantas, desistiam imediatamente. Mas por que os
seguidores de JESUS agarravam-se à sua fé como se esta lhes fosse mais preciosa
que a própria vida?
O PONTO CRÍTICO
Embora estivesse colecionando lembranças
amargas, Saulo decidira continuar a luta. Irritado com a propagação da Igreja,
prepara uma expedição a Damasco, onde, segundo ouvira falar, vários nazarenos
haviam se refugiado por causa da perseguição desencadeada em Jerusalém. Além
disso, pregavam ativamente a CRISTO nas várias sinagogas. Saulo achava que
poderia abater definitivamente os seguidores de JESUS se os expulsasse dessa
fortaleza. Acompanhado por uma tropa de guardas do Templo, saiu de Jerusalém
pela Porta de Damasco respirando ameaças e mortes. A distância até Damasco era
de aproximadamente 240 quilômetros. Apesar de a estrada ser ladeada por uma das
paisagens mais belas do mundo, o propósito de Saulo não era apreciar o cenário;
era acabar com a Igreja de CRISTO.
A região achava-se repleta de lembranças históricas. Dois mil anos antes,
Elieser, o damasceno, tornara-se servo de Abraão e viajara por aquela mesma
estrada. Naamã passara por aquele caminho quando fora ter com Eliseu. Mas Saulo
não queria pensar nessas coisas, pois estava dominado pelo ódio. Planejara
caçar os cristãos e levá-los acorrentados a Jerusalém para que fossem julgados
e condenados pelo Sinédrio. Na túnica, trazia uma carta selada do sumo
sacerdote aos rabinos de Damasco, ordenando que se lhe desse toda a
assistência, pois era o representante legal das autoridades judaicas.
O sol ardia quando eles chegaram às proximidades da velha cidade. À sua frente,
estendia-se um vale bem irrigado e protegido por densas florestas com árvores
de todo tipo. Lá estavam a palmeira com suas delicadas folhas e o álamo. Os
vinhedos, nas encostas, eram os mais ricos de toda a Síria. Os viajantes
geralmente abrigavam-se sob essas árvores quando o sol se encontrava no auge de
sua força. Em sua impaciência, porém, Saulo não quis descansar.
Na sinagoga, todos já tinham sido avisados de sua chegada. Quanto aos
nazarenos, ainda se lembravam da confusão que ele criara em Jerusalém, por isso
tremiam com a idéia de enfrentar novamente a perseguição. Isso significava que
famílias seriam separadas e reduzidas à pobreza, ou até mortas. Haviam porém
decidido manter-se fiéis a CRISTO não importando as conseqüências.
O meio-dia encontrou Saulo na periferia da cidade, apressando-se em direção a
ela. As estradas estavam desertas àquela hora. Até mesmo o gado havia procurado
a sombra dos arvoredos e aí se acomodara até que passasse o calor. Apesar de
toda aquela calmaria, Saulo não parara a fim de descansar. Os guardas do Templo
que o acompanhavam, embora surpresos, não ousavam fazer-lhe qualquer
observação.
O pequeno grupo aproximou-se do alto de um monte de onde se podia ver os
prédios rebrilhando ao sol. Segundo o poeta, Damasco era "um punhado de
pérolas numa taça de esmeralda".
A Aparição de CRISTO
Ao descerem o monte, um raio de luz, mais brilhante que o sol em todo o seu
esplendor, veio subitamente sobre o pequeno grupo. Sua radiância era tanta que
o sol pareceu enfraquecer. Eles ficaram ofuscados com o brilho e caíram por
terra; alguns, de bruços para protegerem-se da luz, e outros com as mãos
cobrindo os olhos, temendo aqueles raios.
Admirados, entreolharam-se como que pedindo uma explicação do que houvera. Foi
então que viram o seu chefe caído por terra, enquanto o animal, em que montara,
mantinha-se perto dele amedrontado. Saulo falava com alguém, mas eles não viam
o seu interlocutor. Embora parecesse uma voz, não lhe compreendiam as palavras.
Agora os lábios de Saulo se moviam; tinha ele as mãos estendidas à sua frente
como se estivesse cego. Saulo tremia da cabeça aos pés.
Deitado no chão, sem nada ver, Saulo ouviu uma voz que lhe falava: "Saulo,
Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os
aguilhões" (At 26.14).
Perturbado com todos os pensamentos que o tinham perseguido desde a morte de
Estêvão, temeroso, ousou perguntar: "Quem és tu, Senhor?" (At 26.15).
"Eu sou JESUS, a quem tu persegues" (At 26.15).
Na linguagem do amor, superior a tudo que já conhecera, ele ouve mui
claramente: "Eu sou JESUS". Seria este o JESUS que morrera? De
repente, brota-lhe na alma a terrível compreensão de que estava errado. De
fato, toda a sua vida fora um erro.
O torvelinho que sentira, as perguntas que iam surgindo, a crescente convicção
de que estivera lutando contra DEUS - todos esses pensamentos pairavam diante
de si com súbita clareza e, de tal forma, que não podia mais suportá-los.
Todo o orgulho de sua origem farisaica, toda a dignidade do cargo e toda a
arrogância advinda de sua reputação como o principal perseguidor do
Cristianismo desmoronaram enquanto se achava ali, indefeso na estrada. Sua
visão física lhe fora tirada para que a sua alma pudesse enxergar. Ele estava
pensando nas palavras: "Por que me persegues? Dura coisa te é
recalcitrares contra os aguilhões".
Tais palavras eram próprias da vida campestre. Saulo vira muitas vezes o boi
escoiceando o aguilhão, oferecendo inútil resistência. Em vez de obedecer a
quem o dirigia e submeter-se a ele, o boi teimava e dava patadas nas varas que
o dono usava para estimulá-lo. Era uma descrição mui apropriada da vida de
Saulo. Ele estivera fazendo isso há meses, e como lhe fora difícil! Saíra para
caçar os seguidores de JESUS; mas, em vez disso, descobriu que estava sendo
caçado por JESUS, a quem perseguia.
Essa foi a grande crise da vida de Saulo. Ele encontrou-se face a face com o
Messias, e viu-se forçado a reconhecer que estava errado, e os nazarenos,
certos: JESUS era o CRISTO.
Naquele momento, toda a sua luta cessou. Uma grande revolução, maior do que
qualquer outra que já conhecera, teve lugar em seu íntimo. Estava quebrantado e
abatido nas mãos daquEle que julgara ser seu inimigo. A rendição foi completa.
Sua alma estava finalmente em paz.
A voz do céu era clara: "Levanta-te e entra na cidade, e lá te será dito o
que te convém fazer" (At 9.6).
A Transformação
Tudo acabara em poucos instantes, mas foi a maior experiência de Saulo.
Nela, pensaria até o dia da sua morte. Naquele momento, JESUS o dominara,
mudando-lhe por completo a vida. Nenhuma dúvida nem interrogação ser-lhe-iam
possíveis a partir daquele instante. Pois não tivera uma simples visão de
JESUS; fora, de fato, uma aparição do CRISTO, não mais com a glória velada,
como nos dias de seu ministério terreno, mas com tamanha plenitude de glória
que o homem não podia suportar-lhe o brilho.
Saulo falaria disso mais tarde como a última das aparições de JESUS aos seus
seguidores após a ressurreição (1 Co 15.8). Moisés teve a mesma experiência no
Monte Sinai, quando a visão da glória do Senhor aparecera-lhe como um fogo
devorador. Foi isso que Isaías viu quando o Senhor o chamou para o ministério.
Essa foi também a experiência de Pedro, Tiago e João no monte da
Transfiguração. Foi o que João viu em Patmos e depois de tê-lo visto, "caí
a seus pés como morto" (Ap 1.17). E para o rabino de Tarso, era concedida
uma entrevista com o CRISTO ressurreto.
Posteriormente, alguns vieram a duvidar de seu apostolado, alegando que ele
jamais vira o Senhor. Mas a todos os seus inimigos, podia responder que
recebera a sua comissão diretamente de JESUS que lhe dissera:
Te apareci por isso, para te pôr por ministro e testemunha tanto das coisas que
tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda; livrando-te deste
povo e dos gentios, a quem agora te envio, para lhes abrires os olhos e das
trevas os converteres à luz e do poder de Satanás a DEUS, a fim de que recebam
a remissão dos pecados e sorte entre os santificados pela fé em mim (At
26.16-18).
Quando seus companheiros, já recuperados dos efeitos da visão, foram ajudá-lo a
pôr-se em pé, descobriram que ele estava cego, por isso tiveram de conduzi-lo
pela mão à cidade. Que mudança nele se operou! Tinha sido um orgulhoso fariseu,
cavalgando com pompa e autoridade, cheio de indignação e soberba. Mas, num
momento, foi transformado num servo trêmulo, que tateava, humilde e
quebrantado, agarrando-se à mão de um soldado que o guiou ao seu destino. Ao
chegar a Damasco, entrou num quarto da casa de Judas, na rua chamada Direita, e
pediu que o deixassem a sós. Queria tempo para pensar.
Já afastado do mundo por causa de sua cegueira, podia finalmente ordenar seus
pensamentos. Sentou-se no escuro, imaginando como DEUS poderia usar um cego em
sua obra.
Saulo não comeu nem bebeu durante três dias. Estava por demais absorvido em
seus pensamentos. Todo o passado descortinava-se diante de si. Pensou no zelo
do pai ao educá-lo como fariseu. Lembrou-se do rigor da escola em Tarso e de
como as palavras dos rabinos haviam lhe marcado a vida. Recordou-se do Templo e
de todas as suas belas e agradáveis cenas. Como poderia esquecer-se das
multidões dos adoradores entregando os sacrifícios aos sacerdotes.
Agora, porém, nada disso lhe tinha importância. O Messias aparecera e fora
crucificado exatamente pelas pessoas a quem viera abençoar. Toda a vida de
Saulo parecia estar desmoronando. Podia ver agora que estivera lutando contra
DEUS. Cego por seu farisaísmo, ele havia perseguido o Messias. Todavia, ei-lo
quebrantado aos pés do Salvador. Toda a sua vida mudara por meio da força dessa
colisão com o CRISTO. Estêvão tinha razão: tanto ele (Saulo) como o Sinédrio
haviam cometido um gravíssimo erro. Os anos estéreis, porém, terminaram; o
futuro devia ser ocupado na proclamação dessas grandes descobertas.
Quando prendia os nazarenos, Saulo o fazia com espírito de vingança e ira. Era
o inimigo mortal deles. Mas quando JESUS de Nazaré o prendeu, não havia
vingança nem ira. Se em seu poder, DEUS o derrubou por terra, em seu amor o
levantou e dele tomou posse. Saulo começa a compreender como Estêvão pôde orar
pelos inimigos mesmo quando as pedras o atingiam mortalmente. Em CRISTO,
encontrou uma paz até então desconhecida para ele, o implacável fariseu.
Enquanto Saulo, jejuando no escuro, pensava e orava a respeito das estranhas
experiências que tivera, tem uma visão em que um discípulo, chamado Ananias,
vinha vê-lo a fim de lhe restaurar a visão.
As Visões de Saulo e Ananias
Nessa mesma ocasião, o Senhor preparava Ananias para que visitasse Saulo.
Ananias fora, certa vez, destacado, em sua sinagoga, como um homem piedoso e
que obedecia à Lei de Moisés com o rigor de um fariseu.
Mas desde que se tornara cristão, os judeus passaram a suspeitar dele. Alguns
diziam que Saulo tinha ido a Damasco especialmente para prender Ananias, pois
os nazarenos haviam-no reconhecido como seu líder. Mas numa visão, o Senhor
ordenou a Ananias: "Levanta-te, e vai à rua chamada Direita, e pergunta em
casa de Judas, por um homem de Tarso chamado Saulo; pois eis que ele está
orando, e numa visão ele viu que entrava um homem chamado Ananias, e punha
sobre ele a mão, para que tornasse a ver" (At 9.11,12).
Ananias imediatamente protestou. Afinal, os nazarenos de Damasco tinham medo de
Saulo por causa das notícias que chegavam de Jerusalém. Além disso, haviam sido
informados que ele estava na cidade a fim de que, como representante do sumo
sacerdote, procedesse a prisão dos discípulos de JESUS e os conduzisse a
Jerusalém. Os cristãos não haviam orado para que DEUS os livrasse? Quando
chegaram as notícias de que Saulo ficara cego, agradeceram a DEUS. Era a
resposta à sua oração.
Mas, agora, ordenava o Senhor: "Vai, porque esse é para mim um vaso
escolhido para levar o meu nome diante dos gentios e dos reis, dos filhos de
Israel" (At 9.15).
Sem mais duvidar, Ananias dirigiu-se à casa de Judas, e perguntou por Saulo, o
rabino de Jerusalém. Levado a um quarto nos fundos, deparou-se com o jovem e
terrível fariseu sentado, completamente cego e abalado pelo conflito que se
desenrolava em sua alma. Saulo já não sentia qualquer amargura, pois havia
atravessado águas profundas naqueles três dias; passara por uma sondagem como
nunca pensara ser possível.
Ananias atravessou o quarto, aproximou-se de Saulo e, impondo a mão sobre a sua
cabeça, disse-lhe em voz baixa: "Irmão Saulo, o Senhor JESUS que te
apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e sejas
cheio do ESPÍRITO SANTO" (9.17).
Um nazareno o chamara de "irmão"! E pensar que ele, Saulo, viera
justamente prender um homem como esse que, agora, estendia-lhe a destra da
comunhão! Dissipadas as trevas, Saulo vê o homem que o procurara como
mensageiro de DEUS.
Ele acabara de receber a confirmação do que tinha ouvido na estrada de Damasco.
Como não render-se ao CRISTO? Por um momento, Saulo duvida: como ser perdoado
pela perseguição e pelos problemas que criara à Igreja. Mas a voz de Ananias
lhe dá plena segurança quanto ao amor e benignidade de DEUS.
Saulo sabia que o batismo era o sinal nazareno do arrependimento. Era uma forma
de mostrar publicamente que havia mudado, invocando o nome daquEle a quem antes
odiara, porém agora, além deste batismo nas águas, recebe o batismo no ESPÍRITO
SANTO, fato totalmente desconhecido para ele (cheio do ESPÍRITO SANTO).
Saulo estava pronto. Encontrava-se nas mãos de DEUS e já não havia dúvida em
seu coração. Ajoelhou-se com Ananias, e orou ao Senhor como se fora uma
criança, confessando-lhe os pecados, pedindo-lhe que o perdoasse em nome de
JESUS e invocando-lhe o nome de seu Filho, fez como o faziam os nazarenos. A
seguir, Ananias o batizou, marcando definitivamente a sua entrada na nova vida.
Vivendo para CRISTO
Saulo saíra das trevas para a luz. Morrera para a velha vida, sob a Lei, e
fora cheio do ESPÍRITO. Desejava, agora, provar o seu arrependimento através de
uma vida de serviço a CRISTO. Essa perspectiva dava-lhe grande alegria. Depois
de ter-se alimentado, levantou-se com um zelo tão intenso por CRISTO que
excedia de muito sua antiga dedicação ao Judaísmo.
Ananias voltou para anunciar aos cristãos de Damasco que o perigo passara.
Saulo não só havia desistido de persegui-los, como também fora batizado,
invocando o nome de CRISTO. Era agora um nazareno. Eles receberam-no, pois, com
grande alegria; acolheram-no como a um irmão.
Os cristãos de Damasco fortaleciam a Saulo diariamente com a cordialidade de
sua comunhão, e doutrinavam-no acerca de JESUS. Ele se mostrava mais que
atento. Os irmãos falaram-lhe do Salvador, de sua vida e de sua obra. Ficaram
surpresos ao ver o conhecimento que ele tinha das Escrituras e como constatava
rapidamente, agora, que todas elas apontavam para JESUS. Sua erudição deixou-os
admirados. Ele parecia encontrar argumentos fortes e favoráveis a CRISTO que
antes lhe haviam escapado. Seus corações encheram-se de alegria ao compreender
que ele também viria a ser um grande mestre das doutrinas enunciadas pelo Senhor
JESUS.
Durante o curto período em que permaneceu em Damasco - somente alguns dias -
Saulo cresceu espiritualmente e já ansiava por testemunhar da grandiosa
experiência que tivera na estrada de Damasco. Junto com Ananias e outros
nazarenos, visitou a sinagoga e pregou a CRISTO. Ele era hábil em rebater todos
os argumentos dos fariseus. Como tivesse o dom da oratória, causou grande
impressão sobre o povo. Embora não pudesse dizer muito a respeito dos
ensinamentos de JESUS, sabia apelar para a Lei, os Profetas e os Salmos. Ele
sentia-se mui à vontade nesses tópicos.
A primeira vez que Saulo visitou a sinagoga, que se achava repleta, foi um
grande dia para os nazarenos. Ali estava um jovem, destemido e forte, que
tivera o privilégio de ser educado na escola de Gamaliel. A maioria dos judeus
sabia de seu ódio a CRISTO, e alguns que suspeitavam dos nazarenos, achavam que
a sua missão em Damasco era necessária.
Inicialmente, Saulo contou-lhes a história de sua ida a Damasco e do incidente
na estrada: como encontrara a JESUS de Nazaré e O contemplara com os
próprios olhos, aquEle a quem vinha perseguindo, e como, desde então, toda a
sua vida se transformara. Ele cria agora que JESUS era o CRISTO. Com sua
habilidade de rabino, citou passagem após passagem do Antigo Testamento para
provar a messianidade de JESUS. Ao terminar o discurso, confessou publicamente
o seu pecado em perseguir os seguidores de JESUS, e descreveu a nova vida que
nele havia por meio da habitação interior do ESPÍRITO SANTO.
Ninguém podia acreditar no que estava ouvindo: "Não é este o que em
Jerusalém perseguia os que invocavam esse nome, e para isso veio aqui, para os
levar presos aos principais sacerdotes?" (At 9.21).
Ao verem-no abjurar as antigas crenças, ficaram indignados. O primeiro discurso
de Saulo como nazareno foi respondido pelos rabinos da sinagoga, que o tacharam
de falso mestre e traidor da nação. Negaram o uso que o novo discípulo de
CRISTO fazia das Escrituras, discutindo acaloradamente com ele sobre o correto
significado destas. Mas não puderam refutar-lhe os argumentos, nem a sua
experiência na estrada de Damasco. Quando a congregação retirou-se, todos
estavam comovidos com o que ouviram. Alguns creram, mas a maioria achava que
Saulo merecia ser expulso da sinagoga e açoitado publicamente. O inimigo
declarado e preconceituoso de CRISTO mudara rápida e drasticamente,
transformando-se num cristão inabalável, com a determinação de entregar sua
vida ao serviço do Senhor. Ao cair diante de sua glória, tornara-se de JESUS um
servo para todo o sempre. Saulo vira-o ressurreto, e tinha plena certeza disso.
E, sobre esta certeza, construiu todas as suas esperanças na eternidade. Foi
ainda esta certeza que o levou a pregá-lo com toda a autoridade (1 Co 9.1).
O EVANGELHO DE
SAULO
Quando alguém se converte a CRISTO de modo tão
inesperado e radical quanto Saulo, passa a sentir de imediato um forte desejo
de partilhar sua experiência com todos. Diante de um testemunho como o seu não
há como disfarçar as emoções. A experiência de um homem que viu a glória divina
nos aquece o coração.
Saído de um ambiente tão rígido como o do farisaísmo, o choque que Saulo
recebeu foi enorme. Seu modo de pensar modificara-se tão rapidamente, que ele
precisava de tempo para descansar e refletir. Queria repensar o passado,
observar lógica e tranquilamente o futuro, e preparar-se para a grande obra a
que DEUS o chamara. O Senhor não dissera que ele devia levar o nome de CRISTO
diante dos gentios, dos reis e dos filhos de Israel?
Saulo era um pensador profundo. Não tomava nenhuma atitude sem antes raciocinar
e pesar as consequências. Algumas pessoas a tudo analisam; outras, não se
preocupam com nada. A mente de Saulo era analítica; teve necessidade de
refletir para ajustar-se aos fatos que lhe abalaram a estrutura existencial.
Ao despedir-se dos cristãos de Damasco, isolou-se na Arábia por uns dias (Creio
eu por 40 dias como Moisés e Elias, em jejum) e voltou a Damasco onde permaneceu
por 3 anos pregando a fim de concentrar-se nesta nova etapa de sua vida.
Na Epístola aos Gálatas, Saulo revela que, depois de sua conversão, não se
dirigiu aos apóstolos em Jerusalém, ou para quaisquer outros, a fim de se
inteirar do Evangelho que mais tarde pregaria. O Evangelho foi-lhe revelado
diretamente por DEUS. Em várias ocasiões, apóstolo o enfatizou: "Porque eu
recebi do Senhor o que também vos ensinei" (1 Co 11.23).
Na Arábia
No deserto, longe do burburinho da vida urbana, com as rochas e areias
ardentes durante o dia, e as estrelas silentes à noite, despojou-se Saulo das
amarras de uma vida inteira, libertando-se da Lei e da tradição judaicas. Na
quietude da Arábia, andou com JESUS. Aqui, o Senhor revelou a Saulo as grandes
verdades que viriam a ser as âncoras de sua pregação. Foi aqui também que
reestudou as Escrituras, e meditou sobre as grandes doutrinas que iria em breve
ensinar em todas as igrejas. Aprendeu o valor da comunhão com DEUS,
tornando-se-lhe sensível à vontade.
Foi no deserto que Moisés veio a encontrar DEUS. Naquele mesmo Monte na Arábia
onde Paulo agora estava a ter um encontro pessoal com JESUS (Monte Horebe). E
foi num momento de desespero, que Elias procurou a quietude do deserto. No
deserto, o maná alimentou o povo de DEUS por quarenta anos. Que lugar seria
mais propício para Saulo reencontrar-se com o Senhor? Onde poderia ser
alimentado diariamente pelo pão do céu senão aqui?
É impossível saber os detalhes daqueles dias de consagração. Mas de uma coisa
não temos dúvida: Saulo deixou o deserto plenamente convicto e preparado para
apresentar as razões de sua fé. Ele sabia que, no exato momento em que abrisse
os lábios na sinagoga, os fariseus opor-se-lhe-iam amargamente, tachando-o de
hipócrita, traidor. Por isso, deveria estar preparado a fim de apresentar tanto
a sua defesa quanto a de JESUS com toda a sua força e poder.
Na defesa da fé, seria imprescindível que tivesse idéias muito claras acerca da
salvação oferecida por CRISTO. Falar de uma experiência é simples, mas debater
com os filósofos e defensores de outras religiões exige um conhecimento bem
definido e pontos de vista sólidos. Além de justificar a morte de CRISTO
conforme predita nas Escrituras, Saulo teria de explicar porque isso foi
necessário e por que DEUS o exigiu.
Ao pensar no propósito da vida e na felicidade de que ora desfrutava, Saulo
concluiu: o que aprendera na escola rabínica era de fato uma poderosa verdade.
O supremo propósito do ser humano é receber o favor divino. Mas a única maneira
de se obter tal favor é submeter-se à justiça de DEUS. Somente Ele pode
conceder-nos a paz.
Entendendo o Dom da Justiça de DEUS
A história do homem sempre foi o relato do desvio da justiça divina e do
deliberado afastamento de DEUS. Muitos são os que, embora se julguem justos e
condenem os outros, jamais sentiram comunhão com DEUS. Outros, como os judeus,
dependem de sua obediência à Lei para obter o favor divino. Saulo viveu desse
modo até encontrar a JESUS. Mas agora, podia ver quão vazia era a vida dos
judeus: por não haverem recebido a JESUS, achavam-se na mesma condição dos
gentios.
Os gentios falharam em sua busca pela justiça. Não porque DEUS haja se ocultado
deles, pois Ele lhes dera suficiente conhecimento para que viessem a ser
conduzidos pela justiça. Eles, porém, não quiseram seguir a luz; tentaram
extingui-la. E já que não alcançaram o favor de DEUS, fizeram-se filhos da ira.
Quanto aos judeus, gabavam-se de suas muitas vantagens sobre o resto do mundo.
Embora possuíssem a Lei e os Profetas, não tiraram proveito deles.
O que importa diante de DEUS não é saber o que é certo, mas praticar o que é
justo. Antes, Saulo acreditava que guardar a Lei era a única maneira de se
agradar a DEUS. Isso, porém, jamais lhe havia proporcionado satisfação
espiritual. Por outro lado, estava ciente de que, como depositário da Lei de
DEUS, tinha mais responsabilidades espirituais do que os gentios. Agora,
contudo, já não podia ignorar: tanto os judeus como os gentios, haviam falhado
na busca da justiça divina; encontravam-se ambos expostos à ira de DEUS.
Nem os judeus nem os gentios eram bons, por haverem ambos herdado a natureza
pecaminosa de Adão. Tal natureza torna a pessoa fraca demais para ser justa. A
Lei, por descrever claramente o pecado, teria sido um precioso guia para
conduzir-nos à vida santa. Mas como curar uma natureza tão enferma? Aquilo que
queremos fazer, não o fazemos; e aquilo que não queremos, isso o fazemos. DEUS
outorgou a Lei com o propósito de mostrar-nos qual o padrão de sua justiça.
Todos esses pensamentos formavam-se na mente de Saulo à medida que o Senhor lhe
transmitia gradualmente a mensagem que deveria ensinar em todas as igrejas. Seu
dia mais ditoso foi aquele em que DEUS ofereceu-lhe um plano de salvação que
não dependia de se guardar a Lei. Foi aí que compreendeu que jamais alcançaria
a justiça divina por seu próprio esforço.
Com o passar dos dias, Saulo começou a entender mais claramente todo o quadro
da salvação oferecida por DEUS. E essa revelação, obtida na Arábia, foi
mencionada repetidamente por ele como "o meu evangelho". Saulo não a
obteve mediante estudo ou leitura, nem a recebera de homem algum. Foi
diretamente e pessoalmente por intermédio de JESUS que chegou ao conhecimento
de tais fatos (OBS.: Pr. Henrique - creio eu que passou ali o Monte Horebe 40
dias em Jejum e oração, como Moisés e Elias).
O Verdadeiro Significado da igreja
O retrato completo da Igreja apareceu mais vividamente a Saulo, durante sua
estada no deserto. Ele foi o primeiro apóstolo a compreender que a Igreja não
era uma seita judaica, mas uma irmandade universal que se estendia a todas as
raças e nações. Tempos depois, travaria muitas batalhas com os que não estavam
dispostos a admitir os gentios na Igreja.
Saulo considerava a Igreja um edifício, cujas pedras todas achavam-se bem
ajustadas, tendo a CRISTO como a pedra angular. A seguir, viu-a como um corpo
bem coordenado. E os membros todos desse corpo - braços, pernas, pés, dedos,
olhos e ouvidos - eram os cristãos em particular que, ligados uns aos outros,
constituíam-se num só organismo, tendo a CRISTO por cabeça. A figura ajudou-o a
compreender a unidade da Igreja e a sua dependência em relação ao Senhor JESUS.
Saulo passou a compreender que cada um de nós somos templo do ESPÍRITO SANTO,
morada de DEUS na Terra. Passou a conhecer a pessoa do ESPÍRITO SANTO, fato
vedado ao judeu tradicional sem CRISTO.
Saulo fora
chamado por CRISTO para deixar de lado as regras, tradições e todo o passado do
qual tanto se gloriara. Outros já o haviam feito e tiveram de enfrentar
oposição. O futuro não lhe seria fácil. Ele pensa em Estêvão e como fora este
poderoso no Evangelho. Se Saulo tivesse aberto os olhos antes, quantas centenas
de crentes não teriam sido poupadas! Mas ele tomaria o lugar de Estêvão, e quem
sabe, faria para CRISTO uma obra ainda maior. Uma vez mais Saulo delibera ser
fiel à visão celestial, e passar o resto de sua vida pregando o Evangelho aos
judeus e gentios.
O Mundo, um Campo Missionário
Saulo começa a refletir sobre o mundo que o rodeava. Embora só o conhecesse
parcialmente, sabia que o Império Romano estendia-se para além dos Portões da
Cilícia, em direção ao ocidente. Em suas fronteiras, havia milhões de pessoas.
Que mundo de trevas era aquele!
Os ídolos eram adorados por toda a parte. As cidades encontravam-se repletas de
estátuas, altares e templos. Tateando, as pessoas andavam à procura de algo
real. Seus corações estavam vazios; seus olhos, voltados para os grandes blocos
de granito e mármore. Se os gentios pudessem enxergar o vazio de seus templos!
Se soubessem que somente CRISTO podia satisfazê-los!
Saulo compreende que será mais fácil convencer os gentios do que os judeus. Ele
alegra-se por ter sido escolhido pelo Senhor para levar o Evangelho da graça
salvadora de DEUS aos gentios.
Ao fazer um retrospecto de sua vida, Saulo percebe que deveria estar louco e
cego ao imaginar que o seu ódio e crueldade pudessem reconduzir os convertidos
ao Judaísmo. Na Arábia, DEUS forçou-o a abandonar os seus métodos e a aprender
um pouco do grande ESPÍRITO que estava em Estêvão, quando este orava por seus
inimigos.
(Obs.: Pr. Henrique - Não se sabe quanto tempo Paulo permaneceu na Arábia –
creio eu que 40 dias, em jejum e oração, como Moisés e Elias. Sabemos, porém,
que passou três anos em Damasco após sua volta à cidade e depois foi a
Jerusalém). Paulo tivera tempo de organizar seus pensamentos, e agora estava
pronto a pregar o Evangelho com todas as suas forças, pois sentia- se em débito
para com os judeus e gregos.
De qualquer forma, Saulo achava-se melhor preparado para, sinceramente, lutar
pela fé. Em cada sinagoga, os fariseus se lhe opunham, zombando de sua mudança
de vida e chamando-o de mentiroso. Ele era obrigado a todo o instante, a
defender o Evangelho a que se habituara a chamar de "meu evangelho",
não por ser diferente do de Pedro, ou de qualquer outro dos discípulos, mas
porque JESUS o entregara diretamente a ele.
Mais tarde, Saulo aprenderia mais de Pedro e dos demais apóstolos o verdadeiro
significado das declarações e ensinamentos do Senhor. Mas, por ora, já sabia o
suficiente para começar a pregar a JESUS como o CRISTO das Escrituras, por cujo
intermédio podia-se alcançar a justiça divina.
Com as palavras do Senhor no coração, avançaria e estabeleceria igrejas em
todas as partes. Se em sua ignorância prendera e até matara, agora ofereceria a
sua vida por CRISTO. Afinal, JESUS não vencera a morte levantando-se da
sepultura? Sua mente já estava apaziguada e cultivada pelos ministérios de
DEUS.
O REGRESSO A DAMASCO
Saulo foi cordialmente recebido pelos irmãos de Damasco. Todos ansiavam por
sua volta, pois somente ele poderia enfrentar os judeus que se opunham ao
Evangelho. Lembravam-se todos de como Saulo silenciara os rabinos antes de
partir para a Arábia. Com um poder muito maior, Saulo retoma o trabalho nas
sinagogas. A oposição judaica contra si já se havia transformado em ódio. A sua
determinação de pregar a JESUS CRISTO, contudo, em nada diminuíra.
Durante o período em que esteve em Damasco com os nazarenos, homens e mulheres
aceitavam diariamente a CRISTO ao ouvir-lhe a pregação. O conselho da sinagoga
fez o máximo para tapar os ouvidos de seus congregados. Mas como a mensagem de
Saulo tivesse como base as próprias Escrituras, ninguém era capaz de
resistir-lhe as palavras. Até os rabinos temiam proibir o acesso de alguém com
tamanho conhecimento da Torá na sinagoga.
A cada discussão com Saulo os rabinos mais se enfureciam. E já instigavam o
conselho da sinagoga contra Saulo, pois mais de uma vez ele os sobrepujara. Em
seu ódio, queriam fazer dele um exemplo público. E tanto fizeram, que vieram a
conseguir o seu intento. Açoitaram-no diante da porta da sinagoga com 39
chibatadas. Enquanto o chicote rasgava-lhe as costas, Saulo experimentava uma
estranha sensação de alegria por ser considerado digno de sofrer pela causa de
CRISTO. Não fora exatamente isso o que ele havia feito com os que seguiam a
esse mesmo JESUS?
O corpo de Saulo fica marcado para sempre; com orgulho exibiria essas marcas
por haverem-no introduzido numa comunhão mais profunda com o CRISTO e com os
que foram chamados a sofrer pela fé.
Finalmente, ele foi expulso da sinagoga. Todavia, encontrando-se secretamente
com os judeus de Damasco, ganhou a muitos deles para CRISTO. Os rabinos vieram
a compreender, então, que ninguém poderia deter a propagação do Cristianismo. O
que fazer? Ordenaram-lhe, pois, que deixasse a cidade, mas Saulo não lhes
acatou a ordem. Pelo contrário: agora, pregava a CRISTO com mais vigor e
intensidade. O conselho reuniu-se então em segredo, e chegaram a esta
conclusão: "Só há um meio de calar a Saulo - tirar-lhe a vida".
Os judeus favoráveis aos nazarenos, alertaram a Saulo sobre a decisão do
conselho. Ele, pois, escondeu-se de modo a que não pudessem encontrá-lo. Cada
sinagoga era vigiada, mas o acusado não aparecia. Seus inimigos finalmente
descobriram que ele sabia da conspiração. E para que Saulo não fugisse
disfarçado de mercador, ou viajante, resolveram ir ao governador e fizeram uma
acusação formal contra o desafeto, dizendo que este era um perturbador da ordem
pública, pois incitava os judeus a se amotinarem. O governador prontamente
enviou as ordens para a prisão de Saulo. Imediatamente, os soldados passaram a
vigiar os portões da cidade, observando as caravanas que saíam de Damasco. Como
a cidade só possuísse quatro portões, os rabinos julgavam que, em breve, o
prenderiam.
Sempre atentos a qualquer movimento, os judeus pretendiam acabar com a seita
que os perturbava, livrando-se de seu novo líder. Diante disso, os amigos de
Saulo perceberam que só havia um meio de salvar-lhe a vida: tirá-lo da cidade.
Os velhos muros eram tão largos em determinados lugares que casas haviam sido
construídas sobre eles. Numa dessas casas, com janelas salientes, morava um
nazareno. Quando a noite caiu sobre a cidade, Saulo foi levado a essa casa.
Então, amarraram uma corda a um grande cesto que foram baixando pelo muro até
que pousasse em segurança. Ato contínuo, o passageiro deixou rapidamente o
cesto, embrenhando-se na escuridão.
A viagem de Saulo a Jerusalém
Saulo ganhara a liberdade. Não foi senão depois de muitos dias que as
autoridades da sinagoga foram informadas de que ele encontrava-se em Jerusalém,
perturbando o povo de lá como o fizera em Damasco. Fazia pouco mais de três
anos desde que deixara Jerusalém com uma guarnição e uma ordem de prisão contra
os nazarenos. Nessa época, representava o Templo, os sacerdotes e os fariseus
em toda a sua oposição a CRISTO. Agora, representava a JESUS, e estava voltando
justamente para dar testemunho do Salvador. Saulo encontrara a CRISTO - o
Caminho, a Verdade e a Vida - e estava mui feliz.
A permanência de Saulo em Jerusalém foi curta. Depois de duas semanas, o vigor
de sua mensagem irritou tanto aos judeus que estes procuraram matá-lo. Quando
Saulo retornou à Cidade Santa, esta não o recebeu como antes, com amizade e
esplendor. Agora, mostrava-se fria e nada acolhedora. Não teve permissão para
visitar a escola de Gamaliel ou o palácio do sumo sacerdote. Era agora
conhecido e odiado nas sinagogas, e a única coisa que pode fazer foi procurar
os nazarenos. Saulo sabia que numerosos discípulos reuniam-se na casa de Maria,
mãe de Marcos, e foi então para lá, esperando ter notícias dos demais cristãos
de Jerusalém. Na casa de Maria, Barnabé, Primo de Marcos, imediatamente o
reconheceu e acolheu.
Barnabé era um judeu originário da ilha de Chipre. Homem rico, dono de grandes
propriedades, fora também um levita do Templo. Em virtude de sua formação,
tornou-se um dos líderes da igreja em Jerusalém, um apóstolo (At 14:14).
Ouvindo a história de Saulo, Barnabé comoveu-se. De imediato, ofereceu-lhe a
destra, tratando-o de irmão. Mas os outros nazarenos agiram de modo diferente;
suspeitavam de alguma traição; não podiam acreditar na conversão de Saulo. E se
fosse mentira? Aquele homem perseguira de tal forma a Igreja, que muitos crentes
haviam sido expulsos da cidade; famílias haviam sido separadas por sua causa.
Embora friamente recepcionado, Saulo aceitou a tudo graciosamente. Pelo menos,
tinha a Barnabé por amigo.
O respeitado líder levou-o aos apóstolos que, ao lhe ouvirem a história, creram
e receberam-no como um deles. Quando Pedro soube que Saulo havia ido a
Jerusalém especialmente para vê-lo, acolheu-o em sua casa. Durante duas
semanas, Paulo, que sentara aos pés de Gamaliel, agora achava-se aos pés do
pescador que, nesse curto espaço de tempo, lhe ensinaria mais sobre as Palavras
da Vida do que todo o tempo em que fora aluno do afamadíssimo rabino.
Cada vez que Pedro falava em JESUS, seus olhos brilhavam. Ele descreveu-lhe o
CRISTO sem pecado que pregara como homem algum jamais o fizera. Os detalhes da
vida do Salvador eram vivos e recentes para Pedro. Pois fazia agora seis anos
que JESUS havia sido crucificado no Calvário.
Pedro discorreu-lhe sobre os grandes milagres e ensinos de JESUS. Discorreu-lhe
ainda acerca do Reino de DEUS e como os homens, em toda parte, jamais haviam
conseguido opor-se à sabedoria do Rei. Contou-lhe como JESUS fora rejeitado,
traído e crucificado, e como o maior de todos os milagres ocorrera três dias
após a crucificação - o milagre da ressurreição de CRISTO. Pedro também
falou-lhe, em termos exaltados, a respeito das muitas vezes em que o Salvador
aparecera aos discípulos, e especialmente da ocasião em que Ele, chamando-o à
parte, conversou consigo depois da ressurreição.
"A cada dia, Pedro desenhava-lhe uma figura diferente do CRISTO que,
viajando pela Galiléia, ensinava as multidões. Agora, Saulo já se sentia tão
seguro do seu conhecimento acerca de JESUS, que tinha a impressão de haver
convivido pessoalmente com o Salvador. Ele já tinha, pois, plenas condições de
anunciar o Evangelho às mais distantes regiões.
A Perseguição de Saulo em Jerusalém
Embora haja ficado apenas duas semanas em Jerusalém, Saulo, à semelhança de
Estevão, foi às sinagogas helenísticas e, ali, declarou corajosamente a todos
que era agora um nazareno. Muitos lembravam-se dele como o perseguidor dessa
seita. Mas agora estavam surpresos ao ouvi-lo conclamar os judeus ao
arrependimento por haverem rejeitado a JESUS.
Entre outras coisas, disse-lhes que a vida eterna não é conquistada obedecendo
à Lei, mas confiando no Filho de DEUS que, graciosamente, nos concede o dom da
salvação. Homens de grande zelo e habilidade rabínica opunham-se-lhe e o debate
ficava a cada dia mais acalorado. Em Jerusalém, os rabinos lançaram-lhe em
rosto os argumentos que antes ele usara para combater os nazarenos. O próprio
Saulo não dissera que JESUS era um impostor e que havia merecido a morte?
A batalha foi breve. Saulo tinha agora tantos inimigos, que um movimento surgiu
para livrar a religião judaica dessa maldição. Por que não fazer com ele o que
haviam feito com Estêvão? Ele merecia morrer; era um impostor, um blasfemador e
um traidor! Pior ainda, fora treinado como rabino, mas passara a odiar o
sistema que o nutrira.
O Chamado para Pregar aos Gentios
Certo dia, Saulo achava-se no Templo para orar, e enquanto suplicava a
orientação e a sabedoria do Senhor em relação ao seu futuro e quanto à abertura
de uma porta a fim de que pregasse aos judeus ali, no centro de sua adoração,
teve ele uma experiência que lhe determinaria o caminho a ser tomado. Numa
visão, o Senhor lhe disse: "Dá-te pressa e sai apressadamente de
Jerusalém, porque não receberão o teu testemunho acerca de mim" (At
22.18). Saulo respondeu imediatamente:
Senhor, eles bem sabem que eu lançava na prisão e açoitava nas sinagogas os que
criam em ti. E quando o sangue de Estêvão, tua testemunha, se derramava, também
eu estava presente, e consentia na sua morte, e guardava as vestes dos que o
matavam (At 22. 19,20)
Saulo tinha consciência de sua dívida. Por isso, em profunda agonia, confessava
repetidamente o seu pecado ao Senhor por haver perseguido a Igreja. Mas JESUS
falou-lhe novamente numa visão: "Vai, porque hei de enviarte aos gentios
de longe" (At 22.21).
A visão desapareceu com a mesma rapidez com que surgira. Saulo volta a si.
Embora sua mente estivesse tomada pelo mistério, de uma coisa tinha certeza:
DEUS o guiava e tinha um grande propósito para si - não entre o seu povo, mas
em terras distantes. Pensando já nos vastos países que ficavam a oeste dos
Portões da Cilícia, resignou-se a deixar Jerusalém.
Sabendo dos planos para silenciar a Saulo, seus amigos, disfarçados por causa
da segurança, conduziram-no a salvo para fora dos muros da cidade. A Jerusalém
dos seus sonhos acabara por ser-lhe uma decepção. Muitos de seus velhos amigos
agora o odiavam e teriam-no apedrejado em nome da Lei de Moisés. Até os
nazarenos, seus novos amigos, mostravam-se reservados quanto à sua conversão.
Barnabé e Pedro, contudo, aceitaram-no abertamente. Eles viam em Saulo de Tarso
um defensor da fé, e alguém que nos anos vindouros seria usado por DEUS para
defender o Evangelho.
Saulo deixou Jerusalém apenas quinze dias depois de sua chegada. De volta para
casa, tomou a estrada costeira em direção a Cesaréia, capital romana da
Palestina.
A Volta de Saulo a Tarso
Em Cesaréia, Saulo foi para o porto, e procurou um navio, entre os muitos
que ali se achavam ancorados, que o levasse para Tarso.
Como as coisas haviam mudado desde a época em que tinha poder e achava-se
armado com a autoridade do sumo sacerdote! Não passava agora de um fugitivo,
expulso de cidade em cidade, perseguido e odiado, tendo de disfarçar-se, e
quase sem amigos. Mas, no seu coração, havia uma leveza e alegria que não
conhecera antes. Era a alegria de CRISTO.
A PRIMEIRA
VIAGEM MISSIONÁRIA
Em seu regresso, Saulo foi recebido
de braços abertos por alguns. Mas os que sabiam de sua mudança logo sentiram
que a sua presença causaria confusão, pois ele, agora, acreditava no impostor
JESUS. A confirmação veio de seus próprios lábios. Todos estavam desapontados e
enfurecidos. Como um fariseu erudito, cuidadosamente criado e educado por
hebreus, e que logo se tornaria rabino, pôde tomar semelhante atitude?
Não se sabe de que forma os pais de Saulo receberam o duro golpe. Como não
estivessem preparados, sentiram-se envergonhados por seu filho: justamente ele
havia oferecido fogo estranho no altar.
Quando relatou sua experiência em Damasco - seu encontro com o CRISTO
ressurreto - houve admiração e desdém. Muitas vozes elevaram-se contra, mas
nenhuma pôde calar-lhe os lábios. CRISTO JESUS era tão real para Saulo, que não
lhe importava se o mundo fosse contrário à sua mensagem; continuaria a pregá-la
fielmente. Em Tarso, Saulo achava-se longe da sombra do Templo e do Sinédrio, e
sendo um hábil orador, é provável que multidões se reunissem para ouvir-lhe os
sermões. Alguns podem ter-se rejubilado com cada palavra e se tornado
abertamente nazarenos.
Os rabinos mais velhos, invejosos de sua capacidade, certamente o advertiram a
não falar contra as regras. É possível que em Tarso, diante da porta de sua
própria sinagoga, haja sido chicoteado em público, fato que, mais tarde,
haveria de mencionar (2 Co 11.24). Mas nisso se gloriou. Por seu intermédio, o
Evangelho abriu os olhos aos cegos e levou a esperança a muitos corações. Nada
o deteria. Não lhe dissera o Senhor que se tornaria apóstolo para os gentios?
Obscuridade e Fabricação de Tendas
Apesar de sua confiança e do chamado divino, Saulo entra num período de
inatividade. Durante sete ou oito anos, pouco se ouve falar dele. Mas aqueles
foram anos de espera, disciplina e paciência. Saulo talvez necessitasse desse
tempo para fortalecer-se e descobrir o segredo de esperar pacientemente no
Senhor. Ele tinha uma missão, mas faltava-lhe a oportunidade.
No plano de DEUS, para quem o tempo não existe, aquele período haveria de
amainar o rancor dos rabinos. Talvez Saulo tenha permanecido em Tarso,
enfrentando a oposição e sustentando-se na loja de tendas, até que DEUS
completasse mais um grande estágio na história da Igreja. Nesse interregno,
Pedro e os demais apóstolos foram se conscientizando de que a Igreja não era
exclusivamente para os judeus. O Senhor dera a Pedro a visão dos animais puros
e impuros, preparando-o para evangelizar Cornélio, o gentio de Cesaréia, que
foi admitido na Igreja sem ter de passar pelos rituais judaicos. Esse foi um
passo que revolucionou toda a perspectiva do Cristianismo. É possível que nessa
ocasião, Saulo haja se irritado e resmungado contra a demora em seu ministério.
Mas acabaria por aprender que as delongas de DEUS têm sempre um propósito; nada
sai errado em seu cronograma.
Enquanto isso, Saulo vivia na obscuridade. É provável que haja pregado não
apenas em Tarso, mas também na zona rural que visitara quando menino para
comprar pêlo de cabra. Sempre que viajava pelas estradas e trilhas de camelos,
através das florestas e vales, procurava seus conterrâneos. Falava-lhes de
JESUS, o Messias, e convidava-os a procurar nEle a justificação pela fé.
Dispersão da Igreja de Jerusalém
A Igreja de Jerusalém teve seus altos e baixos. Quando a perseguição
aumentou, os nazarenos viram-se obrigados a esconder-se. Alguns até saíram da
Palestina, e procuraram refúgio noutras terras. Grande número dirigiu-se a
Damasco. Outros foram até Antioquia, a linda capital romana da Síria, cerca de
480 quilômetros ao norte de Jerusalém. Em Antioquia, muitos judeus estrangeiros
haviam se tornado seguidores de JESUS. Eles eram mais liberais, e o medo do
sumo sacerdote não os constrangia. Alguns haviam nascido na Grécia, outros na
costa africana de Cirene, e outros em Chipre. À medida que o Evangelho lhes era
pregado, grande número veio a crer. E o ESPÍRITO de DEUS atuava na pregação
levando também muitos gentios de Antioquia a se converterem. E isso muito
aborreceu aos cristãos hebreus, pois estavam certos de que JESUS CRISTO
pertencia somente a eles, e a única maneira de tornar-se nazareno seria tornar-
se, primeiro, um prosélito da sinagoga.
Barnabé em Antioquia
O movimento de Antioquia cresceu tanto que um sinal de alarme foi enviado à
igreja-mãe. Em Jerusalém, após as deliberações, Barnabé, com sua mente aberta e
esclarecida, foi enviado a fim de investigar a autenticidade das proclamadas
conversões dos gentios.
Barnabé ouvira os argumentos dos judeus de mente estreita e também dos judeus
oriundos de Chipre. Vira igualmente as multidões de gentios que haviam
abandonado seus ídolos, e agora professavam alegremente a CRISTO. Barnabé não
podia negar a realidade daquelas conversões. Essas pessoas também haviam
sofrido por CRISTO; algumas, apesar de desprezadas por sua própria gente,
regozijavam-se por sua salvação.
Barnabé, impressionado com o que via, levantou-se para falar. Não criticou os
gentios, nem ordenou que se afastassem da Igreja até serem instruídos no
Judaísmo. Pelo contrário: maravilhou-se porque a graça de DEUS estendia-se além
das fronteiras de Israel. Ele os exortou a que se agarrassem a JESUS, mesmo em
face das perseguições, e jamais desistissem da fé. Suas palavras alegraram os
ouvintes; houve perfeita unidade na Igreja. E o Senhor acrescentava diariamente
os que iam sendo salvos.
O Chamado para Antioquia
Ao perceber a obra esplêndida que se poderia realizar em Antioquia, Barnabé
só pôde pensar num único homem - alguém que encontrara em Jerusalém, que fora criado
numa cidade gentia, e que possuía muitas das qualificações exigidas para uma
grande liderança. E mais que isso: o Senhor lhe colocara no coração o
ministério para os gentios.
A imagem de Saulo de Tarso formou-se na mente de Barnabé. Tempos atrás, vira-o
arder com a missão de pregar a CRISTO aos estrangeiros. Se Saulo pudesse ir a
Antioquia com seu fervoroso zelo e suas palavras poderosas!
Sem mais delongas, Barnabé percorreu os 25 quilômetros até o porto de Selêucia.
Encontrou aí um barco e, após um longo dia no mar, chegou ao rio Cnido, onde as
velas foram amadas e os compridos remos o levaram corrente acima, até o porto
de Tarso.
Será que encontraria Saulo? Quando Barnabé finalmente o encontrou, ambos se
abraçaram. Eles não se viam há oito anos. Barnabé Contou a história, e Saulo
prestou atenção a cada palavra. Havia de fato uma grande obra a ser feita em
Antioquia, e essa era a porta que DEUS lhe estava abrindo! Saulo assentiu em
partir imediatamente.
Saulo em Antioquia
Com meio milhão de habitantes, Antioquia da Síria era a terceira maior
metrópole do Império Romano. Os muros da cidade eram tão fortes, que as suas
ruínas ainda podem ser visitadas. Eram largos e possuíam muitas torres. O monte
Silpio levantava-se no centro da cidade, e achava-se coalhado de barracas, onde
aquartelavam-se os soldados romanos que guardavam a região.
Muitos reis haviam despendido grandes somas para tornar Antioquia ainda mais
bela. Ali havia jardins, lagos e palácios magníficos. Herodes adornara uma de
suas ruas com colunas de mármore, numa extensão de cerca de três quilômetros.
Fora da cidade, encontrava-se um grande anfiteatro onde eram realizados jogos e
corridas.
O povo de Antioquia adorava as estrelas e vários ídolos, em cuja honra tinham
construído majestosos templos. No lado oposto da cidade, o grande escultor
Licos modelara uma enorme cabeça adornada com uma coroa. Esculpira-a num grande
bloco de pedra que se projetava do solo. A figura tornou-se o símbolo de
Antioquia, assim como a Estátua da Liberdade viria a ser o símbolo da América.
Até hoje ela pode ser vista em muitas das moedas de Antioquia.
Como em todo o império era intensa a busca pelo prazer e ociosidade. Antioquia
não fugia à regra. Da porta de Dafne, uma estrada estendia-se por oito
quilômetros, até o bosque de Dafne e o templo de Apolo, pontilhada pelas casas
e jardins dos mais abastados. O bosque, um dos lugares mais aprazíveis de toda
a região, era palco de orgias tão desenfreadas que até os próprios romanos
delas se escandalizavam. Visitantes chegavam a Antioquia, vindos de todas as
partes do mundo: africanos, gregos, romanos, persas, egípcios e judeus. As
pessoas enchiam as ruas e, num espírito de permanente feriado, consideravam o
bosque de Dafne o lugar mais interessante e animado do mundo.
Saulo foi levado à cidade. O Evangelho de JESUS CRISTO penetrara em alguns
corações e o poder do ESPÍRITO SANTO operava nos judeus e gentios igualmente.
Apesar de toda a sua grandeza, Antioquia continuava faminta e necessitada.
Barnabé levou o amigo a reunião da igreja. Era uma assembleia quase tão forte
quanto a de Jerusalém. Saulo conheceu vários líderes da igreja, entre os quais
Manaém, um parente de Herodes Antipas. Ele era um homem de alta posição em
Antioquia. Havia também Simeão, o Africano, Lúcio de Cirene e tantos
estrangeiros de rincões desconhecidos que Saulo foi levado a regozijar-se em
seu meio.
Em Jerusalém e em todos os outros lugares, os seguidores de JESUS eram chamados
de nazarenos, mas em Antioquia receberam outro nome. O povo chamou-os de
"cristãos" para zombar deles. O nome outrora pronunciado em tom de
desprezo nos é hoje motivo de orgulho. Como qualquer rabino em Israel, Saulo
estabeleceu-se em seu ofício, pois os fabricantes de tendas sempre encontravam
trabalho. Dessa forma, ganhava seu sustento, mas a principal razão de sua
presença em Antioquia era ajudar a Igreja a fortalecer-se na fé.
Saulo visitava diariamente a sinagoga e os bazares, e muitas vezes ficava à
beira da estrada enquanto o povo ia lotando as pistas de corridas. Ele chamava a
todos ao arrependimento, exortando-os a se voltarem para DEUS. Dizia-lhes que
JESUS de Nazaré - que há dez anos fora crucificado em Jerusalém e ressuscitara
ao terceiro dia - era o CRISTO das Escrituras: o Filho de DEUS enviado ao mundo
para salvar os homens do pecado.
Saulo chamou-os do vazio da idolatria para a plenitude da vida cristã. Os
amantes do prazer, mercadores, turistas, e mulheres da sociedade - ninguém
podia ignorar a eloquência de Barnabé e a grande sabedoria de Saulo. Não Podiam
deixar de admirar-lhes a coragem e o zelo, mesmo em face da multidão
escarnecedora. Pelo menos não havia sumo sacerdote ali para levantar a mão
contra eles. O ministério do Evangelho estava desimpedido e a Igreja crescia
rapidamente; cada cristão era uma incansável testemunha de JESUS.
Durante um ano, Saulo trabalhou pelo Evangelho nessa importante cidade. Falava
com empenho, e o Senhor tornava produtivos o seu ensino e pregação. Não demorou
muito, e Antioquia já era um centro cristão mais forte que Jerusalém, pois a igreja,
aqui, não sofria quaisquer distúrbios.
Outras Perseguições aos Cristãos
Quando o imperador Calígula foi assassinado, Herodes Agripa achava-se em
Roma. Por ter ajudado o novo imperador, foi ele honrado com o governo das
terras de seu avô, Herodes, o Grande. Houve júbilo em Jerusalém quando ele
passou a reinar, pois sabia-se ter sido ele fariseu; a rigidez da religião
judaica não lhe era estranha.
Seu primeiro ato como rei foi remover Anás, o saduceu, do cargo de sumo
sacerdote, e indicar Gamaliel para presidente do Sinédrio. Tudo isso parecia
promissor aos fariseus, que se alegraram ao ver surgir um defensor de sua
causa. Todavia, quando Agripa desceu ao seu palácio em Cesaréia, tirou o manto
farisaico, passando a viver abertamente como um romano irrefletido e profano.
Como Herodes Agripa quisesse cair na graça dos rabinos, pôs-se a perseguir os
cristãos. Ordenou que se prendesse e decapitasse a Tiago, irmão de João. Tiago
foi o primeiro dos apóstolos a morrer. Vendo que o Sinédrio muito se agradara disso,
e estimulado com o crescimento de sua popularidade, Herodes ordenou ainda a
detenção de Pedro. Lançou-o na prisão, pretendendo matá-lo depois da Páscoa. No
entanto, um anjo de DEUS, abrindo as portas do cárcere, soltou o apóstolo.
Presentes para os Cristãos de Jerusalém
No auge da perseguição, um certo profeta chamado Ágabo, que morava em
Jerusalém, visitou Antioquia. Levantando-se na assembleia, deu a entender, pelo
ESPÍRITO do Senhor, que DEUS enviaria uma grande fome sobre o império. Isso
significava que tempos difíceis abater-se-iam sobre todos. Isso realmente
aconteceu no tempo de Cláudio César (At 11:28). Ato contínuo, os cristãos de
Antioquia levantaram ofertas e as enviaram aos santos da Judéia pelas mãos de
Barnabé e Saulo.
Despedindo-se da igreja de Antioquia, partiram ambos para Jerusalém, levando
Tito consigo. Nos anos seguintes, viria este a ser um excelente líder, sendo o
encarregado de supervisionar as igrejas de Creta.
Quão tocante não deve ter sido quando Barnabé e Saulo depuseram as provisões
diante dos irmãos de Jerusalém. Todas aquelas dádivas lhes haviam sido enviadas
por homens e mulheres que jamais tinham visto. E muitos deles eram gentios!
A Grande Controvérsia
A questão dos gentios na Igreja era uma das pendências que Saulo pretendia
resolver em sua estadia em Jerusalém. Contrariando seus hábitos, não foi pregar
nas sinagogas. Em vez disso, reuniu-se com os líderes a fim de fazê-los
entender que os gentios tinham o direito de fazer parte da Igreja sem ter de se
submeter aos ritos e cerimônias da sinagoga.
Foi aí que Saulo veio a constatar: ainda tinha inimigos entre os próprios
cristãos, pois alguns achavam que Tito, por ser grego, não tivera uma real
experiência com o Senhor. Na igreja-mãe, havia também alguns fariseus que
alegavam ser seguidores de JESUS, mas não passavam de traidores; sua presença
na Igreja prejudicava o crescimento do Evangelho. Eram espiões do inimigo, e
faziam o máximo para levar os nazarenos de volta ao Judaísmo.
Saulo os enfrentou, provando-lhes que a graça de DEUS se havia estendido também
aos gentios. Ele animou-se ao ver que Pedro, João e outros discípulos o
aprovavam. Estes concordaram com Saulo e Barnabé para que fossem pregar aos
gentios, e os admitissem na Igreja sem sujeitá-los aos ritos judaicos.
Mas a questão ainda não fora resolvida; alguns continuavam a ensinar que a Lei
de Moisés era necessária; outros diziam que não. Preocupados, Barnabé e Saulo
deixaram a igreja de Jerusalém, e prepararam-se para a longa viagem de volta a
Antioquia.
A casa de Maria, parente de Barnabé, era o ponto de encontro dos líderes
cristãos. Saulo e Barnabé haviam desfrutado de sua hospitalidade durante a
viagem, e sentiram-se especialmente atraídos por seu filho, Marcos. Apesar de
ser ainda um rapazinho, Marcos seguia sinceramente a JESUS. Quando criança,
conhecera o Senhor e, mediante a pregação de Pedro e João, passara a ser um
fiel nazareno. Naturalmente Barnabé via grandes possibilidades no jovem; Saulo
também impressionou-se com sua dedicação. Ambos persuadiram-no a acompanhá-los
até Antioquia. Aquela seria sua primeira viagem para lugares distantes. O
chamado da aventura era forte, e ele Partiu entusiasmado.
O Retorno a Antioquia
A igreja de Antioquia recebeu os seus líderes de braços abertos,
alegrando-se com as notícias dos cristãos de Jerusalém. Era bom saber que seus
presentes serviram para encorajá-los num período tão difícil.
Antioquia estava tornando-se rapidamente o centro das atividades da Igreja. O
braço da perseguição não era tão pesado lá como o era em Jerusalém à sombra do
Templo. A igreja cresceu sem o rancor dos sacerdotes e principais da sinagoga,
até que outras comunidades cristãs menores começaram a aceitar-lhe a liderança.
Muitos dos cristãos de Antioquia procediam de lares gentios. Eles lembravam-se
naturalmente de seus parentes dispersos por todo o império, e achavam que o
Evangelho também lhes deveria ser pregado. Uma vez que Saulo fora chamado pelo
Senhor para ministrar aos gentios, esses cristãos concluíram que se deveria
formar um grupo missionário, e enviá-lo aos países vizinhos.
A Primeira Viagem Missionária
Depois de várias reuniões de jejum e muita oração, os líderes da igreja
entenderam que era a vontade de DEUS que enviassem Barnabé e Saulo nessa
missão, Isso foi decidido e comunicado a eles pelo ESPÍRITO SANTO. Quem seria
melhor qualificado para ela? Eram homens experimentados, e ambos defendiam a
idéia de que os gentios deviam ser participantes da promessa juntamente com os
judeus. Haviam ambos viajado muito e pareciam ser cidadãos do mundo. Estavam
capacitados a representar a CRISTO; para isto haviam sido chamados. Os líderes,
levantando-se numa reunião de jejum e oração da igreja, impuseram as mãos sobre
Barnabé e Saulo, abençoando-os e encarregando-os solenemente da tarefa
missionária.
Com as mochilas cheias de provisões e presentes oferecidos pelos membros da
igreja, Barnabé e Saulo partiram numa jornada que os manteria longe de casa por
mais de dois anos. Deixaram atrás de si uma igreja que jamais haveria de se
esquecer deles em suas orações.
Os missionários levaram consigo o jovem Marcos. Quando a primavera chegou aos
montes da Síria, os três partiram; muitos irmãos estavam lá pra se despedirem
deles. Os missionários caminharam pela longa estrada pavimentada que os levaria
ao porto de Selêucia, onde havia grande atividade. Navios mercantes chegavam e
partiam para outros portos em todo o Mediterrâneo. Muitos barcos de pequeno
porte, levando frutas de Chipre, distante dali cerca de 113 quilômetros,
navegavam regularmente pela estreita faixa de água azulada, num percurso de
seis horas, com vento favorável. Como Barnabé era de Chipre, eles certamente
seriam bem acolhidos na cidade. Além disso, havia na ilha alguns cristãos que
tinham sido expulsos de Jerusalém quando da perseguição geral.
A Ilha de Chipre
O pequeno navio bordejou a ilha, e navegando junto à costa escura e
rochosa, chegou à principal cidade, Salamina, na foz do rio. A atividade no
porto era enorme. Dois grandes diques de pedra estendiam-se como braços
protetores para o belíssimo azul das águas, convidando os navios de todo o
globo a ancorarem ali. As ruas da cidade comparavam-se às de Tarso. Em toda
parte, avistava-se santuários de ídolos e templos erigidos aos deuses gregos. O
prédio mais popular da cidade era o templo de Afrodite, a deusa que
representava a beleza feminina, e cuja adoração era acompanhada por ritos
vergonhosos e pecaminosos.
Os sacerdotes desse templo costumavam contar como, há muito tempo, a bela
Afrodite surgira dentre a espuma das ondas e, vendo as areias macias da praia,
fizera de Chipre sua residência permanente. Essa, segundo eles, era a razão de
as mulheres de Chipre serem tão altas e belas. O aniversário de Afrodite era
celebrado com um festival.
A vida na ilha era fácil e despreocupada; o povo tinha como principal objetivo
a busca do prazer. Com certeza, Barnabé conhecia muito bem a essa gente. Depois
de visitar os amigos e parentes, passou a frequentar as sinagogas. Enquanto
isso, Saulo anunciava o Evangelho, afirmando que CRISTO cumprira as promessas
feitas a Israel, e viera para ser o seu Messias.
Como houvesse várias sinagogas em Salamina, Barnabé e Saulo narraram a história
de JESUS de modo que todo judeu pudesse ouvi-la. Sem dúvida, Saulo contou que
fora educado para ser rabino e fariseu, e que passara anos perseguindo os
cristãos antes de encontrar o Senhor ressurreto na estrada de Damasco - o
encontro que mudara-lhe a vida. Não se sabe se alguém foi levado a CRISTO em
Salamina. Depois de haverem passado algum tempo ali, os três obreiros viajaram
a pé de uma ponta à outra da ilha.
Eles pregavam a CRISTO sempre que tinham oportunidade. É possível que o
fizessem nas minas de cobre, nas salinas, nos pomares, nas fábricas, ou onde
quer que houvesse grupos de pessoas. É certo que visitaram as sinagogas nas
aldeias, e finalmente, depois de várias semanas, entraram no vale que descia
para o mar ocidental e a cidade de Pafos. Aqui, na praia beijada pelo sol,
achava-se o lugar onde, supostamente, Afrodite saíra das ondas. Seu templo, com
grandes pilares de mármore, marcava o local onde chegara à praia, e que era
considerado sagrado. Pafos era a capital de Chipre.
Como na maioria das cidades, havia ali um bairro judeu. E Saulo e Barnabé,
acompanhados por Marcos, conseguiram descobri-lo. De acordo com o seu costume,
Saulo pregou CRISTO à sua gente. Alguns creram; outros sentiram-se insultados.
Sérgio Paulo, o governador enviado por Roma à ilha, era um homem culto e que se
interessava pela ciência da sua época. Uma ciência, porém, estranhamente
misturada à feitiçaria e à astrologia. Sérgio Paulo, embora estivesse
acostumado aos deuses e deusas de Roma, continuava procurando algo que lhe
satisfizesse a alma.
Quando o governador soube da chegada de Saulo e Barnabé, mandou chamá-los;
queria ouvir a nova doutrina. Essa era a grande oportunidade de Saulo, e ele a
encarou como se fora uma porta aberta para o Evangelho. Com humildade, mas
cheio de entusiasmo, foi encontrar-se com o ilustre romano e sua mulher. Outros
religiosos e supersticiosos também se achavam ali, querendo conhecer a nova
crença.
Como Saulo também era romano, começou a falar desenvolta e habilmente. Expôs o
amor romano à verdade e à justiça, e sua aceitação e tolerância com todas as
religiões. A seguir contou, um a um, os grandes fatos do Evangelho - a vinda de
JESUS CRISTO, a rejeição de seu próprio povo, sua crucificação e, finalmente,
sua ressurreição. Recapitulou sua experiência pessoal como opositor do
Cristianismo, e como certo dia o Senhor o cativara e transformara-lhe
completamente a vida.
Sérgio Paulo ficou impressionado. As palavras de Saulo agradaram-lhe os
ouvidos. Seu coração inclinou-se para DEUS e a luta por sua alma já estava
quase ganha. Mas Barjesus, um mágico e feiticeiro da corte, também chamado de
Elimas, negava vigorosamente as palavras de Saulo. Barjesus era judeu e estava
vivendo em oposição à Lei de Moisés, pois esta condenava a feitiçaria. Todavia,
diante da pregação de Saulo, seu judaísmo veio à tona; seus argumentos
tornaram-se fortes.
Paulo discutiu com ele, e vendo que se vendera a Satanás e estava agora
obstruindo a palavra de DEUS, clamou contra ele:
Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a
justiça, não cessarás de perturbar os retos caminhos do Senhor? Eis aí, pois,
agora, contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum
tempo. No mesmo instante a escuridão e as trevas caíram sobre ele, e, andando à
roda, buscava a quem o guiasse pela mão (At 13.8-12).
Enquanto Sérgio Paulo observava, os olhos de Elimas embaçaram e a escuridão
caiu sobre si. O homem estendeu desesperadamente a mão, tateando para encontrar
o caminho, e teve de ser guiado através do aposento.
O governador romano vira a poderosa mão de DEUS sobre uma alma rebelde, e
deixou- se convencer. Levantou-se do divã; não pôde mais resistir ao Evangelho.
Creu e foi contado entre os cristãos. Esse foi um grande avanço. DEUS honrara o
ministério de Saulo, dando-lhe o homem mais importante da ilha.
Paulo, um NOVO Homem
Movimentando-se entre os gentios, Saulo passou a ser chamado de Paulo, pois
essa era a forma romana de seu nome. Enquanto estava na sinagoga, e mesmo
depois de tornar-se cristão, era conhecido pelos amigos como Saulo. Mas esse
nome era israelita, e de certa forma representava tudo o que ele fora como judeu
e fariseu. O nome Paulo indicava o novo homem e seu novo trabalho. Enquanto
permaneceu entre os gentios das províncias, foi se tornando cada vez mais
conhecido como Paulo. Com o correr dos anos, até o fim de sua vida, usou o nome
romano para assinar todas as suas cartas.
A Caminho de Perge
Em Chipre, as circunstâncias eram favoráveis a Paulo, Barnabé e Marcos. Sem
que o percebessem, transcorreram-se vários meses. Mas eles não haviam planejado
passar o inverno lá. O verão já se fora e a colheita terminara, quando os três
despediram-se dos amigos, e começaram a viagem de dois dias para a província da
Panfília, no continente. Esta ficava somente a 160 quilômetros a oeste da casa
de Paulo, em Tarso, sendo, porém, uma porta de saída para as cidades gentias da
Ásia Menor.
O pequeno barco foi navegando pela costa rochosa da Panfília, procurando
encontrar a foz do rio Cestro. A 13 quilômetros rio acima, chegaram à cidade de
Perge. As velas foram baixadas e os compridos remos levaram o barco finalmente
ao molhe. Ali, na encosta do morro, ficavam o anfiteatro, a pista de corridas e
o templo de Diana.
As casas eram semelhantes às de Tarso - em estilo grego e de grande beleza.
Naquela época do ano, muitos habitantes de Perge iam aos passos, nas montanhas,
que levavam à cidade de Antioquia, no interior da Galácia. Marcos, porém,
desanimou. As montanhas da Panfília eram perigosas e as passagens infestadas de
assaltantes. Plínio fizera um discurso grandioso contra a pirataria em mar
aberto, diante do tribunal de Roma, e o resultado foi uma campanha para
expulsar dos mares os navios piratas. Os meliantes retiraram-se, então, para as
montanhas, tornando-se ladrões de estrada, molestando frequentemente os
viajores. É possível que, pensando nessas coisas e nos animais selvagens à
espera nos desfiladeiros, Marcos haja sentido medo. E, pensando nas possíveis
consequências, decidiu voltar para casa.
Após a partida de Marcos, Paulo e Barnabé continuaram viagem pelas trilhas
montanhosas, seguindo o curso do rio. Algumas vezes as rochas eram íngremes e o
caminho estreito; outras, viajavam por vastas planícies onde o sol tostava as
pastagens. Levaram uma semana para chegar às terras altas e frias, onde era
mais saudável viver. Ali, no sopé das Montanhas Sultão, a cidade de Antioquia
florescia, com fileiras e fileiras de construções.
O Ministério em Antioquia da Pisídia
Antioquia da Pisídia era a porta de saída para o interior da Ásia Menor.
Fora antes uma cidade grega, mas agora havia nela uma fortaleza romana. Os
prédios de mármore branco brilhavam ao sol, emprestando-lhe uma beleza
singular. Os judeus sempre eram bem acolhidos pelos moradores de Antioquia, e
Paulo e Barnabé encontraram um bom local para estabelecer-se. Fabricante de
tendas, Paulo gostava de ganhar seu sustento, aonde fosse, a fim de não ser
pesado à Igreja. Além disso, seus contatos com mercadores e suas viagens às
lojas para vender as mercadorias, davam-lhe muitas oportunidades de falar de
JESUS.
Aos sábados, Paulo e Barnabé iam juntos à sinagoga, e eram convidados pelos
líderes a tomar parte na adoração e falar aos presentes. Havia sempre orações
seguidas por leituras da Lei e dos Profetas. A reunião terminava com um
discurso ou um debate entre os principais membros da sinagoga sobre alguma
passagem das Escrituras. Quando os líderes perceberam que Paulo e Barnabé eram
homens cultos, e pareciam ser portadores de uma mensagem, disseram-lhes:
"Varões irmãos, se tendes alguma palavra de consolação para o povo,
falai" (At 13-15).
Um Importante Sermão de Paulo
Havia um bom número de pessoas presentes, tanto judeus como prosélitos
(gentios convertidos ao Judaísmo). Barnabé reconheceu que a experiência de
Paulo qualificava-o como mensageiro. Olhou para ele com um sorriso que dizia:
"Essa é a sua oportunidade, aproveite-a!"
Paulo estava pronto. Levantando-se, pediu silêncio com um gesto. Como de
costume, os judeus estavam sentados no chão, de pernas cruzadas, com os xales
de oração sobre os ombros. Os olhares voltaram-se para ele quando começou a
falar lentamente:
Varões israelitas, e os que temeis a DEUS, ouvi: O DEUS desse povo de Israel
escolheu a nossos pais, e exaltou o povo sendo eles estrangeiros na terra do
Egito, e com braço poderoso o tirou dela; e suportou os seus costumes no
deserto por espaço de quase quarenta anos; e destruindo a sete nações na terra
de Canaã, deu-lhes por sorte a terra deles. E, depois disso, por quase
quatrocentos e cinqüenta anos, lhes deu juizes, até o profeta Samuel.
E depois pediram um rei, e DEUS lhes deu, por quarenta anos, a Saul, filho de
Quis, varão da tribo de Benjamim.
E, quando esse foi retirado, lhes levantou como rei a Davi, ao qual também deu
testemunho e disse: Achei a Davi, filho de Jessé, varão conforme o meu coração,
que executará toda a minha vontade (At 13.16-22).
Esse retrospecto da história era familiar aos judeus, que o acompanharam com
grande interesse e aprovação. Mas o objetivo de Paulo ao recapitular tais fatos
era apresentar-lhes JESUS. Então prosseguiu:
Da descendência desse, conforme a promessa, levantou DEUS a JESUS para Salvador
de Israel; Tendo primeiramente João, antes da vinda dele, pregado a todo o povo
de Israel, o batismo do arrependimento. Mas João, quando completava carreira,
disse: Quem pensais vós que eu sou? Eu não sou o CRISTO; mas eis que após mim
vem aquele a quem não sou digno de desatar as sandálias dos pés.
Varões irmãos, filhos da geração de Abraão e os que dentre vós temem a DEUS, a
vós vos é enviada a palavra dessa salvação. Por não terem conhecido a este, os
que habitavam em Jerusalém, e os seus príncipes, condenaram-no, cumprindo assim
as vozes dos profetas que se lêem todos os sábados. E embora não achassem
alguma causa de morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto. E havendo eles
cumprido todas as coisas que deles estavam escritas, tirando-o do madeiro,
puseram-no na sepultura (At 13 23-29).
Paulo preparava-se para a parte principal do sermão. As palavras saíam-lhe mais
rápidas. Sua voz elevou-se; ele foi tomado de fervor espiritual ao exclamar
triunfante:
Mas DEUS o ressuscitou dos mortos; E ele por muitos dias, foi visto pelos que
subiram com ele da Galiléia a Jerusalém, e são suas testemunhas para com o
povo. E nós vos anunciamos que a promessa que foi feita aos pais, DEUS a
cumpriu a nós, seus filhos, ressuscitando a JESUS, como também está escrito no
salmo segundo: Meu filho és tu, hoje eu te gerei.
Seja-vos, pois, notório, varões irmãos, que por este se vos anuncia remissão
dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser
justificados, por ele é justificado, todo aquele que crê (At 1330-33,38-39).
O sermão de Paulo terminara. Os ouvintes estavam atônitos. Ele era um pregador
corajoso e todos sentiram-se dominados pelo seu zelo e intrepidez.
Alguns dentre os principais da congregação começaram a murmurar, mas grande
número de judeus e gentios saíram naquele dia indagando-se: "Será que isso
é verdade? Será mesmo verdade?"
Quando Paulo e Barnabé voltaram para casa, pequenos grupos seguiam-nos pela rua
estreita pedindo para ouvir mais sobre o novo ensino. Ansiosos, queriam saber
tudo a respeito de JESUS. Naquela noite, quando o sol se pôs e as velas foram
acesas em Antioquia, muitos judeus e gentios tinham o coração aberto ao
Salvador e os olhos voltados ao céu.
No dia seguinte, o discurso de Paulo era o tema das conversas nos lares judeus.
Os gentios também souberam do acontecido, e suplicaram-lhe que repetisse o
sermão no sábado seguinte.
No dia marcado, pessoas vieram de todas as direções. A sinagoga sombria, com
uma única lâmpada acesa, estava repleta como nunca. Muita gente teve de ficar
do lado de fora. Mais tarde, escrevendo a respeito, Lucas conta que quase a
cidade inteira se reunira para ouvir a Palavra de DEUS. Paulo repetiu o sermão
e o povo escutou. Mas quando declarou que JESUS era o CRISTO, vozes elevaram-se
contra ele. Alguns judeus, movidos pela inveja, contradisseram-no publicamente.
Era costume interromper o orador na sinagoga. Paulo acostumara-se a isso, e não
esperava outra coisa.
De repente, os líderes judeus puseram-se a gritar. A violência cresceu. Já
agora atacavam selvagemente a Paulo, pontuando suas palavras com maldições e
blasfêmias. Os dois discípulos elevaram as vozes acima do tumulto, chamando os
ouvintes à razão. Porém os judeus continuaram gritando cada vez mais alto, na
tentativa de calar Paulo.
Dirigindo-se aos líderes, o apóstolo declarou: "Era mister que a vós se
vos pregasse primeiro a palavra de DEUS; mas, visto que a rejeitais e vos não
julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios" (At
13.46).
O Ministério de Paulo É Abençoado
A multidão bloqueava a saída e enchia a rua, ansiosa por ouvir falar da
vida eterna. Paulo e Barnabé deixaram a sinagoga em meio ao murmúrio e
maldições dos judeus, mas na porta foram saudados por um brado de alegria. Os
gentios, cansados de sua religião vazia, tinham ouvido falar pela primeira vez
de JESUS, da ressurreição e da vida eterna. Aquele foi um dia cheio para os
apóstolos. Quando a noite chegou, estavam cansados, mas alegres por tantas
almas salvas naquela cidade gentia.
Durante toda a semana, a oficina de tendas e a casa onde estavam foram
invadidas por pessoas de todas as classes sociais. Queriam saber mais de
CRISTO, que lhes havia preenchido o vazio dos corações e satisfizera-lhes a
maior necessidade da vida: a salvação. A casa dos apóstolos passou a sediar uma
nova igreja. Quando o inverno chegou, o testemunho da graça salvadora de JESUS
era dado diariamente nos bazares. E, indo às cidades do interior a fim de
cuidar de seus negócios, os crentes aproveitavam para contar as boas novas de como
nossos pecados eram perdoados em CRISTO. Antes de completar um ano, a Palavra
de DEUS estava sendo pregada em toda a região, e muitos grupos de cristãos
reuniam-se no Dia do Senhor para adorar a DEUS e receber as bênçãos da vida
eterna.
Com a chegada da primavera, as estradas nas passagens das montanhas foram
abertas e o comércio ganhou vida nova. Os bazares enchiam-se de estrangeiros
vindos de lugares distantes. Os pregadores não descansavam em seus esforços por
ganhar homens e mulheres para CRISTO. Os judeus continuavam aborrecidos com o
sermão de Paulo, e opunham-se vigorosamente à formação de igrejas cristãs em
sua cidade. Não conseguiriam descansar enquanto não dessem fim àquele
movimento.
A adoração no templo de Baco e nos templos do deus-lua era exclusivamente para
satisfazer aos homens. As mulheres sofriam quando seus maridos entregavam-se às
orgias e bebedeiras em honra a Baco. A adoração paga, portanto, nunca foi
popular entre as mulheres. Em vista disso, muitas delas começaram a frequentar
a sinagoga, tornando-se prosélitas da religião judaica, pois encontravam ali
algo infinitamente melhor que tudo quanto haviam conhecido. Os líderes das
sinagogas instigaram essas mulheres - principalmente as casadas com cidadãos
importantes de Antioquia - a convencer os maridos de que deviam proibir a
pregação dos discípulos e expulsá-los da região.
Paulo e Barnabé Forçados a Deixar Antioquia
Paulo e Barnabé foram intimados a comparecer perante os magistrados, e
receberam ordens para deixar a cidade. As autoridades cuidaram para que as
ordens fossem obedecidas. Enviaram um guarda para acompanhar os apóstolos até
bem longe dos portões de Antioquia, advertindo-os a que saíssem da província e
jamais voltassem. Os líderes dos judeus acompanharam os guardas, contentes por
se verem livres daqueles mestres cristãos. Seguindo a recomendação do Senhor,
os viajantes tiraram os sapatos e sacudiram destes o pó de Antioquia da
Pisídia, como sinal de desprezo pela cidade que os expulsara.
Não obstante, antes de partirem, haviam reunido os líderes da nova igreja e
insistido a que permanecessem fiéis, mesmo se perseguidos. Quando as torres de
Antioquia desapareceram na distância, um sentimento de alegria inundou o
coração dos deportados. A viagem para Antioquia da Pisídia não fora em vão.
DEUS abençoara sua obra ali, e centenas de crentes estavam testemunhando de
CRISTO na cidade, nas aldeias e povoados de toda a região. O ESPÍRITO de DEUS
certamente os guiara, pois a semente havia sido plantada.
A estrada para o leste era sinuosa e íngreme, mas bem pavimentada; era a
principal rota comercial, ligando a Síria às cidades do mar Egeu.
Dias Produtivos em Icônio
Icônio era a capital da Licaônia e distava de Antioquia mais de 96
quilômetros. Paulo e Barnabé decidiram ir para lá. Era uma velha cidade murada
que prosperara com a fertilidade das planícies que a cercavam. A jornada era
tensa, pois passava por um território bravio e cheio de bandoleiros.
Os muros de Icônio podiam ser vistos a quilômetros de distância, enquanto a
caravana descia as montanhas. A região era rica, e a primavera mostrava-se em
toda a sua plenitude nos vinhedos e jardins.
Os principais ídolos de Icônio eram Adônis e Cibele. Adônis era um belo jovem,
amado pela mitológica Afrodite, e morto por um javali durante uma caçada.
Cibele, filha de Arano, era representada sobre um trono ladeado por enormes
leões. Segundo a lenda, ela fizera Adônis voltar à vida.
Planejando passar algum tempo em Icônio, Paulo e Barnabé procuraram um
alojamento e voltaram a praticar o seu comércio. Milhares de judeus moravam em
Icônio, por isso foi fácil encontrar abrigo na cidade. O propósito deles era
fazer o mesmo que haviam feito em Antioquia. Quando chegou o sábado, foram à
sinagoga e aguardaram uma oportunidade para falar. O sermão assemelhava-se ao
de Antioquia, pois esse era o grande peso do coração de Paulo. Havia algo
divinamente sedutor na maneira como falavam, e a sua mensagem era tão atraente
que muitos judeus e gregos creram em JESUS.
Início da Igreja em Icônio
A princípio, os líderes da sinagoga não se opuseram a Paulo e a Barnabé.
pois interessava-lhes aquele novo ponto de vista. Porém, ao verem quantos da
sua congregação creram e quantos gentios estavam aceitando a CRISTO,
aborreceram-se com a pregação. Proibiram então os discípulos de freqüentar a
sinagoga, mas não puderam impedir que falassem nas ruas. O Senhor abençoou
tanto o trabalho em Icônio que grande número de pessoas veio a crer. Estava
iniciada ali uma forte igreja.
Quanto maior a oposição, tanto mais ousadamente os discípulos falavam. A
opinião do povo dividiu-se: alguns eram a favor do novo ensinamento; outros não
queriam saber dele. Os inimigos - judeus e gentios - opuseram-se abertamente, e
várias vezes os ameaçaram nas ruas. Mas a jovem igreja firmara-se na fé e Paulo
sabia que, quando partissem, os irmãos não voltariam aos ídolos. Adônis
perdera. Quem reinava agora nos corações era CRISTO! Ao serem informados por
alguns crentes de que os inimigos planejavam apedrejá-los até a morte, os
missionários despediram-se dos cristãos e deixaram rapidamente a cidade.
Seguiram pela estrada pavimentada até Listra e Derbe, cidades da grande
planície, a cerca de 29 quilômetros ao sul.
O Milagre em Listra
Mal haviam chegado a Listra e arranjado acomodações, surgiram oportunidades
para pregar em cada esquina. Na praça do mercado e em qualquer lugar onde as
pessoas se aglomerassem, Barnabé e Paulo falavam de JESUS, o Filho de DEUS, e
da vida cheia do ESPÍRITO. O contraste entre a nova vida e as orgias do templo
pagão, a que o povo se acostumara, era de fato notável.
Um grande templo dedicado a Júpiter ocupava o centro de Listra. O poeta Ovídio
conta que há muito tempo, Júpiter e Mercúrio desceram à terra disfarçados de
viajantes. Procuraram alojamento e alimentação de porta em porta, mas foram
repetidamente escorraçados. Chegaram finalmente a uma casa humilde, onde vivia
um casal idoso. Filemom e sua mulher, Baucis, acolheram os dois e os
alimentaram com seus parcos recursos. Quando a refeição terminou, os estranhos
revelaram que eram deuses e concederam ao casal vida longa como guardiães de um
templo sagrado.
Os moradores de Listra ouviram atentamente os apóstolos, enquanto estes
pregavam a CRISTO, e muitos deixaram a idolatria, tornando-se cristãos.
Numa tarde, quando Paulo discorria sobre o DEUS Único e Verdadeiro, viu entre a
multidão um homem paralítico de nascença. Alguma coisa no sermão comoveu o
homem, e Paulo sentiu que o ESPÍRITO de DEUS estava agindo poderosamente. De
repente, Paulo virou-se para o aleijado e ordenou em alta voz: "Levanta-te
direito sobre os teus pés!" (At 14.10).
Todos os olhos fitaram o infeliz. No mesmo instante, este se pôs em pé e
começou a andar e a saltar. Ninguém podia acreditar! Seria um sonho?!
Os Apóstolos são Recebidos como Deuses
Uma exclamação de surpresa seguida de um grande grito fez-se ouvir na
multidão. O povo presenciara um milagre. Embora fosse o grego a língua oficial,
na intimidade do lar, todos falavam o licaônico. Vendo o paralítico andar,
maravilharam-se de tal forma que abandonaram por um instante o grego e gritaram
no dialeto nativo: "Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens, e
desceram até nós" (At 14.11).
A notícia espalhou-se. Milhares de pessoas vieram ver os discípulos. A lenda de
Júpiter e Mercúrio estava se repetindo diante de seus olhos, confirmando a sua
religião. Enquanto os observava, o povo chamou Barnabé de Júpiter, por causa da
sua altura e porte atlético. A Paulo chamaram de Mercúrio, por ser o portador
da palavra.
Quando os sacerdotes do templo de Júpiter, no bosque junto à cidade, ouviram
falar disso, trouxeram touros e grinaldas até o portão da casa onde os
discípulos estavam hospedados. Homens e mulheres corriam agitados pelas ruas,
contando a todos que os deuses tinham descido até eles. Uma grande multidão,
guiada pelos sacerdotes, adentrou os portões para oferecer sacrifícios aos
deuses recém-chegados. Os gongos soavam; os tambores batiam. Grinaldas de
flores foram colocadas nos chifres dos touros. Aquele era um grande dia para
Listra!
Quando ficou evidente a Paulo e Barnabé que o povo queria adorá-los, ambos
perturbaram-se imensamente. Só de pensar, sentiam-se repugnados! De acordo com
o costume oriental, eles rasgaram as vestes em sinal de grande angústia e
correram gritando em meio a multidão.
Os gongos e címbalos silenciaram e a multidão se calou. Os "deuses"
estavam falando!
Varões, por que fazeis essas coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos
as mesmas paixões, e vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades ao DEUS
vivo, que fez o céu e a terra, o mar e tudo o quanto há neles; o qual, nos
tempos passados, deixou andar todos os povos em seus próprios caminhos;
contudo, não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu,
dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria o
vosso coração" (At 14.15-17).
Não foi sem razão que chamaram Paulo de Mercúrio - o mensageiro dos deuses. A
oratória que o povo ouvia de seus lábios era refinada e bela, muito superior a
qualquer outra que já tivessem ouvido.
As multidões debandaram com resmungos duvidosos, e os sacerdotes voltaram com
os touros aos estábulos do templo. O entusiasmo diminuíra, mas o povo comentou
o episódio durante vários dias. Aos poucos, homens e mulheres foram conhecendo
a JESUS CRISTO, e convencendo-se da verdade do Evangelho. A igreja em Listra
começava a crescer.
Timóteo e Seu Lar
Um dos novos crentes era o jovem Timóteo. Sua mãe, Lóide, e sua avó,
Eunice, viviam em Listra e abriram sua casa aos discípulos. Paulo e Barnabé
passaram bastante tempo com a família e, enquanto o jovem Timóteo os ouvia
contar repetidamente a história de CRISTO, descobriu que também queria ser
pregador do Evangelho. Seu coração foi aquecido pela forma como o ESPÍRITO de
DEUS usava os discípulos.
Porém, era inevitável que judeus de Antioquia e Icônio visitassem amigos em
Listra, ou fossem ali vender suas mercadorias. A história de Paulo e Barnabé
continuava viva em suas mentes; a presença de igrejas cristãs cheias de gentios
em suas cidades ainda machucava os rabinos. Estes achavam-se furiosos porque
ambos continuavam pregando o que, para eles, era uma religião falsa. Decidiram
deliberadamente acabar com aquilo. Não foi difícil instigar os judeus de Listra
contra os discípulos. E, com mentiras e informações manipuladas, fizeram brotar
tamanho ódio no coração dos conterrâneos que logo decidiram agir por conta
própria e matar os discípulos, especialmente o seu porta-voz.
O Apedrejamento de Paulo
Certo dia, estando Paulo falando a seus amigos cristãos, um grupo de judeus
de Icônio e Antioquia aproximou-se deles, e opôs-se abertamente às verdades
pregadas. Agitavam-se enraivecidos, enquanto Paulo respondia-lhes usando a
mesma Escritura. Até que, aos berros, aqueles homens correram em meio aos
ouvintes procurando dispersá-los. Punhos ergueram-se acompanhando o grito:
"Apedrejem-no! Ele merece morrer. Qualquer homem que pregue contra a Lei
de Moisés é um traidor. Apedrejem-no!"
As pedras zumbiam no ar, vindas de todas as direções. Paulo continuou firme
onde estava, suplicando-lhes em nome do Senhor JESUS. A essa altura, já se
achava ferido e sangrando, mas ainda podia ver a crescente ira do povo.
Finalmente, um homem atirou uma pedra mais pesada, atingindo a testa do
apóstolo. Sangrando e inconsciente, Paulo caiu. A multidão rodeou-lhe o corpo e
pôs-se a chutá-lo. Agarrando-o pelas roupas, arrastaram-no para fora da cidade,
e abandonaram-no em uma vala ao lado da estrada. "Esse é o fim de
Paulo!", pensaram satisfeitos, e voltaram às suas casas.
O pequeno grupo de amigos ficara indefeso ante a multidão. Acompanharam a turba
que arrastava o corpo de Paulo e temeram o pior. A voz de um grande apóstolo
fora silenciada. Já tinham visto muita gente morrer assim, mas... quem sabe
ainda estivesse vivo!
Fora da cidade, é possível que Barnabé, com seus braços fortes, tenha recolhido
e levado o corpo de Paulo à sombra fresca de uma árvore. Alguém deve ter ido
buscar água a fim de lavar o sangue e a sujeira. A ansiedade dos amigos foi
aliviada quando viram o apóstolo abrir os olhos, recuperando a consciência.
Alguém glorificou: "Louvado seja DEUS, que poupou o seu servo, livrando-o
dos nossos inimigos".
Os corações dos crentes foram reanimados. Ajudaram Paulo a levantar-se e o
levaram até a casa de Timóteo. As fiéis Eunice e Lóide trataram-lhe os
ferimentos e ajudaram-no a se recuperar.
Ao amanhecer, antes que os mercadores enchessem as ruas com suas mercadorias e
gritos, dois vultos saíram pelo portão sul da cidade. O mais baixo mancava e
apoiava-se no braço de seu alto companheiro. Eles seguiram pela estrada
pavimentada e depois por um caminho secundário, que passava por uma região
montanhosa. Esse era o caminho para as Portas da Cilícia, que Paulo chamava de
lar. A cidade aonde estavam indo, porém, era Derbe, distante cerca de quarenta
quilômetros ao sul. Era um posto alfandegário, onde Roma recolhia os impostos
sobre todas as mercadorias embarcadas.
O Inverno em Derbe
Não havia sinagoga em Derbe, mas ali viviam muitos conterrâneos de Paulo.
Como ele falasse com a autoridade de um rabino, os judeus escutavam-no de boa
vontade. O inverno chegara e as estradas logo estariam cobertas de neve. Nas
montanhas, as passagens ficariam bloqueadas durante meses, e ninguém viajaria
até a volta da primavera, quando a neve se derretia.
Paulo e Barnabé permaneceram tranquilamente em Derbe, durante todo o inverno.
Paulo fez e vendeu tendas, enquanto ensinava a nova fé em sua casa ou nos lares
que se lhe ofereciam. Embora nada espetacular acontecesse ali, uma forte igreja
foi fundada, pois muitos não puderam resistir à lógica do ensino,
convertendo-se dos ídolos a CRISTO. Durante os longos meses de inverno, os dois
discípulos estiveram completamente ocupados, chamando homens e mulheres a
JESUS, e o Senhor concedeu-lhes grande sucesso.
A neve derreteu-se nos vales e a brisa da primavera encheu o ar. A igreja de
Derbe já estava forte e capaz de continuar sem a ajuda de Paulo. Fazia mais de
dois anos que a igreja da Síria enviara os dois missionários; sementes haviam
sido plantadas e cresceriam para a vida eterna. O caminho fora difícil, mas o
Senhor estivera com eles e honrara-lhes o trabalho.
A Volta para Casa
A viagem de regresso teria sido fácil, se viessem pelas montanhas e pelas
portas da Cilícia até Tarso, passando depois por terreno muito familiar até
chegar à Síria. Paulo, porém, tinha bem vivido na mente o furor de Listra,
Icônio e Antioquia. Sem dúvida seria mais fácil voltar pelo caminho de Tarso;
mas, e as igrejas recém-fundadas? Como estariam suportando o chicote da
perseguição? Teriam crescido, ou algum membro enfraquecera, voltando a Adônis?
Estava claro que ele deveria visitar todas as igrejas e confirmar os cristãos
na fé. Eram seus amigos, e o apóstolo jamais cessara de orar por eles,
mencionando-os pelo nome. E se essa visita resultasse realmente em perseguição?
O Senhor não os protegera sempre? Paulo e Barnabé resolveram, então, voltar
pelo mesmo caminho.
Em Listra, as cenas eram familiares; já sabiam onde encontrar os cristãos.
Foram até à casa de Timóteo e ficaram contentes por saber que o povo de DEUS
continuava firme, apesar da perseguição. Paulo e Barnabé sentiam-se confiantes;
os cristãos de Listra estavam suficientemente fortes para se organizarem.
Portanto, em cada igreja, ordenaram presbíteros para supervisionar
espiritualmente a família cristã. A seguir, orando por todos, ambos partiram
para Icônio.
Depois de alguns meses, a igreja de Icônio fizera um verdadeiro progresso e
achava-se também pronta para ser organizada. Os discípulos fizeram isso e
continuaram o caminho de volta para casa.
Ao chegarem aos portões de Antioquia, de onde tinham sido expulsos alguns meses
antes, lembraram como os gentios daquela cidade haviam acolhido o Evangelho.
Foram recebidos com alegria pelos velhos amigos e informados de que os cristãos
de Antioquia haviam permanecido firmes durante todos aqueles meses.
Paulo pregou-lhes novamente e, antes de partir com Barnabé, nomearam homens de
confiança, provados durante a perseguição, para dirigir a igreja.
A primavera já estava bem avançada, e os discípulos queriam chegar ao porto de
Perge antes que aumentasse o calor do verão. Lembravam-se dos dias e noites
quentes quando chegaram a Perge, e como fora agradável o frio das montanhas em
sua viagem a Antioquia. Na planície que beirava a costa, o verão chegara em
toda a sua força. Como na visita anterior haviam passado pouco tempo pregando
em Perge, decidiram-se demorar ali e testemunhar de CRISTO. Dia após dia foram
usados por DEUS, e fundaram na cidade uma igreja.
Enquanto pregavam, esperavam por um navio que os levasse para casa. Havia
barcos de muitos lugares, mas nenhum que fosse para Selêucia. Despediram-se dos
crentes e continuaram a viagem pela planície até o mar, e depois ao longo da
estrada costeira até Atália, um dos maiores portos marítimos de todo o império.
Atália era grande e importante, e, como em qualquer outra cidade dessa região,
havia nela muitos judeus. Mas Paulo e Barnabé estavam ansiosos por encontrar um
navio que os levasse de volta, e seguiram imediatamente para o porto. Sua busca
teve sucesso; havia ali uma porção de barcos grandes e pequenos, oriundos de
terras estrangeiras de todas as partes do mundo.
Eles pagaram a passagem e, quando se levantaram os ventos matutinos, as velas
foram desfraldadas e o barco partiu, acompanhando a costa rochosa até Selêucia.
Durante todo aquele primeiro dia, puderam ver as altas montanhas da Panfília
elevarem-se sobre a vasta planície costeira. Haviam passado dois invernos
naquelas montanhas. O trabalho fora difícil, mas enquanto os morros
desapareciam na distância, os dois homens de DEUS recordavam-se de como o
Senhor havia honrado Sua Palavra. Em cada cidade, muitos que, há apenas um ano,
viviam nas trevas, estavam agora servindo a DEUS.
Todas as noites, enquanto navegavam e oravam sob as estrelas, Barnabé e Paulo
lembravam-se de cada crente fiel, agradecendo ao Senhor e entregando-os ao seu
cuidado. Até que a viagem chegou ao fim.
A GRANDE
CONTROVÉRSIA
Paulo e Barnabé animaram-se ao avistar
Selêucia. Ali estava o porto de Antioquia, protegido pelo quebra-mar. Para os
apóstolos era como voltar à casa paterna; estar naquela igreja era o mesmo que
estar em família. Era uma igreja forte; maior que a igreja-mãe em Jerusalém.
Paulo gostava dos cristãos de Antioquia da Síria, e considerava-os uma igreja
modelo. Afinal, haviam aberto o coração aos gentios, recebendo-os juntamente
com os descendentes de Abraão no Reino de DEUS.
Os missionários mal tinham posto os pés no portão da cidade, e a notícia de sua
chegada já se espalhara. Naquela noite, uma grande multidão reuniu-se à volta
deles. Dois anos antes, aqueles crentes haviam acompanhado Paulo e Barnabé até
o navio que os levaria em sua primeira viagem missionária. Agora estavam de
volta, e todos queriam ouvi-los. Foi uma noite emocionante. Jovens e velhos
sentaram-se no chão, de pernas cruzadas, e ouviram-nos discorrer sobre a
atuação do poder de DEUS em cada cidade.
É provável que tenham contado toda a história; primeiro Barnabé e depois Paulo.
Ninguém se cansou de ouvi-los, e muitos choraram de alegria ao saber dos
caminhos de DEUS para os gentios. Os missionários falaram da viagem até Chipre;
de Sérgio Paulo em Pafos; do calor de Perge e da deserção de Marcos, que muito
os desapontara. Descreveram seu primeiro inverno passado na outra Antioquia, e
como muitos ali haviam se tornado cristãos. As fugas para Icônio e Listra, onde
Paulo tinha sido apedrejado, foram contadas rapidamente. Por último veio a
história do segundo inverno, passado em Derbe.
Em todas as cidades, tiveram de enfrentar a oposição dos judeus nas sinagogas;
mas na praça do mercado, os gentios tinham-nos ouvido de boa vontade e,
deixando os ídolos, haviam se voltado para DEUS. Centenas tinham aberto o
coração para JESUS! Em cada cidade visitada pelos missionários, uma igreja
havia sido estabelecida.
Importância da Primeira Viagem Missionária
Enquanto os cristãos de Antioquia ouviam as histórias missionárias, grande
alegria inundava-lhes o coração. DEUS estivera trabalhando. O plano de pregar o
Evangelho até os confins da terra estava se cumprindo com tremendo sucesso. Em
toda parte, apesar da oposição, lâmpadas estavam sendo acesas para brilhar e
dissipar as trevas do mundo. A semente fora plantada e regada, não só em
Jerusalém e Antioquia, mas também na Ásia Menor e em Chipre. Agora estava
crescendo e produzindo frutos. Nada mais restava a fazer a não ser convocar uma
reunião de oração e agradecer a DEUS por sua graça. Os cristãos oravam e
regozijavam-se por serem embaixadores a serviço de DEUS, arrancando homens e
mulheres de suas vidas vazias e trazendo-os para a vida abundante; da morte
para a vida eterna.
Paulo ficou vários meses em Antioquia, trabalhando na fabricação e comércio de
tendas, enquanto expunha as grandes verdades do Evangelho. Falava especialmente
da justiça de DEUS, que não pode ser obtida pela guarda da Lei, mas recebida
como um dom da sua maravilhosa graça. Homens e mulheres passaram a ver que
todas as suas esperanças e necessidades eram satisfeitas em JESUS CRISTO, o
Salvador.
Crescentes Dissensões na Igreja
Até essa época, a oposição encontrada por Paulo na pregação do Evangelho viera
de uma única fonte: o judeu incrédulo que, de tão enfurecido com o ensino
cristão, tornara-se cego. O desgosto dos judeus era aumentado pelo fato de
Paulo ter sido antes fariseu, rabino, amigo da sinagoga e inimigo dos
nazarenos. Todo judeu leal acreditava que Paulo fosse um traidor da Lei de
Moisés, e por causa disso, perdera o direito de ser respeitado. Paulo sabia
como se sentiam e simpatizava com eles. Não tivera os mesmos sentimentos antes
de sua conversão? Ele estava preparado para enfrentar a oposição e considerava
um privilégio argumentar com os que negavam sua mensagem.
O problema, porém, surgiu dentro da própria igreja: alguns judeus cristãos, de
mente estreita, não haviam aberto o coração aos gentios. Queriam que a Igreja
fosse uma seita judaica, do mesmo modo que o farisaísmo o era em Israel. Não
concordavam em receber os gentios, a não ser que se submetessem primeiro às
cerimônias da sinagoga. Achavam que os crentes gentios deviam tornar-se
prosélitos, e manter as leis judaicas referentes aos alimentos, festas,
abluções e ofertórios.
Pedro era amigo de Paulo. Desde que o Senhor lhe ensinara que os gentios também
faziam parte do seu plano e o guiara até o gentio Cornélio, tornara-se ele
favorável ao posicionamento de Paulo. Ao ouvir sobre a sólida congregação de
Antioquia, decidiu fazer-lhes uma visita.
A Visita de Pedro
Paulo recebeu Pedro com grande entusiasmo. Repetiu-lhe a história da
primeira viagem missionária à Ásia Menor, e contou-lhe como DEUS o abençoara,
juntamente com Barnabé, na pregação aos gentios. O coração do velho pescador
aqueceu-se com cada palavra. Comoveu-se com a fraternidade que observou em
Antioquia. Judeus e gentios reuniam-se ao redor da mesma mesa, compartilhando
as refeições como membros de uma única família. Isso seria algo inconcebível em
Jerusalém; proibido pela Lei Mosaica. E, infelizmente, os crentes em CRISTO
ainda levavam em conta tal proibição.
Encontrar e ouvir Pedro, o velho pescador que conhecera JESUS pessoalmente e
que podia descrever as histórias ocorridas em seu ministério terreno, foi uma
experiência memorável para os cristãos de Antioquia.
Pedro estava vendo e experimentando uma liberdade em CRISTO que nunca antes
conhecera. Em Antioquia, um negro e um branco sentavam-se juntos. Um escravo e
seu senhor eram um em CRISTO. Não havia diferença entre judeu e gentio, desde
que ambos tivessem sido batizados pelo ESPÍRITO de DEUS na igreja. Estavam
unidos por um laço mais forte que qualquer outra coisa neste mundo.
A Propagação da Discórdia
Pedro alegrou-se com tudo o que viu, até o dia em que mensageiros
autonomeados chegaram a Jerusalém para espalhar a discórdia. Eles sabiam tudo
sobre Barnabé e Paulo, e a história do seu trabalho no Ocidente os desagradara.
Resolveram então ir a Antioquia, e interromper quaisquer o era em mais gentios
à Igreja. Por serem da igreja de Jerusalém, julgavam-se revestidos de
autoridade. Com ousadia, advertiram os gentios de que não seriam cristãos, a
não ser que se submetessem primeiro aos mandamentos dados por Moisés aos
israelitas.
Pedro ouviu falar deles, e reconheceu tratarem-se dos fariseus que criam em
JESUS, mas não conseguiam desistir do Judaísmo. Eles representavam muitos de
seus conterrâneos, e o seu zelo em purificar a Igreja de todos os gentios era
suficientemente grande para levá-los a fazer uma viagem tão longa. Pedro não
concordava, mas temendo que viessem a perturbar seu ministério em Jerusalém,
decidiu que enquanto estivessem presentes, se afastaria dos gentios. Isso lhe
pareceu necessário porque alguns daqueles homens tinham grande influência na
igreja e eram nitidamente sinceros.
Paulo Enfrenta os Perturbadores da Ordem
Nem Pedro nem os visitantes da Judéia tinham
qualquer idéia da grande força e convicção de Paulo. Em dias passados, Paulo
tinha sido um deles e sabia exatamente quais eram os pensamentos de um fariseu.
Portanto, não teve piedade; lutou com todas as forças contra aqueles homens que
estavam tentando destruir a liberdade desfrutada pelos cristãos mediante a
graça de DEUS. Eles afirmavam não haver salvação sem observância da Lei. Eram
um inimigo formidável, pois até Barnabé ficou impressionado e, por um momento,
começou a duvidar se agira corretamente ao admitir os gentios (Gl 2.12,13).
Certo dia, numa assembleia da igreja, os visitantes falaram tão convictamente,
que uma sombra de incerteza pairou sobre a congregação.
Paulo subiu à plataforma. Já vira e ouvira o suficiente! Era hora de colocar
aqueles perturbadores no seu devido lugar! Eles haviam confundido muitos dos
gentios cristãos com a sua estreiteza de espírito. Ou não compreendiam a graça
de DEUS, ou eram inimigos da Igreja, como os lobos que se insinuam para
espalhar o rebanho. Disse então a Pedro e aos outros judeus:
Nós somos judeus por natureza e não pecadores dentre os gentios. Sabendo que o
homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em JESUS CRISTO, temos
crido em JESUS CRISTO, para sermos justificados pela fé de CRISTO e não pelas
obras da lei, porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.
Pois, se nós, que procuramos ser justificados em CRISTO, nós mesmos também
somos achados pecadores, é porventura, CRISTO ministro do pecado? De maneira
nenhuma. Porque se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim
mesmo transgressor. Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver
para DEUS. Já estou crucificado com CRISTO; e vivo não mais eu, mas CRISTO vive
em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de DEUS, o qual
me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gl 2.1521).
Enquanto Paulo continuava argumentando, Barnabé compreendeu que errara ao dar
ouvidos aos visitantes da Judéia, e pensou na forma como DEUS movera o coração
dos gentios em toda a Ásia. Estava convencido de que Paulo tinha razão, e
agradeceu ao Senhor pela coragem que o levara a opor-se aos falsos mestres.
A resposta era clara. A igreja tinha de chegar a uma decisão definitiva sobre a
questão dos gentios. A controvérsia não poderia ser resolvida em Antioquia, mas
apenas em Jerusalém, onde muitos queriam que a Igreja continuasse como mera
seita judaica.
O Apelo a Jerusalém
Embora o argumento de Paulo tivesse vencido temporariamente, e todos
tivessem ficado felizes na igreja de Antioquia, eles compreendiam que, para o
futuro da Igreja, alguma norma definitiva tinha de ser estabelecida. O conselho
concordou então que Paulo e Barnabé fossem enviados a Jerusalém, onde
deliberariam com os apóstolos e resolveriam essa importante questão.
Era inverno, e os barcos costeiros permaneceriam ancorados até a primavera.
Portanto, teriam de viajar cerca de 11.200 quilômetros por terra. Isso
significava seis longas semanas, ou mais, e embora a viagem não fosse novidade
para Paulo, ele achou mais seguro viajar em caravana.
Providos de alimentos, roupas quentes e dinheiro dado pela igreja, Paulo e
Barnabé partiram pela estrada do litoral. O céu estava carregado e cinzento,
mas os cristãos de Antioquia acompanharam-nos até certo ponto do caminho. Após
a despedida, os crentes voltaram às suas casas a fim de orar pela segurança dos
amigos e para que tivessem êxito em sua missão.
Dia após dia, os três cavalgaram pela estrada pavimentada. Os rios tinham se
tornado caudalosos com as chuvas, mas havia pontes de pedra para atravessá-los.
Ao cair da noite, apressavam-se para chegar a algum vilarejo onde encontrar
abrigo. No pátio da estalagem, armavam a tenda e acomodavam-se para passar a
noite.
Os apóstolos pararam em muitas aldeias por toda a província da Fenícia, e
quando chegaram a Tiro e Sidom, ficaram por alguns dias, encontrando vários
grupos de crentes e confirmando-os na fé. Paulo recapitulou, para ouvidos
atentos, a história da sua viagem à Panfília, Pisídia e Licaônia. Os cristãos
agradeceram a DEUS, e animaram a Paulo com suas orações. Rogaram que o Senhor
protegesse o grupo que se dirigia a Jerusalém com o propósito de resolver a
questão dos gentios.
Em Samaria havia muitos cristãos e, em cada igreja, os discípulos contaram a
história do seu trabalho em Antioquia e na Ásia Menor. Os cristãos de Samaria
ficaram contentes com o relato. Eles nunca tinham ficado presos às regras dos
rabinos de Jerusalém, e quando Paulo contou sobre os gentios que aceitaram a
CRISTO, alegraram-se muito. Fortaleceram os apóstolos em sua jornada, com a
esperança de que DEUS honraria o seu testemunho em Jerusalém.
Quando foram avistadas as montanhas da Judéia, os três servos do Senhor estavam
realmente completando outra viagem missionária, pois haviam fortalecido e
confirmado as igrejas ao longo de todo o trajeto até a Cidade Santa. Fazia seis
anos que Paulo visitara Jerusalém, levando as ofertas dos santos de Antioquia.
Mas dessa vez, encontrava-se ali para defender a si mesmo e aos cristãos
gentios dos ataques dos falsos mestres, que procuravam destruir-lhe a
liberdade.
Na casa da mãe de Marcos, encontraram vários líderes da igreja. Esses homens os
receberam cordialmente, e ouviram de boa vontade a narrativa de como DEUS
operara por meio de Barnabé e Paulo na grande viagem. Paulo ficou sabendo que
os falsos mestres, que tanto perturbaram os crentes de Antioquia, não haviam
sido enviados oficialmente pela igreja de Jerusalém, nem eram líderes desta.
Diante de uma grande plateia, Barnabé e Paulo discorreram sobre as suas viagens
e sobre o poder de DEUS para salvar pessoas que antes adoravam ídolos. Mesmo
assim, houve quem se levantasse e declarasse que todos esses estrangeiros não
eram cristãos de verdade porque não obedeciam à Lei de Moisés. Estavam até
comendo carne que não fora preparada de acordo com a lei! Enquanto esses homens
estreitavam as portas do reino, Paulo argumentava que a retidão jamais seria
conferida a qualquer homem por obedecer à Lei de Moisés, mas sim pela fé no
Senhor JESUS, que tinha os braços abertos a todos.
A Solução da Grande Controvérsia
A solução não foi encontrada de imediato. Após muita disputa e acirradas
discussões, os apóstolos e presbíteros convocaram uma reunião para considerarem
as várias opiniões e chegarem a uma decisão. Participaram da reunião
representantes dos dois partidos. Suas opiniões eram tão inflexíveis que a
amargura insinuou-se no debate. Só com grande dificuldade Tiago, o irmão do
Senhor, e líder reconhecido da igreja-mãe, conseguiu manter a ordem.
A seguir, Pedro, o discípulo que falara com JESUS exatamente sobre o assunto, e
que conhecera a vontade de DEUS através de uma visão repetida três vezes,
levantou-se e exigiu atenção de todos:
Varões irmãos, bem sabeis que já há muito DEUS me elegeu dentre vós, para que
os gentios ouvissem da minha boca a palavra do Evangelho e cressem. E DEUS, que
conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o ESPÍRITO SANTO, assim
como também a nós. E não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando o
seu coração pela fé. Agora, pois, por que tentais a DEUS, pondo sobre a cerviz
dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós podemos suportar? Mas cremos
que seremos salvos pela graça do Senhor JESUS, como eles também (At 157-11).
Pedro sentou-se e a multidão ficou em silêncio. Todos os olhos voltaram-se a
Barnabé e Paulo, esperando que dessem a última palavra. Mas Paulo já dera sua
opinião e só lhe restava confirmá-la, descrevendo os sinais e prodígios operados
por DEUS quando ele e Barnabé pregaram o Evangelho em terras distantes.
Depois disso, ninguém mais falou. Até os que se opunham ferozmente a Paulo não
puderam mais defender sua posição. Alguns ainda não se achavam inteiramente
convencidos, mas não puderam argumentar contra o poder de DEUS.
Após alguns minutos de silêncio, Tiago, respeitado por todos como irmão do
Senhor, resumiu os pensamentos colhidos na reunião:
"Varões irmãos, ouvi-me", disse ele solenemente e com grande
dignidade. Os ouvintes inclinaram-se para ouvir cada sílaba, pois ele era o seu
chefe e diria, sem dúvida, palavras de sabedoria.
Varões irmãos, ouvi-me: Simão relatou como, primeiramente DEUS visitou os
gentios, para tomar deles um povo para o seu nome. E com isso concordam as
palavras dos profetas, como está escrito: Pelo que julgo que não se deve
perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a DEUS, mas
escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição,
do que é sufocado e do sangue. Porque Moisés, desde os tempos antigos, tem em
cada cidade quem o pregue e, cada sábado, é lido nas sinagogas (At
15.1315,19-21).
A Primeira Carta Circular as Igrejas
Para tornar oficial a decisão, Tiago e os outros discípulos escreveram uma
carta para ser lida e explicada na igreja de Antioquia. Judas e Silas foram
escolhidos para a levar o documento até lá. Era tão importante a decisão do
primeiro concilio, que eles enviaram seus principais membros como portadores
das notícias; homens revestidos da maior dignidade aos olhos da igreja.
Essas foram palavras sábias, com as quais todos os apóstolos e presbíteros
concordaram. Paulo vencera a grande controvérsia: estrangeiros de todo o mundo,
de qualquer procedência, poderiam ser cristãos sem prestar obediência à lei
judaica. Resgatada da estreiteza do Judaísmo, a Igreja estender-se-ia ao mundo
todo. Os cristãos estavam livres da sinagoga!
Essa foi a primeira das cartas circulares às igrejas. O próprio Paulo, em anos
posteriores, usaria esse método de escrever às igrejas, assim como Pedro e
João.
Paulo e Barnabé viajaram para casa com o coração leve. Seu entusiasmo não
conhecia limites! Agora, podiam fazer um relatório alegre a todas as
congregações. A Igreja dera finalmente um grande passo e removera suas cadeias
para sempre. Que imensurável satisfação para os crentes gentios!
Retornando a Antioquia, Paulo e Barnabé convocaram os cristãos a fim de
comunicar- lhes o resultado da reunião em Jerusalém. O silêncio reinou quando
Judas e Silas foram apresentados. Seus nomes eram bastante conhecidos na igreja
de Jerusalém, e os crentes de Antioquia tiveram grande satisfação em
recebê-los.
Os dois contaram sobre as reuniões em Jerusalém e do debate acalorado com
respeito aos gentios. A seguir mostraram a carta assinada por Tiago, onde
estava escrito.
Os apóstolos, e os anciãos, e os irmãos, aos irmãos dentre os gentios que estão
em Antioquia, Síria e Cilícia, saúde.
Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras
e transtornaram a vossa alma (não lhes tendo nós dado mandamento), pareceu- nos
bem, reunidos concordemente, eleger alguns varões e enviá-los com os nossos
amados Barnabé e Paulo, homens que expuseram a vida pelo nome do nosso Senhor
JESUS CRISTO. Enviamos, portanto, Judas e Silas, os quais de boca vos
anunciarão também o mesmo. Na verdade, pareceu bem ao ESPÍRITO SANTO e a nós
não vos impor maior encargo, senão essas coisas necessárias: Que vos abstenhais
das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue e da carne sufocada, e da
fornicação; dessas coisas fareis bem se vos guardardes. Bem vos vá. (At
15.23-29).
A congregação louvou a DEUS pela notícia e decidiu, mais fervorosamente que
nunca, propagara mensagem da salvação por JESUS CRISTO a todo o mundo gentio -
até à própria Roma!
Embora para os discípulos a grande disputa houvesse terminado, muitos em
Jerusalém não estavam plenamente convencidos. Com o passar dos anos, em
diversas igrejas por todo o império, Paulo os encontraria pregando seus padrões
farisaicos. Alguns argumentavam que a liberdade da Igreja corria risco e que a
obra de CRISTO estava dividida. Mas agora, finalmente, os apóstolos tinham
liberdade para pregar aos gentios e recebê-los com todos os direitos na Igreja.
A SEGUNDA
VIAGEM MISSIONÁRIA
Paulo permaneceu em Antioquia durante todo o
inverno. As estradas das montanhas estavam cobertas de neve e os barcos
ancorados no cais, onde permaneceriam até que as brisas da primavera enchessem
o ar. A oficina onde Paulo fabricava suas tendas era um ponto de comércio e
local de encontro para os cristãos, que gostavam de levar os amigos não
convertidos para ouvirem-no falar de JESUS. Barnabé era o amigo e companheiro
constante de Paulo. Com eles, a igreja tinha uma liderança leal e criara novas
forças.
Além de Paulo e Barnabé, outros homens vindos de Jerusalém ocupavam posições de
liderança em Antioquia, e pregavam na cidade e aldeias vizinhas. Um deles,
chegado recentemente, era Silas. Depois de cumprir sua missão na igreja de
Antioquia, Silas decidira deixar sua antiga casa e encontrar trabalho na Síria,
onde poderia desfrutar da amizade dos novos irmãos.
A Separação de Paulo e Barnabé
Quando o clima se tornou favorável às viagens, Paulo sentiu que deveria
visitar outra vez as igrejas do Ocidente. Eram igrejas novas; precisavam ser
orientadas. Paulo carregava no coração um peso constante por esses cristãos
novos, e à medida que o plano foi-se-lhe formando na mente, procurou o amigo
Barnabé, na esperança de viajarem juntos outra vez.
Tornemos a visitar nossos irmãos por todas as cidades em que já anunciamos a
palavra do Senhor, para ver como estão (At 15-36).
Barnabé concordou, e imediatamente tiveram início os preparativos para a
partida. Todavia, Barnabé achou que deveriam levar João Marcos, seu primo, para
ajudar no trabalho. Mas Paulo recusou terminantemente. Marcos tivera a sua
oportunidade e os abandonara nas montanhas da Panfília, justamente quando mais
precisavam dele. Desde que Marcos optara pela segurança da cidade, Paulo não
estava disposto a repetir a experiência. Certamente, a mão de DEUS não estivera
na primeira associação de Marcos com os dois apóstolos. Por que haveriam de
supor que as coisas fossem diferentes agora?
Barnabé, porém, estava decidido a ponto de pôr em risco o sucesso do
empreendimento. Sua determinação colidiu com a recusa direta de Paulo e houve
discussão entre ambos. Era a primeira vez que isso acontecia. As palavras
trocadas foram tão ásperas que os planos para viajarem juntos tiveram de ser
cancelados. Um motivo tão insignificante serviu para separar os amigos que
juntos haviam enfrentado tantos perigos. Mas cada um julgava estar com a razão,
e nenhum quis ceder.
DEUS finalmente transformou o mal em bem: em vez de um, dois grupos foram
formados. Barnabé navegou para Chipre, levando consigo seu jovem primo Marcos,
enquanto Paulo convidou Silas a acompanhá-lo às igrejas da Ásia Menor.
A briga foi violenta e áspera, mas de pouca duração. Com o passar dos anos,
Marcos justificaria plenamente a confiança do primo, e Paulo alegrar-se-ia em
recebê-lo e servir-se dele como um honrado ministro. Prevaleceria o amor de
DEUS, e o sentimento provocado pela disputa dissipar-se-ia ante a necessidade
de espalhar o Evangelho.
A Segunda Viagem Missionária
Barnabé e Marcos embarcaram num navio, enquanto Paulo e Silas foram por
terra ao longo da estrada dos mercadores, atravessando as altas serranias de
Listra. O zelo demonstrado por Silas em Antioquia impressionara Paulo, e
dera-lhe a certeza de que DEUS honraria o seu testemunho onde quer que fosse.
Silas, como Paulo, era cidadão romano. Juntos, pensou Paulo, poderiam realizar
grandes coisas para DEUS, enquanto visitavam as cidades gentias.
Com as mochilas às costas, e os jumentos carregados de provisões, despediram-se
dos irmãos e partiram para o monte Tauro. Por essa estrada, Paulo viajara
quando criança para ir a Jerusalém com o pai. Era uma estrada larga, e ele
tinha a sensação de conhecer cada palmo dela. Mas, por segurança, foram em
grupos, juntando-se aos mercadores e peregrinos.
Provavelmente, Paulo conhecia bem a Síria e a Cilícia. Bem pode ser que tenha
pregado em muitas aldeias e cidades dessa região, enquanto aguardava o chamado
de DEUS em Tarso. Havia diversas pequenas igrejas em lugarejos perto da
estrada, e Paulo pretendia visitá-las, confirmando-as na fé e encorajando-as a
manter firme lealdade a CRISTO.
As igrejas precisavam realmente dessa visita. Não tinham o Novo Testamento para
orientá-las na vida cristã e, às vezes, as ondas da perseguição eram enormes.
Receber a visita do apóstolo Paulo, conhecer Silas que viera da igreja-mãe, e
ouvir sobre os cristãos de outras cidades, era sem dúvida de grande ajuda.
Na Cilícia
Paulo e Silas viajaram por estradas acidentadas e trilhas pedregosas. Foram
de cidade em cidade, algumas vezes seguindo o curso do rio, outras, subindo as
trilhas das montanhas. Mas seguiam conscientes da presença de DEUS e de que seu
povo carecia de encorajamento. Onde chegavam, encontravam amigos que lhes
ofereciam hospitalidade e convidavam outros crentes para conhecerem os
apóstolos. Atravessaram assim a passagem elevada da montanha, que levava à
Cilícia. As estradas eram íngremes nos Montes Amanos, e havia poucas cidades na
parte ocidental da província. Essa era a terra natal de Paulo, e ele estivera
muitas vezes em cada vilarejo, vendendo suas tendas. Mais tarde, pregara o
Evangelho nessa região. Agora, portas amigas abriam-se para eles em todos os
lugares. Os cristãos reuniam-se com os apóstolos e ouviam Silas ler a carta de
Jerusalém. Também compraziam-se com a pregação de Paulo.
No Lar em Tarso
Finalmente, deixaram o desfiladeiro e os rochedos escarpados, descendo à
vasta planície no vale do Cnido. Tarso continuava sendo o lar de Paulo, embora
seus pais já houvessem falecido. Havia uma igreja em Tarso, e muitos amigos que
Paulo conhecera na sinagoga faziam agora parte dela. Eles alegraram-se com a
sua volta e o acolheram juntamente com Silas. Era um privilégio conhecer
aqueles homens a quem DEUS escolhera para levar o Evangelho ao mundo. A igreja
havia prosperado e contava com muitos gentios entre seus membros. Não havia
diferenças na comunhão; amavam-se como membros de uma mesma família.
A carta de Tiago foi lida aos cristãos de Tarso. Paulo advertiu-os a que se
mantivessem firmes na liberdade cristã, sem se contaminarem com a idolatria.
Na Licaônia
Paulo e Silas pretendiam visitar as igrejas recém-estabelecidas. Portanto,
despedindo-se dos cristãos de Tarso, juntaram-se ao fluxo constante de
mercadores na importante estrada que seguia para a província da Licaônia,
atravessando os Portões da Cilícia, no lado norte do Monte Tauro. Apenas um ano
se passara desde que Paulo e Barnabé haviam deixado Derbe. Quando a cidade
surgiu à sua frente, animaram-se com a expectativa de uma recepção amigável.
Lembranças dos santos de Derbe, Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia inundaram
a mente de Paulo. Lembrou-se da disposição com que receberam o Evangelho e de
seu zelo face à perseguição. O coração do apóstolo aqueceu-se com a idéia de
revê-los. Estariam todos lá, ou alguns teriam voltado aos ídolos?
Os dois homens alegraram-se ao ver a fidelidade desses irmãos em CRISTO. Como
ficaram felizes por rever Paulo! Mas este não pôde demorar muito em qualquer
desses lugares. Sua missão não era fundar igrejas. Isso já fora feito e ele
notou que, desde sua primeira visita, a Igreja crescera em cada cidade. Isto
foi um grande incentivo a Paulo. Depois de falarem sobre a decisão do concilio
de Jerusalém e lerem a carta de Tiago, Paulo e Silas partiram apressados,
desejosos de chegar a novos lugares.
Não enfrentaram perseguição nessa viagem, porque não fazia parte de seus planos
pregar nas praças do mercado. Isto estava sendo feito por outros, e o Senhor
vinha acrescentando diariamente à igreja os que aceitavam a CRISTO.
Em Listra, Paulo visitou a casa de Timóteo, recordando a bondade de Lóide e
Eunice, especialmente quando fora apedrejado e jogado quase morto numa vala
fora da cidade. O testemunho de Timóteo agradou tanto a Paulo e Silas, que
ambos pensaram em convidar o jovem a acompanhá-los na jornada. Ele substituiria
João Marcos, que desertara na primeira viagem.
Listra e Timóteo
No ano em que Paulo e Barnabé ali estiveram, Timóteo trabalhara tão
fielmente na igreja que os membros mais velhos tinham muitos elogios a
fazer-lhe. Timóteo era filho de pai grego e mãe judia. Seu pai, como muitos
gregos cultos da época, talvez não tivesse encontrado qualquer satisfação em
seus deuses pagãos. Ele aparentemente concordara, de boa vontade, que sua
esposa ensinasse ao menino a religião judaica. Timóteo ouvira desde a infância
as histórias do Antigo Testamento, e podia descrever os tratos de DEUS com seu
povo e sua promessa do Messias. No correr do tempo, a mãe de Timóteo, Eunice,
ouvira o Evangelho. Assim como o jovem Timóteo, ela e sua mãe idosa, Lóide,
creram em JESUS como o CRISTO e foram recebidas na igreja.
Agora, de boa vontade, Eunice entregava a DEUS o rapazinho, deixando que
acompanhasse os missionários numa viagem a terras distantes - talvez ao
estrangeiro - levando as Boas Novas. Paulo amava o rapaz, chegando até a
chamá-lo de filho. Orgulhosa por um de seus jovens estar sendo convocado por
DEUS, a igreja de Listra fez uma reunião especial. Os presbíteros, com Paulo e
Silas, impuseram as mãos sobre Timóteo, em oração solene, separando-o para o
ministério.
A Mensagem de Icônio
A cidade de Icônio ficava a apenas quarenta quilômetros de distância, e os
cristãos de lá souberam da chegada de Paulo. Quando o pequeno grupo de viajantes
se aproximou, a notícia correu, e muitos crentes foram cumprimentar Paulo. Eles
lembravam-se de sua primeira visita e dos muitos milagres que operara naquela
ocasião. Aqueles cristãos amavam o apóstolo Paulo; deviam a salvação ao seu
esforço incansável na pregação do Evangelho. Silas leu a carta de Tiago aos
cristãos judeus e gentios, que se rejubilaram ao saber que eram um só em CRISTO
e membros do mesmo corpo. Não era sempre que podiam ouvir homens como aqueles,
por isso ficaram até tarde fazendo perguntas e tirando as dúvidas que tinham em
seu primeiro ano de vida como igreja. Paulo teve prazer em ajudá-los e
fortalecê-los com palavras de exortação, animando-os a manterem-se firmes na fé
em CRISTO JESUS e a pregar acerca dEle, aonde quer que fossem.
Em Antioquia da Pisídia
A mesma advertência foi repetida em Antioquia, e o coração dos cristãos
animou-se com a visita e as notícias das outras igrejas. Em toda parte houve
júbilo com o conteúdo da carta de Tiago. Era como se um grande fardo tivesse sido
removido dos ombros dos cristãos gentios. Antes, sentiam-se infelizes pela
incerteza da sua posição. A própria igreja sentia-se inquieta ao pensar que
alguns discípulos de Jerusalém não admitiriam gentios em sua comunhão. Mas
agora, tudo fora resolvido e a igreja desfrutou de grande paz.
Sensibilidade à Liderança divina
Paulo, Silas e o novo companheiro, Timóteo, gostaram das visitas, mas
queriam seguir para um território onde o Evangelho ainda não tivesse penetrado.
Sentindo que já haviam ficado o suficiente em Antioquia da Pisídia,
despediram-se dos amigos. Juntando-se a um grupo de viajantes, seguiram na
direção nordeste, para a província da Galácia. Sua idéia era ir até as colônias
judaicas do mar Negro. A estrada era boa, não muito íngreme nem perigosa. Saía
dos montes Sultão e estendia-se por planícies cobertas de matas, passando por
vales aprazíveis e chegando ao mar distante. Viajar sozinhos, porém, não era
recomendável, pois os lobos, leopardos e leões eram comuns no planalto, para
além das montanhas. As feras não molestavam os grupos grandes; os que viajavam
sozinhos, porém, jamais chegavam ao seu destino.
Depois de percorrerem cerca de 160 quilômetros, chegaram às exuberantes
florestas da Bitínia, onde as encostas desciam suavemente até o mar Negro.
Estavam aproximando-se do seu objetivo, e a viagem parecia convidativa. Mas, de
repente, Paulo compreendeu que DEUS não queria que fossem à Bitínia. Quer
tivesse sonhado ou tido uma visão, ficou cada vez mais claro que deveriam
voltar. Paulo vivia bem perto do Senhor, e era sensível à sua orientação;
jamais começava qualquer viagem sem primeiro colocar seus planos diante de
DEUS. De alguma forma, tornou-se evidente que deveria desistir daquela viagem e
seguir noutra direção.
Paulo Adoece na Galácia
Consultando-se entre si, decidiram ir para a Ásia, pregando ao longo do
caminho. Mas o ESPÍRITO de DEUS falou-lhes claramente que não deveriam se
demorar pregando na Ásia. Ficaram perplexos, imaginando aonde DEUS finalmente
os levaria. Voltando pela estrada em direção ao ocidente, Paulo adoeceu e o
grupo teve de parar em uma das cidades da Galácia. Prosseguir era impossível;
Paulo estava fraco e precisava descansar. Os irmãos daquela igreja cuidaram
bondosamente dele e fizeram o possível para que se restabelecesse. Trataram-no
como a "um anjo de DEUS".
Bem mais tarde, Paulo escrever-lhes-ia, recapitulando toda a história:
E vós sabeis que primeiro vos anunciei o Evangelho estando em fraqueza na
carne. E não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na minha
carne; antes, me recebestes como a um anjo de DEUS, como JESUS CRISTO mesmo.
Qual é, logo, a vossa bem- aventurança? Porque vos dou testemunho de que, se
possível fora, arrancaríeis os olhos, e mos daria (Gl 4.13-15).
Podemos supor que Paulo sempre tenha tido problemas com os olhos, e sua
enfermidade talvez tivesse sido uma recidiva que provocou uma inflamação.
Considerando isto um obstáculo ao seu ministério, orou ao Senhor, em três
ocasiões, rogando que lhe removesse a doença. Embora DEUS ouvisse e atendesse
às orações de Paulo, sua resposta foi um não. Em vez de curá-lo, DEUS
concedeu-lhe forças para vencer e provar que o sofrimento e a fraqueza podem
ser suportados com dignidade.
Em Trôade
Com a ajuda de DEUS, Paulo recuperou-se o suficiente para continuar viagem.
Sem saber o que o Senhor lhes reservava, os três viajaram para o Oeste, e
atravessaram a província de Mísia, onde não tiveram oportunidade de pregar.
Certo dia, encontraram-se no porto de Trôade, à beira das águas azuis do mar
Egeu. Trôade era um porto famoso. Era a Tróia* da conhecida poesia de Homero e
palco de muitas batalhas. A história do cavalo de Tróia desperta hoje o mesmo
interesse que despertava nos dias de Homero.
Paulo, porém, não tinha tempo para pensar no passado; ele refletia sobre o
presente e o futuro. Do alto dos montes que circundavam a cidade, podia-se ver
as ilhas gregas estendendo- se como degraus para que um gigante atravessasse o
mar a seco. Os viajantes sabiam que além delas achava-se o grande continente
europeu, que abrangia as extremidades das terras conhecidas, pelo homem. Ali
encontrava-se o abismo da ignorância paga, e também o centro da cultura grega;
para além, a grande cidade de Roma, a terra dos Césares.
Essa era uma civilização rica em estátuas, templos e palácios senhoriais. O
povo adorava nos santuários da lascívia e do prazer, rendendo homenagens a
Júpiter, Saturno e Juno, assim como a um exército de deuses menores.
Paulo e Silas permaneceram ali, perguntando-se aonde o Senhor desejaria
levá-los. Ansiavam por envolver-se na pregação do Evangelho. Estavam perplexos
por DEUS não lhes ter aberto uma porta em quaisquer cidades ou metrópoles do
norte da Ásia Menor. Agora encontravam-se em Trôade, uma cidade-fortaleza
romana. Seria esse o lugar escolhido por DEUS, ou teriam de continuar viajando?
Enquanto esperavam dia após dia, travaram conhecimento com um pequeno grupo de
cristãos. Paulo não lhes ministrou, mas encontrou entre eles aquele que veio a
ser seu melhor amigo: Lucas. O médico amado, escritor do Evangelho que lhe leva
o nome e do livro de Atos, juntou-se aos três viajantes em Trôade. Ele já era
cristão e, apesar de muito respeitado como médico, estava disposto a passar a
vida curando almas.
*Há divergências quanto à nomenclatura utilizada. Trôade não deve ser
confundida com a Tróia dos relatos de Homero.
O Chamado para a Macedônia
Certa noite, DEUS falou a Paulo num sonho. Paulo podia ver as ilhas da
Grécia estendendo-se como uma ponte sobre o mar Egeu, até as ilhas distantes...
Um homem da Macedônia, de pé, com os braços estendidos, suplicava-lhe que
cruzasse o mar e fosse ajudá-lo e a seus conterrâneos. O chamado há tanto
esperado chegara afinal. O suspense terminara. Pela manhã, Paulo contou o sonho
a Silas, Timóteo e Lucas, e todos concordaram que o Senhor queria que fossem à
Europa. Não havia tempo a perder. Naquela mesma manhã, com suas bagagens às
costas, saíram à procura de um navio que fosse para o Ocidente. Quando a fresca
da noite desceu sobre a cidade e o vento sul assoprou, o navio desfraldou as
velas iniciando a jornada de 160 quilômetros, que levaria os apóstolos até
Filipos, na Macedônia.
No dia seguinte, alcançaram a ilha de Samotrácia; à noite, desembarcaram em
Neápolis. Após uma noite de descanso, fizeram uma viagem curta, pegando a
estrada pavimentada que seguia o rio para o interior, até a cidade de Filipos.
A Obra de Paulo em Filipos
"Passa à Macedônia e ajuda-nos!" tinha sido o grito do macedônio.
É claro que a ajuda de que precisavam não se tratava de instrução. Pois eles tinham
escolas muito melhores que as da Judéia. Tão pouco necessitavam ajuda para se
tornarem fortes ou ricos. Filipos tinha riqueza, e aqueles quatro homens nada
poderiam lhes acrescentar. O que nem os romanos nem os gregos possuíam era a
felicidade verdadeira. Os prazeres eram abundantes, mas sem CRISTO não havia
como serem saciados. Filipos tinha sido capturada anos antes por Roma, e muitos
cidadãos romanos vieram morar na cidade. Ela tornara-se parte do grande Império
Romano que se estendia por toda a terra, desde a Bretanha até a Palestina. Era
agora uma colônia livre de impostos, e tinha entre seus habitantes muitos
romanos de alta categoria.
Não havia sinagoga na cidade, porque o número de judeus era pequeno. Os poucos
que havia reuniam-se todos os sábados para orar num lugar afastado, fora da
cidade, às margens de um rio. O pequeno grupo compunha-se em sua maioria de
mulheres. Algumas delas eram prosélitas que, abandonando a idolatria, haviam
encontrado na religião de Israel algo infinitamente melhor.
Lídia, a Vendedora de Púrpura
Os quatro homens destacavam-se entre as mulheres. E quando Paulo começou a
pregar, o coração de uma determinada gentia comoveu-se grandemente. Tratava-se
de Lídia, comerciante de Tiatira, do outro lado do mar. Lídia era uma viúva que
se vira forçada a manter o próprio negócio, como vendedora de tecidos feitos de
púrpura. Tiatira era conhecida pela sua tinta de púrpura, e Lídia enriquecera
vendendo suas mercadorias às mulheres romanas da cidade.
O coração de Lídia sensibilizou-se com o sermão. Ela cria no DEUS dos hebreus
e, como eles, esperava o Messias. Paulo pregou. O ESPÍRITO de DEUS abriu o
coração dessa mulher especial, e ela recebeu JESUS. As margens do rio, tendo as
outras mulheres por espectadoras, Lídia foi batizada. E toda a sua casa
seguiu-lhe o exemplo!
Grande hospitaleira, Lídia insistiu que Paulo e seus companheiros ficassem em
sua casa. A princípio eles rejeitaram o oferecimento para não constrangê-la. O
plano de Paulo fora sempre sustentar-se com a fabricação de tendas, mas Lídia
não aceitou qualquer desculpa e obrigou-os a acatar o convite.
No decorrer das semanas, os quatro homens não perderam qualquer oportunidade de
dar testemunho de CRISTO. Todos os sábados, reuniam-se no lugar de oração dos
judeus, junto ao rio, e falavam aos presentes sobre as riquezas insondáveis do
Evangelho. Só algumas mulheres tornaram-se cristãs. Evódia e Síntique creram,
juntamente com dois homens - Epafrodito e Clemente - e alguns outros cujos
nomes constam do Livro da Vida. Ainda que os resultados fossem pequenos, eram
reais. Paulo animou-se a ficar e pregar não só perto do rio, mas também nos
bazares e praças.
A ESCRAVA (Ptonisa)
Tudo parecia ir bem, quando a oposição surgiu de fonte inesperada. Havia
uma jovem escrava possuída por um espírito maligno, que fazia adivinhações. As
pessoas procuravam-na para conhecer o futuro, e seus donos muito lucravam com o
preço das consultas. Ela atraía homens inseguros que não se aventuravam a fazer
negócios, ou resolver casos de amor, sem primeiro consultar um médium que
afirmasse manter contato com o mundo espiritual.
Da mesma forma que o espírito maligno reconhecera JESUS como o Filho de DEUS, o
espírito nessa moça percebeu que os apóstolos eram enviados do Senhor.
Seguindo-os diariamente pelas ruas e na praça do mercado, a escrava gritava aos
passantes: "Esses homens, que nos anunciam o caminho da salvação, são
servos do DEUS Altíssimo" (At 16.17). Seus donos ficaram aborrecidos, mas
ela não se importou porque na verdade os odiava. A mensagem de Paulo cativara-a
de tal forma, que ela esperava todos os dias na rua até que os apóstolos
aparecessem.
Paulo, no entanto, não se agradou do testemunho dos demônios. Indignado com
aquela importunação diária, voltou-se à escrava e ordenou, em nome do Senhor
JESUS, que o espírito a deixasse. A moça ficou parada, atônita; estava
finalmente livre, senhora de suas faculdades.
A Prisão de Paulo e Silas
Vendo seu meio de vida ser tirado por aqueles judeus, os donos da escrava
ficaram furiosos. Enraivecidos, agarraram Paulo e Silas e os arrastaram pelas
ruas, gritando aos que passavam. Uma grande multidão os acompanhou, pensando
tratar-se de algum ladrão. Paulo e Silas foram levados à praça do mercado, sob
a acusação de haverem perturbado a paz. Foi fácil colocar o povo contra eles,
uma vez que os judeus eram muito odiados. O imperador Cláudio não mandara banir
todos os judeus de Roma?
Numa extremidade da praça, dois magistrados romanos estavam sentados numa
plataforma elevada, sob um dossel que os abrigava do sol. A tarefa deles era
ouvir e julgar as queixas do povo. Esse foi o primeiro tribunal de justiça.
Arrastando os apóstolos pelas vestes e pelos cabelos, os perseguidores
levaram-nos aos magistrados.
"Esses homens, sendo judeus, perturbaram a nossa cidade."
Acusaram-nos aos berros. "E nos expõem costumes que nos não é lícito
receber nem praticar, visto que somos romanos" (At 16.20-21). A multidão
gritava: "Fora com eles! Fora com os judeus!"
Os magistrados deixaram-se convencer. Não permitiram aos prisioneiros qualquer
julgamento ou defesa. Se soubessem que Paulo era cidadão romano, sem dúvida o
tratariam com respeito, mas nada lhe perguntaram. Os juizes deram ordens para
que fossem publicamente açoitados. Depois de descobrirem as costas dos presos,
os pretores avançaram e levantaram as varas. Enquanto os apóstolos encolhiam-se
de dor sob os açoites, a plebe gritava: "Prendam os judeus!"
Machucados e sangrando, Paulo e Silas foram levados à prisão e entregues ao
carcereiro, com instruções para guardá-los com toda a segurança. Os dois foram
então levados para um cárcere interior, onde ficaram com os pés presos ao
tronco. Ao deixá-los naquele lugar úmido e frio, o carcereiro ficou imaginando
o porquê daqueles homens que não pareciam marginais serem julgados tão perigosos.
Na casa de Lídia, Timóteo e Lucas passaram uma noite angustiosa, e oraram em
companhia da dona da casa e de outros cristãos. Mas não foram os únicos a orar:
Paulo e Silas também não conseguiam dormir. Suas costas continuavam doendo por
causa dos açoites e o tronco tornava o sono impossível. Entretanto, podiam
orar, e foi o que fizeram. A paz caiu sobre eles, e começaram a cantar alguns
dos salmos que conheciam desde a infância - salmos de louvor a DEUS. "O
Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da
minha vida; de quem me recearei?" (SI 27.1).
A Conversão do Carcereiro
Aqueles sons no meio da noite eram sem dúvida estranhos. Os outros
prisioneiros estavam acostumados com gemidos e maldições, mas jamais tinham
ouvido algo assim. O que poderia ser? Estavam escutando os cânticos em silêncio
quando, de repente, um som baixo e ameaçador fez-se ouvir. Aquilo que a
princípio parecia um trovão à distância foi aumentando cada vez mais. O chão
começou a tremer. Um terremoto! O chão balançava, subindo e descendo; as portas
foram arrancadas dos batentes e as cadeias dos prisioneiros abriram-se,
libertando-os.
O carcereiro acordou com o choque. Saltando da cama, seu primeiro pensamento
foi para os prisioneiros sob seus cuidados. Teria algum escapado? Em caso
afirmativo, como se explicaria com Roma? Ao primeiro olhar, viu que as portas
estavam escancaradas. Lá estava a pesada porta de madeira, arrancada dos
gonzos. Com uma tocha na mão, apressou-se pelo corredor.
As celas interiores estavam danificadas; suas portas, completamente abertas. O
homem puxou rapidamente a espada. Era melhor acabar logo com tudo, escapando ao
horror de um julgamento e da execução pública. Paulo viu quando ele pôs a
espada na garganta para suicidar- se. Uma voz alta e clara, saída da escuridão,
assustou o carcereiro: "Não te faças nenhum mal, que todos aqui
estamos" (At 16.28).
Trêmulo, ele pegou a tocha e entrou na cela, onde caiu prostrado aos pés de
Paulo e Silas. O homem sentia-se tremendamente perplexo. Não conseguia entender
porque não havia escapado. Paulo explicou-lhe que eram cidadãos romanos e não
tinham necessidade de fugir; além disso, eram servos do Senhor DEUS e levavam a
mensagem de salvação aos gentios.
Encontrado o caminho que procurara durante toda a vida, o carcereiro exclamou:
"Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?" (16.30).
Sem hesitar, Paulo respondeu: "Crê no Senhor JESUS CRISTO e serás salvo,
tu e a tua casa" (16.31).
No pátio da prisão, com a poeira do terremoto ainda pesando no ar e o ruído da
confusão nas ruas escuras lá fora, Paulo pregou as boas-novas de grande
alegria, e explicou o significado de crer. Imediatamente, o brutal carcereiro
passou das trevas para a luz.
Solícito, levou os apóstolos para sua casa, onde se achavam sua esposa e
filhos. Ali, lavou-lhes as costas doloridas. Depois de limpar o sangue,
esfregou unguento nas feridas abertas pelas varas dos pretores. Naquela noite
Paulo contou-lhes tudo sobre JESUS e, antes do dia amanhecer, uma família
inteira tornou-se cristã e foi batizada.
Quando raiou o dia, mensageiros dos magistrados bateram à porta da prisão.
Traziam uma mensagem amedrontada dos seus senhores: "Soltai aqueles
homens" (v. 35).
Na mente dos magistrados estava claro que a catástrofe fora um castigo de DEUS
por terem colocado dois de seus servos na prisão. Entretanto, quando o
carcereiro levou a Paulo e Silas a notícia da sua liberdade, estes não a
receberam de bom grado.
Diga a seus senhores - declarou Paulo - que somos romanos e eles não podem
encobrir sua injustiça, livrando-se de nós às ocultas.
Paulo conhecia os direitos da cidadania romana; podia apelar à própria Roma, se
quisesse. Sabia que os magistrados estavam agora à sua mercê.
Diga aos seus senhores que venham pessoalmente e nos ponham em liberdade.
Os orgulhosos magistrados, com medo de perderem o cargo, viram que não havia
outra opção senão atender ao desejo dos prisioneiros. Sem perda de tempo,
apresentaram suas humildes desculpas em pessoa, suplicando aos apóstolos que
nada dissessem sobre o erro cometido, e deixassem a cidade o mais rápido
possível. Eles levaram Paulo e Silas para a rua e, publicamente, os libertaram.
Os apóstolos não deixaram imediatamente a cidade. Procuraram a paz e
tranquilidade da casa de Lídia, até que suas feridas sarassem e pudessem
viajar. Receberam os cuidados de Timóteo e do doutor Lucas, e foram visitados
pelos poucos que haviam levado a CRISTO.
A Primeira Igreja na Europa
Durante aqueles dias de restabelecimento, Paulo e Silas tiveram a alegria
de acolher na nova igreja de Filipos ao homem que lhes prendera os pés ao
tronco, assim como todos os de sua casa. Mediante sofrimento e fidelidade, o
pequeno grupo cresceu até tornar-se uma das mais fortes igrejas.
Quando Paulo e Silas sentiram-se suficientemente curados para deixar Filipos,
despediram-se dos crentes e partiram para Tessalônica, a capital da Macedônia.
Lucas e Timóteo ficaram em Filipos por algum tempo, a fim de fortalecer a
igreja.
A estrada que os dois apóstolos escolheram era a melhor da província,
pavimentada com blocos de mármore. Depois de cerca de 169 quilômetros, chegaram
a Anfípolis, uma cidade maior que Filipos. Ansiosos, não ficaram ali;
prosseguiram para o sul e para o oeste, passando por Apolônia e descendo a
grande Via Inácia, até a cidade que Alexandre, o Grande, chamara de
Tessalônica, em homenagem à sua irmã.
Paulo em Tessalônica
Ao sair da região montanhosa, eles contemplaram as águas azuis do golfo e
entraram na cidade passando por um enorme arco de mármore, esculpido com cinco
cabeças de touros enfeitadas de guirlandas. Esse monumento era uma lembrança
perpétua de que Otávio e Antônio haviam ganho a batalha de Filipos.
Tessalônica, por ter apoiado os generais conquistadores, tornara-se uma cidade
livre. Isto significava que podia escolher seus próprios magistrados, livrar-se
das guarnições romanas, e não sujeitar-se de forma alguma ao governador romano
da Macedônia.
Os apóstolos hospedaram-se na casa de Jasom, parente de Paulo, e testemunharam
na sinagoga durante três sábados. Paulo começava com as profecias do Antigo
Testamento, explicando aos conterrâneos que elas foram cumpridas em JESUS de
Nazaré. Alguns murmuraram depois de seus apelos veementes, e os líderes da
sinagoga opuseram-se à sua doutrina, proclamando que era falsa. Todavia, outros
creram e tornaram-se amigos de Paulo, seguindo-o por toda parte e encorajando-o
em sua pregação. A maioria dos convertidos era formada por prosélitos gregos e
esposas de oficiais, que haviam abandonado os ritos imorais da adoração aos ídolos.
Elas haviam encontrado no Judaísmo uma religião onde a mulher era respeitada.
Paulo e Silas não se limitaram a pregar apenas na sinagoga, mas aproveitavam
todas as oportunidades para dar testemunho de JESUS. Em três semanas,
conseguiram reunir um número suficiente de cristãos para formar uma igreja. Não
perderam tempo. Os cristãos reuniam-se todas as noites com Paulo e Silas, que
lhes explicavam as verdades do Evangelho. À medida que outros enxergavam a luz,
também eram recebidos na congregação. Estabelecer uma igreja em três semanas
era uma tarefa colossal, mas foi o que Paulo e Silas fizeram, não só levando os
convertidos a CRISTO como também instruindo-os na fé. Antes dessas breves
semanas terminarem, Paulo falou-lhes sobre a volta do Senhor e os sinais dos
tempo. Advertiu-os sobre o abandono da fé, que precederia a vinda do
anticristo.
Paulo É Obrigado a Deixar Tessalônica
Paulo era um trabalhador incansável, capaz de formar uma comunidade forte
de cristãos quase da noite para o dia. Mas, como de costume, os judeus
incrédulos levantaram-se contra ele. Instigaram um grande grupo de malfeitores,
que rodearam a casa de Jasom atirando pedras no pátio e exigindo que Paulo e
Silas lhes fossem entregues. Enfurecidos, derrubaram a porta e procuraram em
cada aposento, descobrindo que os dois não se encontravam na casa. Jasom
providenciara em tempo a fuga de ambos, mas ele mesmo não escapou. A turba
agarrou-o, como também a outros cristãos, e arrastou-os até a praça do mercado,
onde as autoridades mantinham seu tribunal:
Esses que têm alvoroçado o mundo chegaram também aqui, os quais Jasom recolheu.
Todos esses procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei,
JESUS (At 17.6,7).
A acusação era grave e não podia ser ignorada. Os magistrados tomaram nota e
ficaram muito perturbados; o assunto poderia acabar em desastre. Ordenaram que
Jasom e seus amigos pagassem fiança e voltassem no dia do julgamento.
Como Jasom era homem de posses, a fiança foi paga e todos tiveram permissão de
voltar para casa. Naquela mesma noite, depois de conferenciarem, os irmãos
procuraram Paulo e Silas e explicaram como seriam prejudicados se eles
ficassem. Então, enquanto a cidade dormia, os dois saíram disfarçados pelos
portões, e dirigiram-se ao sul, para a cidade de Beréia.
A Acolhida em Beréia
Timóteo juntou-se a Paulo e Silas em Beréia. Ele chegara de Filipos, onde
ficara com Lucas para fortalecer a igreja, e encontrou-os na sinagoga. Timóteo
sabia que era costume de Paulo procurar a casa de adoração dos judeus, portanto
esperou lá por ele. Quando os apóstolos chegaram, ensinaram na sinagoga que
JESUS era o CRISTO e provaram isso pelas Escrituras. Paulo ficou surpreso e
contente ao ver que os judeus o ouviam sem fazer oposição. De fato, mostraram
verdadeiro interesse, devorando cada palavra pregada. A seguir, foram buscar os
grandes rolos guardados numa caixa por trás da cortina azul, e examinaram
diligentemente as palavras de Isaías, de outros profetas e da Lei de Moisés,
traçando a história do Messias até no seu livro de hinos. Não aceitariam a
mensagem até provarem pelas Escrituras a sua autenticidade. Ao descobrirem que
as citações de Paulo não continham qualquer erro, receberam alegremente a
mensagem e creram em JESUS.
Tudo ia bem até que as notícias chegaram a Tessalônica, levadas por algum judeu
ingênuo, que não pretendia fazer mal. Uma onda de oposição rebentou quase que
imediatamente sobre a igreja recém-formada. Um bando de judeus zelosos
precipitou-se de Tessalônica e, com mentiras, incitaram os membros da sinagoga
contra Paulo. Principal alvo do ataque maldoso, Paulo achou melhor seguir o
conselho dos irmãos e deixou a cidade.
Atenas, uma Cidade Idolatra
Um grupo de cristãos conduziu Paulo ao porto de Dio, onde ele embarcou para
Atenas, a maior cidade da Grécia. Seus amigos acompanharam-no até chegar a
Atenas, mas deixaram-no ali e regressaram.
Silas e Timóteo ficaram em Beréia para fortalecer os cristãos. Quando
terminassem o trabalho, iriam encontrar-se com Paulo em Atenas. Ambos
permaneceram com relativa segurança em Beréia, pois os inimigos achavam que,
sendo Paulo o chefe, não precisavam preocupar-se com eles.
Depois da retirada dos amigos, Paulo ficou absolutamente só em uma das cidades
mais belas do mundo: Atenas - a "Mãe da Grécia". A cidade era
dominada pela Acrópole, um monte com a parte superior plana e rochosa, que
servia de base a vários templos. Quinhentos anos antes, Atenas estivera no
apogeu da sua glória, mas desde que fora saqueada pelos romanos, encontrava-se
sob o seu domínio. Paulo estivera em muitas cidades, mas nunca visitara um
lugar tão belo e cheio de esculturas de mármore brilhando ao sol. Os edifícios
em estilo clássico eram elegantes e graciosos. O povo era culto e orgulhava-se
de sua liberdade de pensamento. Arquitetura, pintura, escultura e grandes
bibliotecas podiam ser encontradas em toda parte. Ao longo de cada rua, e em
cada praça, havia estátuas e altares - santuários construídos para a adoração
de muitos deuses. Paulo ficou surpreso ao ler as inscrições. Seu coração
acelerou-se ao admirar o esplendor das estátuas, algumas feitas por Fídias, o
maior de todos os artífices em mármore. Mas também apiedou-se ao pensar na
cegueira do povo ateniense.
Naquelas mesmas ruas e naquela mesma praça ao pé da Acrópole, Sócrates ensinara
ao povo; Platão instruíra seus seguidores naquele mesmo lugar; Demóstenes, o
grande orador, era uma lembrança do passado. A marca de todos eles fora deixada
na cultura daquele povo altivo. Abaixo dos templos da Acrópole, ficava o teatro
de Dionísio com seus assentos de mármore estendendo-se sobre o vale. Todas as
noites as multidões aglomeravam-se nele para assistir às importantes peças
teatrais. Não havia dúvida de que aquele povo era o mais inteligente, refinado
e complacente que Paulo já encontrara.
O apóstolo alojou-se perto da sinagoga e decidiu ficar ali até a chegada de
Silas e Timóteo. Porém não estava satisfeito. Aqueles ídolos e seus templos não
lhe suscitaram admiração, mas preocupação e piedade. Gostaria que todos fossem
derrubados e, ao invés da confusão dos deuses, o povo pudesse ver o DEUS vivo e
verdadeiro. Todas aquelas estátuas desonravam ao Senhor, e Paulo queria ver em
Atenas uma igreja que apagasse cada ídolo do coração de seus habitantes.
No sábado, ele foi pregar o Evangelho aos seus conterrâneos na sinagoga, mas
não conseguiu ganhar nenhum deles. Desanimado, saiu de lá e começou a pregar
nas ruas e praças. Muita gente dispôs-se a ouvi-lo; havia nas ruas um grande
número de pessoas que apreciavam uma discussão. Elas passavam o dia indo de um
filósofo a outro, à procura de alguma doutrina nova que pudesse tornar-se moda
em Atenas.
Em toda parte havia sinais de idolatria. Queimavam incenso diante de cada
imagem. Num altar próximo, Paulo viu mulheres levantando as crianças até o
ídolo, num oferecimento. O apóstolo sentiu o coração confranger-se ao ver a
cidade completamente entregue à idolatria.
Certo dia, descobriu numa única rua os templos de Atena, Artemis e Afrodite. Ao
lado deles havia altares dedicados à Guerra, Fama, Piedade e Modéstia. Em toda
a cidade havia três mil estátuas e altares onde os atenienses ofereciam sua
adoração vazia. Paulo leu muitas inscrições enquanto caminhava pelas ruas, e
ficou imaginando como um povo tão religioso poderia ser tão cego. Sondou as
faces das pessoas e percebeu que estavam cansadas dos seus deuses.
Alguns filósofos, estóicos e epicureus, encontraram Paulo numa praça e
indagaram: Que quer dizer esse paroleiro?... Parece que é pregador de deuses
estranhos... Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas? Pois
coisas estranhas nos trazes aos ouvidos: queremos, pois, saber o que vem a ser
isso (At 17.18-20).
O Sermão da Colina de Marte (Areópago)
Logo depois do mercado barulhento, na metade do caminho que levava aos
templos da Acrópole, ficava um semicírculo rochoso, conhecido como a colina de
Marte. Paulo foi conduzido a esse lugar para contar sua história.
Varões atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos; porque, passando
eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito:
AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais não o conhecendo, é o que eu
vos anuncio
(At 17.22,23).
Imediatamente interessada, a plateia inclinou-se à escuta. Com um olhar para o
conjunto de templos no topo do monte, e ao próprio Parthenon - edifício mais
perfeito do mundo - Paulo continuou:
O DEUS que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não
habita em templos feitos por mãos de homens. Nem tão pouco é servido por mãos
de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a
todos a vida, a respiração e todas as coisas. E de um só fez toda a geração dos
homens para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já
dantes ordenados e os limites da sua habitação; para que buscassem ao Senhor,
se, porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um
de nós. Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos
vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.
Sendo nós, pois, geração de DEUS, não havemos de cuidar que a divindade seja
semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação
dos homens" (At 27.24-29).
A audiência agradou-se do discurso e, animada, ficou à espera de mais. Sem
dúvida, ali estava alguém de grande cultura. Era judeu, mas conhecia os poetas
gregos. E Paulo então continuou:
Mas DEUS, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os
homens, em todo o lugar, que se arrependam. Porquanto tem determinado um dia em
que com justiça há de julgar o mundo, por meio do varão que destinou; e disso
deu certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos (At 1730-31).
Um cascatear de risos ouviu-se entre o povo, quando ele falou em ressurreição.
"Esse homem deve estar louco para pregar tais asneiras!" E não
quiseram mais ouvi-lo.
Alguns mais educados sugeriram que o ouviriam noutra ocasião, mas Paulo
percebeu tratar-se de uma desculpa amável para se livrarem dele.
O apóstolo já encontrara todas as formas de oposição, mas aquela era a primeira
vez que alguém ria de suas palavras. Isso silenciou-o mais que os insultos e
pedradas. Com um sentimento de fracasso, deixou a colina de Marte; desceu às
praças logo abaixo e perdeu-se na multidão. Enquanto lutava com a crescente
sensação de desânimo, ouviu passos às suas costas.Voltando-se, deparou com um
pequeno grupo de homens e mulheres que se apressava para alcançá-lo. Seus
rostos eram amigáveis; queriam fazer mais perguntas sobre a nova doutrina.
Dionísio, um membro do conselho da sinagoga de Atenas, e uma mulher chamada
Dâmaris, além de outros atenienses não nomeados, creram em suas palavras e
receberam a JESUS CRISTO.
Paulo começou a inquietar-se em Atenas. Pensava nos cristãos de Beréia, onde
Silas e Timóteo se encontravam, e imaginava a razão de não ter notícias de lá.
Sentiu-se tentado a viajar novamente para o norte e até planejou voltar a
Tessalônica, mas as circunstâncias o impediram. Será que o longo silêncio
significava oposição? Teriam os judeus de Tessalônica continuado a perseguir
Silas e Timóteo? Paulo temia pela igreja de Tessalônica. A perseguição ali fora
penosa, e ele ficava a pensar se a fé dos irmãos resistiria à prova. Ele só
estivera com aqueles crentes durante três semanas...
Paulo em Corinto
Não mais suportando a longa espera, Paulo enviou um cristão ateniense para
indagar sobre o bem-estar dos crentes de Tessalônica, e deixou uma mensagem
avisando que ia para Corinto. Se Timóteo e Silas chegassem, deveriam ir à
capital, onde ele os esperaria.
Com uma sensação de liberdade, deixou para trás Atenas e seus templos de
mármore. A lembrança dos risos no dia em que pregou sobre o CRISTO ressurreto
ainda queimava-lhe no peito. Perguntava-se porque o Senhor não lhe dera mais
almas naquela cidade.
Com o espírito abatido, Paulo encontrou um navio que ia para Corinto, capital
da Acaia. Sabendo que seu dinheiro estava acabando, começou a questionar o
significado exato da visão sobre o homem da Macedônia. Até então, só tivera uma
série de decepções; fugira de cada cidade a fim de salvar a vida, deixando aos
companheiros de viagem a tarefa de estabelecer a nova igreja.
Áquila e Priscila
Embora desanimado, Paulo procurou um local onde pudesse usar a arte que
aprendera em Tarso. Encontrou uma rua onde os fabricantes de tendas tinham suas
lojas, e entrou na oficina de Áquila. O Senhor parecia tê-lo encaminhado
justamente àquele lugar, pois Áquila era um refugiado judeu banido de Roma pelo
imperador Cláudio. Ele e sua mulher, Priscila, haviam se estabelecido no
negócio de tendas em Corinto, poucas semanas antes da chegada de Paulo.
Áquila gostou da ajuda extra, e Priscila, ao saber que Paulo era judeu,
acolheu-o de bom grado. Bastaram alguns dias de trabalho para que Áquila
apreciasse ainda mais a habilidade de Paulo na fabricação de tendas. Enquanto
costurava o couro, Paulo contava as maravilhosas experiências que tivera; como
DEUS o protegera das dificuldades e o livrara da prisão. O casal ficou
espantado por aquele artesão ter sido um rabino, e haver perseguido
ardentemente a seita dos nazarenos. Pouco a pouco, abriram seus corações a
CRISTO e foram salvos.
A antiga Corinto, mais velha que Atenas, tivera tantas batalhas travadas em
suas ruas que só restaram ruínas. Reconstruída por Júlio César, era agora uma
bela cidade e, durante cem anos, ocupara na Grécia uma posição de proeminência.
Grande centro comercial, atraiu logo os judeus da região. A adoração à
Afrodite, deusa do amor, também centralizava-se ali. Famosa por suas riquezas e
inclinação aos prazeres e vida fácil, Corinto tornou-se símbolo do pecado. Marinheiros
e mercadores do mundo inteiro levavam a história de Corinto às suas terras,
aumentando-lhe a fama de pecado e encanto.
Paulo foi apresentado na sinagoga como um judeu que frequentara o templo de
Jerusalém, e recebeu permissão para falar. Mas discursou com um sentimento de
fraqueza. Embora houvesse argumentado, provado e persuadido tanto judeus quanto
gregos, teve de lutar contra o crescente desânimo que começara a envolvê-lo.
SILAS, TIMÓTEO E PAULO EM CORINTO
Silas e Timóteo finalmente chegaram. Tinham estado em Atenas e souberam que
Paulo havia partido para Corinto. Que alívio vê-los e ouvir as notícias! Agora
Paulo sabia que não estavam presos e que tudo ia bem. E as igrejas de Beréia e
Tessalônica? Tinham notícias de Lucas em Filipos? Os cristãos estavam firmes?
Sim, as notícias eram boas. As igrejas em toda parte continuavam firmes na fé.
E mais: estavam testemunhando em toda a Macedônia e muitos haviam se rendido a
CRISTO nas últimas semanas. DEUS estava operando nas igrejas e abençoando o
testemunho de seus seguidores. Os irmãos não haviam esquecido Paulo;
lembravam-se diariamente dele em suas orações, do mesmo modo que este se
lembrava deles. Como demonstração do seu amor, tinham enviado uma oferta em
dinheiro para o seu sustento; assim, em vez de trabalhar, Paulo poderia
dedicar-se integralmente ao ministério. O coração do apóstolo alegrou-se
grandemente ao ouvir essas notícias. Seu desânimo desapareceu como a neblina da
manhã ao nascer do sol. O antigo zelo voltou, e com grande vigor, deu início a
uma campanha para a conversão dos coríntios.
Quando, porém, os judeus se lhe opuseram, blasfemando contra o Senhor, Paulo os
abandonou, advertindo-os de que o sangue deles cairia sobre as suas próprias
cabeças.
"Desde agora parto para os gentios" (At 18.6).
E foi o que fez. Como resultado, muitos coríntios creram e foram batizados.
Todavia, antes de partir, teve a grande alegria de ganhar Crispo, o principal
da sinagoga. Seu coração aqueceu-se ao vê-lo ser batizado com a mulher e os
filhos!
Depois da chegada de Timóteo e Silas, a casa de Áquila ficou pequena para
abrigar todos eles. Foram então alojar-se ao lado da sinagoga, na casa de um
cristão chamado Justo. Paulo, porém, continuou trabalhando sempre que
necessário.
Com o passar dos dias, a enorme tarefa de testemunhar àquela cidade sem CRISTO
começou a pesar-lhe nos ombros. Enquanto refletia no assunto, um temor
sorrateiro foi tomando conta de seu coração. Corinto era, indiscutivelmente, a
cidade mais perversa do mundo, e Paulo perguntava a si mesmo se haveria ali
qualquer esperança de sucesso.
Certa noite, deitado em seu leito na casa de Justo, Paulo teve uma visão. O
Senhor disse-lhe palavras semelhantes às que DEUS dissera a Josué, muitos anos
atrás, quando o coração dele se acovardara:
Não temas, mas fala e não te cales. Porque eu sou contigo, e ninguém lançará
mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nessa cidade (At 18.9,10).
Isso era tudo o que Paulo precisava saber. Lembrou-se então do dia em que
estivera face a face com JESUS, na estrada de Damasco, e pôde ouvir novamente
as palavras do Senhor repetidas por Ananias:
Esse é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome diante dos gentios, e
dos reis, e dos filhos de Israel. E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo
meu nome (At
9.15,16).
Paulo passou a pregar com zelo renovado. Os missionários trabalharam durante um
ano e meio, procurando converter homens e mulheres, tanto judeus quanto
gentios. Empregavam todos os esforços para trazê-los das trevas do pecado para
a família de DEUS. Muitos vieram a conhecer a verdade e separaram-se da sua
antiga e corrupta religião, ganhando uma nova vida em CRISTO.
A Primeira Epístola Aos Tessalonicenses
Paulo ficou tão comovido com a oferta de Tessalônica e o relatório positivo
a respeito daquela igreja, que resolveu escrever-lhes uma carta. Esta pode ter
sido a sua primeira carta. Era dirigida a todos os discípulos de Tessalônica, e
elogiava-os por sua firmeza na fé, mesmo em face à perseguição. Agradecido pela
ajuda, Paulo escreveu-lhes uma carta de conselhos paternais, recordando-lhes os
ensinamentos que lhes ministrara, e insistindo para que crescessem na graça e
andassem como verdadeiros filhos de DEUS. Deveriam ser cada vez mais profícuos
no testemunho e no viver diário, atentos à aproximação da volta do Senhor para
buscar os salvos - tanto os mortos como os vivos. Era uma linda carta,
expressando o afeto do apóstolo por seus filhos na fé.
Paulo e seus amigos demoraram-se bastante em Corinto, e seu ensino teve maior
sucesso ali que em qualquer outro lugar. A igreja aumentava a cada dia, à
medida que o povo mais humilde tornava-se cristão. Mas nem tudo foi fácil e
bem-sucedido; alguns judeus detestaram a mensagem de Paulo, e ficaram à espera
de uma oportunidade para dar vazão ao seu ódio. Certo dia, conforme planejado,
eles incitaram um grupo de ociosos a agarrarem o apóstolo enquanto este
pregava. Paulo foi levado diante do tribunal de Gálio, o procônsul romano.
Gálio era um homem bondoso; recebera o cargo porque o imperador Cláudio
conhecia a sua sabedoria e capacidade. Diante de Gálio, os judeus não sabiam
como apresentar uma acusação válida contra aquele prisioneiro que não oferecia
resistência. A única acusação que podiam formular era fraca aos seus próprios
ouvidos. Não podiam culpar o apóstolo de perturbar a paz ou instigar uma
revolta, e disseram contrafeitos: "Esse persuade os homens a servir a DEUS
contra a lei" (At 18.13).
Enquanto Paulo preparava-se para responder à acusação, Gálio levantou-se e
declarou:
Se houvesse, ó judeus, algum agravo ou crime enorme, com razão vos sofreria.
Mas, se a questão é de palavras, e de nomes, e da lei que entre vós há, vede-o
vós mesmos; porque eu não quero ser juiz dessas coisas (At 18.14,15).
Impaciente e irado, expulsou-os do tribunal. Muitos gregos que haviam
testemunhado a cena ressentiram-se contra os judeus. Ofendidos, agarraram
Sóstenes, o principal da sinagoga, e espancaram-no diante do tribunal. Gálio
ficou sentado calmamente, sem aplaudir nem censurar. Desde que a raiva deles
não fosse dirigida a Roma, tudo o mais lhe era indiferente.
Depois de vários meses, o homem que levara a primeira carta de Paulo a
Tessalônica voltou e contou como a epístola fora recebida. Ela resolvera
algumas das dificuldades dos tessalonicenses, mas aparentemente suscitara
outras, especialmente com respeito à volta de CRISTO. Alguns entenderam que o
tempo era tão curto, que deveriam parar de trabalhar e viver do que haviam
poupado, pois em questão de dias, seriam recebidos nos céus para estar com o
Senhor.
A Segunda Epístola aos Tessalonicenses
Paulo discutiu o problema com Silas e Timóteo e decidiu enviar uma segunda
carta. Elogiou os tessalonicenses por sua paciência na tribulação e
suplicou-lhes que não se deixassem perturbar com palavras de homens ou cartas
falsas, que julgavam ser dele. Alguém lhes forjara uma carta em nome de Paulo,
afirmando que a volta de CRISTO aconteceria naqueles dias, e que talvez até já
houvesse acontecido. Paulo recordou-lhes o grande plano de DEUS; lembrou-os de
que nos últimos dias muitos se desviariam do Senhor, e o homem da iniqüidade
viria para se opor a tudo o que era de DEUS. Assegurou-lhes ainda de que as
perseguições que estavam sofrendo não eram, absolutamente, a Grande Tribulação:
Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas,
seja por palavra, seja por epístola nossa. E vós, irmãos, não vos canseis de
fazer bem. Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por essa carta, notai o
tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe (2 Ts 2.15; 3.13-14).
A Volta de Paulo a Antioquia da Síria
Pouco depois desses acontecimentos, Paulo admitiu que a igreja de Corinto
já estava suficientemente forte; podia deixá-la e dedicar-se a outro trabalho.
De algum modo, sentiu-se impelido a voltar a Antioquia da Síria. Queria
igualmente visitar Jerusalém por ocasião da festa. Áquila e Priscila estavam
indo para Éfeso, e Paulo decidiu ir com eles. Silas e Timóteo não os
acompanharam; permaneceram em Corinto para continuar o trabalho.
A viagem marítima para Cencréia, porto de Corinto, foi agradável e sem
incidentes. O navio permaneceu em Éfeso o tempo suficiente para Paulo visitar a
sinagoga, onde discutiu com os judeus e mostrou-lhes JESUS, o CRISTO das
Escrituras. Os judeus não se opuseram ao apóstolo dos gentios, nem à sua
mensagem. Ao contrário, pediram-lhe que ficasse mais tempo. Não sendo possível,
Paulo prometeu visitá-los em breve. Deixando Áquila e Priscila testemunhando em
Éfeso, voltou ao navio que o levou em segurança para Cesaréia, o porto mais
próximo de Jerusalém.
Não se demorou na cidade santa. Sua principal preocupação ali era visitar outra
vez a igreja-mãe. A época era de festa e as ruas estavam repletas de
peregrinos. Paulo cumprimentou os cristãos e renovou sua amizade com Tiago,
Pedro e os demais discípulos que se reuniam na casa de Maria. Depois voltou a
Antioquia, a igreja que o enviara em todas as suas viagens.
A TERCEIRA
VIAGEM MISSIONÁRIA
Já fazia um ano que Paulo prometera aos judeus
de Éfeso voltar e continuar ali o seu ministério. O apóstolo pensava muito
neles e em Áquila e Priscila que lá ficaram testemunhando. Durante todo o
inverno, e até fins do verão seguinte, ele permaneceu em Antioquia. Sabia que
se tivesse de viajar para a Ásia Menor, seria necessário partir antes que as
neves do inverno bloqueassem as passagens das montanhas.
A Terceira Viagem Missionária
Quando os cristãos de Antioquia souberam que o apóstolo Paulo estava
planejando uma terceira viagem, não ficaram surpresos. Entristeceram-se, porém,
ao despedir-se dele mais uma vez. Já haviam compreendido que DEUS preparara
Paulo, melhor que qualquer outro, para levar o Evangelho às terras distantes.
Numa reunião de despedida, entregaram-no aos cuidados de DEUS; depois de lhe
darem dinheiro e provisões para o caminho, levaram-no até os portões da cidade.
Ficaram então olhando e acenando em despedida até que desaparecesse numa curva
da montanha. Não sabiam eles que esse fora o último adeus. O rosto de Paulo não
mais seria visto na amada igreja de Antioquia. Aproximava-se o momento em que o
apóstolo dos gentios encerraria suas viagens.
Pela terceira vez, Paulo encaminhou-se aos Portões da Cilícia, que o levariam a
Tarso e Derbe, Listra e Icônio. As coisas tinham mudado com o passar do tempo.
Em cada cidade havia agora igrejas estabelecidas; milhares haviam sido atraídos
a CRISTO.
Foi grande a alegria do apóstolo ao ver o progresso dos cristãos. Ele pensou
naqueles primeiros dias, quando não havia uma única voz levantada para o Senhor
em todas as cidades. Ao deixar cada lugar, Paulo elevava o coração em fervoroso
agradecimento por cada igreja e cada crente.
Visitando Novamente as Primeiras Igrejas
O trabalho não era mais uma questão de plantar a semente, mas de arrancar o
mato. Muitas vozes ergueram-se para desviar os cristãos da pureza da fé. Eles
foram especialmente perturbados pelos pregadores itinerantes que, com os seus
ensinos, tentaram perverter o Evangelho da graça e levar os crentes gentios de
volta à lei mosaica. Onde quer que Paulo fosse, tinha de lutar contra essa
influência. Em muitos casos, os falsos mestres haviam solapado o seu
ministério, lançando dúvidas sobre o seu apostolado e depreciando-lhe a
autoridade. Em Derbe, Icônio e em todas as regiões da Galácia, onde estivera
com Silas na segunda viagem, Paulo admoestou:
Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de
CRISTO para outro Evangelho, o qual não é outro, mas há alguns que vos
inquietam e querem transtornar o Evangelho de CRISTO. Mas, ainda que nós mesmos
ou um anjo do céu vos anuncie outro Evangelho além do que já vos tenho
anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, e agora de novo vo-lo
digo, se alguém anunciar outro Evangelho além do que já recebestes, seja
anátema (Gl 1.6-9).
Paulo tornou a visitar todas as primeiras igrejas, resolvendo suas
dificuldades, respondendo suas perguntas, rebatendo os falsos mestres,
advertindo, censurando, encorajando e confirmando. Esse era o ministério de que
precisavam para se manterem firmes na fé.
Apolo, um NOVO Missionário
Ao mesmo tempo em que Paulo continuava seu paciente ministério nas cidades
do interior, um judeu chamado Apoio chegou a Éfeso. Ele nascera em Alexandria,
na embocadura do Nilo, e era culto e eloquente. Seu conhecimento das Escrituras
era comparável ao de Paulo, pois fora cuidadosamente ensinado por seus pais
hebreus. Mas agora, com os olhos abertos para JESUS, o Messias, ele empenhava-se
em divulgar a Verdade em toda parte.
Apoio nunca vira JESUS, nem falara com qualquer dos discípulos. Mas ouvira
falar de João Batista e de como ele anunciara que JESUS era o CRISTO, em
cumprimento das profecias. Dominado por esses fatos, partiu com o coração cheio
da mensagem, ansioso por anunciá-la aos seus conterrâneos.
Áquila e sua esposa foram ouvi-lo na sinagoga de Éfeso e maravilharam-se com a
sua capacidade. Apoio era poderoso nas Escrituras. O casal compreendeu
imediatamente que, se aquele jovem com tanto saber viesse a conhecer o
Evangelho pleno, como Paulo lhes ensinara, seria um dos maiores homens da
igreja. Que instrumento para DEUS!
Amavelmente, convidaram-no a visitá-los, e ele aceitou. Com bondade, e sem
ofendê-lo, repassaram alguns tópicos de seu sermão, elogiando-o, mas
mostrando-lhe que o ensino de João sobre o arrependimento não era o Evangelho
em sua plenitude. Fizeram-no ver também que o batismo de João não era aquele
ordenado por CRISTO.
Dia após dia, o brilhante orador sentou-se com o fabricante de tendas e sua
mulher e, passo a passo, inteirou-se dos aspectos mais profundos da fé. Com
genuína humildade cristã, o grande orador do Egito ouviu as verdades divinas e
alegrou-se nelas. A cada dia, sua mensagem na sinagoga foi-se tornando mais
forte. Áquila e sua fiel esposa oravam para que o Senhor enchesse aquele vaso
com grande poder.
Armado de uma verdade que antes não possuía, Apoio foi a Corinto, aquela
importante cidade da Acaia, a fim de pregar com todo o fervor e intrepidez da
sua juventude. Assim, enquanto os judeus farisaicos de Jerusalém procuravam por
todos os meios combater a Paulo e ao Evangelho, outro judeu estava visitando
algumas das igrejas fundadas pelo apóstolo e atraindo homens e mulheres para
CRISTO.
Organização da Igreja de Éfeso
Paulo chegou a Éfeso e ouviu falar de Apoio, poucos dias depois desse ter
ido para Corinto. A primeira providência de Paulo foi procurar seu velho amigo
Aquila, o fabricante de tendas, e inteirar-se de tudo o que acontecera desde
que deixara a cidade. Conheceu alguns crentes convertidos pela pregação de
Apoio e, ao descobrir que esse os batizara no batismo de João, perguntou a 12
deles:
Vocês receberam o batismo do ESPÍRITO SANTO quando creram? Os 12 cristãos
fitaram- no surpresos e responderam:
Nem mesmo ouvimos que existe o ESPÍRITO SANTO.
Havia, evidentemente, muita coisa a ser corrigida, e Paulo ofereceu-se
bondosamente para realizar a tarefa.
Depois de tê-los ensinado, batizou-os novamente, tanto homens como mulheres, em
nome do Senhor JESUS, e impôs as mãos sobre eles. Uma nova igreja foi fundada
naquele dia, composta de cristãos que, como os do Pentecostes, foram batizados
no ESPÍRITO SANTO.
Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga de Éfeso e pregou ousadamente
que JESUS era o Filho de DEUS. Mas surgiram disputas tão acirradas quanto à sua
mensagem, que o pequeno grupo de cristãos perdeu a esperança de obter quaisquer
novos frutos na sinagoga. Semana após semana, os judeus tinham ouvido o
Evangelho de CRISTO dos lábios de Áquila e Apoio, e agora de Paulo. Mas não só
se recusaram a crer, como também endureceram os corações contra JESUS e
depreciaram a Paulo, advertindo o povo de que o Cristianismo era antagônico aos
judeus.
Saulo afastou-se triste da sinagoga, para jamais pisar nela. A fim de continuar
seus ensinamentos, ele alugou o salão de palestras da escola pertencente a
Tirano. Esse homem era professor de retórica e filosofia, e dava aulas todas as
manhãs. Paulo reunia seus seguidores à tarde, argumentando com eles
diariamente. Não só discutia as reivindicações de JESUS, como também respondia
às muitas perguntas relativas ao Cristianismo e à vida paga. Provavelmente
tratou de assuntos como casamento, divórcio, escravidão e alimento oferecido
aos ídolos - temas que voltaria a abordar mais tarde em suas cartas. No espaço
de dois anos, a igreja de Éfeso cresceu e floresceu, e o Evangelho de JESUS
CRISTO foi pregado em toda a Ásia romana.
Combatendo a Adoração aos Ídolos
Éfeso era o centro de uma grande província. O templo de Diana, ou Artemis,
fora levantado ali havia mil anos. Quando nasceu Alexandre, o Grande, o templo
queimara completamente e os asiáticos reuniram ouro e prata para reconstruí-lo.
Cada família da província deu a sua contribuição, e o novo templo ficou tão
magnífico que veio a ser considerado uma das sete maravilhas do mundo. No dia
da sua inauguração, um príncipe persa atirou uma flecha de sua torre mais alta
e declarou: "Aquele que ultrapassar essa distância, ao aproximar-se desse
edifício, encontrará aqui um santuário e ficará livre da perseguição".
O imenso prédio era de mármore, com fileiras duplas de colunas entalhadas. Em
toda a volta havia 14 degraus de mármore, subindo em camadas como as de um bolo
de noiva, e na base de cada coluna, profundamente esculpidas na rocha, havia
figuras de homens e mulheres em tamanho natural. No centro do grande templo
havia uma câmara formada por pilares de jaspe verde. Das paredes pendiam caros
presentes, enviados por todas as províncias vizinhas, e perto da entrada,
encontrava-se um altar esculpido por Praxíteles. Uma grande cortina púrpura
descia do teto e, detrás dela, havia uma estátua de madeira em forma de mulher,
escurecida pelo tempo. Era Diana, a deusa dos efésios, que, segundo diziam,
caíra do céu. O ídolo era hediondo; mas, oculto pela cortina mística,
tornara-se objeto de adoração para milhões de pessoas.
Pequenas cópias da imagem tinham sido feitas de bronze ou prata, e algumas
vezes de ouro, mostrando Diana como uma linda mulher, usando na cabeça uma
coroa. Em cada casa havia uma dessas estatuetas, pois segundo acreditavam, a
deusa era poderosa para afastar o mal.
O templo de Diana tornara-se o centro da vida de Éfeso. Peregrinos do mundo
inteiro iam visitá-lo. Mercadores deixavam seu dinheiro com os sacerdotes,
acreditando ser o tesouro do templo o lugar mais seguro do mundo. Grande número
de artesãos ganhava a vida explorando a superstição do povo e fabricando
imagens para serem usadas como talismãs.
O Poder de DEUS
Nessa cidade de mágicos e idolatras, Paulo e seus companheiros anunciaram a
CRISTO, levando centenas de pessoas a abandonarem a idolatria. Através do
apóstolo, DEUS realizou muitos milagres em Éfeso. Aquele povo, que tanto
gostava de prodígios, viu que o poder do Altíssimo era maior que a magia de
Diana ou de quaisquer dos seus seguidores. Assim como Moisés superara os
mágicos de Faraó no Egito, pelo poder de DEUS, Paulo, o servo do Senhor,
recebeu autoridade para curar. Sem necessidade de talismãs, contas, ou
pergaminhos contendo fórmulas mágicas, Paulo demonstrou que o imenso poder de
DEUS fluía dele para as pessoas. Os milagres não aconteciam só pela sua
pregação, mas em alguns casos, por meio de artigos pessoais, como o avental que
ele usava na fábrica de tendas, ou o lenço com que enxugava a testa.
Em um lugar assim, existiam sempre impostores que ganhavam a vida com as
superstições do povo. Numa família judaica, sete irmãos, filhos do sacerdote
Ceva, rebaixaram- se a ponto de ganhar dinheiro, afirmando curar por meio de
talismãs e fórmulas mágicas. Certo dia, eles viram Paulo expulsar o espírito
maligno de um homem e aprenderam rapidamente as palavras usadas pelo apóstolo.
Na primeira oportunidade, tentaram imitá-lo.
"Esconjuro-vos por JESUS, a quem Paulo prega" (At 19.13). Mas o poder
de DEUS não estava nas palavras deles e, em vez de ser liberto da possessão
demoníaca, o endemoninhado revidou: "Conheço a JESUS e bem sei quem é
Paulo, mas vós, quem sois?" (At 19.15). E com força sobrenatural,
atirou-se sobre os sete mágicos, rasgando-lhes as roupas, batendo e ferindo- os
furiosamente.
As notícias espalharam-se depressa. Muita gente presenciara o incidente e não
mais acreditava no poder dos mágicos. Muitos dos que haviam praticado artes
mágicas levaram seus livros de magia, amuletos e talismãs, e os queimaram em
praça pública. Aquela foi uma tremenda demonstração, pois os objetos queimados
valiam uma grande soma.
Agora que se haviam tornado cristãos, DEUS enchera-lhes os corações com um novo
poder. E diante do poder divino, os truques de Satanás perderam o valor.
Os Ajudantes de Paulo em Éfeso
A obra do Senhor prosperou, e o testemunho da igreja de Éfeso tornou-se
conhecido em toda a Ásia. Timóteo chegou da Europa e juntou-se novamente a
Paulo. Erasto, outro crente, seguiu os passos de Timóteo e tornou-se um dos
ajudantes de Paulo em Éfeso. De fato, essa igreja veio a ser o centro da
divulgação do Evangelho.
Existia uma via direta de comércio entre Éfeso e Corinto, e os mercadores iam e
vinham; os crentes em JESUS também faziam freqüentes visitas às outras igrejas.
Através de um desses viajantes, ou talvez de Apoio, Paulo recebeu notícias
perturbadoras de Corinto. Muitos cristãos tinham voltado ao mundanismo da vida
paga, e a impureza penetrara na igreja, sendo aceita passivamente.
A Visita a Corinto
Paulo decidiu visitar pessoalmente os coríntios e corrigir o erro, antes
que o nome do Senhor fosse desonrado. Sua visita foi triste e penosa, pois ao
chegar, descobriu que as coisas eram ainda piores do que supunha. Sentiu-se
humilhado ao ver que tantos dos seus convertidos estavam vivendo em desacordo
com a vida cristã.
A permanência de Paulo foi breve, e ele usou cada momento para advertir os
crentes de Corinto contra toda forma de impureza. Lembrou-lhes que o propósito
do batismo era demonstrar que haviam morrido para o pecado e ressuscitado para
uma vida de justiça. Ameaçou-os com a exclusão da Igreja, se não deixassem de
profaná-la. Repreendeu-os como um pai; advertiu-os de que, se não melhorassem,
retornaria e não os pouparia. Como fizesse tudo com amor, doçura e humildade,
logo após sua partida para Éfeso, os coríntios interpretaram sua atitude como
fraqueza, achando que Paulo os temia. Continuaram no pecado, desafiando o
Senhor e seu apóstolo.
A Primeira Epístola aos Coríntios
Pouco tempo depois, Estéfanas, Fortunato e Acaico, três convertidos de
Paulo, chegaram a Éfeso com um relatório completo sobre a igreja de Corinto. As
notícias eram péssimas; o mundanismo crescera na igreja.
A seguir, alguns membros da casa de Cloé, uma família cristã importante de Corinto,
chegaram a Éfeso com mais informações. Os crentes haviam-se dividido em quatro
partidos, conforme a preferência que cada um dava aos pregadores locais. Havia
muita contenda entre os grupos; a igreja inteira fervia de inquietação. A
imoralidade, tal como nos templos pagãos, era tolerada sem pudor. Era comum os
cristãos apresentarem queixas, uns contra os outros, nos tribunais seculares.
Até a Ceia do Senhor transformara-se em ocasião para excessos; havia bebedeira
e glutonaria.
Paulo escreveu imediatamente uma carta severa aos coríntios, ordenando que se
afastassem dos desobedientes e os excluísse da comunhão. Essa carta, ou
epístola, é conhecida como Primeira aos Coríntios.
Então Paulo esperou para ver como receberiam sua carta. Queria dar-lhes tempo
para que se arrependessem, antes de visitá-los uma terceira vez.
Paulo julgou necessário enviar Timóteo e Erasto para verificar como iam as
coisas. Mais tarde, escreveu uma outra carta severa aos coríntios,
censurando-lhes o comportamento e corrigindo os males que enfraqueciam o
testemunho cristão. Essa carta (que não chegou até nós) foi levada por Tito,
O jovem que anos antes o acompanhara a Jerusalém.
A indignação de Paulo não era apenas pela desordem na igreja de Corinto; ouvira
também que muitas igrejas da Galácia estavam esquecendo as verdades simples do
Evangelho, e aderindo à idéia de que o caminho da salvação passava pela
sinagoga e pela lei de Moisés.
O Novo INIMIGO
Como se já não houvesse problemas suficientes, um novo inimigo surgiu em
Éfeso. O Evangelho fora pregado eficazmente em todas as cidades e povoados
perto de Éfeso, e houve centenas de convertidos. Resultado: os artesãos que
vendiam imagens de prata de Diana começaram a sentir o declínio em seu
comércio. Alarmados, fizeram uma reunião. O principal orador, Demétrio, era
ourives e comprava suas imagens dos artífices. Em seu discurso, Demétrio
explicou aos membros da corporação o motivo do declínio nas vendas e
instigou-lhes a ira, sugerindo que o próprio templo corria perigo. Inflamados pelo
discurso, os negociantes agarraram a Gaio e a Aristarco, dois fiéis amigos de
Paulo, e arrastaram-nos até o teatro ao ar livre, considerado o maior do mundo.
Atraída pela gritaria, uma grande multidão ajuntou-se. Sem nem saber o que
estava acontecendo, todos começaram a correr pelas ruas, gritando a plenos
pulmões: "Grande é a Diana dos efésios!" (At 19.28).
As ruas encheram-se de gente que se dirigia apressada ao teatro, querendo saber
o porquê de tamanha excitação. Paulo escapou da multidão e, quando quis entrar
no teatro para juntar-se aos amigos, os discípulos o retiveram. Até alguns
líderes políticos da Ásia aconselharam-no a ficar longe dos ourives.
Engrossando a multidão estavam alguns judeus que fariam tudo para silenciar a
Paulo, a quem consideravam um inimigo da sinagoga. Aproveitando-se do tumulto
no teatro, um deles, Alexandre, levantou a mão para ser ouvido. Sua intenção
era pedir a prisão de Paulo, esperando assim dar um golpe na Igreja. Mas quando
o povo reconheceu seus traços e vestimentas judias, não quis ouvi-lo. Em vez
disso, gritaram mais alto: "Grande é a Diana dos efésios! (At 19.34).
Alexandre deu-se por feliz em ter a vida poupada; sem perda de tempo,
misturou-se à multidão.
O tumulto durou cerca de duas horas. O poder de Diana fora posto em dúvida e os
seus seguidores estavam enfurecidos. Aquele episódio foi uma demonstração de
como os efésios se sentiam em relação à sua deusa e ao seu templo. Quando os
gritos e vozes cessaram, o escrivão da cidade apaziguou-lhes a ira e mandou-os
de volta para casa.
Varões efésios, qual é o homem que não sabe que a cidade dos efésios é a
guardadora do templo da grande deusa Diana e da imagem que desceu de Júpiter?
Ora, não podendo isso ser contraditado, convém que vos aplaqueis e nada façais
temerariamente. Porque esses homens que aqui trouxestes nem são sacrílegos nem
blasfemam da vossa deusa. Mas, se Demétrio e os artífices que estão com ele têm
alguma coisa contra alguém, há audiências e há procônsules; que se acusem uns
aos outros. Mas, se alguma outra coisa demandais, averiguar-se-á em legítimo
ajuntamento. Na verdade, até corremos perigo de que, por hoje, sejamos acusados
de sedição, não havendo causa alguma com que possamos justificar esse concurso
(At 1935-40).
Paulo Volta à Macedônia
Naquela mesma noite Paulo convocou a igreja e contou que iria à Macedônia.
Enquanto a poeira baixava, seria melhor para a igreja de Éfeso que ele não
estivesse presente. O apóstolo pregou seu sermão de despedida e, depois de
abraçar cada irmão, seguiu para o norte, pela estrada que levava a Trôade.
Paulo esperava encontrar Tito ali, voltando da Grécia, talvez com notícias da
igreja de Corinto. Mas em Trôade, ficou desapontado: Tito não chegara. Esperou
alguns dias, e embora a população de Trôade lhe mostrasse sincera amizade, ele
ansiava por partir. A preocupação com a igreja de Corinto pesava-lhe
grandemente, além de que, pretendia visitar todas as igrejas da Macedônia. Com
essa meta, embarcou para a Macedônia e chegou a Filipos, onde podia contar com
amigos sinceros.
A casa de Lídia recebeu-o cordialmente. Aquele dia foi gasto visitando cristãos
que há muito não via, mas que sempre tinham sido lembrados em suas orações. O
encontro foi uma alegria a Paulo e a seus filhos na fé. O carcereiro e sua
família continuavam firmes em CRISTO. Também encontrou-se novamente com Timóteo
e soube do seu sucesso na pregação do Evangelho.
Mas os cristãos coríntios não lhe saíam da mente, e embora apreciasse a estada
entre os filipenses, ficou inquieto até que Tito chegou de Corinto trazendo
boas notícias. A carta enviada por Paulo, juntamente com o ministério de Tito,
haviam transformado a situação. Os coríntios castigaram o pecador que estava
vivendo em cabal contradição aos mandamentos do Senhor, e purificaram suas
vidas dos pecados específicos que Paulo lhes apontara. Até a divisão da igreja
tinha melhorado; em vez de quatro partidos havia agora só dois - os que eram a
favor de Paulo e os que eram contra. Os inimigos do apóstolo duvidavam de seu
apostolado e até criticavam-lhe as palavras e aparência pessoal. Os amigos,
porém, tinham sido despertados e, genuinamente, se arrependido.
A Segunda Epístola aos Coríntios
Incomodado com o relatório trazido por Tito, o apóstolo Paulo escreveu a
mais pessoal de todas as suas cartas - a Segunda Epístola aos Coríntios. Nela,
demonstrou toda a sua preocupação com aqueles crentes. Para eliminar a dúvida
que eles tinham sobre o seu apostolado, repetiu-lhes grande parte de suas
experiências, pensamentos, temores e vida particular. Tinha muito a dizer sobre
seus sofrimentos e empenho na causa de CRISTO. Contou de suas várias prisões;
das cinco ocasiões em que foi publicamente açoitado; e dos três naufrágios que
sofrerá, ficando certa vez na água durante 24 horas.
Essa carta é, em certo sentido, uma autobiografia de Paulo e uma firme defesa
do seu ministério e convocação superiores. Ele escreveu:
Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui
açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma
noite e um dia passei no abismo; Em viagens, muitas vezes; em perigos de rios,
em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos
gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em
perigos entre os falsos irmãos. Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas
vezes, em fome e sede, em jejum, muitas vezes, em frio e nudez (2 Co 11.2427).
Esta Carta aos Coríntios foi uma mescla de louvor e condenação -louvor aos
fiéis e condenação aos rebeldes.
Paulo, Missionário em Terras Estrangeiras
Tito ofereceu-se para voltar com a carta. Lucas, o médico amado,
acompanhou-o na viagem. Mas Paulo permaneceu em Filipos, fazendo dessa cidade o
centro de suas viagens por toda a província. Aonde quer que fosse, exortava os
cristãos a uma vida diferente dos moldes do mundo. Viajou pelas montanhas, a
oeste de Filipos, pregando o Evangelho em aldeias e cidades onde CRISTO nunca
havia sido proclamado. Paulo havia dito que nunca desejara construir sobre os
alicerces lançados por outro; portanto, procurou visitar os lugares onde o
Evangelho era desconhecido. Ele foi verdadeiramente um missionário em terras
estrangeiras; fazia um trabalho pioneiro e, aonde quer que fosse, o Senhor o
acompanhava, operando sinais e prodígios, e atraindo a si tanto gregos como
judeus.
Indo de cidade em cidade, Paulo percebeu a terrível condição das pessoas
afastadas de DEUS. Embora habitassem em lindas cidades, com templos cuja glória
maravilhava o mundo, viviam nas trevas. Desde essa época, Paulo já pensava em
visitar Roma; planejava pregar o Evangelho no coração do Império Romano e,
talvez, prosseguir até a Espanha. Depois de algumas semanas na Macedônia, ele
foi para o sul, à Acaia. Queria verificar pessoalmente o estado da igreja de
Corinto. Essa igreja precisava novamente dele, e além disso, como Corinto fosse
a capital da Acaia, poderia fazer dela a sua base para pregar nas cidades
vizinhas. Permaneceu ali três meses trabalhando com Tito, que se apegara aos
cristãos coríntios e vinha demonstrando ser um ministro verdadeiramente sábio,
capaz de lidar com situações difíceis.
Durante esse período, Paulo encontrou tempo para visitar todos os crentes e
conversar pessoalmente com eles, fortalecendo-os na fé e advertindo-os contra
os falsos mestres. Assim, passou-se o inverno.
A Epístola aos romanos
Paulo escreveu a carta à igreja de Roma exatamente durante esse inverno.
Ele nunca visitara os crentes romanos, mas o desejo de fazê-lo crescia-lhe na
alma. Roma era a maior cidade do mundo, e pregar a mensagem da salvação aos
seus habitantes seria de fato um privilégio. Ele também já tinha vários amigos
ali, pois a essa altura, crentes de todas as cidades que visitara haviam se
estabelecido em Roma.
Paulo já era cristão há mais de 24 anos. Durante esse tempo, passara por muitas
experiências e grandes decepções. Sua mente, porém, abrira-se para JESUS como
uma flor se abre ao sol. Amadurecera na vida cristã, e o Evangelho de CRISTO
era-lhe, mais que nunca, uma preciosa realidade.
Em sua carta, Paulo decidiu proclamar o Evangelho em sua plenitude. Suas
palavras, ditadas a Tércio, visavam convencer os romanos de que todos, gentios
ou judeus, precisavam da salvação provida por DEUS em seu Único Filho. DEUS a
oferecia como um dom; bastava ao homem recebê-la de graça. Homem algum pode,
por esforço próprio, ser reto e aceitável a DEUS.
"Não há um justo, nem um sequer" (Rm 3.10).
Nem mesmo guardando a Lei o indivíduo pode ser justo. A Lei foi dada para
provar que o mundo todo é culpado diante de DEUS. Pelas obras da Lei ninguém
pode ser justificado (Rm 3.20). A retidão de DEUS é revelada em JESUS CRISTO, e
pela Sua graça todos podem crer. Somos justificados pela fé no que DEUS fez por
nós, e não pelas boas obras que possamos fazer (Rm 3.28).
A maior carta de Paulo continuou sendo escrita dia a dia, estabelecendo as
verdades fundamentais da fé cristã. Assim, quando os falsos mestres chegassem a
Roma - o que sem dúvida aconteceria - os crentes de lá estariam fortalecidos.
Paulo preocupava-se com os romanos, embora nunca os tivesse visto pessoalmente.
Dos altos cumes das doutrinas superiores, Paulo desceu às campinas da vida
prática e rotineira, e conversou com eles sobre o viver diário, o pagamento de
impostos e seu relacionamento com as autoridades. Terminou a carta com
saudações pessoais a vários homens e mulheres em Roma, a quem citou pelo nome.
Depois de colocado o selo, o rolo foi embrulhado numa proteção de pano e
entregue a Febe, uma mulher de Cencréia, porto de Corinto, que viajava a Roma
para negócios.
A Decisão de Paulo de Voltar para Casa
Passados três meses, Paulo resolveu embarcar para a Síria. Seus inimigos
não ousaram perturbá-lo enquanto se achava em Corinto, mas ao tomarem
conhecimento da sua ida a Cencréia, conspiraram para matá-lo. Longe da igreja
onde os amigos o defendiam, certamente conseguiriam seu intento. O plano
ardiloso, porém, falhou. Um amigo inteirado do segredo avisou imediatamente a
Paulo, que mudou o itinerário. Enquanto os inimigos vigiavam a estrada
litorânea, ele seguiu por terra para a Macedônia.
Quando Paulo chegou a Filipos, Lucas juntou-se ele. O médico permaneceria na
companhia do apóstolo até o dia da sua morte, participando de todas as suas
aventuras e registrando cada uma delas no livro de Atos.
Sete homens, escolhidos em diferentes cidades, propuseram-se a acompanhar Paulo
na sua viagem de volta a casa. Cada um levava uma oferta especial, que lhes
fora confiada pelas diversas igrejas, e destinada aos irmãos carentes de
Jerusalém. O próprio Paulo levava a oferta de Corinto. Esses sete homens foram
enviados na frente, de navio, para Trôade, enquanto Paulo e Lucas permaneceram
em Filipos para a Festa dos Pães Asmos. Essa festa era a mais importante para
Paulo e para todo cristão, pois marcava o dia em que o Salvador ressuscitara
dentre os mortos.
Cinco dias mais tarde, eles chegaram a Trôade e reuniram-se aos sete homens que
os esperavam. Esses irmãos não haviam ficado ociosos. Tinham procurado todos os
cristãos da cidade e lhes contado que o grande apóstolo estava vindo
visitá-los.
Na chegada de Paulo, os crentes reuniram-se para celebrar a Ceia do Senhor e
ouvir a doutrina cristã. O coração de Paulo pulava de alegria quando
levantou-se para falar. Veio-lhe à mente a noite em que recebera, naquela
cidade, a visão da Macedônia, e como, em sua pressa de partir, ofendera os
irmãos; mais recentemente, em sua ânsia e temor pelos coríntios, tornara a
partir às pressas, apesar das súplicas da igreja para que ficasse.
O SERMÃO EM TRÔADE
Paulo fez novos planos, devendo viajar no barco que partiria no dia
seguinte. Como dizer tudo o que pretendia àquelas pessoas tão queridas, numa só
noite? Ele as exortou durante muitas horas, pregando com a alma; respondeu-lhes
as perguntas e fortaleceu-as na fé. O ambiente, no terceiro andar, estava
superlotado e aquecido pelas muitas lâmpadas acesas. Pretendendo enxergar
melhor por cima da multidão, um jovem chamado Êutico subiu numa janela e
sentou-se ali. Paulo continuava pregando. De repente, um grito aterrador
seguido de um ruído surdo interrompeu abruptamente o sermão. Êutico adormecera
e, perdendo o equilíbrio, despencara lá de cima.
A confusão reinou no aposento; ao olharem pela janela, as pessoas viram o corpo
sem vida caído na rua. Todos correram para lá. Lucas, o médico, foi sem dúvida
o primeiro a chegar. Talvez tenha olhado para a forma imóvel e encolhido os
ombros, como se dissesse: "Não adianta, está morto".
Paulo abriu caminho entre o povo. Como o profeta Elias, estendeu seu corpo
sobre o do jovem e abraçou-o, orando a DEUS para que tudo acabasse bem. A
seguir, levantando-se, disse aos espectadores abalados: "Não vos
perturbeis, que a sua alma nele está" (At 20.10).
Enquanto observavam, a cor voltou às faces pálidas de Êutico. Paulo entregou-o
aos seus entes queridos, e subiu novamente ao cenáculo, onde os fieis, cheios
de gratidão, reuniram- se para ouvir mais.
Quando o alvor da manhã banhou a grande planície a leste de Trôade, Paulo ainda
pregava. E os crentes ouviam! Essa era a sua grande oportunidade e eles não
perderam uma só palavra. Mas, com a chegada do dia, os homens tinham de voltar
ao trabalho; e Lucas e os sete cristãos fiéis precisavam chegar cedo ao navio.
A Viagem a Jerusalém
Paulo, entretanto, planejava seguir a pé para Assôs, distante cerca de 32
quilômetros, e tomar ali o mesmo navio. Ele precisava desse passeio para ficar
a sós com os seus pensamentos e tomar algumas decisões. Não se sentia muito
feliz com seu retorno a Jerusalém. Seu espírito não se sentia livre a respeito;
havia premonições de problemas. Paulo nunca se sentiu bem- vindo em Jerusalém,
nem mesmo na igreja cristã. Seu trabalho era definitivamente entre os gentios.
Portanto, seu espírito achava-se turbado. Mas não era covarde, e se tivesse de
ser preso em Jerusalém, essa não seria a sua primeira prisão. O Senhor não
estivera com ele na cadeia? Decidiu então, naquela caminhada solitária, que
voltaria sem se importar com o que o aguardasse. Seus amigos nas igrejas que
deixara talvez estivessem enganados quando o aconselharam a afastar-se de
Jerusalém. Mas o aviso fora tão insistentemente repetido que não podia deixar
de preocupa-lo. Ele ficou imaginando se estava, quem sabe, negligenciando a voz
do ESPÍRITO de DEUS.
Em Assôs tomou o navio que, depois de carregado, rumou para a ilha de Lesbos,
impelido pelo vento norte.
Navegaram todo o dia seguinte entre as ilhas do mar Egeu, passando Dor Quios e,
mais tarde, pela grande baía onde fora construída a cidade de Éfeso. O
comandante do navio não tinha de aportar em Éfeso, mas o teria feito se Paulo
lho pedisse. Este, no entanto, estava ansioso por chegar a Jerusalém a tempo
para a Festa de Pentecostes, e insistiu com o comandante que não se detivesse
na cidade.
Pregando aos Amados Efésios
Em Mileto, a cerca de quarenta quilômetros ao sul de Éfeso, o navio ficou
mais tempo ancorado. Descarregaram ali diversas mercadorias e receberam novas
cargas para o restante da viagem. Paulo enviou uma mensagem aos seus amigos de
Éfeso, contando que estava em Mileto e queria vê-los. A sensação de que esse
seria seu último encontro com eles cresceu-lhe no íntimo. Não tinha sido
avisado de que algemas o esperavam em Jerusalém? Pois então era melhor
aproveitar cada oportunidade.
Os cristãos foram-lhe imediatamente ao encontro, especialmente os presbíteros
da igreja, pois lembravam-se dos três anos que Paulo passara com eles, e
amavam-no mais que a todos os outros. O encontro foi alegre, mas tenso; todos
sentiam que era uma despedida final. As últimas palavras são sempre cheias de
solenidade e importância, e Paulo conversou como alguém que amadurecera na fé.
Insistiu para que se mantivessem firmes e se fortalecessem, não importando o
que lhes sobreviesse no futuro.
Com grande eloquência, recapitulou seus três anos com eles, lembrando os dias
de sol e de sombras:
E agora, na verdade, sei que todos vós, por quem passei pregando o reino de
DEUS, não vereis mais o meu rosto. Portanto, no dia de hoje, vos protesto que
estou limpo do sangue de todos. Porque nunca deixei de vos anunciar todo o
conselho de DEUS. Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o
ESPÍRITO SANTO vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de DEUS, que
ele resgatou com seu próprio sangue. Porque eu sei isto: que, depois de minha
partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não perdoarão o rebanho. E
que dentre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para
atraírem os discípulos após si. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante
três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós.
Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a DEUS e à palavra da sua graça; a Ele que é
poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados (At
20.25-32).
Sua voz interrompeu-se e sua cabeça grisalha pendeu. O silêncio era total.
Ninguém sentiu vontade de abrir a boca e parecia que a única coisa a fazer era
orar. Paulo mencionou cada presbítero pelo nome, pedindo que o Salvador o
mantivesse leal, sincero e forte no dia da tentação. Quando se levantaram,
todos tinham lágrimas nos olhos. Eles estavam vendo, pela última vez, o grande
guerreiro que os guiara bravamente na batalha. Como a mãe-pássaro desfaz o
ninho, Paulo estava agora entregando-lhes toda a responsabilidade, deixando-os
por conta própria. Com os corações entristecidos, eles o acompanharam até o
navio e observaram até que o barco desaparecesse de vista.
A Visita a Tiro
Dois dias mais tarde, depois de costear a ilha de Cós e aportar em Rodes,
os nove viajantes foram até Pátara na Lícia. Aquele era o último porto em que o
navio ancoraria. Porém tiveram sorte, e logo encontraram outra embarcação de
partida para a Síria. Com um vento favorável, encaminharam-se para o alto mar,
em direção à grande cidade de Tiro. Essa era uma cidade gentia, e como sempre
houvesse um local onde os cristãos se reunissem, Paulo e seus amigos procuraram
por ele. Durante sete dias estiveram com os irmãos de Tiro, pregando o reino de
DEUS e encorajando-os com as histórias do que DEUS fizera em cidades distantes.
Foi ali que Paulo recebeu um aviso de certos discípulos de que o perigo o
aguardava em Jerusalém. Isso confirmou-lhe os sentimentos, mas não lhe abalou o
propósito. Muitas eram as razões que o levavam a Jerusalém. Tinha um grande
relatório para apresentar aos discípulos sobre a divulgação do Evangelho. Além
disso, levava dinheiro para os santos da cidade, o presente da igreja de
Corinto, e queria entregá-lo pessoalmente.
Quando a semana passou e o navio já estava prestes a partir, Paulo e seus
amigos suspiraram aliviados por terem chegado à última etapa da viagem. Em
Ptolemaida, deixaram o navio que prosseguiu em sua rota. Como ainda faltassem
quatorze dias para a grande festa em Jerusalém, passaram um dia com os cristãos
nesse porto.
A Profecia de Ágabo
Depois de saudarem os irmãos, eles seguiram para Cesaréia pela estrada
costeira. Paulo visitara frequentemente o lugar, por isso sentia-se em casa. O
evangelista Filipe morava ali, e Paulo estava certo de que seriam bem
recebidos.
Durante a sua estada com Filipe, o profeta Ágabo - o mesmo que previra a grande
fome nos dias do imperador Cláudio - chegou da Judéia. Ágabo conhecia a família
de Filipe. As quatro filhas do evangelista eram conhecidas por terem o dom da
profecia, e ele foi procurá-los.
Ao chegar à casa em que Paulo se hospedava, Ágabo reconheceu o apóstolo e,
conhecedor do sentimento que havia em Jerusalém contra ele, aconselhou-o a não
ir para lá. Como faziam os profetas do Antigo Testamento, Ágabo ilustrou sua
advertência: tomando o cinto de Paulo, abaixou-se e amarrou com ele os próprios
pés e mãos. Enquanto os presentes o observavam em silêncio, ele profetizou: "Isto
diz o Espirito SANTO: Assim ligarão os judeus em Jerusalém, o varão de quem é
essa cinta e o entregarão nas mãos dos gentios" (At 21.11).
O grupo inteiro, inclusive Timóteo e Lucas, rogou a Paulo que desistisse dos
planos de ir a Jerusalém. Com lágrimas nos olhos, suplicaram; mas suas palavras
eram como ondas batendo num penhasco. Paulo estava decidido. As palavras dos
amigos o entristeceram; seus protestos eram bem-intencionados e pretendiam
poupá-lo de danos físicos, mas não era isso o que ele temia. Já enfrentara tais
coisas antes, e o Senhor o livrara. Disse-lhes então: "Que fazeis vós,
chorando e magoando-me o coração? Porque estou pronto não só a ser ligado, mas
ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor JESUS" (21.13).
Em face de tal determinação, eles aquiesceram: "Faça-se a vontade do
Senhor!" (21.14).
Embora soubesse dos perigos que o aguardavam, Paulo reuniu seus pertences e
seguiu para Jerusalém. Vários cristãos de Cesaréia acompanharam-no; entre eles,
Mnasom, um dos primeiros convertidos. Mnasom tinha uma casa em Jerusalém, e
Paulo poderia hospedar-se nela, ficando a salvo do perigo.
A ULTIMA VISITA
A JERUSALÉM
Jerusalém preparava-se para o Dia de Pentecostes; já estava cheia de judeus
provenientes de todo o império. Paulo e seus amigos abrigaram-se na casa de
Mnasom. Era uma residência senhorial, rodeada por um muro alto, e os cristãos
que gozavam da hospitalidade do seu proprietário tinham todo conforto.
Na casa de Maria, Paulo encontrou alguns dos líderes da igreja. Tiago, o irmão
de JESUS, era um deles. Ele havia envelhecido e seu cabelo branco e
encaracolado chegava-lhe aos ombros, à moda nazarena. Paulo saudou a igreja, e
contou-lhe a história da sua terceira viagem. Ele atravessara os Portões da
Cilícia para a Galácia, e depois de visitar todas as igrejas dali, fora para
Éfeso, onde permanecera três anos. Viajara depois para a Europa e pregara aos
santos de Filipos, testemunhando de CRISTO nas regiões interioranas do Ilírico.
Chegara finalmente a Corinto, e iniciara uma campanha que o levou a muitas
outras cidades da Grécia. A história de quatro anos de trabalho foi apresentada
em rápidas pinceladas.
Os crentes de Jerusalém ficaram também conhecendo a igreja rebelde de Corinto,
e como esta se arrependera e afastara-se do mal. A seguir, como se para
confirmar suas palavras, Paulo apresentou um saco pesado de dinheiro, dizendo
ser uma contribuição dos coríntios à igreja-mãe. Aquela oferta era um socorro
aos irmãos reduzidos à pobreza por causa da fé em CRISTO.
Presentes à Igreja-mãe
Quando Paulo entregou o presente, seus companheiros de viagem que tinham
vindo com o mesmo propósito também entregaram os seus. Lucas, de Filipos;
Timóteo, de Listra; Sópatro, de Beréia; Aristarco e Segundo, de Tessalônica;
Gaio, de Derbe; Tíquico e Trófimo, de Éfeso - todos eles cristãos de cidades
distantes e frutos do ministério de Paulo - trouxeram sacolas pesadas de
dinheiro e entregaram-nas aos irmãos, para que socorressem os santos da Judéia.
O relatório de Paulo foi grandioso. Contudo, enquanto dava as informações, pôde
sentir a estreiteza mental dos crentes de Jerusalém. É claro que todos louvaram
a DEUS pelo maravilhoso crescimento do reino e por todo gentio que se juntara a
eles. No entanto, Paulo sentia que nem todos eram como os crentes de Antioquia.
Até mesmo a gloriosa história de heroísmo que contara foi recebida com certa
desconfiança.
Como líder do grupo, Tiago levantou-se para receber os presentes e agradecer
por eles. Tiago sempre fora um tanto formal, e Paulo e seus amigos notaram isso
naquele momento. Paulo percebeu também que os presbíteros de Jerusalém haviam
discutido sobre ele, e não estavam ainda convencidos de que sua posição fora
determinada por DEUS. Histórias sobre a pregação de Paulo haviam chegado a
Jerusalém, e os presbíteros estavam contrafeitos com o que ouviram. Quando
Paulo falou-lhes do trabalho entre os gentios, dizendo que diante de DEUS não
havia diferença, e que o gentio cristão fazia parte da Igreja da mesma forma
que o judeu cristão, as suspeitas deles foram confirmadas.
O sentimento do grupo aflorou quando Tiago, o porta-voz, expôs:
Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus há que crêem, e todos são zeladores
da lei. E já acerca de ti foram informados que ensinas todos os judeus que
estão entre os gentios a apartarem-se de Moisés, dizendo que não devem
circuncidar os filhos, nem andar segundo o costume da lei. Que faremos pois? em
todo o caso é necessário que a multidão se ajunte; porque terão ouvido que já
és vindo. Faze, pois, isto que te dizemos:
Temos quatro varões que fizeram voto. Toma estes contigo, e santifica-te com
eles, e faze por eles os gastos para que rapem a cabeça, e todos ficarão
sabendo que nada há daquilo de que foram informados acerca de ti, mas que
também tu mesmo andas guardando a lei (At 21.20-24).
Paulo ouviu o conselho e o analisou. Como ansiasse por unir os partidos
contrários, dispôs-se a ceder nos detalhes de pouca importância. Costumava
explicar que estava preparado para ser tudo para com todos os homens, a fim de
ganhar alguns. Essa era a sua oportunidade de promover a paz. Se aquilo era
importante para o seu testemunho entre os judeus, ele podia atender ao pedido
sem qualquer dano pessoal.
O apóstolo aceitou a sugestão na esperança de conseguir que houvesse paz entre
os dois partidos. Levando os quatro homens ao Templo, anunciou que estavam
prestes a começar os sete dias de purificação, e pagou, para cada um, dois
carneiros, uma ovelha, um cesto de bolos sem fermento e uma medida de vinho.
Rebelião no Templo
Um grupo de judeus da Ásia Menor reuniu-se no Templo para ouvir um rabino
discursando sobre a Lei. De repente, um deles puxou a roupa do amigo, e
perguntou: Aquele não é Paulo, o líder cristão? O que faz ele no Templo?
O pequeno grupo virou-se rapidamente para identificar o homem a quem se haviam
oposto tão amargamente quando pregara CRISTO na sua sinagoga. Lembravam-se
muito bem de que a pregação dele havia perturbado a sinagoga e dividido as
famílias judias. Ele falara contra a adoração nacional e os costumes judaicos.
Sim, esse era o mesmo homem que haviam expulso da cidade, e aqui estava ele de
volta ao Templo.
Alguém lembrou-se de tê-lo visto antes com Trófimo, o efésio, e em breve todos
o culpavam de haver profanado o santuário, ao introduzir nele um gentio.
Correndo em direção a Paulo, gritaram:
Israelitas, acudi! Esse é o homem que por todas as partes ensina a todos,
contra o povo e contra a lei, e contra esse lugar; e demais disto, introduziu
também no templo os gregos, e profanou esse santo lugar (At 21.28).
Já agora, havia gente afluindo de todas as direções. A multidão ajuntou-se e os
boatos corriam livremente. Fora dos muros do Templo, espalharam-se as notícias
de que um traidor de Israel havia sido apanhado e seria morto. As ruas ficaram
cheias de pessoas que corriam ao Templo, querendo presenciar os acontecimentos.
No Templo, a plebe amotinada agarrara a Paulo e, batendo nele com varas e
socos, arrastara-o para a rua, onde preparava-se para matá-lo.
O socorro, porém, estava próximo. As tropas romanas que vigiavam a cidade
durante as festas religiosas logo notaram a comoção diante do Templo. O
comandante Lísias não perdeu tempo. Com uma companhia de soldados, apressou-se
para o lugar onde o povo espancava a Paulo. Com a chegada dos soldados romanos,
a multidão afastou-se.
A Defesa de Paulo
Ao ver que Paulo era o centro de toda a confusão, o comandante romano supôs
que fosse um criminoso e ordenou que o acorrentassem. A seguir, perguntou à
multidão-. "Quem é esse homem e que mal ele fez?"
Um rugido brotou da garganta de milhares de judeus, e na confusão Lísia nada
conseguia entender. Ele detestava aqueles judeus rebeldes e suas escaramuças
religiosas. Pareciam ser o único povo conquistado do império que precisava
ficar sob constante observação, pois em cada festa religiosa colocavam em risco
a paz romana. Agora, em meio à confusão daquela cena, cada um gritava uma
coisa.
Não conseguindo entender aqueles gritos selvagens, Lísias fez um gesto
impaciente, dando um sinal aos seus homens. Imediatamente eles cercaram a Paulo
e recolheram-no à fortaleza. O povo mostrou-se desafiador; os gritos e caçoadas
aumentaram. Os amotinados aproximaram-se tanto do prisioneiro que os soldados
tiveram de levantá-lo e literalmente carregá-lo. Pelas vozes e atitude do povo,
Lísias julgou ter capturado o agitador egípcio que, dias antes, havia reunido
uma multidão no Monte das Oliveiras e ameaçado derrubar os muros de Jerusalém.
Ao chegarem aos degraus, tendo deixado a multidão enfurecida lá embaixo, Paulo
voltou-se respeitosamente ao seu captor e indagou em grego: "É-me
permitido dizer-te alguma coisa?" (At 21.37).
Lísias ficou espantado ao ver o cativo "egípcio" dirigir-se a ele no
idioma grego.
Paulo explicou: "Na verdade que sou um homem judeu, cidadão de Tarso,
cidade não pouco célebre na Cilícia; rogo-te, porém, que me permitas falar ao
povo" (At 21.39).
Lísias ficou impressionado ao ver a calma de Paulo diante do perigo e, com
evidente admiração, permitiu que falasse. Enquanto os soldados guardavam os
degraus, Paulo levantou a mão à multidão zangada, como sinal de que queria
dirigir-lhe a palavra. Sua coragem fez com que se dispusessem a ouvi-lo. Na sua
própria língua, Paulo começou o discurso.
Abaixo dele havia um mar de rostos fechados. Aqui, um fariseu com seu manto
branco; ali, um rabino em trajes talares; e por toda parte, olhos ardendo de
ódio.
Suas palavras foram diferentes das usuais, pois aquela gente não estava
disposta a ouvir sermões.
Varões, irmãos e pais, ouvi agora a minha defesa perante vós (At 22.1).
O povo vibrou. Aquela era a sua amada língua hebraica.
Quanto a mim, sou varão judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta
cidade aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais,
zeloso de DEUS, como todos vós hoje sois (At 22.3).
Paulo aprendera que, como orador, devia prender a atenção da plateia
dizendo-lhe as coisas que esta gostava de ouvir.
Persegui este Caminho até à morte, prendendo e metendo em prisões, tanto homens
como mulheres. Como também o sumo sacerdote me é testemunha, e todo o conselho
dos anciãos; e, recebendo destes cartas para os irmãos, fui a Damasco, para
trazer manietados para Jerusalém aqueles que ali estivessem, a fim de que
fossem castigados (At 22.4,5).
A seguir, contou-lhes a respeito da luz que brilhara sobre ele ao entrar na
cidade de Damasco, e da voz e aparição do Senhor. Falou igualmente de Ananias,
da recuperação da sua vista e da comissão divina para ir e pregar CRISTO ao
mundo. Devido à sua súbita transformação de perseguidor em discípulo, os judeus
de Jerusalém haviam se recusado a ouvi-lo. Certo dia, enquanto estava no
Templo, caíra em transe. Ouvira a voz do Senhor, ordenando que deixasse
Jerusalém e fosse pregar aos gentios.
A multidão ouviu em silêncio até esse ponto, mas quando o nome gen-tio - termo
tão odiado - foi dito, sentiu-se ferida em seu orgulho religioso. Cheios de
raiva, recomeçaram a gritar. O ruído transformou-se subitamente num clamor
enfurecido: "Tira da terra um tal homem, porque não convém que viva"
(At 22.22).
Despindo-se, lançaram pó ao ar. Era a expressão evidente do seu desagrado,
pedindo a morte de Paulo.
Lísias não pôde entender a defesa de Paulo, porque não conhecia o idioma
hebraico. Ao ver que o povo redobrava a fúria, mandou que o apóstolo fosse
recolhido à segurança da fortaleza. Depois ordenou aos soldados que o
açoitassem e obtivessem a verdade mediante tortura. Quando estavam atando Paulo
com as correias, este perguntou ao oficial encarregado: "É-vos lícito
açoitar um romano, sem ser condenado?" (At 22.25).
Surpreso com a pergunta, o oficial ordenou aos soldados que interrompessem o
castigo, e foi procurar Lísias. Repetindo as palavras de Paulo ao comandante,
aconselhou-o: "Vê o que vais fazer, porque esse homem é romano" (At
22.26).
Lísias foi com o homem até ó poste, aonde Paulo estava acorrentado e com as
costas nuas. "Dize-me, és tu romano?" (At 22.27).
Quando Paulo afirmou que sim, Lísias mandou que o desamarrassem. Ele quase
cometera um grande erro.
Voltou-se então a Paulo e disse: "Eu, com grande soma de dinheiro alcancei
o direito de cidadão".
Ao que Paulo replicou: "Mas eu sou-o de nascimento" (At 22.28).
Os soldados receberam ordens para devolver as roupas de Paulo e ajudá-lo a
vestir-se. O apóstolo foi então levado a uma cela de pedra, da qual esperava
ser libertado no dia seguinte. Mas, ele passara pela porta de uma prisão
romana, e em certo sentido, jamais seria verdadeiramente livre outra vez.
Paulo Diante do Sinédrio
Em vez de solto, Paulo foi levado por uma tropa de soldados ao grande salão
do Templo. Suas correntes haviam sido removidas e ele encontrou-se face a face
com o Sinédrio. O grupo imponente fora convocado por Lísias; ele queria ouvir
as acusações dos judeus para chegar a uma decisão sobre o prisioneiro. Ao
entrar no pátio exterior do Templo, Paulo sentou- se entre os guardas, no mesmo
salão onde ele próprio estivera tantas vezes como acusador, opinando contra os
discípulos de JESUS.
Examinando os homens do conselho, Paulo sabia que alguns deles haviam estado
presentes, um quarto de século antes, num falso julgamento, quando JESUS
encontrava-se naquele mesmo lugar.
Da última vez em que Paulo estivera naquele grupo do conselho, seu coração
ardia de ódio. Ele costumava assistir a todas as reuniões do Sinédrio e votar
contra os cristãos. Mas agora, era diferente. Seu coração estava cheio da paz
de DEUS, e seu desejo era falar de um modo que testemunhasse eficazmente de seu
Salvador.
Lísias deu-lhe permissão. Com a habilidade de um grande orador, Paulo começou
seu discurso.
Varões irmãos, até ao dia de hoje tenho andado diante de DEUS com toda a boa
consciência (At 23.1).
Os membros do Sinédrio tinham certeza de que isso era mentira. Consideravam-no
um traidor da sua causa e aquela declaração os espantou. Ananias, o sumo
sacerdote, exaltou-se: "Guardas, batam-lhe na boca!"
Paulo ficou irado com essa ordem maldosa e, voltando os olhos míopes ao sumo
sacerdote, replicou:
"DEUS te ferirá, parede branqueada; tu estás aqui assentado para julgar-me
conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir?" (At 23.3).
Muitas vozes elevaram-se e alguém gritou: "Injurias o sumo sacerdote de
DEUS?" (At 23.4).
Houve, imediatamente, uma acusação formal contra Paulo. Este compreendeu que
cometera um erro e desculpou-se na mesma hora: "Não sabia, irmãos, que era
o sumo sacerdote; porque está escrito: Não dirás mal do príncipe do teu
povo" (At 23.5).
Paulo continuou seu discurso e, sabendo que o conselho era formado por fariseus
e saduceus, gritou: "Varões irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseu! No
tocante à esperança e ressurreição dos mortos sou julgado!" (At 23.6).
Tinha certeza de que essas palavras dividiriam o Sinédrio. Desde que os
fariseus criam na ressurreição dos mortos, e os saduceus a negavam, surgiu uma
grande controvérsia no conselho. De pé, com o dedo em riste, homens de ambos os
partidos trocavam palavras contundentes. Por fim, os fariseus lembraram-se da
recomendação de Gamaliel, de que se um espírito ou anjo falara realmente a
Paulo, eles não estavam em posição de lutar contra DEUS.
Portanto, esquecendo suas reclamações contra o apóstolo, admitiram:
"Nenhum mal achamos nesse homem" (At 23.9).
Os saduceus, porém, não aceitaram essa decisão e o tumulto aumentou.
Desgostoso, Lísias observava-os. Que cena típica das contendas religiosas
judias! Gritos e maldições eram atirados de um partido contra o outro, enquanto
cada um reivindicava o direito de decisão a respeito de Paulo. Alguns tentaram
pôr as mãos sobre o apóstolo e arrastá-lo à morte, mas os soldados armados, a
uma ordem do comandante, rodearam Paulo e livraram-no de ser feito em pedaços.
Lísias ordenou rapidamente que os guardas reconduzissem o apóstolo à fortaleza.
A Visão Noturna de Paulo
Naquela noite, deitado na cama de palha, Paulo tentava dormir, mas estava
apreensivo e inquieto. Na sua agonia, viu o Senhor de pé ao seu lado,
encorajando-o: "Tem ânimo; porque, como de mim testificaste em Jerusalém,
assim importa que testifiques também em Roma" (At 23.11).
O espírito de Paulo reanimou-se; ele sentiu-se confortado. Não sabia como esta
promessa se cumpriria, mas bastava que DEUS o soubesse. Paulo ficou feliz. O
anseio do seu coração seria respondido. DEUS não terminara ainda seu propósito
com ele.
Antes que findasse o dia seguinte, um jovem entrou na fortaleza pedindo para
ver o prisioneiro. Afirmou ser um parente, e deixaram-no entrar. Ao vê-lo,
Paulo reconheceu o filho de sua irmã. Na juventude de Paulo, em Tarso, sua irmã
casara-se com um habitante de Jerusalém e fora viver nessa cidade, criando uma
família leal à sinagoga.
O Aviso
- Tio Paulo - segredou o rapaz -, vim avisar o senhor de que há uma
conspiração entre os judeus para matá-lo. Mais de quarenta deles fizeram um
juramento de que não vão comer nem beber até que o liquidem. Amanhã, os
principais sacerdotes vão pedir a Lísias que o leve novamente diante do
Sinédrio, alegando que querem lhe fazer certas perguntas. Mas o grupo de
quarenta ficará à espreita e, no momento em que os guardas o entregarem às
autoridades do Templo, eles o atacarão e o matarão.
Paulo estava acorrentado ao guarda, mas pediu ao centurião que levasse seu
sobrinho até Lísias e o avisasse da conspiração. O comandante ouviu cada
palavra e fez o jovem prometer que manteria sigilo sobre o assunto.
Lísias compreendeu, porém, que a única maneira de manter a paz era fazendo
Paulo sair de Jerusalém. Um plano formava-se em sua mente. Ele enviaria o
prisioneiro a Félix, o governador de Cesaréia. Esta cidade era a capital romana
da Judéia, e o perigo de rebelião seria menor numa cidade distante, com uma
guarnição romana maior. Depois de fazer planos para escapulir com Paulo naquela
mesma noite, ele sorriu ao pensar no desgosto dos judeus, quando descobrissem
que o preso se fora. Riu também quando lembrou que os quarenta teriam de
quebrar a promessa de jejum ou morrer de fome.
Naquela noite, uma escolta de duzentos soldados, sob o comando de dois
centuriões, juntamente com setenta cavaleiros e duzentos lanceiros, dirigiu-se
para Cesaréia com o prisioneiro. O grupo era grande porque Lísias temia um
levante dos judeus. Além disso, a guarnição de Jerusalém fora aumentada durante
a Festa do Pentecostes, mas agora que essa terminara e os peregrinos já haviam
retomado às suas casas, muitos dos soldados iam ser deslocados aos seus postos
anteriores.
Em Antipatris, os soldados de infantaria deixaram Paulo aos cuidados dos
cavalarianos, certos de que não havia mais perigo por parte dos judeus.
Lísias enviara uma carta a Félix, descrevendo o caso de Paulo e concluindo:
"Nada encontrei contra o prisioneiro que mereça morte ou prisão, mas estou
dizendo aos acusadores que façam suas acusações diante do seu tribunal".
A carta dava a impressão de que Lísias salvara a Paulo dos judeus por ser ele
romano.
Quando Félix a leu, notou que Paulo era cidadão romano e indagou qual a sua
província. Quando soube que era da Cilícia, ordenou que fosse mantido em
segurança e que o julgamento ocorresse depois que seus acusadores chegassem a
Jerusalém.
Paulo, no entanto, caíra nas mãos de um homem fraco, que tinha por hábito adiar
as coisas, e que para proteger sua autoridade, era inescrupuloso e injusto. Nos
dois anos seguintes, a vida de Paulo passou-se dentro dos muros da prisão de
Cesaréia. A situação era desanimadora; em todo caso, ele tinha a promessa de
DEUS de que pregaria o Evangelho em Roma.
Antônio Félix fora nomeado para o governo pelo imperador Cláudio, em 52 A.D.
Ele casara-se com uma judia, Drusila, filha de Agripa, depois de fazê-la
abandonar o marido. O pecado tornou-o infeliz, apesar da sua elevada posição.
Antes, fora escravo; depois de solto, recebeu um alto cargo, para o qual não
estava capacitado. Seu governo destacava-se por atos de vingança e crueldade, e
pela corrupção evidente, aceitando e pagando subornos. Os súditos o odiavam, e
seu único remédio para as desordens na Judéia era a força bruta.
O Julgamento perante Félix
Cinco dias após a chegada de Paulo a Cesaréia, o sumo sacerdote Ananias e
os anciãos de Jerusalém compareceram para acusá-lo. Como não conhecessem a lei
romana, levaram em sua companhia um advogado astuto de nome Tértulo. Dessa vez,
não iriam perder! De pé, diante do tribunal de Félix, o orador começou seu
discurso elogiando o governador e criticando o comandante Lísias:
Visto como, por ti, temos tanta paz, e, por tua prudência, se fazem a este povo
muitos e louváveis serviços, sempre e em todo lugar, ó potentíssimo Félix, com
todo o agradecimento o queremos reconhecer. Mas, para que te não detenha muito,
rogo-te que, conforme a tua equidade, nos ouças por pouco tempo (At 24.2-4).
A seguir, apontando o dedo comprido ao apóstolo sentado à frente da tribuna,
sob a guarda de um soldado, continuou:
Temos achado que esse homem é uma peste e promotor de sedições entre todos os
judeus, por todo o mundo, e o principal defensor da seita dos nazarenos. O qual
intentou também profanar o templo; e por isso o prendemos...examinando-o,
poderás entender tudo o de que o acusamos (At 2.5-8).
Virando-se aos seus empregadores com um voltear eloquente da mão, Tértulo
perguntou-lhes se os fatos não eram exatamente aqueles. Enquanto Félix
observava-lhes a fisionomia, todos concordaram com a cabeça.
As acusações eram graves, especialmente a de incitar motins entre os judeus. Se
havia algo que os romanos vigiavam, era o traidor que perturbava a paz de Roma.
Enquanto ouvia o discurso, Paulo notou os pontos fracos que ele continha e,
quando teve permissão para defender- se, rapidamente os apontou.
A Defesa de Paulo
No momento em que Paulo pôs-se de pé diante do tribunal, Félix inclinou-se
para escutá-lo atentamente. Ele ouvira falar dos nazarenos e do seu zelo, e
desde que sua esposa era judia, tinha algum interesse em saber mais a respeito
desse JESUS, que, segundo diziam, levantara-se dentre os mortos.
Tértulo era um bom orador, mas Paulo ouvira os homens de Atenas e DEUS lhe dera
um dom de oratória, que superava o de qualquer de seus contemporâneos. Quando
chegou a sua vez de falar ao nobre Félix, começou:
Porque sei que já vai para muitos anos que desta nação és juiz, com tanto
melhor ânimo respondo por mim (At 24.10).
Iniciando a sua defesa sem mais delongas, negou cada uma das acusações feitas,
descrevendo com grande simplicidade os eventos que levaram à sua prisão.
Pois bem podes saber que não há mais de doze dias que subi a Jerusalém a
adorar. E não me acharam no templo falando com alguém, nem amotinando o povo
nas sinagogas, nem na cidade. Nem tão pouco podem provar as coisas de que agora
me acusam. Mas confesso-te que, conforme aquele Caminho que chamam seita, assim
sirvo ao DEUS de nossos pais, crendo tudo quanto está escrito na lei e nos
profetas. Tendo esperança em DEUS, como estes mesmos também esperam, de que há
de haver ressurreição de mortos, tanto dos justos como dos injustos. E, por isso,
procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com DEUS como para
com os homens.
Ora, muitos anos depois, vim trazer à minha nação esmolas e ofertas. Nisto me
acharam já santificado no templo, não em ajuntamentos, nem com alvoroços, uns
certos judeus da Ásia, os quais convinha que estivessem presentes perante ti, e
me acusassem, se alguma coisa contra mim tivessem. Ou digam estes mesmos, se
acharam em mim alguma iniqüidade, quando compareci perante o conselho (At
24.11-20).
Paulo olhou para todos eles e houve silêncio. Félix sentiu no coração que ele
era inocente. Aquele não fora o seu primeiro encontro com a inveja e maldade
judaicas. Mas, se uma voz lhe dizia para desconsiderar o caso, outra tentava-o
a esperar, até descobrir que lado deveria apoiar em vantagem própria.
Paulo Mantido na Prisão
A menção de dinheiro para os irmãos de Jerusalém o fez pensar em uma boa
soma que poderia ser-lhe paga pela liberdade do apóstolo. De qualquer modo,
valia a pena tentar! Se a igreja quisesse a libertação do seu líder, sem dúvida
levantaria fundos para obtê-la. Decidiu adiar sua decisão. Não seria má idéia
manter Paulo por perto durante algum tempo; havia muitas coisas sobre os
nazarenos que o interessavam e queria ter uma conversa particular com o prisioneiro.
Com um aceno impaciente, Félix encerrou a sessão do tribunal, prometendo
ouvi-los de novo quando Lísias chegasse de Jerusalém. Paulo foi mantido em
custódia militar, acorrentado a um guarda, mas livre para receber seus amigos e
conhecidos. Os meses passaram-se e Lísias nunca chegou. Ananias e os anciãos,
decepcionados com a fraqueza do governador, voltaram irados a Jerusalém.
Durante os dias que se seguiram, Paulo teve muitos encontros privados com
Félix. Certa ocasião, Félix levou a esposa, Drusila. Ela era uma princesa
belíssima e com menos de vinte anos. Félix falara-lhe de Paulo e, sendo judia,
quis ver esse conterrâneo que se convertera ao Cristianismo. Drusila
compreendeu a diferença entre Paulo e os judeus que o acusavam, e tentou
explicá-la ao marido. Seria interessante ver o homem e ouvir-lhe as palavras.
Félix deu ordens para que Paulo fosse levado ao palácio.
Cercado por guardas, Paulo entrou no grande salão, onde Félix e sua jovem
esposa reclinavam-se em sofás de seda. Ela era bela e ambiciosa, e com um
sorriso curioso, voltou a atenção ao conterrâneo envelhecido, de quem tanto
ouvira falar. Drusila tinha antecedentes religiosos, mas, uma vez entregue à
vida de iniqüidade para conseguir poder e posição, não se preocupava tanto com
a entrevista, estando apenas um pouco curiosa.
Félix provavelmente não tinha religião. Como a maioria dos de sua classe, tinha
um medo supersticioso do desconhecido e, ao ouvir Paulo, ficou fascinado por
sua convicção e autoridade. Temeu que Paulo estivesse certo no que dizia. Era
possível que houvesse realmente um DEUS vivo, que guardava o futuro em suas
mãos, e talvez esse DEUS castigasse os perversos. Caso fosse verdade, qual
seria a sua posição?
O grande apóstolo não poupou palavras. Falou com destemor sobre viver em pureza
e retidão e sobre o domínio das paixões.
A vida de Félix tinha sido indisciplinada e absolutamente egoísta. Ele
satisfizera todos os seus sentimentos de ódio, vingança e desejo. Mas agora, as
palavras de Paulo assustavam-no, e ele tremeu ao pensar no futuro. Drusila
arqueou as lindas sobrancelhas e deu um sorriso vago, ao qual Félix não
conseguia resistir. Compreendeu também que, se permitisse que suas emoções o
dominassem a ponto de ceder à atração de Paulo, teria de desistir dessa mulher
bela e pecadora que era a luz de sua vida lasciva.
Uma sensação de medo o tomou, e disfarçando tudo, como se estivesse muito
ocupado com questões oficiais, fez sinal com a mão de que a entrevista
terminara. "Por agora vai-te, e tendo oportunidade, te chamarei" (At
24.25).
Quando retirava-se do aposento, Paulo ouviu o riso alegre da jovem princesa
enquanto ela e o marido ocupavam-se rapidamente de outras coisas.
Félix mandou chamar Paulo repetidas vezes depois disso, pois gostava de
conversar com ele sobre a eternidade e, além do mais, ainda entretinha a
esperança de que os cristãos lhe oferecessem uma soma de dinheiro pela
liberdade do líder. Mas, o dinheiro não chegou. A cada dia Félix rejeitava o
Evangelho; a cada dia seu coração endurecia-se mais. Paulo voltou à sua vida na
prisão, mantendo conversações diárias com os crentes que o visitavam.
Ávida em Cesaréia continuou rotineira. Paulo passou dois longos anos
acorrentado a um guarda romano, com o seu ministério suspenso e seu caso sem
solução. Seus inimigos, no entanto, não dormiam, e pediram a Félix que o
mantivesse preso. Para fazer um favor aos judeus, o governador deixou que ele
permanecesse encarcerado. Quando os amigos de Paulo fizeram petições, ele
prometeu apressar as coisas e continuar o julgamento depois da chegada das
testemunhas. Tanto os amigos como os inimigos de Paulo suplicaram ao governador
que tomasse uma decisão. Mas ele não atendeu; não mandou matá-lo nem
libertá-lo.
Félix foi subitamente chamado de volta à Roma. Durante seu termo de serviço,
houvera muitos levantes dos zelotes, que ele havia subjugado pela força, mas
que em breve voltavam à carga noutra região. Relatórios sobre esses fatos
chegaram aos ouvidos de César, que não tolerava a desordem em seu império.
Félix foi então removido, e outro governador, Festo, enviado com instruções
para manter a paz romana.
Paulo Diante de Festo
Nem bem Festo chegara ao palácio de Herodes e tomara as rédeas da
autoridade, os judeus viram outra chance de conseguir a morte de Paulo. Quando
Festo fez sua primeira visita oficial a Jerusalém, o sumo sacerdote e alguns
dos seus homens esperavam por ele, e suplicaram que Paulo fosse levado a
julgamento nessa cidade. O plano deles era assassiná-lo em algum ponto da
estrada. Mas, excederam-se em sua ansiedade, e Festo adivinhou que algo se
escondia por trás de tanto interesse.
- Não é costume dos romanos - asseverou ele -, castigar alguém antes de uma
acareação com os acusadores, e de dar oportunidade ao acusado para defender-se.
Ele está sendo mantido em Cesaréia, e quando eu voltar, em breve, que os
poderosos entre vocês me acompanhem e acusem o homem, se é que ele cometeu algo
errado.
Esse governador não era como Félix. Ele cumpriu sua palavra e, no dia seguinte
ao seu retorno a Cesaréia, Paulo foi levado diante da corte para enfrentar os
mesmos acusadores que pediram seu sangue nos dias de Félix. Festo não entendia
das leis judaicas e surpreendeu-se com o zelo daqueles homens de Jerusalém, que
tanto se esforçavam para conseguir uma sentença de morte. Ouviu pacientemente
as acusações e argumentos. Parecia ser uma disputa sobre religião, que ele
jamais poderia resolver.
Estava ansioso para começar bem o seu governo e ganhar o favor de seus
governados. Tendo ouvido muitas testemunhas da parte deles, voltou-se a Paulo e
perguntou: "Queres tu subir a Jerusalém e ser julgado acerca destas coisas
em minha corte?"
O Apelo a César
Paulo lembrou-se do ódio do Sinédrio, e compreendeu que em Jerusalém
estaria no meio dos inimigos. Tomou rapidamente uma decisão e apelou:
Estou perante o tribunal de César, onde convém que seja julgado; não fiz agravo
algum aos judeus, como tu muito bem sabes. Se fiz algum agravo, ou cometi
alguma coisa digna de morte, não recuso morrer; mas, se nada há das coisas de
que estes me acusam, ninguém me pode entregar a eles. Apelo para César (At 25
10 11).
Festo ficou atônito. Jamais ouvira um apelo desses antes, mas sabia que, pela
lei romana, não podia ser negado, pois Paulo era um cidadão livre, e esse era o
seu mais nobre direito como romano. Depois de conversar às pressas com o
conselho, levantou-se e fez o seu pronunciamento em tom grave: "Apelaste
para César? Para César irás" (At 25.12).
O dado estava lançado. A causa do Cristianismo deveria comparecer diante da
mais alta corte do mundo. Festo tinha de preparar um relatório para o
imperador, mas teve dificuldade em escrevê-lo. Nada tinha de definido a
declarar contra o homem; o relatório, porém, era imprescindível.
Enquanto Festo refletia, recebeu hóspedes das províncias e cidades vizinhas,
que foram cumprimentá-lo pelo seu novo cargo e dar-lhe as boas-vindas na
judéia. Entre eles encontrava-se o rei Herodes Agripa II, da Galiléia e da
região próxima ao Jordão. Ele era irmão da jovem e bela Drusila e tataraneto de
Herodes o Grande.
Todos os Herodes gostavam de espetáculos, e Festo fez o máximo para alimentar a
vaidade do hóspede e cortejar-lhe o favor. No curso da conversa, ele contou ao
rei sobre o seu estranho prisioneiro, pedindo conselho sobre como preparar a
carta de apelo ao imperador.
Paulo Diante de Agripa
O rei pediu para ouvir pessoalmente o apóstolo, prometendo que depois de
escutá-lo ajudaria Festo a preparar seu relatório para César. O cunhado de
Agripa tivera muito contato com Paulo, e essa seria uma boa oportunidade para
ouvir o famoso orador, enquanto falava sobre um assunto que perturbava Israel.
O pedido foi aceito. No dia seguinte, Agripa compareceu em real esplendor,
acompanhado de Berenice, adornada com todas as suas joias. Para agradar ao rei,
Festo convidara os oficiais do seu regimento e os principais da cidade. Era um
falso julgamento, pois nada ia ser resolvido, mas Agripa o solicitara.
Com todo aparato, o grupo entrou no pretório, sentando-se nas cadeiras douradas
que Festo mandara colocar para os visitantes. Junto às paredes, os lictores
postavam-se atentos, e o prisioneiro foi colocado no centro, com uma corrente
prendendo-lhe os pés.
Festo apresentou o caso segundo seus conhecimentos. A seguir, Agripa pediu a
Paulo que se defendesse, e recostou-se na cadeira para ouvi-lo. Com um
movimento eloquente da mão, Paulo dominou a cena e começou sua defesa:
Tenho-me por venturoso, ó rei Agripa, de que perante ti me haja, hoje, de
defender de todas as coisas de que sou acusado pelos judeus. Mormente sabendo
eu que tens conhecimento de todos os costumes e questões que há entre os
judeus; pelo que te rogo que me ouças com paciência (At 26.2,3).
Agripa foi devidamente homenageado e sua atitude era amigável. Paulo fizera um
bom começo, e continuou. Seu testemunho, encontrado em Atos 26, foi
essencialmente o seguinte:
A minha vida, pois, desde a mocidade, qual haja sido, desde o princípio, em
Jerusalém, entre os da minha nação, todos os judeus a sabem. Sabendo de mim,
desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita
da nossa religião, vivi fariseu. E agora, pela esperança da promessa que por
DEUS foi feita a nossos pais estou aqui e sou julgado. A qual as nossas doze
tribos esperam chegar, servindo a DEUS continuamente, noite e dia. Por esta
esperança, ó rei Agripa, eu sou acusado pelos judeus. Pois quê? julga-se coisa
incrível entre vós que DEUS ressuscite os mortos?
Bem tinha eu imaginado que contra o nome de JESUS, o nazareno, devia eu
praticar muitos atos. O que também fiz... E, enfurecido demasiadamente contra
eles, até nas cidades estranhas os persegui.
Sobre o que, indo, então a Damasco, com poder e comissão dos principais dos
sacerdotes, ao meio-dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, que excedia o
esplendor do sol, cuja claridade me envolveu a mim e aos que iam comigo. E,
caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me falava, e em língua hebraica,
dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra
os aguilhões.
E disse eu: Quem és, Senhor?
E ele respondeu: Eu sou JESUS, a quem tu persegues. Mas levanta-te e póe-te
sobre teus pés, porque te apareci por isto, para te pôr por ministro e
testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te
aparecerei ainda. Livrando-te deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio.
Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de
Satanás a DEUS; a fim de que recebam a remissão dos pecados, e sorte entre os
santificados pela fé em mim.
Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial. Antes, anunciei
primeiramente aos que estão em Damasco e em Jerusalém, e por toda a terra da
Judéia, e aos gentios, que se emendassem e se convertessem a DEUS, fazendo
obras dignas de arrependimento. Por causa disto os judeus lançaram mão de mim
no templo e procuraram matar-me. Mas, alcançando socorro de DEUS, ainda até ao
dia de hoje permaneço, dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, não
dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia
acontecer. Isto é, que o CRISTO devia padecer, e, sendo o primeiro da
ressurreição dos mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios (At
27.4-23).
Festo estivera ouvindo atentamente, com crescente espanto. Ele conhecia JESUS
pelos registros romanos. Sabia que Ele fora crucificado sob o governo de Pôncio
Pilatos; agora isso era história. Mas, esse prisioneiro falava calmamente da
sua ressurreição e de tê-lo visto, e falado com Ele desde esse acontecimento.
Que tolice! O homem devia estar louco.
Estás louco, Paulo! As muitas letras te fazem delirar - exclamou Festo.
Paulo respondeu:
Não deliro, ó potentíssimo Festo; antes digo palavras de verdade e de um são
juízo. Porque o rei, diante de quem falo com ousadia, sabe estas coisas, pois
não creio que nada disto lhe é oculto; porque isto não se fez em qualquer
canto. Crês tu nos profetas, ó rei Agripa? (At 26.25-27).
Ele inclinou-se para ouvir a resposta. Agripa hesitou e não disse nada. Ele não
apreciara a pergunta, pois qualquer fosse a sua resposta, seria apanhado. Paulo
viu sua hesitação e acrescentou rapidamente:
Bem sei que crês.
-O rei ficou comovido, mas também muito embaraçado diante do seu séquito.
Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!
Rápido como um esgrimista que avança para matar, Paulo respondeu prontamente:
"Prouvera a DEUS que, ou por pouco ou por muito, não somente tu, mas
também todos quantos hoje me estão ouvindo se tornassem tais qual eu sou"
e acrescentou então três palavras curtas que revelavam tudo o que o
Cristianismo fizera por ele, "exceto estas cadeias" (26.29).
Alguns anos antes, Paulo deleitara-se em prender homens e mulheres e lançá-los
na prisão, mas agora não colocaria uma algema em ninguém.
Agripa não quis ouvir mais nada, e levantou-se. Berenice e Festo
acompanharam-no para um lado do aposento. Ficaram conversando alguns minutos e
concordaram que Paulo nada fizera digno de morte ou prisão. "Bem podia
soltar-se este homem, se não houvera apelado para César" (At 26.32).
Festo sentou-se para fazer seu relatório e Paulo foi levado de volta à cela, a
fim de esperar o dia da viagem para Roma.
A VIAGEM PARA
ROMA
O outono estava no fim quando Festo reuniu um
grupo de prisioneiros e enviou-os a Roma. Em sua maioria, eram presos políticos
que, por terem desafiado alguma lei romana, eram chamados de criminosos.
Estavam sendo enviados à corte suprema, e se condenados, teriam de lutar com as
feras no Coliseu e morrer diante da multidão insensível, num feriado.
A maior parte dos navios com destino a Roma haviam sido carregados mais cedo e
seguido para o mar ocidental. Todo marinheiro sabia que os ventos equinociais
tornavam perigosas as longas viagens e, em breve, os barcos seriam forçados a
lançar âncora durante o inverno. Festo não conseguiu encontrar um navio para
Roma, mas querendo livrar-se dos prisioneiros, colocou-os numa pequena
embarcação que fazia viagens comerciais pela costa, do Egito até Adramítio, um
porto da Mísia, perto da cidade de Trôade.
Os prisioneiros, a cargo de um centurião de nome Júlio e de uma escolta de
soldados, iriam até onde fosse possível com o navio, na expectativa de
encontrarem, em algum porto da Ásia, outro barco com destino a Roma. Festo deu
instruções completas a Júlio, encarregando-o de guardar os homens como sua
própria vida e entregá-los a Roma.
O centurião sabia que Paulo não era perigoso, pois Festo lhe contara que o
levavam para Roma a seu próprio pedido. Tratava-se de uma questão religiosa
sobre a qual estava sendo julgado. Júlio o tratou com grande respeito e
bondade, chegando até a conceder-lhe privilégios em certos portos em que
desembarcaram.
Lucas acompanhou Paulo como assistente e companheiro. Aristarco, um crente de
Tessalônica, que levara uma oferta à igreja de Jerusalém, estava também entre
os passageiros.
Quando o vento forte soprou do Ocidente, as cordas foram retiradas e os longos
remos levaram a embarcação para além do quebra-mar, em direção ao mar alto. Os
marinheiros desfraldaram a vela branca; o capitão estabeleceu o curso, e
navegaram por entre as ondas na direção norte, para o porto de Sidom.
O Porto de Mirra
Em Sidom, o navio recebeu carregamento para as cidades da Ásia, e Paulo
teve permissão para descer, porém acorrentado a um guarda. Ele passou o tempo
visitando os irmãos e confirmando-os na fé. Era a sua última palavra para eles
e quis adverti-los quanto aos perigos que a Igreja enfrentava. Alertou-os
quanto aos inimigos de CRISTO, sempre a postos. Depois de carregado o navio, os
amigos de Paulo acompanharam-no de volta à nave, acenando enquanto as velas
eram desfraldadas e a proa virava para o oeste, em direção à bela ilha de
Chipre.
Os ventos frios do inverno já começavam a soprar e o mar mostrava-se agitado. O
navio teve de mudar o curso; por segurança, ficou próximo à costa, ao abrigo do
continente. Navegando em águas tempestuosas, passaram pela amada Tarso, a oeste
da Panfília, avançando quando os ventos eram favoráveis e ancorando quando
mostravam-se contrários. Finalmente chegaram ao porto de Mirra, na costa da
Lícia.
Júlio ordenou que seus homens deixassem a embarcação, e enquanto esta
preparava-se para retornar ao seu porto de origem, ao norte, ele procurou entre
os navios ancorados algum que os levasse a Roma. Finalmente, encontrou um que
trabalhava para os cerealistas egípcios, carregado de grãos, pronto a partir
para a Itália, onde permaneceria durante o inverno.
Já havia muitos passageiros, mas o capitão abriu espaço para o grupo, esperando
ser bem pago porque Júlio estava em missão imperial. Ao todo, havia 276 homens
a bordo quando o navio se fez ao mar. O peso extra era-lhe favorável e o
capitão levou-o para onde havia vento e águas encapelados, esperando dar tempo
de chegar ao seu destino.
Era outubro, e o céu tinha a cor de chumbo. Depois de o navio haver deixado
Mirra, um vento forte tirou-os da rota. Costearam a ilha de Rodes, e durante
muitos dias fizeram pouco progresso, a sota-vento das ilhas do Egeu, sendo
levados pela correnteza para o norte até Cnido, e para o sul, até Creta. Dentro
de um mês, não haveria mais navios no mar; as tempestades de inverno dominariam
solitárias. Era prudente apressar-se.
Bons Portos
Com dificuldade e rangendo, o navio abriu caminho contra o vento,
aproximando-se do Cabo Salmone e costeando a ilha de Creta. Chegaram a Bons
Portos e ancoraram na baía. Bons Portos não passavam de um porto pequeno,
inteiramente inadequado para se passar o inverno. Depois de uma mudança do
vento, fizeram uma tentativa para chegar a Fênix, a sudoeste da ilha.
Qualquer um que conhecesse o mar teria noção do perigo. Parecia que chegar a
Roma estava agora fora de questão. Tudo o que restava era procurar um porto
abrigado e passar ali o inverno. O conselho de Paulo foi que permanecessem em
Bons Portos. Com sua experiência do mar, onde já naufragara três vezes,
aprendera a ser cauteloso. Dirigindo-se ao piloto e ao mestre, aconselhou:
"Varões, vejo que a navegação há de ser incômoda e com muito dano, não só
para o navio e carga, mas também para a nossa vida" (At 27.10).
O piloto do navio pensava outra coisa; e os homens, desejando invernar numa
cidade maior, concordaram em seguir para Fênix, distante cerca de quarenta
milhas a oeste. Uma mudança súbita do vento decidiu a questão. A tempestade do
Norte abrandou e vieram ventos suaves do Sul, remanescentes de Alexandria e de
um clima mais quente. Era tudo que desejavam. Nas águas calmas, os homens
levantaram âncora e desfraldaram as velas, pretendendo costear Creta até
alcançar Fênix.
A Tempestade
Os planos dos navegantes, porém, foram rapidamente destroçados. Quando
ainda se achavam há poucas milhas de Bons Portos, o vento mudou subitamente de
direção, do Sul para o Nordeste, e soprou com tamanha violência das montanhas
cretenses que transformou-se em tempestade. O mastro rangeu quando o navio
inclinou-se ao primeiro ataque da tormenta. Não houve sequer tempo para puxar o
batel, preso por uma corda na popa. Grandes ondas ergueram- se por trás do
barco, como se por um golpe de mágica, e nada restou aos marinheiros senão
correr adiante do temporal.
A frente deles estava o continente da África e a Baía de Sirte. Todo marinheiro
temia esse lugar, pois não havia ali portos; só praias rasas onde os bancos de
areia mudavam conforme os ventos e tornavam-se o túmulo de muitas embarcações. Todavia,
a pequena ilha de Cauda achava-se ainda diante deles, que agradecidos,
esconderam-se ao abrigo de seus penhascos. Ali ganharam tempo para levantar o
batei cheio d'água e preparar o navio para o que talvez ainda tivessem de
enfrentar. Grandes cordas foram passadas por sob o barco e bem amarradas para
proteger a armação e mantê-la firme, especialmente se acabassem encalhando num
banco de areia.
Até o abrigo inadequado de Cauda era-lhes suspeito. Encalhar na areia e ser
despedaçados contra a praia era pior que a tempestade em mar aberto. O vento
levou-os então para longe da ilha, e tendo feito tudo que podiam para salvar
suas vidas, prenderam a grande verga ao convés e navegaram com o mastro nu.
Tudo o que lhes restava fazer agora era manter- se em alto mar até que a
tempestade passasse.
Trabalharam a noite inteira temendo o pior, mas esperando que o amanhecer
trouxesse alguma ajuda. Na manhã seguinte, porém, o temporal não melhorara. E
entrara tanta água pelo madeirame do navio, que este afundara ainda mais. O
capitão ordenou que toda a bagagem pessoal fosse lançada ao mar, para aliviar a
embarcação. A medida que o navio fazia água e afundava cada vez mais nas ondas,
a carga teve de ser também lançada ao mar. A seguir, até a mobília, a vela
grande e a verga foram atiradas, junto com todos os aprestos que podiam ser
dispensados.
Dia e noite, os marinheiros lutaram arduamente contra as ondas. O navio subia e
descia como uma rolha; as ondas batendo no convés e a água salgada escorrendo
pelos lados. Seguiram-se dias e noites de terror, durante os quais só se via o
céu cinzento; não havia sol, nem lua, nem estrelas. Ao redor deles, ondas
negras assobiavam. Num momento, as águas eram como uma montanha caindo sobre o
navio; no outro, um vale se abria, e eles afundavam.
Marinheiros e passageiros já haviam, há muito, perdido a esperança. Já não
lutavam para salvar o navio; apenas agarravam-se às cordas e mastros. Sentiam
que cada movimento do convés, afundando entre os vagalhões, seria o último.
Ninguém pensava em comer; estavam certos de que a morte se aproximava.
A Visão de Paulo
Paulo confiava na promessa de DEUS: viveria para ver Roma. Durante um dos
momentos em que adormeceu, ao deitar-se exausto abaixo do convés, teve uma
visão do Senhor. Ao seu lado estava um anjo de DEUS, trazendo-lhe a seguinte
mensagem: não só ele seria salvo, como nenhum passageiro a bordo perderia a
vida.
Quando o desânimo deles era grande, Paulo os encorajou:
Fora, na verdade, razoável, ó varões, ter-me ouvido a mim e não partir de Creta,
e assim, evitariam este incômodo e esta perdição. Mas, agora, vos admoesto a
que tenhais bom ânimo, porque não se perderá a vida de nenhum de vós, mas
somente o navio. Porque, esta mesma noite, o anjo de DEUS, de quem eu sou e a
quem sirvo esteve comigo, dizendo: Paulo, não temas! Importa que sejas
apresentado a César, e eis que DEUS te deu todos quantos navegam contigo.
Portanto, ó varões, tende bom ânimo! Porque creio em DEUS que há de acontecer
assim como a mim me foi dito. E, contudo, necessário irmos dar numa ilha (At
27.21-26).
No final da segunda semana, cerca da meia-noite, pareceu aos marinheiros
experimentados que estavam se aproximando da terra. Encontravam-se em algum
ponto do Mar Adriático. Um grito do vigia rasgou os ares e alarmou os corações:
"Arrebentação! Arrebentação!"
Os marinheiros ouviram e acreditaram escutar o som das ondas nas rochas. O
prumo foi baixado e descobriram que a água tinha vinte braças de profundidade.
Depois de avançarem um pouco, tornando a lançar o prumo, acharam quinze braças.
Isto significava que o mar estava ficando mais raso e havia o risco de rochas
ou bancos de areia. Como estivesse escuro como breu, lançaram quatro âncoras
para segurá-los e esperaram impacientes pelo nascer do dia.
A Conspiração dos Marinheiros
Na proa do barco, tramava-se uma conspiração. Alguns marinheiros planejavam
fugir com o bote salva-vidas içado ao convés. Pretendiam baixar o bote e subir
nele, como se quisessem lançar âncoras pela proa. Escapariam para a terra e
abandonariam os amigos à fúria do mar. Paulo percebeu-lhes o intento e chamou
rapidamente o centurião e seus soldados. "Se estes não ficarem no navio,
não podereis salvar-vos" (At 27.31).
Júlio entrou em ação. A uma ordem sua um soldado dirigiu-se à lateral do navio
com a espada desembainhada e cortou o cabo do bote. A pequena embarcação
desapareceu nas trevas. Foi uma atitude imprudente; sem um bote, estavam ainda
mais indefesos. Porém a conspiração terminou, e os marinheiros frustrados
reuniram-se em grupos, tremendo sob a chuva gelada, até que o primeiro raio de
luz aparecesse no leste. Então viram as rochas baixas e escuras da terra firme.
Ninguém sabia que terra era aquela, mas os 276 que estavam a bordo, subiram ao
convés para ter um vislumbre dela. Com a confiança renovada, Paulo insistiu que
todos comessem; precisariam de forças se quisessem sobreviver. Eles haviam
jejuado durante 14 dias, pois o perigo fora tão grande que ninguém pensara em
alimentar-se. Tomando o pão, Paulo inclinou a cabeça e, na presença dos
soldados e marinheiros pagãos, deu graças a DEUS e começou a comer. Sua
animação foi contagiosa. As esperanças reavivaram-se, e todos se alimentaram.
Com as energias renovadas, decidiram lutar por suas vidas.
Já que o navio tinha de perder-se e encalhar na praia, que chegasse o mais
próximo possível da terra! Puseram mãos ao trabalho e a embarcação, aliviada da
carga, boiou sobre as ondas. Isso os levaria mais perto da praia.
O que lhes dava um raio de esperança era a linha rochosa da costa, quebrada por
uma pequena enseada e uma praia arenosa. O capitão julgou poder aproar o navio
na direção da embocadura da enseada e encalhá-lo ali. Tiraram as amarras do
leme; as cordas das âncoras foram cortadas; uma vela leve foi içada no mastro e
o navio cambaleante dirigiu-se à praia. Não foram, porém, muito longe.
Desconheciam a costa, e num lugar onde duas correntes se encontravam, o barco
encalhou num banco de areia. Com um ruído forte, a proa imobilizou-se.
O NAUFRÁGIO
A água batia fortemente na proa. Não havia jeito de desencalhar a
embarcação. As ondas continuavam furiosas e o madeirame já se soltava do barco.
Na proa, os soldados romanos, sabendo que perderiam a vida se os prisioneiros
fugissem, foram falar com o comandante: "Senhor, não podemos mais
responsabilizar-nos pelos prisioneiros. Ninguém pode nadar nessas águas
agitadas acorrentado a outro. Não seria melhor matá-los todos?"
Mas Júlio, depois de conhecer melhor a Paulo, passara a gostar dele. Por sua
causa, ordenou que tirassem as correntes dos presos, e todos poderiam nadar até
a praia. Os que não sabiam nadar pularam ao mar agarrados a tábuas ou pedaços
de madeira, deixando que as ondas os levassem à terra firme.
Era um grupo lastimável aquele reunido na praia. Os homens fracos e exaustos
ficaram olhando o navio ser despedaçado pela força das ondas gigantescas. Mas
estavam todos ali; machucados, abatidos, quase afogados, e tremendo sob a
chuva, porém salvos.
A tragédia atraíra os nativos à praia, e muitos correram para ajudar os
estranhos, acendendo fogueiras para aquecê-los. Foi então que os náufragos
souberam onde estavam. Tinham chegado à ilha de Malta.
Os habitantes de Malta eram de descendência egípcia, e durante muitos séculos
foram homens do mar. Com grande simpatia, haviam observado o navio em perigo e
os esforços para salvá-lo. Ao ver os homens chegarem à praia, um a um, os
nativos de Malta maravilharam-se. Estavam certos de que muitos morreriam no
naufrágio.
A Vingança dos Deuses
Na praia, Paulo juntou-se aos outros para apanhar gravetos. Com uma braçada
deles, aproximou-se do fogo e colocou-os nas chamas. De repente, uma víbora que
estivera escondida na lenha, fugindo do calor, agarrou-se-lhe à mão. Por um
segundo, ela permaneceu ali, enquanto um grito de terror elevou-se dos
espectadores. Com um movimento rápido, Paulo sacudiu-a, fazendo-a cair no fogo.
O pensamento geral foi: ali estava um prisioneiro que escapara do mar, mas a
vingança dos deuses o seguira, e sua hora chegara. Os ilhéus sabiam que a
víbora tinha um veneno mortal, de ação rápida. Esperavam ver Paulo adoecer e
cair morto em questão de minutos. Com o horror estampado nos semblantes,
ficaram a observá-lo. Ele certamente havia cometido algum crime terrível para
encontrar a morte assim tão de repente.
Mas, Paulo não tinha tais pensamentos. Não temia, porque confiava em DEUS e
acreditava que pregaria o Evangelho em Roma, como lhe fora prometido.
Tranquilamente, o apóstolo atiçou o fogo e aproximou-se dele para secar as
roupas e aquecer o corpo. Quanto mais os minutos passavam, mais crescia o espanto
dos observadores. Paulo não empalidecera, nem parecia um homem em agonia.
Um a um, os ilhéus supersticiosos menearam as cabeças e concluíram que ele
fosse um deus disfarçado. O acontecimento, combinado com o que houve nas
semanas seguintes, deu a Paulo a oportunidade de pregar o Evangelho. Pôde falar
do DEUS Único e Verdadeiro, que tem poder para livrar seus servos do mal.
A Cura do Pai do Governador
Os ilhéus levaram os náufragos à casa de Públio, o governador romano de
Malta, que morava próximo à cena do desastre. Sua residência era grande e seu
coração ainda maior. Ele hospedou a todos durante três dias. Públio tinha um
pai idoso que morava com ele, e que se achava doente, com febre. Quando Paulo
soube, pediu para vê-lo. Recebida a permissão, impôs as mãos sobre o homem e
orou. Com os olhos levantados ao céu, clamou fervorosamente por um milagre. A
cura daquele homem seria um testemunho do poder de DEUS e da verdade do
Evangelho.
O Senhor atendeu-lhe a oração, e o pai do governador ficou bom. Públio ouviu as
boas- novas, assim como muitos doentes de Malta. Os enfermos da ilha iam à
procura de Paulo, esperando que este também os curasse. Durante os três meses
de inverno, enquanto Júlio e seus prisioneiros aguardavam que o mar se tornasse
novamente navegável, Paulo e seus amigos, Lucas e Aristarco, pregaram o
Evangelho de CRISTO. E DEUS confirmava com milagres as suas palavras. Honras
especiais foram concedidas a Paulo e a seus companheiros. Eles haviam
conquistado o amor e a confiança dos ilhéus. Ricos e pobres tinham presenciado
o grande poder de DEUS, e alguns creram.
RUMO A SIRACUSA
Os três meses passaram-se rapidamente. Com as primeiras brisas mornas da
primavera, os comandantes dos navios ancorados no porto começaram a reunir os
tripulantes, preparando- se para partir. Júlio estava ansioso para seguir
viagem. Fez arranjos com o proprietário de outro navio graneleiro de
Alexandria, e os soldados e seus prisioneiros prepararam-se para ir embora. A
essa altura, Paulo já tinha muitos amigos e esses entristeceram-se com a
despedida. Numa demonstração de amor, levaram presentes e provisões, e reunidos
no cais, disseram adeus ao apóstolo. A pesada embarcação foi levada à baía
pelos remadores, com as velas içadas. Ventos brandos sopraram. Depois de um dia
agradável sob um céu ensolarado, e cercados por águas azuis, chegaram à velha
cidade de Siracusa, aninhada num lindo golfo da Sicília.
Durante três dias, Paulo e seus companheiros, escoltados por um guarda romano,
visitaram a cidade, cujo povo muito se orgulhava da sua habilidade em corridas
de carros. Ali, à sombra do templo branco de Diana, com os sacerdotes pagãos
que matavam quatrocentos bois por ano sobre o altar dessa deusa, Paulo
provavelmente falou de JESUS. Embora o tempo fosse curto e os ouvintes poucos,
a semente de uma igreja fiel pode ter sido plantada.
O navio porém prosseguiu em sua rota. Na proa que cortava as ondas havia
figuras dos irmãos gêmeos Castor e Pólux, que na mitologia antiga eram filhos
de Zeus. Os marinheiros orgulhavam-se de servir nesse navio, pois esses gêmeos
celestiais eram tidos como protetores dos navegantes.
A Cintilante Baía de Nápoles
Na direção oeste, enquanto abriam caminho para o continente, eles podiam
ver a montanha de fogo, cinzenta durante o dia e iluminada à noite. O Etna era
um marco para todo viajante a caminho de Roma. Nos apertados estreitos de
Messina, tocaram o primeiro porto italiano. No bonito porto de Régio, protegido
pelos altos montes da Sicília e pelo continente, o vento cessou e o navio
permaneceu imóvel um dia inteiro. Mas, pela manhã, o vento sul soprou. Com as
velas desfraldadas à brisa, o navio deixou o estreito para trás. Durante todo
aquele dia e noite navegaram contra o vento e, na manhã seguinte, chegaram a um
dos grandes portos de Roma. Era a cidade de Putéolos, na Baía de Nápoles.
Rodeando toda a baía, ficavam os balneários da moda, dos abastados cidadãos
romanos. À distância, erguia-se o Monte Vesúvio. Aos seus pés, encontravam-se
as prósperas cidades de Pompéia e Herculano.
Por causa de seu magnífico cenário e clima agradável, a Baía de Nápoles era a
praia favorita dos nobres de Roma. O imperador tinha a sua vila nessa baía, a
mais bela do mundo. Na cidade de Putéolos, os grandes navios descarregavam suas
cargas e os passageiros desembarcavam, seguindo a Estrada de Ápio até Roma.
Nesse mesmo porto, havia algum tempo, Calígula, enlouquecido pelo poder,
gabara-se de que poderia andar de carro até a sua vila por sobre a baía
brilhante. Cumprindo suas ordens, barcos foram amarrados uns aos outros e uma
estrada de quatro quilômetros construída por cima deles para que pudesse dizer
que dominava o mar.
Em Putéolos, os pés de Paulo tocaram o solo italiano pela primeira vez. Júlio
permaneceu durante algum tempo nessa cidade e Paulo teve permissão para
encontrar-se livremente com os amigos. Agora havia cristãos por toda parte, e
quando souberam da presença de Paulo, muitos foram vê-lo e pedir-lhe que
ficasse mais tempo entre eles.
Durante a parada de sete dias, os cristãos tiveram oportunidade de enviar a Roma
notícias da chegada de Paulo. Os crentes romanos sentiram-se felizes por ver o
homem que passara a vida a serviço de CRISTO. Haviam lido e decorado a carta
recebida do apóstolo. Reuniam-se todos os domingos para a confraternização
cristã, e liam partes dessa carta, alegrando-se na sua salvação. Muitos
decidiram ir ao encontro de Paulo na estrada, pelo prazer de acompanhá-lo até
Roma. Alguns viajaram 64 quilômetros e o encontraram na praça de Ápio; outros,
48 quilômetros, indo até as Três Tavernas.
Quando Paulo viu os amigos da igreja de Roma, seu coração comoveu-se. Pensou no
julgamento que o aguardava e na possível condenação, mas ao sentir o amor e
dedicação daqueles amigos a CRISTO, agradeceu a DEUS e recobrou ânimo. Entre os
crentes dali estavam seus antigos companheiros, Áquila e Priscila.
Os Portões de Roma
Roma estava logo adiante. Roma, a dona do mundo! A cidade de templos e
palácios! O centro da terra! O trono do imperador!
Os portões agora estavam à vista. Júlio reuniu os prisioneiros no centro da
escolta de soldados e fez com que marchassem pelas ruas até os alojamentos
imperiais, onde foram entregues a Barros, conselheiro-chefe do imperador. Esse
velho e honesto soldado, que perdera uma das mãos na batalha, ouviu com
interesse e bondade, enquanto Júlio falava-lhe sobre cada homem. E quando
mencionou Paulo, obteve um favor especial - um quarto privado onde pudesse
morar com o soldado que o guardava, e permissão para ver os amigos sempre que
quisesse.
PRISIONEIRO EM
ROMA
Três dias após a chegada de Paulo a Roma, seu
quarto estava cheio de visitas. Ele enviara mensagens às principais autoridades
das sinagogas, convidando-as a visitá-lo e ouvir sua história. Ávida do judeu
em Roma sempre fora difícil. Durante o governo de Cláudio, todos eles haviam
sido expulsos da cidade, mas agora houvera um relaxamento das leis. Tantos
judeus tinham voltado a Roma que sete sinagogas foram construídas. Separados
dos romanos, eles viviam na margem ocidental do rio Tibre.
Compreendendo o quanto seus conterrâneos haviam sofrido nas mãos do imperador
romano, e que a inimizade dos cidadãos podia ser despertada ao menor pretexto,
Paulo temia que sua presença em Roma trouxesse mais problemas aos judeus. Seu
apelo a César poderia ser interpretado como uma tentativa de promover mais
perseguição aos judeus, por chamar a atenção sobre suas disputas religiosas.
Quando os líderes judeus atenderam ao convite de Paulo, este explicou-lhes que
havia decidido fazer o apelo a César apenas por não haver outro meio de obter a
liberdade. Eles ouviram e não se mostraram hostis.
Varões irmãos, não havendo eu feito nada contra o povo, ou contra os ritos
paternos, vim, contudo, preso desde Jerusalém, entregue nas mãos dos romanos.
Os quais, havendo-me examinado, queriam soltar-me, por não haver em mim crime
algum de morte. Mas, opondo-se os judeus, foi-me forçoso apelar para César, não
tendo contudo, de que acusar a minha nação. Por esta causa vos chamei, para vos
ver e falar; porque pela esperança de Israel estou com esta cadeia (At
28.17-20).
Eles sabiam que Paulo era seguidor de JESUS, e tinham ouvido de suas visitas a
muitas sinagogas no império. Entretanto mostraram-se amáveis, pois compreendiam
que qualquer demonstração contrária poderia provocar a inimizade de Roma.
Nós não recebemos acerca de ti qualquer carta da Judéia, nem veio aqui irmão
algum, que nos anunciasse ou dissesse de ti algum mal. No entanto bem
quiséramos ouvir de ti o que sentes; porque, quanto a esta seita, notório nos é
que em toda a parte se fala contra ela (At 28.21,22).
Pregando em Roma
Num determinado dia, abriu-se finalmente a porta para o velho guerreiro pregar
sobre seu tema favorito: JESUS CRISTO. De manhã até a noite, Paulo conversou
com os judeus que haviam comparecido em grande número para ouvi-lo falar do
Messias. A luz do Evangelho brilhava-lhe nos olhos, e sua voz inflamava-se com
o fogo santo, enquanto fazia os ouvintes examinarem as suas próprias
Escrituras. Tudo o que aprendera na escola de Gamaliel estava sendo útil, e ele
citou passagem após passagem dos rolos sagrados. Usou as palavras de Moisés e
dos profetas para mostrar que a única esperança de Israel estava no Messias. As
Escrituras deles continham tudo isso; se pelo menos cressem!
Quando o dia terminou, havia divisão entre os ouvintes. Alguns creram e foram
embora com a esperança no coração e uma nova vida no íntimo; outros mostraram
desprezo.
Paulo, porém, continuou enquanto saíam:
Bem falou o ESPÍRITO SANTO a nossos pais pelo profeta Isaías, dizendo: Vai a
este povo, e dize: De ouvido, ouvireis, e de maneira nenhuma entendereis; e,
vendo, vereis, e de maneira nenhuma percebereis...Seja-vos, pois, notório que
esta salvação de DEUS é enviada aos gentios, e eles a ouvirão (At 28.25,26,28).
Com estas palavras soando-lhes nos ouvidos, os judeus partiram irados.
A Órbita da Atividade Cristã
Não muito depois disso, a igreja de Filipos, sabendo da prisão de Paulo,
reuniu e enviou dinheiro para o sustento do apóstolo em Roma. Foi um presente
tão grande e abençoado, que ele pôde, com o consentimento de seus captores e a
ajuda de alguns cristãos de Roma, mudar-se para uma casa alugada, onde morou
durante dois anos, esperando o dia de seu julgamento pelo tribunal de Nero.
Durante sua prisão Paulo foi tratado com grande benevolência, embora
continuasse sempre acorrentado a um guarda. Aonde quer que fosse, o soldado o
acompanhava. Depois de dois anos dessa vida, vários guardas já tinham ouvido o
Evangelho e alguns deles se converteram. Paulo não era um cristão oculto; através
de seus amigos crentes, fez saber a todos que explicaria o Evangelho a quem o
procurasse em sua residência. Muitos aceitaram o convite, e sua casa em Roma
veio a tornar-se um centro de testemunho cristão.
Crentes de várias cidades iam e vinham, procurando os conselhos de Paulo sobre
assuntos da fé cristã e levando suas cartas às igrejas do Leste. Listra e
Derbe, Corinto e Éfeso, Colossos e Tessalônica, e até a igreja de Beréia
enviaram seus representantes para trabalhar sob a direção de Paulo. Orientados
por ele, divulgaram o Evangelho nas cidades onde CRISTO não era conhecido.
Alguns deles testemunhavam nas ruas movimentadas de Roma, e ao mesmo tempo
ministravam ao apóstolo. Sua casa tornou-se um centro de atividades, de onde os
mensageiros da Cruz partiam para todo o império. Depois de cada viagem, como os
cometas em sua órbita, voltavam ao ponto de partida.
Paulo passou a amar os soldados que o guardavam. Eram homens corajosos e fiéis,
e não demorou muito para que um pequeno grupo de crentes se formasse entre a
guarda pretoriana e os homens da casa de César. Ao serem convencidos da
Verdade, esses homens levavam a mensagem aos familiares, bem como a todos os
militares nos quartéis. Cada vez que o velho apóstolo refletia sobre sua
prisão, um sorriso aflorava-lhe aos lábios e ele agradecia a DEUS. Suas
cadeias, em vez de prejudicar o Cristianismo, tinham-no ajudado!
Enquanto os amigos iam e vinham, Paulo esperava por notícias do julgamento. Com
a morte de Cláudio, Nero subira ao trono. Ele não era filho de Cláudio, mas sua
mãe viúva incentivou-o e fez com que fosse coroado imperador aos dezessete
anos. Britânico, seu meio- irmão, era o herdeiro legítimo; mas pelas manobras
da mãe, Nero foi o escolhido. Antes de completar um ano no poder, ele mandou
envenenar Britânico. Com o passar do tempo, veio a odiar a mãe e ordenou que
seus amigos a matassem. Eles agarraram-na no meio da noite e tentaram afogá-la;
não conseguindo, acabaram por apunhalá-la. Nero casou-se com a gentil Otávia,
filha de Cláudio, a quem passou também a odiar. Quando Paulo chegou a Roma, o
jovem Nero, então com 24 anos, estava planejando matar Otávia e casar-se com
Pompéia.
Inteiramente entregue a uma vida de paixões e perversidade, Nero não tinha a
menor intenção de perder tempo com um prisioneiro judeu. Portanto, Paulo ficou
esperando sob os cuidados de um guarda, enquanto o imperador prosseguia em sua
vida devassa.
A Chegada de Timóteo
Paulo sentiu-se reanimado quando seu jovem e fiel amigo Timóteo chegou a
Roma. O rapaz queria estar perto de seu pai espiritual e ser dirigido por ele
no trabalho do Senhor. Quatro anos haviam se passado desde que Paulo e Timóteo
viajaram juntos para pregar a CRISTO na Europa. Tinham ido a Filipos e plantado
o Evangelho na Macedônia, começando numa reunião de oração. Naquele dia, Lídia,
a vendedora de púrpura, abrira não somente o coração a CRISTO, como também sua
casa aos cultos. Os pensamentos de Paulo voltaram àquele dia. Lembrou-se de
como havia sido publicamente açoitado na praça do mercado e finalmente preso.
Recordou- se do carcereiro que se tornara cristão com toda a família, e de como
a igreja de Filipos cuidara das suas necessidades quando fora a Tessalônica.
Duas vezes enviaram-lhe dinheiro. E agora, ouvindo falar de suas cadeias em
Roma, mandaram novamente dinheiro por Epafrodito, que ficou para ajudar Paulo e
trabalhar para CRISTO sob a orientação do apóstolo.
Sem dúvida, foi Lídia, a rica mercadora, quem instigou a igreja de Filipos a
ajudar o homem de DEUS. Como foi animador ouvir dos lábios de Epafrodito que a
igreja filipense continuava firme na fé! Que encorajamento para Paulo saber que
um de seus membros fora ter com ele para ser seu companheiro no trabalho!
A Epístola aos Filipenses
Epafrodito pregou o reino de DEUS com tanto zelo e fervor, a ponto de não se
importar com a própria saúde. Nas ruas estreitas de Roma, ajuntava uma multidão
e falava-lhes de JESUS. Depois de alguns meses, uma grave doença
interrompeu-lhe o ministério, confinando-o ao leito, onde esteve à beira da
morte durante várias semanas. Aos poucos começou a melhorar, mas estava fraco e
incapaz de voltar ao trabalho. Paulo percebeu que o amigo tinha saudades de
casa, e resolveu mandá-lo de volta a Filipos.
Com a ajuda de Timóteo, Paulo começou a ditar uma carta. Seu pensamento
retrocedeu alguns anos e ele lembrou-se vividamente de cada membro da igreja.
Dou graças ao meu DEUS todas as vezes que me lembro de vós.
E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para
maior proveito do evangelho. De maneira que as minhas prisões em CRISTO foram
manifestas por toda a guarda pretoriana, e por todos os demais lugares. E
muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas prisões, ousam falar a
palavra mais confiadamente, sem temor (Fp 1.3,12-14).
Paulo falou do seu julgamento, sem muita certeza quanto ao futuro. Ele não
tinha meios de saber o que aconteceria. O jovem imperador dava pouco valor à
vida, e Paulo não sabia se seria poupado. De fato, pensara com agrado na
possibilidade de morrer, pois isso significaria estar com CRISTO. Todavia, teve
alguns vislumbres de esperança de que seria solto. Viver significaria trabalhar
mais para JESUS; morrer seria lucro e uma gloriosa entrada no céu. As palavras
subiram-lhe do coração:
Porque para mim o viver é CRISTO, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne
me der fruto da minha obra, não sei, então, o que deva escolher. Mas de ambos
os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com CRISTO, porque
isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na
carne. E, tendo esta confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vós
para proveito vosso e gozo da fé. Para que a vossa glória aumente por mim em
CRISTO JESUS, pela minha nova ida a vós.
Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de CRISTO.
E espero no Senhor JESUS que em breve vos mandarei Timóteo, para que também eu
esteja de bom ânimo, sabendo dos vossos negócios... Mas confio no Senhor que
também eu mesmo, em breve, irei ter convosco (At 1.23-28; 2.19,24).
Ele escreveu sobre Epafrodito, o valoroso cooperador que adoecera e ficara
muitas semanas entre a vida e a morte:
Porquanto tinha muitas saudades de vós todos, e estava muito angustiado de que
tivésseis ouvido que ele estivera doente. E, de fato, esteve doente, e quase à
morte, mas DEUS se apiedou dele, e não somente dele, mas também de mim, para
que eu não tivesse tristeza sobre tristeza. Por isso, vo-lo enviei mais
depressa, para que, vendo-o outra vez, vos regozijeis, e eu tenha menos
tristeza. Recebei-o, pois, no Senhor, com todo o gozo, e tende-o em honra.
Porque, pela obra de CRISTO, chegou até bem próximo da morte, não fazendo caso
da vida, para suprir para comigo a falta do vosso serviço (Fp 2.26-30).
A carta foi escrita e selada. Epafrodito levou-a consigo à cidade natal. Paulo
tinha agora um companheiro a menos, mas Timóteo e Lucas permaneceram ao seu
lado, mantendo-o em contato com os cristãos de Roma. Marcos, Tíquico,
Aristarco, Demas, Trófimo e Tito colocaram-se à disposição de Paulo; passavam os
dias indo de uma igreja a outra, levando as mensagens do apóstolo.
A Epístola aos Colossenses
Epafras tinha sido o missionário por meio de quem os colossenses ouviram
pela primeira vez o Evangelho e se converteram ao Cristianismo. Ele
encontrava-se agora em Roma, trabalhando para o Senhor como um dos
colaboradores de Paulo. A igreja de Colossos enviara seu mais importante líder
para pregar o Evangelho na maior cidade do mundo.
Sendo um dos companheiros de Paulo, Epafras passou muitas horas com ele. Faziam
planos e discutiam a respeito das várias igrejas sobre as quais Paulo mantinha
vigilância. Todos os dias oravam juntos por cada igreja, lembrando sua
fidelidade e pedindo a DEUS que as fortalecesse. Sempre que orava, os
pensamentos de Epafras voltavam à sua amada congregação em Colossos, e ele
intercedia por aqueles cristãos; que o Senhor os aperfeiçoasse e os completasse
conforme a sua vontade. Paulo nunca vira a igreja de Colossos, mas Epafras
referia-se constantemente a ela por lhe ser tão cara ao coração. Falava de cada
crente; contou que a congregação se reunia em casa de Filemom, e Arquipo ficara
encarregado de prosseguir com a obra.
Ao falar de sua amada igreja, Epafras revelou uma profunda preocupação com um
judeu, que de maneira muito sutil, estava desviando o povo para duas formas de
erro. A primeira era uma espécie de ascetismo, ensinando que as pessoas tinham
de negar a si mesmas para obter a salvação. Enfatizava a observância de certos
dias, e sua pregação era cheia de proibições. Segundo seus ensinamentos,
somente pela autonegação alguém se tornava digno da vida eterna. O segundo erro
era uma filosofia mística que despojava CRISTO da sua posição como Filho de
DEUS e Salvador dos homens.
Era o velho erro, que Paulo tantas vezes combatera, surgindo outra vez e
prejudicando a mensagem cristã. Quem estava melhor preparado para advertir os
colossenses contra tal heresia? Paulo decidiu escrever-lhes uma carta. Com
Timóteo ao seu lado, anotando-lhe os pensamentos enquanto os ditava, começou a
missiva.
Falou primeiro de seu afeto pelos colossenses e de como tivera notícias deles
através de Epafras. Quanto às coisas básicas, só tinha elogios a fazer.
Elogiou-lhes a fé em CRISTO, o amor por todos os cristãos, e sua esperança no
céu. A seguir, passando à admoestação doutrinária, advertiu-os contra o perigo
da falsa filosofia e do ensino judaico que solapava a divindade do Senhor:
Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs
sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não
segundo CRISTO. Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.
Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias
de festa, ou da lua nova, ou dos sábados. Que são sombras das coisas futuras,
mas o corpo é de CRISTO (Cl 2.8,9,16,17).
Paulo não podia terminar a carta sem acrescentar alguns conselhos práticos à
vida cristã.
Revesti-vos, pois, como eleitos de DEUS, santos, e amados, de entranhas de
misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade.
Suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver
queixa contra outro: assim como CRISTO vos perdoou, assim fazei vós também.
E a paz de DEUS, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em
vossos corações; e sede agradecidos. A palavra de CRISTO habite em vós
abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos
outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais; cantando ao Senhor com graça
em vosso coração (3.12,13,15,16).
Terminada a carta, Paulo tomou-a das mãos de Timóteo e escreveu, ele mesmo, uma
saudação final, assinando-a a fim de que não tivessem dúvidas sobre o
remetente. Depois de reler a missiva, para ver se nada esquecera, ordenou a
Tíquico que a levasse à igreja de Colossos; ficasse ali algum tempo, e depois
voltasse com notícias.
A Conversão de Onésimo
Tíquico foi acompanhado na viagem por um homem chamado Onésimo, que fora
escravo na casa de Filemom, em Colossos. Certo dia, rebelando-se contra a
escravidão, Onésimo roubara roupas e dinheiro de seu dono, e fugira, imaginando
que poderia esconder-se nas ruas movimentadas de Roma e começar uma nova vida.
Mas em Roma, sob a influência do apóstolo Paulo, acabou convertido. Quando
conheceu JESUS e seu amor, a gratidão e reverência encheram-lhe o coração.
Onésimo compreendeu que JESUS morrera para salvá-lo. A ele, um escravo fugitivo
e ladrão! Enquanto crescia na graça e no conhecimento de DEUS, entendeu que,
aos olhos do Senhor, o escravo e o livre são iguais.
Que diferença entre o tratamento que recebia de Paulo, como crente, e a antiga
vida que conhecera em Colossos! Ao confessar seu pecado a DEUS, Onésimo fez uma
entrega completa. Tão genuína foi a sua conversão, que estava disposto a contar
as Boas Novas a todo mundo. Então Paulo dirigiu-o a ganhar outros para CRISTO.
Metade da população de Roma era composta de escravos, e Onésimo poderia
alcançar muitos deles que, de outra forma, não ouviriam o Evangelho.
Entretanto, conhecendo a injustiça que Onésimo fizera a Filemom, Paulo o fez
compreender que o único curso de ação era voltar e confessar tudo ao antigo
dono. Isso significava castigo. Embora Filemom e sua mulher, Afia, fossem
bondosos e justos, o supervisor da casa certamente o açoitaria. Ele vira os
sofrimentos infligidos a escravos que tinham sido temerários e desleais, e
calculou que voltar não seria agradável, especialmente agora que era um homem
livre em CRISTO e útil ao grande apóstolo.
Todavia, desde que se tornara cristão, queria endireitar todos os seus erros,
tanto aos olhos de DEUS quanto aos dos homens. Esse era o único caminho para a
paz e serviço. Decidiu então que, por causa do Senhor, voltaria a ser escravo,
corrigindo seu erro.
A Epístola a Filemom
A fim de abrandar a dificuldade da volta, Paulo escreveu uma breve carta
pessoal a Filemom. Este senhor fora um dos seus convertidos; entregara-se a
CRISTO durante a longa estada de Paulo em Éfeso. Agora, com zelo pelo seu
Senhor, Filemom revelava grande hospitalidade à igreja de Colossos. Os membros reuniam-se
todas as semanas em sua bela casa, sob o ministério de Arquipo.
Movido por forte sentimento cristão, Paulo escreveu um ousado, porém discreto,
apelo ao seu amigo.
Todavia, peço-te, antes, por caridade, sendo eu tal como sou, Paulo, o velho, e
também agora prisioneiro de JESUS CRISTO. Peço-te por meu filho Onésimo, que
gerei nas minhas prisões.
Eu bem o quisera conservar comigo, para que, por ti, me servisse nas prisões do
evangelho. Mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que o teu benefício não
fosse como por força, mas voluntário. Porque bem pode ser que ele se tenha
separado de ti por algum tempo, para que o retivesses para sempre. Não já como
servo, antes, mais do que servo, como irmão amado, particularmente de mim e
quanto mais de ti, assim na carne como no Senhor?
Assim, pois, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo. E, se te
fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta...eu o pagarei.
E juntamente prepara-me também pousada, porque espero que pelas vossas orações
vos hei de ser concedido (Fm 9,10,13-19,22).
A Epístola aos Efésios
Enquanto Tíquico e Onésimo preparavam-se para a viagem, Paulo dava as
últimas pinceladas na carta que vinha escrevendo cuidadosamente havia semanas.
Era uma carta geral; não se destinava a corrigir quaisquer erros em particular.
Devia ser passada entre as várias igrejas, a fim de fortalecer-lhes a fé,
encorajá-las na vida cristã e conscientizá-las de sua posição e privilégios em
CRISTO JESUS.
Ele começou com um hino de louvor às três pessoas da Santíssima Trindade - o
Pai, o Filho e o ESPÍRITO SANTO. A seguir, com mão de mestre, pintou um quadro
da igreja como o templo de DEUS, construído sobre o fundamento de CRISTO. Todas
as grandes doutrinas da fé foram mencionadas nessa belíssima carta. A
maturidade cristã do apóstolo é evidente em cada linha. Não foram feitas
referências pessoais, nem saudações às famílias locais ou colaboradores. Se a
carta fosse destinada apenas aos efésios, Paulo teria enviado cumprimentos a
muitos, segundo o seu costume, pois trabalhara três anos entre eles - mais
tempo que em qualquer outra cidade. Em vez disso, pretendia que ela fosse uma
admoestação final a várias igrejas. Ele era agora Paulo, o velho, e seus dias
de missivista logo terminariam. O apóstolo ansiava por incluir em uma carta
circular a plenitude do Evangelho e o encorajamento que enriqueceria e firmaria
cada membro do corpo de CRISTO. Tal carta aplicar-se-ia a todas as igrejas que
fundara. Escreveu então:
E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que, noutro tempo,
andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar,
do espírito que, agora, opera nos filhos da desobediência... Mas DEUS, que é
riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós
ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com CRISTO (pela graça
sois salvos)... Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem
de vós; é dom de DEUS. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.
Portanto, lembrai-vos de que vós, noutro tempo, éreis gentios na carne... que,
naquele tempo, estáveis sem CRISTO, separados da comunidade de Israel, e
estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança e sem DEUS no mundo
(Ef 2.1,2,4,5,8,9,11,12).
Numa transição rápida e precisa, desceu dos altos picos para os vales profundos
da vida comum: "Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é
digno da vocação com que fostes chamados" (Ef 4.1).
Enquanto ditava o último capítulo de sua obra-prima, Paulo procurava algum
exemplo que fixasse para sempre suas palavras à mente dos leitores. À sua
frente estava sentado o jovem a quem amava como a um filho. Timóteo, com a pena
na mão, ouvia e anotava atentamente cada palavra saída dos lábios de seu
mentor. Ao seu lado, encontrava-se o sempre presente guarda romano, magnífico
na armadura do império, e orgulhoso por estar entre os escolhidos de Nero. Os
olhos de Paulo fitaram o soldado e um sorriso surgiu-lhe nos lábios.
Voltando-se a Timóteo, ditou:
No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder.
Revesti-vos de toda a armadura de DEUS, para que possais estar firmes contra as
astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue,
mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das
trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares
celestiais. Portanto, tomai toda a armadura de DEUS, para que possais resistir
no dia mau, e, havendo feito tudo, ficar firmes. Estai, pois, firmes, tendo
cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça. E
calçados os pés na preparação do Evangelho da paz (Ef 6.10-15).
Com mais uma olhadela ao equipamento do guarda, acrescentou:
Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos
inflamados do maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do
ESPÍRITO, que é a palavra de DEUS. Orando em todo o tempo com toda a oração e
súplica no ESPÍRITO e vigiando nisso com toda a perseverança e súplica por
todos os santos... Paz seja com os irmãos, e caridade com fé da parte de DEUS
Pai e da do Senhor JESUS CRISTO. A graça seja com todos os que amam a nosso
Senhor JESUS CRISTO em sinceridade. Amém (Ef 6.1618,23,24).
O Evangelho Difundido mediante o Cativeiro
As cartas foram enviadas e Paulo voltou à rotina diária de ensinar os que
iam à sua casa, fortalecendo-os nas coisas divinas. Durante os anos do seu
cativeiro, para surpresa dos amigos e dele mesmo, o Evangelho fora promovido.
Foram tempos calmos e úteis aqueles. A indulgência do Império Romano contribuiu
para que a prisão forçada não trouxesse tristezas. Sua mente estava livre de
cuidados pessoais; em seu coração crescia cada vez mais a esperança de ser
libertado após o julgamento. Essas palavras foram escritas da sua casa:
Regozijai-vos, sempre, no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos (Fp 4.4).
O COMBATE, A
CORRIDA E O DEPÓSITO
O tão esperado julgamento aconteceu finalmente
no ano 63 D.C., depois de Paulo haver permanecido dois anos em prisão
domiciliar.
Tudo que ele esperava e previra aconteceu. A carta favorável de Festo e o
relatório de Júlio fizeram a balança pender a seu favor. Após aqueles longos
meses, e com os acusadores tão distantes, a oposição judaica diminuíra. Em
razão de os judeus serem olhados com suspeita, a corte dispensou rapidamente as
acusações contra Paulo, e ele foi posto em liberdade.
Pouco se sabe das atividades do apóstolo depois da sua libertação, mas é fácil
imaginar quais foram. Ao voltar para casa e dar-se conta de que, pela primeira
vez em quatro anos, estava sem a companhia de um guarda, deve ter,
imediatamente, iniciado algum plano. Não ficaria inativo; tiraria o máximo
proveito do tempo que lhe restava. Sempre quisera visitar a extremidade
ocidental do império. Anos antes, ao escrever à igreja de Roma, falara-lhes de
sua intenção de ir à Espanha. Seu pensamento estava sempre com as igrejas, e
desejava visitar muitas delas na Ásia e na Grécia. Desde que escrevera a
Filemom, e ouvira a história da igreja de Colossos por intermédio de Epafras,
alimentava a esperança de visitá-la. Essa era a sua oportunidade. A seguir, escrevera
à sua igreja favorita - a de Filipos. A perspectiva de ver os irmãos que
cuidaram dele durante a prisão em Roma aqueceu-lhe o coração.
Tudo decidido, não perdeu tempo. Encontrou um navio que ia para a Espanha e
navegou para o Ocidente, a fim de conhecer novas pessoas e testemunhar de seu
Salvador. Aquela foi, no entanto, uma curta visita. Depois de encorajar os
poucos cristãos dali e fortalecer- lhes a fé em CRISTO JESUS, Paulo tomou um
navio para sua amada terra. Depois de vários dias, chegou finalmente a Éfeso e,
acompanhado por Lucas, seu fiel companheiro de prisão, dirigiu- se por terra a
Colossos.
Em Colossos
Pela primeira vez Paulo viu a igreja fundada por Epafras, e a quem
escrevera uma carta. Foi recebido cordialmente. Os cristãos reverenciaram-no
como o grande líder do Cristianismo; Filemom, que o conhecera em Éfeso,
acolheu-o em sua vasta mansão, onde reunia-se a igreja de Colossos. Porém não
houve acolhida mais cordial e sincera que a do sorridente Onésimo. O escravo
fugido tornara-se um dos troféus do ministério de Paulo em Roma.
Paulo não pôde permanecer muito tempo em Colossos, mas a igreja aproveitou cada
minuto de sua companhia. Quando chegou o momento da despedida, ele já tinha
recapitulado tudo que dissera na carta. Lembrara-os novamente de como DEUS
viera à terra na pessoa de seu Único Filho; recordara-lhes que JESUS era
verdadeiramente DEUS e que a vida eterna só era obtida através dEle. Também os
advertira contra os falsos mestres que queriam negar a doutrina de CRISTO e sua
divindade. Depois de lhes haver enriquecido a fé, Paulo partiu para Éfeso.
Ministrando aos Efésios
Em Éfeso, o apóstolo sentia-se em casa. A igreja havia prosperado e
mantinha-se fiel. Os membros tinham-se guardado das doutrinas falsas e zelado
pela pureza do seu púlpito. Ninguém era convidado a pregar, a não ser que fosse
sólido na fé, reconhecendo a divindade de JESUS CRISTO e o Evangelho da graça
redentora.
Os efésios ficaram felizes por ver novamente o seu pastor. Havia algum tempo,
os presbíteros de Éfeso tinham chorado ao ver o navio de Paulo afastar-se do
cais em Mileto; acharam que nunca mais lhe veriam o rosto. Contudo, depois de
tantos meses, ele voltara! O rigor dos anos o envelhecera. Desaparecera-lhe o
brilho dos olhos, bem como o andar rápido e decidido. Paulo sofrerá muito desde
que pregara em Éfeso sua última mensagem. Os sulcos em seu rosto santo contavam
dos fardos que tivera de carregar.
Ele não apenas estivera na prisão, naufragara e fora açoitado, como sentira no
espírito a solidão e sofrerá com a dureza de coração das pessoas. Sobre seus
velhos ombros pesava o cuidado por todas as igrejas. Sempre que um companheiro
enfrentava dificuldades, Paulo sofria com ele. Sempre que alguém era lançado na
prisão, seu espírito sentia-se também aprisionado. Paulo identificava-se com os
irmãos na fé; era como se um laço familiar os unisse e os tornasse um só.
O tempo, porém, era curto. Ansiando por visitar a Macedônia, Paulo planejou
viajar pelo mar Egeu até Filipos e Tessalônica, e para muitas aldeias onde
houvera plantado a bandeira da cruz. Mas Éfeso precisava de um líder. A igreja
era forte, mas sendo a cidade uma das mais importantes da Ásia Menor, era
necessário manter ali um testemunho que contrabalançasse as forças de Diana.
Paulo alegrava-se ao pensar na igreja de Éfeso; os crentes haviam agido bem.
Entretanto, ele notava que o mundanismo da cidade grande dificultava, a alguns
cristãos, a conservação do primeiro amor. A oposição era grande, e a cidade
atraía muitos professores de religião que tentavam destruir a pureza da igreja
e confundi-la com teorias e lendas sem fim.
Durante sua permanência em Éfeso, Paulo aproveitou para advertir a igreja
quanto a essas coisas, aconselhando os cristãos a serem mais vigilantes.
Recomendou-lhes que afastassem da comunhão qualquer um que aparecesse com
doutrinas falsas.
Paulo achou que a situação era suficientemente séria para deixar Timóteo em
Éfeso, pedindo que supervisionasse essa importante igreja e fizesse dela uma
fortaleza para o Evangelho puro. Com o coração apertado, o apóstolo despediu-se
de seu querido amigo, orando para que ele fosse um servo fiel e que a sua
presença ali enriquecesse a igreja com toda sorte de bênçãos espirituais.
A Epístola a Timóteo
Do outro lado da estreita faixa de mar, no continente Europeu, os
pensamentos de Paulo continuavam com Timóteo. Ele ministrou aos santos em
várias cidades da Macedônia, encorajando, fortalecendo e advertindo-os, mas não
conseguia tirar da mente o jovem em Éfeso e seu trabalho estratégico.
Pensou outra vez nos falsos mestres e como já haviam invadido certas igrejas,
especialmente na província da Galácia. Ele estava certo de que Éfeso era a
chave para toda a Ásia.
Com a pena na mão e o pergaminho à sua frente, Paulo começou a escrever a
Timóteo:
Paulo, apóstolo de JESUS CRISTO, segundo o mandado de DEUS, nosso Salvador, e
do Senhor JESUS CRISTO, esperança nossa, a Timóteo, meu verdadeiro filho na fé;
graça, misericórdia e paz, da parte de DEUS, nosso Pai, e da de CRISTO JESUS,
nosso Senhor.
Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para
advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem se dêem a fábulas ou a
genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de
DEUS, que consiste na fé (1 Tm 1.1-4).
A carta prosseguiu cheia de instruções. Perguntas sobre a organização e o
governo da igreja precisavam ser respondidas, e Paulo achou que seu amigo
tiraria grande proveito de tais instruções e encorajamento:
Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações,
intercessões, e ações de graças por todos os homens. Pelos reis, e por todos os
que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda
a piedade e honestidade...
Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de JESUS CRISTO, criado
com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido. Mas rejeita as
fábulas profanas e de velhas, e exercita-te a ti mesmo em piedade. Porque o
exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa,
tendo a promessa da vida presente e da que há de vir.
Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no
trato, na caridade, no espírito, na fé, na pureza. Persiste em ler, exortar e
ensinar, até que eu vá. Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado
por profecia, com a imposição das mãos do presbitério...
Mando-te diante de DEUS, que todas as coisas vivifica, e de CRISTO JESUS, que
diante de Pôncio Pilatos deu o testemunho de boa confissão, que guardes este
mandamento sem mácula e repreensão, até à aparição de nosso Senhor JESUS CRISTO
(1 Tm 2.1,2.4.6-8,12-14; 6.13,14).
Rumo a Trôade, Éfeso e Mileto
Paulo mencionou na carta a esperança de visitar novamente Timóteo o mais
breve possível. Esse desejo foi realizado; depois de deixar a Macedônia e
visitar Trôade, onde trocou idéias com os líderes da igreja que se reuniam na
casa de Carpo, o apóstolo viajou para o sul e depois para Éfeso.
De fato, Paulo estava tão apressado, que chegou a deixar seus preciosos livros
e material para escrever, bem como sua capa, pretendendo buscá-los antes do
inverno.
Depois de uma visita satisfatória a Timóteo, ele despediu-se com lágrimas nos
olhos e tomou a estrada que levava a Mileto, a cerca de 48 quilômetros da
costa.
Chegaria o dia em que todas as cidades teriam uma igreja cristã. O quadro
passara por grande transformação durante a vida de Paulo. Poucos anos antes,
havia somente alguns cristãos, mas o Evangelho fora anunciado tão
destemidamente, que agora todos os crentes tinham o seu lugar de culto. E
aquele porto marítimo não era exceção.
Paulo e Tito
Durante várias semanas Paulo esteve com os irmãos em Mileto. Depois de
consolá-los, estabelecendo-os na fé, embarcou para Creta na companhia de Tito,
seu fiel colaborador. A igreja dali era desorganizada. Havia muitos crentes,
mas para que seu testemunho fosse efetivo, algumas coisas precisavam ser
mudadas. Era necessário que os crentes se unissem sob a direção de anciãos e
bispos que zelassem por suas almas.
Tito, um dos convertidos de Paulo, era grego. Ele acompanhara o grande apóstolo
a Jerusalém, à conferência relativa à admissão dos gentios na igreja, e Paulo
tinha plena confiança nele. Decidiu deixá-lo em Creta, encarregando-o da
organização das igrejas em cada cidade da ilha. Era uma tarefa colossal; mas,
com a ajuda do Senhor, Tito a cumpriria.
Enquanto Tito adaptava-se à nova responsabilidade, Paulo foi para Corinto e
exerceu um breve ministério junto a essa grande igreja. Ele ficou alegre ao
constatar que os males de Corinto, sobre os quais escrevera alguns anos antes,
haviam sido corrigidos. Seu encontro com os discípulos dali foi cordial e
proveitoso. Os cristãos de toda a cidade foram ouvi-lo. Apesar de idoso, o
servo do Senhor parecia não se cansar de exaltar a CRISTO e confirmar a fé dos
seguidores.
Paulo pensou também em Tito, que estava em Creta, e escreveu-lhe uma carta
similar à que enviara a Timóteo, descrevendo as qualificações para os líderes
da igreja. Como Éfeso e Creta, Corinto também precisava de um representante
digno. O escolhido por Paulo foi seu Erasto, seu fiel colaborador. Deixou-o com
a responsabilidade de ajudar os crentes de Corinto e seguiu para Nicópolis, na
costa oeste da Grécia.
Prisão de Paulo em Nicópolis
Sentindo que sua vida achava-se perto do fim, Paulo fazia arranjos para
deixar obreiros de confiança em pontos estratégicos. O tempo era curto e ele
sentia a necessidade de apressar-se de cidade em cidade. Nicópolis era um
centro importante para o trabalho missionário e Paulo planejava passar ali o
inverno. Aquela cidade nunca fora visitada antes, e a perspectiva de iniciar um
novo trabalho em curtíssimo tempo era fascinante. Acompanhado de cinco
colaboradores, entrou na cidade e começou a pregar.
As suas esperanças, porém, foram de curta duração. Era o ano 67 D.C., e três
anos antes, um grande incêndio queimara a cidade de Roma, desabrigando milhares
de pessoas. Ninguém sabia como o fogo começara. Alguns diziam que o próprio
Nero incendiara a cidade durante uma bebedeira, esperando na sua loucura que
uma Roma nova e melhor se levantasse, como um monumento ao seu reinado.
Mas outro clamor ergueu-se, afirmando que os cristãos haviam incendiado a
cidade. O ódio da população subiu mais alto que as chamas, e começaram-se as
perseguições mais cruéis que a igreja já enfrentara. Os cristãos eram atirados
aos leões no Coliseu, espancados até a morte, mergulhados em piche e
incendiados nos jardins de Nero, como tochas para iluminar a noite.
Todos os que tinham condições fugiram de Roma. Áquila e Priscila foram para
Éfeso. A igreja teve de esconder-se. Em todo o império, cristãos eram presos e
perseguidos sem misericórdia. Histórias terríveis de tortura chegaram aos
ouvidos de Paulo e seus cinco assistentes. Eles próprios haviam escapado por
pouco em algumas ocasiões, mas agora uma nuvem mais negra parecia pairar sobre
eles. Os missionários temiam ser inevitavelmente presos. Nero e seus homens
estavam dispostos a acabar com o testemunho cristão.
Em meio à crise, Demas abandonou Paulo, partindo para Tessalônica. Era uma
negativa da fé, e o apóstolo ficou profundamente magoado. Demas, entretanto,
não foi o único a desertar. Crescente partiu para a Galácia; e até Tito, a quem
Paulo confiara tão grande tarefa, pressionado pela perseguição, partiu para as
montanhas da Dalmácia.
Só Lucas e Tíquico permaneceram com Paulo, e esse último foi enviado a ficar
com Timóteo e ajudá-lo em tudo. Então o golpe abateu-se sobre eles. Um oficial
romano, reconhecendo Paulo como líder das forças cristãs, prendeu-o enquanto
pregava o Evangelho de CRISTO em praça pública. Julgando que Nero se agradaria
de ter nas mãos um líder cristão, enviou-o a Roma.
O Primeiro Julgamento
Desta vez Paulo não foi tratado com respeito e tolerância. Era um
prisioneiro famoso, e qualquer um que lhe demonstrasse amizade seria distinguido
como um dos acusados de incendiar Roma. Pouca gente visitou o apóstolo, mas
Lucas, o médico amado, ia vê-lo todos os dias.
Paulo foi mantido numa cela logo abaixo da rua. Não havia qualquer saída,
exceto uma abertura estreita para escoamento da água no pavimento. As paredes
eram frias e úmidas, e o frio cortante do inverno já se fazia*sentir. A solidão
da cela o deprimia, mas a idéia de ter sido abandonado era ainda mais difícil
de suportar.
O efésio Onesíforo foi um dos que tentaram ajudá-lo. Ele mostrou ser muito
diferente de tantos amigos da Ásia. Todos haviam esquecido o idoso apóstolo,
mas Onesíforo não se envergonhou das cadeias de Paulo. Depois de uma longa
busca, descobriu onde o prisioneiro se encontrava e passou a visitá-lo com
frequência, levando-lhe ânimo e objetos de uso pessoal.
Chegou então o dia do julgamento. Segundo o costume romano, todos deviam ter um
julgamento justo. Paulo ficou sozinho diante do tribunal. A sala estava cheia,
mas em todo aquele mar de rostos não havia um que lhe parecesse amigável.
Nenhuma voz se levantou a seu favor. O velho apóstolo começou sua própria
defesa com um vigor vindo da certeza de que o Senhor estava ao seu lado. CRISTO
era tão real naquele dia como o fora na estrada de Damasco, tantos anos antes.
Seu discurso foi eloquente. Todo o antigo fogo ainda queimava nele. Toda a
lógica e poder do Evangelho estavam-lhe à disposição. Suas sentenças começaram
vagarosas, mas à medida que contava a história do Evangelho, ganharam
velocidade. Seus olhos brilhavam de convicção. Ele estava pregando para obter
um veredicto, e seus argumentos caíam em pesados golpes nos corações dos
ouvintes. Esse seria seu último sermão na terra.
Alexandre, o latoeiro, era a principal testemunha contra Paulo. Esse homem
levantou-se e identificou-o como líder da igreja cristã e centro de tanta
controvérsia. Afirmou que aonde Paulo ia, formava uma comunidade de cristãos
fiéis a JESUS de Nazaré, e que a lealdade dessas pessoas ao imperador era
questionável. Apesar do testemunho de Alexandre, a corte impressionou-se com as
palavras ardentes do grande apóstolo; o caso foi suspenso até um novo
interrogatório.
Paulo escapou dos dentes do leão para ser enviado de volta à cela sombria, onde
aguardaria o lento girar das rodas da justiça romana. Tratava-se de uma vitória
temporária. Ele, porém, já podia visualizar o final à distância, e esperava que
o julgamento viesse rapidamente. O apóstolo dos gentios só tinha um último
desejo: ver Timóteo antes de morrer.
A Segunda Epístola a Timóteo
Paulo receava os dias de ócio forçado na cela desconfortável. Pensou na
capa que deixara em Trôade, com os livros e pergaminhos. Se estivessem agora em
suas mãos! Pediu uma pena, tinta e pergaminho, e obteve permissão para escrever
ao amado amigo Timóteo, em Éfeso:
Por este motivo, te lembro que despertes o dom de DEUS que existe em ti pela
imposição das minhas mãos... Portanto, não te envergonhes do testemunho de
nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes, participa das
aflições do evangelho, segundo o poder de DEUS...
Mas não me envergonho, porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que
é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia...
Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em CRISTO JESUS... Procura
apresentar-te a DEUS aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar,
que maneja bem a palavra da verdade (2 Tm 1.6,8,12; 2.1,15).
Paulo advertiu o jovem pregador sobre a maldade dos homens e o perigo da falsa
doutrina. Encarregou-o solenemente de pregar a Palavra de DEUS e jamais perder
o sentimento de urgência:
Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos
ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências.
E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas. Mas tu sê sóbrio em
tudo, sofre as aflições, faze a obra dum evangelista, cumpre o teu ministério.
Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da
minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a
fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo
juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que
amarem a sua vinda.
Procura vir ter comigo depressa. Porque Demas me desamparou, amando o presente
século, e foi para Tessalônica; Crescente, para Galada. Tito para Dalmácia. Só
Lucas está comigo. Toma Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para
o ministério. Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de
Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos.
Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe pague segundo as
suas obras. Tu, guarda-te também dele, porque resistiu muito às nossas
palavras.
Ninguém me assistiu na minha primeira defesa; antes, todos me desampararam. Que
isto lhes não seja imputado. Mas o Senhor assistiu-me e fortaleceu-me, para
que, por mim, fosse cumprida a pregação, e todos os gentios a ouvissem; e
fiquei livre da boca do leão. E o Senhor me livrará de toda a má obra, e
guardar-me-á para o seu reino celestial; a quem seja glória para todo o sempre.
Amém... Procura vir antes do inverno (2 Tm 4.3-11,13-18,21).
Essa foi a sua última carta.
O Segundo Julgamento
O segundo julgamento de Paulo seguiu-se logo após o primeiro. Não havia
ninguém para defendê-lo ou apoiá-lo. Ele fora acusado de ser o líder dos
cristãos, contra quem o ressentimento público era grande. Alexandre, o
latoeiro, e os demais acusadores venceram. Sob os olhos desatentos de Nero, foi
feita a votação. Era uma sentença de morte. Por ser um cidadão romano, Paulo
não seria crucificado, mas decapitado.
Com o rosto pálido, porém de cabeça erguida, o apóstolo foi levado para fora
dos muros da cidade. Ali, em meio a uma multidão hostil, ávida pela execução, o
velho missionário da cruz levantou os olhos para orar. Muitas e muitas vezes o
Senhor o livrara de um momento como aquele. Contudo, muitos outros santos
haviam enfrentado a morte, e a graça de DEUS seria suficiente a Paulo também. O
Senhor JESUS sofrerá uma morte vergonhosa fora dos muros de Jerusalém; mas pela
sua vitória, tornou a morte gloriosa a todo cristão. Enquanto Paulo pensava na
ressurreição, um riso de triunfo dançou-lhe nos olhos e brincou-lhe nos cantos
da boca. Sua face estava radiante, brilhando com a luz de um outro mundo.
NOS Braços de JESUS
O capitão da guarda ordenou que parassem. O ar frio do inverno esfriara o
cepo junto ao qual Paulo ajoelhou-se. Combati o bom combate, acabei a carreira,
guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada. A lâmina da
espada brilhou ao sol. Paulo fechou os olhos para a multidão ruidosa, e quando
abriu-os de novo, estava na presença de JESUS de Nazaré, onde há plenitude de
alegria, e em cuja destra há prazeres eternos (SI 16.11).
FIM
)))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))
Paulo,
o maior líder do cristianismo - Editora Hagnos
O apóstolo
Paulo foi, certamente, o maior evangelista, o maior teólogo, o maior
missionário e o maior plantador de igrejas de toda a história do cristianismo.
Plantou igrejas nas províncias da Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia Menor.
Nenhum homem exerceu tanta influência sobre a nossa civilização. Nenhum
escritor foi tão conhecido e teve suas obras tão divulgadas e
comentadas quanto ele. Embora tenha vivido sob fortes pressões internas e
externas, não deixou jamais sua alma ficar amargurada.
Paulo foi o maior bandeirante do cristianismo, seu expoente mais ilustre, seu
arauto mais eloquente, seu embaixador mais conspícuo. Pregou com zelo aos
gentios e aos judeus, nas escolas, cortes, palácios, sinagogas, praças e
prisão. Com a mesma motivação, pregou quando tinha fartura e também quando
passava por privações. Ele enriqueceu muitos, sem nada possuir. Embora
tenha experimentado fome e frio, suportado cadeias e tribulações, passado
os últimos dias numa masmorra e enfrentado o martírio por ordem de um
imperador insano, sua vida ainda inspira milhões de pessoas em todo o
mundo.
Sua conversão extraordinária foi um divisor de águas não só em sua vida, mas
também na história da humanidade. Antes dessa insólita experiência, foi o maior
perseguidor do cristianismo; depois dela, tornou-se seu maior arauto. Sua
vida foi vivida sempre com grande ardor e paixão. Antes de sua conversão,
seu zelo sem entendimento o levou a perseguir implacavelmente os cristãos.
Depois de sua conversão, seu zelo pela glória de DEUS o fez gastar-se sem
reservas pelos cristãos.
Convido você, leitor, a acompanhar comigo a vida desse gigante de DEUS.
Enquanto o veterano apóstolo nos toma pela mão e nos guia pelas veredas de suas
variadas experiências, é necessário termos os olhos abertos e o coração
disposto para aprender com ele preciosas e ricas lições. Que DEUS nos
ajude nessa gloriosa aventura! Hernandes Dias Lopes
Capítulo 01 -
Um religioso memorável
(Quem era esse homem que provocava verdadeiras revoluções por onde passava?
Quais eram suas credenciais? Quem eram seus pais? Onde nasceu? Como foi
educado? Que convicções religiosas nortearam-lhe os passos? Convido você a
fazermos uma viagem rumo ao passado, entrando pelos corredores do tempo, a
fim de descobrirmos essas respostas. Nossa fonte primária é a
Sagrada Escritura. Dela, emanam as informações mais importantes sobre a
vida, o ministério e a morte desse gigante do cristianismo. É tempo de
começarmos essa viagem!
Em primeiro lugar, Paulo era judeu por nascimento. Em sua defesa em Jerusalém,
após sua dramática prisão, teve a oportunidade de se dirigir à multidão
alvoroçada, dizendo: “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia...” (Atos
22.3). Seus pais eram judeus. O sangue que corria em suas veias era o
mesmo que corria nas veias do patriarca Abraão. Ao combater a ideia errada dos
falsos mestres judaizantes, que nutriam uma falsa confiança na sua
linhagem judaica, Paulo responde: “Bem que eu poderia confiar também na
carne. Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais:
circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu
de hebreus...” (Fp 3.4,5). Paulo era um judeu puro sangue. Um judeu da
gema. Procedia da mais importante tribo israelita, a de Benjamim.
Em segundo lugar, Paulo foi criado dentro da fé judaica. Paulo nasceu em Tarso
da Cilícia. Seus pais o educaram na fé judaica, uma vez que foi circuncidado ao
oitavo dia (Fp 3.5). Desde sua infância, bebeu o leite da piedade e
aprendeu os preceitos da lei de DEUS. Jamais foi um jovem devasso. O zelo
sempre ardeu em seu peito. Seu propósito em servir a DEUS foi o vetor
que governou sua vida. Dominava com grande desenvoltura o conhecimento da
lei e as opiniões mais importantes dos grandes mestres de sua época. Ele
se destacava dentro do judaísmo. Chegou mesmo a declarar: “E, na minha
nação, quanto ao judaísmo, avantajava-me a muitos da minha idade, sendo
extremamente zeloso das tradições de meus pais” (Gl 1.14).
Em terceiro lugar, Paulo foi educado em Jerusalém aos pés de Gamaliel. Perante
grande multidão em Jerusalém, Paulo dá seu testemunho: “... criei-me nesta
cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei
de nossos antepassados, sendo zeloso para com DEUS, assim como todos vós o
sois no dia de hoje” (Atos 22.3). Jerusalém era a cidade santa. Lá estavam
os escribas e doutores da lei. Lá estavam o templo e os sacrifícios. Lá
estavam a lei e as cerimônias. Lá estavam os sacerdotes e os rabinos. Lá
estava o sinédrio. Essa cidade transpirava religião. Tudo girava em torno
do sagrado. Na cidade de Davi, Paulo foi instruído aos pés de Gamaliel, o maior
e o mais ilustre rabino daquela época, homem culto, sábio e piedoso. Ele
foi instruído segundo a exatidão da lei dos seus antepassados. Conhecia
bem de perto as tradições do seu povo. Sabia de cor as inúmeras regras e
preceitos criados pelos anciãos. A tradição oral, fruto da interpretação meticulosa
e extravagante dos escribas, era observada cuidadosamente por esse jovem
brilhante.
Em quarto lugar, Paulo tinha uma vasta cultura secular. Paulo era um erudito.
Seu conhecimento transcendia o campo religioso. Estava familiarizado com o
conhecimento mais refinado de sua época. Paulo era um poliglota, ou seja,
falava vários idiomas. Trafegava com desenvoltura pelos corredores do
passado e citava com precisão os grandes pensadores e filósofos dos tempos
antigos. Quando pregou na capital intelectual do mundo, a Atenas de
Péricles, Sócrates, Platão e Aristóteles, não hesitou em citar alguns
poetas atenienses (Atos 17.28). Quando escreveu a Tito, na ilha de Creta,
fez referência a Epimênides, um filósofo cretense, do século 6 o a.C (Tt 1.12).
Paulo tinha uma cultura enciclopédica. Festo, mesmo fazendo troça do
apóstolo, precisou se curvar à realidade insofismável de que Paulo era um
homem de muitas letras (Atos 26.24). O próprio apóstolo Pedro faz
referência à sabedoria de Paulo, dizendo que ele escreveu coisas difíceis de
entender, que os ignorantes e instáveis deturpam para sua própria
destruição (2Pe 3.15,16).
Em quinto lugar, Paulo era fariseu, membro da seita mais rigorosa dos judeus.
Escrevendo aos filipenses, descreveu sua vida pretérita nestes termos: “...
quanto à lei, [eu era] fariseu...” (Fp 3.5). Diante do rei Agripa, quando
estava sendo acusado, em Cesareia, disse: “... porque vivi
fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião” (Atos 26.5). Como
fariseu, Paulo era zeloso da lei. Como fariseu, era extremamente zeloso
das tradições de seus pais (Gl 1.14). Como fariseu, frequentava
assiduamente a sinagoga. Como fariseu, dava o dízimo criteriosamente e
jejuava regularmente. Ele chega a afirmar que, quanto à justiça que há na
lei, era irrepreensível (Fp 3.6). Os fariseus eram os separados. Eles
compunham o grupo religioso mais ortodoxo de Israel. Os fariseus estavam
do lado oposto dos saduceus, grupo religioso que negava a ressurreição e
a existência dos anjos.
Em sexto lugar, Paulo era membro do sinédrio judaico. Paulo era o maior
embaixador do sinédrio judaico no sentido de promover a fé de seus pais. Por
outro lado, era o braço estendido desse mesmo sinédrio para neutralizar ou
desbaratar qualquer nova vertente religiosa que colocasse em risco sua tradição
religiosa. O sinédrio era o concílio maior dos judeus, composto de setenta
homens maduros, cuja função principal era legislar e julgar a vida
religiosa e moral do povo judeu. Governado especialmente pelos sacerdotes,
da seita dos saduceus, tinha nos fariseus seus membros mais zelosos da lei
(Atos 23.6). Ser membro do sinédrio era ser considerado um dos principais
dos judeus (Jo 3.1). Esse posto de honra dava-lhe projeção e grande
destaque na sociedade. Era um homem respeitado pelo seu conhecimento, pela
sua religiosidade e pelo zelo com que se devotava à causa do seu povo.
Em sétimo lugar, Paulo era um cidadão romano. Paulo, mesmo sendo filho de
judeus, era cidadão romano (Atos 22.27), pois nasceu numa província romana, em
Tarso da Cilícia. Recebeu o título de cidadão romano não mediante o
pagamento de grande soma de dinheiro (Atos 22.28a), mas por direito de
nascimento (Atos 22.28b). Um cidadão romano gozava de certos privilégios. Ele
não podia ser açoitado (Atos 22.25). Paulo não hesitou em lançar mão desse
privilégio sempre que necessário. Pelo menos duas vezes essa credencial de
Paulo o livrou das mãos das autoridades. A primeira vez, na cidade de
Filipos, colônia romana, onde Paulo foi açoitado e preso ilegalmente. Quando os pretores,
as autoridades locais, souberam que Paulo era romano, ficaram cheios de temor
e precisaram se desculpar com o apóstolo (Atos 16.35-40). A segunda vez,
quando Paulo foi preso em Jerusalém e estava sendo amarrado, para ser
interrogado sob açoites, em vista do alvoroço da multidão tresloucada,
Paulo pergunta: “... Ser-vos-á, porventura, lícito açoitar um cidadão
romano, sem estar condenado?” (Atos 22.25). Paulo não fazia propaganda de
suas prerrogativas, mas jamais deixou de usá-las quando isso se fazia
necessário. Humildade não é se esconder. Os humildes não tocam trombeta
fazendo alarde de seu conhecimento, poder ou influência. Os humildes não
querem ser menos do que são; mas jamais deixam de afirmar o que são,
quando isso contribui para a promoção do bem.
Capítulo 02 -
Um perseguidor implacável
O zelo sem entendimento pode ser uma arma perigosíssima. Muitos crimes
hediondos têm sido praticados em nome de DEUS. Com Paulo, não foi diferente.
Ele foi um perseguidor implacável (Gl 1.13). Ele usou sua influência e força
para esmagar os discípulos de CRISTO. Perseguiu CRISTO (Atos 26.9), a religião
de CRISTO (Atos 22.4) e os seguidores de CRISTO (Atos 26.11).
Paulo foi o mais severo perseguidor da igreja em seus albores. Olhando pelo
retrovisor, fazendo uma retrospectiva do seu passado, escreveu a Timóteo: “a
mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente...” (1Tm
1.13). Ele feria os cristãos com a língua e com os punhos. Fazia isso com
arrogância e soberba. Usava os instrumentos legais e também a truculência
física.
Paulo é visto como perseguidor
Ressaltamos, aqui, alguns pontos importantes: Paulo via a si mesmo como
perseguidor. Ao escrever à igreja de Corinto, diz que se considerava o menor
dos apóstolos e até não era digno de ser chamado apóstolo, uma vez que
havia perseguido a igreja de DEUS (1Co 15.9). Escrevendo aos gálatas,
testemunha: “Porque ouvistes qual foi o meu proceder outrora no judaísmo,
como sobremaneira perseguia eu a igreja de DEUS e a devastava” (Gl 1.13).
Diante do povo de Jerusalém, confessou: “Persegui este Caminho até à
morte, prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres” (Atos 22.4).
Diante do rei Agripa, ele testemunhou: “Na verdade, a mim me parecia
que muitas cousas devia eu praticar contra o nome de JESUS, o Nazareno; e
assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais
sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o
meu voto, quando os matavam. Muitas vezes, os castiguei por todas
as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar. E, demasiadamente enfurecido
contra eles, mesmo por cidades estranhas os perseguia” (Atos 26.9-11).
CRISTO o viu como perseguidor. Quando Paulo, enfurecidamente, ia para Damasco
com o propósito de manietar e trazer amarrados os discípulos de CRISTO para
Jerusalém a fim de lançá-los na prisão, CRISTO apareceu-lhe, de maneira
gloriosa, na estrada de Damasco, perguntando-lhe: “... Saulo, Saulo, por
que me persegues? Dura cousa é recalcitrares contra os aguilhões” (Atos 26.14).
Perseguir a igreja é perseguir CRISTO. Perseguir os membros do Corpo é
perseguir a Cabeça do Corpo. Perseguir a noiva é perseguir o Noivo. Paulo
não estava apenas se levantando contra homens, mas contra o próprio DEUS.
Aqueles que ferem os santos de DEUS tocam na menina dos olhos de DEUS.
O povo de Damasco o viu como perseguidor. O zelo sem entendimento pode levar um
homem a fazer loucuras. Paulo atacou furiosamente os cristãos. Ananias, morador
de Damasco, disse ao Senhor acerca dele: “... Senhor, de muitos tenho
ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em
Jerusalém; e para aqui trouxe autorização dos principais sacerdotes
para prender a todos os que invocam o teu nome” (Atos 9.13,14). O mesmo
aconteceu logo que começou a pregar em Damasco. A reação do povo foi
imediata: “Ora, todos os que o ouviam estavam atônitos e diziam: Não é
este o que exterminava em Jerusalém os que invocavam o nome de JESUS e para
aqui veio precisamente com o fim de os levar amarrados aos principais
sacerdotes?” (Atos 9.21).
Os discípulos de Jerusalém o viram como perseguidor. Quando Paulo fugiu de
Damasco e foi para Jerusalém com a intenção de ser acolhido pelos discípulos,
eles não acreditaram nele. Pensaram que se tratava de mais um estratagema
para perseguir os cristãos. Lucas relata esse fato assim: “Tendo chegado a
Jerusalém, procurou juntar-se com os discípulos; todos, porém, o temiam,
não acreditando que ele fosse discípulo” (Atos 9.26).
Paulo é um perseguidor cruel e resistente
Duas descrições metafóricas ilustram a crueldade das perseguições de Paulo aos
cristãos.
Primeiro, ele é visto como uma fera selvagem. A igreja em Jerusalém foi
duramente perseguida, e muitos cristãos fugiram, pregando o evangelho (Atos
8.1-4). Alguns deles foram para Damasco. E agora, Paulo, ainda respirando
ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dispõe-se a ir a Damasco
para manietar, prender e arrastar presos para Jerusalém aqueles que professavam
o nome de CRISTO (Atos 9.1,2). Ele queria destruir os crentes em
Jerusalém, por isso os caçava por toda parte, para trazê-los de volta a
Jerusalém e ali os exterminar.
Essa expressão “respirando ameaças e morte” literalmente é a mesma para
descrever uma fera selvagem que furiosamente extermina o corpo de uma presa. Na
linguagem dos crentes de Damasco, Paulo era um exterminador (Atos 9.21).
Paulo era um monstro celerado, um carrasco impiedoso, um perseguidor
truculento, um tormento na vida dos cristãos primitivos.
A expressão “respirando ainda ameaças e morte” era também uma alusão ao arfar e
ao bufar dos animais selvagens. Paulo parecia mais um animal selvagem do que um
homem. Em suas próprias palavras, ele estava “demasiadamente enfurecido”
(Atos 26.11). Nada é mais perigoso do que o radicalismo religioso sem
entendimento. Muitas “guerras santas” já foram declaradas por causa dessa
atitude ensandecida. Milhares de pessoas já morreram em nome de DEUS para
sustentar essa causa inglória. Muito sangue já foi derramado para
satisfazer os caprichos desses religiosos dominados pelo zelo sem
entendimento.
A expressão “respirando ameaças e morte” descreve também uma fera selvagem
saltando sobre a presa para devorá-la. Paulo era uma fera selvagem, uma ameaça
concreta para todos aqueles que confessavam o nome de JESUS. Não poupava
homens nem mulheres. Perseguiu a religião do Caminho até a morte (Atos
22.4). Estava determinado a praticar muitas coisas contra o nome de JESUS,
o Nazareno (Atos 26.9). Ele estava determinado a banir da terra o cristianismo.
Não podia aceitar que um nazareno, crucificado como um criminoso, pudesse
ser o Messias prometido de DEUS. Não podia aceitar que os cristãos
anunciassem a ressurreição daquele que havia sido dependurado numa cruz.
Não podia crer que uma pessoa pregada na cruz e, consequentemente, considerada
pecadora e maldita pudesse ser o Salvador do mundo.
Segundo: ele é visto como um touro bravo. O Senhor JESUS, mesmo sendo
perseguido por Paulo, não abriu mão de sua vida. A fúria de Paulo pelo nome de
JESUS, o Nazareno, não anulou o propósito eletivo de DEUS, que escolheu
Paulo antes mesmo de ele nascer e o separou para o ministério. Paulo mesmo
testemunhou esse fato: “Quando, porém, ao que me separou antes de
eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve revelar seu Filho em mim...”
(Gl 1.15,16). Um touro bravo é amansado pelo aguilhão. O Senhor começou a
ferroar sua consciência, ao mostrar como aqueles discípulos presos,
torturados e mortos morriam com serenidade. O algoz estava furioso, mas as
vítimas morriam cantando e orando.
Quando Estêvão foi apedrejado em Jerusalém, e se derramava o seu sangue, Paulo
consentia em sua morte e guardava as vestes daqueles que o apedrejavam (Atos
22.20). Paulo, porém, recusava-se a ceder mesmo diante desses aguilhões.
Como uma fera selvagem, dirigiu-se a Damasco. Respirava ameaças e morte
(Atos 9.1). Seu prazer era matar em nome de DEUS aqueles que abraçavam a
fé cristã. JESUS então aparece-lhe em refulgente glória no caminho de
Damasco, derruba-o ao chão e lhe pergunta: “... Saulo, Saulo, por que me
persegues? Dura cousa é recalcitrares contra os aguilhões” (Atos 26.14). O
boi bravo, enfim, estava no chão, subjugado, manso, domado (Atos
9.3-5). Uma força maior do que seu ódio entrou em seu peito. Uma luz maior
do que seu zelo o dominou. Aquele a quem ele perseguia com todas as forças
da sua alma, agora conquista seu coração. Quebrado e submisso, ele
pergunta: “Quem és tu, Senhor?”. E o Senhor responde: “Eu sou JESUS,
a quem tu persegues” (Atos 26.15).
Paulo é um perseguidor violento
A Bíblia faz descrições dos variados métodos usados por Paulo para perseguir os
discípulos de CRISTO. Vamos analisar esses métodos.
Em primeiro lugar, Paulo perseguia os cristãos usando o recurso da lei. Paulo
usava sua influência e seu trânsito no sinédrio para munir-se de cartas de
autorização dos principais sacerdotes a fim de encerrar em prisões e matar
os cristãos (Atos 26.10). Sua perseguição tinha um ar de legalidade
e oficialidade. Ele representava o braço repressor da lei religiosa. Ele
lançava mão de artifícios legais para impor aos discípulos de CRISTO as
mais duras sanções. É importante ressaltar que nem tudo o que é legal é
moral. Nem tudo que é lícito é conveniente. Nem tudo o que a lei permite deve
ser feito. Há muitos facínoras que se escondem atrás da lei para matar e
oprimir os inocentes. Há muitos espertalhões que, despudoradamente,
beneficiam-se das filigranas da lei para se abastecerem e oprimirem o
pobre. Há aqueles que fazem as leis, torcem-nas e as manipulam para alcançar
seus propósitos escusos e inconfessos.
Em segundo lugar, Paulo perseguia os cristãos em seus redutos religiosos. Paulo
perseguia e castigava os cristãos por todas as sinagogas em Jerusalém, bem como
por cidades estranhas (Atos 26.11). Sua área de jurisdição transcendia os
limites da Palestina. Suas cruzadas furiosas avançavam além dos limites de
Israel e chegavam até Damasco, na Síria (Atos 9.1,2). As sinagogas eram os
locais principais de reunião, onde os judeus se congregavam para estudar a
lei e orar. Ali também os cristãos se reuniam para adorar CRISTO e cultuá-lo.
O lugar de comunhão transformou-se num palco de opressão. O abrigo da
sinagoga tornou-se um corredor de perseguição. Paulo não respeitava
os recintos sagrados. Ele pensava com isso estar prestando um serviço a
DEUS.
Em terceiro lugar, Paulo empregava a tortura psicológica. A perseguição
impetrada por essa fera selvagem e por esse boi bravo não consistia apenas em
sanções legais contra os novos convertidos. Ele os castigava não apenas
fisicamente, mas também psicologicamente. Ele mesmo testemunha: “Muitas vezes,
os castiguei por todas as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar...” (Atos
26.11). Ele era blasfemo (1Tm 1.13) e forçava os neófitos a blasfemarem.
Alguns crentes, novos na fé, com medo da morte, recuavam e blasfemavam.
Outros, porém, suportavam os açoites, as prisões e a morte, permanecendo
fiéis (Atos 26.10). A tortura psicológica é pior do que o castigo físico.
Os campos de concentração nazistas usaram esse artifício maldito e levaram
muitas pessoas à loucura. Ainda hoje, a tortura é um dos instrumentos mais
aviltantes e ignominiosos, usados para arrancar confissões e declarações
que incriminam as vítimas ou aqueles que se quer condenar.
Em quarto lugar, Paulo empregava a tortura física. Em sua carta aos Coríntios,
Paulo diz que perseguiu a igreja de DEUS (1Co 15.9). Aos crentes da Galácia,
seu relato é ainda mais contundente: “Porque ouvistes qual foi o meu
proceder outrora no judaísmo, como sobremaneira perseguia eu a igreja de
DEUS e a devastava” (Gl 1.13). Nessa perseguição, usou vários métodos:
Ele caçava os crentes por todas as partes. Paulo era um caçador implacável
(Atos 9.2; 22.5; 26.9). Ele não se contentou apenas em perseguir os cristãos em
Jerusalém; caçava-os por todas as cidades estranhas. Agora, escoltado por
uma soldadesca do sinédrio, marcha para Damasco, capital da Síria, para
prender os cristãos e levá-los manietados para Jerusalém (Atos 9.2). Seu
propósito em prender os cristãos em Damasco era trazê-los para Jerusalém e
puni-los, exatamente no local onde eles afirmavam que JESUS havia
ressuscitado (Atos 22.5). Sua intenção não era apenas castigar os
cristãos, mas jogar uma pá de cal no cristianismo.
Seu ódio, na verdade, não era propriamente contra os cristãos, mas contra
CRISTO. Ele testemunha ao rei Agripa: “Na verdade, a mim me parecia que muitas
coisas devia eu praticar contra o nome de JESUS, o Nazareno” (Atos 26.9).
Escrevendo a seu filho Timóteo, Paulo testemunha: “a mim, que, noutro
tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente...” (1Tm 1.13).
Paulo, ao perseguir a igreja, estava perseguindo o próprio CRISTO. Por isso,
quando JESUS aparece-lhe no caminho de Damasco, pergunta: “Saulo, Saulo, por
que me persegues?” (Atos 9.4). Ele então indaga: “Quem és tu, Senhor?”. E a
resposta foi: “Eu sou JESUS, o Nazareno, a quem tu persegues” (Atos 9.5).
Diante do sinédrio, Paulo disse: “Persegui este Caminho até à morte, prendendo
e metendo em cárceres homens e mulheres” (Atos 22.4). O povo de Damasco,
ao ouvir a pregação de Paulo, logo depois da sua conversão, reafirma como
Paulo perseguiu de forma implacável os crentes: “... Não é este o que
exterminava em Jerusalém os que invocavam o nome de JESUS e para aqui veio
precisamente com o fim de os levar amarrados aos principais sacerdotes?” (Atos
9.21).
Ele manietava os crentes. Ao entrar nas sinagogas, Paulo não apenas dava ordem
de prisão aos crentes, mas os amarrava e os levava assim aos principais
sacerdotes (Atos 9.21). Ele corrobora: “... e ia para Damasco, no
propósito de trazer manietados para Jerusalém os que também lá
estivessem, para serem punidos” (Atos 22.5).
Ele encerrava os crentes em prisões. O propósito de Paulo em ir a Damasco era
descobrir lá alguns crentes a fim de levá-los presos para Jerusalém (Atos 9.2).
Ele diz ao povo de Jerusalém: “Persegui este Caminho até à morte,
prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres” (Atos 22.4). Depois de
sua conversão, quando DEUS o mandou sair de Jerusalém, Paulo tentou argumentar
com DEUS, dizendo: “... Senhor, eles bem sabem que eu encerrava em prisão
[...] os que criam em ti” (Atos 22.19).
Ele açoitava os crentes. Paulo não somente acorrentava e prendia os cristãos,
mas também os castigava fisicamente (Atos 22.5). Ele disse: “... Senhor, eles
bem sabem que eu [...] açoitava os que criam em ti” (Atos 22.19). Diante
de Agripa, Paulo declara: “Muitas vezes, os castiguei por todas
as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar. E, demasiadamente enfurecido
contra eles, mesmo por cidades estranhas os perseguia” (Atos 26.11). Paulo
era um carrasco, um homem truculento, selvagem, bárbaro, um monstro
celerado em seu zelo ensandecido.
Ele matava os crentes. Paulo não apenas caçava os crentes como uma fera
selvagem caça a sua presa, como também os devorava. Ele não apenas os
acorrentava, prendia e açoitava, mas também os matava. Ele devastava a
igreja. Sempre que o sinédrio deliberava sobre a morte dos
crentes encerrados em prisão, Paulo dava seu voto para que fossem mortos.
Diz ele: “e assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização
dos principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e
contra estes dava o meu voto, quando os matavam” (Atos 26.10). Diante da
multidão amotinada de Jerusalém, Paulo testemunhou: “Quando se derramava o
sangue de Estêvão, tua testemunha, eu também estava presente, consentia
nisso e até guardei as vestes dos que o matavam” (Atos 22.20).
Capítulo 03 -
Um touro indomável
A conversão de Paulo foi a mais importante da história. Talvez nenhum fato seja
mais marcante na história da igreja depois do Pentecostes. Nenhum homem exerceu
tanta influência no cristianismo. Nenhum homem foi tão notório na história da
humanidade. Lucas ficou tão impressionado com a importância da conversão
de Paulo que ele a relata três vezes em Atos (Atos 9, 22, 26). Destacamos
alguns pontos sobre a conversão de Paulo.
Paulo não se converteu; ele foi convertido
A causa da conversão de Paulo foi a graça soberana de DEUS. Ele não se decidiu
por CRISTO; estava perseguindo CRISTO. Na verdade, foi CRISTO quem se decidiu
por ele.
Paulo estava caçando os cristãos para prendê-los, e CRISTO estava caçando Paulo
para salvá-lo (Atos 9.1-6). Não era Paulo que estava buscando a JESUS; era
JESUS quem estava buscando a Paulo. A salvação de Paulo não foi iniciativa
dele; foi iniciativa de JESUS. Não foi Paulo quem clamou por JESUS; foi
JESUS quem chamou pelo nome de Paulo. A salvação é obra exclusiva de DEUS. Não
é o homem que se reconcilia com DEUS; é DEUS quem está em CRISTO
reconciliando consigo o mundo (2Co 5.18).
Paulo não é salvo por seus méritos; ele era uma fera selvagem, um perseguidor
implacável, um assassino insensível. Seus predicados religiosos, nos quais
confiava (circuncidado, fariseu, hebreu de hebreus, da tribo de Benjamim),
ele considerou como esterco (Fp 3.8, ARC). A nossa justiça aos olhos de
DEUS não passa de trapo de imundícia (Is 64.6).
Paulo era um touro bravo que resistiu aos aguilhões
A conversão de Paulo não foi de maneira nenhuma repentina. De acordo com a
própria narrativa de Paulo, JESUS lhe disse: “... Dura cousa é recalcitrares
contra os aguilhões” (Atos 26.14). JESUS comparou Paulo a um touro jovem,
forte e obstinado, e ele mesmo, a um fazendeiro que usa aguilhões para
domá-lo.
DEUS já estava trabalhando na vida de Paulo antes de ele se render no caminho
de Damasco. Paulo era como um touro bravo que recalcitrava contra os aguilhões
(Atos 26.14). JESUS já estava ferroando sua consciência quando ele viu
Estêvão sendo apedrejado e com rosto de anjo pedir ao Senhor para perdoar
seus algozes. A oração de Estêvão ainda latejava na alma de Paulo.
JESUS estava ferroando a consciência de Paulo quando ele prendia os cristãos e
dava seu voto para matá-los, e eles morriam cantando. Mas, como esse boi
selvagem não amansou com as ferroadas, JESUS apareceu a ele, o derrubou ao
chão e o subjugou totalmente no caminho de Damasco. Isso nos prova que a
eleição de DEUS é incondicional, que a graça de DEUS é irresistível, e que seu
chamado é irrecusável. Paulo precisou ser jogado ao chão e ficar cego para
se converter. Nabucodonosor precisou ir para o campo comer capim com os
animais para se dobrar. Até quando você vai resistir à voz do ESPÍRITO de
DEUS?
A conversão de Paulo no caminho de Damasco era o clímax repentino de um longo
processo em que o “Caçador dos céus” tinha estado em seu encalço. Curvou-se a
dura cerviz autossuficiente. O touro estava domado.
Paulo era um intelectual que resistiu à lógica divina (Atos 9.4-8)
Se a conversão de Paulo não foi repentina, também não foi compulsiva. CRISTO
falou com ele em vez de esmagá-lo. CRISTO o jogou ao chão, mas não violentou
sua personalidade. Sua conversão não foi um transe hipnótico. JESUS apelou
para sua razão e para seu entendimento.
JESUS perguntou: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Paulo respondeu: “Quem
és tu, Senhor?”. JESUS respondeu: “Eu sou JESUS, a quem tu persegues”. JESUS
ordenou: “Mas levanta-te”, e Paulo prontamente obedeceu! A resposta e a
obediência de Paulo foram racionais, conscientes e livres.
A soberania de DEUS não anula a responsabilidade humana. JESUS picou a mente e
a consciência de Paulo com os seus aguilhões. Então ele se revelou através da
luz e da voz, não para esmagá-lo, mas para salvá-lo. A graça de DEUS não
aprisiona. É o pecado que prende. A graça liberta!
Paulo foi um homem completamente transformado (Atos 9.3-20)
Destacamos três fatos benditos sobre essa súbita conversão de Paulo:
Em primeiro lugar, uma gloriosa manifestação de JESUS (Atos 9.3-6). Três coisas
aconteceram a Paulo:
Paulo viu uma luz (Atos 22.6,11). Subitamente, uma grande luz do céu brilhou ao
seu redor. Aquilo não foi uma miragem, um êxtase, uma visão subjetiva. Foi uma
grande luz do céu tão forte que lhe abriu os olhos da alma e tirou-lhe a
visão física. Ele ficou cego por causa do fulgor daquela luz (Atos 22.11).
Não foi apenas uma luz que apareceu a Paulo, mas o próprio JESUS (Atos 9.17).
Aquela luz era a glória do próprio Filho de DEUS ressurreto.
Paulo caiu por terra (Atos 22.7). O touro furioso, selvagem e indomável estava
subjugado. Aquele que prendia estava preso. Aquele que encerrava em prisão
estava dominado. Aquele que se achava detentor de todo o poder para
perseguir estava prostrado ao chão, impotente. O Senhor quebrou todas as
suas resistências.
Paulo ouviu uma voz (Atos 22.7). O mesmo JESUS que ferroara sua consciência com
aguilhões troveja, agora, aos seus ouvidos, desde o céu: “... Saulo, Saulo, por
que me persegues? Dura cousa é recalcitrares contra os aguilhões” (Atos
26.14). A voz do Senhor é poderosa. Ela despede chamas de fogo. Faz tremer
o deserto. É irresistível. Paulo então perguntou: “... quem és tu, Senhor? Ao
que JESUS respondeu: “... Eu sou JESUS, o Nazareno, a quem tu persegues”
(Atos 22.8). O mesmo Paulo que perseguia a JESUS (Atos 26.9) chama, agora,
JESUS de Senhor. Ele se curva. Ele se prostra. O boi selvagem foi
subjugado! Não há salvação sem que o pecador se renda aos pés do Senhor JESUS.
Em segundo lugar, uma humilde entrega de Paulo (Atos 22.8,10). Três coisas
devem ser destacadas:
Paulo reconhece que JESUS é o Senhor (Atos 22.8). Aquele a quem ele resistira e
perseguira é de fato o Senhor. Verdadeiramente, ele ressuscitou dentre os
mortos. Verdadeiramente, ele é o Messias, o Filho de DEUS. Aquela luz
brilhou na sua alma, iluminou seu coração, tirou as escamas dos seus olhos
espirituais (2Co 3.16).
Paulo reconhece que é pecador (Atos 22.8). Paulo toma conhecimento de que seu
zelo religioso não agradava a DEUS. Na verdade, estava perseguindo o próprio
Filho de DEUS. Ele reconhece que é o maior de todos os pecadores.
Reconhece que está perdido e precisa da salvação.
Paulo reconhece que precisa ser guiado pelo Senhor (Atos 22.10). A
autossuficiência de Paulo acaba no caminho de Damasco. Ele agora pergunta: “...
que farei, Senhor?...” (Atos 22.10). Agora quer ser guiado! Está pronto a
obedecer. Ele que esperava entrar em Damasco na plenitude de seu orgulho
e bravura, como um autoconfiante adversário de CRISTO, estava sendo guiado
por outros, humilhado e cego, capturado pelo CRISTO a quem se opunha. O
Senhor ressurreto aparecera a ele. A luz que viu era a glória de CRISTO, e
a voz que ouviu era a voz de CRISTO. CRISTO o capturou antes que ele pudesse capturar
qualquer crente em Damasco.
Em terceiro lugar, uma evidência incontestável da conversão de Paulo (Atos
9.10-20). Três verdades nos provam essa tese:
Paulo evidencia sua conversão pela vida de oração (Atos 9.10,11). A prova que
DEUS deu a Ananias de que Paulo agora era um irmão, e não um perseguidor, é que
ele estava orando. Quem nasce de novo tem prazer de clamar “Aba Pai”. Quem
é salvo tem prazer na comunhão com o Pai. Paulo é convertido e logo começa
a orar!
Paulo evidencia sua conversão pelo recebimento do ESPÍRITO SANTO (Atos 9.17).
Ananias impõe as mãos sobre ele, e ele recebe o ESPÍRITO e fica cheio do
ESPÍRITO SANTO. Charles Spurgeon disse que é mais fácil você convencer um
leão a ser vegetariano do que uma pessoa ser convertida sem a ação
do ESPÍRITO SANTO.
Paulo evidencia sua conversão pelo recebimento do batismo (Atos 9.18). Não é o
batismo que salva, mas o salvo deve ser batizado. O batismo é um testemunho da
salvação. Uma pessoa que crê precisa ser batizada e integrada na igreja.
Ananias chamou Paulo de irmão. Ele entrou para a família de DEUS.
Capítulo 04 -
Uma pedra bruta lapidada
Depois de convertido, logo Paulo se transforma em pregador do evangelho. Em vez
de perseguir os cristãos, promove a fé evangélica. Em vez de tapar a boca dos
cristãos, abre a boca para testemunhar do nome de JESUS. Destaco três mudanças
radicais que aconteceram na vida de Paulo depois de sua conversão:
Em primeiro lugar, de agente de morte a pregador do evangelho. Paulo tornou-se
um embaixador de CRISTO, um pregador do evangelho imediatamente após sua
conversão (Atos 9.20). DEUS mesmo o escolheu para levar o evangelho aos
gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel (Atos 9.15).
Paulo pregou a tempo e fora de tempo. Em prisão e em liberdade. Com saúde ou
doente. Pregou nos lares, nas sinagogas, no templo, nas ruas, nas praças, na
praia, no navio, nos salões governamentais, nas escolas. Paulo pregou com
senso de urgência, com lágrimas e no poder do ESPÍRITO SANTO.
Aonde ele chegava, os corações eram impactados com o evangelho. Ele pregava não
apenas usando palavras de sabedoria, mas com demonstração do ESPÍRITO e de
poder (1Co 2.4; lTs 1.5).
Em segundo lugar, de devastador da igreja a plantador de igrejas. DEUS
encorajou Ananias a ir ao encontro de Saulo em Damasco, dando-lhe as seguintes
palavras: “... Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para
levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de
Israel” (Atos 9.15). O Senhor mesmo levantou Paulo como o maior evangelista, o
maior missionário, o maior pastor, o maior pregador, o maior teólogo e o
maior plantador de igrejas da história do cristianismo. Ele plantou
igrejas na região da Galácia, nas províncias da Macedônia, Acaia e Asia
Menor. Não apenas plantou igrejas, mas pastoreou-as com intenso zelo,
com profundo amor e com grave senso de responsabilidade. Pesava sobre ele
a preocupação com todas as igrejas (2Co 11.28).
Em terceiro lugar, de receptor de cartas para prender e matar a escritor de
cartas para abençoar e salvar. Como perseguidor e exterminador dos cristãos,
Paulo pedia cartas para prender, amarrar e matar os crentes (Atos 9.2,14).
Mas, depois de convertido, ele escreve cartas para abençoar. Paulo foi o
maior escritor do Novo Testamento. Ele escreveu treze cartas. Suas cartas
são mais conhecidas do que qualquer obra jamais escrita na história da
humanidade. Suas cartas têm sido alimento diário para milhões de crentes
em todos os tempos. Essas cartas são luzeiros que brilham; são pão que
alimenta; são água que dessedenta; são verdades inspiradas pelo ESPÍRITO
SANTO que ensinam, exortam e levam pessoas a CRISTO todos os dias!
Vejamos, agora, como DEUS trabalhou na vida de Paulo até transformá-lo no
apóstolo que foi. Mesmo que sua conversão tenha sido genuína e radical, seu
amadurecimento foi progressivo.
Pregando em Damasco
Logo após ser curado da cegueira, ser batizado e ter recebido o ESPÍRITO, Paulo
começou a pregar em Damasco, afirmando que JESUS é o Filho de DEUS (Atos 9.20).
Sua pregação consistia apenas numa declaração de que aquele a quem ele
perseguia era o Filho de DEUS. Essa pregação causou espanto nos
damascenos, em virtude de sua reputação de exterminador dos que invocavam o
nome de JESUS (Atos 9.21).
Seminário intensivo com JESUS na Arábia
Há um intervalo muito importante na vida de Paulo entre Atos 9.20,21 e Atos
9.22. No começo, Paulo apenas pregava e afirmava que JESUS era o Filho de DEUS
(Atos 9.20,21). Mas, depois, Paulo mais e mais se fortalecia e confundia
os judeus que moravam em Damasco, demonstrando que JESUS é o CRISTO (Atos
9.22). Demonstrar é mais do que afirmar. Demonstrar é provar cuidadosa
e meticulosamente o que se afirma. Demanda um exame acurado, uma
investigação precisa, uma análise profunda.
Onde Paulo esteve e o que aprendeu para passar do primeiro estágio da afirmação
para o segundo estágio da demonstração? O livro de Atos não nos responde, mas
encontramos a resposta na carta aos Gálatas. Após sua conversão, Paulo não
foi para Jerusalém, onde estavam os apóstolos, mas rumou para as regiões
da Arábia (Obs.: Pr. Henrique – Monte Horebe, 40 dias em Jejum e Oração como
Moisés e Elias), onde permaneceu fazendo um seminário intensivo com o
próprio Senhor JESUS. O próprio Paulo registra esse fato, assim: “Faço-vos,
porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o
homem, porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante
revelação de JESUS CRISTO” (Gl 1.11,12).
Paulo narra como foi que isso aconteceu: “¹⁵ Mas, quando aprouve a Deus,
que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça,
¹⁶ Revelar seu
Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, imediatamente, não
consultei a carne nem o sangue, ¹⁷ Nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já
antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a
Damasco. ¹⁸ Depois, passados três anos, fui a Jerusalém para ver a Pedro, e
fiquei com ele quinze dias. Gálatas 1:15-18 | ACF
Não sabemos
quanto tempo Paulo passou na Arábia. Depois que voltou da Arábia ficou 3 anos
em Damasco pregando. Depois foi a Jerusalém e se encontrou com Pedro.
Pregação mais precisa em Damasco
Ao voltar das regiões da Arábia para Damasco é que Paulo, agora, não apenas
afirma, mas demonstra que JESUS é o CRISTO, o Messias prometido (Atos 9.22).
Em vez de sua pregação encontrar guarida em Damasco, encontra, pelo contrário,
severa resistência. Paulo precisa fugir de maneira humilhante num cesto muralha
abaixo para salvar a vida. Depois de pouco mais de três anos de sua conversão,
de Damasco ele vai a Jerusalém (Gl 1.18).
Rejeição e acolhimento em Jerusalém
Ao chegar a Jerusalém, a recepção de Paulo não foi nada calorosa. Os
discípulos não acreditavam na sinceridade de sua conversão. Pensavam que ele
estava blefando e armando uma cilada para perseguir a igreja. Essa
rejeição, possivelmente, foi mais um golpe que Paulo sofreu ainda
nos albores da sua caminhada. Estava colhendo os frutos de sua semeadura.
Eis o relato de Lucas: “Tendo chegado a Jerusalém, procurou [Paulo]
juntar-se com os discípulos; todos, porém, o temiam, não acreditando que
ele fosse discípulo” (Atos 9.26).
Barnabé, o filho da consolação, viu Paulo com outros olhos. Acreditou nele e
investiu em sua vida. Assim Lucas relata: “Mas Barnabé, tomando-o consigo,
levou-o aos apóstolos; e contou-lhes como ele vira o Senhor no caminho, e
que este lhe falara, e como em Damasco pregara ousadamente em nome de
JESUS” (Atos 9.27). Barnabé foi o instrumento usado por DEUS
para introduzir Paulo na comunidade cristã de Jerusalém, cidade onde ele
outrora devastara a fé que agora pregava (Gl 1.23).
Uma exagerada confiança em si mesmo
Uma vez acolhido na igreja-mãe, onde outrora perseguira com tanta fúria os
cristãos, Paulo tem livre trânsito para sair da cidade e entrar nela, a fim de
pregar aos judeus e discutir com os helenistas. Mas toda essa desenvoltura
não alcança os resultados que Paulo esperava. Talvez até aqui Paulo
ainda estivesse confiando em si mesmo para obter sucesso em seu ministério.
Ainda estava vivendo sob a égide da antiga aliança.
Em vez de frutos do seu trabalho, enfrenta mais perseguição. Eis o relato de
Lucas: “Estava com eles em Jerusalém, entrando e saindo, pregando ousadamente
em nome do Senhor. Falava e discutia com os helenistas; mas eles
procuravam tirar-lhe a vida” (Atos 9.28,29).
Ao dar testemunho de sua conversão muitos anos depois, ao ser preso nessa mesma
cidade de Jerusalém, Paulo narra uma experiência dramática. Ele não foi apenas
rejeitado pelo povo da cidade. Foi dispensado também da obra pelo próprio
DEUS. Acompanhemos o relato que o próprio apóstolo faz: “Tendo eu voltado
para Jerusalém, enquanto orava no templo, sobreveio-me um êxtase, e vi
aquele que falava comigo: Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque não
receberão o teu testemunho a meu respeito” (Atos 22.17,18).
Em vez de DEUS mudar os oponentes de Paulo, é Paulo que tem de mudar e sair da
cidade. Paulo não quer sair da igreja de Jerusalém. Ele chega a discutir com
DEUS. Pensa que DEUS está cometendo um erro estratégico ao tirá-lo desse
campo. Ele pensa ser o homem certo para essa empreitada. Mas DEUS não
cede; é Paulo que tem de arrumar as malas e ir embora. Vejamos
a argumentação de Paulo com DEUS: “Eu disse: Senhor, eles bem sabem que eu
encerrava em prisão e, nas sinagogas, açoitava os que criam em ti. Quando
se derramava o sangue de Estêvão, tua testemunha, eu também estava presente,
consentia nisso e até guardei as vestes dos que o matavam. Mas ele me
disse: Vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios” (Atos 22.19-21).
Como Paulo reluta em sair, ele é retirado pelos irmãos: “Tendo, porém,
isto chegado ao conhecimento dos irmãos, levaram-no até Cesareia e dali o
enviaram para Tarso” (Atos 9.30).
O jovem Paulo sofre mais um golpe em seu orgulho. Quando ele arruma as malas e
vai embora de Jerusalém, imediatamente os problemas da igreja se resolvem: “A
Igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria,
edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do ESPÍRITO
SANTO, crescia em número” (Atos 9.31). Talvez nada fira tanto o orgulho de
um pastor do que sair da igreja e ver que após sua saída todos os
problemas dela se resolvem. Volte para casa, jovem!
Paulo saiu de Jerusalém e foi para Tarso, sua cidade natal. E ali ficou não
pouco tempo no anonimato, num completo ostracismo. Nada sabemos desse longo
período de sua vida. Aquele que estava com a mente povoada de muitos sonhos,
e nutrindo na alma o ideal de pregar a Palavra em Jerusalém, está, agora,
sozinho, esquecido, fora do palco, longe das luzes da ribalta.
É importante perceber que DEUS ainda está tratando com ele. Na verdade, DEUS
está mais interessado em quem nós somos do que no que fazemos. Vida com DEUS
precede trabalho para DEUS. A nossa maior prioridade não é fazer a obra de
DEUS, mas conhecer o DEUS da obra. O DEUS da obra é mais importante do que
a obra de DEUS. Paulo precisava aprender que o sucesso na obra não vinha
dele mesmo, mas de DEUS. Ele precisava passar da antiga aliança para a nova
aliança. Na antiga aliança, tudo depende de nós e nada, de DEUS; na nova
aliança, tudo depende de DEUS e nada, de nós. Se quisermos fazer a obra de
DEUS fiados em nossas próprias forças, fracassaremos. Se dependermos
apenas dos nossos recursos, nos frustraremos. A nossa suficiência vem de DEUS.
Tarso não foi um acidente na vida de Paulo, mas uma escola de treinamento. O
deserto é a escola superior do ESPÍRITO SANTO onde DEUS treina seus líderes
mais importantes. Tarso foi o deserto de Paulo. O deserto não é um
acidente em nossa vida, mas uma agenda de DEUS. É DEUS quem nos leva para
o deserto. Não gostamos do deserto. Ele não nos promove. Ele nos tira do palco.
Ele apaga as luzes dos holofotes e nos deixa sem qualquer projeção. DEUS
nos leva para o deserto não para nos exaltar, mas para nos humilhar. O
deserto é o lugar onde DEUS treina seus líderes mais importantes. DEUS não
tem pressa quando se trata de preparar os seus líderes. Vivemos
numa geração que tem muita pressa. Gostamos de restaurantes fast-food. Mas
os líderes não podem amadurecer no carbureto. Eles não podem pular o
estágio do deserto. DEUS preparou Moisés quarenta anos para usá-lo durante
quarenta anos. DEUS preparou Elias três anos e meio para usá-lo num único
dia, no cume do monte Carmelo. O Senhor JESUS só começou seu ministério com
30 anos de idade. Paulo passou quatorze anos em Tarso antes de ser
poderosamente usado por DEUS na obra missionária.
Aprenda a ser liderado antes de poder liderar
A evangelização do mundo estava a todo vapor, e isso sem a contribuição de
Paulo. Não há pessoas indispensáveis na obra. Somos apenas cooperadores, e não
os agentes da obra. O evangelho chegou a Antioquia, a terceira maior
cidade do mundo daquela época. A igreja de Jerusalém enviou para lá o
mesmo Barnabé que havia acolhido Paulo em Jerusalém. Ao chegar ali, alegrou-se
ao ver a obra de DEUS prosperando e lembrou-se de Paulo. Foi atrás dele e
o buscou para engrossar fileiras no ministério da evangelização e do
ensino naquela cidade metropolitana.
Durante um ano, eles ensinaram a Palavra de DEUS em Antioquia. A igreja era
multicultural e multirracial. Fortalecida na Palavra, a igreja orava e jejuava.
Foi nesse tempo que o ESPÍRITO SANTO separou Barnabé e Paulo para a grande
obra missionária, enviando-os para uma viagem missionária transcultural. É
digno de nota, porém, que o ESPÍRITO SANTO separou Barnabé e Paulo, e não Paulo
e Barnabé. O líder não era Paulo. Ele precisava aprender a ser liderado
antes de poder liderar. Ele precisava estar sob a autoridade de alguém
antes de poder exercer autoridade sobre alguém. Ele precisava aprender a
ser reserva antes de ocupar o lugar de titular.
Mais uma vez, estamos diante do fato de que DEUS está trabalhando na vida de
Paulo, ensinando-o a depender totalmente do Senhor e nada de si mesmo. DEUS
estava esvaziando a bola desse homem. Estava lapidando essa pedra,
aparando suas arestas e moldando-o como um oleiro faz com o vaso.
Esta, possivelmente, foi a lição mais importante que DEUS ensinou a Paulo em
sua trajetória missionária: como viver no poder da nova aliança. O mesmo
apóstolo compartilha como isso se deu em sua vida. Escrevendo sua segunda
carta aos Coríntios, ele fala das cinco marcas de uma vida vitoriosa:
otimismo indestrutível, sucesso constante, impacto inesquecível, integridade
irrefutável e realidade inegável (2Co 2.14-17; 3.1-3). Contudo, a grande
questão é: “... Quem, porém, é suficiente para estas cousas?” (2Co 2.16).
Ele não dá a resposta imediatamente. Só vai fazê-lo no capítulo seguinte,
quando escreve: “... a nossa suficiência vem de DEUS” (2Co 3.5). Só depois
de aprender esse princípio, Paulo está pronto para ser o grande líder, o
grande missionário, o homem poderosamente usado nas mãos de DEUS para
levar o evangelho aos mais distantes rincões do mundo.
Capítulo 05 -
Semeando com lágrimas, colhendo com júbilo
A primeira viagem missionária de Paulo foi marcada por muitos incidentes e
acidentes. Ele enfrentou oposição, perseguição e até apedrejamento. A jornada
foi tão dura que o jovem João Marcos desistiu da viagem no meio do caminho.
A direção do ESPÍRITO SANTO na obra missionária
A igreja prega e ensina a Palavra (Atos 13.1), mas quem a dirige na obra
missionária é o ESPÍRITO SANTO (Atos 13.2). O ESPÍRITO SANTO é livre e soberano
na condução dos destinos da igreja. A orientação do ESPÍRITO é segundo a
Palavra, e não à parte dela. O ESPÍRITO se manifesta a uma
igreja centralizada na Palavra e a uma igreja que ora e jejua (Atos
13.2,3). O ESPÍRITO SANTO não age à parte da igreja, mas em sintonia com
ela. É a igreja que jejua e ora. É a igreja que impõe as mãos e despede,
mas é o ESPÍRITO quem envia os missionários (Atos 13.3,4).
Não podemos fazer a obra de DEUS sem a direção do ESPÍRITO SANTO. Ele nos foi
enviado para estar para sempre conosco. Ele nos guia a toda a verdade.
Precisamos do ESPÍRITO SANTO. Dependemos do ESPÍRITO SANTO. A igreja não
pode ver sequer uma conversão sem a obra do ESPÍRITO SANTO. Os pregadores
não terão virtude e poder para pregar sem a ação do ESPÍRITO SANTO.
Usando pontes de contato
Paulo anunciava a Palavra de DEUS (Atos 13.4,5), mas empregava os melhores
métodos e os meios mais adequados de fazê-lo (Atos 13.5). Paulo não ousava
mudar a mensagem, mas era sempre audacioso em usar os melhores métodos. Em
Salamina, eles anunciam a Palavra de DEUS nas sinagogas judaicas (Atos
13.5). Nesse lugar, judeus e gentios prosélitos se reuniam para estudar a
lei. Ali havia pessoas tementes a DEUS e piedosas. Essas pessoas já
estavam preparadas para receber a revelação de DEUS por meio do evangelho.
Precisamos de pontes de contato para atingir com eficácia as pessoas.
Precisamos ler a Bíblia e ler o povo. Precisamos conhecer o texto e o contexto.
Precisamos ler a Escritura e também a cultura. É sábio aproveitar as
portas abertas da cultura religiosa para anunciar o evangelho.
Onde alguém se abre para o evangelho, o diabo cria uma resistência
Quando os missionários Barnabé, Paulo e João Marcos chegaram a Pafos, o
procônsul Sérgio Paulo, homem inteligente, demonstrou interesse em ouvir a
Palavra de DEUS. Mas, imediatamente, certo judeu, mágico, falso profeta,
de nome Barjesus, opôs-se a eles. Esse mensageiro do diabo envidou todos
os esforços para afastar da fé o procônsul. É nesse momento que Paulo assume
o comando da obra missionária e repreende com autoridade esse embaixador
do engano com estas palavras: “Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e
de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os
retos caminhos do Senhor? Pois, agora, eis aí está sobre ti a mão do Senhor,
e ficarás cego, não vendo o sol por algum tempo. No mesmo instante, caiu sobre
ele névoa e escuridade, e, andando à roda, procurava quem o guiasse pela
mão” (Atos 13.10,11). O resultado foi que o procônsul, ao ver o ocorrido,
creu, maravilhado com a doutrina do Senhor (Atos 13.12).
Desistência no meio do caminho
Ao saírem de Pafos para Perge da Panfília, o jovem João Marcos desiste da
viagem missionária e retorna para sua casa em Jerusalém (Atos 13.13). Longe de
esse fato trazer aos dois veteranos da caravana, Paulo e Silas, qualquer
desestímulo, eles prosseguiram rumo a Antioquia da Pisídia,
onde encontraram uma larga porta aberta para o evangelho.
Por que João Marcos desistiu dessa primeira viagem missionária? O texto não nos
responde. Porém, temos pelo menos duas sugestões. A primeira delas é que João
Marcos era primo de Barnabé, e, quando saíram de Antioquia da Síria,
Barnabé era o líder da caravana; porém, a partir de Pafos, Paulo assumiu
essa liderança. Possivelmente, isso trouxe constrangimento e
até insegurança na vida desse jovem.
A segunda razão é que a viagem missionária tomou um rumo inesperado, ao
dirigir-se às regiões continentais em vez de concentrar-se apenas nas cidades
costeiras. Isso implicava maiores riscos e mais dificuldades de uma
retirada. O jovem João Marcos, possivelmente, julgou um preço muito alto a
pagar e, inexplicavelmente, desistiu da viagem e voltou para casa.
Uma porta aberta para o testemunho
Em Antioquia da Pisídia, os missionários foram convidados a dar uma palavra de
exortação ao povo reunido na sinagoga (Atos 13.15). Havia fome de DEUS naquela
cidade. Paulo e Barnabé aproveitaram essa oportunidade.
O sermão de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia é uma síntese
extraordinária da história de Israel (Atos 13.1641). Paulo se dirige aos
israelitas e aos prosélitos tementes a DEUS (Atos 13.16), começando sua
narrativa com o chamado dos patriarcas, o cativeiro no Egito e a peregrinação
de seus descendentes pelo deserto. Nesse tempo, DEUS suportou os maus
costumes do povo israelita durante quarenta anos no deserto. De forma
miraculosa, DEUS destruiu sete nações poderosas dessa terra e a deu a
Israel por herança. Depois de instalá-los nessa terra, deu-lhes juízes para
liderá-los, mas o povo, desejando imitar as nações pagãs ao redor, queria
um rei. Então lhes foi dado Saul. Por este não ser reto diante de DEUS, o
Senhor levantou Davi, homem segundo o coração de DEUS (Atos 13.22). Da
descendência de Davi, DEUS trouxe a Israel o Salvador do mundo, que é JESUS.
Paulo dirige-se aos judeus e prosélitos da sinagoga, fazendo uma poderosa
aplicação da sua mensagem. Mostra que o povo de Jerusalém e as autoridades
judaicas não conheceram JESUS nem entenderam a mensagem dos profetas, que
era lida todos os sábados em suas sinagogas, pois condenaram o Messias que
lhes fora prometido. Entretanto, ao condenarem JESUS, cumpriram
tudo aquilo que acerca dele estava escrito. Então Paulo foca sua mensagem
na morte, no sepultamento e na ressurreição de CRISTO, mostrando que esse
era o núcleo do evangelho que ele lhes anunciava. Paulo ainda afirma que é
por meio de JESUS, e não mediante a lei de Moisés, que eles tinham
a remissão de pecados e a justificação. O apóstolo termina sua exposição
alertando sobre o perigo de desprezar essa mensagem salvadora.
Um poderoso despertamento e uma cruel perseguição
A mensagem de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia foi tão impactante que
surtiu de imediato dois resultados. O primeiro deles é que os líderes da
sinagoga pediram uma repetição da mesma mensagem para o sábado seguinte
(Atos 13.42). O segundo resultado foi que muitos dos judeus e prosélitos
piedosos seguiram Paulo e Barnabé, aos quais estes persuadiram a perseverar
na graça de DEUS (Atos 13.43).
Durante aquela semana, algo extraordinário aconteceu na cidade. O evangelho
produziu um impacto tal nas pessoas que mal elas podiam esperar o sábado
seguinte para irem ao encontro dos homens de DEUS na sinagoga. O
historiador Lucas relata: “No sábado seguinte, afluiu quase toda a cidade
para ouvir a palavra de DEUS” (Atos 13.44). Chamamos isso de um avivamento!
Nenhum milagre é relatado na cidade, mas a Palavra de DEUS foi pregada com
fidelidade e poder, e uma cidade inteira foi despertada a ouvir a mensagem
evangélica.
O despertamento espiritual foi seguido imediatamente de implacável e cruel
perseguição. Os judeus, tomados de inveja, com blasfêmia contradiziam o que
Paulo falava. Nesse momento, Paulo e Barnabé, com toda a ousadia, ao verem
os judeus rejeitarem a vida eterna, voltam-se para os gentios (Atos 13.46,47).
Os gentios muito se alegram e glorificam a Palavra do Senhor. E
Lucas relata: “... e creram todos os que haviam sido destinados para a
vida eterna” (Atos 13.48). Mesmo onde se manifestou rejeição, os eleitos
creram e foram salvos.
Os judeus, não dando o braço a torcer, manipularam as mulheres piedosas da alta
sociedade e as autoridades locais e, perseguindo Paulo e Barnabé,
expulsaram-nos do seu território. Os missionários sacudiram o pó de seus
pés e foram adiante rumo a Icônio. Os discípulos de CRISTO, porém,
transbordavam de alegria e do ESPÍRITO SANTO (Atos 13.50-52).
Pregando aos ouvidos e aos olhos
Paulo e Barnabé chegam a Icônio e ali demoram muito tempo, mesmo debaixo de
tensão e perseguição. Na sinagoga de Icônio, Paulo e Barnabé falam com tal
poder que uma grande multidão, composta de judeus e gregos, creu no Senhor
(Atos 14.1).
Os missionários não pregaram apenas aos ouvidos, mas também aos olhos. Não
apenas falaram, mas também demonstraram. Somos informados de que eles falavam
com ousadia no Senhor, o qual confirmava a palavra da sua graça,
concedendo que por mãos deles se fizessem sinais e prodígios (Atos 14.3).
Os milagres não são o evangelho, mas abrem portas para o evangelho. Os milagres
não são realizados pelos missionários, mas por DEUS, pela intermediação dos
missionários. A pregação do evangelho precisa ser em demonstração do
ESPÍRITO e de poder. Precisamos pregar não apenas aos ouvidos, mas também
aos olhos.
Uma orquestração contra os obreiros de DEUS
Se em Antioquia da Pisídia os judeus lideraram a perseguição contra Paulo (Atos
13.50), em Icônio os judeus incrédulos incitaram o ânimo dos gentios contra
Paulo e Barnabé, bem como contra os novos convertidos (Atos 14.2). A sanha
dos adversários foi tão virulenta que o povo da cidade se dividiu, uns se
posicionando a favor dos judeus, e outros se colocando ao lado dos apóstolos
(Atos 14.4). Vendo os adversários que a cidade estava dividida, usaram a arma
do tumulto, e assim, judeus e gentios, associando-se com as autoridades,
planejaram ultrajar e apedrejar Paulo e Barnabé (Atos 14.5,6).
Confiança em DEUS não dispensa prudência
Ao saber da trama armada contra eles, Paulo e Barnabé fogem para Listra e
Derbe, onde anunciam o evangelho (Atos 14.6,7). Eles não ignoraram os perigos.
Não desafiaram a fúria e a astúcia dos adversários. Não nutriram uma
confiança irresponsável, ignorando os perigos. Não enfrentaram de peito
aberto as ameaças. Antes, fugiram para outras cidades. Eles prosseguiram
fiéis ao mesmo ideal e labutaram na mesma obra. Continuaram pregando o
evangelho, mas mudaram de rota. Isso é prudência!
Confiança em DEUS não dispensa prudência e cuidado. DEUS age por meio do bom
senso. O contrário seria tentar DEUS. O Senhor nos deu entendimento e sabedoria
para serem usados. Esses recursos são dádivas de DEUS e devem ser usados
em favor da obra, e não contra ela. Se Paulo e Silas tivessem teimado em
permanecer naquelas plagas, poderiam ter sido silenciados precocemente, e
a obra de DEUS teria sofrido severas consequências.
Quando o céu se manifesta, o inferno se enfurece
Quando Paulo e Barnabé chegaram a Listra, um milagre logo aconteceu. Um homem
aleijado, paralítico desde o nascimento, que jamais pudera andar, ao ouvir a
mensagem de Paulo, tendo fé, foi curado imediatamente. O homem cujos ossos
e músculos deviam estar atrofiados começa a saltar e a andar (Atos
14.8-10). A falta de discernimento espiritual dos licaônios os levou a pensar
que Paulo e Silas fossem deuses; e, imediatamente, começaram a gritar e
sacrificar animais a eles (Atos 14.1113). Os embaixadores de DEUS então
rasgaram suas roupas e saltaram no meio da multidão idólatra, fazendo
cessar tais sacrifícios. Asseveraram que eram homens semelhantes a eles. Em vez
de aceitarem a exaltação pagã, Paulo e Silas aproveitam o ensejo para lhes
anunciar o evangelho, exortando-os a abandonar suas crenças vãs e
colocarem sua confiança no DEUS criador do céu, da terra e do mar, o DEUS
da providência (Atos 14.14-18).
Se o milagre do paralítico foi obra do céu, o alvoroço idólatra foi ação do
inferno. Onde DEUS realiza um prodígio, o diabo causa um tumulto. Onde o poder
de DEUS se manifesta, a fúria do inferno se faz sentir. Aquela bajulação
pagã era uma tentativa de desviar o foco da multidão de Listra, da
mensagem do evangelho, para os obreiros do evangelho. Sempre que o vaso chama
mais atenção do que o tesouro nele contido, algo está errado. Os obreiros
que gostam da bajulação da multidão roubam a glória que pertence somente a
DEUS.
Os milagres abrem portas para o evangelho e também atraem perseguição
A cura do paralítico em Listra abriu portas para o testemunho do evangelho
naquela cidade pagã, mas também despertou ferrenha oposição dos judeus de
Antioquia e Icônio. Eles, não se contentando apenas em expulsar Paulo e
Barnabé de suas cidades, perseguiram-nos até Listra. Tomados de inveja e
zelo sem entendimento, instigaram a multidão e se arremeteram contra
Paulo, para apedrejá-lo. O mesmo milagre que abriu portas ao testemunho do
evangelho trouxe ao apóstolo o duro golpe do apedrejamento. Os sofrimentos
de ordem emocional agora se transformam em agonias físicas. Talvez, Paulo
sentisse no corpo o que infligiu a Estêvão, o protomártir do cristianismo.
Talvez começasse a sentir na pele o que DEUS dissera em Damasco havia mais
de dez anos: “pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome”
(Atos 9.16). Por providência divina, Paulo se recupera das feridas e,
longe de reclamar ou queixar-se de DEUS, partiu com Silas para Derbe, onde
anunciou o evangelho e fez muitos discípulos (Atos 14.19-21).
Coragem e zelo pela igreja
Depois que Paulo e Barnabé anunciaram o evangelho em Derbe, tomaram a decisão
de voltar para o seu quartel-general, em Antioquia da Síria. Nessa volta, não
se afastam dos redutos de tensão. Ao contrário, passam pelas mesmas cidades
onde foram perseguidos, Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia, e fazem
isso por quatro razões:
Em primeiro lugar, para fortalecer a alma dos discípulos (Atos 14.22). Paulo e
Barnabé não eram apenas missionários itinerantes, mas também pastores do
rebanho. Eles não apenas geravam filhos espirituais, mas também cuidavam
desses neófitos. Sabiam que aqueles novos convertidos precisavam de
encorajamento para viver a vida cristã numa sociedade pagã e hostil.
Em segundo lugar, exortar os discípulos a permanecerem firmes na fé (Atos
14.22). Se os novos convertidos não forem ensinados e exortados, facilmente
podem ser enganados pelos falsos mestres ou desanimarem diante das
provações. Paulo tinha plena consciência da imperiosa necessidade
do discipulado. Diante das lutas, perseguições e ataques do adversário,
precisamos ser exortados a permanecer firmes na fé. Muitos se enfraquecem
ao lidar com a fúria do mundo ou com sua sedução.
Em terceiro lugar, mostrar que a vida cristã não é uma colônia de férias (Atos
14.22). A vida cristã não é ausência de luta. Somos salvos não da tribulação,
mas na tribulação. Importanos entrar no reino de DEUS por meio de muitas
tribulações. Não há amenidades no cristianismo. Ele não é uma redoma de
vidro. Estamos expostos à fraqueza da nossa natureza decaída, a este mundo
tenebroso e à fúria de Satanás. As tribulações não nos podem destruir nem
nos afastar do amor de DEUS. Elas não são castigo de DEUS, mas
instrumentos para o nosso aperfeiçoamento.
Em quarto lugar, fazer a eleição de presbíteros nas igrejas (Atos 14.23). Paulo
entendia que a igreja é um organismo e também uma organização. Toda comunidade
precisa de uma liderança. Essa liderança é coletiva. Paulo promovia a
eleição de presbíteros em cada igreja, e não a nomeação de um chefe. Esses
presbíteros deveriam pastorear o rebanho de DEUS. Eles eram pastores que
deviam ensinar a verdade e proteger o rebanho dos lobos vorazes. Essa
eleição não devia ser feita sem oração e jejum. Os líderes da igreja devem
ser escolhidos na total dependência de DEUS. É DEUS quem dá pastores à
igreja. É o ESPÍRITO quem constitui bispos para apascentar a igreja de DEUS,
que ele comprou com o seu próprio sangue.
Conta as muitas bênçãos, dize quantas são1
É hora de voltar para casa. É hora de recarregar as baterias. É hora de
testemunhar os grandes feitos de DEUS na obra missionária. Paulo e Barnabé
voltam para Antioquia da Síria, a igreja que os comissionara e enviara à
obra missionária (Atos 14.24-26). Esses bravos missionários fizeram
três coisas importantes ao chegar à igreja:
Em primeiro lugar, eles relataram as intervenções extraordinárias de DEUS em
sua vida (Atos 14.27). O testemunho é algo legítimo e necessário para encorajar
a igreja. A igreja estava reunida para ouvir as notícias desse primeiro
avanço missionário. Paulo e Barnabé relatam cuidadosamente não o
que fizeram por DEUS, mas o que DEUS fizera com eles e por eles. Não
testemunharam para exaltar a si mesmos. Não testemunharam para se colocar
sob os holofotes nem buscaram glórias para eles mesmos. A ênfase deles
está nos feitos de DEUS, e não nas suas realizações.
Em segundo lugar, eles relataram como DEUS abriu aos gentios a porta da fé
(Atos 14.27). O sucesso da obra missionária não foi devido ao poder inerente
dos missionários nem de seus métodos. Foi DEUS quem abriu aos gentios a
porta do evangelho. Foi DEUS quem abriu o coração dos pagãos para
a verdade. Foi DEUS quem invadiu as trevas do paganismo com a luz da
verdade. A obra de DEUS é feita por DEUS, mas mediante instrumentos
humanos. É DEUS quem opera nos evangelistas e também naqueles que recebem
o evangelho.
Em terceiro lugar, eles permaneceram muito tempo com os discípulos (Atos
14.28). Não há trabalho missionário desconectado da igreja local. Não há
ministério itinerante sem a ligação com a igreja. Paulo e Barnabé precisam
da igreja, e a igreja precisa dos missionários. Eles se abastecem
na comunhão da igreja e também encorajam a igreja a ser ainda mais
comprometida com a obra missionária.
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BIBLIA DA
LIDERANÇA CRISTÃ - ATOS DOS APOSTOLOS
Os seguidores de JESUS se transformam em líderes
Resumo
Atos dos Apóstolos é um livro de ação. Observe bem que ele é chamado de
"atos" ou "ações" e não de "reações". Ele relata
a iniciativa e a ação do ESPÍRITO SANTO na vida dos discípulos, que até pouco
antes eram covardes, inseguros e ignorantes. Esses homens, que, durante três
anos, aprenderam a seguir JESUS, agora estavam aprendendo a serem líderes!
Neste livro, que é uma sequência de seu Evangelho, Lucas relata que aqueles
primeiros discípulos mobilizaram a Igreja de maneira tão eficiente a ponto de
alcançarem cidades inteiras (At 9.35) e fartaram todas as terras com o
evangelho (At 19.10).
A ação descrita neste livro revela como DEUS delegou poder a homens e mulheres
que decidiram ser representantes de DEUS pelo poder do ESPÍRITO SANTO. Eles se
determinaram a ser pessoas de influência. Apesar de suas carências em atributos
humanos, eles começaram a ter influência na sociedade. DEUS concretizou isso
por meio de pessoas comuns, com um mínimo de instrução, de vivência política ou
prestígio (ICo 1.26).
Pedro, o pescador, tornou-se o Líder da igreja em Jerusalém. Filipe tornou-se o
primeiro missionário para grupos transculturais. Estêvão tomou partido contra
os falsos líderes religiosos de seus dias e, com isso, tornou-se o primeiro
mártir. Barnabé e Paulo ajudaram a primeira comunidade da Antioquia a preparar,
enviar e também liderar uma equipe missionária.
Esses líderes realizaram muito, porque eles estavam sendo governados pelas
prioridades de DEUS, encarnavam o poder de DEUS, estavam motivados pelos
propósitos de DEUS, permaneciam dependentes das provisões de DEUS e preparavam
o povo de DEUS. Todos estavam envolvidos nessa tarefa. Líderes equipam seus
seguidores e encorajam a Igreja, enquanto ela se adentra nessas culturas. Os
milagres se espalhavam. A comunidade tinha todo cuidado com as necessidades que
iam aparecendo no meio do povo.
Na medida em que você for lendo o livro, note quantos líderes surgiram do meio
da Igreja. Muitos deles não eram apóstolos. Nós deveríamos prestar atenção no
povo leigo. Agora, todo mundo parece estar comprometido com a visão de causar
um impacto no mundo em favor de CRISTO.
O papel de DEUS em Atos
DEUS encheu essas pessoas comuns com o ESPÍRITO SANTO e ordenou-lhes que
influenciassem o mundo todo. Os milagres iam acontecendo, e DEUS ia confirmando
sua palavra seguida de sinais (Mc 16.17-18). JESUS apareceu pessoalmente a
Paulo de Tarso, a fim de chamá-lo para tornar-se seu apóstolo (At 9.1-9). O
ESPÍRITO SANTO fundou a primeira Igreja sustentada na pureza, de maneira que
ele pôde capacitá-la sem impedimentos. DEUS confia seu poder aos puros. Observe
esta sequência: primeiro, a pureza: depois, o poder; depois, a proclamação e,
finalmente, o poder de influenciar a sociedade.
Líderes em Atos dos Apóstolos
Pedro e os primeiros apóstolos, Gamaliel e o Sinédrio, Estêvão, Filipe, Áqüila
e Priscila, Paulo, Barnabé, Festo, Apoio, Silas
Outras pessoas de influência em Atos
O principal grupo de pessoas que estavam no Cenáculo, Lídia, Lucas, Timóteo, os
negociantes de Éfeso, a família da igreja de Antioquia
Lições de liderança
• O poder do ESPÍRITO SANTO mais a liderança obediente são iguais ao
crescimento da igreja.
• DEUS levanta líderes com o intuito de levar todas as pessoas para si.
• Líderes quebram barreiras e unem as coisas familiares e não-familiares.
• Quanto mais líderes a Igreja tiver, mais ela terá seguidores.
• Não há sucesso sem sacrifício.
• A força viva vem como resultado da unidade.
• Líderes passam a prosperar quando não têm de lutar pela sobrevivência.
21 LEIS - BARNABÉ E A LEI DA DELEGAÇÃO DO PODER - Somente líderes seguros
delegam poder a outros (At 9.27)
Somente pessoas capacitadas podem alcançar seu potencial. Quando um líder não
pode ou não quer capacitar outras pessoas, ele cria barreiras dentro da
organização que as pessoas não conseguirem superar. Se as barreiras
permanecerem por muito tempo, as pessoas desistem ou mudam para outros lugares
onde poderão maximizar seu potencial.
Se você deseja ser um líder de sucesso, você deve se tornar um capacitador.
Theodore Roosevelt afirmou que "o melhor executivo é aquele que tem a
sensibilidade suficiente para escolher bons homens, para que eles façam coisas
que ele deseja que aconteçam e que têm suficiente auto-resignação para
guardar-se de não interferirem enquanto eles estão fazendo o que lhes foi
solicitado."
A verdade é que o único caminho para que você possa se fazer indispensável é
você se fazer dispensável. Em outras palavras, se você tem a capacidade de
sempre delegar poder e capacitar outras pessoas e ajudá-las a desenvolverem seu
potencial de maneira que se tornem capazes de realizar sua tarefa, você se
tornará tão valioso para a organização que você se tornará indispensável.
Será que eu posso pegar uma carona?
Definitivamente, Barnabé foi um líder que sabia como animar as pessoas. Isso é
visto quando ele não deixa passar nenhuma oportunidade de acrescentar coisas
boas para os outros. E sua grande e simples contribuição no que diz respeito à
delegação de poder pode ser vista em sua interação com Paulo.
1. Ele acreditou em Paulo antes de qualquer outra pessoa.
É muito fácil dar uma opinião a favor de um assunto ou pessoa controvertida
diante de líderes que dão apoio a essa pessoa. Outra coisa é você levantar-se e
falar diante de outros que não o fazem. Mas foi isso o que Barnabé fez. Ele não
esperou que os outros apóstolos apoiassem Paulo para poder acreditar nele. Na
verdade, ele acreditou em Paulo, enquanto Pedro e os outros tinham medo dele.
Para ser um líder capaz de encorajar outros, você precisa estar disposto a dar
oportunidades às pessoas. Você deve ser capaz de perceber o potencial que há
nelas e encorajá-las a acreditar em si mesmas. Isso pode ser arriscado porque
elas podem não corresponder. Mas, se elas corresponderem, o retorno pode ser imenso.
Você pode tornar-se o responsável por inspirar um líder a pôr em prática coisas
que ele nunca tinha pensado que fosse possível. E os líderes nunca esquecem a
primeira pessoa que acredita neles.
2. Ele defendeu a liderança de Paulo diante dos outros.
As Escrituras dizem que Barnabé tomou a Paulo e levou até aos apóstolos. E ele
lhes declarou a respeito de como tinha visto o Senhor no caminho e aquilo que
ele lhe tinha falado e de como ele tinha pessoalmente pregado a respeito de
CRISTO em Damasco (At 9.27). Você pode imaginar como essas coisas teriam
acontecido em Jerusalém naqueles dias? Certa vez, quando Paulo chegou à cidade,
uma palavra chegou aos apóstolos de que ele estava dizendo que era um pregador
de JESUS CRISTO. Eles devem ter pensado de que se tratava de um truque.
Tratava-se da mesma pessoa que tinha estado diante de Estêvão, primeiro mártir,
e aprovado seu apedrejamento. Barnabé deve ter aparecido com Paulo a uma das
reuniões dos apóstolos na cidade. Um silêncio desconfortável sem dúvida, deve
ter caído sobre as pessoas que estavam reunidas quando elas souberam da
identidade daquele que acompanhava Barnabé. Então, Barnabé passou a contar a
história de Paulo. Paulo não precisou dizer uma única palavra. Todos os
cristãos conheciam Barnabé. Eles sabiam de sua reputação e integridade. Foi
isso que Barnabé fez As Escrituras dizem: "Estava com eles em Jerusalém,
entrando e saindo" (At 9.28). A Igreja tinha aceitado Paulo
3. Ele delegou poder a Paulo para alcançar seu potencial.
A ligação entre Barnabé e Paulo não terminou em Jerusalém. Depois que o endosso
de Barnabé possibilito que Paulo se movimentasse livremente em Jerusalém,
ensinando as pessoas e debatendo as verdades das Escrituras não demorou muito
para que Paulo se tornasse um inimigo dos que não criam no evangelho. Os
apóstolos, então sabiamente, enviaram Paulo de volta a Tarso, para sua
segurança pessoal.
Mais tarde, no entanto, quando Barnabé foi designado para dar assistência às
igrejas da Antioquia, ele encontrou Paulo e o leyou em sua companhia. Essa ação
delegou a Paulo o poder de ter seu primeiro serviço como um lider.
Isso também conduziu à parceria de Paulo e Barnabé como missionários, o papel
para o qual DEUS estava destinando Paulo.
Para ser um líder capacitado, você precisa mais do que acreditar em líderes que
estão surgindo. Você precisa dar passos adiante para ajudá-los a se tornarem
líderes de acordo com o potencial que eles têm para desenvolver. Você precisa
investir neles se você os quiser tornar capazes para darem o seu melhor.
Capacitar pessoas requer um investimento pessoal. Isso requer tempo e energia,
mas vale a pena. Se você o fizer bem feito, terá o privilégio de ver alguém
subir para o nível mais elevado. E, como um bônus adicional, ao delegar poder e
capacitar outros, você estará aumentando o poder de sua organização.
CORNÉLIO: O PARADIGMA DE PEDRO SE EXPANDIU (At 10.1-35)
Missiologistas o teriam chamado de etnocêntrico. Apesar de que Pedro sabia que
JESUS lhe tinha dito para ir ao mundo e pregar o evangelho, ele ainda tinha
dificuldade para falar com o centurião romano chamado Cornélio. Por causa
disso, DEUS providenciou uma visão nova para ele. O escritor Steve Moore fez
anotações a respeito da sequência da construção da visão que DEUS levou a
Pedro:
1. Revelação sobrenatural (vs. 9-16)
DEUS ampliou os horizontes de Pedro e o ajudou a sair da caixa, educação que o
conduziu a uma nova convicção.
2. Convite sobrenatural (vs. 17-23)
DEUS enviou pessoas associadas a Cornélio para convidarem Pedro para ingressar
em uma nova forma de ministrar aos gentios, exposição que lhe deu uma compaixão
nova.
3. Confirmação sobrenatural (vs. 24-35)
DEUS confirmou esta visão ampliada com Cornélio receptivo e com sinais concretos
confirmando sua conversão, uma experiência que o levou a um novo
comprometimento.
Quando DEUS quer conquistar uma nova obediência de um servo seu, ele quase
sempre faz uma nova revelação. Foi exatamente o que aconteceu com Pedro.
EDUCABILIDADE: O NOVO EMPREENDIMENTO DE PEDRO FOI ACEITO PELOS LÍDERES DA
IGREJA (At 11. 1-18)
JESUS devia estar falando sério quando ele disse à Igreja que fossem até os
gentios. Pedro relatou a seus pares como DEUS o havia guiado até um público
completamente novo. Quando eles ouviram essa história, renderam glórias a DEUS
pelo novo ministério. Eles continuavam aprendendo. No momento em que você parar
de estudar e aprender, você pára de liderar.
SER PRESTATIVO: NENHUM TRABALHO É SEM IMPORTÂNCIA (At 11.22-24)
Se um líder da Igreja antiga pode ser chamado de servo, este é Barnabé. Ele tomou
a iniciativa e fez tudo quanto achou que pudesse aumentar o ânimo, número de
pessoas ou dinheiro. Ele liderou com clareza e exemplo, tornando-se servo. Ele
não considerava nenhuma tarefa sem importância. O que permitiu a Barnabé
demonstrar um estilo de vida como este? Ele...
1. Não tinha nada a provar.
Ele não estava ali para brincar. Ele nunca procurou notoriedade. Quando ele
orientou Paulo, ele alegremente permitiu que esse apóstolo emergente o
superasse. Ele não sentia a necessidade de projetar sua própria dignidade ou
provar a si mesmo para quem quer que fosse.
2. Não tinha nada a perder.
Barnabé não tinha preocupação de preservar sua reputação ou que o medo pudesse
fazer perder sua popularidade. Ele veio para servir e não par ser servido. Isso
permitiu pôr seu foco em dar e não em receber. Como servo, ele não tinha
direitos a perder.
3. Não tinha nada a esconder.
Barnabé não precisava manter uma fachada ou imagem. Ele permaneceu autêntico,
vulnerável e transparente. Ele podia alegrar-se com a vitória dos outros (At
11.23) e nunca se maravilhou com sua própria fama.
Se DEUS chamasse você para ser um novo Barnabé para outro novo Paulo, se você
soubesse que esse novo e emergente líder iria rapidamente colocá-lo em sombras,
você aceitaria este chamado? Em outras palavras, você é mesmo um servo? Você
deve amar mais as pessoas que sua posição.
21 Qualidades
Caráter - Herodes teve falta dele e perdeu tudo (At 12.1-23)
O ego dirigia a vida de Herodes dos dias de Paulo, do mesmo jeito que havia
guiado seu pai e seu avô. Todos eles tinham uma irremediável falta de caráter.
Herodes era o sobrenome da família de reis que sustentava o poder com a
permissão do Império romano. Herodes o Grande, governou nos dias do nascimento
de JESUS. Foi ele que mandou matar todos os meninos de até dois anos em Belém.
Herodes Antipas foi quem ordenou a decapitação de João Batista. O Herodes de
Atos 12 é Herodes Agripa 1, o filho mais velho de Herodes, o Grande. A falta de
caráter de Herodes nos dá muitos exemplos a respeito do que não se deve fazer
como líder:
1. Ele maltratava seus próprios cidadãos (v. I).
Ele, injustamente ordenou a prisão de cristãos judeus a fim de fustigá-los.
2. Ele executou pessoas inocentes (v. 2).
Ele mandou matar Tiago à espada, embora Tiago não tivesse cometido crime
nenhum.
3. Ele tomou decisões, preocupado com sua popularidade (v. 3).
Quando ele percebeu que os judeus ficaram satisfeitos com a morte de Tiago,
mandou pôr Pedro na prisão também.
4. Ele agia de modo irracional em tempos de dificuldade (v. 19).
Ele mandou matar todos os 16 guardas que cuidavam da prisão no dia em Pedro
fugiu de lá.
5. Ele alimentou ódio por outros (v. 20).
Ele permaneceu irado contra grupos étnicos de fora e procurou meios de
subjugá-los.
6. Ele procurou poder para compensar sua insegurança (v. 20).
Ele gostava de controlar os outros e, especialmente, gostava bastante de poder
ter pessoas debaixo de sua misericórdia.
7. Ele projetava a imagem de ser infalível (vs. 21-22).
Ele amava vestir sua roupa real e ser reverenciado.
8. Ele se deixava cegar pelo seu ego (v. 23).
Ele vivia em um mundo irreal e não conseguia ver que seu ego estava sabotando
sua liderança.
Como você pode evitar as armadilhas de Herodes?
A fim de melhorar seu caráter e construir uma base sólida para a sua liderança,
você deve:
1. Procurar suas falhas.
Preste atenção nas principais áreas de sua vida. Identifique quais são os
pontos fracos ou em quais delas você costuma tomar atalhos;
2. Procurar parceiros.
Ainda há alguma fraqueza? Parceiros podem ajudá-lo a diagnosticar falhas no
caráter.
3. Encarar a realidade.
O reparo das falhas de caráter inicia quando você as encara e quando você
defende aquelas em que você a enganou.
4. Permanecer pronto para aprender e rever as coisas.
Uma vez que você enfrenta o passado, crie um plano para fortalecer-se
internamente.
A LEI DO
CRESCIMENTO EXPLOSIVO: ANTIOQUIA COMISSIONOU LÍDERES
(At 13.1-3)
Pelo meio do Livro de Atos, vemos que três igrejas enviaram líderes
missionários: Cirene, Chipre e Jerusalém. Infelizmente, esses esforços parecem
ter sido fatos isolados. Em Atos 13, o cuidado de DEUS levou mudanças para a
igreja de Antioquia. Por quê? Porque ela continuava comprometida com os efeitos
globais do evangelho, ocupada em fazer surgir líderes que viessem a se tornar
agentes de mudança para o mundo todo. Jerusalém tinha deixado de ser o centro
das atividades de DEUS. Na verdade, ela tornou-se uma igreja com grandes
necessidades, necessitando do socorro das igrejas da Ásia e Grécia.
Antioquia floresceu por causa de sua boa visão de enviar líderes pelo mundo.
Ela enviava seus líderes como se fossem uma equipe, pessoas com dons que se
complementavam e com visão compartilhada. Isso os capacitou a ficarem ligados
com as pessoas e a conseguirem bons resultados em quase todos os lugares aos
quais iam.
DEUS fez o seu trabalho ao enviar equipe de líderes. JESUS enviou uma equipe de
doze (Lc 9.1 -6), e essas parcerias tiveram continuidade em Atos. A maioria
dessas equipes de líderes veio da igreja de Antioquia:
1. Pedro e João (At 3);
2. Filipe, Pedro e João (At 8);
3. Pedro e alguns irmãos (At 10);
4. Homens de Chipre e Cirene (At II);
5. Paulo e Barnabé (At 13 e 14);
ó. Judas, Silas e Paulo (At 15);
7. Barnabé e Marcos (At 15);
8. Timóteo, Paulo e Silas (At 16);
9. Paulo, Áqüila e Priscila (At 18);
10. Timóteo e Erasto (At 19).
RESPONSABILIZAÇÃO: A EQUIPE PERMANECEU RESPONDENDO PARA A IGREJA (Atos
14.26-28)
Embora os líderes não requeiram uma posição formal para fazer a diferença,
DEUS, raramente, os chama para agirem sozinhos. DEUS, normalmente, os chama
para fazerem parte de uma equipe e os envia por meio de uma organização, como
uma igreja local, por exemplo. Alguns líderes enviam, outros vão. Cada um deve
dar suporte ao outro.
A LEI DA INTUIÇÃO: PEDRO PROPÔS UMA MUDANÇA MAIOR DAS COISAS ANTIGAS (At
15.7-11)
Pedro sugeriu mudanças para o modo como a igreja fazia as coisas. Deveria haver
um novo paradigma para o pensamento e a fé. Ele persuadiu os líderes a mudarem
por meio de uma comunicação convincente das coisas que DEUS estava fazendo.
Pedro viu a necessidade de mudanças antes dos demais. Sua percepção, associada
a sua credibilidade, fez a Igreja continuar indo para frente.
ALEI DA INFLUENCIA: O CONCÍLIO DA IGREJA LIBERTOU OS GENTIOS
(At 15.22-29)
Por meio de um documento, a igreja de Jerusalém libertou os cristãos de
qualquer localidade de terríveis encargos e culpas potenciais que lhes poderiam
ser atribuídas pela lei dos judeus. Eles usaram a sua influência e mudaram o
curso da história da igreja. Nem sempre o poder é mal. O Concilio da igreja de
Jerusalém exerceu uma influência positiva em seu tempo. Nós também podemos.
...
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O Apóstolo Paulo: Lições da Vida e Ministério do Apóstolo dos Gentios para a
Igreja de CRISTO
Subsídios das lições deste trimestre foi escrito por Marcelo Oliveira, chefe do
Setor de Educação Cristã; bacharel em Teologia, licenciado em Letras;
pós-graduado em Educação, Gestão e Docência.
Lição 1 - O Mundo do Apóstolo Paulo
Neste trimestre, estudaremos a vida e o
ministério do apóstolo Paulo. O mundo em que viveu, os processos pelos quais
passou, os oponentes contra a sua mensagem que enfrentou, enfim, as diferentes
circunstâncias na vida do apóstolo configuram uma série de lições edificantes
para a nossa caminhada cristã. Temas como perseguição, conversão, vocação,
poder no ESPÍRITO, plantação de igrejas, discipulado, liderança, dentre outros,
serão objetos de nosso estudo. Nesse sentido, ao longo deste quarto trimestre,
temos a oportunidade de aprender com o apóstolo dos gentios.
O assunto desta primeira lição é sobre o mundo em que o apóstolo viveu. Temos
como objetivo geral refletir sobre como o mundo de hoje pode ser uma porta
aberta para a pregação do Evangelho. Para atingir esse objetivo, estudaremos o
mundo do apóstolo Paulo no Império Romano, na cultura grega e na religião
judaica.
Resumo da lição
A respeito do império romano, estudaremos seu desdobramento político e
geográfico. Esse desdobramento impactou o ministério do apóstolo. Por meio da
“pax romana”, um ambiente de relativa paz no império, de suas malhas viárias e
seus meios de transportes, o apóstolo teve uma boa oportunidade para realizar
suas diversas viagens missionárias.
A respeito da cultura grega, o grego koinê mostrou-se relevante na difusão dos
escritos apostólicos, além de a filosofia grega abrir oportunidades para novos
pensamentos e ideias. Esse fenômeno linguístico e cultural trouxe grandes
oportunidades para o ministério do apóstolo no mundo gentílico.
A respeito da religião judaica, o apóstolo era perito em seus ensinamentos. A
religião judaica também influenciava determinadas áreas do império por meio das
sinagogas. A moral judaica como fruto da Lei de Moisés trouxe grande
contribuição ao ministério do apóstolo. Esse contexto ajudou na comunicação do
Evangelho pelo ministério do apóstolo.
Aplicação
É muito importante que façamos o seguinte exercício reflexivo: a exemplo do
apóstolo Paulo, devemos conscientizar-nos do que há no mundo hoje que seja
possível ser útil para a propagação do Evangelho. Às vezes a nossa profissão
pode abrir a porta do Evangelho. Uma viagem pode abrir a porta do Evangelho. O
uso de uma tecnologia ou de uma arte pode abrir a porta do Evangelho.
Lição 2 - Saulo de Tarso, o Perseguidor
Nesta lição, estudaremos sobre as características que constituíam a
personalidade persecutória de Saulo. O nosso objetivo geral com este estudo é
conscientizar os irmãos de nossas classes acerca do problema da perseguição
religiosa que milhares de cristãos espalhados pelo mundo sofrem. A perseguição
aos cristãos é um problema neste século e, infelizmente, por causa de
pensamento ideológico ou por puro preconceito, é solenemente ignorada pela ONU,
pela imprensa internacional e, principalmente, pelas organizações de Direitos
Humanos espalhadas pelo globo.
Resumo da lição
Para fazer essa conscientização, estudaremos as características persecutórias
de Saulo no primeiro tópico. Ali, há traços na personalidade de Saulo que
mostram como ele perseguia os cristãos. Primeiro, blasfemava contra eles,
insultando-os como heréticos do judaísmo. Segundo lugar, ele os perseguia nas
casas, nas praças, intentando sempre a envergonhá-los. Terceiro, os oprimia com
violência, açoites, sem qualquer respeito ao ser humano que professava a fé
cristã.
Um segundo objetivo específico é mostrar no segundo tópico a perseguição à
igreja de Atos por meio de um caráter mais amplo e sistemático. Ora, a igreja
não era perseguida apenas por um indivíduo, mas também por uma religião (o
judaísmo), sob o auspício de um império (o romano). Nesse sentido, por trás de
Saulo, havia o mecanismo da religião oficial e do poder imperial.
E, finalmente, o último objetivo específico é mostrar como esse sistema
religioso e político operava contra a igreja. Havia ali prisões deliberadas e
corroboradas pelo império romano. Havia açoites oficiais, confabulações entre a
religião oficial com o império romano. Toda a estrutura religiosa e estatal
estava a disposição para perseguir a igreja que nascia e crescia em Jerusalém.
Aplicação
Busque informações especializadas acerca da realidade persecutória da igreja
contemporânea. O site da Missão Portas Abertas é um dos que tem credibilidade
em dados. É uma das maiores instituições de apoio à igreja perseguida no mundo.
Converse com alunos a respeito de milhares de cristãos vivendo a mesma
realidade concreta dos crentes em Atos dos Apóstolos. Eles são perseguidos pela
religião oficial do país em que estão, bem como pelo poder político.
Lição 3 - A Conversão de Saulo de Tarso
Na lição desta semana, falaremos sobre a maravilhosa graça de DEUS na vida
de Saulo, o perseguidor, e, ao mesmo tempo, sua resposta em arrependimento e fé
ao Senhor JESUS. O nosso objetivo nesta lição é asseverar que o nosso Senhor
nos salva pela graça mediante a fé, mas, ao mesmo tempo, devemos responder a
esse chamado com arrependimento e fé. Assim ocorre a verdadeira conversão, o
novo nascimento.
Resumo da lição
O primeiro tópico apresenta a conversão de Saulo como um ato da graça de DEUS.
Ali, percebemos que a iniciativa de se revelar a Saulo foi do nosso Senhor. Ele
se revelou ao futuro apóstolo. Saulo viu o Senhor ressurreto por meio de uma
experiência sobrenatural.
O segundo tópico relaciona a conversão de Saulo a doutrina bíblica da
conversão, mostrando que a obra de conversão no ser humano começa no
arrependimento e perpassa uma vida de transformação. Arrepender-se é a condição
básica para a verdadeira conversão.
O terceiro tópico elenca três faculdades interiores do ser humano que são
afetadas com a verdadeira conversão: intelecto, emoção e vontade. A verdadeira
conversão faz com que o ser humano todo seja regenerado, então, ele pode agora
pensar, desejar e fazer o que é do alto.
Aplicação
Este estudo nos mostra que a verdadeira conversão traz uma nova maneira de
pensar, sentir e agir. Vivemos num tempo de profunda confusão existencial.
Pessoas pensam uma coisa, desejam outra e fazem outra coisa completamente
diferente do que pensam e desejam. A conversão bíblica harmoniza coração do
crente. Agora é possível pensar nas coisas do céu, desejá-las e executá-las (Fp
4.8; Cl 3.2-5). Assim, somos celestialmente coerentes, pois pensamos, sentimos
e agimos segundo o ESPÍRITO SANTO que habita em nós.
Num contexto de confusão espiritual, a presente lição destaca a importância de
cada seguidor de JESUS apresentar uma coerência existencial como resultado de
uma verdadeira conversão. Isso implica crente que não têm dúvidas a quem
pertencem. Essa convicção exige uma atitude destemida de viver o Evangelho de
maneira clara, coerente e profunda. Nós pertencemos ao Senhor, não há como
voltar ao antigo modo de vida. A única alternativa que a Palavra de DEUS nos dá
é avançar, seguir em frente. Jamais retroceder. Portanto, não retroceda.
Avance!
Lição 4 - Paulo, a Vocação para Ser Apóstolo
A lição desta semana tem como tema a vocação. Nela, através da vida e do
ministério do apóstolo Paulo, perceberemos como DEUS vocaciona pessoas para a
sua obra. Por isso, estudaremos sobre o ponto de partida para a vocação de
Paulo; a efetivação da vocação do apóstolo Paulo por meio do seu encontro com o
CRISTO Ressurreto; e o aprendizado de Paulo no deserto para exercer a sua
vocação.
Resumo da lição
O primeiro tópico salienta que a presciência divina e a pessoa do ESPÍRITO
SANTO são o ponto de partida para a vocação do apóstolo Paulo. DEUS o chamou
para uma grande obra para viver na plenitude do ESPÍRITO. A vocação de Paulo
tinha sido gestada em DEUS e confirmada no ESPÍRITO SANTO como agente
impulsionador do apóstolo.
O segundo tópico enfatiza a experiência gloriosa do apóstolo com o CRISTO
Ressurreto que fundamentou sua vocação apostólica. Paulo viu o esplendor
glorioso do CRISTO Ressurreto por meio de uma experiência sobrenatural que
mudou completamente sua vida e ministério. Essa experiência gloriosa mudou
definitivamente a vida do apóstolo.
O terceiro tópico relaciona a vocação de Paulo com o aprendizado no deserto.
Este aperfeiçoou a vocação do apóstolo em que sua vida foi tremendamente
trabalhada por DEUS para fazer a obra divina. As lições do deserto confrontaram
as convicções de Paulo e o prepararam para a sua mais nova etapa de vida. O
apóstolo foi forjado pelo ESPÍRITO SANTO.
Aplicação
A presente lição nos ensina que a vocação de DEUS traz experiências profundas.
Muitas vezes o ESPÍRITO SANTO usará circunstâncias em nossas vidas para nos
ensinar a respeito de coisas que servirão lá na frente para nos trazer
esperança com base na experiência. É preciso aprender com as lições do
“deserto” da vida ministerial. Os desafios são muitos. Os obstáculos são
grandes. Todavia, o aprendizado é muito maior para nos tornarmos maduros na fé.
Por isso devemos aproveitar as lições dos “desertos” que enfrentamos.
É tempo de confiar inteiramente em DEUS e em sua soberania. Quando Ele nos
chama, faz com que a nossa vida seja conduzida sempre em direção ao nosso
chamado. Muitas vezes não nos damos conta disso. Entretanto, é DEUS trabalhando
em nosso favor e nos levando ao centro de sua vontade. Que sejamos sensíveis à
voz do ESPÍRITO SANTO. Ouçamos o Senhor!
Lição 5 - “JESUS CRISTO, e Este Crucificado” – A Mensagem do Apóstolo
O objetivo desta lição é ressaltar o centro da mensagem cristã: JESUS, e este
crucificado. O apóstolo descobriu essa verdade sobre o CRISTO Ressurreto e,
como consequência, fez de sua missão de vida pregar o Evangelho por meio do
Crucificado aos gentios. Nesse sentido, o Crucificado é o centro da mensagem
apostólica. Logo, a vida e o ministério de Paulo estimulam-nos a ter esse mesmo
propósito e firme compromisso com a mensagem da Cruz.
Resumo da lição
Para desenvolver o propósito da lição, o primeiro tópico destaca a centralidade
da pregação de Paulo. Em Paulo, a pregação tem íntima relação com o CRISTO
Crucificado, por isso ela é considerada loucura da pregação entre judeus e
gentios. É uma mensagem humilde que faz com que o ser humano olhe para si mesmo
e peça misericórdia a DEUS pelas suas misérias.
O segundo tópico elenca as expressões-chave na pregação de Paulo. Expressões
como “Evangelho de CRISTO”, “CRISTO Crucificado” e “CRISTO Ressurreto” são
trabalhadas de modo a resumir o conteúdo da mensagem do apóstolo dos gentios.
Podemos dizer que o Evangelho de CRISTO pode ser sintetizado no “CRISTO
Crucificado” e no “CRISTO Ressurreto”.
O terceiro tópico pontua os efeitos da mensagem do Evangelho. Esses efeitos se
revelam no crente por meio de uma vida no poder de DEUS, na humildade e na
dependência do ESPÍRITO SANTO. Ora, a mensagem da cruz é uma mensagem de poder.
A mensagem da cruz nos constrange a viver de maneira humilde. E, finalmente, a
mensagem da cruz nos ensina a depender exclusivamente do ESPÍRITO.
Aplicação
A presente lição nos ensina que não podemos deixar de pregar mensagem da cruz
ao pecador. É uma mensagem de poder. Somos instados pelo ESPÍRITO SANTO a
proclamá-la com autoridade. Ao mesmo tempo, somos chamados a viver de maneira
humilde, pois a mensagem da cruz nos constrange a uma atitude singela e
abnegada.
É uma mensagem que nos faz contritos diante de DEUS. E, finalmente, somos
estimulados a viver na dependência do ESPÍRITO SANTO de DEUS na obra da
proclamação do Evangelho. Sem o ESPÍRITO SANTO não podemos ser bem-sucedidos.
A mensagem da cruz nos faz depender menos de nós mesmos e mais do ESPÍRITO
SANTO. Essa mensagem traz a verdadeira sabedoria para a vida. Amemos, portanto,
a mensagem da cruz e a proclamemos até a morte!
Lição 6 - Paulo no Poder do ESPÍRITO
O ponto mais importante desta lição é que o aluno, após estudá-la, esteja
consciente a respeito da necessidade de viver na plenitude do ESPÍRITO para
fazer a obra de DEUS. Nesse sentido, os demais tópicos colaborarão para que o
aluno tenha essa consciência. Não podemos deixar de reconhecer que é a
dependência do ESPÍRITO SANTO que garante a eficácia da evangelização e o
crescimento saudável da Igreja de CRISTO.
Resumo da lição
O primeiro tópico da lição procura expor a verdade de que CRISTO deve ser
pregado no poder do ESPÍRITO. No ministério de Paulo, observamos o quanto o
apóstolo era movido pelo ESPÍRITO SANTO. Todo o seu caminho percorrido na
exposição da Palavra de DEUS tinha o ESPÍRITO SANTO como agente confirmador e
sustentador. Pelo ESPÍRITO, Paulo não tinha outra missão, senão, a de pregar
CRISTO JESUS no poder do alto.
O segundo tópico tem como objetivo identificar o argumento de Paulo sobre a
plenitude do ESPÍRITO. O que o apóstolo quer dizer com essa expressão? Para
isso, o texto bíblico (At 18) mostra como Paulo agiu para que Apolo fosse
doutrinado acerca do ESPÍRITO SANTO. Apolo era um pregador habilidoso, mas não
havia experimentado ainda o poder do ESPÍRITO. Ou seja, além de nascer de novo,
o seguidor de JESUS pode e deve ter uma experiência sobrenatural por intermédio
do Batismo no ESPÍRITO SANTO com evidência das línguas estranhas.
Terceiro tópico apresenta as fontes de Paulo para a experiência no ESPÍRITO
SANTO. Em primeiro lugar, sem dúvida, eram as Escrituras Sagradas. Embora a
Terceira Pessoa da Santíssima Trindade não aparecesse de maneira clara no
Antigo Testamento, era possível percebê-la e confirmá-la com a revelação em
CRISTO JESUS que o apóstolo acabara de tomar contato. Em segundo, a experiência
do Pentecostes foi algo marcante que chegou ao apóstolo, embora este não
estivesse participado daquele evento.
Aplicação
Assim, fica claro que o Batismo no ESPÍRITO SANTO é uma capacitação indispensável
para a eficiência da obra de DEUS e o melhor exercício de uma vocação. É
preciso que os vocacionados se encham do ESPÍRITO SANTO para fazer a obra de
DEUS com poder. Um poder que vem do alto, que vem de DEUS. Deixe claro que não
é vontade divina viver uma vida espiritual sem experimentar uma dimensão mais
profunda do ESPÍRITO SANTO.
Lição 7 - Paulo, o Plantador de Igrejas
A Igreja de CRISTO tem a sua dimensão visível na igreja local. Para se
estabelecer uma igreja local é preciso que haja pessoas disponíveis, e que
tiveram uma experiência com CRISTO, para plantar igrejas. Nesse sentido, a
lição desta semana tem como propósito motivar a igreja local, especificamente
pessoas vocacionadas, a plantar novas igrejas. O Movimento Pentecostal cresceu
porque houve crentes dispostos que ouviram a voz do ESPÍRITO SANTO para abrir
suas casas como um ponto de pregação ou desbravar o interior do Brasil.
Resumo da lição
Para atingir a esse propósito, o tópico primeiro mostra que o apóstolo Paulo
foi um desbravador do Evangelho sob uma gloriosa obrigação de pregar o
Evangelho de CRISTO. Não há dúvidas de que o apóstolo foi o grande desbravador
do Evangelho no mundo gentílico. Ele plantou igrejas em lugares que pessoas
nunca haviam tido contato com o nome de JESUS. Essa disposição era vista pelo
apóstolo como uma gloriosa obrigação a ser cumprida. E ele a cumpriu com
alegria.
O tópico segundo procura sinalizar Antioquia como um lugar estratégico para o
crescimento da Igreja Primitiva. Tratava-se de uma igreja missionária. Dela,
muitas outras igrejas foram geradas no Reino de DEUS. Isso lembra muito o
crescimento das igrejas pentecostais no Brasil. A partir de uma igreja numa
determinada localidade, Belém do Pará, milhares de igrejas foram gestadas no
país. Uma igreja referência cumpre uma função estratégica para plantar novas
igrejas. Ela desempenha esse papel formando, capacitando e enviando novos
obreiros.
O terceiro tópico procura pontuar as características de um plantador de igreja.
Uma dessas primeiras características está na motivação do plantador. No
ministério de Paulo vemos que essa motivação se deu a partir de sua experiência
gloriosa com CRISTO. Essa experiência faz com que o plantador de igrejas tenha
um senso de urgência no mundo a respeito da evangelização. Além, claro, de esse
plantador ser experimentado nos obstáculos da caminhada e perseverar na
plantação de igrejas segundo as Escrituras.
Aplicação
Esta lição nos ensina que é preciso ter experiência com CRISTO. Quem tem essa
experiência verdadeira tem tudo para buscar a vocação missionária. É preciso
também ser compromissado com a Palavra de DEUS, a Bíblia. Ela é o esteio de
regra de fé e prática da igreja local.
Lição 8 - Paulo, o Discipulador de Vidas
Pregar e ensinar são uma missão integral da Igreja de CRISTO. É necessário
pregar o Evangelho, mas também é preciso formar pessoas segundo o Evangelho de
nosso Senhor. Para isso existe o discipulado cristão. O ministério de Paulo nos
ensina que, ao plantar igrejas, o apóstolo procurava sempre as confirmar, ou
seja, averiguar conforme elas estavam progredindo na fé em CRISTO.
Resumo da lição
O objetivo geral da lição é revelar a missão integral da igreja no discipulado:
pregar e ensinar. Para isso, o primeiro tópico relaciona o ministério do
apóstolo Paulo com o discipulado cristão. Nele, o discipulado aparece como
ordem do Senhor JESUS na Grande Comissão (Mt 28.19,20). Assim, o apóstolo
observou essa ordenança com fidelidade à medida que pregava o Evangelho e
discipulava os nascidos de novo. Seu método era simples: pregação, plantação de
igrejas e formação dos novos crentes.
O segundo tópico salienta a integralidade da missão da Igreja: pregar e
ensinar. Em Paulo, vemos que a pregação é o ponto de partida. Já o discipulado
é o processo formativo a partir das minúcias do Evangelho. Assim, a Palavra de
DEUS deixa claro que a igreja local deve ser um local de pregação com
autoridade do Evangelho e, ao mesmo tempo, uma agência que ensina a Bíblia de
maneira sistemática e didática a todo crente. Pregar e ensinar: eis a nobre e
integral missão da Igreja de CRISTO.
O terceiro tópico pondera a respeito do discipulado com pessoas de culturas
diferentes. O ministério de Paulo enfrentou o desafio de ensinar pessoas de
diferentes culturas. Por exemplo, a Carta aos Romanos mostra que o público-alvo
era constituído de judeus e gentios cristãos. Por isso, no capítulo 14 da
carta, o apóstolo trabalha a ideia da tolerância em que esses grupos devem
praticar entre eles. O desafio era cuidar da unidade no que era essencial. O
processo do discipulado nos traz desafios em que o choque de culturas aparecerá
inevitavelmente. Isso aconteceu em Romanos, aos coríntios, aos tessalonicenses.
O discipulado cristão traz desafios culturais.
Aplicação
É necessário capacitar pessoas para exercer com zelo e piedade o discipulado
cristão. Enfrentemos o desafio de chamar os pecadores e, posteriormente,
formá-los segundo o Evangelho que apresentamos. Estejamos prontos para o
desafio de comunicar o Evangelho aos outros.
Lição 9 - Paulo e sua Dedicação aos Vocacionados
Além de pregar, plantar igrejas, formar discípulos, o apóstolo dos gentios se
dedicava ao máximo aos novos obreiros. É tocante como ele trata obreiros novos,
como Timóteo e Tito, em suas cartas pastorais. O ESPÍRITO SANTO inspirou o
apóstolo a registrar em cartas tal preocupação para que essa também fosse a
preocupação das lideranças contemporâneas. Formar novas lideranças e cuidá-las
são responsabilidades das lideranças mais antigas. A vida e o ministério de
Paulo nos mostram que esse zelo é um aspecto importante de uma liderança sábia.
Resumo da lição
Neste propósito, o primeiro tópico aponta a cidade de Éfeso como ponto de
partida dos vocacionados. A história da Igreja mostra que dali grandes obreiros
se desenvolveram na seara do mestre. A despedida carinhosa de Paulo com os
anciões de Éfeso mostra o quanto esse cuidado paulino era reconhecido entre os
efésios. Não por acaso, a igreja de Éfeso ficou conhecida como a igreja que se
destacava no zelo doutrinário. Ou seja, seus obreiros eram muito bem formados.
Com o objetivo de assinalar o legado doutrinário de Paulo para os novos
líderes, o segundo tópico destaca advertência de Paulo a respeito dos
judaizantes e dos gnósticos em relação à saúde espiritual da igreja. O apóstolo
expôs ao longo de seu ministério o quanto era incompatível com a mensagem pura
do Evangelho os ensinos dos judaizantes e dos gnósticos. O legado de Paulo nos
mostra que salvação é mediante a graça de DEUS (advertência contra os
judaizantes), mas que essa graça não pode ser banalizada nem profanada
(advertência contra os gnósticos).
O terceiro tópico apela aos líderes a respeito do desprendimento material do
obreiro para fazer a obra de DEUS, sobre o cuidado pessoal do obreiro e quanto
às ameaças dos “lobos cruéis”. A vida e o ministério do apóstolo dos gentios
ensinam esse modo virtuoso de agir na obra de DEUS. É preciso aprender a estar
satisfeito com o que DEUS nos dá; precisamos nos apresentar a DEUS aprovados; é
nosso dever agir com prudência em relação aos falsos obreiros.
Aplicação
Há muitos entre nós que se sentem vocacionados por DEUS para uma obra. O
ministério de Paulo nos ensina que a igreja local, por meio de seus líderes
mais maduros, deve cuidar dessas novas vocações com zelo e cuidado. Não se pode
deixar essa chama se apagar.
Lição 10 - Paulo e seu Amor pela Igreja
Algo que se destaca com clareza no ministério de Paulo é o seu amor pela Igreja
de CRISTO. Podemos dizer que todo o seu ministério foi desenvolvido sob o
prisma do amor pela Noiva de CRISTO. Por isso, na lição desta semana, nosso
objetivo principal é compreender e estimular os alunos a amar a Igreja de
CRISTO. A relevância desta se lição está no contexto atual em que se tornou
muito comum, e de maneira mórbida, criticar a igreja. Assim, nosso objetivo é
olhar de maneira positiva sobre a importância da igreja local.
Resumo da lição
Para atingir esse objetivo, o primeiro tópico é um estímulo a amar a igreja
local. Ele destaca o amor de Paulo pela Igreja. Nesse tópico, o apóstolo
compara o seu amor pela Igreja como o de um pai para com o seu filho. Suas
admoestações, exortações e conselhos tinham como base fundamental o amor. Um
amor motivado pela causa do Evangelho. Um amor que norteava toda a vida do
apóstolo. Esse amor era visível na igreja em Tessalônica e, da mesma forma que
esse amor era visível na igreja do primeiro século, pode ser visível na igreja
contemporânea.
O segundo tópico relaciona o amor com a fé na Igreja. Na igreja em Tessalônica
a fé se relacionava com o amor, ou seja, a fé em CRISTO estimulava a vivência
no amor. Uma das coisas mais extraordinária na vida cristã é quando o fervor
espiritual estimula o amor fraternal, isto é, o desenvolvimento do fruto do
ESPÍRITO que só pode ser amadurecido no relacionamento com o próximo. Nesse
sentido, em Efésios, o apóstolo Paulo nos diz: “Enchei-vos do ESPÍRITO” (Ef
5.18). Assim, o resultado desse enchimento é visível na dimensão prática do
amor na relação do crente com o cônjuge, com os filhos, com o patrão e com os
funcionários (Ef 5.22 – 6.9).
O terceiro tópico elenca três virtudes visíveis na igreja em Tessalônica: fé,
amor e esperança. A virtude da fé nos fala de nossa devoção ao Senhor, de nossa
fé conforme a sã doutrina entregue pelos antigos. A virtude do amor diz
respeito ao sentimento muito profundo que se manifesta na prática concreta ao
próximo: carinho, atenção, suprir necessidade, cuidado, zelo. E, finalmente, a
terceira virtude é a esperança. Esta é uma “irmã gêmea” da fé. Quem espera,
persevera e, como consequência, tem esperança.
Aplicação
Nesta lição, somos chamados a amar a Igreja e, ao mesmo tempo, cultivar a fé e
a esperança na igreja local.
Lição 11 - O Zelo do Apóstolo Paulo pela Sã Doutrina
O objetivo geral desta semana é asseverar o zelo da Igreja pela Sã Doutrina.
Recebemos uma herança doutrinária dos apóstolos. Estes receberam-na do próprio
Senhor JESUS. Por isso, o nosso desafio é perseverar nesse santo ensinamento e
praticá-lo com todo zelo. Não podemos renunciar ao verdadeiro Evangelho. Num
contexto em que há muitas falsificações, urge estar alertas quanto à pureza da
preciosa doutrina.
Resumo da lição
Para desenvolver esse assunto, o primeiro tópico conceitua e relaciona os
termos Ortodoxia e Heterodoxia. No sentido de mostrar o que queremos dizer com
“zelo doutrinário”, é importante conhecer o que é ortodoxo e heterodoxo. Assim,
ortodoxo é todo ensinamento que está de acordo com o que JESUS CRISTO ensinou e
os apóstolos transmitiram aos novos seguidores de CRISTO. E heterodoxo é todo
ensino que escapa a ordem e o contexto do que JESUS e seus apóstolos ensinaram.
O segundo tópico adverte para o perigo da corrupção doutrinária. Ou seja,
qualquer ensino que escapa ao que JESUS e os apóstolos ensinaram. Na época
apostólica, ensinamentos espúrios ameaçavam as igrejas locais. Filosofias pagãs
eram disseminadas com vestimentas de ensinamento cristão. O apóstolo Paulo
advertiu sobre isso em suas cartas, mostrando que a igreja local deve ter
cautela e prudência, rejeitando sempre qualquer ensinamento que manche a pureza
do santo Evangelho.
Finalmente, o terceiro tópico apresenta a Igreja como a guardiã da Sã Doutrina
por excelência. Assim, o Senhor levantou ministros, pessoas chamadas para zelar
pela Palavra de DEUS, bem como sua inerrância e suficiência, a fim de que o
povo de DEUS seja edificado de maneira saudável. Logo, a Igreja de CRISTO deve
exercer o seu papel de “coluna e firmeza da verdade”.
Aplicação
A lição nos ensina que há uma doutrina verdadeira, legada pelo Senhor JESUS
CRISTO e seus apóstolos. É a nossa herança de fé. É um legado que não podemos
abrir mão. É preciso mergulhar nesse legado.
A lição também adverte que há um perigo real de corrupção doutrinária. Muitos,
infelizmente, dividiram igrejas por causa de modismos e vãos ensinamentos. É
preciso não ignorar o perigo de um falso ensinamento. Finalmente, como Igreja
de CRISTO, que é “coluna e firmeza da verdade”, devemos perseverar na Sã
Doutrina. Aquela doutrina legada pelo Senhor e seus apóstolos.
Lição 12 - A Coragem do Apóstolo Paulo diante da Morte
Ter coragem diante da morte. A Bíblia também nos ensina a respeito de como o
crente deve lidar com a morte. Por isso, a lição desta semana é uma
oportunidade de conscientizar a classe sobre ter coragem diante da morte a
partir da vida no ESPÍRITO e da esperança cristã. Quando a nossa consciência
tem uma imagem vívida da bendita esperança, somos motivados a perseverar diante
do sofrimento, conforme as palavras do salmista: “Ainda que eu andasse pelo
vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara
e o teu cajado me consolam” (Sl 23.4).
Resumo da lição
Para conscientizar a classe acerca desse importante ensinamento, o primeiro
tópico mostra a consciência de Paulo quanto a padecer por CRISTO. A narrativa
bíblica de Atos 21 apresenta a reação do apóstolo diante de uma profecia que
afirmava que ele seria entregue nas mãos dos gentios (At 21.11). A resposta de
Paulo revela a sua consciência profunda a respeito da esperança cristã: “[...]
Estou pronto não só a ser ligado, mas ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do
Senhor JESUS” (At 21.13). O ESPÍRITO SANTO enchia o apóstolo da esperança em
CRISTO para que ele fizesse o caminho voluntário do martírio.
O tópico segundo aponta essa coragem apostólica para enfrentar as ameaças de
morte. Ele revela que o ESPÍRITO SANTO era a fonte de sua coragem para morrer
pela causa do Evangelho. Como estudamos em lições anteriores, o ESPÍRITO SANTO
impulsionava o ministério apostólico de Paulo. Ele enchia o apóstolo e
falava-lhe ao coração para fazer a vontade divina, mesmo que isso significasse
correr riscos fatais pela causa do Evangelho.
O terceiro tópico destaca as acusações e prisões de Paulo no Templo. Essas
acusações mentirosas implicaram a prisão do apóstolo. Entretanto, mesmo preso,
o apóstolo foi muito produtivo na causa do Evangelho. Muitas de suas cartas
foram escritas na prisão. O ministério de Paulo mostra-nos uma das verdades
mais consoladora e encorajadora da fé cristã: quem vive na liberdade do
ESPÍRITO, ainda que esteja fisicamente preso, continua experimentando a
verdadeira liberdade em CRISTO.
Aplicação
O ESPÍRITO SANTO por meio da bendita esperança cristã nos encoraja e nos enche
de confiança quanto ao padecimento por amor à causa de CRISTO. O ESPÍRITO faz
isso por nós e em nós. Vivamos no ESPÍRITO! Tenhamos esperança!
Lição 13 - A Gloriosa Esperança do Apóstolo
Chegamos ao final de mais um trimestre. Esta última lição coroa o estudo sobre
a vida e o ministério do apóstolo Paulo. A Palavra de DEUS mostra que o
apóstolo cultivava a esperança cristã em sua vida e que ela cumpriu um papel
importante diante de circunstâncias das mais difíceis na vida do apóstolo.
Nesse sentido, com base na esperança apostólica, esta última lição tem como
objetivo enfatizar a gloriosa esperança dos cristãos.
Resumo da lição
O primeiro tópico ressalta a consciência de Paulo diante de morte. Uma das
coisas mais importantes na caminhada cristã é estar consciente diante do
enfrentamento que se trava. O apóstolo estava preso e estava consciente de que
a sua saída da cela era para a morte. Mas o que enchia o apóstolo de esperança
era a herança espiritual que lhe esperava. O apóstolo já estava completamente
desapegado da Terra, seu alvo era apenas ser participante da glória celestial
que breve estaria diante dele.
O segundo tópico apresenta a doutrina bíblica de Paulo sobre a volta do Senhor.
O tópico mostra que a volta de CRISTO se dará em duas fases: a primeira,
visível somente aos santos do Senhor; a segunda, visível a todos os homens. A
primeira fase é o Arrebatamento da Igreja e a segunda é vinda gloriosa e
triunfal do Senhor JESUS com sua Noiva.
O terceiro tópico expõe sobre os tempos e estações até a volta do Senhor. Esse
tópico ressalta que não cabe a nós adivinhar os tempos e as estações de que
todas essas coisas acontecerão. O precisamos cultivar é uma vida no ESPÍRITO,
com vigilância, aguardando que o Senhor venha a qualquer momento.
Aplicação
Com Paulo aprendemos que a esperança cristã lida com a morte de uma maneira
concreta. A morte existe e não podemos evitá-la. Entretanto, é possível
enfrentá-la de maneira gloriosa e sublime, pois a morte não é o fim, mas o
início de uma nova etapa da vida cristã. Devemos nos preparar para essa etapa
da vida cristã: o Arrebatamento da Igreja. Essa preparação envolve vigilância
espiritual, santidade na vida e cultivo da verdadeira esperança. Nossos olhos
devem estar voltados para esse grande acontecimento.
O nosso objetivo, portanto, não é adivinhar o dia e a hora da vinda do Senhor,
mas viver a vida cristã na dimensão do ESPÍRITO SANTO e na dimensão do porvir.
Nosso Senhor breve virá!
SUBSÍDIOS DA
LIÇÃO 1 - CPAD
OBJETIVO GERAL
- Saber como o mundo de hoje é uma porta aberta para o Evangelho.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Apresentar o mundo de Paulo no império romano;
Discorrer sobre o mundo cultural de Paulo;
Descrever o mundo religioso de Paulo.
INTERAGINDO COM O PROFESSOR
Mais um ano está chegando ao fim. Neste último trimestre, estudaremos a vida e
o ministério de um grande homem usado por DEUS: o apóstolo Paulo. É uma
oportunidade para aprender e colocar em prática princípios eternos que
nortearam a vida desse mui digno homem de DEUS.
Nesta primeira lição, você pode propor uma reflexão aos alunos a respeito das
circunstâncias que o mundo de hoje nos oferece para pregar o Evangelho. À luz
do mundo político, cultural e religioso do apóstolo dos gentios, reflita com os
alunos as portas abertas para o Evangelho no mundo atual.
Apresente o comentarista do trimestre, o pastor Elienai Cabral, escritor,
conferencista e consultor doutrinário e teológico da CGADB/CPAD.
PONTO CENTRAL - O mundo de hoje é uma porta
aberta para o Evangelho
SÍNTESE DO
TÓPICO I - A “pax romana”, a geografia e os meios de transporte urbanos e do
campo do império romano contribuíram para a propagação do Evangelho.
SÍNTESE DO TÓPICO II - O grego koinê era a principal língua do tempo do
apóstolo e, como mola propulsora da cultura grega, ela contribuiu para a
propagação da mensagem escrita do Evangelho.
SÍNTESE DO TÓPICO III - O apóstolo Paulo se identifica como judeu, pois ele foi
criado dentro da fé judaica.
SUBSÍDIO PEDAGÓGICO TOP1
Esta lição nos mostra os três “mundos” do apóstolo Paulo: o romano, o grego e o
judeu. O apóstolo teve certa liberdade para peregrinar dentro do império. Ele
também se comunicou na língua predominante da época, o grego koiné, bem como
fez uso da vasta literatura de seu tempo. Paulo também era judeu. A moral
judaica estava presente em algumas partes do império por meio das sinagogas. A
soma de tudo isso serviu ao ESPÍRITO SANTO para que a vida do apóstolo fosse
usada integralmente para a causa do Evangelho no mundo gentílico.
Por isso, sugerimos que você introduza o assunto desta lição perguntando aos
alunos acerca da contribuição cultural, política e religiosa que o mundo atual
nos dá para pregar o Evangelho. Quais as necessidades que o mundo de hoje
apresenta? Como o Evangelho pode preenchê-las?
SUBSÍDIO PENSAMENTO CRISTÃO TOP2
“À medida que o cristianismo se expandia no mundo romano, a Igreja Primitiva
enfrentava muitas questões e desafios novos. Os pais escreveram e ensinaram,
individualmente e em reuniões de concílios, no esforço de responder a essas
questões. Muitas de suas soluções ainda formam um fundamento essencial para a
reflexão teológica, a organização da igreja e a vida cristã.
Entre as contribuições da Igreja Primitiva para a formação de uma cosmovisão
cristã, quatro áreas foram particularmente importantes: 1) autodefinição, quer
dizer, a compreensão do que significa ser cristão em referência ao judaísmo, 2)
a relação do cristianismo com a cultura não-cristã [grega], segundo reflexões
feitas pelos apologistas ou defensores da fé, 3) a visão cristã de DEUS e de
JESUS CRISTO nos primeiros concílios ecumênicos, e 4) a relação do cristianismo
com o governo”(PALMER, Michael D. (Ed). Panorama do Pensamento Cristão. Rio de
Janeiro: CPAD, 2001, p.113).
CONHEÇA MAIS TOP2
*O Evangelho no mundo gentílico
“O Evangelho já havia sido pregado em Jerusalém, Judeia e Samaria. Desarraigado
pela mão feroz de Saulo, o perseguidor, estabeleceu-se na grande cidade de
Antioquia. O propósito do Evangelho era ser transplantado. Antioquia, que veio
a ser um centro missionário, foi o ponto de partida para Paulo.” Para ler mais,
consulte a obra “Atos: E a Igreja se Fez Missões”, editada pela CPAD, p.145.
SUBSÍDIO PENSAMENTO CRISTÃO TOP3
“Desde o princípio, a Igreja recém-nascida achou-se num mundo multicultural.
Seu contexto imediato e seus primeiros membros eram quase exclusivamente
judeus. Uma preocupação inicial que a comunidade de crentes enfrentou dizia
respeito à sua relação com o judaísmo do século I. O indivíduo tinha de se
tornar judeu para ser verdadeiro seguidor de JESUS? A identificação com a
comunidade de crentes livrava a pessoa de todas as expectativas tradicionais
dos judeus? E as Escrituras dos judeus? Elas foram substituídas em todo ou em
parte por JESUS CRISTO?
Estas preocupações estavam em primeiro lugar na mente dos autores
neotestamentários, especialmente de Paulo. Como ‘apóstolo aos gentios’, Paulo
estava particularmente preocupado que fossem permitidos tanto aos gregos, aos
bárbaros (os não-gregos), aos judeus e aos gentios, terem uma posição igual na
comunidade de fé (Gálatas 3.28; Colossenses 3.11).” (PALMER, Michael D. (Ed).
Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p.113).
PARA REFLETIR - A respeito de “O Mundo do Apóstolo Paulo”, responda:
Paulo era natural de qual cidade? Tarso, capital da Cilícia.
O que Atos 9 mostra? Atos 9 mostra que, em sua infinita sabedoria e
presciência, DEUS separou Paulo e o chamou a partir de uma experiência
espiritual sobrenatural, bem diferente dos demais apóstolos, para levar o nome
de JESUS ao mundo gentílico (At 9.15).
Qual era a língua mundial nos dias de Paulo? O grego koiné.
Como Paulo declara a sua defesa em Atos 22.3? Em Atos 22.3, Paulo declara a sua
defesa assim: “Eu sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia”.
A quem se restringia o mundo missionário dos primeiros apóstolos? O mundo
missionário dos apóstolos de JESUS restringia-se, numa visão inicialmente
limitada, apenas ao povo judeu (At 11.19).
CONSULTE - Revista Ensinador Cristão - CPAD, nº 87, p. 36.
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A Missão de
Paulo e Barnabé - Atos 13:1-3 - Com. Bíblico - Matthew Henry (Exaustivo)
AT e NT– com correções e acréscimos do Pr. Henrique
Temos aqui a
autorização e comissão divinas dada a Barnabé e Saulo para irem pregar o
evangelho entre os gentios e a sua ordenação a esse ministério pela imposição
de mãos, com jejum e oração. Aqui está:
I
Um relato
do estado em que se encontrava a igreja que estava em Antioquia (v. 1), que foi
plantada no capítulo 11.20.
1. Como a
igreja em Antioquia estava bem provida de bons ministros. Havia alguns profetas
e doutores (v. 1), homens notáveis por dons, graça e utilidade. JESUS, quando
subiu ao céu, “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e
outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores Efésios 4:11 | ACF.
Entre estes
homens havia dois desses ministérios: Alguns eram profetas e outros doutores.
Ágabo, pelo visto, era profeta e não doutor, e muitos eram doutores que não
eram profetas. Barnabé e Saulo (Paulo) eram doutores já que ensinavam em
Antioquia (At 11.25-26; 2 Timóteo 1.11). Paulo se tornou
Apóstolo, Evangelista e Doutor (2 Timóteo 1.11), acumulando JESUS
três ministérios nele, mais em sua vida ministerial vemos que os cinco
ministérios operaram em sua vida de serviço a DEUS os nove dons do ESPÍRITO SANTO
lhe eram residentes (IMITADOR DE JESUS). Os mencionados aqui eram, às vezes,
divinamente inspirados e recebiam instruções imediatamente do céu em ocasiões
especiais, o que lhes dava o título de profetas. Alguns eram doutores
declarados da igreja nos cultos, expunham as Escrituras e esclareciam a
doutrina de CRISTO com aplicações satisfatórias e sobrenaturais. Estes eram os
profetas, sábios e escribas que JESUS prometera enviar (Mt 23.34), que eram, de
todos os modos, qualificados para o serviço da igreja cristã. Antioquia era uma
grande cidade com muitos cristãos, de forma que não podiam se reunir todos num
mesmo lugar. Fazia-se necessário que tivessem muitos doutores para presidir
suas respectivas reuniões e apresentar os propósitos de DEUS ao povo. Na lista,
Barnabé é citado em primeiro lugar, provavelmente porque era o mais velho, e
Saulo, por último, provavelmente porque era o mais novo. Mas depois o último se
tornou o primeiro e Saulo foi mais célebre na igreja. Mais três nomes são
citados. (1) Simeão (v. 1), que, com vistas a distingui-lo de outros do mesmo
nome, era chamado Níger, “o Negro”. (2) Lúcio (v. 1), de Cirene, que certos
estudiosos pensam (inclusive o Dr. Lightfoot) que se trata do mesmo Lucas que
escreveu os Atos, era originalmente de cireneu e teve sua formação educacional
na faculdade ou sinagoga cirenaica em Jerusalém, onde ouviu e recebeu o
evangelho. (3) Manaém (v. 1), indivíduo de certa dignidade porque foi criado
com Herodes, o tetrarca, o que quer dizer que ou se alimentaram do mesmo leite,
ou frequentaram a mesma escola, ou foram alunos do mesmo tutor, ou,
preferivelmente, eram colegas e companheiros constantes. Em cada parte da
formação educacional de Manaém, Herodes era seu companheiro e amigo íntimo,
dando-lhe a clara perspectiva de cargo honorífico na corte. Não obstante, ele
abandonou todas essas esperanças por amor a CRISTO. Foi como Moisés que, sendo
já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó (Hb 11.24). Tivesse ele
se unido a Herodes, com quem fora criado, ele poderia ter tido o lugar de
Blasto e sido camareiro do rei. Mas é melhor ser companheiro de sofrimentos com
um santo do que ser companheiro de perseguições com um tetrarca.
2. Como os bons
ministros da igreja em Antioquia eram bem usados: Eles serviam ao Senhor e
jejuavam (v. 2). Observe: (1) Os doutores (ou mestres) fiéis e diligentes
estão, na verdade, servindo ao Senhor. Os que ensinam os cristãos estão
servindo a CRISTO. Eles realmente o honram e promovem os interesses do Reino.
Os que servem à igreja pregando e orando (ambas as funções estão inclusas
aqui), estão servindo ao Senhor, pois eles são os servos da igreja por amor a
CRISTO. Em seus serviços eles têm de olhar para Ele, e as suas recompensas,
eles as receberão dele. (2) Servir ao Senhor, de um modo ou de outro, tem de
ser o negócio declarado das igrejas e seus doutores (ou mestres). Devemos
separar tempo para esta obra e passar uma parte do dia nela. O que mais temos
de fazer como cristãos e ministros senão servir a CRISTO, o Senhor? (Cl 3.24;
Rm 14.18). (3) O jejum é de utilidade em nosso serviço ao Senhor como sinal de
nossa humilhação e como meio de nossa mortificação. Esse exercício religioso
não foi praticado pelos discípulos de JESUS, enquanto o esposo estava com eles
(Mc 2.19,20), tanto quanto foi pelos discípulos de João Batista e dos fariseus.
Depois que o esposo foi tirado, eles jejuaram muitas vezes como pessoas que
aprenderam muito bem a negar a si mesmo e suportar as dificuldades, JESUS
disse: “jejuarão” (Mc 2.20).
II
As ordens
que o ESPÍRITO SANTO deu para separar Barnabé e Saulo, no meio de um culto em
que os ministros das várias congregações na cidade se uniram em um jejum solene
ou dia de oração: Disse o ESPÍRITO SANTO (v. 2) com quase certeza, através de
um dos profetas ali presentes: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que
os tenho chamado. Ele não indica a espécie da obra, mas alude a um chamado já
feito anteriormente, sobre o qual os dois sabiam o significado, enquanto os
demais poderiam ou não saber. Quanto a Saulo, fora-lhe dito especificamente que
tinha de levar o nome de CRISTO diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de
Israel (Atos 9:15 ACF), e ele foi enviado aos gentios
(Atos 13.46-47, 22.21; Rm 11.13; Gl 2.2,7; Ef 3.8). A questão fora
resolvida entre eles em Jerusalém antes deste dia. Ficou resolvido que Pedro,
Tiago e João se disporiam entre os da circuncisão, para que Saulo e Barnabé
fossem para os gentios (Gl 2.7-9). É provável que Barnabé soubesse que fora
escolhido para fazer o mesmo serviço que Saulo. Contudo, eles não se atirariam
a esta colheita, ainda que copiosa e produtiva, até que recebessem ordens
específicas do Senhor da colheita: Lança a tua foice e sega! [...], porque já a
seara da terra está madura (Ap 14.15). As ordens eram: Apartai-me a Barnabé e a
Saulo. Observe aqui: 1. CRISTO, pelo seu ESPÍRITO, nomeia os seus ministros. É
pelo ESPÍRITO de CRISTO (ESPÍRITO SANTO) que, em certa medida, eles são
qualificados para os serviços, inclinados para isso e tirados de outros cuidados
incompatíveis com isso. JESU escolhe os ministros e o ESPÍRITO SANTO os
capacita com dons. Há aqueles que o ESPÍRITO SANTO separa para o serviço de
CRISTO, distinguindo-os dos outros como indivíduos que são oferecidos e que de
boa vontade se oferecem ao serviço do templo. Juízes competentes recebem
orientações relativas à suficiência da capacidade de tais indivíduos e da
sinceridade de suas inclinações: “Separai-os”. 2. Os ministros de CRISTO são
separados para ele e para o ESPÍRITO SANTO: “Separai-os para mim” (v. 2,
versões NTLH e RA). Eles devem ser empregados na obra de CRISTO e sob a
orientação do ESPÍRITO, para a glória de DEUS PAI. 3. Todos que são separados
para CRISTO como seus ministros são separados para trabalhar. JESUS não tem
servos para ficarem à toa. Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja
(1 Tm 3.1). É para isso que eles são separados: trabalhar na palavra e na
doutrina (1 Tm 5.17). Eles são separados para labutar, não para vadiar. 4. A
obra dos ministros de CRISTO, à qual eles são separados, é obra que já está
determinada, para a qual todos os ministros de CRISTO, até hoje, têm sido
chamados e a que eles foram, por meio de um chamado externo, orientados e
escolheram.
III
A
ordenação de Barnabé e Saulo correspondente às ordens que o ESPÍRITO SANTO deu
para separá-los: Não foi para o ministério em geral (há muito que Barnabé e
Saulo já eram ministros), mas para um serviço em particular no ministério. Era
algo peculiar e que exigia novo comissionamento. DEUS considerou que o momento
era oportuno para transmitir essa ordem por meio das mãos desses profetas e
doutores a fim de que a igreja recebesse estas orientações: os doutores devem
ordenar doutores e profetas devem ordenar profetas (havia profetas na igreja e
um dos grandes exemplos é Silas que andava de contínuo com o apóstolo Paulo e o
profeta famoso chamado Ágabo – portanto, temos profetas na igreja) , e aqueles
a quem foram confiadas as palavras de CRISTO devem, para o benefício da
posteridade, confiá-las a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem
os outros (2 Tm 2.2). Assim, aqui, Simeão, Lúcio e Manaém, fiéis ministros
(prováveis profetas nesta reunião) neste tempo na igreja que estava em
Antioquia, tendo jejuado, orado e posto sobre [Barnabé e Saulo] as mãos, os
despediram (v. 3), de acordo com as orientações recebidas. Observe: 1. Simeão,
Lúcio e Manaém oraram por Barnabé e Saulo (v. 3). Quando bons homens são
enviados para fazer a boa obra devem receber as orações solenes e particulares
da igreja, especialmente dos irmãos que são companheiros de trabalho e
companheiros de armas. 2. Simeão, Lúcio e Manaém uniram o jejum às orações,
como fizeram em suas outras ministrações (v. 3). Foi o que JESUS nos ensinou:
Ele mesmo jejuou quarenta dias no deserto (Mt 4.2). 3. Simeão, Lúcio e Manaém
puseram as mãos sobre Barnabé e Saulo (v. 3). Com esse gesto: (1) Eles lhes
deram sua manumissão, demissão ou dispensa do serviço em que estavam engajados
na igreja em Antioquia, reconhecendo que saíram não só de modo justo e com
aquiescência, mas de modo honroso e com boa fama. (2) Eles rogaram a bênção
sobre Barnabé e Saulo no empreendimento que assumiam, pediram que DEUS
estivesse com eles e lhes desse sucesso. E para que conseguissem isso, oraram
para que eles fossem cheios do ESPÍRITO SANTO na obra a fazer. É a mesma coisa
que está explicada no capítulo 14.26, onde fala, em relação a Paulo e Barnabé,
que de Antioquia, eles tinham sido recomendados à graça de DEUS para a obra que
já haviam cumprido. Assim como era a mostra da humildade de Barnabé e Saulo o
fato de se submeterem à imposição das mãos dos seus colegas, ou mais
propriamente, subordinados, assim também era a mostra do bom temperamento dos
outros ministros o fato de eles não invejarem Barnabé e Saulo pela honra de
terem sido escolhidos, mas de alegremente terem lhes confiado esta honra com
orações sinceras e vigorosas por eles. Eles os despediram com a máxima urgência
por pura preocupação pelas regiões em que eles iam desbravar terras não
evangelizadas.
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NA
ÍNTEGRA COMO NA REVISTA 3º TRIMESTRE DE 2026
Escrita Lição
1, CPAD, O chamado para os gentios, 3Tr26, Com. Extras Pr. Henrique, EBD
NA TV
Para nos ajudar
PIX 33195781620 (CPF) Luiz Henrique de Almeida Silva
ESBOÇO DA LIÇÃO
I – O
NASCIMENTO DA MISSÃO GENTÍLICA
1. Antioquia: um centro escolhido por DEUS (v.1).
2. Profetas e
doutores servindo ao Senhor (vv.1,2).
3. A separação
de Paulo e Barnabé (vv.2,3).
II – O ESPÍRITO
SANTO E A OBRA MISSIONÁRIA
1. O ESPÍRITO
que conduz a missão.
2. O poder do
ESPÍRITO na evangelização dos gentios.
3. Evidências
da ação missionária do ESPÍRITO (At 13—14).
III – A IGREJA
COMO AGÊNCIA MISSIONÁRIA
1. A Igreja que
ouve a voz de DEUS.
2. Uma igreja
que envia e sustenta seus missionários.
3. Uma igreja
que cumpre a Grande Comissão.
TEXTO ÁUREO
“E, servindo
eles ao Senhor e jejuando, disse o ESPÍRITO SANTO: Apartai-me a Barnabé e a
Saulo para a obra a que os tenho chamado.” (At 13.2)
VERDADE PRÁTICA
Quando a igreja
ouve o ESPÍRITO, o Evangelho avança e vidas são alcançadas para a glória de
DEUS.
LEITURA DIÁRIA
Segunda - At 1.8 Sem o ESPÍRITO SANTO não há missão verdadeira
Terça - At 11.26 A identidade e a missão caminham juntas
Quarta - Mt 6.16-18 O jejum fortalece nossa sensibilidade
espiritual
Quinta - Is 61.1 O ministério de JESUS começou pela unção do
ESPÍRITO
Sexta - At 4.31 A Igreja Primitiva avançava porque estava
cheia do ESPÍRITO
Sábado - Rm 10.14,15 Como ouvirão, se não há quem pregue?
LEITURA BÍBLICA
EM CLASSE - ATOS 13.1-12
1 - Na igreja
que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé, e
Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes,
o tetrarca, e Saulo. 2 - E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o
ESPÍRITO SANTO: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho
chamado. 3 - Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os
despediram. 4 - E assim estes, enviados pelo ESPÍRITO SANTO, desceram a
Selêucia e dali navegaram para Chipre. 5 - E, chegados a Salamina, anunciavam a
palavra de DEUS nas sinagogas dos judeus; e tinham também a João como
cooperador. 6 - E, havendo atravessado a ilha até Pafos, acharam um certo
judeu, mágico, falso profeta, chamado Barjesus, 7 - o qual estava com o
procônsul Sérgio Paulo, varão prudente. Este, chamando a si Barnabé e Saulo,
procurava muito ouvir a palavra de DEUS. 8 - Mas resistia-lhes Elimas, o
encantador (porque assim se interpreta o seu nome), procurando apartar da fé o
procônsul. 9 - Todavia, Saulo, que também se chama Paulo, cheio do ESPÍRITO
SANTO e fixando os olhos nele, disse: 10 - Ó filho do diabo, cheio de todo o
engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de
perturbar os retos caminhos do Senhor? 11 - Eis aí, pois, agora, contra ti a
mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. No mesmo instante,
a escuridão e as trevas caíram sobre ele, e, andando à roda, buscava a quem o
guiasse pela mão. 12 - Então, o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu,
maravilhado da doutrina do Senhor.
HINOS
SUGERIDOS: 24, 340, 358 da Harpa Cristã
PLANO DE AULA
1. INTRODUÇÃO
Neste
trimestre, estudaremos A Igreja dos Gentios, acompanhando a expansão do
Evangelho para além do contexto judaico e evidenciando a direção soberana do
ESPÍRITO SANTO na missão da Igreja. Nesta primeira lição - O Chamado para os
Gentios - analisamos Atos 13 e o envio de Paulo e Barnabé a partir da igreja de
Antioquia, destacando uma comunidade sensível à voz do ESPÍRITO. O comentarista
é o Pr. Wagner Gaby, líder da Assembleia de DEUS em Curitiba (PR),
conferencista, advogado e escritor, autor de obras publicadas pela CPAD, como
As Doenças do Século, Planejamento e Gestão Eclesiástica, Relações Públicas
para Líderes Cristãos e As Parábolas de JESUS.
2. APRESENTAÇÃO
DA LIÇÃO
A) Objetivos da
Lição: I) Apresentar o contexto histórico e espiritual da igreja de Antioquia e
sua missão aos gentios; II) Conduzir o aluno à reflexão sobre a atuação do
ESPÍRITO SANTO na condução da obra missionária e no envio dos obreiros; III)
Aplicar os princípios da igreja de Antioquia à vida da igreja local, assumindo
a missão cristã como identidade e compromisso.
B) Motivação: A
missão da Igreja não nasce de estratégias humanas, mas do agir soberano do
ESPÍRITO SANTO. Ao estudar o chamado para os gentios, somos convidados a ouvir
a voz de DEUS, discernir seu propósito e compreender que também fazemos parte
do plano divino de alcançar vidas e nações.
C) Sugestão de
Método: Conduza a aula partindo de uma breve pergunta provocativa sobre o
alcance do Evangelho, levando o aluno a refletir se a fé cristã se limita a um
grupo específico, por exemplo: Se o Evangelho é para todos, por que a Igreja
Primitiva precisou aprender isso ao longo do tempo? Em seguida, apresente a
transição da igreja judaica para a missão gentílica em Atos, destacando a ação
do ESPÍRITO SANTO conforme a exposição dos três tópicos. Por fim, promova uma
aplicação prática, mostrando que a igreja atual é herdeira dessa missão e
chamada a viver o Evangelho sem barreiras culturais ou étnicas.
3. CONCLUSÃO DA
LIÇÃO
A) Aplicação:
Assim como a Igreja Primitiva ouviu a voz do ESPÍRITO e superou limites
culturais para obedecer à missão, a igreja de hoje é chamada a examinar suas
próprias barreiras - sociais, culturais - que podem dificultar o alcance do
Evangelho. Viver como Igreja dos Gentios significa que deve haver abertura para
que o ESPÍRITO SANTO conduza a missão para além de nossas preferências e zonas
de conforto.
4. SUBSÍDIO AO
PROFESSOR
A) Revista
Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens,
artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição
106, p.36, você encontrará um subsídio especial para esta lição.
B) Auxílios
Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na
preparação de sua aula: 1) O texto "Antioquia da Síria", localizado
depois do primeiro tópico, aprofunda as características da igreja que se
voltaria aos gentios; 2) O texto "O ESPÍRITO SANTO Inspira as
Missões", localizado ao final do segundo tópico, reflete a respeito da
motivação missionária da Igreja.
COMENTÁRIO - INTRODUÇÃO
Lucas registra o cumprimento progressivo da promessa de JESUS em
Atos 1.8: o Evangelho alcançaria Jerusalém, Judeia, Samaria e chegaria aos
confins da terra. Os capítulos 13 a 28 marcam a grande virada da narrativa,
quando o foco deixa de ser Jerusalém e passa a Antioquia. É dessa igreja,
caracterizada por diversidade, sensibilidade espiritual e prática missionária
madura, que o ESPÍRITO SANTO convoca Paulo e Barnabé para a evangelização dos
gentios. A partir desse ponto, o ministério de Paulo torna-se central, e o
ESPÍRITO é mostrado como o verdadeiro condutor da expansão cristã. A Missão
Gentílica nasce, portanto, não como estratégia humana, mas como resposta ao
chamado direto do ESPÍRITO para alcançar as nações.
PALAVRA-CHAVE - Gentios
I – O NASCIMENTO DA MISSÃO GENTÍLICA
1. Antioquia: um
centro escolhido por DEUS (v.1).
Fundada por Seleuco Nicátor em 300 a.C., Antioquia da Síria
tornou-se a terceira maior cidade do Império Romano, atrás apenas de Roma e Alexandria.
Culturalmente greco-helenista, abrigava significativa população judaica e
exercia forte influência intelectual e comercial, contando com o porto de
Selêucia (At 13.4). Foi ali que os discípulos foram chamados “cristãos” pela
primeira vez (At 11.26). Não por acaso, DEUS escolheu Antioquia como base da
missão gentílica, transformando aquela igreja em um centro de envio para as
nações — uma verdadeira base missionária de envio às nações.
2. Profetas e doutores servindo ao Senhor (vv.1,2).
A liderança local reunia profetas e doutores (mestres), ministérios
que, após o período apostólico, tornaram-se pilares da edificação da igreja (1
Co 12.28). Os profetas exortavam mediante inspiração direta; os mestres
instruíam com base nas Escrituras e na tradição dos ensinos de JESUS. Durante o
serviço ao Senhor, marcado por oração e jejum, o ESPÍRITO falou. A disposição
desses líderes em buscar a vontade divina revela uma comunidade madura,
centrada em DEUS e apta a discernir o propósito do ESPÍRITO para além das
necessidades locais.
3. A separação de Paulo e Barnabé (vv.2,3).
O ESPÍRITO SANTO ordenou: “Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a
obra a que os tenho chamado”. A igreja respondeu com jejum, oração e imposição
de mãos, reconhecendo o chamado divino e enviando seus melhores obreiros. Esse
ato inaugura um novo momento da história cristã: a missão aos gentios é
assumida oficialmente pela igreja. A obediência da congregação demonstra que a
comunidade local é parte ativa da vocação missionária e que o envio deve ser
sempre acompanhado de intercessão, consagração e dependência do ESPÍRITO.
SINÓPSE I - Em Antioquia, o
ESPÍRITO inaugura a missão cristã entre os gentios.
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO - “ANTIOQUIA DA SÍRIA.
A Antioquia da Síria foi um importante centro político, econômico e
religioso durante o período romano. A população diversificada de Antioquia
contribuiu para uma grande diversidade de religiões ligadas à cidade. O seu
subúrbio de Dafne era um importante local de culto para o paganismo, e a cidade
manteve grande população judaica ao longo da sua história. Além disso, foi para
Antioquia que muitos cristãos de Jerusalém fugiram durante a perseguição
inicial da igreja. Aqui, pela primeira vez, os cristãos judeus começaram a
focar intencionalmente em compartilhar o evangelho para os gentios (At
11.19-21).
O resultado foi uma igreja grande, multicultural e vibrante. A
igreja em Antioquia era conhecida pela sua diversidade étnica e cultural, a sua
generosidade (enviou uma oferta a Jerusalém durante uma fome; veja 11.27-30) e
o seu coração voltado para missões (serviu de sede para Paulo nas suas três
viagens missionárias). Não surpreendentemente, foi em Antioquia que os
seguidores de CRISTO foram chamados pela primeira vez de ‘cristãos’ (11.26)” (Dicionário
Bíblico Baker. Rio de Janeiro: CPAD, 2023, p.41).
II – O ESPÍRITO
SANTO E A OBRA MISSIONÁRIA
1. O ESPÍRITO que conduz a missão.
O Livro de Atos pode ser chamado, com justiça, de “Atos do ESPÍRITO
SANTO”. É Ele quem inspira, dirige, separa e envia os missionários. A missão
não nasce da criatividade humana, mas da vontade soberana do ESPÍRITO. Sem o
poder do ESPÍRITO, até os apóstolos permaneceram retraídos; com o Pentecostes,
tornaram-se proclamadores ousados da fé. Assim, toda iniciativa evangelizadora
autêntica é fruto da ação do ESPÍRITO no coração da igreja.
2. O poder do
ESPÍRITO na evangelização dos gentios.
Os discípulos viviam cheios do ESPÍRITO, e por isso evangelizavam
com coragem, discernimento e alegria (At 4.31; 5.41; 7.55). O Batismo no
ESPÍRITO SANTO lhes deu poder para testemunhar de CRISTO, e eficácia em sua
mensagem (At 1.8). Essa unção não apenas fortaleceu a pregação, mas também
conferiu autoridade espiritual para enfrentar resistências, realizar sinais e
consolidar igrejas em diversos povos e regiões. A expansão registrada em Atos —
de 120 discípulos a multidões — é resultado direto dessa obra sobrenatural.
"A obediência da congregação demonstra que a comunidade local
é
parte ativa da vocação missionária [...].”
3. Evidências da ação missionária do ESPÍRITO (At 13—14).
As primeiras viagens missionárias mostram a clara intervenção do
ESPÍRITO: portas se abrem, vidas são transformadas, e igrejas são plantadas
apesar de perseguições. Em Pafos, o confronto entre Paulo e Elimas não é apenas
um episódio de oposição, mas uma demonstração de que a luz do Evangelho
prevalece sobre as trevas. A conversão do procônsul Sérgio Paulo revela que
nenhum nível social está além do alcance de DEUS. A missão avança porque o
ESPÍRITO autentica a mensagem e confirma a autoridade dos enviados.
SINÓPSE II - O ESPÍRITO
SANTO conduz e sustenta a expansão missionária da Igreja.
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO - “O ESPÍRITO SANTO INSPIRA AS MISSÕES.
Notemos a palavra ‘apartar’. A tendência natural das igrejas, naqueles
dias como hoje, era estabelecerem-se como grupos firmados. Não prestavam a
devida atenção à expansão missionária. A igreja em Jerusalém começou a se
acomodar como grupo firme, centralizado naquela cidade. O Senhor, então,
quebrou aquela organização e fez os pedaços se espalharem por toda a Palestina.
Agora, de entre os ministros de Antioquia, retiram estes dois para uma missão
especial” (PEARMAN, Myer. Atos: A Igreja Primitiva na Força e na Unção
do ESPÍRITO. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, pp.144-45).
III – A IGREJA COMO AGÊNCIA MISSIONÁRIA
1. A Igreja que ouve a voz de DEUS.
Antioquia serve de modelo para toda comunidade cristã: uma igreja
que ora, jejua e discerne a direção divina. Uma igreja missionária cresce na
comunhão e age por obediência. A obra missionária não é programação, mas
identidade. Em Atos 13, vemos que o ESPÍRITO fala à igreja que se coloca diante
de DEUS com reverência e compromisso.
2. Uma igreja que envia e sustenta seus missionários.
A imposição de mãos sobre Paulo e Barnabé mostra que a igreja
participa ativamente do envio. Não retem seus melhores servos, mas os consagra
ao propósito eterno. Sustentar, interceder e acompanhar missionários é parte
inseparável da vocação eclesial. Assim como Antioquia se tornou um centro de
envio, cada igreja local é chamada a tornar-se base de operação para que o
Evangelho alcance novos povos e culturas.
3. Uma igreja que cumpre a Grande Comissão.
A ordem de JESUS permanece: ir, pregar, fazer discípulos e alcançar
as nações (Mt 28.19,20). No mundo, ainda há povos que nunca ouviram o
Evangelho. Como ouvirão, se não há quem pregue? (Rm 10.14). E como pregarão, se
não forem enviados? (Rm 10.15). O ESPÍRITO continua chamando homens e mulheres
para essa obra, e cabe à igreja atender ao chamado com prontidão, oração,
recursos e disposição para ir.
SINÓPSE III - A igreja
responde ao chamado do ESPÍRITO enviando e sustentando os missionários.
CONCLUSÃO
A missão entre os gentios começa com oração, jejum e sensibilidade
à voz do ESPÍRITO. A igreja de Antioquia mostra que DEUS fala, chama, separa e
envia; e que a igreja responde, intercede e sustenta. A Palavra de DEUS é
poderosa para transformar todo pecador em uma pessoa regenerada, alcançada pela
graça. Hoje, o ESPÍRITO continua chamando sua igreja para alcançar as nações.
Estamos dispostos a ouvir, obedecer e participar da missão que ainda está em
andamento?
REVISANDO O
CONTEÚDO
1. Em qual
cidade os discípulos foram chamados “cristãos” pela primeira vez?
Antioquia.
2. Quem ordenou
para que separassem Saulo e Barnabé para as nações?
O ESPÍRITO
SANTO.
3. Por que os
discípulos evangelizavam com coragem, discernimento e alegria?
Porque os
discípulos viviam cheios do ESPÍRITO.
4. Quais
evidências mostram a clara intervenção do ESPÍRITO nas primeiras viagens
missionárias?
Portas se
abrem, vidas são transformadas e igrejas são plantadas apesar de perseguições.
5. Por que
Antioquia serve de modelo para toda a comunidade cristã?
Antioquia é uma
igreja que ora, jejua e discerne a direção divina.
LEITURAS PARA
APROFUNDAR
A Igreja em
Jerusalém; A Igreja no Século XXI (CPAD)
