Escrita Lição 1, CPAD, O chamado para os gentios, 3Tr26, Com. Extras Pr. Henrique, EBD NA TV
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ESBOÇO DA LIÇÃO
I – O NASCIMENTO DA MISSÃO GENTÍLICA
1. Antioquia: um centro escolhido por DEUS (v.1).
2. Profetas e doutores servindo ao Senhor
(vv.1,2).
3. A separação de Paulo e Barnabé (vv.2,3).
II – O ESPÍRITO SANTO E A OBRA MISSIONÁRIA
1. O ESPÍRITO que conduz a missão.
2. O poder do ESPÍRITO na evangelização
dos gentios.
3. Evidências da ação missionária do ESPÍRITO
(At 13—14).
III – A IGREJA COMO AGÊNCIA MISSIONÁRIA
1. A Igreja que ouve a voz de DEUS.
2. Uma igreja que envia e sustenta seus
missionários.
3. Uma igreja que cumpre a Grande
Comissão.
I – O NASCIMENTO DA MISSÃO GENTÍLICA
II – O ESPÍRITO SANTO E A OBRA MISSIONÁRIA
III – A IGREJA COMO AGÊNCIA MISSIONÁRIA
TEXTO ÁUREO
“E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o ESPÍRITO SANTO:
Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.” (At 13.2)
VERDADE PRÁTICA
Quando a igreja ouve o ESPÍRITO, o Evangelho avança e vidas são
alcançadas para a glória de DEUS.
LEITURA DIÁRIA
Segunda - At 1.8 Sem o ESPÍRITO SANTO não há missão
verdadeira
Terça - At 11.26 A identidade e a missão caminham juntas
Quarta - Mt 6.16-18 O jejum fortalece nossa sensibilidade
espiritual
Quinta - Is 61.1 O ministério de JESUS começou pela unção
do ESPÍRITO
Sexta - At 4.31 A Igreja Primitiva avançava porque estava
cheia do ESPÍRITO
Sábado - Rm 10.14,15 Como ouvirão, se não há quem pregue?
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE - ATOS 13.1-12
1 - Na igreja que estava em Antioquia
havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé, e Simeão, chamado Níger, e
Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. 2 -
E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o ESPÍRITO SANTO: Apartai-me a
Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.
3 - Então, jejuando, e orando, e pondo
sobre eles as mãos, os despediram. 4 - E assim estes, enviados pelo ESPÍRITO SANTO,
desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. 5 - E, chegados a Salamina,
anunciavam a palavra de DEUS nas sinagogas dos judeus; e tinham também a João
como cooperador. 6 - E, havendo atravessado a ilha até Pafos, acharam um certo
judeu, mágico, falso profeta, chamado Barjesus, 7 - o qual estava com o
procônsul Sérgio Paulo, varão prudente. Este, chamando a si Barnabé e Saulo,
procurava muito ouvir a palavra de DEUS. 8 - Mas resistia-lhes Elimas, o
encantador (porque assim se interpreta o seu nome), procurando apartar da fé o
procônsul. 9 - Todavia, Saulo, que também se chama Paulo, cheio do ESPÍRITO SANTO
e fixando os olhos nele, disse: 10 - Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e
de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os
retos caminhos do Senhor? 11 - Eis aí, pois, agora, contra ti a mão do Senhor,
e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. No mesmo instante, a escuridão e
as trevas caíram sobre ele, e, andando à roda, buscava a quem o guiasse pela
mão. 12 - Então, o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado
da doutrina do Senhor.
HINOS SUGERIDOS: 24, 340, 358 da Harpa
Cristã
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SUBSÍDIOS EXTRAS – BÍBLIAS, GOOGLE, LIVROS
E REVISTAS ANTIGAS
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COMETÁRIOS RÁPIDO DO Pr. Henrique
INTRODUÇÃO AO ESTUDO
A história da chamada missionária de Barnabé e Saulo, registrada em
Atos 13:2–3, é um marco na expansão da Igreja primitiva. Até então, o Evangelho havia se
espalhado principalmente entre os judeus e alguns gentios próximos. Mas em
Antioquia, uma comunidade multicultural e fervorosa, o ESPÍRITO SANTO revelou
um novo passo: separar Barnabé e Saulo para uma obra missionária que
ultrapassaria fronteiras culturais e geográficas.
Esse episódio nos mostra que a missão não nasce de projetos
humanos, mas da iniciativa divina. DEUS chama, a igreja confirma e envia, e os
obreiros obedecem. É um modelo que continua válido até hoje. A oração e o jejum
foram o ambiente em que o ESPÍRITO falou; a imposição de mãos simbolizou o
reconhecimento e apoio comunitário; e a obediência dos missionários abriu
caminho para que o Evangelho chegasse até nós.
Assim, estudar essa chamada é mais do que olhar para o passado: é
compreender como DEUS continua levantando homens e mulheres para cumprir Sua
obra. É também um convite para cada cristão refletir sobre seu papel na missão
— seja indo, sustentando ou intercedendo.
O apóstolo Paulo foi divinamente comissionado para ser o principal
evangelizador dos povos não judeus (gentios). Essa missão de levar o Evangelho
a todas as nações define seu ministério e é amplamente documentada nos livros
de Atos dos Apóstolos e em suas próprias cartas.
Referências Principais
- O Chamado Divino: Logo após sua conversão,
DEUS revela sua missão a Ananias: "Vai, porque este é para mim um
vaso escolhido, para levar o meu nome perante os gentios..." (Atos
9:15).
- A Confirmação do Apostolado: Paulo relata
que Tiago, Pedro e João reconheceram seu chamado específico: "viram
que a mim me havia sido confiada a pregação do evangelho aos
incircuncisos", ou seja, aos gentios (Gálatas 2:7).
- O "Apóstolo dos Gentios": Em
Romanos, ele ratifica seu título: "Porque convosco falo, gentios!
Visto que eu sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu ministério" (Romanos
11:13).
- O Mistério Revelado: Ele explica aos
efésios que a graça lhe foi dada para anunciar aos gentios "as
insondáveis riquezas de CRISTO" (Efésios 3:8).
- Justificativa Profética: Em Atos 13:46-47,
Paulo e Barnabé explicam aos judeus que, devido à rejeição deles à
mensagem, eles se voltariam para os gentios, citando a ordem de DEUS: "Eu
te pus para luz dos gentios, para que sejas para salvação até os confins
da terra".
CONTEXTO BÍBLICO (https://ebdnatv.blogspot.com/)
- A igreja em Antioquia estava em oração e
jejum.
- O ESPÍRITO SANTO falou: “Apartai-me a
Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.”
- Após jejuarem e orarem novamente, os
líderes impuseram as mãos sobre eles e os enviaram.
🔑 Pontos
Didáticos
- Origem da Missão: não foi iniciativa
humana, mas direção clara do ESPÍRITO SANTO.
- Preparação Espiritual: oração e jejum
precederam a escolha e envio.
- Consagração: imposição de mãos simbolizou
reconhecimento e apoio da igreja.
- Envio Missionário: Barnabé e Saulo foram
separados para levar o Evangelho além das fronteiras judaicas.
🧭 Aplicações
Práticas
- A missão nasce da comunhão com DEUS e da
sensibilidade ao ESPÍRITO SANTO.
- O jejum e a oração são fundamentais para
discernir a vontade divina.
- A igreja tem papel ativo: ora, confirma e
envia os obreiros.
- A chamada missionária é tanto pessoal (DEUS
chama) quanto comunitária (a igreja reconhece e apoia).
✅ Síntese
Esse episódio mostra que a obra missionária é iniciativa divina,
sustentada pela oração e pela igreja. Barnabé e Saulo se tornam modelo de
obreiros que respondem ao chamado com fé e obediência.
O MISTÉRIO DA ECONOMIA DIVINA: A MISSÃO GENTÍLICA SOB A ÓTICA DE
ATOS 13
O texto de Atos 13.1-12 marca a transição da pax judaica
eclesiástica para a universalização soteriológica do Evangelho. Sob a soberania
do ESPÍRITO SANTO, a Igreja Primitiva rompe as fronteiras geográficas e
étnicas, consolidando o plano eterno de redenção que engloba o cosmos e a
totalidade da raça humana.
1. EPISTEMOLOGIA DE TERMOS BÍBLICOS
Para compreender a profundidade desse movimento missionário, é
indispensável perscrutar o vocabulário original que fundamenta a transição dos
povos e a comissão eclesiástica.
|
Termo Original |
Transliteração |
Significado Teológico e Contextual |
|
גּוֹיִם (Hebraico) |
Goyim |
No Antigo Testamento, designa as nações pagãs em contraste com o
povo da aliança (Am). Sob a ótica profética, aponta para os povos que viriam
a render-se ao DEUS de Israel. |
|
ἔθνη (Grego) |
Ethne |
Termo correspondente a "gentios" ou "nações".
Em Atos, representa a quebra do monopólio salvífico judaico, indicando que a
graça engloba todas as etnias. |
|
ἀφορίσατε (Grego) |
Aphorisate |
Imperativo do verbo aphorizo ("separar",
"apartar", "consagrar"). Indica uma separação cirúrgica e
soberana promovida pelo ESPÍRITO para uma obra exclusiva. |
|
λειτουργούντων (Grego) |
Leitourgounton |
Particípio do verbo leitourgeo ("servir",
"ministrar"). Refere-se originalmente ao culto sagrado e
sacerdotal. A missão em Antioquia nasce de uma liturgia de adoração profunda. |
2. A ECLESIOLOGIA DE ANTIOQUIA: DIVERSIDADE E LITURGIA
A comunidade de Antioquia da Síria funcionou como o ventre
eclesiológico da missão transcultural. Enquanto Jerusalém tendia ao
conservadorismo etnocêntrico, Antioquia se destaca por sua heterogeneidade
social e cultural.
[ O Modelo
Eclesiológico de Antioquia ]
│
┌─────────────────────┼─────────────────────┐
▼ ▼ ▼
DIVERSIDADE ÉTNICA
LEITOURGIA SACRAL MATURIDADE
TEOLÓGICA
(Profetas e Mestres)
(Oração e Jejum)
(Discernimento da Voz)
A liderança mosaica de Antioquia englobava desde a nobreza
helenista até a ancestralidade africana, demonstrando que o Evangelho nivelou
as distinções humanas. O chamado missionário não derivou de um pragmatismo
mercadológico ou estratégico humano; foi o resultado de uma leitourgia — uma
atmosfera de adoração, consagração e jejum. O ESPÍRITO SANTO não apenas
comissiona, mas habita a adoração da comunidade para revelar Seus desígnios
decretivos.
3. A PNEUMATOLOGIA MISSIONÁRIA E O CONFRONTO APOLOGÉTICO
O ESPÍRITO SANTO opera em Atos como o Agente Primário da Missio
Dei. O imperativo ἀφορίσατε (aphòrisate) evoca a autoridade absoluta da
Terceira Pessoa da Trindade sobre o corpo eclesiástico. A imposição de mãos
subsequente não conferiu poder mágico a Paulo e Barnabé, mas chancelou
juridicamente e espiritualmente o que o ESPÍRITO já havia decretado na esfera
invisível.
No episódio em Pafos (Chipre), o confronto entre Saulo (agora
identificado pelo nome romano, Paulo) e o falso profeta Barjesus (Elimas)
revela duas realidades pneumatológicas:
- O Confronto de Poder (Power Encounter): A
feitiçaria e o engano satânico que tentavam reter a elite romana (o
procônsul Sérgio Paulo) sob as trevas são desmascarados pela autoridade
apostólica.
- O Juízo Pedagógico: A cegueira física
imposta a Elimas funciona como um sinal visível da sua própria escuridão
interior, levando o governante pagão a render-se não meramente ao milagre,
mas à doutrina do Senhor.
4. SÍNTESE TEOLÓGICA DA TRANSIÇÃO MISSIOLÓGICA
A expansão aos gentios fundamenta-se em bases teológicas bem
definidas que diferenciam a postura eclesial:
|
Eixo de Transição |
Perspectiva de Jerusalém (Início) |
Perspectiva de Antioquia (Expansão) |
|
Foco Geográfico |
Centripeta (Atração para o Templo) |
Centrífuga (Expansão até os confins da Terra) |
|
Público-Alvo |
Circumcisio (Os da Aliança Judaica) |
Ethne (A totalidade das Nações/Gentios) |
|
Identidade da Liderança |
Colegiado Apostólico Tradicional |
Profetas e Mestres Plurais |
|
Resultado Espiritual |
Consolidação de Comunidades Locais |
Ruptura de Paradigmas e Plantação Transcultural |
NOTA DE RELEVÂNCIA TEOLÓGICA:
A Igreja contemporânea é a herdeira direta da ruptura teológica de
Antioquia. Compreender o "Chamado para os Gentios" exige que a
comunidade de fé atual rejeite o isolacionismo cultural e assuma seu papel de
agência pneumática, sensível à soberania do ESPÍRITO SANTO e destemida diante
dos embates ideológicos e espirituais da pós-modernidade.
A missão aos gentios iniciada em Atos 13 não é um capítulo isolado
da história eclesiástica, mas a expressão máxima da soberania divina que
submete geografia, política e culturas ao senhorio absoluto de JESUS CRISTO.
ESTUDO AMPLIADO: A CHAMADA MISSIONÁRIA DE BARNABÉ E SAULO
1. 📖 Contexto
Histórico
- Antioquia da Síria: cidade multicultural,
com judeus e gentios convivendo. Foi ali que os discípulos foram chamados pela
primeira vez de “cristãos” (Atos 11:26).
- Barnabé: homem de caráter, chamado “filho
da consolação”, já reconhecido como líder e incentivador.
- Saulo (Paulo): recém-integrado à
comunidade cristã, mas já demonstrando profundo conhecimento das
Escrituras e zelo missionário (Barnabé foi a Tarso, na província romana da
Cilícia e o trouxe para Antioquia onde passou a ensinar a Palavra de DEUS).
2. 🔥 Ação do ESPÍRITO
SANTO
- O ESPÍRITO SANTO fala à igreja durante
oração e jejum, mostrando que a missão nasce da comunhão.
- A ordem é clara: “Apartai-me a Barnabé e a
Saulo”. Isso indica separação para um propósito específico.
- O envio não é humano, mas divino: DEUS é o
autor da missão.
3. 🙏 Preparação
Espiritual
- Jejum e oração: antes e depois da
revelação, a igreja insiste em buscar direção espiritual.
- Imposição de mãos: ato simbólico de
consagração, reconhecimento e apoio comunitário.
- A igreja não apenas libera, mas participa
espiritualmente da missão.
4. 🌍 Dimensão
Missionária
- Esse momento marca o início das viagens
missionárias de Paulo, levando o Evangelho ao mundo gentílico.
- A missão rompe barreiras culturais e
geográficas, mostrando que o Evangelho é universal.
- Barnabé e Saulo tornam-se pioneiros da
expansão cristã fora do contexto judaico.
5. 🧭 Aplicações
para Hoje
- Chamado divino: a verdadeira missão nasce
da voz de DEUS, não apenas de projetos humanos.
- Discernimento espiritual: oração e jejum
continuam sendo fundamentais para ouvir a direção do ESPÍRITO.
- Participação da igreja: toda comunidade
tem papel ativo em reconhecer, apoiar e enviar missionários.
- Obediência: Barnabé e Saulo não resistem
ao chamado, mas se colocam à disposição.
6. ✅ Síntese
A chamada missionária de Barnabé e Saulo nos ensina que:
- DEUS é quem chama e separa.
- A igreja ora, confirma e envia.
- Os obreiros obedecem e partem. Esse tripé
(DEUS–igreja–missionários) continua sendo o modelo bíblico para missões
até hoje.
👉 Para deixar
ainda mais didático, posso organizar esse estudo em um quadro comparativo
mostrando:
- O que DEUS fez
- O que a igreja fez
- O que Barnabé e Saulo fizeram
ROTEIRO DIDÁTICO – A CHAMADA MISSIONÁRIA (ATOS 13:2–3)
1. Introdução
- Contexto: Igreja em Antioquia,
multicultural e fervorosa.
- Discípulos já chamados de “cristãos” (Atos
11:26).
- Barnabé e Saulo como líderes reconhecidos.
2. Ação do ESPÍRITO SANTO
- O ESPÍRITO fala: “Apartai-me a Barnabé e a
Saulo”.
- Missão nasce da iniciativa divina, não
humana.
- Separação para propósito específico:
evangelizar os gentios.
3. Preparação Espiritual
- Igreja em oração e jejum antes e depois da
revelação.
- Imposição de mãos: consagração e
reconhecimento comunitário.
- Envio missionário com apoio espiritual da
igreja.
4. Obediência dos Missionários
- Barnabé e Saulo aceitam o chamado sem
resistência.
- Partem em obediência e fé.
- Tornam-se pioneiros das viagens
missionárias de Paulo.
5. Lições para Hoje
- Chamado missionário é obra de DEUS, não
apenas projeto humano.
- Oração e jejum são fundamentais para
discernir a vontade divina.
- A igreja deve confirmar, apoiar e enviar
missionários.
- Obreiros precisam estar prontos para
obedecer e partir.
6. Conclusão
- Modelo bíblico da missão: DEUS chama →
Igreja confirma → Missionários obedecem.
- Esse tripé continua válido para missões
contemporâneas.
- A chamada missionária é tanto pessoal
quanto comunitária.
📝 PERGUNTAS DE
REVISÃO – A CHAMADA MISSIONÁRIA (ATOS 13:2–3)
1. Contexto
- Onde estava localizada a igreja que enviou
Barnabé e Saulo?
- Qual era a característica marcante dessa
igreja em Antioquia?
2. Ação do ESPÍRITO SANTO
- Quem tomou a iniciativa da chamada
missionária?
- Qual foi a ordem específica dada pelo ESPÍRITO
SANTO?
3. Preparação Espiritual
- Quais práticas espirituais a igreja
realizou antes e depois da revelação?
- O que simboliza a imposição de mãos sobre
Barnabé e Saulo?
4. Obediência dos Missionários
- Como Barnabé e Saulo reagiram ao chamado?
- Qual foi a importância da obediência deles
para a expansão do Evangelho?
5. Aplicações para Hoje
- O que aprendemos sobre o papel da igreja
na obra missionária?
- Qual deve ser a atitude de cada cristão
diante do chamado de DEUS?
✅ Sugestão de
Dinâmica
- Divida os alunos em grupos e peça que cada
grupo responda uma parte (Contexto, ESPÍRITO SANTO, Igreja, Missionários,
Aplicações).
- No final, cada grupo compartilha suas
respostas, reforçando o aprendizado coletivo.
✅ RESPOSTAS
MODELO – A CHAMADA MISSIONÁRIA (ATOS 13:2–3)
1. Contexto
- Onde estava localizada a igreja? Em
Antioquia da Síria, uma cidade multicultural.
- Qual era a característica marcante dessa
igreja? Era fervorosa em oração e jejum, e aberta ao agir do ESPÍRITO SANTO.
2. Ação do ESPÍRITO SANTO
- Quem tomou a iniciativa da chamada
missionária? O ESPÍRITO SANTO.
- Qual foi a ordem específica? “Apartai-me a
Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.”
3. Preparação Espiritual
- Quais práticas espirituais a igreja
realizou? Oração e jejum antes e depois da revelação.
- O que simboliza a imposição de mãos?
Consagração, reconhecimento e apoio comunitário.
4. Obediência dos Missionários
- Como Barnabé e Saulo reagiram? Obedeceram
prontamente, sem resistência.
- Qual foi a importância da obediência
deles? Iniciaram a expansão missionária, levando o Evangelho aos gentios.
5. Aplicações para Hoje
- O que aprendemos sobre o papel da igreja?
A igreja deve confirmar, apoiar e enviar missionários.
- Qual deve ser a atitude de cada cristão?
Estar disposto a obedecer ao chamado de DEUS, seja local ou transcultural.
🌟
MINI-DEVOCIONAL DE ENCERRAMENTO
Texto-chave: “Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os
tenho chamado.” (Atos 13:2)
✝️ Reflexão
A missão não nasceu em planos humanos, mas no coração de DEUS. O ESPÍRITO
SANTO falou, a igreja confirmou, e os obreiros obedeceram. Esse tripé continua
sendo o modelo da obra missionária: DEUS chama, a igreja envia, e os servos
obedecem.
Barnabé e Saulo não sabiam todos os detalhes do caminho, mas sabiam
quem os estava enviando. A confiança não estava nas circunstâncias, mas na voz
do ESPÍRITO. Assim também nós, quando ouvimos o chamado de DEUS, precisamos
responder com fé e disposição.
🙏 Aplicação
- DEUS ainda chama hoje: alguns para ir,
outros para sustentar, todos para participar.
- A igreja continua sendo o lugar onde o ESPÍRITO
fala e confirma.
- A obediência é o passo que transforma o
chamado em realidade.
🌍 Desafio
Seja sensível à voz do ESPÍRITO. Pergunte: “Senhor, qual é a obra
para a qual me tens chamado?” Talvez seja evangelizar um vizinho, discipular
alguém, apoiar missões, ou até mesmo ir a outro lugar. O importante é estar
pronto para dizer: “Eis-me aqui, envia-me a mim.”
🙌 Oração Final
“Senhor, assim como chamaste Barnabé e Saulo, continua chamando
hoje. Dá-nos ouvidos atentos, corações obedientes e pés dispostos a caminhar.
Que a nossa vida seja resposta ao Teu chamado. Em nome de JESUS, amém.”
HINO SUGERIDO – TEMA MISSIONÁRIO
1. “Eis-me Aqui, Senhor”
- Um clássico que expressa disponibilidade
ao chamado de DEUS.
- Letra central: “Eis-me aqui, Senhor, pra
fazer Tua vontade, pra viver do Teu querer…”
- Ideal para encerrar a aula com entrega e consagração.
2. “Ide e Pregai” (Hinário da Harpa Cristã – nº 515)
- Fala diretamente da ordem missionária de JESUS:
“Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho…”
- Reforça o papel da igreja em enviar e
sustentar missionários.
3. “Sou Feliz com JESUS” (Harpa Cristã – nº 187)
- Embora não seja especificamente
missionário, transmite alegria em obedecer ao Senhor.
- Pode ser usado como cântico de gratidão
após a reflexão sobre o chamado.
🙌 SUGESTÃO DE
ENCERRAMENTO
1.
Faça a leitura de Atos 13:2–3.
2.
Reforce o tripé da missão: DEUS chama → Igreja confirma →
Missionários obedecem.
3.
Cante o hino escolhido com a classe.
4.
Termine com uma oração de consagração, pedindo que DEUS levante
novos Barnabés e Saulos em nossos dias.
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ESTUDOS BEP - CPAD
13.2 SERVINDO... E JEJUANDO. O cristão
cheio do ESPÍRITO é muito sensível ao que o ESPÍRITO SANTO comunica durante a
oração e o jejum (ver Mt 6.16). Aqui, a comunicação da parte do ESPÍRITO SANTO
provavelmente foi uma palavra profética (cf. v. 1).
13.2 PARA A OBRA A QUE OS TENHO CHAMADO.
Paulo e Barnabé foram chamados à obra missionária e enviados pela igreja de
Antioquia. As características dessa obra estão descritas em At 9.15; 13.5; 22.14,15,21
e At 26.16-18. (1) Paulo e Barnabé foram chamados para pregar o evangelho e
conduzir homens e mulheres à salvação em CRISTO. As Escrituras não indicam em
lugar nenhum que os missionários do NT foram enviados aos campos para
realizarem trabalhos sociais ou políticos, i.e., propagar o evangelho e fundar
igrejas mediante o exercício de todos os tipos de atividades sociais ou políticas
para o bem da população do Império Romano. O alvo dos missionários era conduzir
pessoas a CRISTO (At 16.31; 20.21), livrá-las do poder de Satanás (At 26.18),
levá-las a receber o ESPÍRITO SANTO (At 19.6) e organizá-las em igrejas. Nesses
novos cristãos, o ESPÍRITO SANTO veio habitar e manifestar-se através do amor;
Ele deu dons espirituais (1 Co 12.1-14.40) e transformou esses fiéis de tal
maneira que suas vidas glorificavam ao seu Salvador. (2) Os missionários do
evangelho de hoje devem ter a mesma atividade prioritária: ser ministros e
testemunhas do evangelho, que levem outros a CRISTO, livrando-os do domínio de
Satanás (At 26.18), fazendo-os discípulos, motivando-os a receber o ESPÍRITO SANTO
e os seus dons (At 2.38; 8.17) e ensinando-os a observar tudo quanto CRISTO
ordenou (Mt 28.19,20). Isto deve ser acompanhado de sinais e prodígios, cura de
enfermos e libertação de oprimidos pelos demônios (At 2.43; 4.30; 8.7; 10.38; Mc
16.17,18). Esta tarefa suprema de pregar o evangelho, no entanto, deve também
incluir atos pessoais de amor, de misericórdia e de bondade para com os
necessitados (cf. Gl 2.10). Deste modo, todos que são chamados a dar testemunho
do evangelho servirão na causa divina segundo o modelo de JESUS (ver Lc 9.2).
13.3 OS DESPEDIRAM. Com estas palavras
começa o grande movimento missionário da igreja até aos confins da terra (1.8).
Os princípios missionários vistos no capítulo 13 são um modelo para todas as
igrejas que enviam missionários. (1) A atividade missionária é originada pelo ESPÍRITO
SANTO, através de líderes espirituais que estão profundamente dedicados ao
Senhor e ao seu reino, buscando-o com oração e jejum (v. 2). (2) A igreja deve
estar atenta ao ministério e atividade proféticos do ESPÍRITO SANTO e sua
orientação (v. 2). (3) Os missionários que são enviados, devem fazê-lo segundo
a chamada e a vontade específicas do ESPÍRITO SANTO (v. 2b). (4) Mediante a
oração e o jejum, a igreja buscando constantemente estar em harmonia com a
vontade do ESPÍRITO SANTO (vv. 3,4), confirma a chamada divina de determinadas
pessoas à obra missionária. O propósito é que a igreja envie somente aqueles
que forem da vontade do ESPÍRITO SANTO. (5) Pela imposição de mãos e o envio de
missionários, a igreja indica que se compromete a sustentar e assistir os que
saem à obra. A responsabilidade da igreja que envia missionários inclui
demonstrar amor e cuidado para com eles de um modo digno de DEUS (3 Jo 6), orar
por eles (v. 3; Ef 6.18,19) e sustentá-los financeiramente (Lc 10.7; 3 Jo 6-8).
Isso inclui ofertas especiais de amor para necessidades específicas deles (Fp
4.10, 14-18). O missionário é uma projeção do propósito, interesse e missão da
igreja que os envia. Essa igreja fica sendo, portanto, uma cooperadora da
verdade (Fp 1.5; 3 Jo 8). (6) Aqueles que saem como missionários devem estar
dispostos a expor a vida pelo nome de nosso Senhor JESUS CRISTO (At 15.26).
13.8 ELIMAS, O ENCANTADOR. Este judeu
encantador (feiticeiro) era provavelmente um astrólogo. Os astrólogos ensinavam
que o destino de cada pessoa é determinado pela posição dos astros em relação
ao nascimento dessa pessoa. Toda feitiçaria e astrologia são formas de
espiritismo, o qual se opõe ao evangelho de CRISTO, porque são coisas de
Satanás e seus demônios. Ver as frases resistia-lhes Elimas e inimigo de toda a
justiça (vv. 8,10; ver Dt 18.9-11 notas).
13.9 SAULO... CHEIO DO ESPÍRITO SANTO.
Mesmo quem foi batizado no ESPÍRITO, como Paulo o foi (9.17), pode, em ocasiões
de necessidade específica, receber novos enchimentos do ESPÍRITO. Semelhantes
enchimentos repetidos são necessários: (1) no enfrentamento da oposição ao
evangelho (At 4.8); (2) no avanço do evangelho (4.8-12,31) e (3) ao enfrentar
diretamente a atividade satânica (At 13.9). Enchimentos repetidos do ESPÍRITO SANTO
devem ser normais a todos os crentes batizados no ESPÍRITO SANTO.
13.11 FICARÁS CEGO. Os milagres do NT iam
além de curas. Alguns, como nos casos da ira de DEUS contra Elimas (vv. 8-11) e
Herodes (At 12.20-23), envolveram juízo contra os ímpios. O caso de Ananias e
Safira (At 5.1-11) é um exemplo de julgamento sob a forma de milagre, revelando
a ira divina contra o pecado dentro da igreja.
13.31 SUAS TESTEMUNHAS PARA COM O POVO.
Testemunha (gr. martus) é alguém que testifica, por atos ou palavras, da
verdade . Testemunhas cristãs são as que confirmam e atestam a obra salvífica
de JESUS CRISTO através das suas palavras, ações e vida e, se necessário,
através da sua própria morte. Ser testemunha envolve sete princípios: (1) Dar
testemunho de CRISTO é a obrigação de todos os crentes (At 1.8; Mt 4.19; 28.19,20).
(2) A testemunha cristã deve ter uma mentalidade missionária, visando alcançar
todas as nações, e levar a salvação divina até aos confins da terra (At 11.18; 13.2-4;
26.16-18; Mt 28.19,20; Lc 24.47). (3) A testemunha cristã fala principalmente a
respeito da vida de CRISTO, da sua morte, ressurreição, poder salvífico e da
promessa do ESPÍRITO SANTO (Atos 2.32,38,39; 3.15; 10.39-41,43; 18.5; 26.16; 1
Co 15.1-8). (4) A testemunha cristã precisa produzir convicção quanto ao
pecado, a justiça e ao juízo (At 2.37-40; 7.51-54; 24.24,25; ver Jo 16.8).
Mediante tal testemunho, as pessoas são levadas à fé salvífica (At 2.41; 4.33; 6.7;
11.21). (5) A testemunha cristã sofrerá às vezes (At 7.57-60; 22.20; 2 Co
11.23-29). A palavra mártir deriva da palavra grega que significa testemunha .
Ser discípulo do Senhor subentende compromisso, custe ele o que custar ao
discípulo. (6) O testemunho cristão deve ser paralelo a uma separação do mundo
(2.40), a uma vida de justiça (Rm 14.17) e a uma confiança total no ESPÍRITO SANTO
(At 4.29-33) que resulta na sua manifestação com poder (1 Co 2.4). (7) O
testemunho cristão deve ser profético (At 2.17), revestido de poder (1.8) e
inspirado pelo ESPÍRITO (At 2.4; 4.8).
13.48 ORDENADOS PARA A VIDA ETERNA. Alguns
entendem que este versículo ensina a predestinação arbitrária. Entretanto, nem
o contexto nem a palavra traduzida ordenados (gr. tetagmenoi, do verbo tasso,
justifica essa interpretação). (1) O versículo 46 enfatiza explicitamente a
responsabilidade humana na aceitação ou rejeitação da vida eterna. A melhor
interpretação de tetagmenoi, portanto, é estavam dispostos : e creram todos
quantos estavam dispostos para a vida eterna . Esta interpretação concorda
totalmente com as afirmações de 1 Tm 2.4; Tt 2.11; 2 Pe 3.9. (2) Além disso,
segundo Rm 11.20-22, ninguém é incondicionalmente destinado à vida eterna
13.52 ESTAVAM CHEIOS ... DO ESPÍRITO
SANTO. O verbo grego traduzido cheios está no pretérito imperfeito, indicando
ação contínua num tempo passado. Os discípulos recebiam continuamente, dia após
dia, a plenitude e o revestimento de poder do ESPÍRITO SANTO. A plenitude do ESPÍRITO
não é meramente uma experiência inicial que ocorre uma só vez, mas, sim, uma
vida de repetidos enchimentos para as necessidades e tarefas da parte de DEUS
(cf. Ef 5.18).
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Este artigo visa explorar 33 fatos relevantes da vida de Paulo,
abrangendo desde seu nascimento em Tarso até suas viagens, ensinamentos e tribulações
no campo missionário.
Cada aspecto de sua jornada ilustra não apenas a sua dedicação e
impacto no cristianismo primitivo, mas também a obra poderosa e transformadora
de DEUS em sua vida e, por extensão, na vida da igreja até os dias atuais.
1. Nasceu em Tarso, filho de pais judeus da tribo de Benjamim
Paulo, conhecido inicialmente como Saulo, nasceu em Tarso, uma
cidade significativa na Cilícia. Como filho de pais judeus da tribo de
Benjamim, ele herdou tanto a rica herança cultural judaica quanto os
privilégios da cidadania romana (Filipenses 3:5). Essa mistura única de
heranças influenciou profundamente sua vida e ministério.
2. É criado em Jerusalém e estuda sob a instrução de Gamaliel
Educado aos pés do renomado rabino Gamaliel em Jerusalém, Paulo se
tornou um fariseu erudito e devoto. A rigorosa educação religiosa sob um dos
mais respeitados mestres da Lei Judaica lhe deu uma base sólida na Escritura e
nas tradições judaicas (Atos 22:3).
3. É cidadão de Roma
Sua cidadania romana, uma condição incomum e valiosa para um judeu
da época, foi um fator crucial em várias ocasiões, garantindo-lhe certos
direitos legais e proteções que influenciaram o curso de seu ministério, (Atos
16:37 e 22:25-28).
4. É fariseu, cumpridor da Lei Mosaica
Como fariseu, Paulo era um estrito observador da Lei Mosaica,
profundamente comprometido com os costumes e crenças judaicas. Essa identidade
moldou sua visão de mundo até seu encontro transformador com CRISTO, (Atos 23:6
e 26:5; Filipenses 3:5).
5. Aprendeu e exerceu a profissão de fabricar tendas
Paulo era um fabricante de tendas de profissão, um ofício que lhe
permitiu sustentar-se financeiramente durante suas viagens missionárias. Este
trabalho manual simboliza sua dedicação ao princípio do trabalho árduo e da
autossuficiência, (Atos 18:3; 1ª Coríntios 4:12; 1ª Tessalonicenses 2:9).
6. Foi um perseguidor da igreja e participa da morte de Estevão
Antes de sua conversão, Paulo foi um perseguidor fervoroso da
Igreja, consentindo na morte de Estevão e participando ativamente na opressão
dos seguidores de JESUS. Essa fase sombria foi transformada em um testemunho
poderoso de redenção e graça (Atos 7:58, 8:1 e 9:1-2; Gálatas 1:13-14; 1ª
Timóteo 1:13).
7. Fica cego sendo curado de sua cegueira
Sua conversão dramática no caminho para Damasco envolveu uma
experiência de cegueira física seguida de uma cura milagrosa, simbolizando sua
passagem das trevas espirituais para a luz em CRISTO. Este evento marcou o
início de sua vida como um dedicado apóstolo de JESUS, (Atos 9:3-18).
8. Tem um encontro com JESUS ressuscitado
O encontro pessoal com o JESUS ressuscitado foi o momento decisivo
de sua vida, transformando-o de um perseguidor da Igreja em um dos seus mais
fervorosos defensores e missionários, (Atos 9:3-6).
9. Vai até o terceiro céu
Paulo relata uma experiência sobrenatural na qual foi arrebatado ao
terceiro céu, recebendo revelações divinas que fortaleceram sua fé e
compreensão dos mistérios celestiais, (2ª Coríntios 12:2-4).
10. Ministrou em diversas cidades
Após sua conversão, Paulo passou um tempo na Arábia antes de
retornar a Damasco, iniciando seu ministério de pregação. Ele também viajou
extensivamente, levando o evangelho a regiões distantes e estabelecendo
comunidades cristãs, (Gálatas 1:17-21).
11. Morou em Antioquia
Em Antioquia, Paulo encontrou um lar missionário e uma base para
muitas de suas viagens. Aqui, ele ensinou, fortaleceu a igreja local enviado em
sua primeira viagem missionária (Atos 11:25-26).
12. Viaja a Jerusalém e regressa a Antioquia
Paulo manteve uma conexão vital com a igreja-mãe em Jerusalém,
participando do intercâmbio entre as comunidades judaicas e gentílicas cristãs
e fortalecendo as redes de apoio mútuo, (Atos 12:25).
13. Sentia amor por missões
Comissionado pela igreja em Antioquia, Paulo embarcou em sua
primeira viagem missionária, marcando o começo de uma série de jornadas que
expandiriam o cristianismo por todo o Império Romano, (Atos 13:1-3).
14. Inicia a primeira viagem missionária
Durante sua primeira viagem missionária, Paulo e seus companheiros
estabeleceram igrejas em regiões-chave, enfrentando desafios e perseguições,
mas também testemunhando conversões milagrosas e o crescimento da comunidade de
crentes, (Atos 13:3-4).
15. Participou do Concílio de Jerusalém
A reunião em Jerusalém, conhecida como Concílio de Jerusalém, foi
um momento decisivo no cristianismo primitivo, onde Paulo defendeu a inclusão
dos gentios na fé sem a necessidade de observar todas as leis judaicas, (Atos
15:1-35)
16. Segunda viagem missionária
Na segunda viagem missionária, Paulo fortaleceu as igrejas
anteriormente estabelecidas e expandiu seu alcance para novas regiões. Ele
enfrentou adversidades, mas também viu a fé cristã se espalhar por culturas e
fronteiras, (Atos 15:36-18).
17. Terceira viagem missionária
Durante sua terceira jornada, Paulo se dedicou intensamente ao
ensino e ao fortalecimento das igrejas na Ásia Menor e Grécia. Seu trabalho em
Éfeso, em particular, deixou um impacto duradouro, (Atos 18:23 e 20:38).
18. É comparado com um cinto
O profeta Ágabo usa o cinto de Paulo para prever o que aconteceria
com o apóstolo em Jerusalém. Ágabo tomou o cinto de Paulo, atou as próprias
mãos e pés, conforme descrito em Atos 21:10-11.
19. Foi preso em Jerusalém
Sua prisão em Jerusalém após um tumulto provocado por seus
opositores marcou o começo de um longo período de cativeiro, durante o qual ele
continuou a testemunhar e a escrever, (Atos 21:26-36).
20. Dá seu testemunho perante o povo
Mesmo sob ameaça, Paulo aproveitou a oportunidade para compartilhar
sua história de conversão e defender o evangelho perante a multidão em
Jerusalém, mostrando sua incansável dedicação à missão, (Atos 21:40).
21. Comparece perante o Sinédrio
Diante do Sinédrio, o conselho supremo judaico, Paulo defendeu suas
crenças com coragem e perspicácia, provocando um debate intenso entre fariseus
e saduceus, (Atos 22:30 e 23:1-10).
22. Um sobrinho lhe salva a vida
A intervenção oportuna de seu sobrinho, que descobriu e relatou um
complô para matá-lo, foi crucial para a sua segurança, permitindo que as
autoridades tomassem medidas para protegê-lo, (Atos 23:16-22).
23. Faz uma defesa perante ao governador Félix
Transferido para Cesaréia, Paulo se apresentou diante do governador
Félix, onde articulou sua defesa, mantendo-se firme em seu testemunho e
integridade ao longo de seu prolongado encarceramento (Atos 24:10-23).
24. Defende-se perante ao novo governador Festo
Sob o governo de Festo, Paulo continuou a se defender das acusações
dos judeus, reafirmando sua inocência e seu compromisso com a verdade do
evangelho (Atos 25:6-10).
25. Defende-se perante o rei Agripa
Perante o rei Agripa, Paulo fez uma defesa apaixonada de sua vida e
missão, capturando a atenção e a curiosidade do rei sobre o cristianismo, (Atos
26:1-32).
26. Pede que o imperador Cesar o julgue
Exercendo seu direito como cidadão romano, Paulo apelou para ser
julgado pelo próprio imperador Cesar, uma decisão que o levou a Roma e ampliou
a audiência para sua pregação, (Atos 25:1).
27. É mordido por uma serpente venenosa
Paulo foi mordido por uma serpente venenosa em Malta, conforme
relatado em Atos 28:3-5. Este evento aconteceu após o naufrágio na ilha, e a
reação milagrosa de Paulo ao veneno – não sofrendo nenhum dano – surpreendeu os
moradores da ilha e contribuiu para o seu ministério entre eles.
28. Viaja para Roma como prisioneiro
A viagem de Paulo para Roma foi marcada por perigos e milagres,
culminando em sua prisão domiciliar na capital do Império, onde continuou a
pregar e a ensinar, (Atos 27:1).
29. Quando estava na Galácia adoeceu
Sua doença na Galácia revela a vulnerabilidade humana do apóstolo,
mas também a dedicação com que continuou a servir apesar das adversidades
pessoais, (Gálatas 4:3-14).
30. Aparentemente não tinha esposa
Paulo escolheu permanecer solteiro, uma escolha que, segundo ele,
permitiu maior dedicação ao ministério. Seu estado civil é frequentemente
discutido como um aspecto de seu ensino sobre casamento e celibato, (1ª
Coríntios 7:7-8).
31. Sofreu pelo evangelho
Paulo sofreu inúmeras adversidades devido ao evangelho, incluindo
açoites, prisões e perigos constantes. Seu sofrimento serve como um testemunho
da sua dedicação e do poder sustentador da graça de DEUS, (2ª Coríntios
11.23-33).
32. Lembra de seus amigos e companheiros
Suas cartas terminam frequentemente com saudações pessoais aos
amigos e colaboradores, refletindo as profundas relações que formou durante seu
ministério e a importância da comunidade na vida cristã, (Romanos 16:1-24;
Colossenses 4:7-17; 2ª Timóteo 4:19-21).
33. Considerava o menor dos apóstolos
Paulo se via como “o menor dos apóstolos” e até menos do que todos
os santos devido ao seu passado como perseguidor da Igreja. Essa humildade e
reconhecimento da graça de DEUS foi central em seu ensino e na sua identidade
como apóstolo de CRISTO, (1ª Coríntios 15:8-9).
Conclusão
A vida do Apóstolo Paulo, é um testemunho extraordinário de fé,
resiliência e transformação. Através dos 33 fatos explorados, vislumbramos a
jornada de um homem que, de perseguidor fervoroso da Igreja, tornou-se um de
seus mais ardentes defensores e um instrumento vital na disseminação do
Evangelho.
A história de Paulo, nos inspira a reconhecer a profundidade da
graça, a importância do chamado divino e o impacto duradouro que uma vida
dedicada a CRISTO pode ter.
Seja enfrentando adversidades, estabelecendo comunidades de fé ou
escrevendo cartas que ainda hoje falam aos nossos corações, a vida de Paulo
permanece um pilar fundamental do cristianismo e um modelo de serviço, entrega
e paixão pelo Reino de DEUS.
Referência Bibliográfica
BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudos Almeida. Tradução de João
Ferreira de Almeida. 2ª edição, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil,
1999.
Joao Paulo - Teologia Bíblica Interconfessional
Conhecido inicialmente como Saulo, ele foi um judeu nascido em
Tarso, uma cidade localizada na região da Cilícia, que fazia parte do Império
Romano.
Profundamente enraizado nas tradições e práticas do judaísmo
farisaico. Saulo não apenas observava estas leis; ele as defendia fervorosamente,
acreditando que estava protegendo a pureza e a continuidade de sua fé.
Esta dedicação o levou a se tornar um dos mais notáveis e temidos
perseguidores dos primeiros seguidores de JESUS, vistos por ele e muitos outros
como uma ameaça à lei judaica.
Raízes judaicas de seus familiares
Saulo nasceu em Tarso, mas era de origem judaica, da tribo de
Benjamim, uma informação que ele mesmo oferece em Filipenses 3:5, e fariseu
quanto à lei.
Sua dupla nacionalidade, judeu e cidadão romano, é um aspecto
distintivo de sua identidade. A cidadania romana era um privilégio valioso
naquela época, concedendo-lhe certos direitos e proteções legais.
A família de Saulo, embora não detalhada nas escrituras, era
provavelmente de posição social e econômica razoável, possibilitando-lhe uma
boa educação e o benefícios de cidadania romana.
Contudo, sua origem e vantagens não o impediram de se dedicar
completamente à causa do cristianismo, renunciando a muitos desses privilégios
em favor de sua missão.
Educação e influências formativas
Saulo estudou sob a tutela de Gamaliel, um dos mais renomados
mestres da lei judaica em Jerusalém. Este detalhe sobre sua formação é
mencionado em Atos 22:3.
A educação sob Gamaliel não apenas implicava um profundo
conhecimento das Escrituras e da lei judaica, mas também o colocava em contato
com debates e interpretações variadas, essenciais para um fariseu da época.
A influência de Gamaliel é vista na forma como Paulo articula seus
argumentos e interpreta as escrituras, demonstrando um conhecimento sofisticado
e uma habilidade de argumentação que ele usou extensivamente em sua missão.
Facilidade de comunicação com outros povos
Quanto aos idiomas, é amplamente aceito que Saulo era poliglota.
Ele falava aramaico e hebraico, línguas de sua herança judaica, e grego, a
língua franca do Império Romano, além de possivelmente ter conhecimento do
latim.
O grego, em particular, era essencial para sua missão no mundo
greco-romano, permitindo-lhe comunicar-se efetivamente com gentios e judeus da
diáspora.
Seus escritos, preservados no Novo Testamento, são todos em grego,
demonstrando sua fluência e habilidade em expressar conceitos teológicos
complexos nessa língua.
Essa combinação de formação religiosa rigorosa e habilidade
linguística equipou Paulo para o trabalho apostólico entre diversos povos e
culturas.
Ele utilizou sua formação para fundamentar suas epístolas em
argumentos sólidos e persuasivos, promovendo o cristianismo além das fronteiras
do judaísmo.
Saulo foi casado?
Não há evidências conclusivas nas Escrituras sobre o estado civil
de Paulo, mas algumas passagens sugerem que ele era solteiro durante seu
ministério.
Em suas epístolas, especialmente em 1ª Coríntios 7:7-8, Paulo
menciona que preferiria que os outros fossem como ele, ou seja, solteiros,
porém reconhece que cada um tem seu próprio dom de DEUS.
Algumas tradições sugerem que Saulo poderia ter sido casado antes,
talvez como um fariseu cumpridor da lei, já que o casamento era algo comum e
até esperado para um homem judeu de sua estatura. No entanto, se foi casado,
sua esposa não é mencionada.
O celibato de Paulo, é significativo para ele, por afirmar que o
estado de solteiro era uma oportunidade para se dedicar mais completamente ao
serviço do Senhor.
Sua participação ou associação com o Sinédrio
Como fariseu, é provável que Saulo fosse membro ou tivesse
associação com o Sinédrio, o conselho governante e tribunal religioso em
Jerusalém.
O Sinédrio era composto por sacerdotes, anciãos e escribas,
responsáveis por grandes decisões políticas, administrativas e religiosas na
comunidade judaica.
Sua participação ou associação com o Sinédrio é sugerida por seu
zelo inicial em perseguir os seguidores de JESUS, como uma maneira de proteger
as tradições judaicas das influências consideradas heréticas.
No entanto, após sua conversão, Paulo se afasta dessas
responsabilidades e direciona seu zelo para a disseminação do cristianismo.
A compreensão de Paulo sobre o Sinédrio e suas operações internas,
juntamente com seu treinamento farisaico, lhe deram uma perspectiva única em
suas abordagens missionárias e debates teológicos.
Ele dialoga frequentemente com o judaísmo, utilizando-se de sua
formação para explicar e expandir a mensagem do evangelho em um contexto
judaico e, posteriormente, gentílico.
Sua atuação como perseguidor
Antes de sua conversão no caminho para Damasco, Saulo, era infame
por sua perseguição implacável aos seguidores do Cristianismo nascente.
Seu zelo religioso e sua lealdade às tradições judaicas o motivavam
a combater o que ele via como uma ameaça herética à lei e à ordem
estabelecidas.
Atos 8:3 nos dá uma visão vívida de suas ações, mostrando-o como
alguém que invadia casas e, arrastava homens e mulheres para a prisão, visando
erradicar a comunidade de fiéis que crescia em torno da mensagem de JESUS.
Este período de sua vida reflete a intensidade de sua devoção ao
judaísmo e prefigura a paixão com a qual ele mais tarde defenderia o
Cristianismo.
Conclusão
Paulo de Tarso é uma figura cuja vida e trabalho continuam a
influenciar o cristianismo e a teologia da atualidade.
De perseguidor a apóstolo, de judeu a missionário entre gentios,
sua história é uma das mais dramáticas transformações pessoais registradas na
história religiosa.
Suas epístolas formam a espinha dorsal de muitos ensinamentos
cristãos e sua teologia continua a ser debatida, estudada e admirada por sua
profundidade e relevância.
Joao Paulo - Teologia Bíblica Interconfessional
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Revista antiga com muitos estudos para nosso trimestre:
Lição 1, O Mundo do Apóstolo Paulo
Lições Bíblicas - 4º Trimestre de 2021 - CPAD - Para adultos
Tema: O Apóstolo Paulo - Lições da vida e ministério do apóstolo
dos gentios para a igreja de CRISTO - Comentário: Pr. Elienai Cabral
Complementos, ilustrações e vídeos: Pr. Henrique
Lição 1, O Mundo do Apóstolo Paulo
Escrita
https://ebdnatv.blogspot.com/2021/09/escrita-licao-1-o-mundo-do-apostolo.html
Slides
https://ebdnatv.blogspot.com/2021/09/slides-licao-1-o-mundo-do-apostolo.html
TEXTO ÁUREO
“Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido para
levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis, e dos filhos de Israel.” (At
9.15)
VERDADE PRÁTICA
Segundo a sua soberana vontade, DEUS usa as circunstâncias para fazer uma
grande obra.
LEITURA DIÁRIA
Segunda - Rm 1.1; 1 Co 1.1; Ef 1.1 Paulo, chamado para ser apóstolo
Terça - At 26.16-18 Enviado para os gentios
Quarta - 1 Co 8.5,6 Paulo, um defensor da fé
Quinta - At 22.3 Paulo declara sua identidade judaica
Sexta - Gl 1.14 Seu zelo pela religião judaica
Sábado - Atos 13.1-3 O chamado de Paulo para missões
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE - Atos 26.1-7
1 - Depois, Agripa disse a Paulo: Permite-se-te que te defendas.
Então, Paulo, estendendo a mão em sua defesa, respondeu: 2 - Tenho-me por
venturoso, ó rei Agripa, de que perante ti me haja, hoje, de defender de todas
as coisas de que sou acusado pelos judeus, 3 - mormente sabendo eu que tens
conhecimento de todos os costumes e questões que há entre os judeus; pelo que
te rogo que me ouças com paciência. 4 - A minha vida, pois, desde a mocidade,
qual haja sido, desde o princípio, em Jerusalém, entre os da minha nação, todos
os judeus a sabem. 5 - Sabendo de mim, desde o princípio (se o quiserem
testificar), que, conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu.
6 - E, agora, pela esperança da promessa que por DEUS foi feita a nossos pais,
estou aqui e sou julgado, 7 - à qual as nossas doze tribos esperam chegar,
servindo a DEUS continuamente, noite e dia. Por esta esperança, ó rei Agripa,
eu sou acusado pelos judeus.
Resumo da Lição 1, O Mundo do Apóstolo Paulo
I – O MUNDO DE PAULO NO IMPÉRIO ROMANO
1. Entendendo a origem de Paulo.
2. A geografia do mundo de Paulo.
3. Paulo, chamado para os gentios.
II – O MUNDO CULTURAL DE PAULO
1. A língua mundial daqueles dias era o grego.
2. O mundo cultural do apóstolo Paulo.
3. A influência da filosofia grega.
III – O MUNDO RELIGIOSO DE PAULO
1. Paulo se identifica como judeu.
2. Paulo foi criado dentro da fé judaica.
3. O mundo: palco da mensagem de Paulo ao povo gentílico.
INTRODUÇÃO
Estudaremos neste trimestre sobre o apóstolo aos gentios. PAULO.
No trimestre veremos as seguintes lições:
Lição 01 – O Mundo do Apóstolo Paulo.
Lição 02 – Saulo de Tarso, o Perseguidor
Lição 03 – A Conversão de Saulo de Tarso.
Lição 04 – Paulo, a Vocação para ser Apóstolo.
Lição 05 – “Jesus Cristo, e este Crucificado” – Mensagem do Apóstolo.
Lição 06 – Paulo no Poder do Espírito.
Lição 07 – Paulo, o Plantador de Igrejas.
Lição 08 – Paulo, o Discipulador de vidas.
Lição 09 – Paulo e a sua Dedicação aos Vocacionados.
Lição 10 – Paulo e seu Amor pela Igreja.
Lição 11 – O Zelo do Apóstolo Paulo pela Sã Doutrina.
Lição 12 – A Coragem do Apóstolo Paulo diante da Morte.
Veremos nesta lição1 o mundo de Paulo no império romano, sua
origem, a geografia do mundo de Paulo, seu chamado para os gentios.
Veremos o mundo cultural de Paulo, a língua mundial daqueles dias
era o grego, o mundo cultural do apóstolo Paulo, a influência da filosofia
grega.
O mundo religioso de Paulo, ele se identifica como judeu, ele foi
criado dentro da fé judaica, o mundo, palco da mensagem de Paulo ao povo
gentílico.
Paulo de Tarso, da tribo de Benjamim, Judeu, que falava Hebraico,
Aramaico, Grego e latim (na minha opnião, pois era a língua falada peos
romanos).
Paulo, o maior imitador de CRISTO. Também chamado "Paulo, o
velho" (Fm 1:9), "O prisioneiro de CRISTO" (Fm 1:9).
Paulo escreveu mais da metade dos livros do NT.
Considero Hebreus escrito por Paulo.
Paulo influenciou a escrita do evangelho de Lucas.
Paulo era usado em todos os dons do ESPÍRITO SANTO
Pedro abriu a porta, mas quem percorreu todos os cômodos da casa e
se instalou nela foi Paulo.
Foi Paulo usado por DEUS para transformar a "seita dos
nazarenos" em Igreja de CRISTO.
Paulo usava escrituras, livros e pergaminhos.
Anotava sempre o que ia recebendo de DEUS.
É o maior instrumento do ESPÍRITO SANTO para nossos ensino, sempre baseado nós
ensinos de JESUS CRISTO.
No tempo de JESUS e de Paulo (eram contemporâneos, com diferença de
idade entre 9 e 12 anos) o Império romano se impõe como reino que não tem
adversário a altura.
Politicamente e belicamente não havia concorrentes.
A cultura grega dominava, mas prevalecia a autoridade Romana.
Império romano governava desde a Inglaterra até a Persia.
Entre anos 60 e 150, governo romano experimentou seu apogeu e a Pax romana, com
estradas ligando todo o império, possibilitando assim a intercomunicação e o
comércio entre todos os países do império.
Mar mediterrâneo e norte da África também eram dominados pelo
império romano.
COMENTÁRIOS DE LIVROS A RESPEITO DO ASSUNTO
A Quinta Defesa de Paulo - Atos 26:1-11 - Comentário Bíblico -
Matthew Henry (Exaustivo) AT e NT
Agripa era a pessoa mais ilustre na assembleia, tendo o título de
rei que lhe fora concedido, embora sob outros aspectos tivesse somente o poder
dos outros governadores sob o imperador e, mesmo não sendo superior aqui, era
veterano em relação a Festo; e por isso, depois de Festo ter aberto a sessão,
Agripa, como o orador da corte, concede a Paulo licença para que se defenda (v.
1). Paulo ficou em silêncio até que tivesse conseguido essa liberdade; porque
não são os mais dispostos a falar que são os mais preparados para falar e falam
melhor. Esse era um favor que os judeus não lhe dariam, ou não sem dificuldade;
mas Agripa de bom grado o dá a ele. E a causa de Paulo era tão boa que ele não
queria mais que ter a liberdade de falar por si mesmo; ele não precisava de
advogado, de nenhum Tértulo para falar por ele. Seu gesto é registrado: Ele
estendeu sua mão, como alguém que não estava em nada consternado, mas tinha
perfeita liberdade e domínio de si mesmo; e isso também dá a entender que ele
estava falando sério e esperava a atenção deles enquanto respondia por si.
Observe: Ele não insistiu em seu apelo a César como uma desculpa para ficar em
silêncio, ele não disse: “Eu não mais serei examinado até que eu vá ao
imperador em pessoa”; mas amavelmente abraçou a oportunidade de honrar a causa
pela qual ele sofria. Se nós devemos estar sempre preparados para responder com
mansidão e temor a qualquer que nos pedir a razão da esperança que há em nós,
muito mais a cada homem de autoridade (1 Pe 3.15). Sendo assim, nessa última
parte do discurso:
I
Paulo dirige-se com um respeito muito particular a Agripa (vv. 2,3). Ele
respondeu amavelmente diante de Félix, porque ele sabia que tinha sido por
muitos anos juiz para aquela nação (Atos 24.10). Mas sua opinião quanto a
Agripa vai mais além. Observe: 1. Sendo acusado pelos judeus, e tendo muitas
coisas desprezíveis postas em sua acusação, ele está contente que tenha uma
oportunidade de se esclarecer; tão longe está ele de imaginar que por ser um
apóstolo estaria isento da jurisdição dos poderes civis. A magistratura é uma
ordenança de DEUS, da qual todos nós nos beneficiamos, e, portanto, todos devem
estar sujeitos a ela. 2. Visto que é forçado a responder por si mesmo, ele está
contente em estar diante do rei Agripa, que, sendo ele mesmo um prosélito da
religião judaica, entendia todas as questões relativas a ela melhor do que os
outros governadores romanos: Eu sei que tens conhecimento de todos os costumes
e questões que há entre os judeus. Parece que Agripa era um erudito, e era
particularmente versado no ensino judaico, que era perito nos costumes da
religião judaica, e conhecia a natureza deles, e que eles não estavam
designados a serem universais ou perpétuos. Ele também era perito nas questões
que surgiam sobre aqueles costumes, determinando que os próprios judeus não
pensavam todos da mesma forma. Agripa era bem versado nas escrituras do Antigo
Testamento, e, portanto, podia fazer, mais do que outros, um julgamento melhor
sobre a controvérsia entre ele e os judeus a respeito de JESUS poder ser o Messias.
É um encorajamento para um pregador ter ouvintes que são inteligentes e que
podem discernir coisas que diferem entre si. Quando Paulo diz: julgai vós
mesmos o que digo, ele está falando como a sábios (1 Co 10.15). 3. Ele,
portanto, roga que ele o ouça pacientemente, makrothymos – com longo ânimo.
Paulo planeja um longo discurso, e implora que Agripa o ouça por completo, e
não fique entediado; ele planeja um discurso claro, e roga que o ouça com
mansidão, e não fique furioso. Paulo tem uma certa razão em temer que, como
Agripa, sendo judeu, era bem versado nos costumes judeus, e por isso um juiz
tanto mais competente de sua causa, ele fosse também influenciado em alguma
medida pelo fermento judeu, e portanto podia carregar um preconceito contra
Paulo como o apóstolo dos gentios; ele portanto diz isso para abrandá-lo: eu
rogo a ti que me ouças pacientemente. Com certeza, o mínimo que podemos
esperar, quando pregamos a fé em CRISTO, é sermos ouvidos pacientemente.
II
Ele declara que embora fosse odiado e estigmatizado como apóstata, ainda assim
aderia a todo aquele bem no qual fora educado e instruído no início; sua
religião sempre foi construída sobre a promessa de DEUS feita aos pais; e sobre
isso ele ainda construía.
1. Veja aqui qual era sua religião em sua juventude: Sua vida, todos os judeus
a sabem (vv. 4,5). Na verdade, ele não nasceu em sua própria nação, mas foi
criado entre eles em Jerusalém. Embora ele tivesse nos últimos anos tido
contatos com os gentios (o que havia causado grande ofensa aos judeus),
contudo, em suas viagens pelo mundo, ele estava intimamente ligado com a nação
judaica, e agia inteiramente em seu benefício. Sua formação não era nem
estranha nem obscura; estava entre sua própria nação em Jerusalém, onde a
religião e a instrução floresciam. Todos os judeus a conheciam, tudo isso
poderia ser lembrado por muito tempo, porque Paulo tornou-se notável ainda
moço. Aqueles que o conheciam desde o princípio poderiam testificar por ele que
ele era fariseu, que ele era não somente da religião judaica, e um observador
de todas as ordenanças dela, mas que ele era da mais severa seita da nossa
religião, mais exigente e exato em observar por si mesmo as suas instituições,
e mais rígido e crítico ao impô-las a outros. Ele não somente era chamado de
fariseu, mas ele viveu fariseu. Todos que o conheceram sabiam muito bem que
nunca qualquer fariseu se conformou mais pontualmente às regras de sua ordem do
que ele. E ainda mais, ele era do melhor tipo de fariseu; porque ele fora
educado aos pés de Gamaliel, que foi um rabino eminente da escola ou casa de
Hillel, que era de muito maior reputação para a religião do que a escola ou
casa de Shamai. Sendo assim, se Paulo era fariseu, e viveu como fariseu: (1)
Então ele era um erudito, um homem instruído, e não um ignorante, iletrado; os
fariseus conheciam a lei e eram bem versados nela, e nas suas exposições
tradicionais. Havia uma censura aos outros apóstolos por não terem tido uma
formação acadêmica, mas tinham sido treinados como pescadores (Atos 4.13). Portanto,
para que os judeus descrentes pudessem ser deixados sem desculpa, aqui está um
apóstolo destacado que havia se assentado aos pés de seus doutores mais
eminentes. (2) Então ele era um moralista, um homem de virtude, e não um jovem
dissoluto ou pervertido. Se ele viveu como fariseu, não era nenhum bêbado ou
fornicador; e, sendo um jovem fariseu, podemos esperar que ele não era nenhum
extorquidor, nem tinha ainda aprendido as artes que os velhos fariseus astutos
e cobiçosos praticavam de devorar as casas das viúvas pobres; mas era, segundo
a justiça que há na lei, irrepreensível. Ele não era culpado de nenhum exemplo
de vício e profanação conhecidos; e, portanto, como não se podia considerá-lo
desertor de sua religião por não conhecê-la (pois ele era um homem instruído),
também não se podia considerar que ele desertara dela porque não a amava, ou
não tinha afeição às suas obrigações, pois ele era um homem virtuoso, e não era
inclinado a nenhuma imoralidade. (3) Então ele era ortodoxo, são na fé, e não um
deísta ou cético, ou um homem de princípios corruptos que levam à infidelidade.
Ele era fariseu, em oposição aos saduceus; ele aceitava aqueles livros do
Antigo Testamento que os saduceus rejeitavam, acreditava num mundo de
espíritos, na imortalidade da alma, na ressurreição do corpo e nas recompensas
e castigos do estado futuro, tudo que os saduceus negavam. Eles não podiam
dizer: Ele abandonou sua religião por falta de um princípio, ou por falta do
devido respeito para com a revelação divina; não, ele sempre tivera uma
veneração pela antiga promessa feita por DEUS aos pais, e construíra sua
esperança sobre ela.
Ora, embora Paulo soubesse muito bem que tudo isso não o justificava diante de
DEUS, nem era justificação para ele, ele sabia que isso valia por sua reputação
entre os judeus, e um argumento ad hominem – como Agripa deveria sentir, que
ele não era um homem tal qual eles o fizeram parecer. Embora ele considerasse
tudo isso como perda para que pudesse ganhar a CRISTO, ainda o mencionava
quando podia servir para honrar a CRISTO. Ele sabia muito bem que em todo esse
tempo ele era um estranho à natureza espiritual da lei divina, e à religião do
coração, e que a menos que sua justiça excedesse isso, ele jamais iria para o
céu; no entanto, ele reflete sobre isso com alguma satisfação de que antes da
sua conversão não tinha sido um ateu, profano ou corrupto, mas, de acordo com a
luz que ele possuía, tinha andado diante de DEUS com toda a boa consciência.
2. Veja aqui o que é sua religião. Na verdade, ele não tem grande zelo pela lei
cerimonial como ele teve em sua juventude. Os sacrifícios e ofertas designados
por essa lei, ele pensa, são superados pelo grande sacrifício que eles
tipificavam; ele não leva mais em consideração as contaminações e suas
purificações cerimoniais, e pensa que o sacerdócio levítico foi nobremente
absorvido pelo sacerdócio de CRISTO; mas quanto aos princípios fundamentais de
sua religião, ele é tão zeloso por eles como sempre, e mais ainda, ele está
pronto a viver e morrer por eles.
(1) Sua religião é edificada sobre a promessa feita por DEUS aos pais. Está
edificada sobre a revelação divina, que ele recebe e crê, e na qual arrisca sua
alma; ela está edificada sobre a graça divina, a graça manifestada e
transmitida pela promessa. A promessa de DEUS é o guia e a base de sua
religião, a promessa feita aos pais, que era mais antiga do que a lei
cerimonial, essa aliança que foi confirmada diante de DEUS em CRISTO, e que a
lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não invalida, de forma a
abolir a promessa (Gl 3.17). CRISTO e o céu são as duas grandes doutrinas do
evangelho – que DEUS nos deu a vida eterna e essa vida está em seu filho. Sendo
assim, essas duas são a substância da promessa feita aos pais. Ela pode
remontar até a promessa feita ao pai Adão, a respeito da semente da mulher, e
aquelas descobertas de um estado futuro em cuja fé os primeiros patriarcas
agiram, e foram salvos por aquela fé; mas ela diz respeito principalmente à
promessa feita ao pai Abraão, de que por sua semente todas as famílias da terra
seriam abençoadas, e que DEUS seria um DEUS para ele e para sua semente depois
dele: a primeira quer dizer CRISTO, a última, o céu; porque, se DEUS não
tivesse preparado uma cidade para eles, Ele teria se envergonhado de chamar a
si mesmo de seu DEUS (Hb 11.16).
(2) A sua religião consiste nas esperanças dessa promessa. Ele não a
estabelece, como eles fizeram, em comidas e bebidas, e na observação de
mandamentos carnais (DEUS tem muitas vezes mostrado quão pouco Ele se importa
com eles), mas na dependência confiante da graça de DEUS na aliança, e na
promessa, que foi a grande carta régia pela qual a igreja foi inicialmente
fundada. [1] Ele tinha esperança em CRISTO como a semente prometida; ele
esperava ser abençoado nele, para receber a bênção de DEUS e ser
verdadeiramente abençoado. [2] Ele tinha esperanças do céu; isso é
expressamente afirmado, como aparece na comparação com o capítulo 24.15: de que
há de haver ressurreição de mortos. Paulo não confia na carne, mas em CRISTO;
nenhuma expectativa de grandes coisas deste mundo, mas de coisas do outro mundo
maiores do que qualquer uma que este mundo possa almejar; ele tem seu olhar
voltado para um estado futuro.
(3) Nisso, ele concordava com todos os judeus piedosos; sua fé não estava só de
acordo com as Escrituras, mas de acordo com o testemunho da igreja, que era um
apoio para ela. Embora eles o pusessem como um marco ele não era singular:
“nossas doze tribos, o corpo da igreja judaica, continuamente servindo a DEUS
noite e dia, esperavam atingir essa promessa, isto é, o bem prometido”. O povo
de Israel é chamado de doze tribos, porque assim eles eram no início; e, embora
nós não leiamos do retorno das dez tribos em um corpo, ainda assim podemos
pensar em muitas pessoas em particular, mais ou menos de cada tribo, que
retornaram à sua terra; talvez, gradualmente, a maior parte daqueles que foram
levados cativos. CRISTO fala das doze tribos (Mt 19.28). Ana era da tribo de
Aser (Lc 2.36). Tiago endereça sua epístola às doze tribos que andam dispersas
(Tg 1.1). “Nossas doze tribos, que formam o corpo de nossa nação, à qual eu e
outros pertencemos. Ora, todos os israelitas professam crer nessa promessa,
tanto de CRISTO quanto do céu, e esperam alcançar os benefícios delas. Todos
eles esperam por um Messias futuro, e nós que somos cristãos esperamos em um
Messias que já veio; de maneira que todos nós concordamos em edificar sobre a
mesma promessa. Eles esperam pela ressurreição dos mortos e a vida do mundo
vindouro, e isso é o que eu espero também. Por que eu deveria ser visto como
tendo apresentado algo perigoso e heterodoxo, ou como um apóstata da fé e do
culto da igreja judaica, quando concordo com eles nesse artigo fundamental? Eu
espero por fim chegar ao mesmo céu a que eles esperam chegar; e, se nós
esperamos nos encontrar de maneira tão feliz em nosso fim, por que deveríamos
nos desentender de forma tão infeliz no caminho?” E mais, a igreja judaica não
somente esperava alcançar essa promessa, mas, na esperança dela, eles estão
servindo a DEUS continuamente, noite e dia. O serviço do templo, que consistia
em uma série contínua de deveres religiosos, manhã e tarde, dia e noite, do
início ao fim do ano, e era mantido pelos sacerdotes e levitas, e pelos homens
fixos, como eram chamados, que continuamente assistiam ali para pôr suas mãos
sobre os sacrifícios públicos, como os representantes de todas as doze tribos,
esse serviço baseava-se na profissão de fé na promessa da vida eterna, e, na
expectativa dela, Paulo insistentemente serve a DEUS dia e noite no evangelho
de seu Filho. As doze tribos por meio de seus representantes fazem o mesmo com
relação à lei de Moisés, mas ele e elas o fazem na esperança da mesma promessa:
“Por isso, eles não deveriam me olhar como um desertor de sua igreja, já que eu
me sustento pela mesma promessa pela qual eles se sustentam”. Muito mais
deveriam os cristãos, que esperam pelo mesmo JESUS, pelo mesmo céu, embora
diferindo nos modos e cerimônias de culto, esperar o melhor uns dos outros, e
viverem juntos em santo amor. Ou isso pode ser uma referência a pessoas
particulares que continuaram na comunhão da igreja judaica e foram muito
devotas a seu modo, servindo a DEUS com grande intensidade e forte aplicação da
mente, e constantes nisso, noite e dia, como Ana, que não saía do templo, mas
servia a DEUS (a mesma palavra é usada aqui) com jejuns e orações de noite e de
dia (Lc 2.37). “Nesse caminho eles esperavam alcançar a promessa, e eu espero
que eles a alcancem.” Note: Só podem esperar com bons motivos a vida eterna
aqueles que são diligentes e constantes no serviço de DEUS; e a boa esperança
dessa vida eterna deveria nos estimular à diligência e constância em todos os
exercícios religiosos. Nós devemos continuar com nossa obra tendo o céu em
nossa mira. E devemos julgar de maneira caridosa aqueles que insistentemente
servem a DEUS noite e dia, ainda que não do nosso jeito.
(4) E isso era pelo que ele agora estava sofrendo – por pregar essa doutrina
que eles mesmos, caso eles a entendessem corretamente, deveriam reconhecer: eu
sou julgado pela esperança da promessa feita aos pais. Ele se prendia à
promessa, contra a lei cerimonial, enquanto seus acusadores se prendiam à lei
cerimonial contra a promessa: “Por essa esperança, ó rei Agripa, eu sou acusado
pelos judeus – porque eu faço aquilo que eu me considero obrigado a fazer pela
esperança dessa promessa”. É comum aos homens odiar e perseguir em outros o
poder daquela religião da qual eles, não obstante, se orgulham na forma. A
esperança de Paulo era o que esses mesmos também esperam (Atos 24.15), e, no
entanto, eles estavam, desse modo, enfurecidos contra ele por agir de acordo
com aquela esperança. Contudo, era uma honra que quando ele sofria como cristão
ele sofria pela esperança de Israel (Atos 28.20).
(5) Isso era o que ele deveria persuadir a adotar todos que o ouviam
cordialmente (v. 8): Julga-se coisa incrível entre vós que DEUS ressuscite os
mortos? Isso parece vir de maneira um tanto brusca; mas é provável que Paulo
tenha dito muito mais do que está aqui relatado, e que ele tenha explicado a
promessa feita aos pais como sendo a promessa da ressurreição e vida eterna, e
provado que estava no caminho certo na busca de sua esperança daquela
felicidade porque ele acreditava em CRISTO, que tinha ressuscitado dos mortos,
o que era um penhor e garantia daquela ressurreição pela qual os pais
esperavam. Paulo está, portanto, certo de conhecer a virtude da ressurreição de
CRISTO, que por ela ele podia chegar à ressurreição dos mortos; veja Fp
3.10,11. Agora, muitos de seus ouvintes eram gentios, a maioria deles talvez,
Festo particularmente, e nós podemos supor que quando eles o ouviram falar
tanto da ressurreição de CRISTO quanto da ressurreição dos mortos, pela qual as
doze tribos esperavam, eles zombaram, como fizeram os atenienses, que começaram
a rir e a murmurar uns com os outros que coisa absurda era aquela, o que levou
Paulo, desse modo, a argumentar com eles. Pois quê? Julga-se coisa incrível
entre vós que DEUS ressuscite os mortos? Assim pode ser lido. Se isso for
maravilhoso aos olhos do resto deste povo, será também maravilhoso aos meus
olhos? Diz o Senhor dos exércitos (Zc 8.6). Se estiver acima do poder da
natureza, contudo, não está acima do poder do DEUS da natureza. Note: Não há
razão por que nós devamos pensar ser incrível que DEUS ressuscite os mortos.
Não somos obrigados a acreditar em nada que seja inacreditável, qualquer coisa
que implique uma contradição. Há motivos de credibilidade suficientes para nos
sustentar em todas as doutrinas da religião cristã, e de maneira especial isso
vale para a ressurreição dos mortos. Acaso DEUS não tem poder infinito, para o
qual nada é impossível? Não criou Ele o mundo do nada, com apenas uma palavra?
Não formou Ele nossos corpos a partir do barro e soprou em nós o sopro de vida?
E não pode o mesmo poder formá-los novamente a partir de seu próprio barro e
pôr vida neles novamente? Não vemos um tipo de ressurreição na natureza, na
volta de cada primavera? O sol tem uma força semelhante de ressuscitar plantas
mortas, e deveria parecer incrível para nós que DEUS ressuscitasse corpos
mortos?
III
Ele reconhece que enquanto continuava fariseu, era inimigo amargo dos cristãos
e do cristianismo, e ele pensava que deveria ser assim, e continuou assim até o
momento em que CRISTO operou essa maravilhosa mudança nele. Isso ele menciona:
1. Para mostrar que o fato de se tornar cristão e pregador não era o produto e
resultado de nenhuma disposição ou inclinação prévia a esse movimento, ou
qualquer avanço gradual de pensamento a favor da doutrina cristã; ele não se
convenceu a favor do cristianismo por uma seqüência de argumentos, mas foi
introduzido no grau mais elevado de certeza dele, imediatamente do mais alto
grau de preconceito contra ele, pelo que parecia que ele foi feito cristão e
pregador por um poder sobrenatural; de maneira que sua conversão de tal modo
miraculoso não era somente para ele, mas para outros também, uma prova
convincente da verdade do cristianismo.
2. Talvez ele pretenda com isso uma desculpa a seus acusadores, como CRISTO fez
pelos seus, quando Ele disse: Eles não sabem o que fazem. O próprio Paulo uma
vez pensou que fez o que deveria fazer quando perseguia os discípulos de
CRISTO, e ele caridosamente considera que eles agiam sob o mesmo engano.
Observe:
(1) Quão tolo ele era em sua opinião (v. 9): Ele pensava consigo mesmo que
contra o nome de JESUS, o Nazareno, devia praticar muitos atos, tudo que estava
em seu poder, contrário à sua doutrina, sua honra e seu interesse. Esse nome
não fez nenhum mal, contudo, porque ele não concordava com a noção que ele
tinha do reino do Messias, ele estava pronto para fazer tudo que pudesse contra
esse nome. Ele pensava prestar um bom serviço a DEUS ao perseguir aqueles que
invocavam o nome de JESUS CRISTO. Note: É possível que os que estão
evidentemente no caminho errado estejam confiantes de que estão no caminho
certo; e que os que estão voluntariosamente persistindo no maior dos pecados
pensem que estão fazendo o seu dever. Aqueles que odiavam seus irmãos e os
expulsavam, diziam: O Senhor seja glorificado (Is 66.5). Sob o disfarce e
pretexto de religião, as vilanias mais bárbaras e desumanas têm sido não apenas
justificadas, mas santificadas e exaltadas (Jo 16.2).
(2) Com que fúria ele agia (vv. 10,11). Não há um princípio mais violento no
mundo do que a consciência mal informada. Quando Paulo considerava ser seu
dever fazer tudo que pudesse contra o nome de CRISTO, ele não poupava esforços
nem custo nessa tarefa. Ele dá um relato do que fez nesse sentido, e o agrava
como algo pelo qual estava verdadeiramente arrependido: fui blasfemo, e
perseguidor (1 Tm 1.13). [1] Ele encheu as celas com cristãos, como se eles
fossem os piores criminosos, cogitando por esse meio não somente
aterrorizá-los, mas torná-los odiosos ao povo. Ele era o diabo que lançava
alguns deles na prisão (Ap 2.10), os levava sob custódia, para que fossem
processados. Encerrei muitos dos santos nas prisões (v. 10), tanto homens como
mulheres (Atos 8.3). [2] Ele tornou-se o agente dos principais sacerdotes. Deles
recebeu poder, como um oficial inferior, para pôr suas leis em execução, e
orgulhava-se muito de que era um homem com autoridade para esse propósito. [3]
Ele era muito solícito para se manifestar, mesmo que não solicitado, a favor da
entrega dos cristãos à morte, particularmente Estêvão, em cuja morte Saulo
consentiu (Atos 8.1), e assim tornou-se particeps criminis – cúmplice no crime.
Talvez ele tenha, por seu grande zelo, embora jovem, se tornado um membro do
sinédrio, e ali votado pela condenação dos cristãos à morte; ou, depois que
eles eram condenados, ele justificava o fato, e o celebrava, tornando-se assim
culpado ex post facto – depois de cometido o ato, como se ele tivesse sido um
juiz ou jurado. [4] Ele os punia com castigos de uma natureza inferior, nas
sinagogas, onde eles eram castigados como transgressores das regras da
sinagoga. Ele teve participação no castigo de muitos; mais ainda, parece que as
mesmas pessoas eram por seus meios castigadas muitas vezes, como ele mesmo foi
cinco vezes (2 Co 11.24). [5] Ele não somente os punia pela religião deles,
mas, orgulhando-se de triunfar sobre a consciência das pessoas, ele as forçava
a abjurar de sua religião, entregando-as à tortura: “Os obriguei a blasfemar
contra CRISTO, e a dizer que Ele era um enganador e que eles haviam sido
enganados por Ele – compelia-os a negar seu Mestre, e a renunciar a suas
obrigações para com Ele”. Nada será mais pesado sobre os acusadores do que
forçar a consciência dos homens, por mais que eles possam agora triunfar pelos
prosélitos que eles fizeram pela violência. [6] Sua fúria cresceu tanto contra
os cristãos e o cristianismo que a própria Jerusalém tornou-se um palco muito
estreito para ele agir, e assim, ele declara: E, enfurecido demasiadamente
contra eles, até nas cidades estranhas os persegui. Ele estava furioso contra
eles, para ver o quanto eles tinham a dizer a favor de si mesmos, não obstante
tudo que ele fazia contra eles, enfurecido por vê-los se multiplicar ainda mais
por serem afligidos. Ele estava enfurecido demasiadamente; e o rio de sua fúria
não admitiria nenhuma margem, nenhum limite, contudo ele era um terror tão
grande para si mesmo como era para eles, tamanho era seu tormento dentro de si
mesmo pelo fato de não poder vencer, como era grande também sua indignação
contra eles. Perseguidores são homens enfurecidos, e alguns deles
demasiadamente enfurecidos. Paulo estava irritado por ver que aqueles em outras
cidades não eram tão violentos contra os cristãos, e por isso se ocupou onde
ele não tinha obrigações, e perseguiu os cristãos até mesmo em cidades
estrangeiras. Não há um princípio mais incansável do que fazer o mal,
especialmente aquele que aparenta consciência.
Esse era o caráter de Paulo, e essa a sua maneira de viver no início de sua
carreira; e por isso não se poderia presumir que ele fosse cristão por educação
ou costume, ou que tivesse sido atraído pela esperança de promoção, porque
todas as objeções exteriores imagináveis estavam contra ele ser cristão.
Atos 26:1-7 - Comentário - NVI (F. F. Bruce)
Alcançamos o zénite desse ministério especial no que concerne à
Palestina. Após as apresentações feitas por Festo, Agripa assumiu a sessão
e, imediatamente, deu oportunidade a Paulo para que falasse em sua
defesa (26.1).
4) A defesa de Paulo diante de Agripa e Festo (26.2-23)
O conteúdo e o estilo da defesa. Essa fala não é uma defesa e um testemunho
improvisado, como foi a sua mensagem à multidão no cap. 22, pois Paulo tinha
tido tempo suficiente para o preparo e percebeu a importância da ocasião.
Por isso, o discurso é tão rico em conteúdo doutrinário, histórico
e apologético e, portanto, muito difícil de ser resumido em espaço
limitado. Alguns estudiosos nos informam que Paulo lembrou das suas lições
em retórica que tinha aprendido em Tarso, visto que nessa ocasião dá
atenção especial ao estilo, embora a língua seja, evidentemente, grego
helenístico, e não clássico. Outros, no entanto, consideram extremamente
duvidoso que ele tenha estudado em uma escola grega em Tarso,
interpretando At 22.3 como significando que Jerusalém foi a cidade da sua
adolescência e juventude.
O preâmbulo (v. 2,3). O preâmbulo era obrigatório nessas “apologias” diante de
juízes distintos, e mais uma vez Paulo soube como combinar polidez e
verdade, podendo de fato considerar-se feliz em expor os
seus argumentos diante de um soberano profundamente versado em questões
judaicas, e não ignorante acerca do início do cristianismo.
Saulo, o fariseu (v. 4,5). Paulo gostaria que a sua conversão e ministério
cristão fossem vistos contra o pano de fundo da sua história inicial como judeu
ortodoxo, adepto do partido mais rigoroso, o dos fariseus.
Embora fosse nativo de Tarso, cidade de gentios, a sua vida tinha
sido vivida entre os de seu povo, embora isso não excluísse influências
gregas.
Paulo entregou-se à esperança de Israel (v. 6-8). Ele não era nenhum
separatista perigoso, mas se apegava firmemente à esperança que se originava
nas promessas fundamentais dadas à nação (Gn 12—15) e que tiveram seu
cumprimento na ressurreição; pois desde o início Abraão tinha
aprendido a confiar no DEUS que dá vida aos mortos (Rm 4.16-25). A
nação ideal das 12 tribos (naquele momento representada pelo remanescente fiel)
nunca tinha aberto mão dessa esperança no desenrolar da sua adoração
a DEUS, e a ressurreição dos mortos é incrível somente para os que
não conhecem DEUS.
Saulo, o perseguidor (v. 9-11). Paulo volta à sua história e mostra que não
somente era fariseu, mas o grande líder da primeira perseguição geral
da igreja em Jerusalém.
Podemos observar os detalhes vívidos daquele período trágico e da sua fúria
contra eles, os cristãos. E difícil entender a relutância de alguns estudiosos
em admitir que a afirmação e quando eles eram condenados à morte eu
dava o meu voto contra eles signifique que Saulo, apesar de muito jovem,
era membro do Sinédrio, pois cortes inferiores não podiam sentenciar a
pena de morte.
)))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))
A Vida e a Época do Apóstolo Paulo - 220.92
- Biografia - Ball. Charles Ferguson – A VIDA E OS TEMPOS DO APÓSTOLO PAULO
-
Charles Ferguson Ball - 1° ed. - Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias
de DEUS, 1998. ISBN 85-263-0186-1 - Biografia. 2. História Bíblica.
Grande parte da vida e da época de Paulo nos tem sido preservada no
Novo Testamento, principalmente nos escritos pessoais do apóstolo. Numa
narrativa envolvente, Charles Ferguson Ball apresenta, pormenorizadamente, a
vida do grande apóstolo dos gentios. Onde a história se cala, o autor busca
prováveis detalhes em suas pesquisas, mantendo sempre a conformidade com o
registro bíblico.
OS PORTOES DO OCIDENTE
A província da Cilícia estendia-se numa estreita faixa de terra a
nordeste do mar Mediterrâneo. Medindo apenas 112 quilômetros de norte a sul,
alongava-se do ocidente para o oriente da Panfília, indo até as montanhas da
Síria. As águas azuis do Mediterrâneo banhavam as costas ao sul, formadas de
planícies férteis e montanhas onduladas, até chegar aos sombrios montes Tauros.
Os rochedos, dos três lados da Cilícia, isolavam-na completamente de seus
vizinhos, exceto por duas conhecidas passagens nas montanhas.
As passagens eram fáceis de serem vigiadas, pois, através delas, só podia
transitar um veículo de cada vez e, mesmo assim, com dificuldade. Em todo o
Oriente eram mui afamadas como as guardiãs do único acesso, por terra, entre a
Síria e o Ocidente.
Na estrada para Antioquia, em direção ao sul, ficava a passagem conhecida como
o Portão da Síria. Todo o trânsito procedente da Ásia e do Sul tinha de ser
feito por mar ou pelas estradas montanhosas da Cilícia. Na extremidade
ocidental da Cilícia, cruzando os rochedos escarpados em direção às longínquas
Grécia e Europa, encontrava-se a outra passagem estreita, chamada Portão da
Cilícia ou Ciliciano.
Durante séculos, comerciantes e viajores entraram e saíram por esses portões.
Sua localização estratégica proporcionou imensos lucros à Cilícia. Entretanto,
por esses mesmos portões marcharam também os exércitos imperiais; e, em caso de
guerra, vencia a batalha o comandante que primeiro dominasse as estradas das
montanhas. A Cilícia fora conquistada e reconquistada muitas vezes. Disputada
por gregos e romanos, agora pertencia a Roma. Não obstante, o idioma falado nas
ruas das cidades continuou a ser o grego.
Se esses portões pudessem contar sua história, que formidável narrativa não
seria! Conquistadores e cruzados, soldados e mendigos, peregrinos e ladrões -
todos passavam por eles em suas viagens entre a Europa e a Ásia. Na verdade,
ali estava o portão de saída para o Ocidente.
O rio Cnido, nascido nas rochas de um vale profundo, ia saltando de saliência
em saliência até chegar às terras baixas do Sul. Ao longo do percurso,
reuniam-se-lhe outros rios menores, cada um transbordando com a neve derretida
das altas serranias dos montes Tauros. Assim aumentado, alargava-se e percorria
preguiçosamente seu caminho em direção ao mar.
Pequenas aldeias, fazendas e cabanas de barro escuro salpicavam a planície.
Para o ocidente, a terra era ondulada e menos fértil. Por não se prestar ao
cultivo, era usada como pastagem para o rebanho. Na direção leste, porém, o
solo era rico e as colheitas boas. Aninhada entre os picos altaneiros, cobertos
de neve, e o mar azul e quente, a Cilícia era um lugar mui agradável.
Tarso, a Cidade Natal de Paulo
Tarso, onde Paulo nasceu e foi criado, era a capital e principal cidade da
Cilícia. Era uma das maiores cidades do Império Romano. Hoje, não passa de uma
insignificante cidadezinha turca. Alguns de seus largos muros de proteção ainda
existem, mas em completa ruína, com flores e mato crescendo pelas frestas.
Fora da atual Tarso encontra-se uma ponte sob cujos arcos o rio Cnido correra
no passado. (Se essas pedras pudessem falar!) Hoje só podemos olhar as ruínas e
os registros históricos da cidade que abrigou Paulo em sua juventude, e
imaginar a influência que suas escolas, academias e ginásios exerceram sobre
ele.
Apesar de sua grandeza, Tarso não se destacava por sua antiguidade. Embora
fundada antes de Atenas e Roma, se comparada a Damasco, ou a Jerusalém, não
passava de uma criança. Ela experimentou suas primeiras glórias nos dias de
Alexandre, o Grande, quando muitos gregos abastados construíram ali suas
residências e palácios. A fama lhe proveio principalmente de seu entusiasmo
pela cultura. Suas escolas atraíam filósofos e professores de renome
internacional. A afirmação de que ofuscava qualquer cidade como centro cultural
era bem justificada.
Uma Cidade Famosa
Bem antes dos dias de Paulo, os filósofos e eruditos de Tarso já ensinavam
retórica, matemática, ética, gramática e música. Paulo ainda não brincava nas
ruas da cidade, quando grandes poetas, médicos, oradores e filósofos, treinados
nas escolas de Tarso, levavam-lhe o nome para outras terras. Era tão grande a
reputação da cidade que César Augusto, ele mesmo educado por Atenodoro de
Tarso, escolheu Nestor, outro educador da cidade, como mestre de seu filho.
Tarso possuía inúmeros prédios públicos além de palácios e casas humildes.
Havia ali um enorme teatro ao ar livre, construído para acomodar milhares de
pessoas, num grande espaço aberto, aos pés de uma encosta, com fileiras e
fileiras de bancos de mármore dispostos num largo semicírculo. Peças gregas eram
encenadas no palco central, atraindo multidões. Ali também se apresentava a
música da moda e liam-se poesias. O teatro ocupava um lugar importante na vida
de ricos e pobres.
Marco Antônio, famoso general romano, morara em Tarso. Gostava tanto da cidade,
que lhe deu autonomia; isto é, permitiu que seus cidadãos fizessem suas
próprias leis sem qualquer interferência de Roma e sem lhes cobrar quaisquer
impostos. O imperador Augusto, por sua vez, ficou tão impressionado com a
cultura da cidade que lhe permitiu ter seus próprios tribunais e nomear seus
magistrados. Tarso tornou-se um centro favorecido, despertando a inveja das
cidades vizinhas.
Sua fama não lhe provinha apenas da cultura. Tarso era também um centro
financeiro. As rotas comerciais davam-lhe proeminência. Nos dias de Paulo, o
rio Cnido era tão largo que navios de grande porte subiam por seu leito, cerca
de 19 quilômetros, e descarregavam suas mercadorias nos desembarcadouros da
cidade. O cais era um espetáculo pitoresco. Transitavam por aqui egípcios de
rosto acobreado, e africanos negros e fortes. Navios de Creta, Chipre, Rodes e
Jope carregavam em seu bojo uma estranha mistura de marinheiros alegres que
exaltavam a grandeza e o cosmopolitismo de Tarso.
Homens desciam o rio Cnido em balsas e barcos rústicos, transportando as
mercadorias de suas fazendas e oficinas. Eram os fardos transportados para os
navios e trocados por grãos, peles, lã, e barris de óleo e vinho. Os portos
eram uma confusão de homens e longas fileiras de jumentos, mulas e cavalos.
Quando o navio finalmente acabava de ser carregado, os gritos dos marinheiros e
estivadores enchiam o ar à medida que as cordas eram desamarradas e o barco
abria caminho no mar cintilante. Esse era o cotidiano no porto de Tarso.
O Barco Dourado de Cleópatra
O mais esplêndido navio que já aportara em Tarso era, agora, apenas uma
lembrança, mas ainda perdurava a profunda impressão que deixara. Ficou
conhecido como o barco dourado de Cleópatra, a lendária rainha do Egito. Ela
fora encontrar-se ali com Marco Antônio para seduzi-lo com os seus encantos.
Tinha os lábios pintados de vermelho e as unhas de um amarelo brilhante, cor de
açafrão. Por toda parte corria a fama de sua beleza.
Naquele dia longínquo, pessoas ansiosas ajuntavam-se às margens do rio,
procurando vislumbrar a belíssima rainha. O dia estava ensolarado e alegre, e o
céu, azul. No alto do mastro, uma grande vela de seda vermelha flutuava ao
sabor da brisa; flâmulas amarelas, carmesins, azuis e brancas esvoaçavam no
mastro principal da embarcação. Um espírito festivo permeava a cidade enquanto
o barco subia o rio. Os espectadores podiam ver a sua popa incrustada de ouro e
coberta por um dossel dourado. Sob o dossel, num divã, entre macias almofadas,
reclinava-se Cleópatra, enfeitada de jóias resplendentes.
Os largos remos, revestidos de prata, rebrilhavam, enquanto feriam aquelas
águas. Aquele fora um dia inesquecível. Sem dúvida, a história do seu esplendor
seria contada e recontada no decorrer dos anos.
Os Jogos
Os gregos e romanos gostavam de competições atléticas. Apreciavam tanto o
jovem que se destacava nas corridas quanto o homem que vencia uma batalha. De
seus heróis e campeões, erguiam estátuas e monumentos. A pista de corrida era
um lugar enorme, aberto, como um teatro. De um lado, enfileiravam-se as
arquibancadas, construídas em forma de estádio para as multidões que iam
assistir aos jogos e corridas. Milhares de jovens treinavam para os jogos, e
sua maior ambição era a conquista dos prêmios.
A leste da cidade, na encosta de um monte, um grande prédio erguia-se em toda a
sua magnificência. Era o ginásio - lugar onde os meninos aprendiam a ser ágeis
e fortes. Dos 16 aos 18 anos, os rapazes nada aprendiam além de atletismo.
Outras áreas da sua educação seriam cuidadas mais tarde. Afinal, o que mais
importava para os gregos e romanos era o condicionamento físico. Os meninos
aprendiam a correr, saltar, lutar e nadar. Havia ali banhos quentes e frios.
Depois dos jogos, eles banhavam-se e esfregavam o corpo com óleo de oliva.
O ginásio era um lugar animado; ressoava com os gritos e risos de centenas de
rapazinhos. O edifício era majestoso, com enormes pilares e estátuas esculpidas
em mármore, representando grandes mestres, filósofos e homens vigorosos. Os
meninos ficavam então cercados de exemplos de homens cultos e fortes - os
líderes da sua época.
A Grandeza de Paulo
De todos os homens ilustres de Tarso, produtos do ginásio e das famosas
escolas, ninguém foi maior que Paulo. Ele galgou alturas superiores a todos os
demais. Todos foram esquecidos e, apesar de tanta grandeza, deixaram apenas uma
pequena marca na história. O grande apóstolo de CRISTO, porém, cativou de tal
forma o coração de milhões de pessoas em todas as eras, e alçou-se a tal
proeminência, que a própria Tarso é lembrada, não por suas escolas e comércio,
mas porque Paulo ali viveu.
O Mundo de Paulo
Naqueles dias, toda a vida do mundo concentrava-se no Mediterrâneo. Todas
as grandes civilizações desenvolveram-se junto ao mar cujo nome aludia ao
centro da terra. A palavra Mediterrâneo é formada por dois vocábulos que,
juntos, significam "o meio da terra". Todos os interesses da vida
humana achavam-se concentrados numa estreita faixa que se estendia pela costa
sul da Europa, pela costa norte da África e pelas costas ocidentais da Síria e
Palestina. Além dessa fronteira, havia regiões inexploradas, onde viviam povos
bárbaros, que só entrariam na corrente da civilização anos mais tarde.
Três nações da época foram suficientemente grandes e fortes para deixar sua
marca sobre as demais: Roma, Grécia e Israel.
ROMA
Os romanos governavam o mundo. Conquistaram esse direito pela força dos
seus exércitos. Eles possuíam o dom da colonização e do governo (sua pequena
espada, gladium, fez sucesso e era eficiente), as estratégias de guerra era
infalível para as conquistas de seus exércitos.
Devido ao poder de suas legiões estacionadas em todas as colônias, eram os
donos do mundo. Embora poderosos, não se aproveitavam dos povos conquistados;
pelo contrário, procuravam integrá-los ao seu império, dando-lhes um lugar de
honra.
Roma enviou grandes construtores e arquitetos, que edificaram magníficas
estradas e levantaram prédios e templos por toda parte. As leis e instituições
políticas romanas eram famosas por sua justiça, garantindo o direito de todos
os cidadãos. Paulo apelou a esta lei, quando se tomou evidente o preconceito
dos tribunais da Judéia contra si.
O cenário, porém, não era inteiramente luminoso. Com o aumento do poder e
da riqueza, Roma tornou-se corrupta e frívola, presa à sensualidade, ao pecado
e ao luxo. Em consequência, o povo fez-se dolente e fraco. O império de que
tanto se orgulhavam desmoronou-se diante dos bárbaros vindos do Norte, que o
invadiram e saquearam. Mesmo nos dias de seu maior poderio, não tinham força
espiritual; deleitavam-se em prazeres vulgares e brutais, como as lutas de
gladiadores. Durante os feriados, os lutadores combatiam até a morte nas
arenas. No reinado de Trajano, dez mil gladiadores lutaram num período de
apenas seis meses. Lutavam entre si como tigres e leões, e milhares de
espectadores aplaudiam-nos enquanto mutuamente se matavam. Multidões acorriam
ao Coliseu de Roma para assistir à morte de cristãos devorados pelas feras.
Tanto por sua grandiosidade quanto por sua fraqueza, os romanos deixaram na
história a sua marca indelével. A seu favor deve ser dito que construíram o
maior império que o mundo já viu.
Grécia
Se os romanos foram os líderes mundiais no tocante à lei e ao governo, os
gregos lideraram na cultura e no conhecimento. A arte, a ciência e a literatura
desenvolveram-se mais na Grécia que em qualquer outra parte. Embora o império
fosse romano, a língua grega foi reconhecida como o idioma empregado pelas
pessoas cultas. Os eruditos de todas as nações orientais falavam e escreviam o
grego. Essa é a razão de o Antigo Testamento ter sido traduzido para o grego
muito antes do nascimento de CRISTO, e das cópias mais antigas do Novo
Testamento estarem em grego.
Os gregos eram um povo genial. Guiados por Alexandre, o Grande, conquistaram o
mundo e procuraram helenizá-lo. Desempenharam tão bem sua tarefa que, mesmo
após a morte de Alexandre e a divisão de seu império, uma porção da arte e da
literatura gregas permaneceu em cada nação. Os professores e filósofos gregos
eram os intelectuais reconhecidos da época. Eles divulgaram, em todas as
nações, a literatura, arquitetura e pensamento científico de seu país.
Muitos judeus, nos dias de Paulo, liam as Sagradas Escrituras na tradução grega
- a Septuaginta (Até mesmo JESUS usou suas citações) - pois o hebraico estava
se tornando rapidamente uma língua morta.
Quando o Cristianismo surgiu, toda praça de mercado tinha seu grupo de eruditos
gregos que se deleitavam em discutir palavras e frases, e cujo talento
degenerava em confusão. A balbúrdia era às vezes tão grande que milhares de
pessoas, tanto conquistadores como conquistados, abandonavam a crença em seus
deuses e sistemas filosóficos. As religiões pagãs achavam-se à beira de um
completo colapso, decadência e corrupção. Essa era a situação cultural do
mundo, quando JESUS e Paulo nasceram.
ISRAEL
A nação, porém, que mais marcou a civilização mundial foi Israel. Sua marca
jamais se apagará. Embora os judeus não tivessem poderio militar, destacaram-se
por sua religião. Dispersos por todas as terras, construíam sinagogas para
adorar a DEUS. Estrabão, um dos grandes historiadores da época de CRISTO,
escreveu: "E difícil encontrar um único lugar na terra que não haja
admitido essa tribo de homens e sido por ela influenciado".
Isso se dera devido ao fato de a Assíria, Babilônia e Roma terem invadido a Palestina,
e levado daqui milhares de judeus para o cativeiro. Onde quer que fosse, o povo
escolhido levava consigo as Sagradas Escrituras e as profecias de um Messias
vindouro.
Eram homens orgulhosos e exclusivistas, envolvendo-se em seus mantos de justiça
enquanto voltavam as costas ao grande propósito para o qual haviam sido
chamados: representar a DEUS entre os demais povos. Escrevendo aos Romanos,
Paulo resume o lugar de Israel no mundo, e aponta suas falhas em palavras
contundentes:
Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em
DEUS; e sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por
lei; e confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instruidor
dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na
lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas
que não se deve furtar, furtas?... Porque, como está escrito, o nome de DEUS é
blasfemado entre os gentios por causa de vós (Rm 2.17-21,24).
Embora seja penosamente óbvio o fracasso dos judeus em executar os planos
divinos, eles estabeleceram sinagogas desde a longínqua Babilônia até a cidade
de Roma. Na história do Pentecostes, os judeus que voltaram a Jerusalém,
abrangiam conterrâneos de todas as províncias do império romano:
Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, e Judéia, e
Capadócia, Ponto e Ásia. E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a
Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes
(At 2.9-11).
Lucas faz um resumo, dizendo que os judeus eram de "todas as nações que
estão debaixo do céu" (At 2.5).
Onde quer que os judeus construíssem suas sinagogas e cumprissem seus rituais,
estabeleciam um centro para a adoração do DEUS Único e Verdadeiro.
Sua presença no Império Romano foi de grande ajuda, servindo de porta para o
programa futuro da Igreja. Quando Paulo viajava para um novo local, sempre
procurava a sinagoga para pregar, e isso geralmente dava início a uma nova
igreja.
O Plano de DEUS
Eis aí um vislumbre do mundo em que Paulo nasceu. O cenário era de
confusão, conflito, insatisfação e necessidade - necessidade que não podia ser
satisfeita pela lei romana, erudição grega ou religião judaica.
Entretanto, DEUS decidiu enviar a este mundo um homem que, pelos seus dons
naturais, pôde cativar toda classe de pessoas. Com seus antecedentes e preparo,
estava apto a falar com autoridade aos romanos, gregos e hebreus. DEUS separou
esse homem, mudou todo o curso de sua vida e usou-o para fortalecer a Igreja de
maneira milagrosa. Saulo de Tarso, o escolhido de DEUS, tornou-se um dos
maiores pensadores e, certamente, o maior líder e teólogo da Igreja.
O LAR EM TARSO
Jamais foi escrita uma biografia completa do apóstolo Paulo. Essa
tarefa é simplesmente impossível por nos faltarem o início e o fim de sua
história. Nosso registro de suas atividades começa em sua juventude, pouco
antes de ele iniciar o apostolado. Foi aí que Lucas o conheceu e incluiu-o em
sua história da Igreja Primitiva. Além disso, só temos algumas notas pessoais
nas 13 epístolas eclesiásticas e pastorais escritas por ele em diferentes
partes do Império Romano. Apesar das muitas lacunas desses registros, temos o
suficiente para tornar o relato um dos mais emocionantes da História.
Está claro que não houve monotonia na vida de Paulo. Sumariando esse período,
ele menciona vividamente alguns episódios:
Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui
açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma
noite e um dia passei no abismo. Em viagens muitas vezes, em perigos de rios,
em perigos de salteadores, em perigos dos da. minha nação, em perigos dos
gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em
perigos entre os falsos irmãos. Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas
vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez (2 Co 11.2427).
Em lugar algum, porém, esta história é inteiramente contada. Além do breve
relato de um naufrágio, os outros não são mencionados. Não há nenhuma narrativa
da noite e do dia terríveis passados em alto mar, agarrado talvez a um
destroço. Nem é feita a descrição dos assaltos nas passagens montanhosas, onde
os ladrões tornaram-se tão ameaçadores para os viajantes, que estes tinham de
se organizar em caravanas. A seguir vieram os rios caudalosos e as enchentes,
com apenas algumas pontes para cruzá-los. Para os de viva imaginação, essas
aventuras são verdadeiramente estimulantes!
Embora não haja registro da infância de Paulo, uma história muito interessante
pode ser montada a partir das informações colhidas da história, da tradição e
das notas pessoais nos escritos paulinos.
O Nascimento de Paulo
O grande apóstolo nasceu por volta do ano três de nossa era, no lar de um
piedoso casal, no bairro judeu de Tarso. As ruas eram estreitas e as casas
pobres, mas aquele dia foi de imensa felicidade para a família. Contemplaram o
rosto do filho, e sentiram-se satisfeitos e orgulhosos.
Embora vivessem numa cidade gentia, seus pais resolveram dedicá-lo ao serviço
de DEUS, e fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para educá-lo como um
verdadeiro israelita.
O pai pertencia à tribo de Benjamim e gabava-se disso sempre que os vizinhos
mencionavam suas árvores genealógicas. Todos sabiam que Saul, o primeiro rei de
Israel, era benjamita.
Apesar de morar em Tarso, a família considerava as montanhas orientais da
Palestina o seu verdadeiro lar como o faziam os judeus piedosos. Para eles,
Jerusalém era a cidade mais bela do mundo, pois ali estava a Casa de DEUS. Eles
enviavam ofertas para os reparos do Templo, e a cada ano planejavam visitar a
Cidade Santa por ocasião da Páscoa.
Oito dias após o nascimento do menino, os pais deram-lhe um nome. A cerimônia
foi seguida de uma ceia, para a qual todos os amigos e parentes foram
convidados, e cada um levou o seu presente. Ele recebeu o bom nome hebreu de
Saulo. Esse era um nome mui querido de todos os descendentes de Benjamim porque
assim se chamava o primeiro rei de Israel. Mas como viviam no mundo romano,
usaram também a forma latina do nome — Paulo.
Nos negócios, ele era Paulo, porque isso impressionava os gentios. Mas a mãe
sempre o chamava de Saulo, pois esse nome agradava-lhe o coração.
Primeiros Ensinamentos em Casa
O pai de Saulo era muito severo. Sendo fariseu, acreditava que os
mandamentos de Moisés, como interpretados pelos rabinos e escribas, deveriam
ser observados à risca.
Uma caixa metálica brilhante, medindo 2x7 centímetros, ficava pendurada no
batente de sua porta. Quando os visitantes chegavam, ou saíam, tocavam-na e
beijavam os dedos, resmungando algumas palavras da Escritura. Dentro da caixa,
escritos num pedaço de pergaminho, estavam versículos da lei de Moisés,
começando com aquelas palavras tão familiares: "Ouve, Israel, o Senhor
nosso DEUS é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu DEUS de todo o teu
coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder" (Dt 6.4-5). Esta
caixa era chamada de mezuzah. Antes de o pequeno Saulo ter idade suficiente
para falar, provavelmente já imitava os outros. Do colo da mãe, esticava o
bracinho roliço para tocar a caixa brilhante, beijando em seguida a mão como
vira outros fazerem. Prazenteira, a mãe sorria, acariciando-lhe a cabecinha.
À medida que Saulo crescia, aprendeu a ajoelhar-se com o rosto voltado à
distante Jerusalém e, com as mãos cruzadas à frente, já fazia uma oração pela
manhã e outra à noite. Quando perguntou a razão de ter de olhar para Jerusalém,
foi-lhe dito que o SANTO Templo estava ali, e que no Lugar SANTO, por trás da
grande cortina púrpura, DEUS habitava no meio de seu povo. O menino não
compreendia tudo, mas ficava impressionado porque a voz da mãe tornava-se
solene, e ela curvava a cabeça todas as vezes que falava de DEUS.
Ela também contava-lhe como o profeta Daniel, quando exilado numa nação gentia,
jamais se esquecera de abrir as janelas em direção à Cidade Santa, e falar com
o seu DEUS. Instado a não mais orar, recusou-se a obedecer o edito do rei e,
como castigo, foi lançado à cova dos leões. Mas as feras não lhe fizeram mal
algum, porque DEUS fechara-lhes a boca.
A mãe de Saulo contou-lhe as histórias de seu povo. Falou da opressão do Egito
e de como DEUS libertara o povo das mãos de Faraó, fazendo-o atravessar em
triunfo o mar Vermelho. Ela nunca se cansava de mencionar Saul, o rei de quem o
filho levava o nome, e como ele fora o mais alto, belo e majestoso de todos os
homens de Israel. Enfatizava repetidamente o fracasso dos juizes e a humildade
de Saul, o primeiro rei de Israel. "Por causa de sua humildade",
repetia-lhe a mãe, "ele foi honrado por DEUS".
Mas o fim trágico de Saul ficou gravado para sempre no coração de seu jovem
homônimo, numa advertência de como DEUS rejeita o que dEle se desvia para
buscar a própria glória. A mãe de Saulo costumava concluir seus ensinamentos,
citando a Escritura: "Aos que me honram honrarei, porém os que me
desprezam serão envilecidos" (1 Sm 2.30). De igual modo, contou a Saulo
sobre Abraão, o pai do seu povo; Moisés, o grande legislador; Gideão, Sansão e
a rainha Ester, filha de judeus pobres. Os heróis da nação judaica tornaram-se
parte dos seus pensamentos e da sua conversa diária. Suas histórias preferidas
eram as de aventuras e combates.
Quando o sol enorme e quente descia por trás dos morros da Panfília e as
estrelas surgiam no céu púrpura, era a hora de todo menino dormir. Saulo e a
irmã sentavam-se, então, nos joelhos da mãe e ouviam-na falar de Davi, o
pastorzinho que matara um urso e um leão que tentaram devorar-lhe as ovelhas.
Ela contava também sobre o grande rei Salomão, cuja glória maravilhava o mundo
inteiro; falava ainda sobre a rainha de Sabá que fora a Israel verificar se era
verdade tudo o que se dizia sobre a sabedoria e riqueza do rei Salomão.
Uma das histórias favoritas de Saulo era a do profeta Elias, que se escondera
numa caverna e fora alimentado pelos corvos. Num dia glorioso, no monte
Carmelo, com todos os profetas de Baal contra si, Elias pediu fogo do céu, e
mostrou ao povo quem era verdadeiramente o DEUS Todo-Poderoso.
Aos poucos, mas solidamente, foi-se desenvolvendo no menino a consciência de
que pertencia a um grande povo. Orgulhava-se de que, embora minoria em Tarso,
os judeus tinham Jeová por DEUS, que sempre os abençoava quando eles o
reverenciavam.
Nas longas noites de inverno em Tarso, com os postigos e portas bem fechados
para impedir a entrada dos ventos frios do Norte, a família reunia-se ao redor
da lâmpada de óleo que brilhava. A mãe tecia o pano para fazer um casaco para o
pequeno Saulo. Enquanto seus dedos guiavam os fios, contava aos filhos sobre a
túnica que Jacó dera a José, e como este, despertando os ciúmes dos irmãos,
fora por eles vendido ao Egito. Mas DEUS estava com José, que se tornou o
primeiro - ministro no governo de Faraó, rei do Egito. José foi o meio usado
para salvar o seu povo da grande fome que sobreviera à terra de Canaã.
Mãe alguma tinha uma reserva tão grande de histórias, nem jamais as contara com
tanto orgulho e convicção.
A Sinagoga
A mãe de Saulo levou-o à sinagoga quando ele atingiu a idade apropriada. Ao
chegar, lavaram os pés empoeirados e depois sentaram-se na seção das mulheres e
crianças, separada da dos homens adultos por uma treliça de pedra. Através da
treliça, ele podia ver o pai sentado no chão com os homens, ouvindo enquanto o
rabino lia a Lei, e dirigia-se à congregação.
Ouve, Israel, o Senhor nosso DEUS é o único Senhor. Amarás pois o Senhor teu
DEUS de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E essas
palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as intimarás a teus
filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e
deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão e te serão
por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e
nas tuas portas (Dt 6.4-9).
O pequeno Saulo não compreendia muita coisa do que se passava na sinagoga. Mas
a mãe achava que ele deveria conhecê-la desde a mais tenra idade para, mais
tarde, sentir-se estimulado a frequentá-la regularmente. Ela podia imaginá-lo
dentro de poucos anos, sentado com os outros homens, discutindo os caminhos de
DEUS e, depois, como rabino, explicando as Escrituras. Seu coração estremecia
com o privilégio de educar um filho de Israel que frequentasse a sinagoga de
Tarso durante toda a sua vida.
Durante aqueles primeiros anos, a mãe de Saulo foi sua única professora. Olhos
puros fitavam olhos confiantes. E, assim, Saulo passou a viver conforme o
padrão escolhido pela mãe. Ela sabia que era seu dever levar o filho a conhecer
e a amar as Escrituras conforme ensinara Moisés:
Quando teu filho te perguntar pelo tempo adiante, dizendo: Quais são os
testemunhos, e estatutos e juízos que o Senhor nosso DEUS vos ordenou? Então
dirás a teu filho: Éramos servos de Faraó no Egito, porém o Senhor nos tirou
com mão forte do Egito
(Dt 6.20,21).
Os Ensinamentos do Pai
Os rabinos da antiguidade diziam que as lições em casa deviam começar aos
cinco anos. O pai seria o principal professor nesse período, cuidando da
educação do filho. A escola começou então oficialmente para Saulo nessa idade.
Depois disso, o aprendizado não se baseava tanto nas histórias, mas na
memorização de versículos do Antigo Testamento e dos cânticos da sinagoga. Os
salmos de Davi eram usados como hinos de adoração, e cada menino tinha de
aprendê-los, juntamente com os mandamentos de Moisés e as tradições dos grandes
rabinos.
Grande parte da educação resumia-se em decorar textos. Para Saulo, este
exercício iniciou-se aos cinco anos e continuou até os trinta. Os judeus não
precisavam estudar outros livros didáticos. As Escrituras continham todos os
conhecimentos relativos à vida. As histórias do seu povo eram o seu único
prazer, e extrair conhecimento de quaisquer outras fontes era desencorajado e
visto com desconfiança.
A primeira lição de Saulo, baseada num versículo de Deuteronômio, foi-lhe
transmitida em grego. Ele a repetiu várias vezes até decorá-la: "O que o
Senhor requer de mim, senão adorá- lo e andar em seus caminhos, amá-lo e
servi-lo de todo o meu coração e alma, e guardar os mandamentos que DEUS ordena
neste dia para o meu bem?"
Depois disso, Saulo decorou verso após verso das muitas promessas divinas, pois
os seus pais acreditavam que, se um judeu fosse bom e adorasse a DEUS, o Senhor
abençoaria sua casa, campos e negócios. Mas, se não amasse e adorasse ao
Senhor, certamente DEUS o castigaria, retirando-lhe sua bênção. Desde a
infância, Saulo foi levado a crer em tudo o que a Escritura dizia. Mais tarde,
não teve dificuldade em aceitar tudo o que ensinava o rabino.
Aos seis anos, seus pais o levaram pela mão à escola de rabinos. Com um olhar
de medo e saudade, o menino largou a mão da mãe, que o entregou ao professor. O
ambiente não era tão confortável como sua casa. O mestre era um estranho
barbudo. O pai ficou ali mais algum tempo, observando o filho sentar-se de
pernas cruzadas na companhia de outros trinta garotos, que olhavam fixamente à
face severa do mestre.
Os pais voltaram para casa experimentando uma mistura de sentimentos.
Orgulhavam- se pelo fato de o menino estar crescendo, mas entristeciam-se
porque o tempo de seu aprendizado no lar chegara ao fim. Todavia, sentiam-se
satisfeitos porque o filho ia ser educado como um verdadeiro hebreu, embora
estivesse numa cidade grega e distante do Templo de Jerusalém.
Diferentemente das escolas gregas, não havia na escola da sinagoga nem aula de
desenho nem de pintura. Traçar a figura de um homem, pássaro ou animal era
proibido pela Lei. Os jogos e esportes gregos também não tinham espaço nas
escolas rabínicas; eram costumes pagãos desprezados pelos eruditos judeus.
Em casa e na escola, Saulo aprendeu que a maior coisa do mundo era adorar a
DEUS de todo o coração e obedecer aos mandamentos de Moisés.
Não havia necessidade de carregar livros, pois nem o professor os possuía. Em
voz alta e monótona, este repetia as lições aos alunos até que tudo lhes
ficasse gravado na memória. Era repetir, repetir e repetir.
Como todos os meninos, Saulo fazia inúmeras perguntas. Seus pais encorajavam-no
a isso, especialmente no que dizia respeito aos rituais religiosos. Saulo devia
perguntar por que a mãe varria a casa e acendia a lâmpada, entregando esta
depois ao pai a fim de procurar migalhas em todos os aposentos. Por que comiam
pão sem fermento, com as cabeças cobertas, como se estivessem prontos a fugir
do inimigo? Por que a mãe acendia uma vela a cada noite, até que, depois de
oito noites, a casa ficasse toda iluminada? Por que esperavam tão ansiosamente
a lua nova? Ele perguntava todas essas coisas e muitas outras. O pai, muito
orgulhoso, explicava-lhe o significado de cada uma delas: como eles celebravam
os grandes dias de sua história, e como DEUS lhes ordenara que essas datas
fossem lembradas. Os judeus eram diferentes de todos os povos do mundo; nessa
diferença, repousava o seu orgulho e alegria.
A seguir, veio o aprendizado do alfabeto, tanto hebraico quanto grego. Se na
sinagoga, o hebraico era falado e lido, em casa e nas ruas, até os judeus
falavam o grego. Saulo teve, portanto, de aprender ambos os idiomas. O pai
retirava os rolos sagrados da caixa, entregava-os ao filho, e punha-se a
contemplá-lo satisfeito, enquanto o menino fazia a leitura na amada língua
hebraica.
O Dia de Sábado
Como as escolas não funcionavam aos sábados, as crianças judaicas esperavam
ansiosas por esse dia. Os cidadãos de Tarso não guardavam o sábado, e odiavam
os judeus por serem tão diferentes. O pai suspendia o trabalho mais cedo na
sexta-feira, e parecia contente ao ver a casa varrida e arrumada, os filhos
vestidos com as melhores roupas e a refeição da noite sobre a mesa. O dia de
descanso começava com o pôr-do-sol na sexta-feira e ia até o fim do sábado.
Quando a escuridão descia sobre a cidade, o som da trombeta era ouvido do alto
da sinagoga. Os pais de Saulo inclinavam-se juntos. Em seguida, o chefe de
família impetrava a bênção sobre o lar. Ato contínuo, lavava as mãos numa bacia
de água e colocava um pouco de vinho na taça. Reunidos em volta da mesa, todos
provavam do cálice. Então o pai dizia algumas palavras a respeito do Senhor e,
mergulhando um naco de pão no sal, oferecia-o a cada membro da família.
Esse era o começo do melhor dia da semana.
Eles sentavam-se para uma refeição composta de peixe, sopa, pão e frutas. Era o
dia de descanso solene e não se avistava nenhuma fumaça evolando-se das casas
judias, pois DEUS ordenara fosse o sábado um dia de repouso. Nenhum fogo era
aceso; nenhum alimento, cozido; e o pai declarava gravemente que quem desobedecesse
devia ser morto. Moisés não condenara à morte o homem flagrado colhendo
gravetos para acender o fogo no sábado?
Nesse dia, todos iam à sinagoga. Por trás da treliça que separava as mulheres e
crianças da parte principal do prédio, Saulo podia ver o pai no grande salão
onde ardia o castiçal de sete hastes. O pai removia os sapatos e amarrava
filactérios nos braços e na testa; colocava um xale azul na cabeça, e
voltava-se em direção a Jerusalém, para orar com os outros homens.
As portas eram então fechadas e, de algum ponto, uma voz cantava: "Bendito
o Senhor, o Rei do universo, que fez a luz e as trevas, que envia a paz e cria
todas as coisas e quem, na sua misericórdia, dá luz à terra; quem, na sua
bondade, renova dia a dia as obras da criação". Podia se ouvir dos lábios
dos ouvintes um "amém" em voz baixa, enquanto todas as cabeças
mantinham-se inclinadas.
Enquanto observava, Saulo viu um dos homens pegar um rolo grande de pergaminho
e fazer a leitura em hebraico. Era a lei de Moisés. Cada sentença era repetida
em grego a fim de que todos pudessem entender. A seguir, um dos principais da
sinagoga comentava o trecho lido. Às vezes, argumentava acaloradamente, citando
opiniões dos grandes rabinos. Eles também faziam perguntas difíceis e
procuravam respondê-las demonstrando grande autoridade.
Depois das perguntas, uma breve bênção despedia o povo que saía em silêncio. Às
vezes, reuniam-se nas casas, mas nunca passeavam a pé, já que era proibido
andar mais de 960 metros até 1,2 km nesse dia. Quando o sol se punha, o pai
reunia a família e orava por cada um em particular, pedindo a bênção de DEUS
sobre o dia que terminava.
O Rigor dos Fariseus
Todas as regras que Saulo aprendia na escola eram seguidas rigorosamente
pelo pai; este era meticuloso até na forma de lavar as mãos. No lar de Saulo,
havia mais rigor e disciplina que na maioria dos de seus amigos. Seu pai era
fariseu e decidira que o filho também o seria. Ser fariseu significava
pertencer a mais importante seita do Judaísmo.
Os saduceus pertenciam à classe alta e rica; eram a aristocracia; ocupavam a
maioria dos altos cargos, mas não se importavam com a fé nem com a moral.
Aceitavam as Escrituras de modo geral, mas não acreditavam no céu, nem nos
anjos, ou na vida após a morte. Os fariseus apiedavam-se deles; achavam que o
desejo de ser modernos virara-lhes a cabeça.
Por seu turno, os fariseus não só aceitavam integralmente as Escrituras, como
também as tradições orais dos rabinos. Diziam que as tradições originavam-se da
Palavra de DEUS. Eles estavam continuamente brigando e discutindo com os
saduceus, por acharem ter alcançado uma posição superior à de qualquer outra
classe. Orgulhosos e intolerantes, agradeciam a DEUS por não serem como os
demais.
Andar uma milha, carregar um graveto, ou acender o fogo no sábado era
considerado ofensa grave por Saulo e seu pai. Até mesmo comer um ovo posto por
uma galinha no sábado era considerado pecado. Saulo pensava, trabalhava e
crescia segundo os ensinamentos do farisaísmo. Preparou-se gradualmente para
liderar outros nessa tradição, sem jamais sonhar que, um dia, despojar-se-ia
dela como de algemas pesadas, liberto que seria por CRISTO.
Influências Gentias
Ao norte da cidade ficava a pista onde eram disputadas as provas de
atletismo. A cidade inteira comparecia para apreciar tais eventos. Menino algum
que crescesse em Tarso poderia fugir à influência desse lugar. Os jovens da
Grécia e de Roma gostavam tanto de correr, e davam a isso tamanha importância,
que um vencedor tornava-se herói nacional, e tinha uma estátua erguida em sua
honra.
Saulo foi tão influenciado por essa pista de corrida que, mais tarde, em seus
escritos, comparou a vida cristã a uma prova atlética. Considerou que a vida em
CRISTO tem um ponto de partida, uma pista e um alvo. O cristão não é alguém sem
rumo; tem um alvo diante de si e concentra-se na busca do prêmio. À medida que
a vida de Saulo aproximava-se do fim, sua mente voltava à pista. E ele escreveu
a Timóteo: "Completei a carreira" (2 Tm 4.7).
Saulo provavelmente nunca teve permissão para assistir a esses jogos. Era um
passatempo gentio e impróprio para um bom judeu, principalmente se fosse
fariseu. Não obstante, ele via os jovens gregos treinando para as corridas, e
não podia deixar de se interessar pelo vencedor.
O teatro também atraía milhares de pessoas cultas; o melhor no campo da música,
poesia e drama era apresentado ali. Os judeus, porém, não apreciavam tais
frivolidades. O pai de Saulo considerava-as supérfluas e inadequadas ao filho
de um fariseu.
Quando permitia que Saulo fosse ao ginásio ver os rapazes saltar, correr e
praticar todo tipo de esportes, dizia-lhe que o exercício físico era necessário
à formação de bons soldados, mas o jovem que estudasse a lei de Moisés seria um
homem melhor.
O Filho da Lei
Quando Saulo completou 13 anos, sua vida passou para um estádio totalmente
novo. Aos poucos foi tomando consciência das responsabilidades da vida pessoal
e comunitária. Conforme ensinavam os rabinos, ao chegar aos 13 anos, o jovem
torna-se responsável por seus atos e já pode ser admitido na seção masculina da
sinagoga. A fim de marcar tal mudança, Saulo foi levado à sinagoga para uma
cerimônia conhecida atualmente como bar mitzvah.
O pai disse-lhe que até então ele estivera aprendendo a Lei, mas chegara a hora
de obedecê-la. Chegara a hora da responsabilidade. Como bons pais, tinham feito
o possível para educá-lo na pureza da fé. Agora, achava-se ele por conta
própria aos olhos da Lei Mosaica; se deixasse de obedecê-la, poderia ser
castigado pelo tribunal da sinagoga como qualquer outro judeu.
Depois de submetido a um exame solene, Saulo foi declarado apto para ter o
filactério amarrado no braço, como sinal de haver adentrado a idade adulta. Na
sinagoga mal iluminada, os amigos da família reuniram-se enquanto o pai
apresentava o filho ao rabino. Este prendeu a pequena caixa preta na parte
superior do braço de Saulo, e recomendou-lhe que nunca entrasse na sinagoga sem
ela. A seguir, pela primeira vez em público, ele procedeu à leitura da Tora,
mostrando ter sido educado como um verdadeiro hebreu. Depois disso, o rabino -
seu velho amigo e professor fez-lhe um discurso, no qual resumiu muitas das
lições que lhe ensinara. Com palavras de conselho, o líder espiritual acolheu-o
na comunhão da sinagoga.
Na audiência, por trás da treliça, a mãe de Saulo ouviu seu menino ser
declarado filho da Lei. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Nunca mais ele se
sentaria ao seu lado na sinagoga. Ela suspirou e chorou. Saulo tornara-se
repentinamente um homem, e mãe alguma está preparada para tal mudança.
Na caixa presa ao braço de Saulo, havia trinta versículos da Escritura,
escritos em pergaminho, começando com a admoestação:
E te será por sinal sobre tua mão, e por lembrança entre teus olhos; para que a
lei do Senhor esteja em tua boca: porquanto com mão forte o Senhor te tirou do
Egito. Portanto, tu guardarás este estatuto (Êx 13 9,10).
Veio a seguir a festa em casa; os amigos levaram presentes e deram-lhe os
parabéns. Era a aceitação pública de Saulo como homem. Ele passou assim da
infância para a idade adulta aos olhos de seu povo. Não era mais um simples
escolar, e sim um estudante. Não abandonou os estudos; só mudou a maneira de
estudar.
Fabricante de Tendas
Afirma o ditado rabínico: "O homem que não ensina um ofício ao filho
quer que ele se tome ladrão, pois quem não trabalha para ganhar o próprio pão
come o de outrem". Sabendo disso, o pai de Saulo desejava que o filho
tivesse uma profissão. Ele era fabricante de tendas e fora morar em Tarso
atraído pela fama de seus tecelões. Essa reputação devia-se ao fato de o
cilicium, um tipo especial de tecido, ser um produto da província. Era
fabricado com o fio comprido do pêlo das cabras que pasciam nos montes da Cilícia,
a oeste e ao norte da cidade. O cilicium era considerado o melhor material para
tendas, pois, de tão duro, tornava-se quase impermeável. Também era empregado
nas velas dos barcos e trajes externos dos pescadores e marinheiros.
Havia uma pequena oficina nos fundos da casa de Saulo. Era um barracão comprido
e baixo, aberto numa das extremidades, contendo um tear, rodas para tecer o
fio, caldeirões para tingir o pelo de cabra, e um banco para cortar o couro e
costurar as tendas. Fardos de peles de cabra amontoavam-se num canto, do jeito
que haviam saído das mãos do pastor.
Várias vezes ao ano, o pai de Saulo viajava para as montanhas distantes, a fim
de comprar peles. Ele sabia onde encontrar os pastores que vendiam 3s peles de
pêlo mais longo e resistente de toda a Cilícia. Completadas as compras,
carregava os jumentos com sua mercadoria e voltava à oficina. O pêlo tinha de
ser então penteado e preparado para ser tecido. Uma parte era tingida de
vermelho, outras de amarelo, roxo e verde, para atrair os mercadores. O fio era
depois enrolado em fusos e preparado para as lançadeiras e o grande tear
manual.
Preparado o tecido, vinha a fabricação da tenda. Saulo observava o pai cortar o
material em tiras e costurá-lo com um fio bem forte e uma grande agulha de
bronze. O segredo era costurar tão bem e tão apertado, que nem uma gota de
chuva pudesse atravessar, ou vento algum rasgar o material. Não era fácil fazer
uma boa tenda. Era preciso prepará-la, enrolar a corda, fazer as estacas e
colocar ilhoses e ganchos de couro para pendurar caldeirões, panelas e arreios.
A seguir vinham as decorações. Algumas tendas eram coloridas com largas faixas
amarelas, vermelhas ou azuis. Mas o tipo comum não tinha faixas, era sempre
preto ou cinza.
Com o passar do tempo, Saulo tornou-se um perito na profissão e podia fabricar
tendas tão fortes e boas quanto as de seu pai. Ele nunca se esqueceu do seu
ofício e, anos mais tarde, voltou a praticá-lo em muitas das cidades que
visitou, pois não aceitava dinheiro das igrejas para o seu sustento. Um
fabricante de tendas de Tarso era sempre bem recebido. Sua habilidade nessa
profissão foi reconhecida em todo o mundo.
Todavia, seus pais queriam que ele fosse um professor da Lei de Moisés, um
rabino. Naqueles dias, todo rabino tinha um ofício, pois não era costume
aceitar dinheiro pelo ensino.
Não use a Lei como enxada para cavar - disse um dos mais famosos.
Faça qualquer tipo de trabalho - disse outro. - Nem que seja tirar a pele de um
cavalo à beira da estrada; e não diga para justificar-se: "Sou um
sacerdote".
Os Feriados Judeus
A semana mais importante do ano era a da Páscoa. Era uma grande data
nacional; tinha um profundo significado religioso. A Páscoa celebrava a
libertação dos israelitas do cativeiro no Egito. É claro que havia outros
feriados, tal como o da Festa dos Tabernáculos, quando as crianças iam ao campo
com os pais, e cortavam ramos para construir uma cabana em cima da casa, na
parte plana do teto. Isso era feito para que se lembrassem da época distante,
quando os judeus, ao deixarem o Egito, passaram a morar em tendas. Sem uma
habitação permanente, vaguearam entre as rochas do deserto.
Havia também a Festa da Colheita, o Purim e o Dia da Expiação. Para cada grande
dia, vários peregrinos piedosos deixavam Tarso e voltavam a Jerusalém. Saulo
era ainda muito jovem para ir; mas, desde que Tarso ficava junto à estrada
principal, ele se acostumara a ver centenas de judeus descansando ali, à noite,
na longa viagem para o Sul. Por várias vezes, tios, primos e outros parentes
haviam pernoitado em sua casa. Saulo lembrava-se de como, pelo menos uma vez ao
ano, seu pai juntava-se a esses grupos de viajantes. Ele embrulhava suas
melhores roupas a fim de vesti-las quando chegasse a Jerusalém, e depois
arreava um jumento e partia alegre pela estrada que o levaria através das montanhas
até o SANTO Templo.
Após meses de ausência, o pai voltava admirado, cheio de histórias de grandes
aventuras, que entreteriam a família durante semanas. O menino, que nunca
estivera em Jerusalém, ouvia extasiado as descrições entusiasmadas do pai e
pensava que a grande cidade deveria estar logo abaixo do céu em glória e
grandeza. O pai falava do toque das trombetas dos sacerdotes, ao iniciar-se o
dia de adoração no Templo, e dos coros dos levitas, vestidos de branco,
cantando os grandes salmos nos degraus de mármore.
As ruas ficavam cheias de multidões alegres; turistas de todas as partes do
mundo. Costumes interessantes podiam ser vistos em toda parte, e línguas
estrangeiras eram ouvidas quando os grupos se juntavam nos pontos de reunião. O
jovem Saulo ouvia essas histórias até sua mente ficar repleta de sonhos e
visões. Quando ele também poderia ir a Jerusalém?
- Seja paciente, meu filho, não falta muito para você poder ir com seu pai -
dizia-lhe a
mãe.
De fato, na última viagem, o pai fizera alguns planos. Ele sempre esperara e
ambicionara tirar o filho da cidade gentia de Tarso, dando-lhe a vantagem de
uma escola em Jerusalém. Todo bom rabino fora treinado ali. Para ser bom
professor era necessário ter contato com os grandes rabinos do templo.
Desde que a mãe concordara com o plano, não havia mais dúvidas. Os negócios na
fábrica de tendas tinham sido bons e, para o filho, não queria nada menos que o
melhor. Enquanto estivera em Jerusalém, só se falava do grande Gamaliel. Muitos
o procuraram durante os feriados para ouvir-lhe a sabedoria. Não se tratava de
um simples boato. Seus discursos eram poderosos, pois ele falava com
autoridade. Ficou então decidido que Saulo iria para a Cidade Santa, e talvez
retornasse mais tarde como um dos grandes rabinos de Israel.
NA ESCOLA DE GAMALIEL
A sinagoga de Tarso muito se orgulhou ao saber que um de seus
rapazes iria estudar com os grandes rabinos de Jerusalém. Muitos dos vizinhos
tinham amigos ou parentes nesta cidade, e ofereceram-se para escrever-lhes
contando sobre a ida de Saulo, e pedindo-lhes que o acolhessem. Todos queriam
ser úteis, e na ceia, oferecida em sua homenagem, levaram-lhe presentes,
apresentaram-lhe as congratulações e até lhe ofereceram alguns conselhos. Todos
sabiam que Saulo era um bom estudante e dele esperavam grandes coisas. Foram
unânimes em afirmar que, um dia, ele voltaria para falar, e talvez ensinar, em
sua própria sinagoga.
Semanas antes da viagem, a mãe de Saulo ocupou-se fazendo-lhe roupas novas e
arrumando as coisas que ele deveria usar na cidade grande. Ter várias mudas de
roupas era sinal de riqueza e boa educação, e ela queria que o filho tivesse um
bom começo. Medo e alegria subiam e desciam pelos corredores de sua alma,
perseguindo-se mutuamente, quando pensava no filho saindo de casa e no grande
vazio que lhe ficaria; mas ao mesmo tempo, pensava na honra e privilégio de
sacrificar-se, como é dever de toda mãe, Para que o filho convivesse com os
poderosos de Israel. O pai mantinha-se silencioso e distante, mas um brilho de
orgulho surgia em seus olhos quando imaginava seu menino na escola de Gamaliel.
Muitas vezes Saulo observara as caravanas carregadas com todo tipo de
mercadorias, partindo de manhã bem cedo, para aproveitar ao máximo a luz do
dia. Houve ocasiões em que olhara para aquelas caravanas com inveja; agora iria
partir com elas, e talvez permanecesse fora durante vários anos. Uma sensação
de medo e solidão o envolvera. Era a primeira vez que ficaria longe de casa. E
o mundo, agora, lhe parecia tão grande. Todavia, não estava triste, pois eram
tidos como bem-aventurados os que podiam fazer a viagem. Nem todos tinham tais
oportunidades ou um futuro assim promissor.
Para o leste, numa faixa branca e estreita, a estrada estendia-se pela vasta
planície e desaparecia nos montes distantes. Um grito alegre elevou-se da
caravana, enquanto os peregrinos acenavam com ramos verdes àqueles que tinham
ido à sua despedida.
A Despedida
Saulo juntou-se à estranha caravana de velhos e jovens, ricos e pobres que,
vagarosamente, iam deixando Tarso para trás. Seus olhos encheram-se de lágrimas
enquanto, repetidas vezes, voltava-se para acenar aos pais, até que a longa
estrada fez com que estes e a cidade desaparecessem de vista. O pequeno grupo
continuou marchando lentamente, rindo, conversando e trocando histórias. Mas o
coração de Saulo estava tão pesado que ele mal disse uma palavra o dia inteiro.
Pensava em sua casa e em seus pais. Como tinham sido bons, e quão
cuidadosamente protegeram-lhe a vida contra tudo que fosse errado! Agora,
porém, estava por conta própria, e sua ambição era fazer com que os pais se
orgulhassem dele. Jamais esqueceria as lágrimas da mãe em sua despedida.
O sol já se punha quando os peregrinos se aproximaram da cidade de Adana, a
cerca de 32 quilômetros de casa, e armaram as tendas para passar a noite.
Alguns mais ricos foram até a estalagem de Adana, mas a maioria acampou fora
dos muros da cidade. A estalagem era um simples espaço aberto, cercado por um
muro. No meio do cercado havia um poço, e ao longo do muro alinhavam-se
pequenos pórticos em forma de arco, onde os viajantes se deitaram a fim de
passar a noite. Não havia qualquer tipo de mobília. Cada um desenrolava sua
esteira, preparando o próprio leito; todos levavam panelas e potes para
cozinhar. Pelo menos estavam a salvo de ladrões.
Aquele era um bando interessante de viajores. Havia um velho mendigo com seu
bordão e roupas em frangalhos. Fizera a viagem muitas vezes e nada mais o
surpreendia. Havia também o menino de olhos vivazes, que viajava com o pai.
Montavam cavalos e mantinham-se longe dos outros, pois eram ricos. E o mercador
gordo, de turbante que, com uma faca na cinta, andava ao lado de suas mulas carregadas.
Parecia desconfiar das pessoas e não falava muito. Em sua maioria, porém, os
viajantes eram alegres e tagarelas, e os dias iam-se passando rapidamente.
Cheios de expectativas, os viajantes pensavam no fim da jornada.
Atravessando Terras Históricas
Viajaram dia após dia, armando as tendas e levantando acampamento. As
pedras que pavimentavam a estrada eram lisas e gastas, pois os exércitos de
várias nações haviam marchado sobre elas. Mercadores com seus camelos
caminhavam por essa estrada. Levas de escravos cansados, presos uns aos outros
com correntes, tinham sido impelidos como gado ao longo desse mesmo caminho,
até que seus pés sangrassem feridos. No quarto dia, os viajantes
aproximar-se-iam do litoral, pois a estrada passava por uma larga baía de águas
azuis, na extremidade oriental do Mediterrâneo. Em breve, voltar-se-iam para o
sul, nas fronteiras da Cilícia.
A sua frente, levantavam-se as serranias da Síria. A estrada serpenteava pelos
morros, subindo de saliência em saliência, até chegar a uma passagem estreita e
difícil, que marcava a fronteira entre a sua província e a Síria. Era o Grande
Portão da Síria. Depois de atravessar essa passagem, Saulo estaria do outro
lado das montanhas que haviam sido a fronteira do seu mundo.
A velha cidade de Antioquia ficava logo adiante, estranha e diferente com seus
muros maciços, parecendo uma fortaleza no alto de um morro. Antioquia era a
capital da Síria. Seus teatros e templos eram mais esplêndidos que os de Tarso.
Herodes, o Grande, de Jerusalém, pavimentara a rua principal e a enfeitara com
pilares de mármore. A cidade era belíssima, e ainda mais rica que Tarso.
De Antioquia, eles seguiram para a estrada elevada de Damasco e depois pelas
montanhas, até aproximarem-se da Terra Prometida. As neves do Monte Hermom
brilhavam à distância, muito claras ao sol; e as florestas do Líbano, com suas
lindas árvores de cedro, fizeram-no lembrar dos salmos que conhecia e tanto
amava.
Chegaram a Nazaré, uma cidade de hospedadas, onde as caravanas sempre
pernoitavam. Mas não passava de uma cidadezinha e não tinha boa reputação. Os
viajantes apressaram-se por chegar ao rio Jordão. Aí, finalmente, Saulo estava
chegando às terras que a história dos judeus tornara famosas. Ele pensou em
Josué que, muitos anos antes, guiara os israelitas para uma terra que manava
leite e mel. O monte Tabor, com suas densas florestas, fora onde Débora e
Baraque reuniram dez mil homens e derrotaram Sísera com seus carros de ferro.
Ao sul do Tabor ficava o vale de Jezreel, salpicado de vilarejos e campos
verdejantes. Grandes batalhas travaram-se ali. À distância adivinhava-se o
monte Gilboa, onde o rei Saul jogara-se contra a própria espada, depois de
perder uma difícil batalha.
O povo de Samaria era hostil aos judeus. Por isso, evitando atravessar a
região, os viajantes que iam para a Cidade Santa passavam para a margem leste
do rio Jordão, entrando em Decápolis e Peréia. Deixando rapidamente Samaria,
Saulo e seus companheiros chegaram ao lugar onde, mil anos antes, os israelitas
haviam cruzado o Jordão. O grupo entrou alegremente nas águas frias, como fazem
os viajantes judeus até hoje. Atravessaram para o outro lado, e Saulo pôde,
enfim, pisar pela primeira vez a terra tão amada pelos benjamitas. Aqui ficava
a cidade que fora inexpugnável -Jerico - mas cujos muros caíram ao som das
trombetas de Josué. Aqui também localizava-se Gilgal, onde o povo reunira-se
para coroar Davi. Cada pedra, ribeiro, vale e colina tinha alguma história
preciosa ao coração do judeu. E Saulo viu, pela primeira vez, a terra onde seu
povo tornara-se grande e mui poderoso. Para além de Jerico, a terra tomava-se
mais inóspita e a planície estreitava-se num vale cercado por montes íngremes e
próximos. A estrada mostrava-se sinuosa como uma serpente, e eles corriam o
risco de se depararem com bandos de salteadores. A subida era íngreme e os
viajantes estavam cansados, mas alegravam-se com a perspectiva de poderem ver,
dentro em breve, o monte das Oliveiras e a cidade mais bela da terra.
A Cidade de DEUS
Finalmente, do alto da estrada, avistaram a Cidade de DEUS, construída
sobre um monte mais baixo que o das Oliveiras. Do outro lado do vale profundo,
seus muros, torres e prédios abobadados apresentaram-se magníficos à luz
dourada do sol poente. Entusiasmados, os peregrinos entreolharam-se com olhos
úmidos. Experimentaram o mesmo ímpeto de alegria e orgulho pela grandeza da sua
terra nativa. Algumas das cúpulas e torres eram revestidas de puro ouro. Do
alto da montanha, Saulo contemplou o outro lado do vale do Cidrom e viu o pátio
do templo; do ponto mais elevado, avistou também o prédio onde, sob as asas
estendidas dos querubins de ouro, habitara Jeová.
Enquanto apreciava com interesse e reverência o cenário, o grupo de peregrinos
começou a cantar um dos salmos que, através dos séculos, os viajantes entoavam
ao aproximar- se dos muros de Jerusalém:
De bela e alta situação, alegria de toda terra é o monte Sião aos lados do
norte, a cidade do grande Rei. Dai voltas a Sião, ide ao redor dela; contai as
suas torres. Notai bem os seus antemuros, percorrei os seus palácios, para que
tudo narreis à geração seguinte. Porque este DEUS é o nosso DEUS para todo o
sempre; ele será nosso guia até a morte (SI 48.2,12-14).
O Templo
Na manhã seguinte, quando o sol surgiu no céu oriental, as ruas já estavam
coalhadas de gente. Três toques de trombeta soaram dentro dos muros do Templo,
proclamando o amanhecer de um novo dia de adoração. Eram necessários vinte
homens para abrir os portões do templo. Quando as portas maciças giraram nos
gonzos, a multidão invadiu os pátios externos. Saulo achou-se pela primeira vez
no Templo do Senhor, e a primeira coisa que viu foi o sacrifício matutino
queimando sobre o altar. Erguendo os olhos à cobertura dourada do Lugar SANTO,
ele fez as orações matinais com uma sensação de força e proximidade que nunca
antes experimentara.
Naquele lugar, os hinos de Israel pareciam ganhar um novo significado:
Quão amáveis são os teus tabernáculos, SENHOR dos Exércitos! A minha alma está
anelante e desfalece pelos átrios do SENHOR; o meu coração e a minha carne
clamam pelo DEUS vivo! Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si
e para sua prole junto dos teus altares, SENHOR dos Exércitos, Rei meu e DEUS
meu. Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvar-te-ão continuamente
(Sela). Porque vale mais um dia nos teus átrios do que em outra parte, mil.
Preferiria estar à porta da Casa do meu DEUS, a habitar nas tendas da
impiedade... Alegrei-me quando me disseram: Vamos à Casa do Senhor (SI
84.1-4,10; 122.1).
O grande pátio externo era calçado com pedras coloridas, e muitos adoradores de
países estrangeiros encontravam-se ali. Junto aos muros havia redis e gaiolas
de madeira, onde se vendiam ovelhas e pombos para os sacrifícios diários. Havia
também cambistas trocando moedas romanas e gregas pelo dinheiro de Israel, pois
só a moeda hebraica era aceita como oferta no Templo. Ali comprava-se e
vendia-se, pechinchava-se e enganava-se, pois os vendedores de animais não
partilhavam a mesma reverência dos visitantes.
Saulo jamais vira pilares tão esplêndidos, nem um piso de tamanha
magnificência; ajuntamentos de sacerdotes vestidos de branco, e tantas pilhas
de dinheiro. Na extremidade do pátio, uma longa fileira de degraus levava a um
terraço superior.
Quando Saulo aproximou-se deles, leu em grego e latim estas palavras: "O
estrangeiro não deve subir estes degraus, sob pena de morte".
Ele subiu ao pátio interno. Nem sonhava que um dia, exatamente ali, sua vida
seria ameaçada. As mulheres não podiam ir além desse segundo pátio, mas Saulo
cruzou-o rapidamente, subiu um segundo lance de escadas e passou pela Porta de
Nicanor, feita de prata e ouro puros, entrando no pátio dos homens e dos
sacerdotes.
Ali, no centro do pavimento, estava o grande altar onde o fogo nunca se
apagava. Suas pedras eram rústicas, pois nunca martelo ou cinzel as tocara. Ele
viu as mesas onde as ovelhas eram mortas, e as longas filas de adoradores que
carregavam ovelhas ou pombos, esperando a sua vez, enquanto os sacerdotes
ofereciam os sacrifícios um a um.
A seguir, noutro terraço ainda mais alto, ficava o magnífico Lugar SANTO. Suas
pedras eram revestidas de ouro. Grandes pilares brancos sustentavam o teto. Do
lado de dentro havia uma porta de ouro puro, coberta por uma cortina externa
tecida de azul e escarlate, roxo e branco. Por trás da cortina e da porta de
ouro, onde ninguém podia entrar, exceto o sumo sacerdote uma vez ao ano, havia
coisas tão sagradas que Saulo teve até medo de olhar para aquele lado.
Ajoelhou-se com os olhos fechados e o rosto no chão, profundamente comovido,
orando ao Senhor DEUS que habitava no Lugar SANTO.
Saulo sabia que a construção do Templo iniciara-se 40 anos antes, mas ainda não
havia sido concluída. Havia casas para os sacerdotes e os guardas; era uma
cidade dentro da cidade. O número de sacerdotes chegava a vinte mil e o de
levitas e guardas era ainda maior. Cada homem tinha de servir apenas duas
semanas no ano; portanto, não ficavam sobrecarregados, exceto nas grandes
festas, quando todos deviam estar presentes. Os levitas eram cantores, músicos
ou porteiros.
Essa não era uma simples sinagoga, mas o centro cultural de uma grande nação. O
tesouro do Templo era o lugar mais seguro do mundo para se guardar ouro e joias.
Ricos presentes de judeus abastados, pratos de ouro de príncipes estrangeiros,
e pilhas de artigos preciosos, enviados de todas as terras, achavam-se aí
custodiados. As ofertas diárias dos adoradores, recolhidas dos gazofilácios,
eram também depositadas na sala do tesouro.
No pátio externo, havia muitos pórticos com colunatas onde multidões se
aglomeravam para ouvir os rabinos. Ouviam um deles por algum tempo e depois iam
ouvir outro. Algumas vezes, o rabino falava com voz clara e forte, outras, com
voz baixa e fraca. Alguns eram oradores, atraindo grandes multidões; outros
tinham apenas pequenos grupos, atraídos mais por sua sabedoria que por seu
timbre de voz. Enquanto passava de um para outro, Saulo não ouviu nada de novo.
Era praticamente a mesma coisa que aprendera em Tarso. Nada questionou, pois
nunca duvidara do conhecimento desses grandes homens. Fora ali para adorar aos
seus pés. Só quando o sol já descambava no horizonte e o sacrifício noturno
terminava, é que ele deixou os pátios. Aquela era, para ele, a Casa de DEUS.
Chegara finalmente ao templo dourado.
Passou dias e dias nos pátios do Senhor, aprendendo tudo sobre a adoração a
DEUS. Impressionava-se cada dia mais com a beleza e o esplendor do lugar.
Chegaria a hora quando poderia dizer que conhecia e amava cada pedra do Templo.
Enquanto Saulo adorava diante do altar, sua ambição de ensinar a Lei de DEUS
foi tornando-se cada vez mais forte. Muitas vezes imaginava-se como um rabino
famoso, sentado num dos alpendres fechados, interpretando a Lei de DEUS ao
povo, mostrando que dominava perfeitamente o conhecimento de todas as eras.
A Escola de Gamaliel
Dentre os muitos rabinos de Jerusalém, o pai de Saulo escolhera Gamaliel.
Em primeiro lugar porque, sendo fariseu, advertiria Saulo contra os saduceus;
em segundo, pela grande reputação de sua sabedoria e bondade; e, em terceiro,
porque era filho do rabino Simeão, e neto do rabino mais culto que já houvera
em Israel. O avô Hillel morrera há muito tempo, mas todas as opiniões modernas
ainda baseavam-se no que ele dissera ou escrevera. Ser neto de um mestre tão
ilustre dava a Gamaliel um prestígio que ninguém mais possuía.
Gamaliel era um homem de meia-idade, forte e vigoroso. O povo o considerava
tanto que o chamava de rabino. Embora fosse um fariseu severo, era justo e mais
tolerante que a maioria de seus pares. Anos mais tarde, quando o apóstolo Pedro
fosse julgado perante o Sinédrio por falar de JESUS, Gamaliel aconselharia seus
colegas a deixá-lo em paz: "Agora vos digo: Dai de mão a estes homens,
deixai-os; porque se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas,
se é de DEUS, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura,
achados lutando contra DEUS" (At 5-38-39).
É certo que Gamaliel seguiu os passos do pai e do avô em sua tolerância; havia,
porém, rabinos mais severos e inflexíveis. O rabino Shammai era tão estreito de
mente que foi chamado de "o Presilha". Ele prendia seus seguidores
com tantas regras, que a religião tornara-se-lhes enorme fardo. Hillel, por
outro lado, como fosse bondoso, generoso e tolerante, recebeu o título de
"o Afrouxador". Ele iniciara como porteiro, carregando fardos pesados
nas costas, e fora tão pobre nos tempos de estudante, que não podia sequer comprar
roupas quentes.
Gamaliel olhou para o jovem Saulo e, com um amável bem-vindo, recebeu-o em sua
escola. Logo Gamaliel descobriu que Saulo era um aluno dedicado e obediente. Em
pouco tempo, já demonstrava grande simpatia pelo novo aluno, esperando deste
grandes resultados. Percebeu no rapaz reais possibilidades de liderança. Saulo
era tão sincero em seu aprendizado que cativou o coração do professor. Mais que
isso, os pais de Saulo haviam cuidado para que o filho considerasse a religião
o ponto mais importante de sua vida. Alguns estudantes não nutriam um
verdadeiro amor pela cultura e adoração. Mas em Saulo havia um sentimento quase
fanático, que o levava a ser piedoso não só nos dias de festas, mas em todo o
tempo. Paulatinamente, o Zelo de Saulo foi-se fortalecendo. Ele descobriu que a
vida em Jerusalém era diferente da de Tarso. Aqui ninguém ria nem perseguia os
judeus. Não havia nada que lhe prejudicasse o desenvolvimento. Não havia
influência gentia; só encorajamento para mergulhar cada vez mais fundo nos
mistérios do Judaísmo.
Durante os meses que se seguiram, o rapazinho transformou-se num homem
independente. Gamaliel alegrou-se com seu progresso. Passado um ano, os pais de
Saulo viajaram a Jerusalém para festejar a Páscoa, mas o principal motivo era
ver o filho. Aquele foi um grande dia! Ficaram observando orgulhosos, enquanto
Saulo discutia vários aspectos da Páscoa. Julgaram ouvir uma nota de autoridade
em sua voz, ao ouvi-lo discorrer sobre as coisas que aprendera de Gamaliel,
provando-as com passagens das Escrituras. Ele sabia até apresentar argumentos
contra os saduceus. Concluíram que Saulo sempre soubera raciocinar e argumentar
com lógica, mas agora isso estava sendo trazido à superfície. Que satisfação
lhes dava o filho!
Predição do Messias Vindouro
Quando analisado, o Judaísmo parecia uma simples religião de promessas e
esperanças. Em seu âmago, a tristeza mesclava-se com o esplendor. Todo judeu
sentia pesadamente o jugo de Roma; ansiava e orava pelo dia em que a nação
seria liberta, e os exércitos de Roma, expulsos. Os mesmos peregrinos que se
gloriavam no Templo também choravam amargamente em suas casas, clamando ao
Senhor por livramento. Todos os sacrifícios e cerimônias perderiam o
significado se os judeus tivessem de continuar sob o jugo de um rei
estrangeiro. Certamente, um dia DEUS haveria de livrar e abençoar o seu povo,
como fizera no passado.
Havia um grupo organizado de judeus patriotas, conhecidos como zelotes, que
realizavam reuniões secretas e planejavam uma revolta contra Roma. As
autoridades romanas mantinham-se ocupadas em procurá-los e castigá-los. Mas a
sociedade trabalhava ocultamente, mantendo viva a esperança de que, um dia,
DEUS enviaria um libertador poderoso como Moisés, que tiraria seu povo do
cativeiro e novamente o exaltaria sobre todas as nações.
Havia uma coisa que Gamaliel ensinava com grande convicção. Não era um simples
raio de esperança. Tratava-se do ensinamento dos antigos profetas sobre a vinda
de um líder enviado por DEUS. Ele reuniria o povo de todas as partes do mundo
para expulsar os romanos, e reinaria em Jerusalém para todo o sempre. Essa era
a promessa que DEUS fizera a Davi: seu trono jamais desapareceria, por mais
negro que o céu se tornasse. Esse grande Redentor, que traria a salvação a
Israel, era o Messias.
Saulo sabia que a vinda do Messias tinha sido mencionada pelos profetas há mais
de mil anos. E Gamaliel falava disso mais que qualquer rabino de Tarso, pois o
esperava a qualquer momento. O sábio professor lia passagem após passagem sobre
o CRISTO nos profetas, e até descobria promessas de sua vinda na Tora. Contava
como seria o Messias e como julgaria todas as nações. Ele esmagaria o mal e
reinaria com justiça.
Todo judeu sabia que o Messias pertenceria a tribo real de Judá, e nasceria em
Belém, pois o profeta Miquéias predissera-o claramente. O professor de Saulo
contou-lhe que, quando Ele viesse, ficaria oculto por algum tempo. A seguir,
reuniria o povo e marcharia sobre Jerusalém, para dispersar os romanos e reinar
para sempre pelo poder de DEUS.
Duas Opiniões
O que Saulo não sabia, até então, é que os rabinos estavam divididos em
suas opiniões sobre o Messias. Alguns liam que Ele seria um príncipe poderoso,
livrando seu povo pela guerra, e que as montanhas seriam tingidas de vermelho
com o sangue dos seus inimigos. Certos rabinos chegavam a afirmar que chamas
sairiam de sua boca para destruir os opositores.
Havia um grupo menor, porém, que estava muito confuso com certas passagens,
como o capítulo 53 de Isaías e o Salmo 22. Esses versículos deixavam claro que
o Messias muito sofreria. Ao mesmo tempo, ninguém podia negar que Ele viria
para reinar com poder. Portanto, cresceu a idéia de que haveria dois Messias -
um sofredor; e o outro, um rei triunfante. Nas sinagogas e nos alpendres
fechados do Templo, essa diferença era discutida e defendida com grande eloquência
pelos eruditos.
Saulo começou a ver muito claramente que as esperanças da nação dependiam desse
Salvador vindouro. Passou então a procurar zelosamente um líder e guerreiro,
que reunisse grandes exércitos para lutar contra Roma. Os rabinos contavam
muitas histórias sobre o Messias que estava para vir. Algumas delas não
passavam de sonhos absurdos e tolos. Outras eram fantásticas e irreais, não se
baseando de modo algum nas promessas de DEUS. As últimas eram produto da
imaginação de um povo oprimido, que não compreendia os caminhos de DEUS. Alguns
dos rabinos odiavam tanto os romanos, que descreviam o Messias fazendo toda
sorte de crueldades contra estes, a fim de vingar os judeus.
Os anos gastos por Saulo nos estudos foram cheios de reverência, mas, até certo
ponto, também de rotina e monotonia. Não havia incentivo para desenvolver
qualquer coisa original; o estudo servia apenas para aumentar a capacidade de
sua memória. Com esse treinamento, não é de surpreender que a vida de Saulo se
tornasse cada vez mais estreita.
Os fariseus eram a sua única companhia e, pouco a pouco, achou-se ele
mergulhado cada vez mais nas regras humanas. Seu gosto pela discussão fez com
que se transformasse no centro de muitas disputas. Sempre que surgia a
oportunidade de defender os sacerdotes ou rabinos, ou o sistema de adoração do
Templo contra os estrangeiros, Saulo entrava na arena com a língua afiada e o
espírito em chamas.
A Volta de Saulo a Tarso
Exigia-se que os professores estudassem dez anos para que fossem
considerados aptos a lecionar. Depois disso, ainda era necessário muito tempo
para se construir boa reputação e falar com autoridade. Antes de chegar aos 25
anos, Saulo voltou para sua casa em Tarso.
Seus dias de estudo e aprendizado jamais terminariam. Como, porém, estivera
bastante tempo com Gamaliel, já possuía um amplo e profundo conhecimento das
opiniões dos grandes rabinos. Sentiu então que já podia firmar-se sobre os
próprios pés. Aprendera e vira muita coisa. Conhecera pessoas de todo o mundo e
tornara-se um excelente aluno de sua história, especialmente em relação ao
Império Romano. Chegara a hora de deixar Jerusalém e os grandes rabinos, e
retornar a Tarso levando o conhecimento e a experiência que adquirira. Voltaria
a fabricar tendas com o pai, na esperança de que sua cultura o tornasse
conhecido e procurado como rabino em Tarso.
De uma coisa tinha certeza - a única esperança para sua nação era a vinda do
Messias. Entre os judeus piedosos, esse era o tópico principal das conversas.
Em cada coração havia um anseio profundo. Alguns até achavam que Ele já tivesse
descido à terra, e estivesse apenas aguardando o momento marcado por DEUS para
se apresentar à nação.
OS INÍCIOS DA IGREJA
Saulo deixou Jerusalém e voltou a Tarso provavelmente em 26 A.D.
Não era ainda um rabino, pois não tinha idade suficiente para ocupar tal
posição. Mas tomou lugar junto aos homens da sinagoga, sentando-se nas
principais cadeiras. Foi reconhecido por todos como um culto e jovem judeu,
pois retornava da fonte do conhecimento. À medida que crescesse em idade e
experiência, poderia ser aceito como rabino; mas até lá, dedicar-se-ia ao
comércio de tecelão, costurando tendas e vendendo-as no mercado.
Saulo morou em Tarso durante nove ou dez anos, aumentando o seu zelo por Israel
e ganhando o respeito dos amigos. Todos estavam certos de que ele viria a ser o
seu líder um dia. Na sinagoga, seus argumentos já eram ouvidos com maior
interesse que os do rabino. Era uma voz nova Que surgia, e seu contato com o
grande Gamaliel dera-lhe uma fama que poucos poderiam alcançar. Tudo que
precisava agora era da autoridade conferida pela vida adulta; dentro de poucos
anos, seria um líder destacado em Tarso.
Alvorada da Era Cristã
Enquanto Saulo aguardava pacientemente em Tarso, um evento da maior
importância teve lugar na Palestina. JESUS, da pequena cidade de Nazaré,
reunira ao redor de si um grupo de amigos; a maioria, seguidores de João
Batista. Este de tal maneira havia pregado que milhares de pessoas o aceitaram
como profeta de DEUS, talvez comparável a Isaías ou a Jeremias. Ele tinha
muitos discípulos e o seu ministério era conhecido em toda a zona rural. Quando,
porém, apareceu JESUS, João saiu de cena, apontando o Nazareno como o Messias
há muito esperado. Durante algum tempo, houve grande entusiasmo, e alguns se
perguntavam se JESUS os guiaria na revolta contra Roma. Mas em vez disso, Ele
reuniu alguns discípulos e retirou-se para o campo a fim de ensiná-los sobre o
reino dos céus.
Três meses mais tarde, JESUS foi ao Templo de Jerusalém e, contemplando-o em
toda a sua beleza, ousou contradizer grande parte dos ensinamentos dos rabinos.
Falara com tanta segurança que ofendeu os sacerdotes. De fato, deixara-os tão
zangados que todas as sinagogas foram instruídas para que não o recebessem em
suas reuniões. Os sacerdotes e rabinos tentaram desesperadamente apanhá-lo em
alguma contradição com respeito ao sábado a fim de condená-lo à morte.
Ao conhecer os rabinos do SANTO Templo, Saulo passou a nutrir por eles o maior
respeito. A interpretação que faziam das Escrituras era para ele algo
inquestionável, divino. Isso não aconteceu com JESUS. A cada passo, Ele entrava
em conflito com as tradições dos homens e, quando falava, era com a autoridade
de DEUS. Os líderes religiosos estavam irados porque JESUS afirmava ser DEUS, e
confirmava tal alegação com prodígios, sinais e maravilhas. Alguns diziam que o
Nazareno merecia a morte pois, corajosamente, os havia desafiado a destruir o
Templo que levara 49 anos para ser construído. Ouviram-no dizer claramente que
o reconstruiria em três dias.
Era fácil para alguns ignorá-lo, acreditando-o louco. Mas a questão era que
muitos dentre o povo ouviram-no pregar, e agora testemunhavam que Ele
alimentara mais de cinco mil pessoas com apenas cinco pães e dois peixinhos.
Milhares criam que Ele era o Messias prometido, e dispunham-se a lutar contra
Roma, sob a sua liderança. Alguns diziam que JESUS só conseguia atrair a
escória - publicanos, pecadores e indivíduos de reputação duvidosa. Mas era
sabido que diversas autoridades e rabinos também o haviam procurado em segredo;
muitos destes foram transformados e saíram a pregar que JESUS era, de fato, o
Messias de Israel.
Os Ensinamentos de JESUS
Chegou então a hora! JESUS fez um grande discurso, proclamando os
princípios do seu reino. O sermão era revolucionário; colocava a palavra de
JESUS acima da de Moisés. Para o judeu isso era inconcebível e tão pecaminoso
quanto uma blasfêmia. Não havia dúvidas: Ele merecia morrer! Infringira o
sábado, afirmara perdoar pecados e, diante dos fariseus, admitira ser o
Messias, o Filho de DEUS!
JESUS repreendeu repetidamente os fariseus e saduceus, usando uma linguagem
contundente e enérgica. Em certa ocasião, chamou-os de "sepulcros
caiados" e "raça de víboras" (Mt 23.27,33). Disse-lhes que não
eram filhos de DEUS, mas do diabo (Jo 8.44). Não é de surpreender que os
rabinos o odiassem tanto; não podiam se sentir confortáveis em sua presença.
Quando o viam, desmanchavam-se em ódio por não suportarem a luz de sua
sabedoria. Em seus conselhos, eles já o haviam condenado à morte.
Os rabinos diziam que homem algum podia ensinar antes de haver passado muitos
anos na escola de Jerusalém. Saulo fora educado desse modo. Mas ali estava o
Homem da Galiléia. Ele falava com mais autoridade que todos os rabinos, e era
capaz de curar todo tipo de enfermidade. Alguns tinham visto Lázaro depois de
ressurreto, e não podiam negar um fato por demais notório e evidente. Mas como
JESUS jamais frequentara tal escola, acusaram-no de estar ensinando sem
autorização. Os sacerdotes ordenaram ao povo que não mais desse ouvido aos seus
ensinamentos.
Quando, porém, os coxos passavam a andar, e os cegos a enxergar, regra alguma,
mesmo as estabelecidas pelo sumo sacerdote, era capaz de manter os necessitados
longe de JESUS. Estes chegavam aos milhares, e retornavam para suas casas
curados de todas as suas enfermidades, proclamando a todos que haviam
encontrado o Messias. E Ele os curara!
Durante três maravilhosos anos, JESUS andou pelos campos, pregando na Judéia,
Samaria, Decápolis, Galiléia e Peréia. Sua fama espalhara-se por toda a terra,
e os líderes de Israel já não sabiam o que fazer. Chegou então o dia quando Ele
entrou em Jerusalém sob a aclamação do povo. Gritavam para quem quisesse ouvir
que o seu rei chegara. Essa seria talvez a centelha que levaria o povo a
revoltar-se contra Roma.
JESUS, entretanto, foi direto ao Templo, e escandalizou deliberadamente °s
sacerdotes. Fazendo um chicote de cordas trançadas, passou a açoitar os
vendedores de pombas e ovelhas que se achavam nos pátios do santuário. Com um
grito de indignação, derrubou as mesas dos cambistas, fazendo as moedas rolarem
pelo pavimento multicolorido. O povo ficou ali parado, com medo, pois ninguém
jamais ousara perturbar o SANTO Templo daquela maneira. Os sacerdotes e rabinos
encheram-se de horror e indignação. Os adoradores haviam assistido a uma
demonstração de autoridade que jamais esqueceriam. Muitos dos israelitas
sentiam-se incomodados com os redis de ovelhas e gaiolas de pombas que
profanavam a Casa de DEUS. Há muito que os sacerdotes já deveriam ter
endireitado as coisas. Mas ninguém tivera coragem.
A raiva dos sacerdotes transbordou. Quiseram pegá-lo, mas temiam a multidão,
pois a maioria considerava-o profeta. Em toda a história dos judeus, ninguém
jamais pronunciara palavras tão cortantes. JESUS acusou os líderes de colocarem
pesados fardos sobre o povo; fardos estes que eles nem ao menos se dignavam a
mover com o dedo mínimo. Faziam obras para serem vistos pelos homens; desejavam
sempre os primeiros lugares na sinagoga, e gostavam de ser chamados de rabinos.
Com o fogo do céu rebrilhando nos olhos, JESUS pronunciou infortúnios sobre os
escribas e fariseus, chamando-os de hipócritas. Eles fechavam o reino dos céus
aos homens; não entravam e ainda serviam de obstáculo aos que o desejavam.
Chamou-os ainda de guias cegos, pois limpavam o lado de fora do copo enquanto o
seu interior continuava sujo; eram tão estreitos de visão, que coavam o mosquito,
mas engoliam o camelo.
A Crucificação
Não é de admirar que os sacerdotes e rabinos hajam se reunido no palácio de
Caifás, para planejar furtivamente a prisão e morte de JESUS, antes que o povo
se amotinasse. Foi nessa ocasião que Judas fez um trato com eles para
entregar-lhes o Senhor por trinta moedas de prata.
No Getsêmani, o Messias orava ajoelhado, enquanto os discípulos dormiam. Os
inimigos chegaram em meio à oração. Guiados por Judas, entraram no horto com
espadas e porretes. O traidor sabia que JESUS ia sempre orar no Getsêmani. A
multidão estava decidida a levá-lo à força ao sumo sacerdote.
O Sinédrio foi convocado no palácio do sumo sacerdote. Não queriam deixar a
reunião para o dia seguinte, temendo que o povo viesse a sabê-lo e exigisse a
soltura de JESUS. Agora que as autoridades tinham-no em seu poder, cuidariam
para que nada os detivesse. O tribunal reuniu-se então à noite, e a sentença
foi lida: "Morte ao Nazareno!"
Porém, segundo a lei romana, nenhum tribunal judaico tinha competência jurídica
para aplicar a pena morte. Por conseguinte, era necessário levar JESUS a
Pilatos. No entanto, ao saber que JESUS era galileu, o governador romano, para
livrar-se daquela responsabilidade, enviou-o a Herodes, representante de César
em toda a Galiléia. O rei Herodes, porém, mandou-o de volta a Pilatos que,
procurando agradar os judeus, entregou-lhes o Senhor para que fosse
crucificado. A execução se deu num monte chamado Calvário (ou Caveira), não
muito longe dos muros da cidade.
Com a morte de JESUS, os sacerdotes e rabinos suspiraram aliviados. O problema
estava finalmente resolvido. O povo não mais seria perturbado pelo falso
CRISTO. Isso seria o fim do pequeno grupo que o seguia. Por sentirem-se
desanimados e derrotados, seus discípulos retornaram à vida antiga mais
mistificados que nunca; o coração pesava-lhes de tristeza pela forma como tudo
terminara.
A RESSURREIÇÃO E A ASCENSÃO
No primeiro dia da semana, findo o sábado, o pequeno e abatido
grupo ganhou vida com o maior milagre já ocorrido: JESUS saíra da sepultura e
aparecera aos discípulos! Eles experimentaram então o sabor da vitória. Esta
certeza jamais os abandonaria; levaria-os a preferir a morte a negar o que
tinham visto com os próprios olhos.
Durante quarenta dias, o Salvador encontrou-se com os discípulos, provando-lhes
a realidade de sua ressurreição, e fortalecendo-lhes a fé. Mas veio o dia em
que Ele os deixou, pois tinha de retomar o seu lugar na glória do Pai. Diante
deles, JESUS subiu aos céus até ser ocultado por uma nuvem.
Antes de deixá-los, porém, prometera-lhes que, em breve, receberiam o dom do
ESPÍRITO SANTO que os habilitaria a pregar o Evangelho a partir de Jerusalém
até alcançar os confins da terra.
O Pentecostes
O pequeno grupo de crentes reuniu-se em Jerusalém para orar e esperar o dom
prometido. Certa manhã, chegada a festa de Pentecostes, reuniram-se eles
novamente para orar. De súbito, o poder de DEUS sacudiu o lugar, e o ESPÍRITO
SANTO desceu sobre eles. A experiência foi tão tremenda Que os discípulos
gritaram de alegria. E era tão forte o poder de DEUS, que eles o louvam em
línguas estranhas. Esse milagre era outra evidência de que o Senhor continuava
no meio deles, cumprindo sua promessa.
Diante do milagre, uma multidão reuniu-se à volta dos discípulos. Alguns diziam
que estes pareciam tão felizes que deviam estar embriagados. A fim de
justificar o estranho evento, Pedro pôs-se de pé e começou a pregar para aquela
enorme audiência.
Ele explicou-lhes que a vinda do ESPÍRITO SANTO era um cumprimento da profecia.
Em seguida, acusou-os de haverem matado o Messias. Contou-lhes também como DEUS
ressuscitara a JESUS em cumprimento às palavras de Davi. Pedro terminou o
sermão, dizendo que todos os seguidores de JESUS eram testemunhas de sua
ressurreição. E, agora, anunciavam o Evangelho com a total aprovação do céu.
Quando Pedro terminou o sermão, muitos dos presentes, profundamente comovidos,
perguntaram-lhe o que deveriam fazer.
"Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de JESUS
CRISTO" foi a resposta (At 2.38). Eles arrependeram-se, deixando-se
convencer pelo ESPÍRITO de DEUS quanto à veracidade das palavras do apóstolo.
Aquele foi um grande dia para os seguidores de JESUS. Era o início da Igreja.
Em poucas frases, Lucas faz uma bela descrição da alegria e júbilo que tomaram
conta dos primeiros cristãos.
Esse não foi o único milagre a fortalecer a fé dos primeiros cristãos. Pedro e
os demais discípulos saíram a pregar, e muitos prodígios e sinais eram feitos
por seu intermédio em nome de JESUS. Os inimigos empenharam-se ao máximo para
anular o testemunho da Igreja. Os sacerdotes e rabinos opunham-se-lhes
violentamente. Mas em vão. Pois os adeptos da "nova seita", como eram
chamados, inclusive já se reuniam no primeiro dia da semana, e não aos sábados,
pois fora num domingo que o Senhor ressuscitara dentre os mortos.
A Vida dos Primeiros Cristãos
A vida dos primeiros cristãos era marcada pela simplicidade e amor. Eles
procuravam viver como JESUS vivera. Havia entre si um laço tão forte, unindo-os
fraternalmente, que o seu coração transbordava de alegria. Sua vida era uma
oração contínua, levando-os testemunhar zelosamente de CRISTO onde quer que
fossem.
A Igreja crescia diariamente à medida que o povo ouvia o Evangelho. Os
discípulos falavam de CRISTO no Templo e nas casas. No trabalho, continuavam a
dar testemunho da graça salvadora. O poder de DEUS acompanhava suas palavras de
modo que, em toda parte, homens e mulheres eram atraídos a CRISTO mediante o
contato com estes homens simples, mas convictos.
Os discípulos tinham agora uma mensagem para pregar. Mensagem esta que lhes
transformara as vidas e dera-lhes não só esperança para esta vida como também a
promessa de ressurreição depois da morte.
Onde quer que fossem, saudavam-se com a palavra maranatha: "O Senhor
Vem". A vinda do Senhor era a sua única esperança, pois JESUS prometera
voltar. E enquanto o observavam subir ao céu, foram consolados pelos entes
angelicais com estas palavras: "Varões galileus, por que estais olhando
para as alturas? Esse JESUS que dentre vós foi assunto ao céu, assim virá do
modo como o vistes subir" (At 1.11).
A Igreja vivia cada dia como se o Salvador fosse voltar a qualquer hora, pois a
promessa de sua volta causara-lhes profunda impressão, purificando-os e
afastando-os deste mundo. A promessa encheu o horizonte de suas vidas,
levando-os a se dedicarem a CRISTO.
Mas nem tudo andava bem com os membros da Igreja Primitiva. Eram olhados com
desconfiança e ódio pelos fariseus e saduceus e por todos os líderes de Israel.
Os inimigos de JESUS continuavam a ser inimigos de sua Igreja, e empenhavam-se
em esmagar os que eram do "Caminho".
OS MINISTÉRIOS DE PEDRO E JOÃO
Certo dia, quando Pedro e João subiam ao Templo na hora da oração,
um mendigo, coxo de nascença, achava-se sentado à porta do santuário, pedindo
esmolas. Era seu costume mendigar todos os dias, e tudo que esperava era uma
ajuda para sustentar-se. Mas Pedro, movido pelo poder de DEUS, curou o homem
daquela enfermidade.
Imediatamente, formou-se um grande ajuntamento em volta dos discípulos, pois
todos estavam cheios de assombro e admiração. Pedro aproveitou-se da
oportunidade e, colocando-se num dos pórticos do pátio externo, onde os rabinos
geralmente ensinavam, pregou-lhes um sermão. O tema do seu discurso era JESUS,
o Messias.
Pedro deixou bem claro ao povo que o poder de curar não era dele, mas do
Senhor. E continuou a falar, mostrando-lhes que o DEUS de Abraão, Isaque e Jacó
glorificara a seu Filho, JESUS, a quem haviam entregue a Pilatos, e condenado à
morte. Contou-lhes como DEUS levantara a JESUS da sepultura e o levara para o
céu, onde permaneceria até que as profecias fossem cumpridas. Então, Ele voltará
para o seu povo, trazendo juízo sobre todos os seus inimigos. Em seguida, Pedro
convidou o povo a arrepender-se e a converter-se, para que os seus pecados
fossem apagados. Através desse testemunho, cerca de cinco mil pessoas creram.
E, assim, a Igreja crescia com espantosa rapidez.
Os sacerdotes, as autoridades do Templo e os saduceus, que não criam na vida
além-túmulo, enfureceram-se com o atrevimento daqueles homens que, embora não
fossem rabinos, pregavam a ressurreição de JESUS. Por isso, enviaram os guardas
do Templo para suspender a reunião e prender ambos os discípulos.
No dia seguinte, os discípulos foram levados diante do conselho, composto de
setenta membros, que lhes perguntou com que autoridade faziam tais coisas. Eles
responderam que ensinavam e curavam em nome do Senhor JESUS. Pedro, que jamais
perdia uma oportunidade, pregou o Evangelho de CRISTO diante do Sinédrio. Ao
ouvir-lhes a declaração, o Conselho percebeu que, embora indoutos, falavam
corajosamente. Maravilhados, disseram entre si que tal coragem devia-se ao fato
de eles haverem estado com JESUS. A autoridade com que JESUS falava permanecia
em sua lembrança. Resolveram, pois, adverti-los a que não mais testemunhassem
em nome de JESUS. Em seguida, libertaram-nos. Pois sabiam que o coxo era
conhecido, e condenar os que haviam operado tão grande milagre poderia provocar
a ira da multidão.
Novos crentes iam sendo acrescentados à Igreja. O poder do ESPÍRITO que operava
nos discípulos, juntamente com o exemplo destes, levou grande número de pessoas
a converter-se. A sua fé era confirmada por muitos milagres.
Os saduceus fizeram uma segunda tentativa de extinguir a nova fé. Lançaram os
apóstolos na prisão. Mas ficaram abalados ao saber que um anjo os libertara, e
que já se encontravam na companhia dos outros discípulos.
Crescimento Contínuo da Igreja Perseguida
Quanto mais os líderes judeus tentavam esmagar a Igreja, mais atiçavam-lhe
a chama. A ressurreição do Senhor dera ao povo a esperança e a segurança que
antes não existiam. Todos os anseios de Israel, profecias, sacrifícios e
esperanças foram cumpridos em JESUS. Contudo, a nação perdera a sua maior
oportunidade, rejeitando-o. Esse Evangelho, hoje tão evidente para milhões de
cristãos, estava apenas brotando no coração dos judeus.
Com a pregação do Evangelho, muitos estavam vendo, pela primeira vez, o cumprimento
de suas esperanças. Presos pela terceira vez, os discípulos foram reconduzidos
ao Sinédrio, sob a acusação de haverem desobedecido à ordem de não pregar.
Pedro colocou-se corajosamente diante do grupo e, em sua defesa, proclamou de
novo a ressurreição de CRISTO, responsabilizando os membros do Conselho pela
sua morte.
Ofendidos com tais palavras, eles pediram a morte dos discípulos. Finalmente
poderiam acabar com aquela seita, silenciando-lhe os principais pregadores e
líderes. Com calma e bom senso, Gamaliel, o famoso rabino que instruíra a Saulo
de Tarso, advertiu o Conselho. Lembrou- lhe de que outrora DEUS levantara
profetas que, embora rejeitados pelo povo, haviam cumprido fielmente a sua
missão. Aconselhou-os, pois, a soltarem os discípulos. Se a mensagem que
pregavam fosse de DEUS, nem o Sinédrio poderia destruí-la; e se não o fosse, a
seita desapareceria como tantas outras no passado. Sua conclusão foi tão
amorosa quanto sábia. Após açoitar os discípulos, o Conselho os deixou ir com
uma advertência.
A medida que a Igreja crescia e a perseguição aumentava, também elevava-se o
número de necessitados. Os apóstolos perceberam então que quase não lhes
sobrava tempo para outra coisa senão para socorrer os mais carentes. A fim de
terem mais tempo para a pregação e o ensino, indicaram sete diáconos para
atender aos pobres. Esse foi o início da organização do ministério
eclesiástico. DEUS abençoou a iniciativa dos apóstolos, usando-a para
fortalecer o seu povo.
O Ódio do mundo
Como nunca foi popular ser um verdadeiro cristão, os seguidores de JESUS
passaram a ser odiados e rejeitados pela sociedade. Eram demitidos de seus
empregos e tinham dificuldade em garantir o seu o sustento. Como sempre
houvesse necessitados, agrupavam-se para se protegerem e se encorajarem
mutuamente. Naqueles primeiros dias, o amor e o desprendimento eram tão reais,
que muitos vendiam seus bens e traziam o dinheiro para o fundo comum a fim de
socorrer os menos afortunados.
Ondas de ódio e perseguição sucediam-se ameaçando a Igreja. Alguns membros eram
tão fracos em suas convicções que, pensando apenas na segurança e conforto
pessoais, voltaram para o Judaísmo. A maioria, contudo, permaneceu sólida como
as rochas em dias de tempestade.
Cada vez que o braço armado do inimigo se erguia, DEUS suscitava outros heróis
para levar adiante a sua obra. Quando Herodes, ao perseguir a Igreja, mandou
que se degolasse a Tiago, irmão de João, julgou ter extinto para sempre o
trabalho do Senhor. Mas o relato da história, feito por Lucas em Atos,
encerra-se com esta afirmação: "Entretanto a palavra do Senhor crescia e
se multiplicava" (At 12.24).
Quanto maior a perseguição, maior o crescimento da Igreja. Muitas vezes, os
cristãos tiveram de adorar a DEUS em segredo, mas nunca vacilavam. Quando algum
pregador era preso, os outros reuniam-se para orar. O Senhor sempre lhes ouvia
as orações, abençoava o seu povo, e usava as dificuldades para fortalecer a
Igreja.
O Cristianismo contudo não ficou restrito a Jerusalém. Os que ouviram a
pregação de Pedro, no Dia de Pentecostes, procediam de todo o Império Romano. E
levaram as boas novas do Evangelho aonde quer que fossem.
LUTANDO CONTRA DEUS
Quando ainda estava em Tarso, Saulo ouvira várias histórias sobre
JESUS. Algumas eram fantasiosas, pois as histórias costumam desvirtuar-se
quando transmitidas oralmente. Muitos dos amigos da sinagoga haviam assistido
as festas em Jerusalém, e sabiam o que estava acontecendo no Templo. Na sua
volta, Saulo e os principais da sinagoga foram informados sobre o impostor de
Nazaré, e ficaram enfurecidos com a idéia de que alguém havia tido a coragem de
profanar os pátios da Casa de DEUS com um ensino tão blasfemo. Além disso, tal
homem não tinha o direito de ensinar, pois não aprendera com os rabinos.
Todavia, todos que o ouviam, confirmavam: ninguém jamais dissera palavras de
tanta sabedoria - nem mesmo os grandes rabinos.
Ficou evidente para Saulo que JESUS não podia ser o Messias por ter acusado os
doutores da Lei, opondo-se às as suas regras. Ouvira dizer também que JESUS
ensinava o povo a desobedecer aos rabinos, provocando tamanhos tumulto nas
sinagogas que todo o verdadeiro judeu acabou por considerá-lo inimigo de
Israel.
Quando chegaram as notícias de que JESUS fora preso, julgado e crucificado,
todos agradeceram a DEUS: o blasfemador enfim fora silenciado. Ficava provado,
pois, que Ele não passava de mais um falso messias, que tudo fizera para
conturbar a religião judaica. Saulo e os demais fariseus aplaudiram a
crucificação de JESUS. Não podiam perdoar aquEle que, ousadamente, os havia
chamado de víboras e hipócritas.
Saulo não se considerava hipócrita. Seu objetivo era ser um judeu melhor e
obedecer a todas as regras dos grandes rabinos. Na sua opinião, essa era a
única maneira de se agradar a DEUS. Por isso, quem se opunha à antiga ordem
merecia morrer. Foi com um grande alívio que os principais da sinagoga de Tarso
ouviram que JESUS fora finalmente tirado do caminho, e os seus ensinamentos
interrompidos de vez. Segundo diziam, a justiça divina havia sido feita.
Sua indignação, porém, chegou ao ponto de ebulição ao saberem que os seguidores
do Nazareno não haviam sido dispersos, mas reuniam-se em pequenos grupos para
adorar a JESUS, declarando ter Ele ressurgido dos mortos. Resolveram então
fazer o possível para lutar contra a perigosa seita. Notícias chegadas de
Jerusalém davam conta de que alguns fariseus haviam deixado a verdade e se
juntado aos nazarenos. Membros da seita podiam ser encontrados também pregando
abertamente nos pátios do Templo e nas sinagogas, convencendo a todos de que
JESUS era o Messias. E milhares criam neles. Isso tornara-se uma grande ameaça,
pois até alguns sacerdotes estavam abandonando a velha ordem para seguir a
JESUS. De igual modo, iam os nazarenos pelas ruas da cidade, conversando com o
povo em suas casas, persuadindo-os a juntarem-se a si.
Saulo sentia raiva ao pensar neles. Ouvira dizer que alguns de seus líderes
haviam sido apanhados e levados diante do Sinédrio por haverem falado
abertamente no Templo, e que seu velho mestre, Gamaliel, mostrara-se
complacente e até recomendara o relaxamento de sua prisão. Ele sentiu-se
irritado com Gamaliel. Como poderiam manter pura a religião de Israel se
permitissem que qualquer um alegasse ser o Messias? Não havia dúvidas de que os
seguidores de JESUS mereciam a morte. O Conselho deveria ter eliminado para
sempre tal ameaça.
A Perseguição dos Nazarenos
Com tais pensamentos em mente, Saulo decidiu deixar Tarso e voltar a
Jerusalém. Estava tão insatisfeito, que decidiu lutar pessoalmente contra a
seita dos nazarenos. Desligando-se imediatamente de Gamaliel e de sua escola,
ofereceu seus préstimos ao sumo sacerdote a fim de eliminar todos os que se
opusessem ao Judaísmo. E já perseguia a Igreja com tamanha fúria que seu nome
tornou-se o terror de todo e qualquer ajuntamento cristão. Saulo era genioso e
cruel. Com a sua eloquência, atacou os cristãos que oravam e pregavam no
Templo. Rápido em suas ações, dispersou a muitas congregações e igreja locais.
Lançou homens e mulheres na prisão, condenando-os à morte. Tão cego em sua ira
e tão pronto para esmagar os seguidores de JESUS, que se achava disposto a
extirpar de dentre o seu povo todos quantos ousassem oferecer fogo estranho ao
Senhor. Com essas idéias fervilhando-lhe na mente e com o olhar brilhante de um
fanático, decidiu acabar sumariamente com a seita dos nazarenos.
Estêvão Confunde Saulo
Um dos sete escolhidos pela igreja de Jerusalém para encarregar-se dos
pobres era Estevão, o mais capaz e ativo dos diáconos. Grandes sinais e prodígios
se realizavam através de Estêvão. Ele não nascera em Jerusalém e até recebera
um nome grego. Debatendo com os rabinos, provou ser melhor que eles. As suas
palavras eram irresistíveis e cativantes como as de JESUS. Em suas prédicas,
afirmava que a salvação era obtida por meio de JESUS, o Messias, e não pela
obediência à Lei de Moisés. Como Jerusalém possuísse várias sinagogas onde os
judeus de diferentes nações costumavam reunir-se, Estêvão ia de uma para outra,
pregando o Evangelho e discutindo com os líderes.
A sinagoga alexandrina tivera ocasião de ouvi-lo. As congregações de Cirene e
da Cilícia conheciam-lhe os argumentos e lutavam ferozmente contra ele, pois
Estêvão persuadira alguns dentre os seus membros a crerem em JESUS.
É provável que tenha sido na sinagoga da Cilícia que Saulo tenha encontrado
Estêvão pela primeira vez. Ele ouviu-o com amargo desprezo; mesmo assim, pôde
sentir quão atraentes e poderosas eram as suas palavras. O cristão achava-se
possuído de um zelo tão santo que ele jamais vira em qualquer rabino. Quando
Estêvão falou da ressurreição, Saulo teve de admitir para si mesmo que essa
esperança era a doutrina central dos fariseus. Notou também que eram os
saduceus quem mais se opunham a esta crença.
Saulo desprezava os saduceus, apiedava-se deles. Fora apenas a questão da
ressurreição, Saulo sentia que poderia ouvir com agrado a esse homem. Mas ele
falava contra o Templo e desejava mudar os velhos costumes estabelecidos pelos
rabinos. Era, portanto, necessário silenciar-lhe a voz.
O jovem fariseu confrontou-o em um debate aberto, e ficou zangado ao descobrir
que, apesar de todo o seu conhecimento, não conseguia revidar os argumentos de
Estêvão. Seu orgulho sentia-se ferido; sua única defesa agora era um ódio cada
vez maior. Achava-se, pois, decidido a se lhe opor com todas as forças. Foi
então de sinagoga em sinagoga e descobriu que os seguidores de JESUS
encontravam-se em toda parte. Saulo convenceu as pessoas de que os nazarenos
deviam ser silenciados mesmo que fosse pela espada. Pois os seus ensinos eram
contrários à Lei. E quando diziam que JESUS era o CRISTO, blasfemavam contra
DEUS. Mas percebeu que até os analfabetos da seita sabiam citar as Escrituras,
e conheciam a história judia tanto quanto ele.
Como Estêvão parecia-lhe o mais poderoso e culto dos nazarenos, decidiu
persegui-lo e expulsá-lo de Jerusalém. Quem falasse contra a Lei de Moisés, ou
dissesse que o Carpinteiro de Nazaré era o Messias, seria julgado como
blasfemo! Onde quer que fosse, Saulo não tinha medo de repetir tal advertência.
Estava cansado dos enganadores que desviavam o povo da Lei. E sendo Estêvão um
dos piores agitadores, Saulo sentia estar prestando um grande serviço a DEUS
livrando-se dele.
Quanto mais pensava nessa seita e nos progressos que ela fazia, tanto mais
agitado ficava. Sua raiva transformou-se finalmente em claro preconceito - não
podia mais discutir com aquelas pessoas baseado nas Escrituras. Seu único
desejo era exterminá-las. Por acaso não foi exatamente isto que DEUS ordenara a
Saul? (1 Sm 15).
Estêvão Diante do Sinédrio
Quando chegaram as notícias de que Estêvão fora preso e devia agora
comparecer perante o Sinédrio, Saulo sentiu que o líder fora para sempre
silenciado, e que seria apenas uma questão de tempo até que todos os cristãos
fossem apanhados.
Naquele dia, Saulo compareceu a reunião do Sinédrio. Queria estar lá quando seu
oponente chegasse ao tribunal. Ele não era o único; centenas tinham ido
assistir ao interrogatório. Os saduceus achavam-se ali sorrindo
zombeteiramente. Aquele era o dia tão esperado. Os fariseus também
compareceram, juntamente com os sacerdotes, escribas e uma grande multidão que
ouvira Estêvão e admirara-se da sua coragem. Saulo tomou seu lugar, e sorriu
enquanto esperava.
Aquele era o mesmo Conselho que condenara JESUS. Anás e Caifás, ambos jubilados
do sumo sacerdócio, achavam-se presentes. Jônatas, o atual pontífice, era o
presidente do Conselho. Também entre eles encontrava-se Gamaliel. o sábio e
bondoso fariseu. Todos estavam cansados dessas interferências.
Desde a reunião em que JESUS fora condenado, os membros do Sinédrio haviam tido
problemas com Pedro e João. Não bastasse, a cada dia apareciam outros; a nova
seita mostrava- se incansável em sua blasfema propagação. Embora houvessem
recebido repetidas ordens para que se mantivessem silenciosos em relação a
JESUS, sempre desobedeciam. Aliás, os nazarenos haviam se tornado de tal forma
atrevidos, que chegaram ao cúmulo de acusar o Conselho de haver matado o
Messias.
Agora chegara a vez de Estêvão, o mais ousado de todos.
Quando Estêvão entrou no tribunal, todos os olhares voltaram-se à sua direção.
Algumas cabeças curvaram-se de medo, pois o seu rosto era calmo e sereno como a
face de um anjo. Chamadas as testemunhas, confirmaram terem-no ouvido falar
contra o Templo e os anciãos. Além disso, ensinava a todos que JESUS era o
Messias. Quando deram-lhe a oportunidade de responder às acusações, voltou-se à
multidão silenciosa, procurando um rosto amigo. Não encontrando ninguém,
entregou-se à misericórdia do Senhor. E, mostrando uma radiância celeste em sua
fisionomia, pôs-se a falar.
Começando com Abraão, Estêvão referiu-se à história judaica para mostrar que os
homens podiam adorar a DEUS em outros lugares além do Templo. Ele traçou os
caminhos de DEUS com o seu povo desde Abraão até Moisés, e provou que este
profetizara sobre o CRISTO: "O Senhor, vosso DEUS, vos levantará dentre
vossos irmãos um profeta como eu"(At 7.37).
Contou como Moisés recebera a planta do Tabernáculo e como Salomão construíra o
SANTO Templo. Em seguida, citou o profeta Isaías a fim de provar que o
Altíssimo não habita em templos feitos por mãos humanas: "O céu é o meu
trono, e a terra, o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis, diz o
Senhor, ou qual é o lugar do meu repouso? Porventura, não foi, a minha mão que
fez todas estas coisas?" (Is 7.49,50).
Enquanto prosseguia, os ouvintes encaravam-no com ódio sombrio. No final,
chegando ao ponto alto de seu discurso, declarou corajosamente ao Sinédrio o
que vinha dizendo ao povo em cada sinagoga:
Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvido, vós sempre
resistis ao ESPÍRITO SANTO; assim, vós sois como vossos pais. A qual dos
profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que anteriormente
anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora fostes traidores e homicidas;
vós que recebestes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes (7.51-53).
Houve um espoucar de vozes no salão, pois as palavras de Estevão queimavam como
fogo e cortavam como afiadas lâminas. Acusações insultuosas! Desafiadoras! De
repente, ele se cala. No terrível silêncio que se segue, sua fronte ergue-se
para o céu e um sorriso emoldura-lhe a face como se houvera tido uma visão do
alto. E Estêvão declara: "Eis que vejo os céus abertos e o Filho do homem,
que está em pé à mão direita de DEUS" (7.56).
Não lhe foi permitido dizer mais nada. Alguns fariseus taparam os ouvidos para
não ouvir outras blasfêmias. Outros tentaram agarrar o prisioneiro. Estêvão,
então, foi rapidamente levado para fora do tribunal antes que a multidão o
linchasse. Nunca tinham ouvido palavras tão atrevidas e cortantes!
O Apedrejamento de Estêvão
Depois de o prisioneiro ter sido arrastado para fora, o veredicto foi
rapidamente concluído. Na opinião de todos, ele era culpado de morte. A Lei de
Moisés deixava isso bem claro: Aquele que blasfemar o nome do Senhor,
certamente morrerá; toda a congregação o apedrejará; assim o estrangeiro como o
natural, blasfemando o nome do Senhor, será morto (Lv 24.16).
Saulo ficou mui comovido com o julgamento, pois acompanhara cada palavra de
Estêvão. Gloriou-se na história de seu povo e impressionou-se pela forma como
Estêvão a contara. Jamais conhecera alguém com tamanho conhecimento da
Escritura. Pensou ainda nos rabinos e nas suas disputas. Como pareciam
mesquinhos! Considerou sua própria opinião sobre o Messias e o que Gamaliel lhe
ensinara. Enfim, compreendeu que os fariseus, embora cressem na ressurreição,
nunca haviam podido demonstrá-la. Mas ali estava uma demonstração plausível -
se ao menos fosse verdade! E como o rosto de Estêvão irradiava êxtase! Era como
se estivera vivendo num outro mundo. E as suas palavras finais? E se ele
tivesse realmente visto JESUS à mão direita de DEUS?
Não, isso era coisa de fanático. Estevão era um impostor. Aquelas últimas
palavras sobre a hipocrisia dos rabinos eram imperdoáveis. O homem era um
inimigo da Lei Divina. Morte aos inimigos de DEUS! Que seja apedrejado! Saulo
ficou tão convencido de que o julgamento fora justo que estava pronto a ajudar
na execução da sentença. As palavras insultuosas de Estêvão ainda soavam-lhe
aos ouvidos.
Cercado pelos guardas do Templo, Estêvão foi arrastado pelas ruas da cidade até
um lugar perto dos muros. De repente, o grito: "Morte ao blasfemo! Morte
ao nazareno!" A Lei de Moisés ordenava que a primeira pedra fosse atirada
pelas testemunhas que, despindo-se de seus mantos, empilharam-nos aos pés de
Saulo. A incumbência deste era cuidar para que as roupas não fossem roubadas.
Estêvão ajoelhou-se e, ignorando a multidão, orou: "Senhor JESUS, recebe o
meu espírito!" (At 7.59). As pedras foram atiradas, fazendo-o sangrar
mortalmente. Mas antes que sua alma deixasse a morada terrena, partindo para as
mansões celestes, clamou em alta voz: "Senhor, não lhes imputes este
pecado" (At 7.60). Estava tudo acabado. Sua alma já se encontrava com
JESUS.
A Difusão do Cristianismo
Saulo deixa a cena em silêncio. Testemunhara algo que jamais houvera visto.
Não podia negar que ficara grandemente abalado. Ouvira a oração de Estêvão.
Quem jamais orara por seus algozes? O ódio de Saulo era amenizado por um
estranho sentimento de piedade. Mas isso durou apenas alguns segundos. Ele não
permitiria que suas emoções o empolgassem. Estêvão merecia morrer! Sua execução
desanimaria outros, e quem sabe, acabasse de vez com a seita dos nazarenos.
Todavia, os eventos daquele dia ficariam para sempre em sua memória.
Depois da morte de Estêvão, Saulo passou a comandar a perseguição à Igreja. Ele
percebeu que a sua morte não tinha afetado os cristãos. Pelo contrário:
tornara-os mais audaciosos e fortes. Depois de consultar o Sinédrio e os
principais sacerdotes, concluiu que a melhor maneira de acabar com a ameaça ao
Judaísmo seria visitar cada sinagoga, descobrir quem se inclinava a crer em
JESUS e levar os infratores a julgamento.
Tendo em vista seus precedentes, Saulo cumpriu zelosamente a nova missão. Em
breve, tornou-se conhecido em toda a Judéia como o mais feroz inimigo de
CRISTO. Ele caçava os cristãos, atirando-os nas celas e ordenando-lhes a
execução. Sua indignação ardia como fogo, e seu grito soava amedrontador:
"Repudie a fé em JESUS ou morra!"
A perseguição tornou-se tão severa que os cristãos viram-se forçados a deixar
seus domicílios. Os de Jerusalém espalharam-se por toda a Judéia e Samaria.
Isso contudo não teve o efeito que Saulo e o Sinédrio desejavam, pois onde quer
que os discípulos fossem, contavam a história de CRISTO. Em vez de uma grande
Igreja em Jerusalém, muitos pequenos grupos de crentes passaram a reunir-se
secretamente nas casas. Os esforços de Saulo só fizeram com que o fogo se
espalhasse e se tornasse inextinguível.
Infelizmente, alguns preferiam abandonar a Igreja a enfrentar a perseguição e
as privações decorrentes desta. Outros foram compelidos a blasfemar o nome de
JESUS.
Muitos seguiram para o norte, em direção a Samaria, onde Paulo não tinha
qualquer jurisdição. Entre estes encontrava-se Filipe, um dos sete diáconos da
igreja de Jerusalém. Colaborador de Estêvão, teve de fugir para salvar a vida.
O povo de Samaria recebeu-o alegremente, pois lembrava-se de JESUS e de seu
ministério entre eles.
Samaria ficava ao norte de Jerusalém. Era habitada por um povo mestiço, parte
dele oriental e a outra parte de origem hebreia. As dez tribos de Israel
habitaram ali, mas os assírios levaram-nas para o cativeiro, deixando apenas um
remanescente na terra. Milhares de estrangeiros contraíram casamentos mistos
com aqueles judeus, resultando numa raça mestiça. Por isso, todo judeu de
sangue puro olhava para os samaritanos com desprezo. Filipe, contudo, pregou a
CRISTO livremente em Samaria, e DEUS abençoou o seu testemunho. Muitos foram os
que se fizeram seguidores do Senhor, porque viam e ouviam os sinais que Filipe
fazia.
Quando os apóstolos ouviram falar que uma grande obra estava sendo realizada em
Samaria, enviaram para lá Pedro e João para ver se era ou não autêntica. Pois
ainda não estavam convencidos de que alguém pudesse ser um verdadeiro cristão
sem primeiro ser judeu. Mas foi justamente ali, naquela terra odiada, que os
apóstolos descobriram que o ESPÍRITO SANTO também estava sendo derramado sobre
os samaritanos, quando lhes impuseram a mãos. Antes de partirem, Pedro e João
pregaram nas aldeias. E assim a igreja em Samaria cresceu sem que fosse
incomodada pela perseguição.
Início da Convicção de Saulo
Saulo enfrentava uma nova dificuldade. Embora houvesse dispersado os
nazarenos de Jerusalém, recebeu diversos relatórios de que estes continuavam
espalhando seus ensinamentos. A Igreja, em vez de diminuir, crescia mais e
mais. Ele então começou a se perguntar se todo o seu trabalho estava ou não
baldado ao fracasso. Será que o seu velho professor Gamaliel tinha razão ao
dizer que, se a seita dos nazarenos fosse de DEUS, nem o Sinédrio nem um
poderoso exército iria detê-la?
Seria realmente uma obra divina? Estaria Saulo lutando contra DEUS? É certo que
fora derrotado na discussão com os nazarenos, pois estes conheciam as
Escrituras e fizeram-no calar-se na sinagoga. Estêvão certamente vencera os
perseguidores, pois na hora de sua execução, um estranho poder o possuíra,
impressionando profundamente a Saulo. E os cristãos que seguiam para a morte
com uma expressão de vitória estampada no rosto? Até aquele ponto Gamaliel
acertara: A perseguição só ajudara a propagar o novo ensinamento.
As cenas se sucediam na mente de Saulo. Ele pensou em sua educação farisaica e
em todas as regras que aprendera. Acreditava que, seguindo-as, receberia a vida
eterna. Mas agora tinha de admitir: sua vida era vazia. Quanto aos ensinamentos
rabínicos, não seriam suficientes sem a esperança do Messias. Neste ponto,
Saulo surpreendeu-se pensando no Messias; desejava que Ele viesse logo.
Tinha certeza de que os nazarenos pregavam um falso messias. Todavia, tinha a
sensação de que o grande e misterioso poder que nEle se achava viera sobre
homens como Estêvão.
Saulo perguntou a si mesmo porque tais homens, a quem condenara à morte,
estavam dispostos a morrer pela nova religião. Ele sempre acreditara que as
pessoas defendiam coisas falsas enquanto lucrassem com isso; mas, quando a
espada era posta em suas gargantas, desistiam imediatamente. Mas por que os
seguidores de JESUS agarravam-se à sua fé como se esta lhes fosse mais preciosa
que a própria vida?
O PONTO CRÍTICO
Embora estivesse colecionando lembranças amargas, Saulo decidira
continuar a luta. Irritado com a propagação da Igreja, prepara uma expedição a
Damasco, onde, segundo ouvira falar, vários nazarenos haviam se refugiado por
causa da perseguição desencadeada em Jerusalém. Além disso, pregavam ativamente
a CRISTO nas várias sinagogas. Saulo achava que poderia abater definitivamente
os seguidores de JESUS se os expulsasse dessa fortaleza. Acompanhado por uma
tropa de guardas do Templo, saiu de Jerusalém pela Porta de Damasco respirando
ameaças e mortes. A distância até Damasco era de aproximadamente 240
quilômetros. Apesar de a estrada ser ladeada por uma das paisagens mais belas
do mundo, o propósito de Saulo não era apreciar o cenário; era acabar com a
Igreja de CRISTO.
A região achava-se repleta de lembranças históricas. Dois mil anos antes,
Elieser, o damasceno, tornara-se servo de Abraão e viajara por aquela mesma
estrada. Naamã passara por aquele caminho quando fora ter com Eliseu. Mas Saulo
não queria pensar nessas coisas, pois estava dominado pelo ódio. Planejara
caçar os cristãos e levá-los acorrentados a Jerusalém para que fossem julgados
e condenados pelo Sinédrio. Na túnica, trazia uma carta selada do sumo
sacerdote aos rabinos de Damasco, ordenando que se lhe desse toda a
assistência, pois era o representante legal das autoridades judaicas.
O sol ardia quando eles chegaram às proximidades da velha cidade. À sua frente,
estendia-se um vale bem irrigado e protegido por densas florestas com árvores
de todo tipo. Lá estavam a palmeira com suas delicadas folhas e o álamo. Os
vinhedos, nas encostas, eram os mais ricos de toda a Síria. Os viajantes
geralmente abrigavam-se sob essas árvores quando o sol se encontrava no auge de
sua força. Em sua impaciência, porém, Saulo não quis descansar.
Na sinagoga, todos já tinham sido avisados de sua chegada. Quanto aos
nazarenos, ainda se lembravam da confusão que ele criara em Jerusalém, por isso
tremiam com a idéia de enfrentar novamente a perseguição. Isso significava que
famílias seriam separadas e reduzidas à pobreza, ou até mortas. Haviam porém
decidido manter-se fiéis a CRISTO não importando as conseqüências.
O meio-dia encontrou Saulo na periferia da cidade, apressando-se em direção a
ela. As estradas estavam desertas àquela hora. Até mesmo o gado havia procurado
a sombra dos arvoredos e aí se acomodara até que passasse o calor. Apesar de
toda aquela calmaria, Saulo não parara a fim de descansar. Os guardas do Templo
que o acompanhavam, embora surpresos, não ousavam fazer-lhe qualquer
observação.
O pequeno grupo aproximou-se do alto de um monte de onde se podia ver os
prédios rebrilhando ao sol. Segundo o poeta, Damasco era "um punhado de
pérolas numa taça de esmeralda".
A Aparição de CRISTO
Ao descerem o monte, um raio de luz, mais brilhante que o sol em todo o seu
esplendor, veio subitamente sobre o pequeno grupo. Sua radiância era tanta que
o sol pareceu enfraquecer. Eles ficaram ofuscados com o brilho e caíram por
terra; alguns, de bruços para protegerem-se da luz, e outros com as mãos
cobrindo os olhos, temendo aqueles raios.
Admirados, entreolharam-se como que pedindo uma explicação do que houvera. Foi
então que viram o seu chefe caído por terra, enquanto o animal, em que montara,
mantinha-se perto dele amedrontado. Saulo falava com alguém, mas eles não viam
o seu interlocutor. Embora parecesse uma voz, não lhe compreendiam as palavras.
Agora os lábios de Saulo se moviam; tinha ele as mãos estendidas à sua frente
como se estivesse cego. Saulo tremia da cabeça aos pés.
Deitado no chão, sem nada ver, Saulo ouviu uma voz que lhe falava: "Saulo,
Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os
aguilhões" (At 26.14).
Perturbado com todos os pensamentos que o tinham perseguido desde a morte de
Estêvão, temeroso, ousou perguntar: "Quem és tu, Senhor?" (At 26.15).
"Eu sou JESUS, a quem tu persegues" (At 26.15).
Na linguagem do amor, superior a tudo que já conhecera, ele ouve mui
claramente: "Eu sou JESUS". Seria este o JESUS que morrera? De
repente, brota-lhe na alma a terrível compreensão de que estava errado. De
fato, toda a sua vida fora um erro.
O torvelinho que sentira, as perguntas que iam surgindo, a crescente convicção
de que estivera lutando contra DEUS - todos esses pensamentos pairavam diante
de si com súbita clareza e, de tal forma, que não podia mais suportá-los.
Todo o orgulho de sua origem farisaica, toda a dignidade do cargo e toda a
arrogância advinda de sua reputação como o principal perseguidor do
Cristianismo desmoronaram enquanto se achava ali, indefeso na estrada. Sua
visão física lhe fora tirada para que a sua alma pudesse enxergar. Ele estava
pensando nas palavras: "Por que me persegues? Dura coisa te é
recalcitrares contra os aguilhões".
Tais palavras eram próprias da vida campestre. Saulo vira muitas vezes o boi
escoiceando o aguilhão, oferecendo inútil resistência. Em vez de obedecer a
quem o dirigia e submeter-se a ele, o boi teimava e dava patadas nas varas que
o dono usava para estimulá-lo. Era uma descrição mui apropriada da vida de
Saulo. Ele estivera fazendo isso há meses, e como lhe fora difícil! Saíra para
caçar os seguidores de JESUS; mas, em vez disso, descobriu que estava sendo
caçado por JESUS, a quem perseguia.
Essa foi a grande crise da vida de Saulo. Ele encontrou-se face a face com o
Messias, e viu-se forçado a reconhecer que estava errado, e os nazarenos,
certos: JESUS era o CRISTO.
Naquele momento, toda a sua luta cessou. Uma grande revolução, maior do que
qualquer outra que já conhecera, teve lugar em seu íntimo. Estava quebrantado e
abatido nas mãos daquEle que julgara ser seu inimigo. A rendição foi completa.
Sua alma estava finalmente em paz.
A voz do céu era clara: "Levanta-te e entra na cidade, e lá te será dito o
que te convém fazer" (At 9.6).
A Transformação
Tudo acabara em poucos instantes, mas foi a maior experiência de Saulo.
Nela, pensaria até o dia da sua morte. Naquele momento, JESUS o dominara,
mudando-lhe por completo a vida. Nenhuma dúvida nem interrogação ser-lhe-iam
possíveis a partir daquele instante. Pois não tivera uma simples visão de
JESUS; fora, de fato, uma aparição do CRISTO, não mais com a glória velada,
como nos dias de seu ministério terreno, mas com tamanha plenitude de glória
que o homem não podia suportar-lhe o brilho.
Saulo falaria disso mais tarde como a última das aparições de JESUS aos seus
seguidores após a ressurreição (1 Co 15.8). Moisés teve a mesma experiência no
Monte Sinai, quando a visão da glória do Senhor aparecera-lhe como um fogo
devorador. Foi isso que Isaías viu quando o Senhor o chamou para o ministério.
Essa foi também a experiência de Pedro, Tiago e João no monte da
Transfiguração. Foi o que João viu em Patmos e depois de tê-lo visto, "caí
a seus pés como morto" (Ap 1.17). E para o rabino de Tarso, era concedida
uma entrevista com o CRISTO ressurreto.
Posteriormente, alguns vieram a duvidar de seu apostolado, alegando que ele
jamais vira o Senhor. Mas a todos os seus inimigos, podia responder que
recebera a sua comissão diretamente de JESUS que lhe dissera:
Te apareci por isso, para te pôr por ministro e testemunha tanto das coisas que
tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda; livrando-te deste
povo e dos gentios, a quem agora te envio, para lhes abrires os olhos e das
trevas os converteres à luz e do poder de Satanás a DEUS, a fim de que recebam
a remissão dos pecados e sorte entre os santificados pela fé em mim (At
26.16-18).
Quando seus companheiros, já recuperados dos efeitos da visão, foram ajudá-lo a
pôr-se em pé, descobriram que ele estava cego, por isso tiveram de conduzi-lo
pela mão à cidade. Que mudança nele se operou! Tinha sido um orgulhoso fariseu,
cavalgando com pompa e autoridade, cheio de indignação e soberba. Mas, num
momento, foi transformado num servo trêmulo, que tateava, humilde e quebrantado,
agarrando-se à mão de um soldado que o guiou ao seu destino. Ao chegar a
Damasco, entrou num quarto da casa de Judas, na rua chamada Direita, e pediu
que o deixassem a sós. Queria tempo para pensar.
Já afastado do mundo por causa de sua cegueira, podia finalmente ordenar seus
pensamentos. Sentou-se no escuro, imaginando como DEUS poderia usar um cego em
sua obra.
Saulo não comeu nem bebeu durante três dias. Estava por demais absorvido em
seus pensamentos. Todo o passado descortinava-se diante de si. Pensou no zelo
do pai ao educá-lo como fariseu. Lembrou-se do rigor da escola em Tarso e de
como as palavras dos rabinos haviam lhe marcado a vida. Recordou-se do Templo e
de todas as suas belas e agradáveis cenas. Como poderia esquecer-se das
multidões dos adoradores entregando os sacrifícios aos sacerdotes.
Agora, porém, nada disso lhe tinha importância. O Messias aparecera e fora
crucificado exatamente pelas pessoas a quem viera abençoar. Toda a vida de
Saulo parecia estar desmoronando. Podia ver agora que estivera lutando contra
DEUS. Cego por seu farisaísmo, ele havia perseguido o Messias. Todavia, ei-lo
quebrantado aos pés do Salvador. Toda a sua vida mudara por meio da força dessa
colisão com o CRISTO. Estêvão tinha razão: tanto ele (Saulo) como o Sinédrio
haviam cometido um gravíssimo erro. Os anos estéreis, porém, terminaram; o
futuro devia ser ocupado na proclamação dessas grandes descobertas.
Quando prendia os nazarenos, Saulo o fazia com espírito de vingança e ira. Era
o inimigo mortal deles. Mas quando JESUS de Nazaré o prendeu, não havia
vingança nem ira. Se em seu poder, DEUS o derrubou por terra, em seu amor o
levantou e dele tomou posse. Saulo começa a compreender como Estêvão pôde orar
pelos inimigos mesmo quando as pedras o atingiam mortalmente. Em CRISTO,
encontrou uma paz até então desconhecida para ele, o implacável fariseu.
Enquanto Saulo, jejuando no escuro, pensava e orava a respeito das estranhas
experiências que tivera, tem uma visão em que um discípulo, chamado Ananias,
vinha vê-lo a fim de lhe restaurar a visão.
As Visões de Saulo e Ananias
Nessa mesma ocasião, o Senhor preparava Ananias para que visitasse Saulo.
Ananias fora, certa vez, destacado, em sua sinagoga, como um homem piedoso e
que obedecia à Lei de Moisés com o rigor de um fariseu.
Mas desde que se tornara cristão, os judeus passaram a suspeitar dele. Alguns
diziam que Saulo tinha ido a Damasco especialmente para prender Ananias, pois
os nazarenos haviam-no reconhecido como seu líder. Mas numa visão, o Senhor
ordenou a Ananias: "Levanta-te, e vai à rua chamada Direita, e pergunta em
casa de Judas, por um homem de Tarso chamado Saulo; pois eis que ele está
orando, e numa visão ele viu que entrava um homem chamado Ananias, e punha
sobre ele a mão, para que tornasse a ver" (At 9.11,12).
Ananias imediatamente protestou. Afinal, os nazarenos de Damasco tinham medo de
Saulo por causa das notícias que chegavam de Jerusalém. Além disso, haviam sido
informados que ele estava na cidade a fim de que, como representante do sumo
sacerdote, procedesse a prisão dos discípulos de JESUS e os conduzisse a
Jerusalém. Os cristãos não haviam orado para que DEUS os livrasse? Quando
chegaram as notícias de que Saulo ficara cego, agradeceram a DEUS. Era a
resposta à sua oração.
Mas, agora, ordenava o Senhor: "Vai, porque esse é para mim um vaso
escolhido para levar o meu nome diante dos gentios e dos reis, dos filhos de
Israel" (At 9.15).
Sem mais duvidar, Ananias dirigiu-se à casa de Judas, e perguntou por Saulo, o
rabino de Jerusalém. Levado a um quarto nos fundos, deparou-se com o jovem e
terrível fariseu sentado, completamente cego e abalado pelo conflito que se
desenrolava em sua alma. Saulo já não sentia qualquer amargura, pois havia
atravessado águas profundas naqueles três dias; passara por uma sondagem como
nunca pensara ser possível.
Ananias atravessou o quarto, aproximou-se de Saulo e, impondo a mão sobre a sua
cabeça, disse-lhe em voz baixa: "Irmão Saulo, o Senhor JESUS que te
apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e sejas
cheio do ESPÍRITO SANTO" (9.17).
Um nazareno o chamara de "irmão"! E pensar que ele, Saulo, viera
justamente prender um homem como esse que, agora, estendia-lhe a destra da
comunhão! Dissipadas as trevas, Saulo vê o homem que o procurara como
mensageiro de DEUS.
Ele acabara de receber a confirmação do que tinha ouvido na estrada de Damasco.
Como não render-se ao CRISTO? Por um momento, Saulo duvida: como ser perdoado
pela perseguição e pelos problemas que criara à Igreja. Mas a voz de Ananias
lhe dá plena segurança quanto ao amor e benignidade de DEUS.
Saulo sabia que o batismo era o sinal nazareno do arrependimento. Era uma forma
de mostrar publicamente que havia mudado, invocando o nome daquEle a quem antes
odiara, porém agora, além deste batismo nas águas, recebe o batismo no ESPÍRITO
SANTO, fato totalmente desconhecido para ele (cheio do ESPÍRITO SANTO).
Saulo estava pronto. Encontrava-se nas mãos de DEUS e já não havia dúvida em
seu coração. Ajoelhou-se com Ananias, e orou ao Senhor como se fora uma
criança, confessando-lhe os pecados, pedindo-lhe que o perdoasse em nome de
JESUS e invocando-lhe o nome de seu Filho, fez como o faziam os nazarenos. A
seguir, Ananias o batizou, marcando definitivamente a sua entrada na nova vida.
Vivendo para CRISTO
Saulo saíra das trevas para a luz. Morrera para a velha vida, sob a Lei, e
fora cheio do ESPÍRITO. Desejava, agora, provar o seu arrependimento através de
uma vida de serviço a CRISTO. Essa perspectiva dava-lhe grande alegria. Depois
de ter-se alimentado, levantou-se com um zelo tão intenso por CRISTO que
excedia de muito sua antiga dedicação ao Judaísmo.
Ananias voltou para anunciar aos cristãos de Damasco que o perigo passara.
Saulo não só havia desistido de persegui-los, como também fora batizado, invocando
o nome de CRISTO. Era agora um nazareno. Eles receberam-no, pois, com grande
alegria; acolheram-no como a um irmão.
Os cristãos de Damasco fortaleciam a Saulo diariamente com a cordialidade de
sua comunhão, e doutrinavam-no acerca de JESUS. Ele se mostrava mais que
atento. Os irmãos falaram-lhe do Salvador, de sua vida e de sua obra. Ficaram
surpresos ao ver o conhecimento que ele tinha das Escrituras e como constatava
rapidamente, agora, que todas elas apontavam para JESUS. Sua erudição deixou-os
admirados. Ele parecia encontrar argumentos fortes e favoráveis a CRISTO que
antes lhe haviam escapado. Seus corações encheram-se de alegria ao compreender
que ele também viria a ser um grande mestre das doutrinas enunciadas pelo
Senhor JESUS.
Durante o curto período em que permaneceu em Damasco - somente alguns dias -
Saulo cresceu espiritualmente e já ansiava por testemunhar da grandiosa
experiência que tivera na estrada de Damasco. Junto com Ananias e outros
nazarenos, visitou a sinagoga e pregou a CRISTO. Ele era hábil em rebater todos
os argumentos dos fariseus. Como tivesse o dom da oratória, causou grande
impressão sobre o povo. Embora não pudesse dizer muito a respeito dos
ensinamentos de JESUS, sabia apelar para a Lei, os Profetas e os Salmos. Ele
sentia-se mui à vontade nesses tópicos.
A primeira vez que Saulo visitou a sinagoga, que se achava repleta, foi um
grande dia para os nazarenos. Ali estava um jovem, destemido e forte, que
tivera o privilégio de ser educado na escola de Gamaliel. A maioria dos judeus
sabia de seu ódio a CRISTO, e alguns que suspeitavam dos nazarenos, achavam que
a sua missão em Damasco era necessária.
Inicialmente, Saulo contou-lhes a história de sua ida a Damasco e do incidente
na estrada: como encontrara a JESUS de Nazaré e O contemplara com os
próprios olhos, aquEle a quem vinha perseguindo, e como, desde então, toda a
sua vida se transformara. Ele cria agora que JESUS era o CRISTO. Com sua
habilidade de rabino, citou passagem após passagem do Antigo Testamento para
provar a messianidade de JESUS. Ao terminar o discurso, confessou publicamente
o seu pecado em perseguir os seguidores de JESUS, e descreveu a nova vida que
nele havia por meio da habitação interior do ESPÍRITO SANTO.
Ninguém podia acreditar no que estava ouvindo: "Não é este o que em
Jerusalém perseguia os que invocavam esse nome, e para isso veio aqui, para os
levar presos aos principais sacerdotes?" (At 9.21).
Ao verem-no abjurar as antigas crenças, ficaram indignados. O primeiro discurso
de Saulo como nazareno foi respondido pelos rabinos da sinagoga, que o tacharam
de falso mestre e traidor da nação. Negaram o uso que o novo discípulo de
CRISTO fazia das Escrituras, discutindo acaloradamente com ele sobre o correto
significado destas. Mas não puderam refutar-lhe os argumentos, nem a sua
experiência na estrada de Damasco. Quando a congregação retirou-se, todos
estavam comovidos com o que ouviram. Alguns creram, mas a maioria achava que
Saulo merecia ser expulso da sinagoga e açoitado publicamente. O inimigo declarado
e preconceituoso de CRISTO mudara rápida e drasticamente, transformando-se num
cristão inabalável, com a determinação de entregar sua vida ao serviço do
Senhor. Ao cair diante de sua glória, tornara-se de JESUS um servo para todo o
sempre. Saulo vira-o ressurreto, e tinha plena certeza disso. E, sobre esta
certeza, construiu todas as suas esperanças na eternidade. Foi ainda esta
certeza que o levou a pregá-lo com toda a autoridade (1 Co 9.1).
O EVANGELHO DE SAULO
Quando alguém se converte a CRISTO de modo tão inesperado e radical
quanto Saulo, passa a sentir de imediato um forte desejo de partilhar sua
experiência com todos. Diante de um testemunho como o seu não há como disfarçar
as emoções. A experiência de um homem que viu a glória divina nos aquece o
coração.
Saído de um ambiente tão rígido como o do farisaísmo, o choque que Saulo
recebeu foi enorme. Seu modo de pensar modificara-se tão rapidamente, que ele
precisava de tempo para descansar e refletir. Queria repensar o passado,
observar lógica e tranquilamente o futuro, e preparar-se para a grande obra a
que DEUS o chamara. O Senhor não dissera que ele devia levar o nome de CRISTO
diante dos gentios, dos reis e dos filhos de Israel?
Saulo era um pensador profundo. Não tomava nenhuma atitude sem antes raciocinar
e pesar as consequências. Algumas pessoas a tudo analisam; outras, não se
preocupam com nada. A mente de Saulo era analítica; teve necessidade de
refletir para ajustar-se aos fatos que lhe abalaram a estrutura existencial.
Ao despedir-se dos cristãos de Damasco, isolou-se na Arábia a fim de
concentrar-se nesta nova etapa de sua vida.
Na Epístola aos Gálatas, Saulo revela que, depois de sua conversão, não se
dirigiu aos apóstolos em Jerusalém, ou para quaisquer outros, a fim de se
inteirar do Evangelho que mais tarde pregaria. O Evangelho foi-lhe revelado
diretamente por DEUS. Em várias ocasiões, apóstolo o enfatizou: "Porque eu
recebi do Senhor o que também vos ensinei" (1 Co 11.23).
Na Arábia
No deserto, longe do burburinho da vida urbana, com as rochas e areias
ardentes durante o dia, e as estrelas silentes à noite, despojou-se Saulo das
amarras de uma vida inteira, libertando-se da Lei e da tradição judaicas. Na
quietude da Arábia, andou com DEUS. Aqui, o Senhor revelou a Saulo as grandes
verdades que viriam a ser as âncoras de sua pregação. Foi aqui também que
reestudou as Escrituras, e meditou sobre as grandes doutrinas que iria em breve
ensinar em todas as igrejas. Aprendeu o valor da comunhão com DEUS,
tornando-se-lhe sensível à vontade.
Foi no deserto que Moisés veio a encontrar DEUS. Naquele mesmo Monte na Arábia
onde Paulo agora estava a ter um encontro pessoal com JESUS (Monte Horebe). E
foi num momento de desespero, que Elias procurou a quietude do deserto. No
deserto, o maná alimentou o povo de DEUS por quarenta anos. Que lugar seria
mais propício para Saulo reencontrar-se com o Senhor? Onde poderia ser
alimentado diariamente pelo pão do céu senão aqui?
É impossível saber os detalhes daqueles dias de consagração. Mas de uma coisa
não temos dúvida: Saulo deixou o deserto plenamente convicto e preparado para
apresentar as razões de sua fé. Ele sabia que, no exato momento em que abrisse
os lábios na sinagoga, os fariseus opor-se-lhe-iam amargamente, tachando-o de
hipócrita, traidor. Por isso, deveria estar preparado a fim de apresentar tanto
a sua defesa quanto a de JESUS com toda a sua força e poder.
Na defesa da fé, seria imprescindível que tivesse idéias muito claras acerca da
salvação oferecida por CRISTO. Falar de uma experiência é simples, mas debater
com os filósofos e defensores de outras religiões exige um conhecimento bem
definido e pontos de vista sólidos. Além de justificar a morte de CRISTO
conforme predita nas Escrituras, Saulo teria de explicar porque isso foi
necessário e por que DEUS o exigiu.
Ao pensar no propósito da vida e na felicidade de que ora desfrutava, Saulo
concluiu: o que aprendera na escola rabínica era de fato uma poderosa verdade.
O supremo propósito do ser humano é receber o favor divino. Mas a única maneira
de se obter tal favor é submeter-se à justiça de DEUS. Somente Ele pode
conceder-nos a paz.
Entendendo o Dom da Justiça de DEUS
A história do homem sempre foi o relato do desvio da justiça divina e do
deliberado afastamento de DEUS. Muitos são os que, embora se julguem justos e
condenem os outros, jamais sentiram comunhão com DEUS. Outros, como os judeus,
dependem de sua obediência à Lei para obter o favor divino. Saulo viveu desse
modo até encontrar a JESUS. Mas agora, podia ver quão vazia era a vida dos
judeus: por não haverem recebido a JESUS, achavam-se na mesma condição dos
gentios.
Os gentios falharam em sua busca pela justiça. Não porque DEUS haja se ocultado
deles, pois Ele lhes dera suficiente conhecimento para que viessem a ser
conduzidos pela justiça. Eles, porém, não quiseram seguir a luz; tentaram
extingui-la. E já que não alcançaram o favor de DEUS, fizeram-se filhos da ira.
Quanto aos judeus, gabavam-se de suas muitas vantagens sobre o resto do mundo.
Embora possuíssem a Lei e os Profetas, não tiraram proveito deles.
O que importa diante de DEUS não é saber o que é certo, mas praticar o que é
justo. Antes, Saulo acreditava que guardar a Lei era a única maneira de se
agradar a DEUS. Isso, porém, jamais lhe havia proporcionado satisfação
espiritual. Por outro lado, estava ciente de que, como depositário da Lei de
DEUS, tinha mais responsabilidades espirituais do que os gentios. Agora,
contudo, já não podia ignorar: tanto os judeus como os gentios, haviam falhado
na busca da justiça divina; encontravam-se ambos expostos à ira de DEUS.
Nem os judeus nem os gentios eram bons, por haverem ambos herdado a natureza
pecaminosa de Adão. Tal natureza torna a pessoa fraca demais para ser justa. A
Lei, por descrever claramente o pecado, teria sido um precioso guia para
conduzir-nos à vida santa. Mas como curar uma natureza tão enferma? Aquilo que
queremos fazer, não o fazemos; e aquilo que não queremos, isso o fazemos. DEUS
outorgou a Lei com o propósito de mostrar-nos qual o padrão de sua justiça.
Todos esses pensamentos formavam-se na mente de Saulo à medida que o Senhor lhe
transmitia gradualmente a mensagem que deveria ensinar em todas as igrejas. Seu
dia mais ditoso foi aquele em que DEUS ofereceu-lhe um plano de salvação que
não dependia de se guardar a Lei. Foi aí que compreendeu que jamais alcançaria
a justiça divina por seu próprio esforço.
Com o passar dos dias, Saulo começou a entender mais claramente todo o quadro
da salvação oferecida por DEUS. E essa revelação, obtida na Arábia, foi
mencionada repetidamente por ele como "o meu evangelho". Saulo não a
obteve mediante estudo ou leitura, nem a recebera de homem algum. Foi
diretamente e pessoalmente por intermédio de JESUS que chegou ao conhecimento
de tais fatos.
O Verdadeiro Significado da igreja
O retrato completo da Igreja apareceu mais vividamente a Saulo, durante sua
estada no deserto. Ele foi o primeiro apóstolo a compreender que a Igreja não
era uma seita judaica, mas uma irmandade universal que se estendia a todas as
raças e nações. Tempos depois, travaria muitas batalhas com os que não estavam
dispostos a admitir os gentios na Igreja.
Saulo considerava a Igreja um edifício, cujas pedras todas achavam-se bem
ajustadas, tendo a CRISTO como a pedra angular. A seguir, viu-a como um corpo
bem coordenado. E os membros todos desse corpo - braços, pernas, pés, dedos,
olhos e ouvidos - eram os cristãos em particular que, ligados uns aos outros,
constituíam-se num só organismo, tendo a CRISTO por cabeça. A figura ajudou-o a
compreender a unidade da Igreja e a sua dependência em relação ao Senhor JESUS.
Saulo passou a compreender que cada um de nós somos templo do ESPÍRITO SANTO,
morada de DEUS na Terra. Passou a conhecer a pessoa do ESPÍRITO SANTO, fato
vedado ao judeu tradicional sem CRISTO.
Saulo fora chamado por CRISTO para deixar de lado as regras,
tradições e todo o passado do qual tanto se gloriara. Outros já o haviam feito
e tiveram de enfrentar oposição. O futuro não lhe seria fácil. Ele pensa em
Estêvão e como fora este poderoso no Evangelho. Se Saulo tivesse aberto os
olhos antes, quantas centenas de crentes não teriam sido poupadas! Mas ele
tomaria o lugar de Estêvão, e quem sabe, faria para CRISTO uma obra ainda
maior. Uma vez mais Saulo delibera ser fiel à visão celestial, e passar o resto
de sua vida pregando o Evangelho aos judeus e gentios.
O Mundo, um Campo Missionário
Saulo começa a refletir sobre o mundo que o rodeava. Embora só o conhecesse
parcialmente, sabia que o Império Romano estendia-se para além dos Portões da
Cilícia, em direção ao ocidente. Em suas fronteiras, havia milhões de pessoas.
Que mundo de trevas era aquele!
Os ídolos eram adorados por toda a parte. As cidades encontravam-se repletas de
estátuas, altares e templos. Tateando, as pessoas andavam à procura de algo
real. Seus corações estavam vazios; seus olhos, voltados para os grandes blocos
de granito e mármore. Se os gentios pudessem enxergar o vazio de seus templos!
Se soubessem que somente CRISTO podia satisfazê-los!
Saulo compreende que será mais fácil convencer os gentios do que os judeus. Ele
alegra-se por ter sido escolhido pelo Senhor para levar o Evangelho da graça
salvadora de DEUS aos gentios.
Ao fazer um retrospecto de sua vida, Saulo percebe que deveria estar louco e
cego ao imaginar que o seu ódio e crueldade pudessem reconduzir os convertidos
ao Judaísmo. Na Arábia, DEUS forçou-o a abandonar os seus métodos e a aprender
um pouco do grande ESPÍRITO que estava em Estêvão, quando este orava por seus
inimigos.
Não se sabe quanto tempo Paulo permaneceu na Arábia. Sabemos, porém, que passou
três anos em Damasco após sua volta à cidade e depois foi a Jerusalém. Paulo
tivera tempo de organizar seus pensamentos, e agora estava pronto a pregar o
Evangelho com todas as suas forças, pois sentia- se em débito para com os
judeus e gregos.
De qualquer forma, Saulo achava-se melhor preparado para, sinceramente, lutar
pela fé. Em cada sinagoga, os fariseus se lhe opunham, zombando de sua mudança
de vida e chamando-o de mentiroso. Ele era obrigado a todo o instante, a
defender o Evangelho a que se habituara a chamar de "meu evangelho",
não por ser diferente do de Pedro, ou de qualquer outro dos discípulos, mas
porque JESUS o entregara diretamente a ele.
Mais tarde, Saulo aprenderia mais de Pedro e dos demais apóstolos o verdadeiro
significado das declarações e ensinamentos do Senhor. Mas, por ora, já sabia o
suficiente para começar a pregar a JESUS como o CRISTO das Escrituras, por cujo
intermédio podia-se alcançar a justiça divina.
Com as palavras do Senhor no coração, avançaria e estabeleceria igrejas em
todas as partes. Se em sua ignorância prendera e até matara, agora ofereceria a
sua vida por CRISTO. Afinal, JESUS não vencera a morte levantando-se da
sepultura? Sua mente já estava apaziguada e cultivada pelos ministérios de
DEUS.
O REGRESSO A DAMASCO
Saulo foi cordialmente recebido pelos irmãos de Damasco. Todos ansiavam por
sua volta, pois somente ele poderia enfrentar os judeus que se opunham ao
Evangelho. Lembravam-se todos de como Saulo silenciara os rabinos antes de
partir para a Arábia. Com um poder muito maior, Saulo retoma o trabalho nas
sinagogas. A oposição judaica contra si já se havia transformado em ódio. A sua
determinação de pregar a JESUS CRISTO, contudo, em nada diminuíra.
Durante o período em que esteve em Damasco com os nazarenos, homens e mulheres
aceitavam diariamente a CRISTO ao ouvir-lhe a pregação. O conselho da sinagoga
fez o máximo para tapar os ouvidos de seus congregados. Mas como a mensagem de
Saulo tivesse como base as próprias Escrituras, ninguém era capaz de
resistir-lhe as palavras. Até os rabinos temiam proibir o acesso de alguém com
tamanho conhecimento da Torá na sinagoga.
A cada discussão com Saulo os rabinos mais se enfureciam. E já instigavam o
conselho da sinagoga contra Saulo, pois mais de uma vez ele os sobrepujara. Em
seu ódio, queriam fazer dele um exemplo público. E tanto fizeram, que vieram a
conseguir o seu intento. Açoitaram-no diante da porta da sinagoga com 39
chibatadas. Enquanto o chicote rasgava-lhe as costas, Saulo experimentava uma
estranha sensação de alegria por ser considerado digno de sofrer pela causa de
CRISTO. Não fora exatamente isso o que ele havia feito com os que seguiam a
esse mesmo JESUS?
O corpo de Saulo fica marcado para sempre; com orgulho exibiria essas marcas
por haverem-no introduzido numa comunhão mais profunda com o CRISTO e com os
que foram chamados a sofrer pela fé.
Finalmente, ele foi expulso da sinagoga. Todavia, encontrando-se secretamente
com os judeus de Damasco, ganhou a muitos deles para CRISTO. Os rabinos vieram
a compreender, então, que ninguém poderia deter a propagação do Cristianismo. O
que fazer? Ordenaram-lhe, pois, que deixasse a cidade, mas Saulo não lhes
acatou a ordem. Pelo contrário: agora, pregava a CRISTO com mais vigor e
intensidade. O conselho reuniu-se então em segredo, e chegaram a esta
conclusão: "Só há um meio de calar a Saulo - tirar-lhe a vida".
Os judeus favoráveis aos nazarenos, alertaram a Saulo sobre a decisão do
conselho. Ele, pois, escondeu-se de modo a que não pudessem encontrá-lo. Cada
sinagoga era vigiada, mas o acusado não aparecia. Seus inimigos finalmente
descobriram que ele sabia da conspiração. E para que Saulo não fugisse
disfarçado de mercador, ou viajante, resolveram ir ao governador e fizeram uma
acusação formal contra o desafeto, dizendo que este era um perturbador da ordem
pública, pois incitava os judeus a se amotinarem. O governador prontamente
enviou as ordens para a prisão de Saulo. Imediatamente, os soldados passaram a
vigiar os portões da cidade, observando as caravanas que saíam de Damasco. Como
a cidade só possuísse quatro portões, os rabinos julgavam que, em breve, o
prenderiam.
Sempre atentos a qualquer movimento, os judeus pretendiam acabar com a seita
que os perturbava, livrando-se de seu novo líder. Diante disso, os amigos de
Saulo perceberam que só havia um meio de salvar-lhe a vida: tirá-lo da cidade.
Os velhos muros eram tão largos em determinados lugares que casas haviam sido
construídas sobre eles. Numa dessas casas, com janelas salientes, morava um
nazareno. Quando a noite caiu sobre a cidade, Saulo foi levado a essa casa.
Então, amarraram uma corda a um grande cesto que foram baixando pelo muro até
que pousasse em segurança. Ato contínuo, o passageiro deixou rapidamente o
cesto, embrenhando-se na escuridão.
A viagem de Saulo a Jerusalém
Saulo ganhara a liberdade. Não foi senão depois de muitos dias que as
autoridades da sinagoga foram informadas de que ele encontrava-se em Jerusalém,
perturbando o povo de lá como o fizera em Damasco. Fazia pouco mais de três
anos desde que deixara Jerusalém com uma guarnição e uma ordem de prisão contra
os nazarenos. Nessa época, representava o Templo, os sacerdotes e os fariseus
em toda a sua oposição a CRISTO. Agora, representava a JESUS, e estava voltando
justamente para dar testemunho do Salvador. Saulo encontrara a CRISTO - o
Caminho, a Verdade e a Vida - e estava mui feliz.
A permanência de Saulo em Jerusalém foi curta. Depois de duas semanas, o vigor
de sua mensagem irritou tanto aos judeus que estes procuraram matá-lo. Quando
Saulo retornou à Cidade Santa, esta não o recebeu como antes, com amizade e
esplendor. Agora, mostrava-se fria e nada acolhedora. Não teve permissão para
visitar a escola de Gamaliel ou o palácio do sumo sacerdote. Era agora
conhecido e odiado nas sinagogas, e a única coisa que pode fazer foi procurar
os nazarenos. Saulo sabia que numerosos discípulos reuniam-se na casa de Maria,
mãe de Marcos, e foi então para lá, esperando ter notícias dos demais cristãos
de Jerusalém. Na casa de Maria, Barnabé, Primo de Marcos, imediatamente o
reconheceu e acolheu.
Barnabé era um judeu originário da ilha de Chipre. Homem rico, dono de grandes
propriedades, fora também um levita do Templo. Em virtude de sua formação,
tornou-se um dos líderes da igreja em Jerusalém, um apóstolo (At 14:14).
Ouvindo a história de Saulo, Barnabé comoveu-se. De imediato, ofereceu-lhe a
destra, tratando-o de irmão. Mas os outros nazarenos agiram de modo diferente;
suspeitavam de alguma traição; não podiam acreditar na conversão de Saulo. E se
fosse mentira? Aquele homem perseguira de tal forma a Igreja, que muitos
crentes haviam sido expulsos da cidade; famílias haviam sido separadas por sua
causa. Embora friamente recepcionado, Saulo aceitou a tudo graciosamente. Pelo
menos, tinha a Barnabé por amigo.
O respeitado líder levou-o aos apóstolos que, ao lhe ouvirem a história, creram
e receberam-no como um deles. Quando Pedro soube que Saulo havia ido a
Jerusalém especialmente para vê-lo, acolheu-o em sua casa. Durante duas
semanas, Paulo, que sentara aos pés de Gamaliel, agora achava-se aos pés do
pescador que, nesse curto espaço de tempo, lhe ensinaria mais sobre as Palavras
da Vida do que todo o tempo em que fora aluno do afamadíssimo rabino.
Cada vez que Pedro falava em JESUS, seus olhos brilhavam. Ele descreveu-lhe o
CRISTO sem pecado que pregara como homem algum jamais o fizera. Os detalhes da
vida do Salvador eram vivos e recentes para Pedro. Pois fazia agora seis anos
que JESUS havia sido crucificado no Calvário.
Pedro discorreu-lhe sobre os grandes milagres e ensinos de JESUS. Discorreu-lhe
ainda acerca do Reino de DEUS e como os homens, em toda parte, jamais haviam
conseguido opor-se à sabedoria do Rei. Contou-lhe como JESUS fora rejeitado,
traído e crucificado, e como o maior de todos os milagres ocorrera três dias após
a crucificação - o milagre da ressurreição de CRISTO. Pedro também falou-lhe,
em termos exaltados, a respeito das muitas vezes em que o Salvador aparecera
aos discípulos, e especialmente da ocasião em que Ele, chamando-o à parte,
conversou consigo depois da ressurreição.
"A cada dia, Pedro desenhava-lhe uma figura diferente do CRISTO que,
viajando pela Galiléia, ensinava as multidões. Agora, Saulo já se sentia tão
seguro do seu conhecimento acerca de JESUS, que tinha a impressão de haver
convivido pessoalmente com o Salvador. Ele já tinha, pois, plenas condições de
anunciar o Evangelho às mais distantes regiões.
A Perseguição de Saulo em Jerusalém
Embora haja ficado apenas duas semanas em Jerusalém, Saulo, à semelhança de
Estevão, foi às sinagogas helenísticas e, ali, declarou corajosamente a todos
que era agora um nazareno. Muitos lembravam-se dele como o perseguidor dessa
seita. Mas agora estavam surpresos ao ouvi-lo conclamar os judeus ao
arrependimento por haverem rejeitado a JESUS.
Entre outras coisas, disse-lhes que a vida eterna não é conquistada obedecendo
à Lei, mas confiando no Filho de DEUS que, graciosamente, nos concede o dom da
salvação. Homens de grande zelo e habilidade rabínica opunham-se-lhe e o debate
ficava a cada dia mais acalorado. Em Jerusalém, os rabinos lançaram-lhe em
rosto os argumentos que antes ele usara para combater os nazarenos. O próprio
Saulo não dissera que JESUS era um impostor e que havia merecido a morte?
A batalha foi breve. Saulo tinha agora tantos inimigos, que um movimento surgiu
para livrar a religião judaica dessa maldição. Por que não fazer com ele o que
haviam feito com Estêvão? Ele merecia morrer; era um impostor, um blasfemador e
um traidor! Pior ainda, fora treinado como rabino, mas passara a odiar o
sistema que o nutrira.
O Chamado para Pregar aos Gentios
Certo dia, Saulo achava-se no Templo para orar, e enquanto suplicava a
orientação e a sabedoria do Senhor em relação ao seu futuro e quanto à abertura
de uma porta a fim de que pregasse aos judeus ali, no centro de sua adoração,
teve ele uma experiência que lhe determinaria o caminho a ser tomado. Numa
visão, o Senhor lhe disse: "Dá-te pressa e sai apressadamente de
Jerusalém, porque não receberão o teu testemunho acerca de mim" (At
22.18). Saulo respondeu imediatamente:
Senhor, eles bem sabem que eu lançava na prisão e açoitava nas sinagogas os que
criam em ti. E quando o sangue de Estêvão, tua testemunha, se derramava, também
eu estava presente, e consentia na sua morte, e guardava as vestes dos que o
matavam (At 22. 19,20)
Saulo tinha consciência de sua dívida. Por isso, em profunda agonia, confessava
repetidamente o seu pecado ao Senhor por haver perseguido a Igreja. Mas JESUS
falou-lhe novamente numa visão: "Vai, porque hei de enviarte aos gentios
de longe" (At 22.21).
A visão desapareceu com a mesma rapidez com que surgira. Saulo volta a si.
Embora sua mente estivesse tomada pelo mistério, de uma coisa tinha certeza:
DEUS o guiava e tinha um grande propósito para si - não entre o seu povo, mas
em terras distantes. Pensando já nos vastos países que ficavam a oeste dos
Portões da Cilícia, resignou-se a deixar Jerusalém.
Sabendo dos planos para silenciar a Saulo, seus amigos, disfarçados por causa
da segurança, conduziram-no a salvo para fora dos muros da cidade. A Jerusalém
dos seus sonhos acabara por ser-lhe uma decepção. Muitos de seus velhos amigos
agora o odiavam e teriam-no apedrejado em nome da Lei de Moisés. Até os
nazarenos, seus novos amigos, mostravam-se reservados quanto à sua conversão.
Barnabé e Pedro, contudo, aceitaram-no abertamente. Eles viam em Saulo de Tarso
um defensor da fé, e alguém que nos anos vindouros seria usado por DEUS para
defender o Evangelho.
Saulo deixou Jerusalém apenas quinze dias depois de sua chegada. De volta para
casa, tomou a estrada costeira em direção a Cesaréia, capital romana da
Palestina.
A Volta de Saulo a Tarso
Em Cesaréia, Saulo foi para o porto, e procurou um navio, entre os muitos
que ali se achavam ancorados, que o levasse para Tarso.
Como as coisas haviam mudado desde a época em que tinha poder e achava-se
armado com a autoridade do sumo sacerdote! Não passava agora de um fugitivo,
expulso de cidade em cidade, perseguido e odiado, tendo de disfarçar-se, e
quase sem amigos. Mas, no seu coração, havia uma leveza e alegria que não
conhecera antes. Era a alegria de CRISTO.
A PRIMEIRA VIAGEM MISSIONÁRIA
Em seu regresso, Saulo foi recebido de braços abertos por alguns.
Mas os que sabiam de sua mudança logo sentiram que a sua presença causaria
confusão, pois ele, agora, acreditava no impostor JESUS. A confirmação veio de
seus próprios lábios. Todos estavam desapontados e enfurecidos. Como um fariseu
erudito, cuidadosamente criado e educado por hebreus, e que logo se tornaria
rabino, pôde tomar semelhante atitude?
Não se sabe de que forma os pais de Saulo receberam o duro golpe. Como não
estivessem preparados, sentiram-se envergonhados por seu filho: justamente ele
havia oferecido fogo estranho no altar.
Quando relatou sua experiência em Damasco - seu encontro com o CRISTO
ressurreto - houve admiração e desdém. Muitas vozes elevaram-se contra, mas
nenhuma pôde calar-lhe os lábios. CRISTO JESUS era tão real para Saulo, que não
lhe importava se o mundo fosse contrário à sua mensagem; continuaria a pregá-la
fielmente. Em Tarso, Saulo achava-se longe da sombra do Templo e do Sinédrio, e
sendo um hábil orador, é provável que multidões se reunissem para ouvir-lhe os
sermões. Alguns podem ter-se rejubilado com cada palavra e se tornado
abertamente nazarenos.
Os rabinos mais velhos, invejosos de sua capacidade, certamente o advertiram a
não falar contra as regras. É possível que em Tarso, diante da porta de sua
própria sinagoga, haja sido chicoteado em público, fato que, mais tarde,
haveria de mencionar (2 Co 11.24). Mas nisso se gloriou. Por seu intermédio, o
Evangelho abriu os olhos aos cegos e levou a esperança a muitos corações. Nada
o deteria. Não lhe dissera o Senhor que se tornaria apóstolo para os gentios?
Obscuridade e Fabricação de Tendas
Apesar de sua confiança e do chamado divino, Saulo entra num período de
inatividade. Durante sete ou oito anos, pouco se ouve falar dele. Mas aqueles
foram anos de espera, disciplina e paciência. Saulo talvez necessitasse desse
tempo para fortalecer-se e descobrir o segredo de esperar pacientemente no
Senhor. Ele tinha uma missão, mas faltava-lhe a oportunidade.
No plano de DEUS, para quem o tempo não existe, aquele período haveria de
amainar o rancor dos rabinos. Talvez Saulo tenha permanecido em Tarso, enfrentando
a oposição e sustentando-se na loja de tendas, até que DEUS completasse mais um
grande estágio na história da Igreja. Nesse interregno, Pedro e os demais
apóstolos foram se conscientizando de que a Igreja não era exclusivamente para
os judeus. O Senhor dera a Pedro a visão dos animais puros e impuros,
preparando-o para evangelizar Cornélio, o gentio de Cesaréia, que foi admitido
na Igreja sem ter de passar pelos rituais judaicos. Esse foi um passo que
revolucionou toda a perspectiva do Cristianismo. É possível que nessa ocasião,
Saulo haja se irritado e resmungado contra a demora em seu ministério. Mas
acabaria por aprender que as delongas de DEUS têm sempre um propósito; nada sai
errado em seu cronograma.
Enquanto isso, Saulo vivia na obscuridade. É provável que haja pregado não
apenas em Tarso, mas também na zona rural que visitara quando menino para
comprar pêlo de cabra. Sempre que viajava pelas estradas e trilhas de camelos,
através das florestas e vales, procurava seus conterrâneos. Falava-lhes de
JESUS, o Messias, e convidava-os a procurar nEle a justificação pela fé.
Dispersão da Igreja de Jerusalém
A Igreja de Jerusalém teve seus altos e baixos. Quando a perseguição
aumentou, os nazarenos viram-se obrigados a esconder-se. Alguns até saíram da
Palestina, e procuraram refúgio noutras terras. Grande número dirigiu-se a
Damasco. Outros foram até Antioquia, a linda capital romana da Síria, cerca de
480 quilômetros ao norte de Jerusalém. Em Antioquia, muitos judeus estrangeiros
haviam se tornado seguidores de JESUS. Eles eram mais liberais, e o medo do
sumo sacerdote não os constrangia. Alguns haviam nascido na Grécia, outros na
costa africana de Cirene, e outros em Chipre. À medida que o Evangelho lhes era
pregado, grande número veio a crer. E o ESPÍRITO de DEUS atuava na pregação
levando também muitos gentios de Antioquia a se converterem. E isso muito aborreceu
aos cristãos hebreus, pois estavam certos de que JESUS CRISTO pertencia somente
a eles, e a única maneira de tornar-se nazareno seria tornar- se, primeiro, um
prosélito da sinagoga.
Barnabé em Antioquia
O movimento de Antioquia cresceu tanto que um sinal de alarme foi enviado à
igreja-mãe. Em Jerusalém, após as deliberações, Barnabé, com sua mente aberta e
esclarecida, foi enviado a fim de investigar a autenticidade das proclamadas
conversões dos gentios.
Barnabé ouvira os argumentos dos judeus de mente estreita e também dos judeus
oriundos de Chipre. Vira igualmente as multidões de gentios que haviam
abandonado seus ídolos, e agora professavam alegremente a CRISTO. Barnabé não
podia negar a realidade daquelas conversões. Essas pessoas também haviam
sofrido por CRISTO; algumas, apesar de desprezadas por sua própria gente,
regozijavam-se por sua salvação.
Barnabé, impressionado com o que via, levantou-se para falar. Não criticou os
gentios, nem ordenou que se afastassem da Igreja até serem instruídos no
Judaísmo. Pelo contrário: maravilhou-se porque a graça de DEUS estendia-se além
das fronteiras de Israel. Ele os exortou a que se agarrassem a JESUS, mesmo em
face das perseguições, e jamais desistissem da fé. Suas palavras alegraram os
ouvintes; houve perfeita unidade na Igreja. E o Senhor acrescentava diariamente
os que iam sendo salvos.
O Chamado para Antioquia
Ao perceber a obra esplêndida que se poderia realizar em Antioquia, Barnabé
só pôde pensar num único homem - alguém que encontrara em Jerusalém, que fora
criado numa cidade gentia, e que possuía muitas das qualificações exigidas para
uma grande liderança. E mais que isso: o Senhor lhe colocara no coração o
ministério para os gentios.
A imagem de Saulo de Tarso formou-se na mente de Barnabé. Tempos atrás, vira-o
arder com a missão de pregar a CRISTO aos estrangeiros. Se Saulo pudesse ir a
Antioquia com seu fervoroso zelo e suas palavras poderosas!
Sem mais delongas, Barnabé percorreu os 25 quilômetros até o porto de Selêucia.
Encontrou aí um barco e, após um longo dia no mar, chegou ao rio Cnido, onde as
velas foram amadas e os compridos remos o levaram corrente acima, até o porto
de Tarso.
Será que encontraria Saulo? Quando Barnabé finalmente o encontrou, ambos se
abraçaram. Eles não se viam há oito anos. Barnabé Contou a história, e Saulo
prestou atenção a cada palavra. Havia de fato uma grande obra a ser feita em
Antioquia, e essa era a porta que DEUS lhe estava abrindo! Saulo assentiu em
partir imediatamente.
Saulo em Antioquia
Com meio milhão de habitantes, Antioquia da Síria era a terceira maior
metrópole do Império Romano. Os muros da cidade eram tão fortes, que as suas
ruínas ainda podem ser visitadas. Eram largos e possuíam muitas torres. O monte
Silpio levantava-se no centro da cidade, e achava-se coalhado de barracas, onde
aquartelavam-se os soldados romanos que guardavam a região.
Muitos reis haviam despendido grandes somas para tornar Antioquia ainda mais
bela. Ali havia jardins, lagos e palácios magníficos. Herodes adornara uma de
suas ruas com colunas de mármore, numa extensão de cerca de três quilômetros.
Fora da cidade, encontrava-se um grande anfiteatro onde eram realizados jogos e
corridas.
O povo de Antioquia adorava as estrelas e vários ídolos, em cuja honra tinham
construído majestosos templos. No lado oposto da cidade, o grande escultor
Licos modelara uma enorme cabeça adornada com uma coroa. Esculpira-a num grande
bloco de pedra que se projetava do solo. A figura tornou-se o símbolo de
Antioquia, assim como a Estátua da Liberdade viria a ser o símbolo da América.
Até hoje ela pode ser vista em muitas das moedas de Antioquia.
Como em todo o império era intensa a busca pelo prazer e ociosidade. Antioquia
não fugia à regra. Da porta de Dafne, uma estrada estendia-se por oito
quilômetros, até o bosque de Dafne e o templo de Apolo, pontilhada pelas casas
e jardins dos mais abastados. O bosque, um dos lugares mais aprazíveis de toda
a região, era palco de orgias tão desenfreadas que até os próprios romanos
delas se escandalizavam. Visitantes chegavam a Antioquia, vindos de todas as
partes do mundo: africanos, gregos, romanos, persas, egípcios e judeus. As
pessoas enchiam as ruas e, num espírito de permanente feriado, consideravam o
bosque de Dafne o lugar mais interessante e animado do mundo.
Saulo foi levado à cidade. O Evangelho de JESUS CRISTO penetrara em alguns
corações e o poder do ESPÍRITO SANTO operava nos judeus e gentios igualmente.
Apesar de toda a sua grandeza, Antioquia continuava faminta e necessitada.
Barnabé levou o amigo a reunião da igreja. Era uma assembleia quase tão forte
quanto a de Jerusalém. Saulo conheceu vários líderes da igreja, entre os quais
Manaém, um parente de Herodes Antipas. Ele era um homem de alta posição em
Antioquia. Havia também Simeão, o Africano, Lúcio de Cirene e tantos
estrangeiros de rincões desconhecidos que Saulo foi levado a regozijar-se em
seu meio.
Em Jerusalém e em todos os outros lugares, os seguidores de JESUS eram chamados
de nazarenos, mas em Antioquia receberam outro nome. O povo chamou-os de
"cristãos" para zombar deles. O nome outrora pronunciado em tom de
desprezo nos é hoje motivo de orgulho. Como qualquer rabino em Israel, Saulo
estabeleceu-se em seu ofício, pois os fabricantes de tendas sempre encontravam
trabalho. Dessa forma, ganhava seu sustento, mas a principal razão de sua
presença em Antioquia era ajudar a Igreja a fortalecer-se na fé.
Saulo visitava diariamente a sinagoga e os bazares, e muitas vezes ficava à
beira da estrada enquanto o povo ia lotando as pistas de corridas. Ele chamava
a todos ao arrependimento, exortando-os a se voltarem para DEUS. Dizia-lhes que
JESUS de Nazaré - que há dez anos fora crucificado em Jerusalém e ressuscitara
ao terceiro dia - era o CRISTO das Escrituras: o Filho de DEUS enviado ao mundo
para salvar os homens do pecado.
Saulo chamou-os do vazio da idolatria para a plenitude da vida cristã. Os
amantes do prazer, mercadores, turistas, e mulheres da sociedade - ninguém
podia ignorar a eloquência de Barnabé e a grande sabedoria de Saulo. Não Podiam
deixar de admirar-lhes a coragem e o zelo, mesmo em face da multidão
escarnecedora. Pelo menos não havia sumo sacerdote ali para levantar a mão
contra eles. O ministério do Evangelho estava desimpedido e a Igreja crescia
rapidamente; cada cristão era uma incansável testemunha de JESUS.
Durante um ano, Saulo trabalhou pelo Evangelho nessa importante cidade. Falava
com empenho, e o Senhor tornava produtivos o seu ensino e pregação. Não demorou
muito, e Antioquia já era um centro cristão mais forte que Jerusalém, pois a
igreja, aqui, não sofria quaisquer distúrbios.
Outras Perseguições aos Cristãos
Quando o imperador Calígula foi assassinado, Herodes Agripa achava-se em
Roma. Por ter ajudado o novo imperador, foi ele honrado com o governo das
terras de seu avô, Herodes, o Grande. Houve júbilo em Jerusalém quando ele
passou a reinar, pois sabia-se ter sido ele fariseu; a rigidez da religião
judaica não lhe era estranha.
Seu primeiro ato como rei foi remover Anás, o saduceu, do cargo de sumo
sacerdote, e indicar Gamaliel para presidente do Sinédrio. Tudo isso parecia
promissor aos fariseus, que se alegraram ao ver surgir um defensor de sua
causa. Todavia, quando Agripa desceu ao seu palácio em Cesaréia, tirou o manto
farisaico, passando a viver abertamente como um romano irrefletido e profano.
Como Herodes Agripa quisesse cair na graça dos rabinos, pôs-se a perseguir os
cristãos. Ordenou que se prendesse e decapitasse a Tiago, irmão de João. Tiago
foi o primeiro dos apóstolos a morrer. Vendo que o Sinédrio muito se agradara
disso, e estimulado com o crescimento de sua popularidade, Herodes ordenou
ainda a detenção de Pedro. Lançou-o na prisão, pretendendo matá-lo depois da
Páscoa. No entanto, um anjo de DEUS, abrindo as portas do cárcere, soltou o
apóstolo.
Presentes para os Cristãos de Jerusalém
No auge da perseguição, um certo profeta chamado Ágabo, que morava em
Jerusalém, visitou Antioquia. Levantando-se na assembleia, deu a entender, pelo
ESPÍRITO do Senhor, que DEUS enviaria uma grande fome sobre o império. Isso
significava que tempos difíceis abater-se-iam sobre todos. Isso realmente
aconteceu no tempo de Cláudio César (At 11:28). Ato contínuo, os cristãos de
Antioquia levantaram ofertas e as enviaram aos santos da Judéia pelas mãos de
Barnabé e Saulo.
Despedindo-se da igreja de Antioquia, partiram ambos para Jerusalém, levando
Tito consigo. Nos anos seguintes, viria este a ser um excelente líder, sendo o
encarregado de supervisionar as igrejas de Creta.
Quão tocante não deve ter sido quando Barnabé e Saulo depuseram as provisões
diante dos irmãos de Jerusalém. Todas aquelas dádivas lhes haviam sido enviadas
por homens e mulheres que jamais tinham visto. E muitos deles eram gentios!
A Grande Controvérsia
A questão dos gentios na Igreja era uma das pendências que Saulo pretendia
resolver em sua estadia em Jerusalém. Contrariando seus hábitos, não foi pregar
nas sinagogas. Em vez disso, reuniu-se com os líderes a fim de fazê-los
entender que os gentios tinham o direito de fazer parte da Igreja sem ter de se
submeter aos ritos e cerimônias da sinagoga.
Foi aí que Saulo veio a constatar: ainda tinha inimigos entre os próprios
cristãos, pois alguns achavam que Tito, por ser grego, não tivera uma real
experiência com o Senhor. Na igreja-mãe, havia também alguns fariseus que
alegavam ser seguidores de JESUS, mas não passavam de traidores; sua presença
na Igreja prejudicava o crescimento do Evangelho. Eram espiões do inimigo, e
faziam o máximo para levar os nazarenos de volta ao Judaísmo.
Saulo os enfrentou, provando-lhes que a graça de DEUS se havia estendido também
aos gentios. Ele animou-se ao ver que Pedro, João e outros discípulos o
aprovavam. Estes concordaram com Saulo e Barnabé para que fossem pregar aos
gentios, e os admitissem na Igreja sem sujeitá-los aos ritos judaicos.
Mas a questão ainda não fora resolvida; alguns continuavam a ensinar que a Lei
de Moisés era necessária; outros diziam que não. Preocupados, Barnabé e Saulo
deixaram a igreja de Jerusalém, e prepararam-se para a longa viagem de volta a
Antioquia.
A casa de Maria, parente de Barnabé, era o ponto de encontro dos líderes
cristãos. Saulo e Barnabé haviam desfrutado de sua hospitalidade durante a
viagem, e sentiram-se especialmente atraídos por seu filho, Marcos. Apesar de
ser ainda um rapazinho, Marcos seguia sinceramente a JESUS. Quando criança,
conhecera o Senhor e, mediante a pregação de Pedro e João, passara a ser um
fiel nazareno. Naturalmente Barnabé via grandes possibilidades no jovem; Saulo
também impressionou-se com sua dedicação. Ambos persuadiram-no a acompanhá-los
até Antioquia. Aquela seria sua primeira viagem para lugares distantes. O
chamado da aventura era forte, e ele Partiu entusiasmado.
O Retorno a Antioquia
A igreja de Antioquia recebeu os seus líderes de braços abertos,
alegrando-se com as notícias dos cristãos de Jerusalém. Era bom saber que seus
presentes serviram para encorajá-los num período tão difícil.
Antioquia estava tornando-se rapidamente o centro das atividades da Igreja. O
braço da perseguição não era tão pesado lá como o era em Jerusalém à sombra do
Templo. A igreja cresceu sem o rancor dos sacerdotes e principais da sinagoga,
até que outras comunidades cristãs menores começaram a aceitar-lhe a liderança.
Muitos dos cristãos de Antioquia procediam de lares gentios. Eles lembravam-se
naturalmente de seus parentes dispersos por todo o império, e achavam que o
Evangelho também lhes deveria ser pregado. Uma vez que Saulo fora chamado pelo
Senhor para ministrar aos gentios, esses cristãos concluíram que se deveria
formar um grupo missionário, e enviá-lo aos países vizinhos.
A Primeira Viagem Missionária
Depois de várias reuniões de jejum e muita oração, os líderes da igreja
entenderam que era a vontade de DEUS que enviassem Barnabé e Saulo nessa
missão, Isso foi decidido e comunicado a eles pelo ESPÍRITO SANTO. Quem seria
melhor qualificado para ela? Eram homens experimentados, e ambos defendiam a
idéia de que os gentios deviam ser participantes da promessa juntamente com os
judeus. Haviam ambos viajado muito e pareciam ser cidadãos do mundo. Estavam
capacitados a representar a CRISTO; para isto haviam sido chamados. Os líderes,
levantando-se numa reunião de jejum e oração da igreja, impuseram as mãos sobre
Barnabé e Saulo, abençoando-os e encarregando-os solenemente da tarefa
missionária.
Com as mochilas cheias de provisões e presentes oferecidos pelos membros da
igreja, Barnabé e Saulo partiram numa jornada que os manteria longe de casa por
mais de dois anos. Deixaram atrás de si uma igreja que jamais haveria de se
esquecer deles em suas orações.
Os missionários levaram consigo o jovem Marcos. Quando a primavera chegou aos
montes da Síria, os três partiram; muitos irmãos estavam lá pra se despedirem
deles. Os missionários caminharam pela longa estrada pavimentada que os levaria
ao porto de Selêucia, onde havia grande atividade. Navios mercantes chegavam e
partiam para outros portos em todo o Mediterrâneo. Muitos barcos de pequeno
porte, levando frutas de Chipre, distante dali cerca de 113 quilômetros,
navegavam regularmente pela estreita faixa de água azulada, num percurso de
seis horas, com vento favorável. Como Barnabé era de Chipre, eles certamente
seriam bem acolhidos na cidade. Além disso, havia na ilha alguns cristãos que
tinham sido expulsos de Jerusalém quando da perseguição geral.
A Ilha de Chipre
O pequeno navio bordejou a ilha, e navegando junto à costa escura e
rochosa, chegou à principal cidade, Salamina, na foz do rio. A atividade no
porto era enorme. Dois grandes diques de pedra estendiam-se como braços
protetores para o belíssimo azul das águas, convidando os navios de todo o
globo a ancorarem ali. As ruas da cidade comparavam-se às de Tarso. Em toda
parte, avistava-se santuários de ídolos e templos erigidos aos deuses gregos. O
prédio mais popular da cidade era o templo de Afrodite, a deusa que
representava a beleza feminina, e cuja adoração era acompanhada por ritos
vergonhosos e pecaminosos.
Os sacerdotes desse templo costumavam contar como, há muito tempo, a bela
Afrodite surgira dentre a espuma das ondas e, vendo as areias macias da praia,
fizera de Chipre sua residência permanente. Essa, segundo eles, era a razão de
as mulheres de Chipre serem tão altas e belas. O aniversário de Afrodite era
celebrado com um festival.
A vida na ilha era fácil e despreocupada; o povo tinha como principal objetivo
a busca do prazer. Com certeza, Barnabé conhecia muito bem a essa gente. Depois
de visitar os amigos e parentes, passou a frequentar as sinagogas. Enquanto
isso, Saulo anunciava o Evangelho, afirmando que CRISTO cumprira as promessas
feitas a Israel, e viera para ser o seu Messias.
Como houvesse várias sinagogas em Salamina, Barnabé e Saulo narraram a história
de JESUS de modo que todo judeu pudesse ouvi-la. Sem dúvida, Saulo contou que
fora educado para ser rabino e fariseu, e que passara anos perseguindo os
cristãos antes de encontrar o Senhor ressurreto na estrada de Damasco - o
encontro que mudara-lhe a vida. Não se sabe se alguém foi levado a CRISTO em
Salamina. Depois de haverem passado algum tempo ali, os três obreiros viajaram
a pé de uma ponta à outra da ilha.
Eles pregavam a CRISTO sempre que tinham oportunidade. É possível que o
fizessem nas minas de cobre, nas salinas, nos pomares, nas fábricas, ou onde
quer que houvesse grupos de pessoas. É certo que visitaram as sinagogas nas
aldeias, e finalmente, depois de várias semanas, entraram no vale que descia
para o mar ocidental e a cidade de Pafos. Aqui, na praia beijada pelo sol,
achava-se o lugar onde, supostamente, Afrodite saíra das ondas. Seu templo, com
grandes pilares de mármore, marcava o local onde chegara à praia, e que era
considerado sagrado. Pafos era a capital de Chipre.
Como na maioria das cidades, havia ali um bairro judeu. E Saulo e Barnabé,
acompanhados por Marcos, conseguiram descobri-lo. De acordo com o seu costume,
Saulo pregou CRISTO à sua gente. Alguns creram; outros sentiram-se insultados.
Sérgio Paulo, o governador enviado por Roma à ilha, era um homem culto e que se
interessava pela ciência da sua época. Uma ciência, porém, estranhamente
misturada à feitiçaria e à astrologia. Sérgio Paulo, embora estivesse
acostumado aos deuses e deusas de Roma, continuava procurando algo que lhe
satisfizesse a alma.
Quando o governador soube da chegada de Saulo e Barnabé, mandou chamá-los;
queria ouvir a nova doutrina. Essa era a grande oportunidade de Saulo, e ele a
encarou como se fora uma porta aberta para o Evangelho. Com humildade, mas
cheio de entusiasmo, foi encontrar-se com o ilustre romano e sua mulher. Outros
religiosos e supersticiosos também se achavam ali, querendo conhecer a nova
crença.
Como Saulo também era romano, começou a falar desenvolta e habilmente. Expôs o
amor romano à verdade e à justiça, e sua aceitação e tolerância com todas as
religiões. A seguir contou, um a um, os grandes fatos do Evangelho - a vinda de
JESUS CRISTO, a rejeição de seu próprio povo, sua crucificação e, finalmente,
sua ressurreição. Recapitulou sua experiência pessoal como opositor do
Cristianismo, e como certo dia o Senhor o cativara e transformara-lhe
completamente a vida.
Sérgio Paulo ficou impressionado. As palavras de Saulo agradaram-lhe os
ouvidos. Seu coração inclinou-se para DEUS e a luta por sua alma já estava
quase ganha. Mas Barjesus, um mágico e feiticeiro da corte, também chamado de
Elimas, negava vigorosamente as palavras de Saulo. Barjesus era judeu e estava
vivendo em oposição à Lei de Moisés, pois esta condenava a feitiçaria. Todavia,
diante da pregação de Saulo, seu judaísmo veio à tona; seus argumentos
tornaram-se fortes.
Paulo discutiu com ele, e vendo que se vendera a Satanás e estava agora
obstruindo a palavra de DEUS, clamou contra ele:
Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a
justiça, não cessarás de perturbar os retos caminhos do Senhor? Eis aí, pois,
agora, contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum
tempo. No mesmo instante a escuridão e as trevas caíram sobre ele, e, andando à
roda, buscava a quem o guiasse pela mão (At 13.8-12).
Enquanto Sérgio Paulo observava, os olhos de Elimas embaçaram e a escuridão
caiu sobre si. O homem estendeu desesperadamente a mão, tateando para encontrar
o caminho, e teve de ser guiado através do aposento.
O governador romano vira a poderosa mão de DEUS sobre uma alma rebelde, e
deixou- se convencer. Levantou-se do divã; não pôde mais resistir ao Evangelho.
Creu e foi contado entre os cristãos. Esse foi um grande avanço. DEUS honrara o
ministério de Saulo, dando-lhe o homem mais importante da ilha.
Paulo, um NOVO Homem
Movimentando-se entre os gentios, Saulo passou a ser chamado de Paulo, pois
essa era a forma romana de seu nome. Enquanto estava na sinagoga, e mesmo
depois de tornar-se cristão, era conhecido pelos amigos como Saulo. Mas esse
nome era israelita, e de certa forma representava tudo o que ele fora como
judeu e fariseu. O nome Paulo indicava o novo homem e seu novo trabalho.
Enquanto permaneceu entre os gentios das províncias, foi se tornando cada vez
mais conhecido como Paulo. Com o correr dos anos, até o fim de sua vida, usou o
nome romano para assinar todas as suas cartas.
A Caminho de Perge
Em Chipre, as circunstâncias eram favoráveis a Paulo, Barnabé e Marcos. Sem
que o percebessem, transcorreram-se vários meses. Mas eles não haviam planejado
passar o inverno lá. O verão já se fora e a colheita terminara, quando os três
despediram-se dos amigos, e começaram a viagem de dois dias para a província da
Panfília, no continente. Esta ficava somente a 160 quilômetros a oeste da casa
de Paulo, em Tarso, sendo, porém, uma porta de saída para as cidades gentias da
Ásia Menor.
O pequeno barco foi navegando pela costa rochosa da Panfília, procurando
encontrar a foz do rio Cestro. A 13 quilômetros rio acima, chegaram à cidade de
Perge. As velas foram baixadas e os compridos remos levaram o barco finalmente
ao molhe. Ali, na encosta do morro, ficavam o anfiteatro, a pista de corridas e
o templo de Diana.
As casas eram semelhantes às de Tarso - em estilo grego e de grande beleza.
Naquela época do ano, muitos habitantes de Perge iam aos passos, nas montanhas,
que levavam à cidade de Antioquia, no interior da Galácia. Marcos, porém,
desanimou. As montanhas da Panfília eram perigosas e as passagens infestadas de
assaltantes. Plínio fizera um discurso grandioso contra a pirataria em mar
aberto, diante do tribunal de Roma, e o resultado foi uma campanha para
expulsar dos mares os navios piratas. Os meliantes retiraram-se, então, para as
montanhas, tornando-se ladrões de estrada, molestando frequentemente os
viajores. É possível que, pensando nessas coisas e nos animais selvagens à
espera nos desfiladeiros, Marcos haja sentido medo. E, pensando nas possíveis consequências,
decidiu voltar para casa.
Após a partida de Marcos, Paulo e Barnabé continuaram viagem pelas trilhas
montanhosas, seguindo o curso do rio. Algumas vezes as rochas eram íngremes e o
caminho estreito; outras, viajavam por vastas planícies onde o sol tostava as
pastagens. Levaram uma semana para chegar às terras altas e frias, onde era
mais saudável viver. Ali, no sopé das Montanhas Sultão, a cidade de Antioquia
florescia, com fileiras e fileiras de construções.
O Ministério em Antioquia da Pisídia
Antioquia da Pisídia era a porta de saída para o interior da Ásia Menor.
Fora antes uma cidade grega, mas agora havia nela uma fortaleza romana. Os
prédios de mármore branco brilhavam ao sol, emprestando-lhe uma beleza
singular. Os judeus sempre eram bem acolhidos pelos moradores de Antioquia, e
Paulo e Barnabé encontraram um bom local para estabelecer-se. Fabricante de
tendas, Paulo gostava de ganhar seu sustento, aonde fosse, a fim de não ser
pesado à Igreja. Além disso, seus contatos com mercadores e suas viagens às
lojas para vender as mercadorias, davam-lhe muitas oportunidades de falar de
JESUS.
Aos sábados, Paulo e Barnabé iam juntos à sinagoga, e eram convidados pelos
líderes a tomar parte na adoração e falar aos presentes. Havia sempre orações
seguidas por leituras da Lei e dos Profetas. A reunião terminava com um
discurso ou um debate entre os principais membros da sinagoga sobre alguma
passagem das Escrituras. Quando os líderes perceberam que Paulo e Barnabé eram
homens cultos, e pareciam ser portadores de uma mensagem, disseram-lhes:
"Varões irmãos, se tendes alguma palavra de consolação para o povo,
falai" (At 13-15).
Um Importante Sermão de Paulo
Havia um bom número de pessoas presentes, tanto judeus como prosélitos
(gentios convertidos ao Judaísmo). Barnabé reconheceu que a experiência de
Paulo qualificava-o como mensageiro. Olhou para ele com um sorriso que dizia:
"Essa é a sua oportunidade, aproveite-a!"
Paulo estava pronto. Levantando-se, pediu silêncio com um gesto. Como de
costume, os judeus estavam sentados no chão, de pernas cruzadas, com os xales
de oração sobre os ombros. Os olhares voltaram-se para ele quando começou a
falar lentamente:
Varões israelitas, e os que temeis a DEUS, ouvi: O DEUS desse povo de Israel
escolheu a nossos pais, e exaltou o povo sendo eles estrangeiros na terra do
Egito, e com braço poderoso o tirou dela; e suportou os seus costumes no
deserto por espaço de quase quarenta anos; e destruindo a sete nações na terra
de Canaã, deu-lhes por sorte a terra deles. E, depois disso, por quase
quatrocentos e cinqüenta anos, lhes deu juizes, até o profeta Samuel.
E depois pediram um rei, e DEUS lhes deu, por quarenta anos, a Saul, filho de
Quis, varão da tribo de Benjamim.
E, quando esse foi retirado, lhes levantou como rei a Davi, ao qual também deu
testemunho e disse: Achei a Davi, filho de Jessé, varão conforme o meu coração,
que executará toda a minha vontade (At 13.16-22).
Esse retrospecto da história era familiar aos judeus, que o acompanharam com
grande interesse e aprovação. Mas o objetivo de Paulo ao recapitular tais fatos
era apresentar-lhes JESUS. Então prosseguiu:
Da descendência desse, conforme a promessa, levantou DEUS a JESUS para Salvador
de Israel; Tendo primeiramente João, antes da vinda dele, pregado a todo o povo
de Israel, o batismo do arrependimento. Mas João, quando completava carreira,
disse: Quem pensais vós que eu sou? Eu não sou o CRISTO; mas eis que após mim
vem aquele a quem não sou digno de desatar as sandálias dos pés.
Varões irmãos, filhos da geração de Abraão e os que dentre vós temem a DEUS, a
vós vos é enviada a palavra dessa salvação. Por não terem conhecido a este, os
que habitavam em Jerusalém, e os seus príncipes, condenaram-no, cumprindo assim
as vozes dos profetas que se lêem todos os sábados. E embora não achassem
alguma causa de morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto. E havendo eles
cumprido todas as coisas que deles estavam escritas, tirando-o do madeiro,
puseram-no na sepultura (At 13 23-29).
Paulo preparava-se para a parte principal do sermão. As palavras saíam-lhe mais
rápidas. Sua voz elevou-se; ele foi tomado de fervor espiritual ao exclamar
triunfante:
Mas DEUS o ressuscitou dos mortos; E ele por muitos dias, foi visto pelos que
subiram com ele da Galiléia a Jerusalém, e são suas testemunhas para com o
povo. E nós vos anunciamos que a promessa que foi feita aos pais, DEUS a
cumpriu a nós, seus filhos, ressuscitando a JESUS, como também está escrito no
salmo segundo: Meu filho és tu, hoje eu te gerei.
Seja-vos, pois, notório, varões irmãos, que por este se vos anuncia remissão
dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser
justificados, por ele é justificado, todo aquele que crê (At 1330-33,38-39).
O sermão de Paulo terminara. Os ouvintes estavam atônitos. Ele era um pregador
corajoso e todos sentiram-se dominados pelo seu zelo e intrepidez.
Alguns dentre os principais da congregação começaram a murmurar, mas grande
número de judeus e gentios saíram naquele dia indagando-se: "Será que isso
é verdade? Será mesmo verdade?"
Quando Paulo e Barnabé voltaram para casa, pequenos grupos seguiam-nos pela rua
estreita pedindo para ouvir mais sobre o novo ensino. Ansiosos, queriam saber
tudo a respeito de JESUS. Naquela noite, quando o sol se pôs e as velas foram
acesas em Antioquia, muitos judeus e gentios tinham o coração aberto ao
Salvador e os olhos voltados ao céu.
No dia seguinte, o discurso de Paulo era o tema das conversas nos lares judeus.
Os gentios também souberam do acontecido, e suplicaram-lhe que repetisse o
sermão no sábado seguinte.
No dia marcado, pessoas vieram de todas as direções. A sinagoga sombria, com
uma única lâmpada acesa, estava repleta como nunca. Muita gente teve de ficar
do lado de fora. Mais tarde, escrevendo a respeito, Lucas conta que quase a
cidade inteira se reunira para ouvir a Palavra de DEUS. Paulo repetiu o sermão
e o povo escutou. Mas quando declarou que JESUS era o CRISTO, vozes elevaram-se
contra ele. Alguns judeus, movidos pela inveja, contradisseram-no publicamente.
Era costume interromper o orador na sinagoga. Paulo acostumara-se a isso, e não
esperava outra coisa.
De repente, os líderes judeus puseram-se a gritar. A violência cresceu. Já
agora atacavam selvagemente a Paulo, pontuando suas palavras com maldições e
blasfêmias. Os dois discípulos elevaram as vozes acima do tumulto, chamando os
ouvintes à razão. Porém os judeus continuaram gritando cada vez mais alto, na
tentativa de calar Paulo.
Dirigindo-se aos líderes, o apóstolo declarou: "Era mister que a vós se
vos pregasse primeiro a palavra de DEUS; mas, visto que a rejeitais e vos não
julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios" (At
13.46).
O Ministério de Paulo É Abençoado
A multidão bloqueava a saída e enchia a rua, ansiosa por ouvir falar da
vida eterna. Paulo e Barnabé deixaram a sinagoga em meio ao murmúrio e
maldições dos judeus, mas na porta foram saudados por um brado de alegria. Os
gentios, cansados de sua religião vazia, tinham ouvido falar pela primeira vez
de JESUS, da ressurreição e da vida eterna. Aquele foi um dia cheio para os
apóstolos. Quando a noite chegou, estavam cansados, mas alegres por tantas
almas salvas naquela cidade gentia.
Durante toda a semana, a oficina de tendas e a casa onde estavam foram
invadidas por pessoas de todas as classes sociais. Queriam saber mais de
CRISTO, que lhes havia preenchido o vazio dos corações e satisfizera-lhes a
maior necessidade da vida: a salvação. A casa dos apóstolos passou a sediar uma
nova igreja. Quando o inverno chegou, o testemunho da graça salvadora de JESUS
era dado diariamente nos bazares. E, indo às cidades do interior a fim de
cuidar de seus negócios, os crentes aproveitavam para contar as boas novas de
como nossos pecados eram perdoados em CRISTO. Antes de completar um ano, a
Palavra de DEUS estava sendo pregada em toda a região, e muitos grupos de
cristãos reuniam-se no Dia do Senhor para adorar a DEUS e receber as bênçãos da
vida eterna.
Com a chegada da primavera, as estradas nas passagens das montanhas foram
abertas e o comércio ganhou vida nova. Os bazares enchiam-se de estrangeiros
vindos de lugares distantes. Os pregadores não descansavam em seus esforços por
ganhar homens e mulheres para CRISTO. Os judeus continuavam aborrecidos com o
sermão de Paulo, e opunham-se vigorosamente à formação de igrejas cristãs em
sua cidade. Não conseguiriam descansar enquanto não dessem fim àquele
movimento.
A adoração no templo de Baco e nos templos do deus-lua era exclusivamente para
satisfazer aos homens. As mulheres sofriam quando seus maridos entregavam-se às
orgias e bebedeiras em honra a Baco. A adoração paga, portanto, nunca foi
popular entre as mulheres. Em vista disso, muitas delas começaram a frequentar
a sinagoga, tornando-se prosélitas da religião judaica, pois encontravam ali
algo infinitamente melhor que tudo quanto haviam conhecido. Os líderes das
sinagogas instigaram essas mulheres - principalmente as casadas com cidadãos
importantes de Antioquia - a convencer os maridos de que deviam proibir a
pregação dos discípulos e expulsá-los da região.
Paulo e Barnabé Forçados a Deixar Antioquia
Paulo e Barnabé foram intimados a comparecer perante os magistrados, e
receberam ordens para deixar a cidade. As autoridades cuidaram para que as
ordens fossem obedecidas. Enviaram um guarda para acompanhar os apóstolos até
bem longe dos portões de Antioquia, advertindo-os a que saíssem da província e
jamais voltassem. Os líderes dos judeus acompanharam os guardas, contentes por
se verem livres daqueles mestres cristãos. Seguindo a recomendação do Senhor,
os viajantes tiraram os sapatos e sacudiram destes o pó de Antioquia da
Pisídia, como sinal de desprezo pela cidade que os expulsara.
Não obstante, antes de partirem, haviam reunido os líderes da nova igreja e
insistido a que permanecessem fiéis, mesmo se perseguidos. Quando as torres de
Antioquia desapareceram na distância, um sentimento de alegria inundou o
coração dos deportados. A viagem para Antioquia da Pisídia não fora em vão.
DEUS abençoara sua obra ali, e centenas de crentes estavam testemunhando de
CRISTO na cidade, nas aldeias e povoados de toda a região. O ESPÍRITO de DEUS
certamente os guiara, pois a semente havia sido plantada.
A estrada para o leste era sinuosa e íngreme, mas bem pavimentada; era a
principal rota comercial, ligando a Síria às cidades do mar Egeu.
Dias Produtivos em Icônio
Icônio era a capital da Licaônia e distava de Antioquia mais de 96
quilômetros. Paulo e Barnabé decidiram ir para lá. Era uma velha cidade murada
que prosperara com a fertilidade das planícies que a cercavam. A jornada era
tensa, pois passava por um território bravio e cheio de bandoleiros.
Os muros de Icônio podiam ser vistos a quilômetros de distância, enquanto a
caravana descia as montanhas. A região era rica, e a primavera mostrava-se em
toda a sua plenitude nos vinhedos e jardins.
Os principais ídolos de Icônio eram Adônis e Cibele. Adônis era um belo jovem,
amado pela mitológica Afrodite, e morto por um javali durante uma caçada.
Cibele, filha de Arano, era representada sobre um trono ladeado por enormes
leões. Segundo a lenda, ela fizera Adônis voltar à vida.
Planejando passar algum tempo em Icônio, Paulo e Barnabé procuraram um
alojamento e voltaram a praticar o seu comércio. Milhares de judeus moravam em
Icônio, por isso foi fácil encontrar abrigo na cidade. O propósito deles era
fazer o mesmo que haviam feito em Antioquia. Quando chegou o sábado, foram à
sinagoga e aguardaram uma oportunidade para falar. O sermão assemelhava-se ao
de Antioquia, pois esse era o grande peso do coração de Paulo. Havia algo
divinamente sedutor na maneira como falavam, e a sua mensagem era tão atraente
que muitos judeus e gregos creram em JESUS.
Início da Igreja em Icônio
A princípio, os líderes da sinagoga não se opuseram a Paulo e a Barnabé.
pois interessava-lhes aquele novo ponto de vista. Porém, ao verem quantos da
sua congregação creram e quantos gentios estavam aceitando a CRISTO,
aborreceram-se com a pregação. Proibiram então os discípulos de freqüentar a
sinagoga, mas não puderam impedir que falassem nas ruas. O Senhor abençoou
tanto o trabalho em Icônio que grande número de pessoas veio a crer. Estava
iniciada ali uma forte igreja.
Quanto maior a oposição, tanto mais ousadamente os discípulos falavam. A
opinião do povo dividiu-se: alguns eram a favor do novo ensinamento; outros não
queriam saber dele. Os inimigos - judeus e gentios - opuseram-se abertamente, e
várias vezes os ameaçaram nas ruas. Mas a jovem igreja firmara-se na fé e Paulo
sabia que, quando partissem, os irmãos não voltariam aos ídolos. Adônis
perdera. Quem reinava agora nos corações era CRISTO! Ao serem informados por
alguns crentes de que os inimigos planejavam apedrejá-los até a morte, os
missionários despediram-se dos cristãos e deixaram rapidamente a cidade.
Seguiram pela estrada pavimentada até Listra e Derbe, cidades da grande
planície, a cerca de 29 quilômetros ao sul.
O Milagre em Listra
Mal haviam chegado a Listra e arranjado acomodações, surgiram oportunidades
para pregar em cada esquina. Na praça do mercado e em qualquer lugar onde as
pessoas se aglomerassem, Barnabé e Paulo falavam de JESUS, o Filho de DEUS, e
da vida cheia do ESPÍRITO. O contraste entre a nova vida e as orgias do templo
pagão, a que o povo se acostumara, era de fato notável.
Um grande templo dedicado a Júpiter ocupava o centro de Listra. O poeta Ovídio
conta que há muito tempo, Júpiter e Mercúrio desceram à terra disfarçados de
viajantes. Procuraram alojamento e alimentação de porta em porta, mas foram
repetidamente escorraçados. Chegaram finalmente a uma casa humilde, onde vivia
um casal idoso. Filemom e sua mulher, Baucis, acolheram os dois e os
alimentaram com seus parcos recursos. Quando a refeição terminou, os estranhos
revelaram que eram deuses e concederam ao casal vida longa como guardiães de um
templo sagrado.
Os moradores de Listra ouviram atentamente os apóstolos, enquanto estes
pregavam a CRISTO, e muitos deixaram a idolatria, tornando-se cristãos.
Numa tarde, quando Paulo discorria sobre o DEUS Único e Verdadeiro, viu entre a
multidão um homem paralítico de nascença. Alguma coisa no sermão comoveu o
homem, e Paulo sentiu que o ESPÍRITO de DEUS estava agindo poderosamente. De
repente, Paulo virou-se para o aleijado e ordenou em alta voz: "Levanta-te
direito sobre os teus pés!" (At 14.10).
Todos os olhos fitaram o infeliz. No mesmo instante, este se pôs em pé e
começou a andar e a saltar. Ninguém podia acreditar! Seria um sonho?!
Os Apóstolos são Recebidos como Deuses
Uma exclamação de surpresa seguida de um grande grito fez-se ouvir na
multidão. O povo presenciara um milagre. Embora fosse o grego a língua oficial,
na intimidade do lar, todos falavam o licaônico. Vendo o paralítico andar,
maravilharam-se de tal forma que abandonaram por um instante o grego e gritaram
no dialeto nativo: "Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens, e
desceram até nós" (At 14.11).
A notícia espalhou-se. Milhares de pessoas vieram ver os discípulos. A lenda de
Júpiter e Mercúrio estava se repetindo diante de seus olhos, confirmando a sua
religião. Enquanto os observava, o povo chamou Barnabé de Júpiter, por causa da
sua altura e porte atlético. A Paulo chamaram de Mercúrio, por ser o portador
da palavra.
Quando os sacerdotes do templo de Júpiter, no bosque junto à cidade, ouviram
falar disso, trouxeram touros e grinaldas até o portão da casa onde os
discípulos estavam hospedados. Homens e mulheres corriam agitados pelas ruas,
contando a todos que os deuses tinham descido até eles. Uma grande multidão,
guiada pelos sacerdotes, adentrou os portões para oferecer sacrifícios aos
deuses recém-chegados. Os gongos soavam; os tambores batiam. Grinaldas de
flores foram colocadas nos chifres dos touros. Aquele era um grande dia para
Listra!
Quando ficou evidente a Paulo e Barnabé que o povo queria adorá-los, ambos
perturbaram-se imensamente. Só de pensar, sentiam-se repugnados! De acordo com
o costume oriental, eles rasgaram as vestes em sinal de grande angústia e
correram gritando em meio a multidão.
Os gongos e címbalos silenciaram e a multidão se calou. Os "deuses"
estavam falando!
Varões, por que fazeis essas coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos
as mesmas paixões, e vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades ao DEUS
vivo, que fez o céu e a terra, o mar e tudo o quanto há neles; o qual, nos
tempos passados, deixou andar todos os povos em seus próprios caminhos;
contudo, não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu,
dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria o
vosso coração" (At 14.15-17).
Não foi sem razão que chamaram Paulo de Mercúrio - o mensageiro dos deuses. A
oratória que o povo ouvia de seus lábios era refinada e bela, muito superior a
qualquer outra que já tivessem ouvido.
As multidões debandaram com resmungos duvidosos, e os sacerdotes voltaram com
os touros aos estábulos do templo. O entusiasmo diminuíra, mas o povo comentou
o episódio durante vários dias. Aos poucos, homens e mulheres foram conhecendo
a JESUS CRISTO, e convencendo-se da verdade do Evangelho. A igreja em Listra
começava a crescer.
Timóteo e Seu Lar
Um dos novos crentes era o jovem Timóteo. Sua mãe, Lóide, e sua avó,
Eunice, viviam em Listra e abriram sua casa aos discípulos. Paulo e Barnabé
passaram bastante tempo com a família e, enquanto o jovem Timóteo os ouvia
contar repetidamente a história de CRISTO, descobriu que também queria ser
pregador do Evangelho. Seu coração foi aquecido pela forma como o ESPÍRITO de
DEUS usava os discípulos.
Porém, era inevitável que judeus de Antioquia e Icônio visitassem amigos em
Listra, ou fossem ali vender suas mercadorias. A história de Paulo e Barnabé
continuava viva em suas mentes; a presença de igrejas cristãs cheias de gentios
em suas cidades ainda machucava os rabinos. Estes achavam-se furiosos porque
ambos continuavam pregando o que, para eles, era uma religião falsa. Decidiram
deliberadamente acabar com aquilo. Não foi difícil instigar os judeus de Listra
contra os discípulos. E, com mentiras e informações manipuladas, fizeram brotar
tamanho ódio no coração dos conterrâneos que logo decidiram agir por conta própria
e matar os discípulos, especialmente o seu porta-voz.
O Apedrejamento de Paulo
Certo dia, estando Paulo falando a seus amigos cristãos, um grupo de judeus
de Icônio e Antioquia aproximou-se deles, e opôs-se abertamente às verdades
pregadas. Agitavam-se enraivecidos, enquanto Paulo respondia-lhes usando a
mesma Escritura. Até que, aos berros, aqueles homens correram em meio aos
ouvintes procurando dispersá-los. Punhos ergueram-se acompanhando o grito:
"Apedrejem-no! Ele merece morrer. Qualquer homem que pregue contra a Lei
de Moisés é um traidor. Apedrejem-no!"
As pedras zumbiam no ar, vindas de todas as direções. Paulo continuou firme
onde estava, suplicando-lhes em nome do Senhor JESUS. A essa altura, já se
achava ferido e sangrando, mas ainda podia ver a crescente ira do povo.
Finalmente, um homem atirou uma pedra mais pesada, atingindo a testa do
apóstolo. Sangrando e inconsciente, Paulo caiu. A multidão rodeou-lhe o corpo e
pôs-se a chutá-lo. Agarrando-o pelas roupas, arrastaram-no para fora da cidade,
e abandonaram-no em uma vala ao lado da estrada. "Esse é o fim de Paulo!",
pensaram satisfeitos, e voltaram às suas casas.
O pequeno grupo de amigos ficara indefeso ante a multidão. Acompanharam a turba
que arrastava o corpo de Paulo e temeram o pior. A voz de um grande apóstolo
fora silenciada. Já tinham visto muita gente morrer assim, mas... quem sabe
ainda estivesse vivo!
Fora da cidade, é possível que Barnabé, com seus braços fortes, tenha recolhido
e levado o corpo de Paulo à sombra fresca de uma árvore. Alguém deve ter ido
buscar água a fim de lavar o sangue e a sujeira. A ansiedade dos amigos foi
aliviada quando viram o apóstolo abrir os olhos, recuperando a consciência.
Alguém glorificou: "Louvado seja DEUS, que poupou o seu servo, livrando-o
dos nossos inimigos".
Os corações dos crentes foram reanimados. Ajudaram Paulo a levantar-se e o
levaram até a casa de Timóteo. As fiéis Eunice e Lóide trataram-lhe os
ferimentos e ajudaram-no a se recuperar.
Ao amanhecer, antes que os mercadores enchessem as ruas com suas mercadorias e
gritos, dois vultos saíram pelo portão sul da cidade. O mais baixo mancava e
apoiava-se no braço de seu alto companheiro. Eles seguiram pela estrada
pavimentada e depois por um caminho secundário, que passava por uma região
montanhosa. Esse era o caminho para as Portas da Cilícia, que Paulo chamava de
lar. A cidade aonde estavam indo, porém, era Derbe, distante cerca de quarenta
quilômetros ao sul. Era um posto alfandegário, onde Roma recolhia os impostos
sobre todas as mercadorias embarcadas.
O Inverno em Derbe
Não havia sinagoga em Derbe, mas ali viviam muitos conterrâneos de Paulo.
Como ele falasse com a autoridade de um rabino, os judeus escutavam-no de boa
vontade. O inverno chegara e as estradas logo estariam cobertas de neve. Nas
montanhas, as passagens ficariam bloqueadas durante meses, e ninguém viajaria
até a volta da primavera, quando a neve se derretia.
Paulo e Barnabé permaneceram tranquilamente em Derbe, durante todo o inverno.
Paulo fez e vendeu tendas, enquanto ensinava a nova fé em sua casa ou nos lares
que se lhe ofereciam. Embora nada espetacular acontecesse ali, uma forte igreja
foi fundada, pois muitos não puderam resistir à lógica do ensino,
convertendo-se dos ídolos a CRISTO. Durante os longos meses de inverno, os dois
discípulos estiveram completamente ocupados, chamando homens e mulheres a
JESUS, e o Senhor concedeu-lhes grande sucesso.
A neve derreteu-se nos vales e a brisa da primavera encheu o ar. A igreja de
Derbe já estava forte e capaz de continuar sem a ajuda de Paulo. Fazia mais de
dois anos que a igreja da Síria enviara os dois missionários; sementes haviam
sido plantadas e cresceriam para a vida eterna. O caminho fora difícil, mas o
Senhor estivera com eles e honrara-lhes o trabalho.
A Volta para Casa
A viagem de regresso teria sido fácil, se viessem pelas montanhas e pelas
portas da Cilícia até Tarso, passando depois por terreno muito familiar até
chegar à Síria. Paulo, porém, tinha bem vivido na mente o furor de Listra,
Icônio e Antioquia. Sem dúvida seria mais fácil voltar pelo caminho de Tarso;
mas, e as igrejas recém-fundadas? Como estariam suportando o chicote da
perseguição? Teriam crescido, ou algum membro enfraquecera, voltando a Adônis?
Estava claro que ele deveria visitar todas as igrejas e confirmar os cristãos
na fé. Eram seus amigos, e o apóstolo jamais cessara de orar por eles,
mencionando-os pelo nome. E se essa visita resultasse realmente em perseguição?
O Senhor não os protegera sempre? Paulo e Barnabé resolveram, então, voltar
pelo mesmo caminho.
Em Listra, as cenas eram familiares; já sabiam onde encontrar os cristãos.
Foram até à casa de Timóteo e ficaram contentes por saber que o povo de DEUS
continuava firme, apesar da perseguição. Paulo e Barnabé sentiam-se confiantes;
os cristãos de Listra estavam suficientemente fortes para se organizarem.
Portanto, em cada igreja, ordenaram presbíteros para supervisionar
espiritualmente a família cristã. A seguir, orando por todos, ambos partiram
para Icônio.
Depois de alguns meses, a igreja de Icônio fizera um verdadeiro progresso e
achava-se também pronta para ser organizada. Os discípulos fizeram isso e
continuaram o caminho de volta para casa.
Ao chegarem aos portões de Antioquia, de onde tinham sido expulsos alguns meses
antes, lembraram como os gentios daquela cidade haviam acolhido o Evangelho.
Foram recebidos com alegria pelos velhos amigos e informados de que os cristãos
de Antioquia haviam permanecido firmes durante todos aqueles meses.
Paulo pregou-lhes novamente e, antes de partir com Barnabé, nomearam homens de
confiança, provados durante a perseguição, para dirigir a igreja.
A primavera já estava bem avançada, e os discípulos queriam chegar ao porto de
Perge antes que aumentasse o calor do verão. Lembravam-se dos dias e noites
quentes quando chegaram a Perge, e como fora agradável o frio das montanhas em
sua viagem a Antioquia. Na planície que beirava a costa, o verão chegara em
toda a sua força. Como na visita anterior haviam passado pouco tempo pregando
em Perge, decidiram-se demorar ali e testemunhar de CRISTO. Dia após dia foram
usados por DEUS, e fundaram na cidade uma igreja.
Enquanto pregavam, esperavam por um navio que os levasse para casa. Havia
barcos de muitos lugares, mas nenhum que fosse para Selêucia. Despediram-se dos
crentes e continuaram a viagem pela planície até o mar, e depois ao longo da
estrada costeira até Atália, um dos maiores portos marítimos de todo o império.
Atália era grande e importante, e, como em qualquer outra cidade dessa região,
havia nela muitos judeus. Mas Paulo e Barnabé estavam ansiosos por encontrar um
navio que os levasse de volta, e seguiram imediatamente para o porto. Sua busca
teve sucesso; havia ali uma porção de barcos grandes e pequenos, oriundos de
terras estrangeiras de todas as partes do mundo.
Eles pagaram a passagem e, quando se levantaram os ventos matutinos, as velas
foram desfraldadas e o barco partiu, acompanhando a costa rochosa até Selêucia.
Durante todo aquele primeiro dia, puderam ver as altas montanhas da Panfília
elevarem-se sobre a vasta planície costeira. Haviam passado dois invernos
naquelas montanhas. O trabalho fora difícil, mas enquanto os morros
desapareciam na distância, os dois homens de DEUS recordavam-se de como o
Senhor havia honrado Sua Palavra. Em cada cidade, muitos que, há apenas um ano,
viviam nas trevas, estavam agora servindo a DEUS.
Todas as noites, enquanto navegavam e oravam sob as estrelas, Barnabé e Paulo
lembravam-se de cada crente fiel, agradecendo ao Senhor e entregando-os ao seu
cuidado. Até que a viagem chegou ao fim.
A GRANDE CONTROVÉRSIA
Paulo e Barnabé animaram-se ao avistar Selêucia. Ali estava o porto
de Antioquia, protegido pelo quebra-mar. Para os apóstolos era como voltar à
casa paterna; estar naquela igreja era o mesmo que estar em família. Era uma
igreja forte; maior que a igreja-mãe em Jerusalém. Paulo gostava dos cristãos
de Antioquia da Síria, e considerava-os uma igreja modelo. Afinal, haviam
aberto o coração aos gentios, recebendo-os juntamente com os descendentes de
Abraão no Reino de DEUS.
Os missionários mal tinham posto os pés no portão da cidade, e a notícia de sua
chegada já se espalhara. Naquela noite, uma grande multidão reuniu-se à volta
deles. Dois anos antes, aqueles crentes haviam acompanhado Paulo e Barnabé até
o navio que os levaria em sua primeira viagem missionária. Agora estavam de
volta, e todos queriam ouvi-los. Foi uma noite emocionante. Jovens e velhos
sentaram-se no chão, de pernas cruzadas, e ouviram-nos discorrer sobre a
atuação do poder de DEUS em cada cidade.
É provável que tenham contado toda a história; primeiro Barnabé e depois Paulo.
Ninguém se cansou de ouvi-los, e muitos choraram de alegria ao saber dos
caminhos de DEUS para os gentios. Os missionários falaram da viagem até Chipre;
de Sérgio Paulo em Pafos; do calor de Perge e da deserção de Marcos, que muito
os desapontara. Descreveram seu primeiro inverno passado na outra Antioquia, e
como muitos ali haviam se tornado cristãos. As fugas para Icônio e Listra, onde
Paulo tinha sido apedrejado, foram contadas rapidamente. Por último veio a
história do segundo inverno, passado em Derbe.
Em todas as cidades, tiveram de enfrentar a oposição dos judeus nas sinagogas;
mas na praça do mercado, os gentios tinham-nos ouvido de boa vontade e,
deixando os ídolos, haviam se voltado para DEUS. Centenas tinham aberto o
coração para JESUS! Em cada cidade visitada pelos missionários, uma igreja
havia sido estabelecida.
Importância da Primeira Viagem Missionária
Enquanto os cristãos de Antioquia ouviam as histórias missionárias, grande
alegria inundava-lhes o coração. DEUS estivera trabalhando. O plano de pregar o
Evangelho até os confins da terra estava se cumprindo com tremendo sucesso. Em
toda parte, apesar da oposição, lâmpadas estavam sendo acesas para brilhar e
dissipar as trevas do mundo. A semente fora plantada e regada, não só em
Jerusalém e Antioquia, mas também na Ásia Menor e em Chipre. Agora estava
crescendo e produzindo frutos. Nada mais restava a fazer a não ser convocar uma
reunião de oração e agradecer a DEUS por sua graça. Os cristãos oravam e
regozijavam-se por serem embaixadores a serviço de DEUS, arrancando homens e
mulheres de suas vidas vazias e trazendo-os para a vida abundante; da morte para
a vida eterna.
Paulo ficou vários meses em Antioquia, trabalhando na fabricação e comércio de
tendas, enquanto expunha as grandes verdades do Evangelho. Falava especialmente
da justiça de DEUS, que não pode ser obtida pela guarda da Lei, mas recebida
como um dom da sua maravilhosa graça. Homens e mulheres passaram a ver que
todas as suas esperanças e necessidades eram satisfeitas em JESUS CRISTO, o
Salvador.
Crescentes Dissensões na Igreja
Até essa época, a oposição encontrada por Paulo na pregação do Evangelho viera
de uma única fonte: o judeu incrédulo que, de tão enfurecido com o ensino
cristão, tornara-se cego. O desgosto dos judeus era aumentado pelo fato de
Paulo ter sido antes fariseu, rabino, amigo da sinagoga e inimigo dos
nazarenos. Todo judeu leal acreditava que Paulo fosse um traidor da Lei de
Moisés, e por causa disso, perdera o direito de ser respeitado. Paulo sabia
como se sentiam e simpatizava com eles. Não tivera os mesmos sentimentos antes
de sua conversão? Ele estava preparado para enfrentar a oposição e considerava
um privilégio argumentar com os que negavam sua mensagem.
O problema, porém, surgiu dentro da própria igreja: alguns judeus cristãos, de
mente estreita, não haviam aberto o coração aos gentios. Queriam que a Igreja
fosse uma seita judaica, do mesmo modo que o farisaísmo o era em Israel. Não
concordavam em receber os gentios, a não ser que se submetessem primeiro às
cerimônias da sinagoga. Achavam que os crentes gentios deviam tornar-se
prosélitos, e manter as leis judaicas referentes aos alimentos, festas,
abluções e ofertórios.
Pedro era amigo de Paulo. Desde que o Senhor lhe ensinara que os gentios também
faziam parte do seu plano e o guiara até o gentio Cornélio, tornara-se ele
favorável ao posicionamento de Paulo. Ao ouvir sobre a sólida congregação de
Antioquia, decidiu fazer-lhes uma visita.
A Visita de Pedro
Paulo recebeu Pedro com grande entusiasmo. Repetiu-lhe a história da
primeira viagem missionária à Ásia Menor, e contou-lhe como DEUS o abençoara,
juntamente com Barnabé, na pregação aos gentios. O coração do velho pescador
aqueceu-se com cada palavra. Comoveu-se com a fraternidade que observou em
Antioquia. Judeus e gentios reuniam-se ao redor da mesma mesa, compartilhando
as refeições como membros de uma única família. Isso seria algo inconcebível em
Jerusalém; proibido pela Lei Mosaica. E, infelizmente, os crentes em CRISTO
ainda levavam em conta tal proibição.
Encontrar e ouvir Pedro, o velho pescador que conhecera JESUS pessoalmente e
que podia descrever as histórias ocorridas em seu ministério terreno, foi uma
experiência memorável para os cristãos de Antioquia.
Pedro estava vendo e experimentando uma liberdade em CRISTO que nunca antes
conhecera. Em Antioquia, um negro e um branco sentavam-se juntos. Um escravo e
seu senhor eram um em CRISTO. Não havia diferença entre judeu e gentio, desde
que ambos tivessem sido batizados pelo ESPÍRITO de DEUS na igreja. Estavam
unidos por um laço mais forte que qualquer outra coisa neste mundo.
A Propagação da Discórdia
Pedro alegrou-se com tudo o que viu, até o dia em que mensageiros
autonomeados chegaram a Jerusalém para espalhar a discórdia. Eles sabiam tudo
sobre Barnabé e Paulo, e a história do seu trabalho no Ocidente os desagradara.
Resolveram então ir a Antioquia, e interromper quaisquer o era em mais gentios
à Igreja. Por serem da igreja de Jerusalém, julgavam-se revestidos de
autoridade. Com ousadia, advertiram os gentios de que não seriam cristãos, a
não ser que se submetessem primeiro aos mandamentos dados por Moisés aos
israelitas.
Pedro ouviu falar deles, e reconheceu tratarem-se dos fariseus que criam em
JESUS, mas não conseguiam desistir do Judaísmo. Eles representavam muitos de
seus conterrâneos, e o seu zelo em purificar a Igreja de todos os gentios era
suficientemente grande para levá-los a fazer uma viagem tão longa. Pedro não
concordava, mas temendo que viessem a perturbar seu ministério em Jerusalém,
decidiu que enquanto estivessem presentes, se afastaria dos gentios. Isso lhe
pareceu necessário porque alguns daqueles homens tinham grande influência na
igreja e eram nitidamente sinceros.
Paulo Enfrenta os Perturbadores da Ordem
Nem Pedro nem os visitantes da Judéia tinham qualquer idéia da
grande força e convicção de Paulo. Em dias passados, Paulo tinha sido um deles
e sabia exatamente quais eram os pensamentos de um fariseu. Portanto, não teve
piedade; lutou com todas as forças contra aqueles homens que estavam tentando
destruir a liberdade desfrutada pelos cristãos mediante a graça de DEUS. Eles
afirmavam não haver salvação sem observância da Lei. Eram um inimigo
formidável, pois até Barnabé ficou impressionado e, por um momento, começou a
duvidar se agira corretamente ao admitir os gentios (Gl 2.12,13).
Certo dia, numa assembleia da igreja, os visitantes falaram tão convictamente,
que uma sombra de incerteza pairou sobre a congregação.
Paulo subiu à plataforma. Já vira e ouvira o suficiente! Era hora de colocar
aqueles perturbadores no seu devido lugar! Eles haviam confundido muitos dos
gentios cristãos com a sua estreiteza de espírito. Ou não compreendiam a graça
de DEUS, ou eram inimigos da Igreja, como os lobos que se insinuam para
espalhar o rebanho. Disse então a Pedro e aos outros judeus:
Nós somos judeus por natureza e não pecadores dentre os gentios. Sabendo que o
homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em JESUS CRISTO, temos
crido em JESUS CRISTO, para sermos justificados pela fé de CRISTO e não pelas
obras da lei, porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.
Pois, se nós, que procuramos ser justificados em CRISTO, nós mesmos também
somos achados pecadores, é porventura, CRISTO ministro do pecado? De maneira
nenhuma. Porque se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim
mesmo transgressor. Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver
para DEUS. Já estou crucificado com CRISTO; e vivo não mais eu, mas CRISTO vive
em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de DEUS, o qual
me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gl 2.1521).
Enquanto Paulo continuava argumentando, Barnabé compreendeu que errara ao dar
ouvidos aos visitantes da Judéia, e pensou na forma como DEUS movera o coração
dos gentios em toda a Ásia. Estava convencido de que Paulo tinha razão, e
agradeceu ao Senhor pela coragem que o levara a opor-se aos falsos mestres.
A resposta era clara. A igreja tinha de chegar a uma decisão definitiva sobre a
questão dos gentios. A controvérsia não poderia ser resolvida em Antioquia, mas
apenas em Jerusalém, onde muitos queriam que a Igreja continuasse como mera
seita judaica.
O Apelo a Jerusalém
Embora o argumento de Paulo tivesse vencido temporariamente, e todos
tivessem ficado felizes na igreja de Antioquia, eles compreendiam que, para o
futuro da Igreja, alguma norma definitiva tinha de ser estabelecida. O conselho
concordou então que Paulo e Barnabé fossem enviados a Jerusalém, onde
deliberariam com os apóstolos e resolveriam essa importante questão.
Era inverno, e os barcos costeiros permaneceriam ancorados até a primavera.
Portanto, teriam de viajar cerca de 11.200 quilômetros por terra. Isso
significava seis longas semanas, ou mais, e embora a viagem não fosse novidade
para Paulo, ele achou mais seguro viajar em caravana.
Providos de alimentos, roupas quentes e dinheiro dado pela igreja, Paulo e
Barnabé partiram pela estrada do litoral. O céu estava carregado e cinzento,
mas os cristãos de Antioquia acompanharam-nos até certo ponto do caminho. Após
a despedida, os crentes voltaram às suas casas a fim de orar pela segurança dos
amigos e para que tivessem êxito em sua missão.
Dia após dia, os três cavalgaram pela estrada pavimentada. Os rios tinham se
tornado caudalosos com as chuvas, mas havia pontes de pedra para atravessá-los.
Ao cair da noite, apressavam-se para chegar a algum vilarejo onde encontrar
abrigo. No pátio da estalagem, armavam a tenda e acomodavam-se para passar a
noite.
Os apóstolos pararam em muitas aldeias por toda a província da Fenícia, e
quando chegaram a Tiro e Sidom, ficaram por alguns dias, encontrando vários
grupos de crentes e confirmando-os na fé. Paulo recapitulou, para ouvidos
atentos, a história da sua viagem à Panfília, Pisídia e Licaônia. Os cristãos
agradeceram a DEUS, e animaram a Paulo com suas orações. Rogaram que o Senhor
protegesse o grupo que se dirigia a Jerusalém com o propósito de resolver a
questão dos gentios.
Em Samaria havia muitos cristãos e, em cada igreja, os discípulos contaram a
história do seu trabalho em Antioquia e na Ásia Menor. Os cristãos de Samaria
ficaram contentes com o relato. Eles nunca tinham ficado presos às regras dos
rabinos de Jerusalém, e quando Paulo contou sobre os gentios que aceitaram a
CRISTO, alegraram-se muito. Fortaleceram os apóstolos em sua jornada, com a
esperança de que DEUS honraria o seu testemunho em Jerusalém.
Quando foram avistadas as montanhas da Judéia, os três servos do Senhor estavam
realmente completando outra viagem missionária, pois haviam fortalecido e
confirmado as igrejas ao longo de todo o trajeto até a Cidade Santa. Fazia seis
anos que Paulo visitara Jerusalém, levando as ofertas dos santos de Antioquia.
Mas dessa vez, encontrava-se ali para defender a si mesmo e aos cristãos
gentios dos ataques dos falsos mestres, que procuravam destruir-lhe a
liberdade.
Na casa da mãe de Marcos, encontraram vários líderes da igreja. Esses homens os
receberam cordialmente, e ouviram de boa vontade a narrativa de como DEUS
operara por meio de Barnabé e Paulo na grande viagem. Paulo ficou sabendo que
os falsos mestres, que tanto perturbaram os crentes de Antioquia, não haviam
sido enviados oficialmente pela igreja de Jerusalém, nem eram líderes desta.
Diante de uma grande plateia, Barnabé e Paulo discorreram sobre as suas viagens
e sobre o poder de DEUS para salvar pessoas que antes adoravam ídolos. Mesmo
assim, houve quem se levantasse e declarasse que todos esses estrangeiros não
eram cristãos de verdade porque não obedeciam à Lei de Moisés. Estavam até
comendo carne que não fora preparada de acordo com a lei! Enquanto esses homens
estreitavam as portas do reino, Paulo argumentava que a retidão jamais seria
conferida a qualquer homem por obedecer à Lei de Moisés, mas sim pela fé no
Senhor JESUS, que tinha os braços abertos a todos.
A Solução da Grande Controvérsia
A solução não foi encontrada de imediato. Após muita disputa e acirradas
discussões, os apóstolos e presbíteros convocaram uma reunião para considerarem
as várias opiniões e chegarem a uma decisão. Participaram da reunião
representantes dos dois partidos. Suas opiniões eram tão inflexíveis que a
amargura insinuou-se no debate. Só com grande dificuldade Tiago, o irmão do
Senhor, e líder reconhecido da igreja-mãe, conseguiu manter a ordem.
A seguir, Pedro, o discípulo que falara com JESUS exatamente sobre o assunto, e
que conhecera a vontade de DEUS através de uma visão repetida três vezes,
levantou-se e exigiu atenção de todos:
Varões irmãos, bem sabeis que já há muito DEUS me elegeu dentre vós, para que
os gentios ouvissem da minha boca a palavra do Evangelho e cressem. E DEUS, que
conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o ESPÍRITO SANTO, assim
como também a nós. E não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando o
seu coração pela fé. Agora, pois, por que tentais a DEUS, pondo sobre a cerviz
dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós podemos suportar? Mas cremos
que seremos salvos pela graça do Senhor JESUS, como eles também (At 157-11).
Pedro sentou-se e a multidão ficou em silêncio. Todos os olhos voltaram-se a
Barnabé e Paulo, esperando que dessem a última palavra. Mas Paulo já dera sua
opinião e só lhe restava confirmá-la, descrevendo os sinais e prodígios
operados por DEUS quando ele e Barnabé pregaram o Evangelho em terras
distantes.
Depois disso, ninguém mais falou. Até os que se opunham ferozmente a Paulo não
puderam mais defender sua posição. Alguns ainda não se achavam inteiramente
convencidos, mas não puderam argumentar contra o poder de DEUS.
Após alguns minutos de silêncio, Tiago, respeitado por todos como irmão do
Senhor, resumiu os pensamentos colhidos na reunião:
"Varões irmãos, ouvi-me", disse ele solenemente e com grande
dignidade. Os ouvintes inclinaram-se para ouvir cada sílaba, pois ele era o seu
chefe e diria, sem dúvida, palavras de sabedoria.
Varões irmãos, ouvi-me: Simão relatou como, primeiramente DEUS visitou os
gentios, para tomar deles um povo para o seu nome. E com isso concordam as
palavras dos profetas, como está escrito: Pelo que julgo que não se deve
perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a DEUS, mas
escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição,
do que é sufocado e do sangue. Porque Moisés, desde os tempos antigos, tem em
cada cidade quem o pregue e, cada sábado, é lido nas sinagogas (At
15.1315,19-21).
A Primeira Carta Circular as Igrejas
Para tornar oficial a decisão, Tiago e os outros discípulos escreveram uma
carta para ser lida e explicada na igreja de Antioquia. Judas e Silas foram
escolhidos para a levar o documento até lá. Era tão importante a decisão do
primeiro concilio, que eles enviaram seus principais membros como portadores
das notícias; homens revestidos da maior dignidade aos olhos da igreja.
Essas foram palavras sábias, com as quais todos os apóstolos e presbíteros
concordaram. Paulo vencera a grande controvérsia: estrangeiros de todo o mundo,
de qualquer procedência, poderiam ser cristãos sem prestar obediência à lei
judaica. Resgatada da estreiteza do Judaísmo, a Igreja estender-se-ia ao mundo
todo. Os cristãos estavam livres da sinagoga!
Essa foi a primeira das cartas circulares às igrejas. O próprio Paulo, em anos
posteriores, usaria esse método de escrever às igrejas, assim como Pedro e
João.
Paulo e Barnabé viajaram para casa com o coração leve. Seu entusiasmo não
conhecia limites! Agora, podiam fazer um relatório alegre a todas as
congregações. A Igreja dera finalmente um grande passo e removera suas cadeias
para sempre. Que imensurável satisfação para os crentes gentios!
Retornando a Antioquia, Paulo e Barnabé convocaram os cristãos a fim de
comunicar- lhes o resultado da reunião em Jerusalém. O silêncio reinou quando
Judas e Silas foram apresentados. Seus nomes eram bastante conhecidos na igreja
de Jerusalém, e os crentes de Antioquia tiveram grande satisfação em
recebê-los.
Os dois contaram sobre as reuniões em Jerusalém e do debate acalorado com
respeito aos gentios. A seguir mostraram a carta assinada por Tiago, onde
estava escrito.
Os apóstolos, e os anciãos, e os irmãos, aos irmãos dentre os gentios que estão
em Antioquia, Síria e Cilícia, saúde.
Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras
e transtornaram a vossa alma (não lhes tendo nós dado mandamento), pareceu- nos
bem, reunidos concordemente, eleger alguns varões e enviá-los com os nossos
amados Barnabé e Paulo, homens que expuseram a vida pelo nome do nosso Senhor
JESUS CRISTO. Enviamos, portanto, Judas e Silas, os quais de boca vos
anunciarão também o mesmo. Na verdade, pareceu bem ao ESPÍRITO SANTO e a nós
não vos impor maior encargo, senão essas coisas necessárias: Que vos abstenhais
das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue e da carne sufocada, e da
fornicação; dessas coisas fareis bem se vos guardardes. Bem vos vá. (At
15.23-29).
A congregação louvou a DEUS pela notícia e decidiu, mais fervorosamente que
nunca, propagara mensagem da salvação por JESUS CRISTO a todo o mundo gentio -
até à própria Roma!
Embora para os discípulos a grande disputa houvesse terminado, muitos em
Jerusalém não estavam plenamente convencidos. Com o passar dos anos, em
diversas igrejas por todo o império, Paulo os encontraria pregando seus padrões
farisaicos. Alguns argumentavam que a liberdade da Igreja corria risco e que a
obra de CRISTO estava dividida. Mas agora, finalmente, os apóstolos tinham
liberdade para pregar aos gentios e recebê-los com todos os direitos na Igreja.
A SEGUNDA VIAGEM MISSIONÁRIA
Paulo permaneceu em Antioquia durante todo o inverno. As estradas
das montanhas estavam cobertas de neve e os barcos ancorados no cais, onde
permaneceriam até que as brisas da primavera enchessem o ar. A oficina onde
Paulo fabricava suas tendas era um ponto de comércio e local de encontro para
os cristãos, que gostavam de levar os amigos não convertidos para ouvirem-no
falar de JESUS. Barnabé era o amigo e companheiro constante de Paulo. Com eles,
a igreja tinha uma liderança leal e criara novas forças.
Além de Paulo e Barnabé, outros homens vindos de Jerusalém ocupavam posições de
liderança em Antioquia, e pregavam na cidade e aldeias vizinhas. Um deles,
chegado recentemente, era Silas. Depois de cumprir sua missão na igreja de
Antioquia, Silas decidira deixar sua antiga casa e encontrar trabalho na Síria,
onde poderia desfrutar da amizade dos novos irmãos.
A Separação de Paulo e Barnabé
Quando o clima se tornou favorável às viagens, Paulo sentiu que deveria
visitar outra vez as igrejas do Ocidente. Eram igrejas novas; precisavam ser
orientadas. Paulo carregava no coração um peso constante por esses cristãos
novos, e à medida que o plano foi-se-lhe formando na mente, procurou o amigo
Barnabé, na esperança de viajarem juntos outra vez.
Tornemos a visitar nossos irmãos por todas as cidades em que já anunciamos a
palavra do Senhor, para ver como estão (At 15-36).
Barnabé concordou, e imediatamente tiveram início os preparativos para a
partida. Todavia, Barnabé achou que deveriam levar João Marcos, seu primo, para
ajudar no trabalho. Mas Paulo recusou terminantemente. Marcos tivera a sua
oportunidade e os abandonara nas montanhas da Panfília, justamente quando mais
precisavam dele. Desde que Marcos optara pela segurança da cidade, Paulo não
estava disposto a repetir a experiência. Certamente, a mão de DEUS não estivera
na primeira associação de Marcos com os dois apóstolos. Por que haveriam de
supor que as coisas fossem diferentes agora?
Barnabé, porém, estava decidido a ponto de pôr em risco o sucesso do
empreendimento. Sua determinação colidiu com a recusa direta de Paulo e houve
discussão entre ambos. Era a primeira vez que isso acontecia. As palavras
trocadas foram tão ásperas que os planos para viajarem juntos tiveram de ser
cancelados. Um motivo tão insignificante serviu para separar os amigos que
juntos haviam enfrentado tantos perigos. Mas cada um julgava estar com a razão,
e nenhum quis ceder.
DEUS finalmente transformou o mal em bem: em vez de um, dois grupos foram
formados. Barnabé navegou para Chipre, levando consigo seu jovem primo Marcos,
enquanto Paulo convidou Silas a acompanhá-lo às igrejas da Ásia Menor.
A briga foi violenta e áspera, mas de pouca duração. Com o passar dos anos,
Marcos justificaria plenamente a confiança do primo, e Paulo alegrar-se-ia em
recebê-lo e servir-se dele como um honrado ministro. Prevaleceria o amor de
DEUS, e o sentimento provocado pela disputa dissipar-se-ia ante a necessidade
de espalhar o Evangelho.
A Segunda Viagem Missionária
Barnabé e Marcos embarcaram num navio, enquanto Paulo e Silas foram por
terra ao longo da estrada dos mercadores, atravessando as altas serranias de
Listra. O zelo demonstrado por Silas em Antioquia impressionara Paulo, e
dera-lhe a certeza de que DEUS honraria o seu testemunho onde quer que fosse.
Silas, como Paulo, era cidadão romano. Juntos, pensou Paulo, poderiam realizar
grandes coisas para DEUS, enquanto visitavam as cidades gentias.
Com as mochilas às costas, e os jumentos carregados de provisões, despediram-se
dos irmãos e partiram para o monte Tauro. Por essa estrada, Paulo viajara
quando criança para ir a Jerusalém com o pai. Era uma estrada larga, e ele
tinha a sensação de conhecer cada palmo dela. Mas, por segurança, foram em
grupos, juntando-se aos mercadores e peregrinos.
Provavelmente, Paulo conhecia bem a Síria e a Cilícia. Bem pode ser que tenha
pregado em muitas aldeias e cidades dessa região, enquanto aguardava o chamado
de DEUS em Tarso. Havia diversas pequenas igrejas em lugarejos perto da
estrada, e Paulo pretendia visitá-las, confirmando-as na fé e encorajando-as a
manter firme lealdade a CRISTO.
As igrejas precisavam realmente dessa visita. Não tinham o Novo Testamento para
orientá-las na vida cristã e, às vezes, as ondas da perseguição eram enormes.
Receber a visita do apóstolo Paulo, conhecer Silas que viera da igreja-mãe, e
ouvir sobre os cristãos de outras cidades, era sem dúvida de grande ajuda.
Na Cilícia
Paulo e Silas viajaram por estradas acidentadas e trilhas pedregosas. Foram
de cidade em cidade, algumas vezes seguindo o curso do rio, outras, subindo as
trilhas das montanhas. Mas seguiam conscientes da presença de DEUS e de que seu
povo carecia de encorajamento. Onde chegavam, encontravam amigos que lhes
ofereciam hospitalidade e convidavam outros crentes para conhecerem os
apóstolos. Atravessaram assim a passagem elevada da montanha, que levava à
Cilícia. As estradas eram íngremes nos Montes Amanos, e havia poucas cidades na
parte ocidental da província. Essa era a terra natal de Paulo, e ele estivera
muitas vezes em cada vilarejo, vendendo suas tendas. Mais tarde, pregara o
Evangelho nessa região. Agora, portas amigas abriam-se para eles em todos os lugares.
Os cristãos reuniam-se com os apóstolos e ouviam Silas ler a carta de
Jerusalém. Também compraziam-se com a pregação de Paulo.
No Lar em Tarso
Finalmente, deixaram o desfiladeiro e os rochedos escarpados, descendo à
vasta planície no vale do Cnido. Tarso continuava sendo o lar de Paulo, embora
seus pais já houvessem falecido. Havia uma igreja em Tarso, e muitos amigos que
Paulo conhecera na sinagoga faziam agora parte dela. Eles alegraram-se com a
sua volta e o acolheram juntamente com Silas. Era um privilégio conhecer
aqueles homens a quem DEUS escolhera para levar o Evangelho ao mundo. A igreja
havia prosperado e contava com muitos gentios entre seus membros. Não havia
diferenças na comunhão; amavam-se como membros de uma mesma família.
A carta de Tiago foi lida aos cristãos de Tarso. Paulo advertiu-os a que se
mantivessem firmes na liberdade cristã, sem se contaminarem com a idolatria.
Na Licaônia
Paulo e Silas pretendiam visitar as igrejas recém-estabelecidas. Portanto,
despedindo-se dos cristãos de Tarso, juntaram-se ao fluxo constante de
mercadores na importante estrada que seguia para a província da Licaônia,
atravessando os Portões da Cilícia, no lado norte do Monte Tauro. Apenas um ano
se passara desde que Paulo e Barnabé haviam deixado Derbe. Quando a cidade
surgiu à sua frente, animaram-se com a expectativa de uma recepção amigável.
Lembranças dos santos de Derbe, Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia inundaram
a mente de Paulo. Lembrou-se da disposição com que receberam o Evangelho e de
seu zelo face à perseguição. O coração do apóstolo aqueceu-se com a idéia de
revê-los. Estariam todos lá, ou alguns teriam voltado aos ídolos?
Os dois homens alegraram-se ao ver a fidelidade desses irmãos em CRISTO. Como
ficaram felizes por rever Paulo! Mas este não pôde demorar muito em qualquer
desses lugares. Sua missão não era fundar igrejas. Isso já fora feito e ele
notou que, desde sua primeira visita, a Igreja crescera em cada cidade. Isto
foi um grande incentivo a Paulo. Depois de falarem sobre a decisão do concilio
de Jerusalém e lerem a carta de Tiago, Paulo e Silas partiram apressados,
desejosos de chegar a novos lugares.
Não enfrentaram perseguição nessa viagem, porque não fazia parte de seus planos
pregar nas praças do mercado. Isto estava sendo feito por outros, e o Senhor
vinha acrescentando diariamente à igreja os que aceitavam a CRISTO.
Em Listra, Paulo visitou a casa de Timóteo, recordando a bondade de Lóide e
Eunice, especialmente quando fora apedrejado e jogado quase morto numa vala
fora da cidade. O testemunho de Timóteo agradou tanto a Paulo e Silas, que
ambos pensaram em convidar o jovem a acompanhá-los na jornada. Ele substituiria
João Marcos, que desertara na primeira viagem.
Listra e Timóteo
No ano em que Paulo e Barnabé ali estiveram, Timóteo trabalhara tão
fielmente na igreja que os membros mais velhos tinham muitos elogios a
fazer-lhe. Timóteo era filho de pai grego e mãe judia. Seu pai, como muitos
gregos cultos da época, talvez não tivesse encontrado qualquer satisfação em
seus deuses pagãos. Ele aparentemente concordara, de boa vontade, que sua
esposa ensinasse ao menino a religião judaica. Timóteo ouvira desde a infância
as histórias do Antigo Testamento, e podia descrever os tratos de DEUS com seu
povo e sua promessa do Messias. No correr do tempo, a mãe de Timóteo, Eunice,
ouvira o Evangelho. Assim como o jovem Timóteo, ela e sua mãe idosa, Lóide,
creram em JESUS como o CRISTO e foram recebidas na igreja.
Agora, de boa vontade, Eunice entregava a DEUS o rapazinho, deixando que
acompanhasse os missionários numa viagem a terras distantes - talvez ao
estrangeiro - levando as Boas Novas. Paulo amava o rapaz, chegando até a
chamá-lo de filho. Orgulhosa por um de seus jovens estar sendo convocado por
DEUS, a igreja de Listra fez uma reunião especial. Os presbíteros, com Paulo e
Silas, impuseram as mãos sobre Timóteo, em oração solene, separando-o para o
ministério.
A Mensagem de Icônio
A cidade de Icônio ficava a apenas quarenta quilômetros de distância, e os
cristãos de lá souberam da chegada de Paulo. Quando o pequeno grupo de
viajantes se aproximou, a notícia correu, e muitos crentes foram cumprimentar
Paulo. Eles lembravam-se de sua primeira visita e dos muitos milagres que
operara naquela ocasião. Aqueles cristãos amavam o apóstolo Paulo; deviam a
salvação ao seu esforço incansável na pregação do Evangelho. Silas leu a carta
de Tiago aos cristãos judeus e gentios, que se rejubilaram ao saber que eram um
só em CRISTO e membros do mesmo corpo. Não era sempre que podiam ouvir homens
como aqueles, por isso ficaram até tarde fazendo perguntas e tirando as dúvidas
que tinham em seu primeiro ano de vida como igreja. Paulo teve prazer em ajudá-los
e fortalecê-los com palavras de exortação, animando-os a manterem-se firmes na
fé em CRISTO JESUS e a pregar acerca dEle, aonde quer que fossem.
Em Antioquia da Pisídia
A mesma advertência foi repetida em Antioquia, e o coração dos cristãos
animou-se com a visita e as notícias das outras igrejas. Em toda parte houve
júbilo com o conteúdo da carta de Tiago. Era como se um grande fardo tivesse
sido removido dos ombros dos cristãos gentios. Antes, sentiam-se infelizes pela
incerteza da sua posição. A própria igreja sentia-se inquieta ao pensar que
alguns discípulos de Jerusalém não admitiriam gentios em sua comunhão. Mas
agora, tudo fora resolvido e a igreja desfrutou de grande paz.
Sensibilidade à Liderança divina
Paulo, Silas e o novo companheiro, Timóteo, gostaram das visitas, mas
queriam seguir para um território onde o Evangelho ainda não tivesse penetrado.
Sentindo que já haviam ficado o suficiente em Antioquia da Pisídia,
despediram-se dos amigos. Juntando-se a um grupo de viajantes, seguiram na
direção nordeste, para a província da Galácia. Sua idéia era ir até as colônias
judaicas do mar Negro. A estrada era boa, não muito íngreme nem perigosa. Saía
dos montes Sultão e estendia-se por planícies cobertas de matas, passando por
vales aprazíveis e chegando ao mar distante. Viajar sozinhos, porém, não era
recomendável, pois os lobos, leopardos e leões eram comuns no planalto, para
além das montanhas. As feras não molestavam os grupos grandes; os que viajavam
sozinhos, porém, jamais chegavam ao seu destino.
Depois de percorrerem cerca de 160 quilômetros, chegaram às exuberantes
florestas da Bitínia, onde as encostas desciam suavemente até o mar Negro.
Estavam aproximando-se do seu objetivo, e a viagem parecia convidativa. Mas, de
repente, Paulo compreendeu que DEUS não queria que fossem à Bitínia. Quer
tivesse sonhado ou tido uma visão, ficou cada vez mais claro que deveriam
voltar. Paulo vivia bem perto do Senhor, e era sensível à sua orientação;
jamais começava qualquer viagem sem primeiro colocar seus planos diante de
DEUS. De alguma forma, tornou-se evidente que deveria desistir daquela viagem e
seguir noutra direção.
Paulo Adoece na Galácia
Consultando-se entre si, decidiram ir para a Ásia, pregando ao longo do
caminho. Mas o ESPÍRITO de DEUS falou-lhes claramente que não deveriam se
demorar pregando na Ásia. Ficaram perplexos, imaginando aonde DEUS finalmente
os levaria. Voltando pela estrada em direção ao ocidente, Paulo adoeceu e o
grupo teve de parar em uma das cidades da Galácia. Prosseguir era impossível;
Paulo estava fraco e precisava descansar. Os irmãos daquela igreja cuidaram
bondosamente dele e fizeram o possível para que se restabelecesse. Trataram-no
como a "um anjo de DEUS".
Bem mais tarde, Paulo escrever-lhes-ia, recapitulando toda a história:
E vós sabeis que primeiro vos anunciei o Evangelho estando em fraqueza na
carne. E não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na minha
carne; antes, me recebestes como a um anjo de DEUS, como JESUS CRISTO mesmo.
Qual é, logo, a vossa bem- aventurança? Porque vos dou testemunho de que, se
possível fora, arrancaríeis os olhos, e mos daria (Gl 4.13-15).
Podemos supor que Paulo sempre tenha tido problemas com os olhos, e sua
enfermidade talvez tivesse sido uma recidiva que provocou uma inflamação.
Considerando isto um obstáculo ao seu ministério, orou ao Senhor, em três
ocasiões, rogando que lhe removesse a doença. Embora DEUS ouvisse e atendesse
às orações de Paulo, sua resposta foi um não. Em vez de curá-lo, DEUS
concedeu-lhe forças para vencer e provar que o sofrimento e a fraqueza podem
ser suportados com dignidade.
Em Trôade
Com a ajuda de DEUS, Paulo recuperou-se o suficiente para continuar viagem.
Sem saber o que o Senhor lhes reservava, os três viajaram para o Oeste, e
atravessaram a província de Mísia, onde não tiveram oportunidade de pregar.
Certo dia, encontraram-se no porto de Trôade, à beira das águas azuis do mar
Egeu. Trôade era um porto famoso. Era a Tróia* da conhecida poesia de Homero e
palco de muitas batalhas. A história do cavalo de Tróia desperta hoje o mesmo
interesse que despertava nos dias de Homero.
Paulo, porém, não tinha tempo para pensar no passado; ele refletia sobre o
presente e o futuro. Do alto dos montes que circundavam a cidade, podia-se ver
as ilhas gregas estendendo- se como degraus para que um gigante atravessasse o
mar a seco. Os viajantes sabiam que além delas achava-se o grande continente
europeu, que abrangia as extremidades das terras conhecidas, pelo homem. Ali
encontrava-se o abismo da ignorância paga, e também o centro da cultura grega;
para além, a grande cidade de Roma, a terra dos Césares.
Essa era uma civilização rica em estátuas, templos e palácios senhoriais. O
povo adorava nos santuários da lascívia e do prazer, rendendo homenagens a
Júpiter, Saturno e Juno, assim como a um exército de deuses menores.
Paulo e Silas permaneceram ali, perguntando-se aonde o Senhor desejaria
levá-los. Ansiavam por envolver-se na pregação do Evangelho. Estavam perplexos
por DEUS não lhes ter aberto uma porta em quaisquer cidades ou metrópoles do
norte da Ásia Menor. Agora encontravam-se em Trôade, uma cidade-fortaleza
romana. Seria esse o lugar escolhido por DEUS, ou teriam de continuar viajando?
Enquanto esperavam dia após dia, travaram conhecimento com um pequeno grupo de
cristãos. Paulo não lhes ministrou, mas encontrou entre eles aquele que veio a
ser seu melhor amigo: Lucas. O médico amado, escritor do Evangelho que lhe leva
o nome e do livro de Atos, juntou-se aos três viajantes em Trôade. Ele já era
cristão e, apesar de muito respeitado como médico, estava disposto a passar a
vida curando almas.
*Há divergências quanto à nomenclatura utilizada. Trôade não deve ser
confundida com a Tróia dos relatos de Homero.
O Chamado para a Macedônia
Certa noite, DEUS falou a Paulo num sonho. Paulo podia ver as ilhas da
Grécia estendendo-se como uma ponte sobre o mar Egeu, até as ilhas distantes...
Um homem da Macedônia, de pé, com os braços estendidos, suplicava-lhe que
cruzasse o mar e fosse ajudá-lo e a seus conterrâneos. O chamado há tanto
esperado chegara afinal. O suspense terminara. Pela manhã, Paulo contou o sonho
a Silas, Timóteo e Lucas, e todos concordaram que o Senhor queria que fossem à
Europa. Não havia tempo a perder. Naquela mesma manhã, com suas bagagens às
costas, saíram à procura de um navio que fosse para o Ocidente. Quando a fresca
da noite desceu sobre a cidade e o vento sul assoprou, o navio desfraldou as
velas iniciando a jornada de 160 quilômetros, que levaria os apóstolos até Filipos,
na Macedônia.
No dia seguinte, alcançaram a ilha de Samotrácia; à noite, desembarcaram em
Neápolis. Após uma noite de descanso, fizeram uma viagem curta, pegando a
estrada pavimentada que seguia o rio para o interior, até a cidade de Filipos.
A Obra de Paulo em Filipos
"Passa à Macedônia e ajuda-nos!" tinha sido o grito do macedônio.
É claro que a ajuda de que precisavam não se tratava de instrução. Pois eles
tinham escolas muito melhores que as da Judéia. Tão pouco necessitavam ajuda
para se tornarem fortes ou ricos. Filipos tinha riqueza, e aqueles quatro
homens nada poderiam lhes acrescentar. O que nem os romanos nem os gregos
possuíam era a felicidade verdadeira. Os prazeres eram abundantes, mas sem
CRISTO não havia como serem saciados. Filipos tinha sido capturada anos antes
por Roma, e muitos cidadãos romanos vieram morar na cidade. Ela tornara-se
parte do grande Império Romano que se estendia por toda a terra, desde a
Bretanha até a Palestina. Era agora uma colônia livre de impostos, e tinha
entre seus habitantes muitos romanos de alta categoria.
Não havia sinagoga na cidade, porque o número de judeus era pequeno. Os poucos
que havia reuniam-se todos os sábados para orar num lugar afastado, fora da
cidade, às margens de um rio. O pequeno grupo compunha-se em sua maioria de
mulheres. Algumas delas eram prosélitas que, abandonando a idolatria, haviam
encontrado na religião de Israel algo infinitamente melhor.
Lídia, a Vendedora de Púrpura
Os quatro homens destacavam-se entre as mulheres. E quando Paulo começou a
pregar, o coração de uma determinada gentia comoveu-se grandemente. Tratava-se
de Lídia, comerciante de Tiatira, do outro lado do mar. Lídia era uma viúva que
se vira forçada a manter o próprio negócio, como vendedora de tecidos feitos de
púrpura. Tiatira era conhecida pela sua tinta de púrpura, e Lídia enriquecera
vendendo suas mercadorias às mulheres romanas da cidade.
O coração de Lídia sensibilizou-se com o sermão. Ela cria no DEUS dos hebreus
e, como eles, esperava o Messias. Paulo pregou. O ESPÍRITO de DEUS abriu o
coração dessa mulher especial, e ela recebeu JESUS. As margens do rio, tendo as
outras mulheres por espectadoras, Lídia foi batizada. E toda a sua casa
seguiu-lhe o exemplo!
Grande hospitaleira, Lídia insistiu que Paulo e seus companheiros ficassem em
sua casa. A princípio eles rejeitaram o oferecimento para não constrangê-la. O
plano de Paulo fora sempre sustentar-se com a fabricação de tendas, mas Lídia
não aceitou qualquer desculpa e obrigou-os a acatar o convite.
No decorrer das semanas, os quatro homens não perderam qualquer oportunidade de
dar testemunho de CRISTO. Todos os sábados, reuniam-se no lugar de oração dos
judeus, junto ao rio, e falavam aos presentes sobre as riquezas insondáveis do
Evangelho. Só algumas mulheres tornaram-se cristãs. Evódia e Síntique creram,
juntamente com dois homens - Epafrodito e Clemente - e alguns outros cujos
nomes constam do Livro da Vida. Ainda que os resultados fossem pequenos, eram
reais. Paulo animou-se a ficar e pregar não só perto do rio, mas também nos
bazares e praças.
A ESCRAVA (Ptonisa)
Tudo parecia ir bem, quando a oposição surgiu de fonte inesperada. Havia
uma jovem escrava possuída por um espírito maligno, que fazia adivinhações. As
pessoas procuravam-na para conhecer o futuro, e seus donos muito lucravam com o
preço das consultas. Ela atraía homens inseguros que não se aventuravam a fazer
negócios, ou resolver casos de amor, sem primeiro consultar um médium que
afirmasse manter contato com o mundo espiritual.
Da mesma forma que o espírito maligno reconhecera JESUS como o Filho de DEUS, o
espírito nessa moça percebeu que os apóstolos eram enviados do Senhor.
Seguindo-os diariamente pelas ruas e na praça do mercado, a escrava gritava aos
passantes: "Esses homens, que nos anunciam o caminho da salvação, são
servos do DEUS Altíssimo" (At 16.17). Seus donos ficaram aborrecidos, mas
ela não se importou porque na verdade os odiava. A mensagem de Paulo cativara-a
de tal forma, que ela esperava todos os dias na rua até que os apóstolos
aparecessem.
Paulo, no entanto, não se agradou do testemunho dos demônios. Indignado com
aquela importunação diária, voltou-se à escrava e ordenou, em nome do Senhor
JESUS, que o espírito a deixasse. A moça ficou parada, atônita; estava
finalmente livre, senhora de suas faculdades.
A Prisão de Paulo e Silas
Vendo seu meio de vida ser tirado por aqueles judeus, os donos da escrava
ficaram furiosos. Enraivecidos, agarraram Paulo e Silas e os arrastaram pelas
ruas, gritando aos que passavam. Uma grande multidão os acompanhou, pensando
tratar-se de algum ladrão. Paulo e Silas foram levados à praça do mercado, sob
a acusação de haverem perturbado a paz. Foi fácil colocar o povo contra eles,
uma vez que os judeus eram muito odiados. O imperador Cláudio não mandara banir
todos os judeus de Roma?
Numa extremidade da praça, dois magistrados romanos estavam sentados numa
plataforma elevada, sob um dossel que os abrigava do sol. A tarefa deles era
ouvir e julgar as queixas do povo. Esse foi o primeiro tribunal de justiça.
Arrastando os apóstolos pelas vestes e pelos cabelos, os perseguidores
levaram-nos aos magistrados.
"Esses homens, sendo judeus, perturbaram a nossa cidade."
Acusaram-nos aos berros. "E nos expõem costumes que nos não é lícito
receber nem praticar, visto que somos romanos" (At 16.20-21). A multidão
gritava: "Fora com eles! Fora com os judeus!"
Os magistrados deixaram-se convencer. Não permitiram aos prisioneiros qualquer
julgamento ou defesa. Se soubessem que Paulo era cidadão romano, sem dúvida o
tratariam com respeito, mas nada lhe perguntaram. Os juizes deram ordens para
que fossem publicamente açoitados. Depois de descobrirem as costas dos presos,
os pretores avançaram e levantaram as varas. Enquanto os apóstolos encolhiam-se
de dor sob os açoites, a plebe gritava: "Prendam os judeus!"
Machucados e sangrando, Paulo e Silas foram levados à prisão e entregues ao
carcereiro, com instruções para guardá-los com toda a segurança. Os dois foram
então levados para um cárcere interior, onde ficaram com os pés presos ao
tronco. Ao deixá-los naquele lugar úmido e frio, o carcereiro ficou imaginando
o porquê daqueles homens que não pareciam marginais serem julgados tão
perigosos.
Na casa de Lídia, Timóteo e Lucas passaram uma noite angustiosa, e oraram em
companhia da dona da casa e de outros cristãos. Mas não foram os únicos a orar:
Paulo e Silas também não conseguiam dormir. Suas costas continuavam doendo por
causa dos açoites e o tronco tornava o sono impossível. Entretanto, podiam
orar, e foi o que fizeram. A paz caiu sobre eles, e começaram a cantar alguns
dos salmos que conheciam desde a infância - salmos de louvor a DEUS. "O
Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da
minha vida; de quem me recearei?" (SI 27.1).
A Conversão do Carcereiro
Aqueles sons no meio da noite eram sem dúvida estranhos. Os outros
prisioneiros estavam acostumados com gemidos e maldições, mas jamais tinham
ouvido algo assim. O que poderia ser? Estavam escutando os cânticos em silêncio
quando, de repente, um som baixo e ameaçador fez-se ouvir. Aquilo que a
princípio parecia um trovão à distância foi aumentando cada vez mais. O chão
começou a tremer. Um terremoto! O chão balançava, subindo e descendo; as portas
foram arrancadas dos batentes e as cadeias dos prisioneiros abriram-se,
libertando-os.
O carcereiro acordou com o choque. Saltando da cama, seu primeiro pensamento
foi para os prisioneiros sob seus cuidados. Teria algum escapado? Em caso
afirmativo, como se explicaria com Roma? Ao primeiro olhar, viu que as portas
estavam escancaradas. Lá estava a pesada porta de madeira, arrancada dos
gonzos. Com uma tocha na mão, apressou-se pelo corredor.
As celas interiores estavam danificadas; suas portas, completamente abertas. O
homem puxou rapidamente a espada. Era melhor acabar logo com tudo, escapando ao
horror de um julgamento e da execução pública. Paulo viu quando ele pôs a
espada na garganta para suicidar- se. Uma voz alta e clara, saída da escuridão,
assustou o carcereiro: "Não te faças nenhum mal, que todos aqui
estamos" (At 16.28).
Trêmulo, ele pegou a tocha e entrou na cela, onde caiu prostrado aos pés de
Paulo e Silas. O homem sentia-se tremendamente perplexo. Não conseguia entender
porque não havia escapado. Paulo explicou-lhe que eram cidadãos romanos e não
tinham necessidade de fugir; além disso, eram servos do Senhor DEUS e levavam a
mensagem de salvação aos gentios.
Encontrado o caminho que procurara durante toda a vida, o carcereiro exclamou:
"Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?" (16.30).
Sem hesitar, Paulo respondeu: "Crê no Senhor JESUS CRISTO e serás salvo,
tu e a tua casa" (16.31).
No pátio da prisão, com a poeira do terremoto ainda pesando no ar e o ruído da
confusão nas ruas escuras lá fora, Paulo pregou as boas-novas de grande
alegria, e explicou o significado de crer. Imediatamente, o brutal carcereiro
passou das trevas para a luz.
Solícito, levou os apóstolos para sua casa, onde se achavam sua esposa e
filhos. Ali, lavou-lhes as costas doloridas. Depois de limpar o sangue,
esfregou unguento nas feridas abertas pelas varas dos pretores. Naquela noite
Paulo contou-lhes tudo sobre JESUS e, antes do dia amanhecer, uma família
inteira tornou-se cristã e foi batizada.
Quando raiou o dia, mensageiros dos magistrados bateram à porta da prisão.
Traziam uma mensagem amedrontada dos seus senhores: "Soltai aqueles
homens" (v. 35).
Na mente dos magistrados estava claro que a catástrofe fora um castigo de DEUS
por terem colocado dois de seus servos na prisão. Entretanto, quando o
carcereiro levou a Paulo e Silas a notícia da sua liberdade, estes não a
receberam de bom grado.
Diga a seus senhores - declarou Paulo - que somos romanos e eles não podem
encobrir sua injustiça, livrando-se de nós às ocultas.
Paulo conhecia os direitos da cidadania romana; podia apelar à própria Roma, se
quisesse. Sabia que os magistrados estavam agora à sua mercê.
Diga aos seus senhores que venham pessoalmente e nos ponham em liberdade.
Os orgulhosos magistrados, com medo de perderem o cargo, viram que não havia
outra opção senão atender ao desejo dos prisioneiros. Sem perda de tempo,
apresentaram suas humildes desculpas em pessoa, suplicando aos apóstolos que
nada dissessem sobre o erro cometido, e deixassem a cidade o mais rápido
possível. Eles levaram Paulo e Silas para a rua e, publicamente, os libertaram.
Os apóstolos não deixaram imediatamente a cidade. Procuraram a paz e tranquilidade
da casa de Lídia, até que suas feridas sarassem e pudessem viajar. Receberam os
cuidados de Timóteo e do doutor Lucas, e foram visitados pelos poucos que
haviam levado a CRISTO.
A Primeira Igreja na Europa
Durante aqueles dias de restabelecimento, Paulo e Silas tiveram a alegria
de acolher na nova igreja de Filipos ao homem que lhes prendera os pés ao
tronco, assim como todos os de sua casa. Mediante sofrimento e fidelidade, o
pequeno grupo cresceu até tornar-se uma das mais fortes igrejas.
Quando Paulo e Silas sentiram-se suficientemente curados para deixar Filipos,
despediram-se dos crentes e partiram para Tessalônica, a capital da Macedônia.
Lucas e Timóteo ficaram em Filipos por algum tempo, a fim de fortalecer a
igreja.
A estrada que os dois apóstolos escolheram era a melhor da província,
pavimentada com blocos de mármore. Depois de cerca de 169 quilômetros, chegaram
a Anfípolis, uma cidade maior que Filipos. Ansiosos, não ficaram ali;
prosseguiram para o sul e para o oeste, passando por Apolônia e descendo a
grande Via Inácia, até a cidade que Alexandre, o Grande, chamara de
Tessalônica, em homenagem à sua irmã.
Paulo em Tessalônica
Ao sair da região montanhosa, eles contemplaram as águas azuis do golfo e
entraram na cidade passando por um enorme arco de mármore, esculpido com cinco
cabeças de touros enfeitadas de guirlandas. Esse monumento era uma lembrança
perpétua de que Otávio e Antônio haviam ganho a batalha de Filipos.
Tessalônica, por ter apoiado os generais conquistadores, tornara-se uma cidade
livre. Isto significava que podia escolher seus próprios magistrados, livrar-se
das guarnições romanas, e não sujeitar-se de forma alguma ao governador romano
da Macedônia.
Os apóstolos hospedaram-se na casa de Jasom, parente de Paulo, e testemunharam
na sinagoga durante três sábados. Paulo começava com as profecias do Antigo
Testamento, explicando aos conterrâneos que elas foram cumpridas em JESUS de
Nazaré. Alguns murmuraram depois de seus apelos veementes, e os líderes da
sinagoga opuseram-se à sua doutrina, proclamando que era falsa. Todavia, outros
creram e tornaram-se amigos de Paulo, seguindo-o por toda parte e encorajando-o
em sua pregação. A maioria dos convertidos era formada por prosélitos gregos e
esposas de oficiais, que haviam abandonado os ritos imorais da adoração aos
ídolos. Elas haviam encontrado no Judaísmo uma religião onde a mulher era
respeitada.
Paulo e Silas não se limitaram a pregar apenas na sinagoga, mas aproveitavam
todas as oportunidades para dar testemunho de JESUS. Em três semanas,
conseguiram reunir um número suficiente de cristãos para formar uma igreja. Não
perderam tempo. Os cristãos reuniam-se todas as noites com Paulo e Silas, que
lhes explicavam as verdades do Evangelho. À medida que outros enxergavam a luz,
também eram recebidos na congregação. Estabelecer uma igreja em três semanas
era uma tarefa colossal, mas foi o que Paulo e Silas fizeram, não só levando os
convertidos a CRISTO como também instruindo-os na fé. Antes dessas breves
semanas terminarem, Paulo falou-lhes sobre a volta do Senhor e os sinais dos
tempo. Advertiu-os sobre o abandono da fé, que precederia a vinda do
anticristo.
Paulo É Obrigado a Deixar Tessalônica
Paulo era um trabalhador incansável, capaz de formar uma comunidade forte
de cristãos quase da noite para o dia. Mas, como de costume, os judeus
incrédulos levantaram-se contra ele. Instigaram um grande grupo de malfeitores,
que rodearam a casa de Jasom atirando pedras no pátio e exigindo que Paulo e
Silas lhes fossem entregues. Enfurecidos, derrubaram a porta e procuraram em
cada aposento, descobrindo que os dois não se encontravam na casa. Jasom
providenciara em tempo a fuga de ambos, mas ele mesmo não escapou. A turba
agarrou-o, como também a outros cristãos, e arrastou-os até a praça do mercado,
onde as autoridades mantinham seu tribunal:
Esses que têm alvoroçado o mundo chegaram também aqui, os quais Jasom recolheu.
Todos esses procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei,
JESUS (At 17.6,7).
A acusação era grave e não podia ser ignorada. Os magistrados tomaram nota e
ficaram muito perturbados; o assunto poderia acabar em desastre. Ordenaram que
Jasom e seus amigos pagassem fiança e voltassem no dia do julgamento.
Como Jasom era homem de posses, a fiança foi paga e todos tiveram permissão de
voltar para casa. Naquela mesma noite, depois de conferenciarem, os irmãos
procuraram Paulo e Silas e explicaram como seriam prejudicados se eles
ficassem. Então, enquanto a cidade dormia, os dois saíram disfarçados pelos
portões, e dirigiram-se ao sul, para a cidade de Beréia.
A Acolhida em Beréia
Timóteo juntou-se a Paulo e Silas em Beréia. Ele chegara de Filipos, onde
ficara com Lucas para fortalecer a igreja, e encontrou-os na sinagoga. Timóteo
sabia que era costume de Paulo procurar a casa de adoração dos judeus, portanto
esperou lá por ele. Quando os apóstolos chegaram, ensinaram na sinagoga que
JESUS era o CRISTO e provaram isso pelas Escrituras. Paulo ficou surpreso e
contente ao ver que os judeus o ouviam sem fazer oposição. De fato, mostraram
verdadeiro interesse, devorando cada palavra pregada. A seguir, foram buscar os
grandes rolos guardados numa caixa por trás da cortina azul, e examinaram
diligentemente as palavras de Isaías, de outros profetas e da Lei de Moisés,
traçando a história do Messias até no seu livro de hinos. Não aceitariam a
mensagem até provarem pelas Escrituras a sua autenticidade. Ao descobrirem que
as citações de Paulo não continham qualquer erro, receberam alegremente a
mensagem e creram em JESUS.
Tudo ia bem até que as notícias chegaram a Tessalônica, levadas por algum judeu
ingênuo, que não pretendia fazer mal. Uma onda de oposição rebentou quase que
imediatamente sobre a igreja recém-formada. Um bando de judeus zelosos
precipitou-se de Tessalônica e, com mentiras, incitaram os membros da sinagoga
contra Paulo. Principal alvo do ataque maldoso, Paulo achou melhor seguir o
conselho dos irmãos e deixou a cidade.
Atenas, uma Cidade Idolatra
Um grupo de cristãos conduziu Paulo ao porto de Dio, onde ele embarcou para
Atenas, a maior cidade da Grécia. Seus amigos acompanharam-no até chegar a
Atenas, mas deixaram-no ali e regressaram.
Silas e Timóteo ficaram em Beréia para fortalecer os cristãos. Quando
terminassem o trabalho, iriam encontrar-se com Paulo em Atenas. Ambos
permaneceram com relativa segurança em Beréia, pois os inimigos achavam que,
sendo Paulo o chefe, não precisavam preocupar-se com eles.
Depois da retirada dos amigos, Paulo ficou absolutamente só em uma das cidades
mais belas do mundo: Atenas - a "Mãe da Grécia". A cidade era
dominada pela Acrópole, um monte com a parte superior plana e rochosa, que
servia de base a vários templos. Quinhentos anos antes, Atenas estivera no
apogeu da sua glória, mas desde que fora saqueada pelos romanos, encontrava-se
sob o seu domínio. Paulo estivera em muitas cidades, mas nunca visitara um
lugar tão belo e cheio de esculturas de mármore brilhando ao sol. Os edifícios
em estilo clássico eram elegantes e graciosos. O povo era culto e orgulhava-se
de sua liberdade de pensamento. Arquitetura, pintura, escultura e grandes
bibliotecas podiam ser encontradas em toda parte. Ao longo de cada rua, e em
cada praça, havia estátuas e altares - santuários construídos para a adoração
de muitos deuses. Paulo ficou surpreso ao ler as inscrições. Seu coração
acelerou-se ao admirar o esplendor das estátuas, algumas feitas por Fídias, o
maior de todos os artífices em mármore. Mas também apiedou-se ao pensar na
cegueira do povo ateniense.
Naquelas mesmas ruas e naquela mesma praça ao pé da Acrópole, Sócrates ensinara
ao povo; Platão instruíra seus seguidores naquele mesmo lugar; Demóstenes, o
grande orador, era uma lembrança do passado. A marca de todos eles fora deixada
na cultura daquele povo altivo. Abaixo dos templos da Acrópole, ficava o teatro
de Dionísio com seus assentos de mármore estendendo-se sobre o vale. Todas as
noites as multidões aglomeravam-se nele para assistir às importantes peças
teatrais. Não havia dúvida de que aquele povo era o mais inteligente, refinado
e complacente que Paulo já encontrara.
O apóstolo alojou-se perto da sinagoga e decidiu ficar ali até a chegada de Silas
e Timóteo. Porém não estava satisfeito. Aqueles ídolos e seus templos não lhe
suscitaram admiração, mas preocupação e piedade. Gostaria que todos fossem
derrubados e, ao invés da confusão dos deuses, o povo pudesse ver o DEUS vivo e
verdadeiro. Todas aquelas estátuas desonravam ao Senhor, e Paulo queria ver em
Atenas uma igreja que apagasse cada ídolo do coração de seus habitantes.
No sábado, ele foi pregar o Evangelho aos seus conterrâneos na sinagoga, mas
não conseguiu ganhar nenhum deles. Desanimado, saiu de lá e começou a pregar
nas ruas e praças. Muita gente dispôs-se a ouvi-lo; havia nas ruas um grande
número de pessoas que apreciavam uma discussão. Elas passavam o dia indo de um
filósofo a outro, à procura de alguma doutrina nova que pudesse tornar-se moda
em Atenas.
Em toda parte havia sinais de idolatria. Queimavam incenso diante de cada
imagem. Num altar próximo, Paulo viu mulheres levantando as crianças até o
ídolo, num oferecimento. O apóstolo sentiu o coração confranger-se ao ver a
cidade completamente entregue à idolatria.
Certo dia, descobriu numa única rua os templos de Atena, Artemis e Afrodite. Ao
lado deles havia altares dedicados à Guerra, Fama, Piedade e Modéstia. Em toda
a cidade havia três mil estátuas e altares onde os atenienses ofereciam sua
adoração vazia. Paulo leu muitas inscrições enquanto caminhava pelas ruas, e
ficou imaginando como um povo tão religioso poderia ser tão cego. Sondou as
faces das pessoas e percebeu que estavam cansadas dos seus deuses.
Alguns filósofos, estóicos e epicureus, encontraram Paulo numa praça e
indagaram: Que quer dizer esse paroleiro?... Parece que é pregador de deuses
estranhos... Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas? Pois
coisas estranhas nos trazes aos ouvidos: queremos, pois, saber o que vem a ser
isso (At 17.18-20).
O Sermão da Colina de Marte (Areópago)
Logo depois do mercado barulhento, na metade do caminho que levava aos
templos da Acrópole, ficava um semicírculo rochoso, conhecido como a colina de
Marte. Paulo foi conduzido a esse lugar para contar sua história.
Varões atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos; porque, passando
eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito:
AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais não o conhecendo, é o que eu
vos anuncio
(At 17.22,23).
Imediatamente interessada, a plateia inclinou-se à escuta. Com um olhar para o
conjunto de templos no topo do monte, e ao próprio Parthenon - edifício mais
perfeito do mundo - Paulo continuou:
O DEUS que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não
habita em templos feitos por mãos de homens. Nem tão pouco é servido por mãos
de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a
todos a vida, a respiração e todas as coisas. E de um só fez toda a geração dos
homens para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já
dantes ordenados e os limites da sua habitação; para que buscassem ao Senhor,
se, porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um
de nós. Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos
vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.
Sendo nós, pois, geração de DEUS, não havemos de cuidar que a divindade seja
semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação
dos homens" (At 27.24-29).
A audiência agradou-se do discurso e, animada, ficou à espera de mais. Sem
dúvida, ali estava alguém de grande cultura. Era judeu, mas conhecia os poetas
gregos. E Paulo então continuou:
Mas DEUS, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os
homens, em todo o lugar, que se arrependam. Porquanto tem determinado um dia em
que com justiça há de julgar o mundo, por meio do varão que destinou; e disso
deu certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos (At 1730-31).
Um cascatear de risos ouviu-se entre o povo, quando ele falou em ressurreição.
"Esse homem deve estar louco para pregar tais asneiras!" E não
quiseram mais ouvi-lo.
Alguns mais educados sugeriram que o ouviriam noutra ocasião, mas Paulo
percebeu tratar-se de uma desculpa amável para se livrarem dele.
O apóstolo já encontrara todas as formas de oposição, mas aquela era a primeira
vez que alguém ria de suas palavras. Isso silenciou-o mais que os insultos e
pedradas. Com um sentimento de fracasso, deixou a colina de Marte; desceu às
praças logo abaixo e perdeu-se na multidão. Enquanto lutava com a crescente
sensação de desânimo, ouviu passos às suas costas.Voltando-se, deparou com um
pequeno grupo de homens e mulheres que se apressava para alcançá-lo. Seus
rostos eram amigáveis; queriam fazer mais perguntas sobre a nova doutrina.
Dionísio, um membro do conselho da sinagoga de Atenas, e uma mulher chamada
Dâmaris, além de outros atenienses não nomeados, creram em suas palavras e
receberam a JESUS CRISTO.
Paulo começou a inquietar-se em Atenas. Pensava nos cristãos de Beréia, onde
Silas e Timóteo se encontravam, e imaginava a razão de não ter notícias de lá.
Sentiu-se tentado a viajar novamente para o norte e até planejou voltar a
Tessalônica, mas as circunstâncias o impediram. Será que o longo silêncio
significava oposição? Teriam os judeus de Tessalônica continuado a perseguir
Silas e Timóteo? Paulo temia pela igreja de Tessalônica. A perseguição ali fora
penosa, e ele ficava a pensar se a fé dos irmãos resistiria à prova. Ele só
estivera com aqueles crentes durante três semanas...
Paulo em Corinto
Não mais suportando a longa espera, Paulo enviou um cristão ateniense para
indagar sobre o bem-estar dos crentes de Tessalônica, e deixou uma mensagem
avisando que ia para Corinto. Se Timóteo e Silas chegassem, deveriam ir à
capital, onde ele os esperaria.
Com uma sensação de liberdade, deixou para trás Atenas e seus templos de
mármore. A lembrança dos risos no dia em que pregou sobre o CRISTO ressurreto
ainda queimava-lhe no peito. Perguntava-se porque o Senhor não lhe dera mais
almas naquela cidade.
Com o espírito abatido, Paulo encontrou um navio que ia para Corinto, capital
da Acaia. Sabendo que seu dinheiro estava acabando, começou a questionar o
significado exato da visão sobre o homem da Macedônia. Até então, só tivera uma
série de decepções; fugira de cada cidade a fim de salvar a vida, deixando aos
companheiros de viagem a tarefa de estabelecer a nova igreja.
Áquila e Priscila
Embora desanimado, Paulo procurou um local onde pudesse usar a arte que
aprendera em Tarso. Encontrou uma rua onde os fabricantes de tendas tinham suas
lojas, e entrou na oficina de Áquila. O Senhor parecia tê-lo encaminhado
justamente àquele lugar, pois Áquila era um refugiado judeu banido de Roma pelo
imperador Cláudio. Ele e sua mulher, Priscila, haviam se estabelecido no
negócio de tendas em Corinto, poucas semanas antes da chegada de Paulo.
Áquila gostou da ajuda extra, e Priscila, ao saber que Paulo era judeu,
acolheu-o de bom grado. Bastaram alguns dias de trabalho para que Áquila
apreciasse ainda mais a habilidade de Paulo na fabricação de tendas. Enquanto
costurava o couro, Paulo contava as maravilhosas experiências que tivera; como
DEUS o protegera das dificuldades e o livrara da prisão. O casal ficou
espantado por aquele artesão ter sido um rabino, e haver perseguido
ardentemente a seita dos nazarenos. Pouco a pouco, abriram seus corações a
CRISTO e foram salvos.
A antiga Corinto, mais velha que Atenas, tivera tantas batalhas travadas em
suas ruas que só restaram ruínas. Reconstruída por Júlio César, era agora uma
bela cidade e, durante cem anos, ocupara na Grécia uma posição de proeminência.
Grande centro comercial, atraiu logo os judeus da região. A adoração à
Afrodite, deusa do amor, também centralizava-se ali. Famosa por suas riquezas e
inclinação aos prazeres e vida fácil, Corinto tornou-se símbolo do pecado.
Marinheiros e mercadores do mundo inteiro levavam a história de Corinto às suas
terras, aumentando-lhe a fama de pecado e encanto.
Paulo foi apresentado na sinagoga como um judeu que frequentara o templo de
Jerusalém, e recebeu permissão para falar. Mas discursou com um sentimento de
fraqueza. Embora houvesse argumentado, provado e persuadido tanto judeus quanto
gregos, teve de lutar contra o crescente desânimo que começara a envolvê-lo.
SILAS, TIMÓTEO E PAULO EM CORINTO
Silas e Timóteo finalmente chegaram. Tinham estado em Atenas e souberam que
Paulo havia partido para Corinto. Que alívio vê-los e ouvir as notícias! Agora
Paulo sabia que não estavam presos e que tudo ia bem. E as igrejas de Beréia e
Tessalônica? Tinham notícias de Lucas em Filipos? Os cristãos estavam firmes?
Sim, as notícias eram boas. As igrejas em toda parte continuavam firmes na fé.
E mais: estavam testemunhando em toda a Macedônia e muitos haviam se rendido a
CRISTO nas últimas semanas. DEUS estava operando nas igrejas e abençoando o
testemunho de seus seguidores. Os irmãos não haviam esquecido Paulo;
lembravam-se diariamente dele em suas orações, do mesmo modo que este se
lembrava deles. Como demonstração do seu amor, tinham enviado uma oferta em dinheiro
para o seu sustento; assim, em vez de trabalhar, Paulo poderia dedicar-se
integralmente ao ministério. O coração do apóstolo alegrou-se grandemente ao
ouvir essas notícias. Seu desânimo desapareceu como a neblina da manhã ao
nascer do sol. O antigo zelo voltou, e com grande vigor, deu início a uma
campanha para a conversão dos coríntios.
Quando, porém, os judeus se lhe opuseram, blasfemando contra o Senhor, Paulo os
abandonou, advertindo-os de que o sangue deles cairia sobre as suas próprias
cabeças.
"Desde agora parto para os gentios" (At 18.6).
E foi o que fez. Como resultado, muitos coríntios creram e foram batizados.
Todavia, antes de partir, teve a grande alegria de ganhar Crispo, o principal
da sinagoga. Seu coração aqueceu-se ao vê-lo ser batizado com a mulher e os
filhos!
Depois da chegada de Timóteo e Silas, a casa de Áquila ficou pequena para
abrigar todos eles. Foram então alojar-se ao lado da sinagoga, na casa de um
cristão chamado Justo. Paulo, porém, continuou trabalhando sempre que
necessário.
Com o passar dos dias, a enorme tarefa de testemunhar àquela cidade sem CRISTO
começou a pesar-lhe nos ombros. Enquanto refletia no assunto, um temor
sorrateiro foi tomando conta de seu coração. Corinto era, indiscutivelmente, a
cidade mais perversa do mundo, e Paulo perguntava a si mesmo se haveria ali
qualquer esperança de sucesso.
Certa noite, deitado em seu leito na casa de Justo, Paulo teve uma visão. O
Senhor disse-lhe palavras semelhantes às que DEUS dissera a Josué, muitos anos
atrás, quando o coração dele se acovardara:
Não temas, mas fala e não te cales. Porque eu sou contigo, e ninguém lançará
mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nessa cidade (At 18.9,10).
Isso era tudo o que Paulo precisava saber. Lembrou-se então do dia em que
estivera face a face com JESUS, na estrada de Damasco, e pôde ouvir novamente
as palavras do Senhor repetidas por Ananias:
Esse é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome diante dos gentios, e
dos reis, e dos filhos de Israel. E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo
meu nome (At
9.15,16).
Paulo passou a pregar com zelo renovado. Os missionários trabalharam durante um
ano e meio, procurando converter homens e mulheres, tanto judeus quanto
gentios. Empregavam todos os esforços para trazê-los das trevas do pecado para
a família de DEUS. Muitos vieram a conhecer a verdade e separaram-se da sua
antiga e corrupta religião, ganhando uma nova vida em CRISTO.
A Primeira Epístola Aos Tessalonicenses
Paulo ficou tão comovido com a oferta de Tessalônica e o relatório positivo
a respeito daquela igreja, que resolveu escrever-lhes uma carta. Esta pode ter
sido a sua primeira carta. Era dirigida a todos os discípulos de Tessalônica, e
elogiava-os por sua firmeza na fé, mesmo em face à perseguição. Agradecido pela
ajuda, Paulo escreveu-lhes uma carta de conselhos paternais, recordando-lhes os
ensinamentos que lhes ministrara, e insistindo para que crescessem na graça e
andassem como verdadeiros filhos de DEUS. Deveriam ser cada vez mais profícuos
no testemunho e no viver diário, atentos à aproximação da volta do Senhor para
buscar os salvos - tanto os mortos como os vivos. Era uma linda carta,
expressando o afeto do apóstolo por seus filhos na fé.
Paulo e seus amigos demoraram-se bastante em Corinto, e seu ensino teve maior
sucesso ali que em qualquer outro lugar. A igreja aumentava a cada dia, à
medida que o povo mais humilde tornava-se cristão. Mas nem tudo foi fácil e
bem-sucedido; alguns judeus detestaram a mensagem de Paulo, e ficaram à espera
de uma oportunidade para dar vazão ao seu ódio. Certo dia, conforme planejado,
eles incitaram um grupo de ociosos a agarrarem o apóstolo enquanto este
pregava. Paulo foi levado diante do tribunal de Gálio, o procônsul romano.
Gálio era um homem bondoso; recebera o cargo porque o imperador Cláudio
conhecia a sua sabedoria e capacidade. Diante de Gálio, os judeus não sabiam
como apresentar uma acusação válida contra aquele prisioneiro que não oferecia
resistência. A única acusação que podiam formular era fraca aos seus próprios
ouvidos. Não podiam culpar o apóstolo de perturbar a paz ou instigar uma
revolta, e disseram contrafeitos: "Esse persuade os homens a servir a DEUS
contra a lei" (At 18.13).
Enquanto Paulo preparava-se para responder à acusação, Gálio levantou-se e
declarou:
Se houvesse, ó judeus, algum agravo ou crime enorme, com razão vos sofreria.
Mas, se a questão é de palavras, e de nomes, e da lei que entre vós há, vede-o
vós mesmos; porque eu não quero ser juiz dessas coisas (At 18.14,15).
Impaciente e irado, expulsou-os do tribunal. Muitos gregos que haviam
testemunhado a cena ressentiram-se contra os judeus. Ofendidos, agarraram
Sóstenes, o principal da sinagoga, e espancaram-no diante do tribunal. Gálio
ficou sentado calmamente, sem aplaudir nem censurar. Desde que a raiva deles
não fosse dirigida a Roma, tudo o mais lhe era indiferente.
Depois de vários meses, o homem que levara a primeira carta de Paulo a
Tessalônica voltou e contou como a epístola fora recebida. Ela resolvera
algumas das dificuldades dos tessalonicenses, mas aparentemente suscitara
outras, especialmente com respeito à volta de CRISTO. Alguns entenderam que o
tempo era tão curto, que deveriam parar de trabalhar e viver do que haviam poupado,
pois em questão de dias, seriam recebidos nos céus para estar com o Senhor.
A Segunda Epístola aos Tessalonicenses
Paulo discutiu o problema com Silas e Timóteo e decidiu enviar uma segunda
carta. Elogiou os tessalonicenses por sua paciência na tribulação e
suplicou-lhes que não se deixassem perturbar com palavras de homens ou cartas
falsas, que julgavam ser dele. Alguém lhes forjara uma carta em nome de Paulo,
afirmando que a volta de CRISTO aconteceria naqueles dias, e que talvez até já
houvesse acontecido. Paulo recordou-lhes o grande plano de DEUS; lembrou-os de
que nos últimos dias muitos se desviariam do Senhor, e o homem da iniqüidade
viria para se opor a tudo o que era de DEUS. Assegurou-lhes ainda de que as
perseguições que estavam sofrendo não eram, absolutamente, a Grande Tribulação:
Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas,
seja por palavra, seja por epístola nossa. E vós, irmãos, não vos canseis de
fazer bem. Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por essa carta, notai o
tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe (2 Ts 2.15; 3.13-14).
A Volta de Paulo a Antioquia da Síria
Pouco depois desses acontecimentos, Paulo admitiu que a igreja de Corinto
já estava suficientemente forte; podia deixá-la e dedicar-se a outro trabalho.
De algum modo, sentiu-se impelido a voltar a Antioquia da Síria. Queria
igualmente visitar Jerusalém por ocasião da festa. Áquila e Priscila estavam
indo para Éfeso, e Paulo decidiu ir com eles. Silas e Timóteo não os
acompanharam; permaneceram em Corinto para continuar o trabalho.
A viagem marítima para Cencréia, porto de Corinto, foi agradável e sem incidentes.
O navio permaneceu em Éfeso o tempo suficiente para Paulo visitar a sinagoga,
onde discutiu com os judeus e mostrou-lhes JESUS, o CRISTO das Escrituras. Os
judeus não se opuseram ao apóstolo dos gentios, nem à sua mensagem. Ao
contrário, pediram-lhe que ficasse mais tempo. Não sendo possível, Paulo
prometeu visitá-los em breve. Deixando Áquila e Priscila testemunhando em
Éfeso, voltou ao navio que o levou em segurança para Cesaréia, o porto mais
próximo de Jerusalém.
Não se demorou na cidade santa. Sua principal preocupação ali era visitar outra
vez a igreja-mãe. A época era de festa e as ruas estavam repletas de
peregrinos. Paulo cumprimentou os cristãos e renovou sua amizade com Tiago,
Pedro e os demais discípulos que se reuniam na casa de Maria. Depois voltou a
Antioquia, a igreja que o enviara em todas as suas viagens.
A TERCEIRA VIAGEM MISSIONÁRIA
Já fazia um ano que Paulo prometera aos judeus de Éfeso voltar e
continuar ali o seu ministério. O apóstolo pensava muito neles e em Áquila e
Priscila que lá ficaram testemunhando. Durante todo o inverno, e até fins do
verão seguinte, ele permaneceu em Antioquia. Sabia que se tivesse de viajar
para a Ásia Menor, seria necessário partir antes que as neves do inverno
bloqueassem as passagens das montanhas.
A Terceira Viagem Missionária
Quando os cristãos de Antioquia souberam que o apóstolo Paulo estava
planejando uma terceira viagem, não ficaram surpresos. Entristeceram-se, porém,
ao despedir-se dele mais uma vez. Já haviam compreendido que DEUS preparara
Paulo, melhor que qualquer outro, para levar o Evangelho às terras distantes.
Numa reunião de despedida, entregaram-no aos cuidados de DEUS; depois de lhe
darem dinheiro e provisões para o caminho, levaram-no até os portões da cidade.
Ficaram então olhando e acenando em despedida até que desaparecesse numa curva
da montanha. Não sabiam eles que esse fora o último adeus. O rosto de Paulo não
mais seria visto na amada igreja de Antioquia. Aproximava-se o momento em que o
apóstolo dos gentios encerraria suas viagens.
Pela terceira vez, Paulo encaminhou-se aos Portões da Cilícia, que o levariam a
Tarso e Derbe, Listra e Icônio. As coisas tinham mudado com o passar do tempo.
Em cada cidade havia agora igrejas estabelecidas; milhares haviam sido atraídos
a CRISTO.
Foi grande a alegria do apóstolo ao ver o progresso dos cristãos. Ele pensou
naqueles primeiros dias, quando não havia uma única voz levantada para o Senhor
em todas as cidades. Ao deixar cada lugar, Paulo elevava o coração em fervoroso
agradecimento por cada igreja e cada crente.
Visitando Novamente as Primeiras Igrejas
O trabalho não era mais uma questão de plantar a semente, mas de arrancar o
mato. Muitas vozes ergueram-se para desviar os cristãos da pureza da fé. Eles
foram especialmente perturbados pelos pregadores itinerantes que, com os seus
ensinos, tentaram perverter o Evangelho da graça e levar os crentes gentios de
volta à lei mosaica. Onde quer que Paulo fosse, tinha de lutar contra essa
influência. Em muitos casos, os falsos mestres haviam solapado o seu
ministério, lançando dúvidas sobre o seu apostolado e depreciando-lhe a
autoridade. Em Derbe, Icônio e em todas as regiões da Galácia, onde estivera
com Silas na segunda viagem, Paulo admoestou:
Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de
CRISTO para outro Evangelho, o qual não é outro, mas há alguns que vos
inquietam e querem transtornar o Evangelho de CRISTO. Mas, ainda que nós mesmos
ou um anjo do céu vos anuncie outro Evangelho além do que já vos tenho
anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, e agora de novo vo-lo
digo, se alguém anunciar outro Evangelho além do que já recebestes, seja
anátema (Gl 1.6-9).
Paulo tornou a visitar todas as primeiras igrejas, resolvendo suas
dificuldades, respondendo suas perguntas, rebatendo os falsos mestres,
advertindo, censurando, encorajando e confirmando. Esse era o ministério de que
precisavam para se manterem firmes na fé.
Apolo, um NOVO Missionário
Ao mesmo tempo em que Paulo continuava seu paciente ministério nas cidades
do interior, um judeu chamado Apoio chegou a Éfeso. Ele nascera em Alexandria,
na embocadura do Nilo, e era culto e eloquente. Seu conhecimento das Escrituras
era comparável ao de Paulo, pois fora cuidadosamente ensinado por seus pais
hebreus. Mas agora, com os olhos abertos para JESUS, o Messias, ele
empenhava-se em divulgar a Verdade em toda parte.
Apoio nunca vira JESUS, nem falara com qualquer dos discípulos. Mas ouvira
falar de João Batista e de como ele anunciara que JESUS era o CRISTO, em
cumprimento das profecias. Dominado por esses fatos, partiu com o coração cheio
da mensagem, ansioso por anunciá-la aos seus conterrâneos.
Áquila e sua esposa foram ouvi-lo na sinagoga de Éfeso e maravilharam-se com a
sua capacidade. Apoio era poderoso nas Escrituras. O casal compreendeu
imediatamente que, se aquele jovem com tanto saber viesse a conhecer o
Evangelho pleno, como Paulo lhes ensinara, seria um dos maiores homens da
igreja. Que instrumento para DEUS!
Amavelmente, convidaram-no a visitá-los, e ele aceitou. Com bondade, e sem
ofendê-lo, repassaram alguns tópicos de seu sermão, elogiando-o, mas
mostrando-lhe que o ensino de João sobre o arrependimento não era o Evangelho
em sua plenitude. Fizeram-no ver também que o batismo de João não era aquele
ordenado por CRISTO.
Dia após dia, o brilhante orador sentou-se com o fabricante de tendas e sua
mulher e, passo a passo, inteirou-se dos aspectos mais profundos da fé. Com
genuína humildade cristã, o grande orador do Egito ouviu as verdades divinas e
alegrou-se nelas. A cada dia, sua mensagem na sinagoga foi-se tornando mais
forte. Áquila e sua fiel esposa oravam para que o Senhor enchesse aquele vaso
com grande poder.
Armado de uma verdade que antes não possuía, Apoio foi a Corinto, aquela
importante cidade da Acaia, a fim de pregar com todo o fervor e intrepidez da
sua juventude. Assim, enquanto os judeus farisaicos de Jerusalém procuravam por
todos os meios combater a Paulo e ao Evangelho, outro judeu estava visitando
algumas das igrejas fundadas pelo apóstolo e atraindo homens e mulheres para
CRISTO.
Organização da Igreja de Éfeso
Paulo chegou a Éfeso e ouviu falar de Apoio, poucos dias depois desse ter
ido para Corinto. A primeira providência de Paulo foi procurar seu velho amigo
Aquila, o fabricante de tendas, e inteirar-se de tudo o que acontecera desde
que deixara a cidade. Conheceu alguns crentes convertidos pela pregação de
Apoio e, ao descobrir que esse os batizara no batismo de João, perguntou a 12
deles:
Vocês receberam o batismo do ESPÍRITO SANTO quando creram? Os 12 cristãos
fitaram- no surpresos e responderam:
Nem mesmo ouvimos que existe o ESPÍRITO SANTO.
Havia, evidentemente, muita coisa a ser corrigida, e Paulo ofereceu-se
bondosamente para realizar a tarefa.
Depois de tê-los ensinado, batizou-os novamente, tanto homens como mulheres, em
nome do Senhor JESUS, e impôs as mãos sobre eles. Uma nova igreja foi fundada
naquele dia, composta de cristãos que, como os do Pentecostes, foram batizados
no ESPÍRITO SANTO.
Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga de Éfeso e pregou ousadamente
que JESUS era o Filho de DEUS. Mas surgiram disputas tão acirradas quanto à sua
mensagem, que o pequeno grupo de cristãos perdeu a esperança de obter quaisquer
novos frutos na sinagoga. Semana após semana, os judeus tinham ouvido o
Evangelho de CRISTO dos lábios de Áquila e Apoio, e agora de Paulo. Mas não só
se recusaram a crer, como também endureceram os corações contra JESUS e
depreciaram a Paulo, advertindo o povo de que o Cristianismo era antagônico aos
judeus.
Saulo afastou-se triste da sinagoga, para jamais pisar nela. A fim de continuar
seus ensinamentos, ele alugou o salão de palestras da escola pertencente a
Tirano. Esse homem era professor de retórica e filosofia, e dava aulas todas as
manhãs. Paulo reunia seus seguidores à tarde, argumentando com eles
diariamente. Não só discutia as reivindicações de JESUS, como também respondia
às muitas perguntas relativas ao Cristianismo e à vida paga. Provavelmente
tratou de assuntos como casamento, divórcio, escravidão e alimento oferecido
aos ídolos - temas que voltaria a abordar mais tarde em suas cartas. No espaço
de dois anos, a igreja de Éfeso cresceu e floresceu, e o Evangelho de JESUS
CRISTO foi pregado em toda a Ásia romana.
Combatendo a Adoração aos Ídolos
Éfeso era o centro de uma grande província. O templo de Diana, ou Artemis,
fora levantado ali havia mil anos. Quando nasceu Alexandre, o Grande, o templo
queimara completamente e os asiáticos reuniram ouro e prata para reconstruí-lo.
Cada família da província deu a sua contribuição, e o novo templo ficou tão
magnífico que veio a ser considerado uma das sete maravilhas do mundo. No dia
da sua inauguração, um príncipe persa atirou uma flecha de sua torre mais alta
e declarou: "Aquele que ultrapassar essa distância, ao aproximar-se desse
edifício, encontrará aqui um santuário e ficará livre da perseguição".
O imenso prédio era de mármore, com fileiras duplas de colunas entalhadas. Em
toda a volta havia 14 degraus de mármore, subindo em camadas como as de um bolo
de noiva, e na base de cada coluna, profundamente esculpidas na rocha, havia
figuras de homens e mulheres em tamanho natural. No centro do grande templo
havia uma câmara formada por pilares de jaspe verde. Das paredes pendiam caros
presentes, enviados por todas as províncias vizinhas, e perto da entrada,
encontrava-se um altar esculpido por Praxíteles. Uma grande cortina púrpura
descia do teto e, detrás dela, havia uma estátua de madeira em forma de mulher,
escurecida pelo tempo. Era Diana, a deusa dos efésios, que, segundo diziam,
caíra do céu. O ídolo era hediondo; mas, oculto pela cortina mística,
tornara-se objeto de adoração para milhões de pessoas.
Pequenas cópias da imagem tinham sido feitas de bronze ou prata, e algumas
vezes de ouro, mostrando Diana como uma linda mulher, usando na cabeça uma
coroa. Em cada casa havia uma dessas estatuetas, pois segundo acreditavam, a
deusa era poderosa para afastar o mal.
O templo de Diana tornara-se o centro da vida de Éfeso. Peregrinos do mundo
inteiro iam visitá-lo. Mercadores deixavam seu dinheiro com os sacerdotes,
acreditando ser o tesouro do templo o lugar mais seguro do mundo. Grande número
de artesãos ganhava a vida explorando a superstição do povo e fabricando
imagens para serem usadas como talismãs.
O Poder de DEUS
Nessa cidade de mágicos e idolatras, Paulo e seus companheiros anunciaram a
CRISTO, levando centenas de pessoas a abandonarem a idolatria. Através do
apóstolo, DEUS realizou muitos milagres em Éfeso. Aquele povo, que tanto
gostava de prodígios, viu que o poder do Altíssimo era maior que a magia de
Diana ou de quaisquer dos seus seguidores. Assim como Moisés superara os
mágicos de Faraó no Egito, pelo poder de DEUS, Paulo, o servo do Senhor,
recebeu autoridade para curar. Sem necessidade de talismãs, contas, ou
pergaminhos contendo fórmulas mágicas, Paulo demonstrou que o imenso poder de
DEUS fluía dele para as pessoas. Os milagres não aconteciam só pela sua
pregação, mas em alguns casos, por meio de artigos pessoais, como o avental que
ele usava na fábrica de tendas, ou o lenço com que enxugava a testa.
Em um lugar assim, existiam sempre impostores que ganhavam a vida com as
superstições do povo. Numa família judaica, sete irmãos, filhos do sacerdote
Ceva, rebaixaram- se a ponto de ganhar dinheiro, afirmando curar por meio de
talismãs e fórmulas mágicas. Certo dia, eles viram Paulo expulsar o espírito
maligno de um homem e aprenderam rapidamente as palavras usadas pelo apóstolo.
Na primeira oportunidade, tentaram imitá-lo.
"Esconjuro-vos por JESUS, a quem Paulo prega" (At 19.13). Mas o poder
de DEUS não estava nas palavras deles e, em vez de ser liberto da possessão
demoníaca, o endemoninhado revidou: "Conheço a JESUS e bem sei quem é
Paulo, mas vós, quem sois?" (At 19.15). E com força sobrenatural,
atirou-se sobre os sete mágicos, rasgando-lhes as roupas, batendo e ferindo- os
furiosamente.
As notícias espalharam-se depressa. Muita gente presenciara o incidente e não
mais acreditava no poder dos mágicos. Muitos dos que haviam praticado artes
mágicas levaram seus livros de magia, amuletos e talismãs, e os queimaram em
praça pública. Aquela foi uma tremenda demonstração, pois os objetos queimados
valiam uma grande soma.
Agora que se haviam tornado cristãos, DEUS enchera-lhes os corações com um novo
poder. E diante do poder divino, os truques de Satanás perderam o valor.
Os Ajudantes de Paulo em Éfeso
A obra do Senhor prosperou, e o testemunho da igreja de Éfeso tornou-se
conhecido em toda a Ásia. Timóteo chegou da Europa e juntou-se novamente a
Paulo. Erasto, outro crente, seguiu os passos de Timóteo e tornou-se um dos
ajudantes de Paulo em Éfeso. De fato, essa igreja veio a ser o centro da
divulgação do Evangelho.
Existia uma via direta de comércio entre Éfeso e Corinto, e os mercadores iam e
vinham; os crentes em JESUS também faziam freqüentes visitas às outras igrejas.
Através de um desses viajantes, ou talvez de Apoio, Paulo recebeu notícias
perturbadoras de Corinto. Muitos cristãos tinham voltado ao mundanismo da vida
paga, e a impureza penetrara na igreja, sendo aceita passivamente.
A Visita a Corinto
Paulo decidiu visitar pessoalmente os coríntios e corrigir o erro, antes
que o nome do Senhor fosse desonrado. Sua visita foi triste e penosa, pois ao
chegar, descobriu que as coisas eram ainda piores do que supunha. Sentiu-se
humilhado ao ver que tantos dos seus convertidos estavam vivendo em desacordo
com a vida cristã.
A permanência de Paulo foi breve, e ele usou cada momento para advertir os
crentes de Corinto contra toda forma de impureza. Lembrou-lhes que o propósito
do batismo era demonstrar que haviam morrido para o pecado e ressuscitado para
uma vida de justiça. Ameaçou-os com a exclusão da Igreja, se não deixassem de
profaná-la. Repreendeu-os como um pai; advertiu-os de que, se não melhorassem,
retornaria e não os pouparia. Como fizesse tudo com amor, doçura e humildade,
logo após sua partida para Éfeso, os coríntios interpretaram sua atitude como
fraqueza, achando que Paulo os temia. Continuaram no pecado, desafiando o
Senhor e seu apóstolo.
A Primeira Epístola aos Coríntios
Pouco tempo depois, Estéfanas, Fortunato e Acaico, três convertidos de
Paulo, chegaram a Éfeso com um relatório completo sobre a igreja de Corinto. As
notícias eram péssimas; o mundanismo crescera na igreja.
A seguir, alguns membros da casa de Cloé, uma família cristã importante de
Corinto, chegaram a Éfeso com mais informações. Os crentes haviam-se dividido
em quatro partidos, conforme a preferência que cada um dava aos pregadores
locais. Havia muita contenda entre os grupos; a igreja inteira fervia de inquietação.
A imoralidade, tal como nos templos pagãos, era tolerada sem pudor. Era comum
os cristãos apresentarem queixas, uns contra os outros, nos tribunais
seculares. Até a Ceia do Senhor transformara-se em ocasião para excessos; havia
bebedeira e glutonaria.
Paulo escreveu imediatamente uma carta severa aos coríntios, ordenando que se
afastassem dos desobedientes e os excluísse da comunhão. Essa carta, ou
epístola, é conhecida como Primeira aos Coríntios.
Então Paulo esperou para ver como receberiam sua carta. Queria dar-lhes tempo
para que se arrependessem, antes de visitá-los uma terceira vez.
Paulo julgou necessário enviar Timóteo e Erasto para verificar como iam as
coisas. Mais tarde, escreveu uma outra carta severa aos coríntios,
censurando-lhes o comportamento e corrigindo os males que enfraqueciam o
testemunho cristão. Essa carta (que não chegou até nós) foi levada por Tito,
O jovem que anos antes o acompanhara a Jerusalém.
A indignação de Paulo não era apenas pela desordem na igreja de Corinto; ouvira
também que muitas igrejas da Galácia estavam esquecendo as verdades simples do
Evangelho, e aderindo à idéia de que o caminho da salvação passava pela
sinagoga e pela lei de Moisés.
O Novo INIMIGO
Como se já não houvesse problemas suficientes, um novo inimigo surgiu em
Éfeso. O Evangelho fora pregado eficazmente em todas as cidades e povoados
perto de Éfeso, e houve centenas de convertidos. Resultado: os artesãos que
vendiam imagens de prata de Diana começaram a sentir o declínio em seu
comércio. Alarmados, fizeram uma reunião. O principal orador, Demétrio, era
ourives e comprava suas imagens dos artífices. Em seu discurso, Demétrio
explicou aos membros da corporação o motivo do declínio nas vendas e
instigou-lhes a ira, sugerindo que o próprio templo corria perigo. Inflamados
pelo discurso, os negociantes agarraram a Gaio e a Aristarco, dois fiéis amigos
de Paulo, e arrastaram-nos até o teatro ao ar livre, considerado o maior do
mundo.
Atraída pela gritaria, uma grande multidão ajuntou-se. Sem nem saber o que
estava acontecendo, todos começaram a correr pelas ruas, gritando a plenos
pulmões: "Grande é a Diana dos efésios!" (At 19.28).
As ruas encheram-se de gente que se dirigia apressada ao teatro, querendo saber
o porquê de tamanha excitação. Paulo escapou da multidão e, quando quis entrar
no teatro para juntar-se aos amigos, os discípulos o retiveram. Até alguns
líderes políticos da Ásia aconselharam-no a ficar longe dos ourives.
Engrossando a multidão estavam alguns judeus que fariam tudo para silenciar a
Paulo, a quem consideravam um inimigo da sinagoga. Aproveitando-se do tumulto
no teatro, um deles, Alexandre, levantou a mão para ser ouvido. Sua intenção
era pedir a prisão de Paulo, esperando assim dar um golpe na Igreja. Mas quando
o povo reconheceu seus traços e vestimentas judias, não quis ouvi-lo. Em vez
disso, gritaram mais alto: "Grande é a Diana dos efésios! (At 19.34).
Alexandre deu-se por feliz em ter a vida poupada; sem perda de tempo,
misturou-se à multidão.
O tumulto durou cerca de duas horas. O poder de Diana fora posto em dúvida e os
seus seguidores estavam enfurecidos. Aquele episódio foi uma demonstração de
como os efésios se sentiam em relação à sua deusa e ao seu templo. Quando os gritos
e vozes cessaram, o escrivão da cidade apaziguou-lhes a ira e mandou-os de
volta para casa.
Varões efésios, qual é o homem que não sabe que a cidade dos efésios é a
guardadora do templo da grande deusa Diana e da imagem que desceu de Júpiter?
Ora, não podendo isso ser contraditado, convém que vos aplaqueis e nada façais
temerariamente. Porque esses homens que aqui trouxestes nem são sacrílegos nem
blasfemam da vossa deusa. Mas, se Demétrio e os artífices que estão com ele têm
alguma coisa contra alguém, há audiências e há procônsules; que se acusem uns
aos outros. Mas, se alguma outra coisa demandais, averiguar-se-á em legítimo
ajuntamento. Na verdade, até corremos perigo de que, por hoje, sejamos acusados
de sedição, não havendo causa alguma com que possamos justificar esse concurso
(At 1935-40).
Paulo Volta à Macedônia
Naquela mesma noite Paulo convocou a igreja e contou que iria à Macedônia.
Enquanto a poeira baixava, seria melhor para a igreja de Éfeso que ele não
estivesse presente. O apóstolo pregou seu sermão de despedida e, depois de
abraçar cada irmão, seguiu para o norte, pela estrada que levava a Trôade.
Paulo esperava encontrar Tito ali, voltando da Grécia, talvez com notícias da
igreja de Corinto. Mas em Trôade, ficou desapontado: Tito não chegara. Esperou
alguns dias, e embora a população de Trôade lhe mostrasse sincera amizade, ele
ansiava por partir. A preocupação com a igreja de Corinto pesava-lhe
grandemente, além de que, pretendia visitar todas as igrejas da Macedônia. Com
essa meta, embarcou para a Macedônia e chegou a Filipos, onde podia contar com
amigos sinceros.
A casa de Lídia recebeu-o cordialmente. Aquele dia foi gasto visitando cristãos
que há muito não via, mas que sempre tinham sido lembrados em suas orações. O
encontro foi uma alegria a Paulo e a seus filhos na fé. O carcereiro e sua
família continuavam firmes em CRISTO. Também encontrou-se novamente com Timóteo
e soube do seu sucesso na pregação do Evangelho.
Mas os cristãos coríntios não lhe saíam da mente, e embora apreciasse a estada
entre os filipenses, ficou inquieto até que Tito chegou de Corinto trazendo
boas notícias. A carta enviada por Paulo, juntamente com o ministério de Tito,
haviam transformado a situação. Os coríntios castigaram o pecador que estava
vivendo em cabal contradição aos mandamentos do Senhor, e purificaram suas
vidas dos pecados específicos que Paulo lhes apontara. Até a divisão da igreja
tinha melhorado; em vez de quatro partidos havia agora só dois - os que eram a
favor de Paulo e os que eram contra. Os inimigos do apóstolo duvidavam de seu
apostolado e até criticavam-lhe as palavras e aparência pessoal. Os amigos,
porém, tinham sido despertados e, genuinamente, se arrependido.
A Segunda Epístola aos Coríntios
Incomodado com o relatório trazido por Tito, o apóstolo Paulo escreveu a
mais pessoal de todas as suas cartas - a Segunda Epístola aos Coríntios. Nela,
demonstrou toda a sua preocupação com aqueles crentes. Para eliminar a dúvida
que eles tinham sobre o seu apostolado, repetiu-lhes grande parte de suas
experiências, pensamentos, temores e vida particular. Tinha muito a dizer sobre
seus sofrimentos e empenho na causa de CRISTO. Contou de suas várias prisões;
das cinco ocasiões em que foi publicamente açoitado; e dos três naufrágios que
sofrerá, ficando certa vez na água durante 24 horas.
Essa carta é, em certo sentido, uma autobiografia de Paulo e uma firme defesa
do seu ministério e convocação superiores. Ele escreveu:
Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui
açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma
noite e um dia passei no abismo; Em viagens, muitas vezes; em perigos de rios,
em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos
gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em
perigos entre os falsos irmãos. Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas
vezes, em fome e sede, em jejum, muitas vezes, em frio e nudez (2 Co 11.2427).
Esta Carta aos Coríntios foi uma mescla de louvor e condenação -louvor aos
fiéis e condenação aos rebeldes.
Paulo, Missionário em Terras Estrangeiras
Tito ofereceu-se para voltar com a carta. Lucas, o médico amado,
acompanhou-o na viagem. Mas Paulo permaneceu em Filipos, fazendo dessa cidade o
centro de suas viagens por toda a província. Aonde quer que fosse, exortava os
cristãos a uma vida diferente dos moldes do mundo. Viajou pelas montanhas, a
oeste de Filipos, pregando o Evangelho em aldeias e cidades onde CRISTO nunca
havia sido proclamado. Paulo havia dito que nunca desejara construir sobre os
alicerces lançados por outro; portanto, procurou visitar os lugares onde o
Evangelho era desconhecido. Ele foi verdadeiramente um missionário em terras
estrangeiras; fazia um trabalho pioneiro e, aonde quer que fosse, o Senhor o
acompanhava, operando sinais e prodígios, e atraindo a si tanto gregos como
judeus.
Indo de cidade em cidade, Paulo percebeu a terrível condição das pessoas
afastadas de DEUS. Embora habitassem em lindas cidades, com templos cuja glória
maravilhava o mundo, viviam nas trevas. Desde essa época, Paulo já pensava em
visitar Roma; planejava pregar o Evangelho no coração do Império Romano e,
talvez, prosseguir até a Espanha. Depois de algumas semanas na Macedônia, ele
foi para o sul, à Acaia. Queria verificar pessoalmente o estado da igreja de
Corinto. Essa igreja precisava novamente dele, e além disso, como Corinto fosse
a capital da Acaia, poderia fazer dela a sua base para pregar nas cidades
vizinhas. Permaneceu ali três meses trabalhando com Tito, que se apegara aos
cristãos coríntios e vinha demonstrando ser um ministro verdadeiramente sábio,
capaz de lidar com situações difíceis.
Durante esse período, Paulo encontrou tempo para visitar todos os crentes e
conversar pessoalmente com eles, fortalecendo-os na fé e advertindo-os contra
os falsos mestres. Assim, passou-se o inverno.
A Epístola aos romanos
Paulo escreveu a carta à igreja de Roma exatamente durante esse inverno.
Ele nunca visitara os crentes romanos, mas o desejo de fazê-lo crescia-lhe na
alma. Roma era a maior cidade do mundo, e pregar a mensagem da salvação aos
seus habitantes seria de fato um privilégio. Ele também já tinha vários amigos
ali, pois a essa altura, crentes de todas as cidades que visitara haviam se
estabelecido em Roma.
Paulo já era cristão há mais de 24 anos. Durante esse tempo, passara por muitas
experiências e grandes decepções. Sua mente, porém, abrira-se para JESUS como
uma flor se abre ao sol. Amadurecera na vida cristã, e o Evangelho de CRISTO
era-lhe, mais que nunca, uma preciosa realidade.
Em sua carta, Paulo decidiu proclamar o Evangelho em sua plenitude. Suas
palavras, ditadas a Tércio, visavam convencer os romanos de que todos, gentios
ou judeus, precisavam da salvação provida por DEUS em seu Único Filho. DEUS a
oferecia como um dom; bastava ao homem recebê-la de graça. Homem algum pode,
por esforço próprio, ser reto e aceitável a DEUS.
"Não há um justo, nem um sequer" (Rm 3.10).
Nem mesmo guardando a Lei o indivíduo pode ser justo. A Lei foi dada para
provar que o mundo todo é culpado diante de DEUS. Pelas obras da Lei ninguém
pode ser justificado (Rm 3.20). A retidão de DEUS é revelada em JESUS CRISTO, e
pela Sua graça todos podem crer. Somos justificados pela fé no que DEUS fez por
nós, e não pelas boas obras que possamos fazer (Rm 3.28).
A maior carta de Paulo continuou sendo escrita dia a dia, estabelecendo as verdades
fundamentais da fé cristã. Assim, quando os falsos mestres chegassem a Roma - o
que sem dúvida aconteceria - os crentes de lá estariam fortalecidos. Paulo
preocupava-se com os romanos, embora nunca os tivesse visto pessoalmente.
Dos altos cumes das doutrinas superiores, Paulo desceu às campinas da vida
prática e rotineira, e conversou com eles sobre o viver diário, o pagamento de
impostos e seu relacionamento com as autoridades. Terminou a carta com
saudações pessoais a vários homens e mulheres em Roma, a quem citou pelo nome.
Depois de colocado o selo, o rolo foi embrulhado numa proteção de pano e
entregue a Febe, uma mulher de Cencréia, porto de Corinto, que viajava a Roma
para negócios.
A Decisão de Paulo de Voltar para Casa
Passados três meses, Paulo resolveu embarcar para a Síria. Seus inimigos
não ousaram perturbá-lo enquanto se achava em Corinto, mas ao tomarem
conhecimento da sua ida a Cencréia, conspiraram para matá-lo. Longe da igreja
onde os amigos o defendiam, certamente conseguiriam seu intento. O plano
ardiloso, porém, falhou. Um amigo inteirado do segredo avisou imediatamente a
Paulo, que mudou o itinerário. Enquanto os inimigos vigiavam a estrada
litorânea, ele seguiu por terra para a Macedônia.
Quando Paulo chegou a Filipos, Lucas juntou-se ele. O médico permaneceria na
companhia do apóstolo até o dia da sua morte, participando de todas as suas
aventuras e registrando cada uma delas no livro de Atos.
Sete homens, escolhidos em diferentes cidades, propuseram-se a acompanhar Paulo
na sua viagem de volta a casa. Cada um levava uma oferta especial, que lhes
fora confiada pelas diversas igrejas, e destinada aos irmãos carentes de
Jerusalém. O próprio Paulo levava a oferta de Corinto. Esses sete homens foram
enviados na frente, de navio, para Trôade, enquanto Paulo e Lucas permaneceram
em Filipos para a Festa dos Pães Asmos. Essa festa era a mais importante para
Paulo e para todo cristão, pois marcava o dia em que o Salvador ressuscitara
dentre os mortos.
Cinco dias mais tarde, eles chegaram a Trôade e reuniram-se aos sete homens que
os esperavam. Esses irmãos não haviam ficado ociosos. Tinham procurado todos os
cristãos da cidade e lhes contado que o grande apóstolo estava vindo
visitá-los.
Na chegada de Paulo, os crentes reuniram-se para celebrar a Ceia do Senhor e
ouvir a doutrina cristã. O coração de Paulo pulava de alegria quando
levantou-se para falar. Veio-lhe à mente a noite em que recebera, naquela
cidade, a visão da Macedônia, e como, em sua pressa de partir, ofendera os
irmãos; mais recentemente, em sua ânsia e temor pelos coríntios, tornara a
partir às pressas, apesar das súplicas da igreja para que ficasse.
O SERMÃO EM TRÔADE
Paulo fez novos planos, devendo viajar no barco que partiria no dia
seguinte. Como dizer tudo o que pretendia àquelas pessoas tão queridas, numa só
noite? Ele as exortou durante muitas horas, pregando com a alma; respondeu-lhes
as perguntas e fortaleceu-as na fé. O ambiente, no terceiro andar, estava
superlotado e aquecido pelas muitas lâmpadas acesas. Pretendendo enxergar
melhor por cima da multidão, um jovem chamado Êutico subiu numa janela e
sentou-se ali. Paulo continuava pregando. De repente, um grito aterrador
seguido de um ruído surdo interrompeu abruptamente o sermão. Êutico adormecera
e, perdendo o equilíbrio, despencara lá de cima.
A confusão reinou no aposento; ao olharem pela janela, as pessoas viram o corpo
sem vida caído na rua. Todos correram para lá. Lucas, o médico, foi sem dúvida
o primeiro a chegar. Talvez tenha olhado para a forma imóvel e encolhido os
ombros, como se dissesse: "Não adianta, está morto".
Paulo abriu caminho entre o povo. Como o profeta Elias, estendeu seu corpo
sobre o do jovem e abraçou-o, orando a DEUS para que tudo acabasse bem. A
seguir, levantando-se, disse aos espectadores abalados: "Não vos
perturbeis, que a sua alma nele está" (At 20.10).
Enquanto observavam, a cor voltou às faces pálidas de Êutico. Paulo entregou-o
aos seus entes queridos, e subiu novamente ao cenáculo, onde os fieis, cheios
de gratidão, reuniram- se para ouvir mais.
Quando o alvor da manhã banhou a grande planície a leste de Trôade, Paulo ainda
pregava. E os crentes ouviam! Essa era a sua grande oportunidade e eles não
perderam uma só palavra. Mas, com a chegada do dia, os homens tinham de voltar
ao trabalho; e Lucas e os sete cristãos fiéis precisavam chegar cedo ao navio.
A Viagem a Jerusalém
Paulo, entretanto, planejava seguir a pé para Assôs, distante cerca de 32
quilômetros, e tomar ali o mesmo navio. Ele precisava desse passeio para ficar
a sós com os seus pensamentos e tomar algumas decisões. Não se sentia muito
feliz com seu retorno a Jerusalém. Seu espírito não se sentia livre a respeito;
havia premonições de problemas. Paulo nunca se sentiu bem- vindo em Jerusalém,
nem mesmo na igreja cristã. Seu trabalho era definitivamente entre os gentios.
Portanto, seu espírito achava-se turbado. Mas não era covarde, e se tivesse de
ser preso em Jerusalém, essa não seria a sua primeira prisão. O Senhor não
estivera com ele na cadeia? Decidiu então, naquela caminhada solitária, que
voltaria sem se importar com o que o aguardasse. Seus amigos nas igrejas que
deixara talvez estivessem enganados quando o aconselharam a afastar-se de
Jerusalém. Mas o aviso fora tão insistentemente repetido que não podia deixar
de preocupa-lo. Ele ficou imaginando se estava, quem sabe, negligenciando a voz
do ESPÍRITO de DEUS.
Em Assôs tomou o navio que, depois de carregado, rumou para a ilha de Lesbos,
impelido pelo vento norte.
Navegaram todo o dia seguinte entre as ilhas do mar Egeu, passando Dor Quios e,
mais tarde, pela grande baía onde fora construída a cidade de Éfeso. O
comandante do navio não tinha de aportar em Éfeso, mas o teria feito se Paulo
lho pedisse. Este, no entanto, estava ansioso por chegar a Jerusalém a tempo
para a Festa de Pentecostes, e insistiu com o comandante que não se detivesse
na cidade.
Pregando aos Amados Efésios
Em Mileto, a cerca de quarenta quilômetros ao sul de Éfeso, o navio ficou
mais tempo ancorado. Descarregaram ali diversas mercadorias e receberam novas
cargas para o restante da viagem. Paulo enviou uma mensagem aos seus amigos de
Éfeso, contando que estava em Mileto e queria vê-los. A sensação de que esse
seria seu último encontro com eles cresceu-lhe no íntimo. Não tinha sido
avisado de que algemas o esperavam em Jerusalém? Pois então era melhor
aproveitar cada oportunidade.
Os cristãos foram-lhe imediatamente ao encontro, especialmente os presbíteros
da igreja, pois lembravam-se dos três anos que Paulo passara com eles, e
amavam-no mais que a todos os outros. O encontro foi alegre, mas tenso; todos
sentiam que era uma despedida final. As últimas palavras são sempre cheias de
solenidade e importância, e Paulo conversou como alguém que amadurecera na fé.
Insistiu para que se mantivessem firmes e se fortalecessem, não importando o
que lhes sobreviesse no futuro.
Com grande eloquência, recapitulou seus três anos com eles, lembrando os dias
de sol e de sombras:
E agora, na verdade, sei que todos vós, por quem passei pregando o reino de
DEUS, não vereis mais o meu rosto. Portanto, no dia de hoje, vos protesto que
estou limpo do sangue de todos. Porque nunca deixei de vos anunciar todo o
conselho de DEUS. Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o
ESPÍRITO SANTO vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de DEUS, que
ele resgatou com seu próprio sangue. Porque eu sei isto: que, depois de minha
partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não perdoarão o rebanho. E
que dentre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para
atraírem os discípulos após si. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante
três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós.
Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a DEUS e à palavra da sua graça; a Ele que é
poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados (At
20.25-32).
Sua voz interrompeu-se e sua cabeça grisalha pendeu. O silêncio era total.
Ninguém sentiu vontade de abrir a boca e parecia que a única coisa a fazer era
orar. Paulo mencionou cada presbítero pelo nome, pedindo que o Salvador o
mantivesse leal, sincero e forte no dia da tentação. Quando se levantaram,
todos tinham lágrimas nos olhos. Eles estavam vendo, pela última vez, o grande
guerreiro que os guiara bravamente na batalha. Como a mãe-pássaro desfaz o
ninho, Paulo estava agora entregando-lhes toda a responsabilidade, deixando-os
por conta própria. Com os corações entristecidos, eles o acompanharam até o
navio e observaram até que o barco desaparecesse de vista.
A Visita a Tiro
Dois dias mais tarde, depois de costear a ilha de Cós e aportar em Rodes,
os nove viajantes foram até Pátara na Lícia. Aquele era o último porto em que o
navio ancoraria. Porém tiveram sorte, e logo encontraram outra embarcação de
partida para a Síria. Com um vento favorável, encaminharam-se para o alto mar,
em direção à grande cidade de Tiro. Essa era uma cidade gentia, e como sempre
houvesse um local onde os cristãos se reunissem, Paulo e seus amigos procuraram
por ele. Durante sete dias estiveram com os irmãos de Tiro, pregando o reino de
DEUS e encorajando-os com as histórias do que DEUS fizera em cidades distantes.
Foi ali que Paulo recebeu um aviso de certos discípulos de que o perigo o
aguardava em Jerusalém. Isso confirmou-lhe os sentimentos, mas não lhe abalou o
propósito. Muitas eram as razões que o levavam a Jerusalém. Tinha um grande
relatório para apresentar aos discípulos sobre a divulgação do Evangelho. Além
disso, levava dinheiro para os santos da cidade, o presente da igreja de
Corinto, e queria entregá-lo pessoalmente.
Quando a semana passou e o navio já estava prestes a partir, Paulo e seus
amigos suspiraram aliviados por terem chegado à última etapa da viagem. Em
Ptolemaida, deixaram o navio que prosseguiu em sua rota. Como ainda faltassem
quatorze dias para a grande festa em Jerusalém, passaram um dia com os cristãos
nesse porto.
A Profecia de Ágabo
Depois de saudarem os irmãos, eles seguiram para Cesaréia pela estrada
costeira. Paulo visitara frequentemente o lugar, por isso sentia-se em casa. O
evangelista Filipe morava ali, e Paulo estava certo de que seriam bem
recebidos.
Durante a sua estada com Filipe, o profeta Ágabo - o mesmo que previra a grande
fome nos dias do imperador Cláudio - chegou da Judéia. Ágabo conhecia a família
de Filipe. As quatro filhas do evangelista eram conhecidas por terem o dom da
profecia, e ele foi procurá-los.
Ao chegar à casa em que Paulo se hospedava, Ágabo reconheceu o apóstolo e,
conhecedor do sentimento que havia em Jerusalém contra ele, aconselhou-o a não
ir para lá. Como faziam os profetas do Antigo Testamento, Ágabo ilustrou sua
advertência: tomando o cinto de Paulo, abaixou-se e amarrou com ele os próprios
pés e mãos. Enquanto os presentes o observavam em silêncio, ele profetizou:
"Isto diz o Espirito SANTO: Assim ligarão os judeus em Jerusalém, o varão
de quem é essa cinta e o entregarão nas mãos dos gentios" (At 21.11).
O grupo inteiro, inclusive Timóteo e Lucas, rogou a Paulo que desistisse dos
planos de ir a Jerusalém. Com lágrimas nos olhos, suplicaram; mas suas palavras
eram como ondas batendo num penhasco. Paulo estava decidido. As palavras dos
amigos o entristeceram; seus protestos eram bem-intencionados e pretendiam
poupá-lo de danos físicos, mas não era isso o que ele temia. Já enfrentara tais
coisas antes, e o Senhor o livrara. Disse-lhes então: "Que fazeis vós,
chorando e magoando-me o coração? Porque estou pronto não só a ser ligado, mas
ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor JESUS" (21.13).
Em face de tal determinação, eles aquiesceram: "Faça-se a vontade do
Senhor!" (21.14).
Embora soubesse dos perigos que o aguardavam, Paulo reuniu seus pertences e
seguiu para Jerusalém. Vários cristãos de Cesaréia acompanharam-no; entre eles,
Mnasom, um dos primeiros convertidos. Mnasom tinha uma casa em Jerusalém, e
Paulo poderia hospedar-se nela, ficando a salvo do perigo.
A ULTIMA VISITA A JERUSALÉM
Jerusalém preparava-se para o Dia de Pentecostes; já estava cheia de judeus
provenientes de todo o império. Paulo e seus amigos abrigaram-se na casa de
Mnasom. Era uma residência senhorial, rodeada por um muro alto, e os cristãos
que gozavam da hospitalidade do seu proprietário tinham todo conforto.
Na casa de Maria, Paulo encontrou alguns dos líderes da igreja. Tiago, o irmão
de JESUS, era um deles. Ele havia envelhecido e seu cabelo branco e
encaracolado chegava-lhe aos ombros, à moda nazarena. Paulo saudou a igreja, e
contou-lhe a história da sua terceira viagem. Ele atravessara os Portões da
Cilícia para a Galácia, e depois de visitar todas as igrejas dali, fora para
Éfeso, onde permanecera três anos. Viajara depois para a Europa e pregara aos
santos de Filipos, testemunhando de CRISTO nas regiões interioranas do Ilírico.
Chegara finalmente a Corinto, e iniciara uma campanha que o levou a muitas
outras cidades da Grécia. A história de quatro anos de trabalho foi apresentada
em rápidas pinceladas.
Os crentes de Jerusalém ficaram também conhecendo a igreja rebelde de Corinto,
e como esta se arrependera e afastara-se do mal. A seguir, como se para
confirmar suas palavras, Paulo apresentou um saco pesado de dinheiro, dizendo
ser uma contribuição dos coríntios à igreja-mãe. Aquela oferta era um socorro
aos irmãos reduzidos à pobreza por causa da fé em CRISTO.
Presentes à Igreja-mãe
Quando Paulo entregou o presente, seus companheiros de viagem que tinham
vindo com o mesmo propósito também entregaram os seus. Lucas, de Filipos;
Timóteo, de Listra; Sópatro, de Beréia; Aristarco e Segundo, de Tessalônica;
Gaio, de Derbe; Tíquico e Trófimo, de Éfeso - todos eles cristãos de cidades
distantes e frutos do ministério de Paulo - trouxeram sacolas pesadas de
dinheiro e entregaram-nas aos irmãos, para que socorressem os santos da Judéia.
O relatório de Paulo foi grandioso. Contudo, enquanto dava as informações, pôde
sentir a estreiteza mental dos crentes de Jerusalém. É claro que todos louvaram
a DEUS pelo maravilhoso crescimento do reino e por todo gentio que se juntara a
eles. No entanto, Paulo sentia que nem todos eram como os crentes de Antioquia.
Até mesmo a gloriosa história de heroísmo que contara foi recebida com certa
desconfiança.
Como líder do grupo, Tiago levantou-se para receber os presentes e agradecer
por eles. Tiago sempre fora um tanto formal, e Paulo e seus amigos notaram isso
naquele momento. Paulo percebeu também que os presbíteros de Jerusalém haviam
discutido sobre ele, e não estavam ainda convencidos de que sua posição fora
determinada por DEUS. Histórias sobre a pregação de Paulo haviam chegado a
Jerusalém, e os presbíteros estavam contrafeitos com o que ouviram. Quando
Paulo falou-lhes do trabalho entre os gentios, dizendo que diante de DEUS não
havia diferença, e que o gentio cristão fazia parte da Igreja da mesma forma
que o judeu cristão, as suspeitas deles foram confirmadas.
O sentimento do grupo aflorou quando Tiago, o porta-voz, expôs:
Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus há que crêem, e todos são zeladores
da lei. E já acerca de ti foram informados que ensinas todos os judeus que
estão entre os gentios a apartarem-se de Moisés, dizendo que não devem
circuncidar os filhos, nem andar segundo o costume da lei. Que faremos pois? em
todo o caso é necessário que a multidão se ajunte; porque terão ouvido que já
és vindo. Faze, pois, isto que te dizemos:
Temos quatro varões que fizeram voto. Toma estes contigo, e santifica-te com
eles, e faze por eles os gastos para que rapem a cabeça, e todos ficarão
sabendo que nada há daquilo de que foram informados acerca de ti, mas que
também tu mesmo andas guardando a lei (At 21.20-24).
Paulo ouviu o conselho e o analisou. Como ansiasse por unir os partidos
contrários, dispôs-se a ceder nos detalhes de pouca importância. Costumava
explicar que estava preparado para ser tudo para com todos os homens, a fim de
ganhar alguns. Essa era a sua oportunidade de promover a paz. Se aquilo era
importante para o seu testemunho entre os judeus, ele podia atender ao pedido
sem qualquer dano pessoal.
O apóstolo aceitou a sugestão na esperança de conseguir que houvesse paz entre
os dois partidos. Levando os quatro homens ao Templo, anunciou que estavam
prestes a começar os sete dias de purificação, e pagou, para cada um, dois
carneiros, uma ovelha, um cesto de bolos sem fermento e uma medida de vinho.
Rebelião no Templo
Um grupo de judeus da Ásia Menor reuniu-se no Templo para ouvir um rabino
discursando sobre a Lei. De repente, um deles puxou a roupa do amigo, e
perguntou: Aquele não é Paulo, o líder cristão? O que faz ele no Templo?
O pequeno grupo virou-se rapidamente para identificar o homem a quem se haviam
oposto tão amargamente quando pregara CRISTO na sua sinagoga. Lembravam-se
muito bem de que a pregação dele havia perturbado a sinagoga e dividido as
famílias judias. Ele falara contra a adoração nacional e os costumes judaicos.
Sim, esse era o mesmo homem que haviam expulso da cidade, e aqui estava ele de
volta ao Templo.
Alguém lembrou-se de tê-lo visto antes com Trófimo, o efésio, e em breve todos
o culpavam de haver profanado o santuário, ao introduzir nele um gentio.
Correndo em direção a Paulo, gritaram:
Israelitas, acudi! Esse é o homem que por todas as partes ensina a todos,
contra o povo e contra a lei, e contra esse lugar; e demais disto, introduziu
também no templo os gregos, e profanou esse santo lugar (At 21.28).
Já agora, havia gente afluindo de todas as direções. A multidão ajuntou-se e os
boatos corriam livremente. Fora dos muros do Templo, espalharam-se as notícias
de que um traidor de Israel havia sido apanhado e seria morto. As ruas ficaram
cheias de pessoas que corriam ao Templo, querendo presenciar os acontecimentos.
No Templo, a plebe amotinada agarrara a Paulo e, batendo nele com varas e
socos, arrastara-o para a rua, onde preparava-se para matá-lo.
O socorro, porém, estava próximo. As tropas romanas que vigiavam a cidade
durante as festas religiosas logo notaram a comoção diante do Templo. O
comandante Lísias não perdeu tempo. Com uma companhia de soldados, apressou-se
para o lugar onde o povo espancava a Paulo. Com a chegada dos soldados romanos,
a multidão afastou-se.
A Defesa de Paulo
Ao ver que Paulo era o centro de toda a confusão, o comandante romano supôs
que fosse um criminoso e ordenou que o acorrentassem. A seguir, perguntou à
multidão-. "Quem é esse homem e que mal ele fez?"
Um rugido brotou da garganta de milhares de judeus, e na confusão Lísia nada
conseguia entender. Ele detestava aqueles judeus rebeldes e suas escaramuças
religiosas. Pareciam ser o único povo conquistado do império que precisava
ficar sob constante observação, pois em cada festa religiosa colocavam em risco
a paz romana. Agora, em meio à confusão daquela cena, cada um gritava uma
coisa.
Não conseguindo entender aqueles gritos selvagens, Lísias fez um gesto
impaciente, dando um sinal aos seus homens. Imediatamente eles cercaram a Paulo
e recolheram-no à fortaleza. O povo mostrou-se desafiador; os gritos e caçoadas
aumentaram. Os amotinados aproximaram-se tanto do prisioneiro que os soldados
tiveram de levantá-lo e literalmente carregá-lo. Pelas vozes e atitude do povo,
Lísias julgou ter capturado o agitador egípcio que, dias antes, havia reunido
uma multidão no Monte das Oliveiras e ameaçado derrubar os muros de Jerusalém.
Ao chegarem aos degraus, tendo deixado a multidão enfurecida lá embaixo, Paulo
voltou-se respeitosamente ao seu captor e indagou em grego: "É-me
permitido dizer-te alguma coisa?" (At 21.37).
Lísias ficou espantado ao ver o cativo "egípcio" dirigir-se a ele no
idioma grego.
Paulo explicou: "Na verdade que sou um homem judeu, cidadão de Tarso,
cidade não pouco célebre na Cilícia; rogo-te, porém, que me permitas falar ao
povo" (At 21.39).
Lísias ficou impressionado ao ver a calma de Paulo diante do perigo e, com
evidente admiração, permitiu que falasse. Enquanto os soldados guardavam os
degraus, Paulo levantou a mão à multidão zangada, como sinal de que queria
dirigir-lhe a palavra. Sua coragem fez com que se dispusessem a ouvi-lo. Na sua
própria língua, Paulo começou o discurso.
Abaixo dele havia um mar de rostos fechados. Aqui, um fariseu com seu manto
branco; ali, um rabino em trajes talares; e por toda parte, olhos ardendo de
ódio.
Suas palavras foram diferentes das usuais, pois aquela gente não estava
disposta a ouvir sermões.
Varões, irmãos e pais, ouvi agora a minha defesa perante vós (At 22.1).
O povo vibrou. Aquela era a sua amada língua hebraica.
Quanto a mim, sou varão judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta
cidade aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais,
zeloso de DEUS, como todos vós hoje sois (At 22.3).
Paulo aprendera que, como orador, devia prender a atenção da plateia
dizendo-lhe as coisas que esta gostava de ouvir.
Persegui este Caminho até à morte, prendendo e metendo em prisões, tanto homens
como mulheres. Como também o sumo sacerdote me é testemunha, e todo o conselho
dos anciãos; e, recebendo destes cartas para os irmãos, fui a Damasco, para
trazer manietados para Jerusalém aqueles que ali estivessem, a fim de que
fossem castigados (At 22.4,5).
A seguir, contou-lhes a respeito da luz que brilhara sobre ele ao entrar na
cidade de Damasco, e da voz e aparição do Senhor. Falou igualmente de Ananias,
da recuperação da sua vista e da comissão divina para ir e pregar CRISTO ao
mundo. Devido à sua súbita transformação de perseguidor em discípulo, os judeus
de Jerusalém haviam se recusado a ouvi-lo. Certo dia, enquanto estava no
Templo, caíra em transe. Ouvira a voz do Senhor, ordenando que deixasse
Jerusalém e fosse pregar aos gentios.
A multidão ouviu em silêncio até esse ponto, mas quando o nome gen-tio - termo
tão odiado - foi dito, sentiu-se ferida em seu orgulho religioso. Cheios de
raiva, recomeçaram a gritar. O ruído transformou-se subitamente num clamor
enfurecido: "Tira da terra um tal homem, porque não convém que viva"
(At 22.22).
Despindo-se, lançaram pó ao ar. Era a expressão evidente do seu desagrado,
pedindo a morte de Paulo.
Lísias não pôde entender a defesa de Paulo, porque não conhecia o idioma
hebraico. Ao ver que o povo redobrava a fúria, mandou que o apóstolo fosse
recolhido à segurança da fortaleza. Depois ordenou aos soldados que o
açoitassem e obtivessem a verdade mediante tortura. Quando estavam atando Paulo
com as correias, este perguntou ao oficial encarregado: "É-vos lícito
açoitar um romano, sem ser condenado?" (At 22.25).
Surpreso com a pergunta, o oficial ordenou aos soldados que interrompessem o
castigo, e foi procurar Lísias. Repetindo as palavras de Paulo ao comandante,
aconselhou-o: "Vê o que vais fazer, porque esse homem é romano" (At
22.26).
Lísias foi com o homem até ó poste, aonde Paulo estava acorrentado e com as
costas nuas. "Dize-me, és tu romano?" (At 22.27).
Quando Paulo afirmou que sim, Lísias mandou que o desamarrassem. Ele quase
cometera um grande erro.
Voltou-se então a Paulo e disse: "Eu, com grande soma de dinheiro alcancei
o direito de cidadão".
Ao que Paulo replicou: "Mas eu sou-o de nascimento" (At 22.28).
Os soldados receberam ordens para devolver as roupas de Paulo e ajudá-lo a
vestir-se. O apóstolo foi então levado a uma cela de pedra, da qual esperava
ser libertado no dia seguinte. Mas, ele passara pela porta de uma prisão
romana, e em certo sentido, jamais seria verdadeiramente livre outra vez.
Paulo Diante do Sinédrio
Em vez de solto, Paulo foi levado por uma tropa de soldados ao grande salão
do Templo. Suas correntes haviam sido removidas e ele encontrou-se face a face
com o Sinédrio. O grupo imponente fora convocado por Lísias; ele queria ouvir
as acusações dos judeus para chegar a uma decisão sobre o prisioneiro. Ao
entrar no pátio exterior do Templo, Paulo sentou- se entre os guardas, no mesmo
salão onde ele próprio estivera tantas vezes como acusador, opinando contra os
discípulos de JESUS.
Examinando os homens do conselho, Paulo sabia que alguns deles haviam estado
presentes, um quarto de século antes, num falso julgamento, quando JESUS
encontrava-se naquele mesmo lugar.
Da última vez em que Paulo estivera naquele grupo do conselho, seu coração
ardia de ódio. Ele costumava assistir a todas as reuniões do Sinédrio e votar
contra os cristãos. Mas agora, era diferente. Seu coração estava cheio da paz
de DEUS, e seu desejo era falar de um modo que testemunhasse eficazmente de seu
Salvador.
Lísias deu-lhe permissão. Com a habilidade de um grande orador, Paulo começou
seu discurso.
Varões irmãos, até ao dia de hoje tenho andado diante de DEUS com toda a boa
consciência (At 23.1).
Os membros do Sinédrio tinham certeza de que isso era mentira. Consideravam-no
um traidor da sua causa e aquela declaração os espantou. Ananias, o sumo
sacerdote, exaltou-se: "Guardas, batam-lhe na boca!"
Paulo ficou irado com essa ordem maldosa e, voltando os olhos míopes ao sumo
sacerdote, replicou:
"DEUS te ferirá, parede branqueada; tu estás aqui assentado para julgar-me
conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir?" (At 23.3).
Muitas vozes elevaram-se e alguém gritou: "Injurias o sumo sacerdote de
DEUS?" (At 23.4).
Houve, imediatamente, uma acusação formal contra Paulo. Este compreendeu que
cometera um erro e desculpou-se na mesma hora: "Não sabia, irmãos, que era
o sumo sacerdote; porque está escrito: Não dirás mal do príncipe do teu
povo" (At 23.5).
Paulo continuou seu discurso e, sabendo que o conselho era formado por fariseus
e saduceus, gritou: "Varões irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseu! No
tocante à esperança e ressurreição dos mortos sou julgado!" (At 23.6).
Tinha certeza de que essas palavras dividiriam o Sinédrio. Desde que os
fariseus criam na ressurreição dos mortos, e os saduceus a negavam, surgiu uma
grande controvérsia no conselho. De pé, com o dedo em riste, homens de ambos os
partidos trocavam palavras contundentes. Por fim, os fariseus lembraram-se da
recomendação de Gamaliel, de que se um espírito ou anjo falara realmente a
Paulo, eles não estavam em posição de lutar contra DEUS.
Portanto, esquecendo suas reclamações contra o apóstolo, admitiram:
"Nenhum mal achamos nesse homem" (At 23.9).
Os saduceus, porém, não aceitaram essa decisão e o tumulto aumentou.
Desgostoso, Lísias observava-os. Que cena típica das contendas religiosas
judias! Gritos e maldições eram atirados de um partido contra o outro, enquanto
cada um reivindicava o direito de decisão a respeito de Paulo. Alguns tentaram
pôr as mãos sobre o apóstolo e arrastá-lo à morte, mas os soldados armados, a
uma ordem do comandante, rodearam Paulo e livraram-no de ser feito em pedaços.
Lísias ordenou rapidamente que os guardas reconduzissem o apóstolo à fortaleza.
A Visão Noturna de Paulo
Naquela noite, deitado na cama de palha, Paulo tentava dormir, mas estava
apreensivo e inquieto. Na sua agonia, viu o Senhor de pé ao seu lado,
encorajando-o: "Tem ânimo; porque, como de mim testificaste em Jerusalém,
assim importa que testifiques também em Roma" (At 23.11).
O espírito de Paulo reanimou-se; ele sentiu-se confortado. Não sabia como esta
promessa se cumpriria, mas bastava que DEUS o soubesse. Paulo ficou feliz. O
anseio do seu coração seria respondido. DEUS não terminara ainda seu propósito
com ele.
Antes que findasse o dia seguinte, um jovem entrou na fortaleza pedindo para
ver o prisioneiro. Afirmou ser um parente, e deixaram-no entrar. Ao vê-lo,
Paulo reconheceu o filho de sua irmã. Na juventude de Paulo, em Tarso, sua irmã
casara-se com um habitante de Jerusalém e fora viver nessa cidade, criando uma
família leal à sinagoga.
O Aviso
- Tio Paulo - segredou o rapaz -, vim avisar o senhor de que há uma
conspiração entre os judeus para matá-lo. Mais de quarenta deles fizeram um
juramento de que não vão comer nem beber até que o liquidem. Amanhã, os
principais sacerdotes vão pedir a Lísias que o leve novamente diante do
Sinédrio, alegando que querem lhe fazer certas perguntas. Mas o grupo de
quarenta ficará à espreita e, no momento em que os guardas o entregarem às
autoridades do Templo, eles o atacarão e o matarão.
Paulo estava acorrentado ao guarda, mas pediu ao centurião que levasse seu
sobrinho até Lísias e o avisasse da conspiração. O comandante ouviu cada
palavra e fez o jovem prometer que manteria sigilo sobre o assunto.
Lísias compreendeu, porém, que a única maneira de manter a paz era fazendo
Paulo sair de Jerusalém. Um plano formava-se em sua mente. Ele enviaria o
prisioneiro a Félix, o governador de Cesaréia. Esta cidade era a capital romana
da Judéia, e o perigo de rebelião seria menor numa cidade distante, com uma
guarnição romana maior. Depois de fazer planos para escapulir com Paulo naquela
mesma noite, ele sorriu ao pensar no desgosto dos judeus, quando descobrissem
que o preso se fora. Riu também quando lembrou que os quarenta teriam de
quebrar a promessa de jejum ou morrer de fome.
Naquela noite, uma escolta de duzentos soldados, sob o comando de dois
centuriões, juntamente com setenta cavaleiros e duzentos lanceiros, dirigiu-se
para Cesaréia com o prisioneiro. O grupo era grande porque Lísias temia um
levante dos judeus. Além disso, a guarnição de Jerusalém fora aumentada durante
a Festa do Pentecostes, mas agora que essa terminara e os peregrinos já haviam
retomado às suas casas, muitos dos soldados iam ser deslocados aos seus postos
anteriores.
Em Antipatris, os soldados de infantaria deixaram Paulo aos cuidados dos
cavalarianos, certos de que não havia mais perigo por parte dos judeus.
Lísias enviara uma carta a Félix, descrevendo o caso de Paulo e concluindo:
"Nada encontrei contra o prisioneiro que mereça morte ou prisão, mas estou
dizendo aos acusadores que façam suas acusações diante do seu tribunal".
A carta dava a impressão de que Lísias salvara a Paulo dos judeus por ser ele
romano.
Quando Félix a leu, notou que Paulo era cidadão romano e indagou qual a sua
província. Quando soube que era da Cilícia, ordenou que fosse mantido em
segurança e que o julgamento ocorresse depois que seus acusadores chegassem a
Jerusalém.
Paulo, no entanto, caíra nas mãos de um homem fraco, que tinha por hábito adiar
as coisas, e que para proteger sua autoridade, era inescrupuloso e injusto. Nos
dois anos seguintes, a vida de Paulo passou-se dentro dos muros da prisão de
Cesaréia. A situação era desanimadora; em todo caso, ele tinha a promessa de
DEUS de que pregaria o Evangelho em Roma.
Antônio Félix fora nomeado para o governo pelo imperador Cláudio, em 52 A.D.
Ele casara-se com uma judia, Drusila, filha de Agripa, depois de fazê-la
abandonar o marido. O pecado tornou-o infeliz, apesar da sua elevada posição.
Antes, fora escravo; depois de solto, recebeu um alto cargo, para o qual não
estava capacitado. Seu governo destacava-se por atos de vingança e crueldade, e
pela corrupção evidente, aceitando e pagando subornos. Os súditos o odiavam, e
seu único remédio para as desordens na Judéia era a força bruta.
O Julgamento perante Félix
Cinco dias após a chegada de Paulo a Cesaréia, o sumo sacerdote Ananias e
os anciãos de Jerusalém compareceram para acusá-lo. Como não conhecessem a lei
romana, levaram em sua companhia um advogado astuto de nome Tértulo. Dessa vez,
não iriam perder! De pé, diante do tribunal de Félix, o orador começou seu
discurso elogiando o governador e criticando o comandante Lísias:
Visto como, por ti, temos tanta paz, e, por tua prudência, se fazem a este povo
muitos e louváveis serviços, sempre e em todo lugar, ó potentíssimo Félix, com
todo o agradecimento o queremos reconhecer. Mas, para que te não detenha muito,
rogo-te que, conforme a tua equidade, nos ouças por pouco tempo (At 24.2-4).
A seguir, apontando o dedo comprido ao apóstolo sentado à frente da tribuna,
sob a guarda de um soldado, continuou:
Temos achado que esse homem é uma peste e promotor de sedições entre todos os
judeus, por todo o mundo, e o principal defensor da seita dos nazarenos. O qual
intentou também profanar o templo; e por isso o prendemos...examinando-o,
poderás entender tudo o de que o acusamos (At 2.5-8).
Virando-se aos seus empregadores com um voltear eloquente da mão, Tértulo
perguntou-lhes se os fatos não eram exatamente aqueles. Enquanto Félix
observava-lhes a fisionomia, todos concordaram com a cabeça.
As acusações eram graves, especialmente a de incitar motins entre os judeus. Se
havia algo que os romanos vigiavam, era o traidor que perturbava a paz de Roma.
Enquanto ouvia o discurso, Paulo notou os pontos fracos que ele continha e,
quando teve permissão para defender- se, rapidamente os apontou.
A Defesa de Paulo
No momento em que Paulo pôs-se de pé diante do tribunal, Félix inclinou-se
para escutá-lo atentamente. Ele ouvira falar dos nazarenos e do seu zelo, e
desde que sua esposa era judia, tinha algum interesse em saber mais a respeito
desse JESUS, que, segundo diziam, levantara-se dentre os mortos.
Tértulo era um bom orador, mas Paulo ouvira os homens de Atenas e DEUS lhe dera
um dom de oratória, que superava o de qualquer de seus contemporâneos. Quando
chegou a sua vez de falar ao nobre Félix, começou:
Porque sei que já vai para muitos anos que desta nação és juiz, com tanto
melhor ânimo respondo por mim (At 24.10).
Iniciando a sua defesa sem mais delongas, negou cada uma das acusações feitas,
descrevendo com grande simplicidade os eventos que levaram à sua prisão.
Pois bem podes saber que não há mais de doze dias que subi a Jerusalém a
adorar. E não me acharam no templo falando com alguém, nem amotinando o povo
nas sinagogas, nem na cidade. Nem tão pouco podem provar as coisas de que agora
me acusam. Mas confesso-te que, conforme aquele Caminho que chamam seita, assim
sirvo ao DEUS de nossos pais, crendo tudo quanto está escrito na lei e nos
profetas. Tendo esperança em DEUS, como estes mesmos também esperam, de que há
de haver ressurreição de mortos, tanto dos justos como dos injustos. E, por
isso, procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com DEUS como
para com os homens.
Ora, muitos anos depois, vim trazer à minha nação esmolas e ofertas. Nisto me
acharam já santificado no templo, não em ajuntamentos, nem com alvoroços, uns
certos judeus da Ásia, os quais convinha que estivessem presentes perante ti, e
me acusassem, se alguma coisa contra mim tivessem. Ou digam estes mesmos, se
acharam em mim alguma iniqüidade, quando compareci perante o conselho (At
24.11-20).
Paulo olhou para todos eles e houve silêncio. Félix sentiu no coração que ele
era inocente. Aquele não fora o seu primeiro encontro com a inveja e maldade
judaicas. Mas, se uma voz lhe dizia para desconsiderar o caso, outra tentava-o
a esperar, até descobrir que lado deveria apoiar em vantagem própria.
Paulo Mantido na Prisão
A menção de dinheiro para os irmãos de Jerusalém o fez pensar em uma boa
soma que poderia ser-lhe paga pela liberdade do apóstolo. De qualquer modo,
valia a pena tentar! Se a igreja quisesse a libertação do seu líder, sem dúvida
levantaria fundos para obtê-la. Decidiu adiar sua decisão. Não seria má idéia
manter Paulo por perto durante algum tempo; havia muitas coisas sobre os
nazarenos que o interessavam e queria ter uma conversa particular com o
prisioneiro.
Com um aceno impaciente, Félix encerrou a sessão do tribunal, prometendo
ouvi-los de novo quando Lísias chegasse de Jerusalém. Paulo foi mantido em
custódia militar, acorrentado a um guarda, mas livre para receber seus amigos e
conhecidos. Os meses passaram-se e Lísias nunca chegou. Ananias e os anciãos,
decepcionados com a fraqueza do governador, voltaram irados a Jerusalém.
Durante os dias que se seguiram, Paulo teve muitos encontros privados com
Félix. Certa ocasião, Félix levou a esposa, Drusila. Ela era uma princesa
belíssima e com menos de vinte anos. Félix falara-lhe de Paulo e, sendo judia,
quis ver esse conterrâneo que se convertera ao Cristianismo. Drusila
compreendeu a diferença entre Paulo e os judeus que o acusavam, e tentou
explicá-la ao marido. Seria interessante ver o homem e ouvir-lhe as palavras.
Félix deu ordens para que Paulo fosse levado ao palácio.
Cercado por guardas, Paulo entrou no grande salão, onde Félix e sua jovem
esposa reclinavam-se em sofás de seda. Ela era bela e ambiciosa, e com um
sorriso curioso, voltou a atenção ao conterrâneo envelhecido, de quem tanto
ouvira falar. Drusila tinha antecedentes religiosos, mas, uma vez entregue à
vida de iniqüidade para conseguir poder e posição, não se preocupava tanto com
a entrevista, estando apenas um pouco curiosa.
Félix provavelmente não tinha religião. Como a maioria dos de sua classe, tinha
um medo supersticioso do desconhecido e, ao ouvir Paulo, ficou fascinado por
sua convicção e autoridade. Temeu que Paulo estivesse certo no que dizia. Era
possível que houvesse realmente um DEUS vivo, que guardava o futuro em suas
mãos, e talvez esse DEUS castigasse os perversos. Caso fosse verdade, qual
seria a sua posição?
O grande apóstolo não poupou palavras. Falou com destemor sobre viver em pureza
e retidão e sobre o domínio das paixões.
A vida de Félix tinha sido indisciplinada e absolutamente egoísta. Ele
satisfizera todos os seus sentimentos de ódio, vingança e desejo. Mas agora, as
palavras de Paulo assustavam-no, e ele tremeu ao pensar no futuro. Drusila
arqueou as lindas sobrancelhas e deu um sorriso vago, ao qual Félix não
conseguia resistir. Compreendeu também que, se permitisse que suas emoções o
dominassem a ponto de ceder à atração de Paulo, teria de desistir dessa mulher
bela e pecadora que era a luz de sua vida lasciva.
Uma sensação de medo o tomou, e disfarçando tudo, como se estivesse muito
ocupado com questões oficiais, fez sinal com a mão de que a entrevista
terminara. "Por agora vai-te, e tendo oportunidade, te chamarei" (At
24.25).
Quando retirava-se do aposento, Paulo ouviu o riso alegre da jovem princesa
enquanto ela e o marido ocupavam-se rapidamente de outras coisas.
Félix mandou chamar Paulo repetidas vezes depois disso, pois gostava de
conversar com ele sobre a eternidade e, além do mais, ainda entretinha a
esperança de que os cristãos lhe oferecessem uma soma de dinheiro pela
liberdade do líder. Mas, o dinheiro não chegou. A cada dia Félix rejeitava o
Evangelho; a cada dia seu coração endurecia-se mais. Paulo voltou à sua vida na
prisão, mantendo conversações diárias com os crentes que o visitavam.
Ávida em Cesaréia continuou rotineira. Paulo passou dois longos anos
acorrentado a um guarda romano, com o seu ministério suspenso e seu caso sem
solução. Seus inimigos, no entanto, não dormiam, e pediram a Félix que o
mantivesse preso. Para fazer um favor aos judeus, o governador deixou que ele
permanecesse encarcerado. Quando os amigos de Paulo fizeram petições, ele
prometeu apressar as coisas e continuar o julgamento depois da chegada das
testemunhas. Tanto os amigos como os inimigos de Paulo suplicaram ao governador
que tomasse uma decisão. Mas ele não atendeu; não mandou matá-lo nem
libertá-lo.
Félix foi subitamente chamado de volta à Roma. Durante seu termo de serviço,
houvera muitos levantes dos zelotes, que ele havia subjugado pela força, mas
que em breve voltavam à carga noutra região. Relatórios sobre esses fatos
chegaram aos ouvidos de César, que não tolerava a desordem em seu império.
Félix foi então removido, e outro governador, Festo, enviado com instruções
para manter a paz romana.
Paulo Diante de Festo
Nem bem Festo chegara ao palácio de Herodes e tomara as rédeas da
autoridade, os judeus viram outra chance de conseguir a morte de Paulo. Quando
Festo fez sua primeira visita oficial a Jerusalém, o sumo sacerdote e alguns
dos seus homens esperavam por ele, e suplicaram que Paulo fosse levado a
julgamento nessa cidade. O plano deles era assassiná-lo em algum ponto da
estrada. Mas, excederam-se em sua ansiedade, e Festo adivinhou que algo se
escondia por trás de tanto interesse.
- Não é costume dos romanos - asseverou ele -, castigar alguém antes de uma
acareação com os acusadores, e de dar oportunidade ao acusado para defender-se.
Ele está sendo mantido em Cesaréia, e quando eu voltar, em breve, que os
poderosos entre vocês me acompanhem e acusem o homem, se é que ele cometeu algo
errado.
Esse governador não era como Félix. Ele cumpriu sua palavra e, no dia seguinte
ao seu retorno a Cesaréia, Paulo foi levado diante da corte para enfrentar os
mesmos acusadores que pediram seu sangue nos dias de Félix. Festo não entendia
das leis judaicas e surpreendeu-se com o zelo daqueles homens de Jerusalém, que
tanto se esforçavam para conseguir uma sentença de morte. Ouviu pacientemente
as acusações e argumentos. Parecia ser uma disputa sobre religião, que ele
jamais poderia resolver.
Estava ansioso para começar bem o seu governo e ganhar o favor de seus
governados. Tendo ouvido muitas testemunhas da parte deles, voltou-se a Paulo e
perguntou: "Queres tu subir a Jerusalém e ser julgado acerca destas coisas
em minha corte?"
O Apelo a César
Paulo lembrou-se do ódio do Sinédrio, e compreendeu que em Jerusalém
estaria no meio dos inimigos. Tomou rapidamente uma decisão e apelou:
Estou perante o tribunal de César, onde convém que seja julgado; não fiz agravo
algum aos judeus, como tu muito bem sabes. Se fiz algum agravo, ou cometi
alguma coisa digna de morte, não recuso morrer; mas, se nada há das coisas de
que estes me acusam, ninguém me pode entregar a eles. Apelo para César (At 25
10 11).
Festo ficou atônito. Jamais ouvira um apelo desses antes, mas sabia que, pela
lei romana, não podia ser negado, pois Paulo era um cidadão livre, e esse era o
seu mais nobre direito como romano. Depois de conversar às pressas com o
conselho, levantou-se e fez o seu pronunciamento em tom grave: "Apelaste para
César? Para César irás" (At 25.12).
O dado estava lançado. A causa do Cristianismo deveria comparecer diante da
mais alta corte do mundo. Festo tinha de preparar um relatório para o
imperador, mas teve dificuldade em escrevê-lo. Nada tinha de definido a declarar
contra o homem; o relatório, porém, era imprescindível.
Enquanto Festo refletia, recebeu hóspedes das províncias e cidades vizinhas,
que foram cumprimentá-lo pelo seu novo cargo e dar-lhe as boas-vindas na judéia.
Entre eles encontrava-se o rei Herodes Agripa II, da Galiléia e da região
próxima ao Jordão. Ele era irmão da jovem e bela Drusila e tataraneto de
Herodes o Grande.
Todos os Herodes gostavam de espetáculos, e Festo fez o máximo para alimentar a
vaidade do hóspede e cortejar-lhe o favor. No curso da conversa, ele contou ao
rei sobre o seu estranho prisioneiro, pedindo conselho sobre como preparar a
carta de apelo ao imperador.
Paulo Diante de Agripa
O rei pediu para ouvir pessoalmente o apóstolo, prometendo que depois de
escutá-lo ajudaria Festo a preparar seu relatório para César. O cunhado de
Agripa tivera muito contato com Paulo, e essa seria uma boa oportunidade para
ouvir o famoso orador, enquanto falava sobre um assunto que perturbava Israel.
O pedido foi aceito. No dia seguinte, Agripa compareceu em real esplendor,
acompanhado de Berenice, adornada com todas as suas joias. Para agradar ao rei,
Festo convidara os oficiais do seu regimento e os principais da cidade. Era um
falso julgamento, pois nada ia ser resolvido, mas Agripa o solicitara.
Com todo aparato, o grupo entrou no pretório, sentando-se nas cadeiras douradas
que Festo mandara colocar para os visitantes. Junto às paredes, os lictores
postavam-se atentos, e o prisioneiro foi colocado no centro, com uma corrente
prendendo-lhe os pés.
Festo apresentou o caso segundo seus conhecimentos. A seguir, Agripa pediu a
Paulo que se defendesse, e recostou-se na cadeira para ouvi-lo. Com um
movimento eloquente da mão, Paulo dominou a cena e começou sua defesa:
Tenho-me por venturoso, ó rei Agripa, de que perante ti me haja, hoje, de
defender de todas as coisas de que sou acusado pelos judeus. Mormente sabendo
eu que tens conhecimento de todos os costumes e questões que há entre os
judeus; pelo que te rogo que me ouças com paciência (At 26.2,3).
Agripa foi devidamente homenageado e sua atitude era amigável. Paulo fizera um
bom começo, e continuou. Seu testemunho, encontrado em Atos 26, foi
essencialmente o seguinte:
A minha vida, pois, desde a mocidade, qual haja sido, desde o princípio, em
Jerusalém, entre os da minha nação, todos os judeus a sabem. Sabendo de mim,
desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita
da nossa religião, vivi fariseu. E agora, pela esperança da promessa que por
DEUS foi feita a nossos pais estou aqui e sou julgado. A qual as nossas doze
tribos esperam chegar, servindo a DEUS continuamente, noite e dia. Por esta
esperança, ó rei Agripa, eu sou acusado pelos judeus. Pois quê? julga-se coisa
incrível entre vós que DEUS ressuscite os mortos?
Bem tinha eu imaginado que contra o nome de JESUS, o nazareno, devia eu
praticar muitos atos. O que também fiz... E, enfurecido demasiadamente contra
eles, até nas cidades estranhas os persegui.
Sobre o que, indo, então a Damasco, com poder e comissão dos principais dos
sacerdotes, ao meio-dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, que excedia o
esplendor do sol, cuja claridade me envolveu a mim e aos que iam comigo. E,
caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me falava, e em língua hebraica,
dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra
os aguilhões.
E disse eu: Quem és, Senhor?
E ele respondeu: Eu sou JESUS, a quem tu persegues. Mas levanta-te e póe-te
sobre teus pés, porque te apareci por isto, para te pôr por ministro e
testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te
aparecerei ainda. Livrando-te deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio.
Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de
Satanás a DEUS; a fim de que recebam a remissão dos pecados, e sorte entre os
santificados pela fé em mim.
Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial. Antes, anunciei
primeiramente aos que estão em Damasco e em Jerusalém, e por toda a terra da
Judéia, e aos gentios, que se emendassem e se convertessem a DEUS, fazendo
obras dignas de arrependimento. Por causa disto os judeus lançaram mão de mim
no templo e procuraram matar-me. Mas, alcançando socorro de DEUS, ainda até ao
dia de hoje permaneço, dando testemunho tanto a pequenos como a grandes, não
dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia
acontecer. Isto é, que o CRISTO devia padecer, e, sendo o primeiro da
ressurreição dos mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios (At
27.4-23).
Festo estivera ouvindo atentamente, com crescente espanto. Ele conhecia JESUS
pelos registros romanos. Sabia que Ele fora crucificado sob o governo de Pôncio
Pilatos; agora isso era história. Mas, esse prisioneiro falava calmamente da
sua ressurreição e de tê-lo visto, e falado com Ele desde esse acontecimento.
Que tolice! O homem devia estar louco.
Estás louco, Paulo! As muitas letras te fazem delirar - exclamou Festo.
Paulo respondeu:
Não deliro, ó potentíssimo Festo; antes digo palavras de verdade e de um são
juízo. Porque o rei, diante de quem falo com ousadia, sabe estas coisas, pois
não creio que nada disto lhe é oculto; porque isto não se fez em qualquer
canto. Crês tu nos profetas, ó rei Agripa? (At 26.25-27).
Ele inclinou-se para ouvir a resposta. Agripa hesitou e não disse nada. Ele não
apreciara a pergunta, pois qualquer fosse a sua resposta, seria apanhado. Paulo
viu sua hesitação e acrescentou rapidamente:
Bem sei que crês.
-O rei ficou comovido, mas também muito embaraçado diante do seu séquito.
Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!
Rápido como um esgrimista que avança para matar, Paulo respondeu prontamente:
"Prouvera a DEUS que, ou por pouco ou por muito, não somente tu, mas
também todos quantos hoje me estão ouvindo se tornassem tais qual eu sou"
e acrescentou então três palavras curtas que revelavam tudo o que o Cristianismo
fizera por ele, "exceto estas cadeias" (26.29).
Alguns anos antes, Paulo deleitara-se em prender homens e mulheres e lançá-los
na prisão, mas agora não colocaria uma algema em ninguém.
Agripa não quis ouvir mais nada, e levantou-se. Berenice e Festo
acompanharam-no para um lado do aposento. Ficaram conversando alguns minutos e
concordaram que Paulo nada fizera digno de morte ou prisão. "Bem podia
soltar-se este homem, se não houvera apelado para César" (At 26.32).
Festo sentou-se para fazer seu relatório e Paulo foi levado de volta à cela, a
fim de esperar o dia da viagem para Roma.
A VIAGEM PARA ROMA
O outono estava no fim quando Festo reuniu um grupo de prisioneiros
e enviou-os a Roma. Em sua maioria, eram presos políticos que, por terem
desafiado alguma lei romana, eram chamados de criminosos. Estavam sendo
enviados à corte suprema, e se condenados, teriam de lutar com as feras no
Coliseu e morrer diante da multidão insensível, num feriado.
A maior parte dos navios com destino a Roma haviam sido carregados mais cedo e
seguido para o mar ocidental. Todo marinheiro sabia que os ventos equinociais
tornavam perigosas as longas viagens e, em breve, os barcos seriam forçados a
lançar âncora durante o inverno. Festo não conseguiu encontrar um navio para
Roma, mas querendo livrar-se dos prisioneiros, colocou-os numa pequena
embarcação que fazia viagens comerciais pela costa, do Egito até Adramítio, um
porto da Mísia, perto da cidade de Trôade.
Os prisioneiros, a cargo de um centurião de nome Júlio e de uma escolta de
soldados, iriam até onde fosse possível com o navio, na expectativa de
encontrarem, em algum porto da Ásia, outro barco com destino a Roma. Festo deu
instruções completas a Júlio, encarregando-o de guardar os homens como sua
própria vida e entregá-los a Roma.
O centurião sabia que Paulo não era perigoso, pois Festo lhe contara que o
levavam para Roma a seu próprio pedido. Tratava-se de uma questão religiosa
sobre a qual estava sendo julgado. Júlio o tratou com grande respeito e
bondade, chegando até a conceder-lhe privilégios em certos portos em que
desembarcaram.
Lucas acompanhou Paulo como assistente e companheiro. Aristarco, um crente de
Tessalônica, que levara uma oferta à igreja de Jerusalém, estava também entre
os passageiros.
Quando o vento forte soprou do Ocidente, as cordas foram retiradas e os longos
remos levaram a embarcação para além do quebra-mar, em direção ao mar alto. Os
marinheiros desfraldaram a vela branca; o capitão estabeleceu o curso, e
navegaram por entre as ondas na direção norte, para o porto de Sidom.
O Porto de Mirra
Em Sidom, o navio recebeu carregamento para as cidades da Ásia, e Paulo
teve permissão para descer, porém acorrentado a um guarda. Ele passou o tempo
visitando os irmãos e confirmando-os na fé. Era a sua última palavra para eles
e quis adverti-los quanto aos perigos que a Igreja enfrentava. Alertou-os
quanto aos inimigos de CRISTO, sempre a postos. Depois de carregado o navio, os
amigos de Paulo acompanharam-no de volta à nave, acenando enquanto as velas
eram desfraldadas e a proa virava para o oeste, em direção à bela ilha de
Chipre.
Os ventos frios do inverno já começavam a soprar e o mar mostrava-se agitado. O
navio teve de mudar o curso; por segurança, ficou próximo à costa, ao abrigo do
continente. Navegando em águas tempestuosas, passaram pela amada Tarso, a oeste
da Panfília, avançando quando os ventos eram favoráveis e ancorando quando
mostravam-se contrários. Finalmente chegaram ao porto de Mirra, na costa da
Lícia.
Júlio ordenou que seus homens deixassem a embarcação, e enquanto esta
preparava-se para retornar ao seu porto de origem, ao norte, ele procurou entre
os navios ancorados algum que os levasse a Roma. Finalmente, encontrou um que
trabalhava para os cerealistas egípcios, carregado de grãos, pronto a partir
para a Itália, onde permaneceria durante o inverno.
Já havia muitos passageiros, mas o capitão abriu espaço para o grupo, esperando
ser bem pago porque Júlio estava em missão imperial. Ao todo, havia 276 homens
a bordo quando o navio se fez ao mar. O peso extra era-lhe favorável e o
capitão levou-o para onde havia vento e águas encapelados, esperando dar tempo
de chegar ao seu destino.
Era outubro, e o céu tinha a cor de chumbo. Depois de o navio haver deixado
Mirra, um vento forte tirou-os da rota. Costearam a ilha de Rodes, e durante
muitos dias fizeram pouco progresso, a sota-vento das ilhas do Egeu, sendo
levados pela correnteza para o norte até Cnido, e para o sul, até Creta. Dentro
de um mês, não haveria mais navios no mar; as tempestades de inverno dominariam
solitárias. Era prudente apressar-se.
Bons Portos
Com dificuldade e rangendo, o navio abriu caminho contra o vento,
aproximando-se do Cabo Salmone e costeando a ilha de Creta. Chegaram a Bons
Portos e ancoraram na baía. Bons Portos não passavam de um porto pequeno,
inteiramente inadequado para se passar o inverno. Depois de uma mudança do
vento, fizeram uma tentativa para chegar a Fênix, a sudoeste da ilha.
Qualquer um que conhecesse o mar teria noção do perigo. Parecia que chegar a
Roma estava agora fora de questão. Tudo o que restava era procurar um porto
abrigado e passar ali o inverno. O conselho de Paulo foi que permanecessem em
Bons Portos. Com sua experiência do mar, onde já naufragara três vezes,
aprendera a ser cauteloso. Dirigindo-se ao piloto e ao mestre, aconselhou:
"Varões, vejo que a navegação há de ser incômoda e com muito dano, não só
para o navio e carga, mas também para a nossa vida" (At 27.10).
O piloto do navio pensava outra coisa; e os homens, desejando invernar numa
cidade maior, concordaram em seguir para Fênix, distante cerca de quarenta
milhas a oeste. Uma mudança súbita do vento decidiu a questão. A tempestade do
Norte abrandou e vieram ventos suaves do Sul, remanescentes de Alexandria e de
um clima mais quente. Era tudo que desejavam. Nas águas calmas, os homens
levantaram âncora e desfraldaram as velas, pretendendo costear Creta até
alcançar Fênix.
A Tempestade
Os planos dos navegantes, porém, foram rapidamente destroçados. Quando
ainda se achavam há poucas milhas de Bons Portos, o vento mudou subitamente de
direção, do Sul para o Nordeste, e soprou com tamanha violência das montanhas
cretenses que transformou-se em tempestade. O mastro rangeu quando o navio
inclinou-se ao primeiro ataque da tormenta. Não houve sequer tempo para puxar o
batel, preso por uma corda na popa. Grandes ondas ergueram- se por trás do
barco, como se por um golpe de mágica, e nada restou aos marinheiros senão
correr adiante do temporal.
A frente deles estava o continente da África e a Baía de Sirte. Todo marinheiro
temia esse lugar, pois não havia ali portos; só praias rasas onde os bancos de
areia mudavam conforme os ventos e tornavam-se o túmulo de muitas embarcações.
Todavia, a pequena ilha de Cauda achava-se ainda diante deles, que agradecidos,
esconderam-se ao abrigo de seus penhascos. Ali ganharam tempo para levantar o
batei cheio d'água e preparar o navio para o que talvez ainda tivessem de
enfrentar. Grandes cordas foram passadas por sob o barco e bem amarradas para
proteger a armação e mantê-la firme, especialmente se acabassem encalhando num
banco de areia.
Até o abrigo inadequado de Cauda era-lhes suspeito. Encalhar na areia e ser
despedaçados contra a praia era pior que a tempestade em mar aberto. O vento
levou-os então para longe da ilha, e tendo feito tudo que podiam para salvar
suas vidas, prenderam a grande verga ao convés e navegaram com o mastro nu.
Tudo o que lhes restava fazer agora era manter- se em alto mar até que a
tempestade passasse.
Trabalharam a noite inteira temendo o pior, mas esperando que o amanhecer
trouxesse alguma ajuda. Na manhã seguinte, porém, o temporal não melhorara. E
entrara tanta água pelo madeirame do navio, que este afundara ainda mais. O
capitão ordenou que toda a bagagem pessoal fosse lançada ao mar, para aliviar a
embarcação. A medida que o navio fazia água e afundava cada vez mais nas ondas,
a carga teve de ser também lançada ao mar. A seguir, até a mobília, a vela
grande e a verga foram atiradas, junto com todos os aprestos que podiam ser
dispensados.
Dia e noite, os marinheiros lutaram arduamente contra as ondas. O navio subia e
descia como uma rolha; as ondas batendo no convés e a água salgada escorrendo
pelos lados. Seguiram-se dias e noites de terror, durante os quais só se via o
céu cinzento; não havia sol, nem lua, nem estrelas. Ao redor deles, ondas
negras assobiavam. Num momento, as águas eram como uma montanha caindo sobre o
navio; no outro, um vale se abria, e eles afundavam.
Marinheiros e passageiros já haviam, há muito, perdido a esperança. Já não
lutavam para salvar o navio; apenas agarravam-se às cordas e mastros. Sentiam
que cada movimento do convés, afundando entre os vagalhões, seria o último.
Ninguém pensava em comer; estavam certos de que a morte se aproximava.
A Visão de Paulo
Paulo confiava na promessa de DEUS: viveria para ver Roma. Durante um dos
momentos em que adormeceu, ao deitar-se exausto abaixo do convés, teve uma
visão do Senhor. Ao seu lado estava um anjo de DEUS, trazendo-lhe a seguinte
mensagem: não só ele seria salvo, como nenhum passageiro a bordo perderia a
vida.
Quando o desânimo deles era grande, Paulo os encorajou:
Fora, na verdade, razoável, ó varões, ter-me ouvido a mim e não partir de
Creta, e assim, evitariam este incômodo e esta perdição. Mas, agora, vos admoesto
a que tenhais bom ânimo, porque não se perderá a vida de nenhum de vós, mas
somente o navio. Porque, esta mesma noite, o anjo de DEUS, de quem eu sou e a
quem sirvo esteve comigo, dizendo: Paulo, não temas! Importa que sejas
apresentado a César, e eis que DEUS te deu todos quantos navegam contigo.
Portanto, ó varões, tende bom ânimo! Porque creio em DEUS que há de acontecer
assim como a mim me foi dito. E, contudo, necessário irmos dar numa ilha (At
27.21-26).
No final da segunda semana, cerca da meia-noite, pareceu aos marinheiros
experimentados que estavam se aproximando da terra. Encontravam-se em algum
ponto do Mar Adriático. Um grito do vigia rasgou os ares e alarmou os corações:
"Arrebentação! Arrebentação!"
Os marinheiros ouviram e acreditaram escutar o som das ondas nas rochas. O
prumo foi baixado e descobriram que a água tinha vinte braças de profundidade.
Depois de avançarem um pouco, tornando a lançar o prumo, acharam quinze braças.
Isto significava que o mar estava ficando mais raso e havia o risco de rochas
ou bancos de areia. Como estivesse escuro como breu, lançaram quatro âncoras
para segurá-los e esperaram impacientes pelo nascer do dia.
A Conspiração dos Marinheiros
Na proa do barco, tramava-se uma conspiração. Alguns marinheiros planejavam
fugir com o bote salva-vidas içado ao convés. Pretendiam baixar o bote e subir
nele, como se quisessem lançar âncoras pela proa. Escapariam para a terra e
abandonariam os amigos à fúria do mar. Paulo percebeu-lhes o intento e chamou
rapidamente o centurião e seus soldados. "Se estes não ficarem no navio,
não podereis salvar-vos" (At 27.31).
Júlio entrou em ação. A uma ordem sua um soldado dirigiu-se à lateral do navio
com a espada desembainhada e cortou o cabo do bote. A pequena embarcação
desapareceu nas trevas. Foi uma atitude imprudente; sem um bote, estavam ainda
mais indefesos. Porém a conspiração terminou, e os marinheiros frustrados
reuniram-se em grupos, tremendo sob a chuva gelada, até que o primeiro raio de
luz aparecesse no leste. Então viram as rochas baixas e escuras da terra firme.
Ninguém sabia que terra era aquela, mas os 276 que estavam a bordo, subiram ao
convés para ter um vislumbre dela. Com a confiança renovada, Paulo insistiu que
todos comessem; precisariam de forças se quisessem sobreviver. Eles haviam
jejuado durante 14 dias, pois o perigo fora tão grande que ninguém pensara em
alimentar-se. Tomando o pão, Paulo inclinou a cabeça e, na presença dos
soldados e marinheiros pagãos, deu graças a DEUS e começou a comer. Sua
animação foi contagiosa. As esperanças reavivaram-se, e todos se alimentaram.
Com as energias renovadas, decidiram lutar por suas vidas.
Já que o navio tinha de perder-se e encalhar na praia, que chegasse o mais
próximo possível da terra! Puseram mãos ao trabalho e a embarcação, aliviada da
carga, boiou sobre as ondas. Isso os levaria mais perto da praia.
O que lhes dava um raio de esperança era a linha rochosa da costa, quebrada por
uma pequena enseada e uma praia arenosa. O capitão julgou poder aproar o navio
na direção da embocadura da enseada e encalhá-lo ali. Tiraram as amarras do
leme; as cordas das âncoras foram cortadas; uma vela leve foi içada no mastro e
o navio cambaleante dirigiu-se à praia. Não foram, porém, muito longe.
Desconheciam a costa, e num lugar onde duas correntes se encontravam, o barco
encalhou num banco de areia. Com um ruído forte, a proa imobilizou-se.
O NAUFRÁGIO
A água batia fortemente na proa. Não havia jeito de desencalhar a
embarcação. As ondas continuavam furiosas e o madeirame já se soltava do barco.
Na proa, os soldados romanos, sabendo que perderiam a vida se os prisioneiros
fugissem, foram falar com o comandante: "Senhor, não podemos mais
responsabilizar-nos pelos prisioneiros. Ninguém pode nadar nessas águas
agitadas acorrentado a outro. Não seria melhor matá-los todos?"
Mas Júlio, depois de conhecer melhor a Paulo, passara a gostar dele. Por sua
causa, ordenou que tirassem as correntes dos presos, e todos poderiam nadar até
a praia. Os que não sabiam nadar pularam ao mar agarrados a tábuas ou pedaços
de madeira, deixando que as ondas os levassem à terra firme.
Era um grupo lastimável aquele reunido na praia. Os homens fracos e exaustos
ficaram olhando o navio ser despedaçado pela força das ondas gigantescas. Mas
estavam todos ali; machucados, abatidos, quase afogados, e tremendo sob a
chuva, porém salvos.
A tragédia atraíra os nativos à praia, e muitos correram para ajudar os
estranhos, acendendo fogueiras para aquecê-los. Foi então que os náufragos
souberam onde estavam. Tinham chegado à ilha de Malta.
Os habitantes de Malta eram de descendência egípcia, e durante muitos séculos
foram homens do mar. Com grande simpatia, haviam observado o navio em perigo e
os esforços para salvá-lo. Ao ver os homens chegarem à praia, um a um, os
nativos de Malta maravilharam-se. Estavam certos de que muitos morreriam no
naufrágio.
A Vingança dos Deuses
Na praia, Paulo juntou-se aos outros para apanhar gravetos. Com uma braçada
deles, aproximou-se do fogo e colocou-os nas chamas. De repente, uma víbora que
estivera escondida na lenha, fugindo do calor, agarrou-se-lhe à mão. Por um
segundo, ela permaneceu ali, enquanto um grito de terror elevou-se dos
espectadores. Com um movimento rápido, Paulo sacudiu-a, fazendo-a cair no fogo.
O pensamento geral foi: ali estava um prisioneiro que escapara do mar, mas a
vingança dos deuses o seguira, e sua hora chegara. Os ilhéus sabiam que a
víbora tinha um veneno mortal, de ação rápida. Esperavam ver Paulo adoecer e
cair morto em questão de minutos. Com o horror estampado nos semblantes,
ficaram a observá-lo. Ele certamente havia cometido algum crime terrível para
encontrar a morte assim tão de repente.
Mas, Paulo não tinha tais pensamentos. Não temia, porque confiava em DEUS e
acreditava que pregaria o Evangelho em Roma, como lhe fora prometido. Tranquilamente,
o apóstolo atiçou o fogo e aproximou-se dele para secar as roupas e aquecer o
corpo. Quanto mais os minutos passavam, mais crescia o espanto dos
observadores. Paulo não empalidecera, nem parecia um homem em agonia.
Um a um, os ilhéus supersticiosos menearam as cabeças e concluíram que ele
fosse um deus disfarçado. O acontecimento, combinado com o que houve nas
semanas seguintes, deu a Paulo a oportunidade de pregar o Evangelho. Pôde falar
do DEUS Único e Verdadeiro, que tem poder para livrar seus servos do mal.
A Cura do Pai do Governador
Os ilhéus levaram os náufragos à casa de Públio, o governador romano de
Malta, que morava próximo à cena do desastre. Sua residência era grande e seu
coração ainda maior. Ele hospedou a todos durante três dias. Públio tinha um
pai idoso que morava com ele, e que se achava doente, com febre. Quando Paulo
soube, pediu para vê-lo. Recebida a permissão, impôs as mãos sobre o homem e
orou. Com os olhos levantados ao céu, clamou fervorosamente por um milagre. A
cura daquele homem seria um testemunho do poder de DEUS e da verdade do
Evangelho.
O Senhor atendeu-lhe a oração, e o pai do governador ficou bom. Públio ouviu as
boas- novas, assim como muitos doentes de Malta. Os enfermos da ilha iam à
procura de Paulo, esperando que este também os curasse. Durante os três meses
de inverno, enquanto Júlio e seus prisioneiros aguardavam que o mar se tornasse
novamente navegável, Paulo e seus amigos, Lucas e Aristarco, pregaram o
Evangelho de CRISTO. E DEUS confirmava com milagres as suas palavras. Honras
especiais foram concedidas a Paulo e a seus companheiros. Eles haviam
conquistado o amor e a confiança dos ilhéus. Ricos e pobres tinham presenciado
o grande poder de DEUS, e alguns creram.
RUMO A SIRACUSA
Os três meses passaram-se rapidamente. Com as primeiras brisas mornas da
primavera, os comandantes dos navios ancorados no porto começaram a reunir os
tripulantes, preparando- se para partir. Júlio estava ansioso para seguir
viagem. Fez arranjos com o proprietário de outro navio graneleiro de
Alexandria, e os soldados e seus prisioneiros prepararam-se para ir embora. A
essa altura, Paulo já tinha muitos amigos e esses entristeceram-se com a
despedida. Numa demonstração de amor, levaram presentes e provisões, e reunidos
no cais, disseram adeus ao apóstolo. A pesada embarcação foi levada à baía
pelos remadores, com as velas içadas. Ventos brandos sopraram. Depois de um dia
agradável sob um céu ensolarado, e cercados por águas azuis, chegaram à velha
cidade de Siracusa, aninhada num lindo golfo da Sicília.
Durante três dias, Paulo e seus companheiros, escoltados por um guarda romano,
visitaram a cidade, cujo povo muito se orgulhava da sua habilidade em corridas
de carros. Ali, à sombra do templo branco de Diana, com os sacerdotes pagãos
que matavam quatrocentos bois por ano sobre o altar dessa deusa, Paulo
provavelmente falou de JESUS. Embora o tempo fosse curto e os ouvintes poucos,
a semente de uma igreja fiel pode ter sido plantada.
O navio porém prosseguiu em sua rota. Na proa que cortava as ondas havia
figuras dos irmãos gêmeos Castor e Pólux, que na mitologia antiga eram filhos
de Zeus. Os marinheiros orgulhavam-se de servir nesse navio, pois esses gêmeos
celestiais eram tidos como protetores dos navegantes.
A Cintilante Baía de Nápoles
Na direção oeste, enquanto abriam caminho para o continente, eles podiam
ver a montanha de fogo, cinzenta durante o dia e iluminada à noite. O Etna era
um marco para todo viajante a caminho de Roma. Nos apertados estreitos de
Messina, tocaram o primeiro porto italiano. No bonito porto de Régio, protegido
pelos altos montes da Sicília e pelo continente, o vento cessou e o navio
permaneceu imóvel um dia inteiro. Mas, pela manhã, o vento sul soprou. Com as
velas desfraldadas à brisa, o navio deixou o estreito para trás. Durante todo
aquele dia e noite navegaram contra o vento e, na manhã seguinte, chegaram a um
dos grandes portos de Roma. Era a cidade de Putéolos, na Baía de Nápoles.
Rodeando toda a baía, ficavam os balneários da moda, dos abastados cidadãos romanos.
À distância, erguia-se o Monte Vesúvio. Aos seus pés, encontravam-se as
prósperas cidades de Pompéia e Herculano.
Por causa de seu magnífico cenário e clima agradável, a Baía de Nápoles era a
praia favorita dos nobres de Roma. O imperador tinha a sua vila nessa baía, a
mais bela do mundo. Na cidade de Putéolos, os grandes navios descarregavam suas
cargas e os passageiros desembarcavam, seguindo a Estrada de Ápio até Roma.
Nesse mesmo porto, havia algum tempo, Calígula, enlouquecido pelo poder, gabara-se
de que poderia andar de carro até a sua vila por sobre a baía brilhante.
Cumprindo suas ordens, barcos foram amarrados uns aos outros e uma estrada de
quatro quilômetros construída por cima deles para que pudesse dizer que
dominava o mar.
Em Putéolos, os pés de Paulo tocaram o solo italiano pela primeira vez. Júlio
permaneceu durante algum tempo nessa cidade e Paulo teve permissão para
encontrar-se livremente com os amigos. Agora havia cristãos por toda parte, e
quando souberam da presença de Paulo, muitos foram vê-lo e pedir-lhe que
ficasse mais tempo entre eles.
Durante a parada de sete dias, os cristãos tiveram oportunidade de enviar a
Roma notícias da chegada de Paulo. Os crentes romanos sentiram-se felizes por
ver o homem que passara a vida a serviço de CRISTO. Haviam lido e decorado a
carta recebida do apóstolo. Reuniam-se todos os domingos para a
confraternização cristã, e liam partes dessa carta, alegrando-se na sua
salvação. Muitos decidiram ir ao encontro de Paulo na estrada, pelo prazer de
acompanhá-lo até Roma. Alguns viajaram 64 quilômetros e o encontraram na praça
de Ápio; outros, 48 quilômetros, indo até as Três Tavernas.
Quando Paulo viu os amigos da igreja de Roma, seu coração comoveu-se. Pensou no
julgamento que o aguardava e na possível condenação, mas ao sentir o amor e
dedicação daqueles amigos a CRISTO, agradeceu a DEUS e recobrou ânimo. Entre os
crentes dali estavam seus antigos companheiros, Áquila e Priscila.
Os Portões de Roma
Roma estava logo adiante. Roma, a dona do mundo! A cidade de templos e
palácios! O centro da terra! O trono do imperador!
Os portões agora estavam à vista. Júlio reuniu os prisioneiros no centro da
escolta de soldados e fez com que marchassem pelas ruas até os alojamentos
imperiais, onde foram entregues a Barros, conselheiro-chefe do imperador. Esse
velho e honesto soldado, que perdera uma das mãos na batalha, ouviu com
interesse e bondade, enquanto Júlio falava-lhe sobre cada homem. E quando
mencionou Paulo, obteve um favor especial - um quarto privado onde pudesse
morar com o soldado que o guardava, e permissão para ver os amigos sempre que
quisesse.
PRISIONEIRO EM ROMA
Três dias após a chegada de Paulo a Roma, seu quarto estava cheio
de visitas. Ele enviara mensagens às principais autoridades das sinagogas,
convidando-as a visitá-lo e ouvir sua história. Ávida do judeu em Roma sempre
fora difícil. Durante o governo de Cláudio, todos eles haviam sido expulsos da
cidade, mas agora houvera um relaxamento das leis. Tantos judeus tinham voltado
a Roma que sete sinagogas foram construídas. Separados dos romanos, eles viviam
na margem ocidental do rio Tibre.
Compreendendo o quanto seus conterrâneos haviam sofrido nas mãos do imperador
romano, e que a inimizade dos cidadãos podia ser despertada ao menor pretexto,
Paulo temia que sua presença em Roma trouxesse mais problemas aos judeus. Seu
apelo a César poderia ser interpretado como uma tentativa de promover mais
perseguição aos judeus, por chamar a atenção sobre suas disputas religiosas.
Quando os líderes judeus atenderam ao convite de Paulo, este explicou-lhes que
havia decidido fazer o apelo a César apenas por não haver outro meio de obter a
liberdade. Eles ouviram e não se mostraram hostis.
Varões irmãos, não havendo eu feito nada contra o povo, ou contra os ritos
paternos, vim, contudo, preso desde Jerusalém, entregue nas mãos dos romanos.
Os quais, havendo-me examinado, queriam soltar-me, por não haver em mim crime
algum de morte. Mas, opondo-se os judeus, foi-me forçoso apelar para César, não
tendo contudo, de que acusar a minha nação. Por esta causa vos chamei, para vos
ver e falar; porque pela esperança de Israel estou com esta cadeia (At
28.17-20).
Eles sabiam que Paulo era seguidor de JESUS, e tinham ouvido de suas visitas a
muitas sinagogas no império. Entretanto mostraram-se amáveis, pois compreendiam
que qualquer demonstração contrária poderia provocar a inimizade de Roma.
Nós não recebemos acerca de ti qualquer carta da Judéia, nem veio aqui irmão
algum, que nos anunciasse ou dissesse de ti algum mal. No entanto bem
quiséramos ouvir de ti o que sentes; porque, quanto a esta seita, notório nos é
que em toda a parte se fala contra ela (At 28.21,22).
Pregando em Roma
Num determinado dia, abriu-se finalmente a porta para o velho guerreiro pregar
sobre seu tema favorito: JESUS CRISTO. De manhã até a noite, Paulo conversou
com os judeus que haviam comparecido em grande número para ouvi-lo falar do
Messias. A luz do Evangelho brilhava-lhe nos olhos, e sua voz inflamava-se com
o fogo santo, enquanto fazia os ouvintes examinarem as suas próprias
Escrituras. Tudo o que aprendera na escola de Gamaliel estava sendo útil, e ele
citou passagem após passagem dos rolos sagrados. Usou as palavras de Moisés e
dos profetas para mostrar que a única esperança de Israel estava no Messias. As
Escrituras deles continham tudo isso; se pelo menos cressem!
Quando o dia terminou, havia divisão entre os ouvintes. Alguns creram e foram
embora com a esperança no coração e uma nova vida no íntimo; outros mostraram
desprezo.
Paulo, porém, continuou enquanto saíam:
Bem falou o ESPÍRITO SANTO a nossos pais pelo profeta Isaías, dizendo: Vai a
este povo, e dize: De ouvido, ouvireis, e de maneira nenhuma entendereis; e,
vendo, vereis, e de maneira nenhuma percebereis...Seja-vos, pois, notório que
esta salvação de DEUS é enviada aos gentios, e eles a ouvirão (At 28.25,26,28).
Com estas palavras soando-lhes nos ouvidos, os judeus partiram irados.
A Órbita da Atividade Cristã
Não muito depois disso, a igreja de Filipos, sabendo da prisão de Paulo,
reuniu e enviou dinheiro para o sustento do apóstolo em Roma. Foi um presente
tão grande e abençoado, que ele pôde, com o consentimento de seus captores e a
ajuda de alguns cristãos de Roma, mudar-se para uma casa alugada, onde morou
durante dois anos, esperando o dia de seu julgamento pelo tribunal de Nero.
Durante sua prisão Paulo foi tratado com grande benevolência, embora
continuasse sempre acorrentado a um guarda. Aonde quer que fosse, o soldado o
acompanhava. Depois de dois anos dessa vida, vários guardas já tinham ouvido o
Evangelho e alguns deles se converteram. Paulo não era um cristão oculto;
através de seus amigos crentes, fez saber a todos que explicaria o Evangelho a
quem o procurasse em sua residência. Muitos aceitaram o convite, e sua casa em
Roma veio a tornar-se um centro de testemunho cristão.
Crentes de várias cidades iam e vinham, procurando os conselhos de Paulo sobre
assuntos da fé cristã e levando suas cartas às igrejas do Leste. Listra e
Derbe, Corinto e Éfeso, Colossos e Tessalônica, e até a igreja de Beréia
enviaram seus representantes para trabalhar sob a direção de Paulo. Orientados
por ele, divulgaram o Evangelho nas cidades onde CRISTO não era conhecido. Alguns
deles testemunhavam nas ruas movimentadas de Roma, e ao mesmo tempo ministravam
ao apóstolo. Sua casa tornou-se um centro de atividades, de onde os mensageiros
da Cruz partiam para todo o império. Depois de cada viagem, como os cometas em
sua órbita, voltavam ao ponto de partida.
Paulo passou a amar os soldados que o guardavam. Eram homens corajosos e fiéis,
e não demorou muito para que um pequeno grupo de crentes se formasse entre a
guarda pretoriana e os homens da casa de César. Ao serem convencidos da
Verdade, esses homens levavam a mensagem aos familiares, bem como a todos os
militares nos quartéis. Cada vez que o velho apóstolo refletia sobre sua
prisão, um sorriso aflorava-lhe aos lábios e ele agradecia a DEUS. Suas
cadeias, em vez de prejudicar o Cristianismo, tinham-no ajudado!
Enquanto os amigos iam e vinham, Paulo esperava por notícias do julgamento. Com
a morte de Cláudio, Nero subira ao trono. Ele não era filho de Cláudio, mas sua
mãe viúva incentivou-o e fez com que fosse coroado imperador aos dezessete
anos. Britânico, seu meio- irmão, era o herdeiro legítimo; mas pelas manobras
da mãe, Nero foi o escolhido. Antes de completar um ano no poder, ele mandou
envenenar Britânico. Com o passar do tempo, veio a odiar a mãe e ordenou que
seus amigos a matassem. Eles agarraram-na no meio da noite e tentaram afogá-la;
não conseguindo, acabaram por apunhalá-la. Nero casou-se com a gentil Otávia,
filha de Cláudio, a quem passou também a odiar. Quando Paulo chegou a Roma, o
jovem Nero, então com 24 anos, estava planejando matar Otávia e casar-se com
Pompéia.
Inteiramente entregue a uma vida de paixões e perversidade, Nero não tinha a
menor intenção de perder tempo com um prisioneiro judeu. Portanto, Paulo ficou
esperando sob os cuidados de um guarda, enquanto o imperador prosseguia em sua
vida devassa.
A Chegada de Timóteo
Paulo sentiu-se reanimado quando seu jovem e fiel amigo Timóteo chegou a
Roma. O rapaz queria estar perto de seu pai espiritual e ser dirigido por ele
no trabalho do Senhor. Quatro anos haviam se passado desde que Paulo e Timóteo
viajaram juntos para pregar a CRISTO na Europa. Tinham ido a Filipos e plantado
o Evangelho na Macedônia, começando numa reunião de oração. Naquele dia, Lídia,
a vendedora de púrpura, abrira não somente o coração a CRISTO, como também sua
casa aos cultos. Os pensamentos de Paulo voltaram àquele dia. Lembrou-se de
como havia sido publicamente açoitado na praça do mercado e finalmente preso.
Recordou- se do carcereiro que se tornara cristão com toda a família, e de como
a igreja de Filipos cuidara das suas necessidades quando fora a Tessalônica.
Duas vezes enviaram-lhe dinheiro. E agora, ouvindo falar de suas cadeias em
Roma, mandaram novamente dinheiro por Epafrodito, que ficou para ajudar Paulo e
trabalhar para CRISTO sob a orientação do apóstolo.
Sem dúvida, foi Lídia, a rica mercadora, quem instigou a igreja de Filipos a
ajudar o homem de DEUS. Como foi animador ouvir dos lábios de Epafrodito que a
igreja filipense continuava firme na fé! Que encorajamento para Paulo saber que
um de seus membros fora ter com ele para ser seu companheiro no trabalho!
A Epístola aos Filipenses
Epafrodito pregou o reino de DEUS com tanto zelo e fervor, a ponto de não se
importar com a própria saúde. Nas ruas estreitas de Roma, ajuntava uma multidão
e falava-lhes de JESUS. Depois de alguns meses, uma grave doença
interrompeu-lhe o ministério, confinando-o ao leito, onde esteve à beira da
morte durante várias semanas. Aos poucos começou a melhorar, mas estava fraco e
incapaz de voltar ao trabalho. Paulo percebeu que o amigo tinha saudades de
casa, e resolveu mandá-lo de volta a Filipos.
Com a ajuda de Timóteo, Paulo começou a ditar uma carta. Seu pensamento
retrocedeu alguns anos e ele lembrou-se vividamente de cada membro da igreja.
Dou graças ao meu DEUS todas as vezes que me lembro de vós.
E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para
maior proveito do evangelho. De maneira que as minhas prisões em CRISTO foram
manifestas por toda a guarda pretoriana, e por todos os demais lugares. E
muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas prisões, ousam falar a
palavra mais confiadamente, sem temor (Fp 1.3,12-14).
Paulo falou do seu julgamento, sem muita certeza quanto ao futuro. Ele não
tinha meios de saber o que aconteceria. O jovem imperador dava pouco valor à
vida, e Paulo não sabia se seria poupado. De fato, pensara com agrado na
possibilidade de morrer, pois isso significaria estar com CRISTO. Todavia, teve
alguns vislumbres de esperança de que seria solto. Viver significaria trabalhar
mais para JESUS; morrer seria lucro e uma gloriosa entrada no céu. As palavras
subiram-lhe do coração:
Porque para mim o viver é CRISTO, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne
me der fruto da minha obra, não sei, então, o que deva escolher. Mas de ambos
os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com CRISTO, porque
isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na
carne. E, tendo esta confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vós
para proveito vosso e gozo da fé. Para que a vossa glória aumente por mim em
CRISTO JESUS, pela minha nova ida a vós.
Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de CRISTO.
E espero no Senhor JESUS que em breve vos mandarei Timóteo, para que também eu
esteja de bom ânimo, sabendo dos vossos negócios... Mas confio no Senhor que
também eu mesmo, em breve, irei ter convosco (At 1.23-28; 2.19,24).
Ele escreveu sobre Epafrodito, o valoroso cooperador que adoecera e ficara
muitas semanas entre a vida e a morte:
Porquanto tinha muitas saudades de vós todos, e estava muito angustiado de que
tivésseis ouvido que ele estivera doente. E, de fato, esteve doente, e quase à
morte, mas DEUS se apiedou dele, e não somente dele, mas também de mim, para
que eu não tivesse tristeza sobre tristeza. Por isso, vo-lo enviei mais
depressa, para que, vendo-o outra vez, vos regozijeis, e eu tenha menos
tristeza. Recebei-o, pois, no Senhor, com todo o gozo, e tende-o em honra.
Porque, pela obra de CRISTO, chegou até bem próximo da morte, não fazendo caso
da vida, para suprir para comigo a falta do vosso serviço (Fp 2.26-30).
A carta foi escrita e selada. Epafrodito levou-a consigo à cidade natal. Paulo
tinha agora um companheiro a menos, mas Timóteo e Lucas permaneceram ao seu
lado, mantendo-o em contato com os cristãos de Roma. Marcos, Tíquico,
Aristarco, Demas, Trófimo e Tito colocaram-se à disposição de Paulo; passavam
os dias indo de uma igreja a outra, levando as mensagens do apóstolo.
A Epístola aos Colossenses
Epafras tinha sido o missionário por meio de quem os colossenses ouviram
pela primeira vez o Evangelho e se converteram ao Cristianismo. Ele
encontrava-se agora em Roma, trabalhando para o Senhor como um dos
colaboradores de Paulo. A igreja de Colossos enviara seu mais importante líder
para pregar o Evangelho na maior cidade do mundo.
Sendo um dos companheiros de Paulo, Epafras passou muitas horas com ele. Faziam
planos e discutiam a respeito das várias igrejas sobre as quais Paulo mantinha
vigilância. Todos os dias oravam juntos por cada igreja, lembrando sua
fidelidade e pedindo a DEUS que as fortalecesse. Sempre que orava, os
pensamentos de Epafras voltavam à sua amada congregação em Colossos, e ele
intercedia por aqueles cristãos; que o Senhor os aperfeiçoasse e os completasse
conforme a sua vontade. Paulo nunca vira a igreja de Colossos, mas Epafras
referia-se constantemente a ela por lhe ser tão cara ao coração. Falava de cada
crente; contou que a congregação se reunia em casa de Filemom, e Arquipo ficara
encarregado de prosseguir com a obra.
Ao falar de sua amada igreja, Epafras revelou uma profunda preocupação com um
judeu, que de maneira muito sutil, estava desviando o povo para duas formas de
erro. A primeira era uma espécie de ascetismo, ensinando que as pessoas tinham
de negar a si mesmas para obter a salvação. Enfatizava a observância de certos
dias, e sua pregação era cheia de proibições. Segundo seus ensinamentos,
somente pela autonegação alguém se tornava digno da vida eterna. O segundo erro
era uma filosofia mística que despojava CRISTO da sua posição como Filho de
DEUS e Salvador dos homens.
Era o velho erro, que Paulo tantas vezes combatera, surgindo outra vez e
prejudicando a mensagem cristã. Quem estava melhor preparado para advertir os
colossenses contra tal heresia? Paulo decidiu escrever-lhes uma carta. Com
Timóteo ao seu lado, anotando-lhe os pensamentos enquanto os ditava, começou a
missiva.
Falou primeiro de seu afeto pelos colossenses e de como tivera notícias deles
através de Epafras. Quanto às coisas básicas, só tinha elogios a fazer.
Elogiou-lhes a fé em CRISTO, o amor por todos os cristãos, e sua esperança no
céu. A seguir, passando à admoestação doutrinária, advertiu-os contra o perigo
da falsa filosofia e do ensino judaico que solapava a divindade do Senhor:
Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs
sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não
segundo CRISTO. Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.
Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias
de festa, ou da lua nova, ou dos sábados. Que são sombras das coisas futuras,
mas o corpo é de CRISTO (Cl 2.8,9,16,17).
Paulo não podia terminar a carta sem acrescentar alguns conselhos práticos à
vida cristã.
Revesti-vos, pois, como eleitos de DEUS, santos, e amados, de entranhas de
misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade.
Suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver
queixa contra outro: assim como CRISTO vos perdoou, assim fazei vós também.
E a paz de DEUS, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em
vossos corações; e sede agradecidos. A palavra de CRISTO habite em vós
abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos
outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais; cantando ao Senhor com graça
em vosso coração (3.12,13,15,16).
Terminada a carta, Paulo tomou-a das mãos de Timóteo e escreveu, ele mesmo, uma
saudação final, assinando-a a fim de que não tivessem dúvidas sobre o
remetente. Depois de reler a missiva, para ver se nada esquecera, ordenou a
Tíquico que a levasse à igreja de Colossos; ficasse ali algum tempo, e depois
voltasse com notícias.
A Conversão de Onésimo
Tíquico foi acompanhado na viagem por um homem chamado Onésimo, que fora
escravo na casa de Filemom, em Colossos. Certo dia, rebelando-se contra a
escravidão, Onésimo roubara roupas e dinheiro de seu dono, e fugira, imaginando
que poderia esconder-se nas ruas movimentadas de Roma e começar uma nova vida.
Mas em Roma, sob a influência do apóstolo Paulo, acabou convertido. Quando
conheceu JESUS e seu amor, a gratidão e reverência encheram-lhe o coração.
Onésimo compreendeu que JESUS morrera para salvá-lo. A ele, um escravo fugitivo
e ladrão! Enquanto crescia na graça e no conhecimento de DEUS, entendeu que,
aos olhos do Senhor, o escravo e o livre são iguais.
Que diferença entre o tratamento que recebia de Paulo, como crente, e a antiga
vida que conhecera em Colossos! Ao confessar seu pecado a DEUS, Onésimo fez uma
entrega completa. Tão genuína foi a sua conversão, que estava disposto a contar
as Boas Novas a todo mundo. Então Paulo dirigiu-o a ganhar outros para CRISTO.
Metade da população de Roma era composta de escravos, e Onésimo poderia
alcançar muitos deles que, de outra forma, não ouviriam o Evangelho.
Entretanto, conhecendo a injustiça que Onésimo fizera a Filemom, Paulo o fez
compreender que o único curso de ação era voltar e confessar tudo ao antigo
dono. Isso significava castigo. Embora Filemom e sua mulher, Afia, fossem
bondosos e justos, o supervisor da casa certamente o açoitaria. Ele vira os
sofrimentos infligidos a escravos que tinham sido temerários e desleais, e
calculou que voltar não seria agradável, especialmente agora que era um homem
livre em CRISTO e útil ao grande apóstolo.
Todavia, desde que se tornara cristão, queria endireitar todos os seus erros,
tanto aos olhos de DEUS quanto aos dos homens. Esse era o único caminho para a
paz e serviço. Decidiu então que, por causa do Senhor, voltaria a ser escravo,
corrigindo seu erro.
A Epístola a Filemom
A fim de abrandar a dificuldade da volta, Paulo escreveu uma breve carta
pessoal a Filemom. Este senhor fora um dos seus convertidos; entregara-se a
CRISTO durante a longa estada de Paulo em Éfeso. Agora, com zelo pelo seu
Senhor, Filemom revelava grande hospitalidade à igreja de Colossos. Os membros
reuniam-se todas as semanas em sua bela casa, sob o ministério de Arquipo.
Movido por forte sentimento cristão, Paulo escreveu um ousado, porém discreto,
apelo ao seu amigo.
Todavia, peço-te, antes, por caridade, sendo eu tal como sou, Paulo, o velho, e
também agora prisioneiro de JESUS CRISTO. Peço-te por meu filho Onésimo, que
gerei nas minhas prisões.
Eu bem o quisera conservar comigo, para que, por ti, me servisse nas prisões do
evangelho. Mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que o teu benefício não
fosse como por força, mas voluntário. Porque bem pode ser que ele se tenha
separado de ti por algum tempo, para que o retivesses para sempre. Não já como
servo, antes, mais do que servo, como irmão amado, particularmente de mim e
quanto mais de ti, assim na carne como no Senhor?
Assim, pois, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo. E, se te
fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta...eu o pagarei.
E juntamente prepara-me também pousada, porque espero que pelas vossas orações
vos hei de ser concedido (Fm 9,10,13-19,22).
A Epístola aos Efésios
Enquanto Tíquico e Onésimo preparavam-se para a viagem, Paulo dava as
últimas pinceladas na carta que vinha escrevendo cuidadosamente havia semanas.
Era uma carta geral; não se destinava a corrigir quaisquer erros em particular.
Devia ser passada entre as várias igrejas, a fim de fortalecer-lhes a fé,
encorajá-las na vida cristã e conscientizá-las de sua posição e privilégios em
CRISTO JESUS.
Ele começou com um hino de louvor às três pessoas da Santíssima Trindade - o
Pai, o Filho e o ESPÍRITO SANTO. A seguir, com mão de mestre, pintou um quadro
da igreja como o templo de DEUS, construído sobre o fundamento de CRISTO. Todas
as grandes doutrinas da fé foram mencionadas nessa belíssima carta. A
maturidade cristã do apóstolo é evidente em cada linha. Não foram feitas
referências pessoais, nem saudações às famílias locais ou colaboradores. Se a
carta fosse destinada apenas aos efésios, Paulo teria enviado cumprimentos a
muitos, segundo o seu costume, pois trabalhara três anos entre eles - mais
tempo que em qualquer outra cidade. Em vez disso, pretendia que ela fosse uma
admoestação final a várias igrejas. Ele era agora Paulo, o velho, e seus dias
de missivista logo terminariam. O apóstolo ansiava por incluir em uma carta
circular a plenitude do Evangelho e o encorajamento que enriqueceria e firmaria
cada membro do corpo de CRISTO. Tal carta aplicar-se-ia a todas as igrejas que
fundara. Escreveu então:
E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que, noutro tempo,
andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar,
do espírito que, agora, opera nos filhos da desobediência... Mas DEUS, que é
riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós
ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com CRISTO (pela graça
sois salvos)... Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem
de vós; é dom de DEUS. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.
Portanto, lembrai-vos de que vós, noutro tempo, éreis gentios na carne... que,
naquele tempo, estáveis sem CRISTO, separados da comunidade de Israel, e
estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança e sem DEUS no mundo
(Ef 2.1,2,4,5,8,9,11,12).
Numa transição rápida e precisa, desceu dos altos picos para os vales profundos
da vida comum: "Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é
digno da vocação com que fostes chamados" (Ef 4.1).
Enquanto ditava o último capítulo de sua obra-prima, Paulo procurava algum
exemplo que fixasse para sempre suas palavras à mente dos leitores. À sua
frente estava sentado o jovem a quem amava como a um filho. Timóteo, com a pena
na mão, ouvia e anotava atentamente cada palavra saída dos lábios de seu
mentor. Ao seu lado, encontrava-se o sempre presente guarda romano, magnífico
na armadura do império, e orgulhoso por estar entre os escolhidos de Nero. Os
olhos de Paulo fitaram o soldado e um sorriso surgiu-lhe nos lábios.
Voltando-se a Timóteo, ditou:
No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder.
Revesti-vos de toda a armadura de DEUS, para que possais estar firmes contra as
astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue,
mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das
trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares
celestiais. Portanto, tomai toda a armadura de DEUS, para que possais resistir
no dia mau, e, havendo feito tudo, ficar firmes. Estai, pois, firmes, tendo
cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça. E
calçados os pés na preparação do Evangelho da paz (Ef 6.10-15).
Com mais uma olhadela ao equipamento do guarda, acrescentou:
Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos
inflamados do maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do
ESPÍRITO, que é a palavra de DEUS. Orando em todo o tempo com toda a oração e
súplica no ESPÍRITO e vigiando nisso com toda a perseverança e súplica por
todos os santos... Paz seja com os irmãos, e caridade com fé da parte de DEUS
Pai e da do Senhor JESUS CRISTO. A graça seja com todos os que amam a nosso
Senhor JESUS CRISTO em sinceridade. Amém (Ef 6.1618,23,24).
O Evangelho Difundido mediante o Cativeiro
As cartas foram enviadas e Paulo voltou à rotina diária de ensinar os que
iam à sua casa, fortalecendo-os nas coisas divinas. Durante os anos do seu
cativeiro, para surpresa dos amigos e dele mesmo, o Evangelho fora promovido.
Foram tempos calmos e úteis aqueles. A indulgência do Império Romano contribuiu
para que a prisão forçada não trouxesse tristezas. Sua mente estava livre de
cuidados pessoais; em seu coração crescia cada vez mais a esperança de ser
libertado após o julgamento. Essas palavras foram escritas da sua casa:
Regozijai-vos, sempre, no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos (Fp 4.4).
O COMBATE, A CORRIDA E O DEPÓSITO
O tão esperado julgamento aconteceu finalmente no ano 63 D.C.,
depois de Paulo haver permanecido dois anos em prisão domiciliar.
Tudo que ele esperava e previra aconteceu. A carta favorável de Festo e o
relatório de Júlio fizeram a balança pender a seu favor. Após aqueles longos
meses, e com os acusadores tão distantes, a oposição judaica diminuíra. Em
razão de os judeus serem olhados com suspeita, a corte dispensou rapidamente as
acusações contra Paulo, e ele foi posto em liberdade.
Pouco se sabe das atividades do apóstolo depois da sua libertação, mas é fácil
imaginar quais foram. Ao voltar para casa e dar-se conta de que, pela primeira
vez em quatro anos, estava sem a companhia de um guarda, deve ter,
imediatamente, iniciado algum plano. Não ficaria inativo; tiraria o máximo
proveito do tempo que lhe restava. Sempre quisera visitar a extremidade
ocidental do império. Anos antes, ao escrever à igreja de Roma, falara-lhes de
sua intenção de ir à Espanha. Seu pensamento estava sempre com as igrejas, e
desejava visitar muitas delas na Ásia e na Grécia. Desde que escrevera a
Filemom, e ouvira a história da igreja de Colossos por intermédio de Epafras,
alimentava a esperança de visitá-la. Essa era a sua oportunidade. A seguir,
escrevera à sua igreja favorita - a de Filipos. A perspectiva de ver os irmãos
que cuidaram dele durante a prisão em Roma aqueceu-lhe o coração.
Tudo decidido, não perdeu tempo. Encontrou um navio que ia para a Espanha e
navegou para o Ocidente, a fim de conhecer novas pessoas e testemunhar de seu
Salvador. Aquela foi, no entanto, uma curta visita. Depois de encorajar os
poucos cristãos dali e fortalecer- lhes a fé em CRISTO JESUS, Paulo tomou um
navio para sua amada terra. Depois de vários dias, chegou finalmente a Éfeso e,
acompanhado por Lucas, seu fiel companheiro de prisão, dirigiu- se por terra a
Colossos.
Em Colossos
Pela primeira vez Paulo viu a igreja fundada por Epafras, e a quem
escrevera uma carta. Foi recebido cordialmente. Os cristãos reverenciaram-no
como o grande líder do Cristianismo; Filemom, que o conhecera em Éfeso,
acolheu-o em sua vasta mansão, onde reunia-se a igreja de Colossos. Porém não
houve acolhida mais cordial e sincera que a do sorridente Onésimo. O escravo
fugido tornara-se um dos troféus do ministério de Paulo em Roma.
Paulo não pôde permanecer muito tempo em Colossos, mas a igreja aproveitou cada
minuto de sua companhia. Quando chegou o momento da despedida, ele já tinha
recapitulado tudo que dissera na carta. Lembrara-os novamente de como DEUS
viera à terra na pessoa de seu Único Filho; recordara-lhes que JESUS era
verdadeiramente DEUS e que a vida eterna só era obtida através dEle. Também os
advertira contra os falsos mestres que queriam negar a doutrina de CRISTO e sua
divindade. Depois de lhes haver enriquecido a fé, Paulo partiu para Éfeso.
Ministrando aos Efésios
Em Éfeso, o apóstolo sentia-se em casa. A igreja havia prosperado e
mantinha-se fiel. Os membros tinham-se guardado das doutrinas falsas e zelado
pela pureza do seu púlpito. Ninguém era convidado a pregar, a não ser que fosse
sólido na fé, reconhecendo a divindade de JESUS CRISTO e o Evangelho da graça
redentora.
Os efésios ficaram felizes por ver novamente o seu pastor. Havia algum tempo,
os presbíteros de Éfeso tinham chorado ao ver o navio de Paulo afastar-se do
cais em Mileto; acharam que nunca mais lhe veriam o rosto. Contudo, depois de
tantos meses, ele voltara! O rigor dos anos o envelhecera. Desaparecera-lhe o
brilho dos olhos, bem como o andar rápido e decidido. Paulo sofrerá muito desde
que pregara em Éfeso sua última mensagem. Os sulcos em seu rosto santo contavam
dos fardos que tivera de carregar.
Ele não apenas estivera na prisão, naufragara e fora açoitado, como sentira no
espírito a solidão e sofrerá com a dureza de coração das pessoas. Sobre seus
velhos ombros pesava o cuidado por todas as igrejas. Sempre que um companheiro
enfrentava dificuldades, Paulo sofria com ele. Sempre que alguém era lançado na
prisão, seu espírito sentia-se também aprisionado. Paulo identificava-se com os
irmãos na fé; era como se um laço familiar os unisse e os tornasse um só.
O tempo, porém, era curto. Ansiando por visitar a Macedônia, Paulo planejou
viajar pelo mar Egeu até Filipos e Tessalônica, e para muitas aldeias onde
houvera plantado a bandeira da cruz. Mas Éfeso precisava de um líder. A igreja
era forte, mas sendo a cidade uma das mais importantes da Ásia Menor, era
necessário manter ali um testemunho que contrabalançasse as forças de Diana.
Paulo alegrava-se ao pensar na igreja de Éfeso; os crentes haviam agido bem.
Entretanto, ele notava que o mundanismo da cidade grande dificultava, a alguns
cristãos, a conservação do primeiro amor. A oposição era grande, e a cidade
atraía muitos professores de religião que tentavam destruir a pureza da igreja
e confundi-la com teorias e lendas sem fim.
Durante sua permanência em Éfeso, Paulo aproveitou para advertir a igreja
quanto a essas coisas, aconselhando os cristãos a serem mais vigilantes.
Recomendou-lhes que afastassem da comunhão qualquer um que aparecesse com
doutrinas falsas.
Paulo achou que a situação era suficientemente séria para deixar Timóteo em
Éfeso, pedindo que supervisionasse essa importante igreja e fizesse dela uma
fortaleza para o Evangelho puro. Com o coração apertado, o apóstolo despediu-se
de seu querido amigo, orando para que ele fosse um servo fiel e que a sua
presença ali enriquecesse a igreja com toda sorte de bênçãos espirituais.
A Epístola a Timóteo
Do outro lado da estreita faixa de mar, no continente Europeu, os
pensamentos de Paulo continuavam com Timóteo. Ele ministrou aos santos em
várias cidades da Macedônia, encorajando, fortalecendo e advertindo-os, mas não
conseguia tirar da mente o jovem em Éfeso e seu trabalho estratégico.
Pensou outra vez nos falsos mestres e como já haviam invadido certas igrejas,
especialmente na província da Galácia. Ele estava certo de que Éfeso era a
chave para toda a Ásia.
Com a pena na mão e o pergaminho à sua frente, Paulo começou a escrever a
Timóteo:
Paulo, apóstolo de JESUS CRISTO, segundo o mandado de DEUS, nosso Salvador, e
do Senhor JESUS CRISTO, esperança nossa, a Timóteo, meu verdadeiro filho na fé;
graça, misericórdia e paz, da parte de DEUS, nosso Pai, e da de CRISTO JESUS,
nosso Senhor.
Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para
advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem se dêem a fábulas ou a
genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de
DEUS, que consiste na fé (1 Tm 1.1-4).
A carta prosseguiu cheia de instruções. Perguntas sobre a organização e o
governo da igreja precisavam ser respondidas, e Paulo achou que seu amigo
tiraria grande proveito de tais instruções e encorajamento:
Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões,
e ações de graças por todos os homens. Pelos reis, e por todos os que estão em
eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e
honestidade...
Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de JESUS CRISTO, criado
com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido. Mas rejeita as
fábulas profanas e de velhas, e exercita-te a ti mesmo em piedade. Porque o
exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa,
tendo a promessa da vida presente e da que há de vir.
Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no
trato, na caridade, no espírito, na fé, na pureza. Persiste em ler, exortar e
ensinar, até que eu vá. Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado
por profecia, com a imposição das mãos do presbitério...
Mando-te diante de DEUS, que todas as coisas vivifica, e de CRISTO JESUS, que
diante de Pôncio Pilatos deu o testemunho de boa confissão, que guardes este
mandamento sem mácula e repreensão, até à aparição de nosso Senhor JESUS CRISTO
(1 Tm 2.1,2.4.6-8,12-14; 6.13,14).
Rumo a Trôade, Éfeso e Mileto
Paulo mencionou na carta a esperança de visitar novamente Timóteo o mais
breve possível. Esse desejo foi realizado; depois de deixar a Macedônia e
visitar Trôade, onde trocou idéias com os líderes da igreja que se reuniam na
casa de Carpo, o apóstolo viajou para o sul e depois para Éfeso.
De fato, Paulo estava tão apressado, que chegou a deixar seus preciosos livros
e material para escrever, bem como sua capa, pretendendo buscá-los antes do
inverno.
Depois de uma visita satisfatória a Timóteo, ele despediu-se com lágrimas nos
olhos e tomou a estrada que levava a Mileto, a cerca de 48 quilômetros da
costa.
Chegaria o dia em que todas as cidades teriam uma igreja cristã. O quadro
passara por grande transformação durante a vida de Paulo. Poucos anos antes,
havia somente alguns cristãos, mas o Evangelho fora anunciado tão
destemidamente, que agora todos os crentes tinham o seu lugar de culto. E
aquele porto marítimo não era exceção.
Paulo e Tito
Durante várias semanas Paulo esteve com os irmãos em Mileto. Depois de
consolá-los, estabelecendo-os na fé, embarcou para Creta na companhia de Tito,
seu fiel colaborador. A igreja dali era desorganizada. Havia muitos crentes,
mas para que seu testemunho fosse efetivo, algumas coisas precisavam ser
mudadas. Era necessário que os crentes se unissem sob a direção de anciãos e
bispos que zelassem por suas almas.
Tito, um dos convertidos de Paulo, era grego. Ele acompanhara o grande apóstolo
a Jerusalém, à conferência relativa à admissão dos gentios na igreja, e Paulo
tinha plena confiança nele. Decidiu deixá-lo em Creta, encarregando-o da
organização das igrejas em cada cidade da ilha. Era uma tarefa colossal; mas,
com a ajuda do Senhor, Tito a cumpriria.
Enquanto Tito adaptava-se à nova responsabilidade, Paulo foi para Corinto e
exerceu um breve ministério junto a essa grande igreja. Ele ficou alegre ao
constatar que os males de Corinto, sobre os quais escrevera alguns anos antes,
haviam sido corrigidos. Seu encontro com os discípulos dali foi cordial e
proveitoso. Os cristãos de toda a cidade foram ouvi-lo. Apesar de idoso, o
servo do Senhor parecia não se cansar de exaltar a CRISTO e confirmar a fé dos
seguidores.
Paulo pensou também em Tito, que estava em Creta, e escreveu-lhe uma carta
similar à que enviara a Timóteo, descrevendo as qualificações para os líderes
da igreja. Como Éfeso e Creta, Corinto também precisava de um representante
digno. O escolhido por Paulo foi seu Erasto, seu fiel colaborador. Deixou-o com
a responsabilidade de ajudar os crentes de Corinto e seguiu para Nicópolis, na
costa oeste da Grécia.
Prisão de Paulo em Nicópolis
Sentindo que sua vida achava-se perto do fim, Paulo fazia arranjos para
deixar obreiros de confiança em pontos estratégicos. O tempo era curto e ele
sentia a necessidade de apressar-se de cidade em cidade. Nicópolis era um
centro importante para o trabalho missionário e Paulo planejava passar ali o
inverno. Aquela cidade nunca fora visitada antes, e a perspectiva de iniciar um
novo trabalho em curtíssimo tempo era fascinante. Acompanhado de cinco
colaboradores, entrou na cidade e começou a pregar.
As suas esperanças, porém, foram de curta duração. Era o ano 67 D.C., e três
anos antes, um grande incêndio queimara a cidade de Roma, desabrigando milhares
de pessoas. Ninguém sabia como o fogo começara. Alguns diziam que o próprio
Nero incendiara a cidade durante uma bebedeira, esperando na sua loucura que
uma Roma nova e melhor se levantasse, como um monumento ao seu reinado.
Mas outro clamor ergueu-se, afirmando que os cristãos haviam incendiado a
cidade. O ódio da população subiu mais alto que as chamas, e começaram-se as
perseguições mais cruéis que a igreja já enfrentara. Os cristãos eram atirados
aos leões no Coliseu, espancados até a morte, mergulhados em piche e
incendiados nos jardins de Nero, como tochas para iluminar a noite.
Todos os que tinham condições fugiram de Roma. Áquila e Priscila foram para
Éfeso. A igreja teve de esconder-se. Em todo o império, cristãos eram presos e
perseguidos sem misericórdia. Histórias terríveis de tortura chegaram aos
ouvidos de Paulo e seus cinco assistentes. Eles próprios haviam escapado por
pouco em algumas ocasiões, mas agora uma nuvem mais negra parecia pairar sobre
eles. Os missionários temiam ser inevitavelmente presos. Nero e seus homens
estavam dispostos a acabar com o testemunho cristão.
Em meio à crise, Demas abandonou Paulo, partindo para Tessalônica. Era uma
negativa da fé, e o apóstolo ficou profundamente magoado. Demas, entretanto,
não foi o único a desertar. Crescente partiu para a Galácia; e até Tito, a quem
Paulo confiara tão grande tarefa, pressionado pela perseguição, partiu para as
montanhas da Dalmácia.
Só Lucas e Tíquico permaneceram com Paulo, e esse último foi enviado a ficar
com Timóteo e ajudá-lo em tudo. Então o golpe abateu-se sobre eles. Um oficial
romano, reconhecendo Paulo como líder das forças cristãs, prendeu-o enquanto
pregava o Evangelho de CRISTO em praça pública. Julgando que Nero se agradaria
de ter nas mãos um líder cristão, enviou-o a Roma.
O Primeiro Julgamento
Desta vez Paulo não foi tratado com respeito e tolerância. Era um
prisioneiro famoso, e qualquer um que lhe demonstrasse amizade seria
distinguido como um dos acusados de incendiar Roma. Pouca gente visitou o
apóstolo, mas Lucas, o médico amado, ia vê-lo todos os dias.
Paulo foi mantido numa cela logo abaixo da rua. Não havia qualquer saída,
exceto uma abertura estreita para escoamento da água no pavimento. As paredes
eram frias e úmidas, e o frio cortante do inverno já se fazia*sentir. A solidão
da cela o deprimia, mas a idéia de ter sido abandonado era ainda mais difícil
de suportar.
O efésio Onesíforo foi um dos que tentaram ajudá-lo. Ele mostrou ser muito
diferente de tantos amigos da Ásia. Todos haviam esquecido o idoso apóstolo,
mas Onesíforo não se envergonhou das cadeias de Paulo. Depois de uma longa
busca, descobriu onde o prisioneiro se encontrava e passou a visitá-lo com frequência,
levando-lhe ânimo e objetos de uso pessoal.
Chegou então o dia do julgamento. Segundo o costume romano, todos deviam ter um
julgamento justo. Paulo ficou sozinho diante do tribunal. A sala estava cheia,
mas em todo aquele mar de rostos não havia um que lhe parecesse amigável.
Nenhuma voz se levantou a seu favor. O velho apóstolo começou sua própria
defesa com um vigor vindo da certeza de que o Senhor estava ao seu lado. CRISTO
era tão real naquele dia como o fora na estrada de Damasco, tantos anos antes.
Seu discurso foi eloquente. Todo o antigo fogo ainda queimava nele. Toda a
lógica e poder do Evangelho estavam-lhe à disposição. Suas sentenças começaram
vagarosas, mas à medida que contava a história do Evangelho, ganharam
velocidade. Seus olhos brilhavam de convicção. Ele estava pregando para obter
um veredicto, e seus argumentos caíam em pesados golpes nos corações dos
ouvintes. Esse seria seu último sermão na terra.
Alexandre, o latoeiro, era a principal testemunha contra Paulo. Esse homem
levantou-se e identificou-o como líder da igreja cristã e centro de tanta
controvérsia. Afirmou que aonde Paulo ia, formava uma comunidade de cristãos
fiéis a JESUS de Nazaré, e que a lealdade dessas pessoas ao imperador era
questionável. Apesar do testemunho de Alexandre, a corte impressionou-se com as
palavras ardentes do grande apóstolo; o caso foi suspenso até um novo
interrogatório.
Paulo escapou dos dentes do leão para ser enviado de volta à cela sombria, onde
aguardaria o lento girar das rodas da justiça romana. Tratava-se de uma vitória
temporária. Ele, porém, já podia visualizar o final à distância, e esperava que
o julgamento viesse rapidamente. O apóstolo dos gentios só tinha um último
desejo: ver Timóteo antes de morrer.
A Segunda Epístola a Timóteo
Paulo receava os dias de ócio forçado na cela desconfortável. Pensou na
capa que deixara em Trôade, com os livros e pergaminhos. Se estivessem agora em
suas mãos! Pediu uma pena, tinta e pergaminho, e obteve permissão para escrever
ao amado amigo Timóteo, em Éfeso:
Por este motivo, te lembro que despertes o dom de DEUS que existe em ti pela
imposição das minhas mãos... Portanto, não te envergonhes do testemunho de
nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes, participa das
aflições do evangelho, segundo o poder de DEUS...
Mas não me envergonho, porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que
é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia...
Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em CRISTO JESUS... Procura
apresentar-te a DEUS aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar,
que maneja bem a palavra da verdade (2 Tm 1.6,8,12; 2.1,15).
Paulo advertiu o jovem pregador sobre a maldade dos homens e o perigo da falsa
doutrina. Encarregou-o solenemente de pregar a Palavra de DEUS e jamais perder
o sentimento de urgência:
Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos
ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências.
E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas. Mas tu sê sóbrio em
tudo, sofre as aflições, faze a obra dum evangelista, cumpre o teu ministério.
Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da
minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a
fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo
juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que
amarem a sua vinda.
Procura vir ter comigo depressa. Porque Demas me desamparou, amando o presente
século, e foi para Tessalônica; Crescente, para Galada. Tito para Dalmácia. Só
Lucas está comigo. Toma Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para
o ministério. Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de
Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos.
Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe pague segundo as
suas obras. Tu, guarda-te também dele, porque resistiu muito às nossas
palavras.
Ninguém me assistiu na minha primeira defesa; antes, todos me desampararam. Que
isto lhes não seja imputado. Mas o Senhor assistiu-me e fortaleceu-me, para
que, por mim, fosse cumprida a pregação, e todos os gentios a ouvissem; e
fiquei livre da boca do leão. E o Senhor me livrará de toda a má obra, e
guardar-me-á para o seu reino celestial; a quem seja glória para todo o sempre.
Amém... Procura vir antes do inverno (2 Tm 4.3-11,13-18,21).
Essa foi a sua última carta.
O Segundo Julgamento
O segundo julgamento de Paulo seguiu-se logo após o primeiro. Não havia
ninguém para defendê-lo ou apoiá-lo. Ele fora acusado de ser o líder dos
cristãos, contra quem o ressentimento público era grande. Alexandre, o
latoeiro, e os demais acusadores venceram. Sob os olhos desatentos de Nero, foi
feita a votação. Era uma sentença de morte. Por ser um cidadão romano, Paulo
não seria crucificado, mas decapitado.
Com o rosto pálido, porém de cabeça erguida, o apóstolo foi levado para fora
dos muros da cidade. Ali, em meio a uma multidão hostil, ávida pela execução, o
velho missionário da cruz levantou os olhos para orar. Muitas e muitas vezes o
Senhor o livrara de um momento como aquele. Contudo, muitos outros santos
haviam enfrentado a morte, e a graça de DEUS seria suficiente a Paulo também. O
Senhor JESUS sofrerá uma morte vergonhosa fora dos muros de Jerusalém; mas pela
sua vitória, tornou a morte gloriosa a todo cristão. Enquanto Paulo pensava na
ressurreição, um riso de triunfo dançou-lhe nos olhos e brincou-lhe nos cantos
da boca. Sua face estava radiante, brilhando com a luz de um outro mundo.
NOS Braços de JESUS
O capitão da guarda ordenou que parassem. O ar frio do inverno esfriara o
cepo junto ao qual Paulo ajoelhou-se. Combati o bom combate, acabei a carreira,
guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada. A lâmina da
espada brilhou ao sol. Paulo fechou os olhos para a multidão ruidosa, e quando
abriu-os de novo, estava na presença de JESUS de Nazaré, onde há plenitude de
alegria, e em cuja destra há prazeres eternos (SI 16.11).
FIM
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Paulo, o maior líder do cristianismo - Editora Hagnos
O apóstolo Paulo foi, certamente, o maior evangelista, o maior
teólogo, o maior missionário e o maior plantador de igrejas de toda a história
do cristianismo. Plantou igrejas nas províncias da Galácia, Macedônia, Acaia e
Ásia Menor. Nenhum homem exerceu tanta influência sobre a nossa civilização.
Nenhum escritor foi tão conhecido e teve suas obras tão divulgadas e
comentadas quanto ele. Embora tenha vivido sob fortes pressões internas e
externas, não deixou jamais sua alma ficar amargurada.
Paulo foi o maior bandeirante do cristianismo, seu expoente mais ilustre, seu
arauto mais eloquente, seu embaixador mais conspícuo. Pregou com zelo aos
gentios e aos judeus, nas escolas, cortes, palácios, sinagogas, praças e
prisão. Com a mesma motivação, pregou quando tinha fartura e também quando
passava por privações. Ele enriqueceu muitos, sem nada possuir. Embora
tenha experimentado fome e frio, suportado cadeias e tribulações, passado
os últimos dias numa masmorra e enfrentado o martírio por ordem de um
imperador insano, sua vida ainda inspira milhões de pessoas em todo o
mundo.
Sua conversão extraordinária foi um divisor de águas não só em sua vida, mas
também na história da humanidade. Antes dessa insólita experiência, foi o maior
perseguidor do cristianismo; depois dela, tornou-se seu maior arauto. Sua
vida foi vivida sempre com grande ardor e paixão. Antes de sua conversão,
seu zelo sem entendimento o levou a perseguir implacavelmente os cristãos.
Depois de sua conversão, seu zelo pela glória de DEUS o fez gastar-se sem
reservas pelos cristãos.
Convido você, leitor, a acompanhar comigo a vida desse gigante de DEUS.
Enquanto o veterano apóstolo nos toma pela mão e nos guia pelas veredas de suas
variadas experiências, é necessário termos os olhos abertos e o coração
disposto para aprender com ele preciosas e ricas lições. Que DEUS nos
ajude nessa gloriosa aventura! Hernandes Dias Lopes
Capítulo 01 - Um religioso memorável
(Quem era esse homem que provocava verdadeiras revoluções por onde passava?
Quais eram suas credenciais? Quem eram seus pais? Onde nasceu? Como foi
educado? Que convicções religiosas nortearam-lhe os passos? Convido você a
fazermos uma viagem rumo ao passado, entrando pelos corredores do tempo, a
fim de descobrirmos essas respostas. Nossa fonte primária é a
Sagrada Escritura. Dela, emanam as informações mais importantes sobre a
vida, o ministério e a morte desse gigante do cristianismo. É tempo de
começarmos essa viagem!
Em primeiro lugar, Paulo era judeu por nascimento. Em sua defesa em Jerusalém,
após sua dramática prisão, teve a oportunidade de se dirigir à multidão
alvoroçada, dizendo: “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia...” (Atos
22.3). Seus pais eram judeus. O sangue que corria em suas veias era o
mesmo que corria nas veias do patriarca Abraão. Ao combater a ideia errada dos
falsos mestres judaizantes, que nutriam uma falsa confiança na sua
linhagem judaica, Paulo responde: “Bem que eu poderia confiar também na
carne. Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais:
circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu
de hebreus...” (Fp 3.4,5). Paulo era um judeu puro sangue. Um judeu da
gema. Procedia da mais importante tribo israelita, a de Benjamim.
Em segundo lugar, Paulo foi criado dentro da fé judaica. Paulo nasceu em Tarso
da Cilícia. Seus pais o educaram na fé judaica, uma vez que foi circuncidado ao
oitavo dia (Fp 3.5). Desde sua infância, bebeu o leite da piedade e
aprendeu os preceitos da lei de DEUS. Jamais foi um jovem devasso. O zelo
sempre ardeu em seu peito. Seu propósito em servir a DEUS foi o vetor
que governou sua vida. Dominava com grande desenvoltura o conhecimento da
lei e as opiniões mais importantes dos grandes mestres de sua época. Ele
se destacava dentro do judaísmo. Chegou mesmo a declarar: “E, na minha
nação, quanto ao judaísmo, avantajava-me a muitos da minha idade, sendo
extremamente zeloso das tradições de meus pais” (Gl 1.14).
Em terceiro lugar, Paulo foi educado em Jerusalém aos pés de Gamaliel. Perante
grande multidão em Jerusalém, Paulo dá seu testemunho: “... criei-me nesta
cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei
de nossos antepassados, sendo zeloso para com DEUS, assim como todos vós o
sois no dia de hoje” (Atos 22.3). Jerusalém era a cidade santa. Lá estavam
os escribas e doutores da lei. Lá estavam o templo e os sacrifícios. Lá
estavam a lei e as cerimônias. Lá estavam os sacerdotes e os rabinos. Lá
estava o sinédrio. Essa cidade transpirava religião. Tudo girava em torno
do sagrado. Na cidade de Davi, Paulo foi instruído aos pés de Gamaliel, o maior
e o mais ilustre rabino daquela época, homem culto, sábio e piedoso. Ele
foi instruído segundo a exatidão da lei dos seus antepassados. Conhecia
bem de perto as tradições do seu povo. Sabia de cor as inúmeras regras e
preceitos criados pelos anciãos. A tradição oral, fruto da interpretação meticulosa
e extravagante dos escribas, era observada cuidadosamente por esse jovem
brilhante.
Em quarto lugar, Paulo tinha uma vasta cultura secular. Paulo era um erudito.
Seu conhecimento transcendia o campo religioso. Estava familiarizado com o
conhecimento mais refinado de sua época. Paulo era um poliglota, ou seja,
falava vários idiomas. Trafegava com desenvoltura pelos corredores do
passado e citava com precisão os grandes pensadores e filósofos dos tempos
antigos. Quando pregou na capital intelectual do mundo, a Atenas de
Péricles, Sócrates, Platão e Aristóteles, não hesitou em citar alguns
poetas atenienses (Atos 17.28). Quando escreveu a Tito, na ilha de Creta,
fez referência a Epimênides, um filósofo cretense, do século 6 o a.C (Tt 1.12).
Paulo tinha uma cultura enciclopédica. Festo, mesmo fazendo troça do
apóstolo, precisou se curvar à realidade insofismável de que Paulo era um
homem de muitas letras (Atos 26.24). O próprio apóstolo Pedro faz
referência à sabedoria de Paulo, dizendo que ele escreveu coisas difíceis de
entender, que os ignorantes e instáveis deturpam para sua própria
destruição (2Pe 3.15,16).
Em quinto lugar, Paulo era fariseu, membro da seita mais rigorosa dos judeus.
Escrevendo aos filipenses, descreveu sua vida pretérita nestes termos: “...
quanto à lei, [eu era] fariseu...” (Fp 3.5). Diante do rei Agripa, quando
estava sendo acusado, em Cesareia, disse: “... porque vivi
fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião” (Atos 26.5). Como
fariseu, Paulo era zeloso da lei. Como fariseu, era extremamente zeloso
das tradições de seus pais (Gl 1.14). Como fariseu, frequentava
assiduamente a sinagoga. Como fariseu, dava o dízimo criteriosamente e
jejuava regularmente. Ele chega a afirmar que, quanto à justiça que há na
lei, era irrepreensível (Fp 3.6). Os fariseus eram os separados. Eles
compunham o grupo religioso mais ortodoxo de Israel. Os fariseus estavam
do lado oposto dos saduceus, grupo religioso que negava a ressurreição e
a existência dos anjos.
Em sexto lugar, Paulo era membro do sinédrio judaico. Paulo era o maior
embaixador do sinédrio judaico no sentido de promover a fé de seus pais. Por
outro lado, era o braço estendido desse mesmo sinédrio para neutralizar ou
desbaratar qualquer nova vertente religiosa que colocasse em risco sua tradição
religiosa. O sinédrio era o concílio maior dos judeus, composto de setenta
homens maduros, cuja função principal era legislar e julgar a vida
religiosa e moral do povo judeu. Governado especialmente pelos sacerdotes,
da seita dos saduceus, tinha nos fariseus seus membros mais zelosos da lei
(Atos 23.6). Ser membro do sinédrio era ser considerado um dos principais
dos judeus (Jo 3.1). Esse posto de honra dava-lhe projeção e grande
destaque na sociedade. Era um homem respeitado pelo seu conhecimento, pela
sua religiosidade e pelo zelo com que se devotava à causa do seu povo.
Em sétimo lugar, Paulo era um cidadão romano. Paulo, mesmo sendo filho de
judeus, era cidadão romano (Atos 22.27), pois nasceu numa província romana, em
Tarso da Cilícia. Recebeu o título de cidadão romano não mediante o
pagamento de grande soma de dinheiro (Atos 22.28a), mas por direito de
nascimento (Atos 22.28b). Um cidadão romano gozava de certos privilégios. Ele
não podia ser açoitado (Atos 22.25). Paulo não hesitou em lançar mão desse
privilégio sempre que necessário. Pelo menos duas vezes essa credencial de
Paulo o livrou das mãos das autoridades. A primeira vez, na cidade de
Filipos, colônia romana, onde Paulo foi açoitado e preso ilegalmente. Quando os pretores,
as autoridades locais, souberam que Paulo era romano, ficaram cheios de temor
e precisaram se desculpar com o apóstolo (Atos 16.35-40). A segunda vez,
quando Paulo foi preso em Jerusalém e estava sendo amarrado, para ser
interrogado sob açoites, em vista do alvoroço da multidão tresloucada,
Paulo pergunta: “... Ser-vos-á, porventura, lícito açoitar um cidadão
romano, sem estar condenado?” (Atos 22.25). Paulo não fazia propaganda de
suas prerrogativas, mas jamais deixou de usá-las quando isso se fazia
necessário. Humildade não é se esconder. Os humildes não tocam trombeta
fazendo alarde de seu conhecimento, poder ou influência. Os humildes não
querem ser menos do que são; mas jamais deixam de afirmar o que são,
quando isso contribui para a promoção do bem.
Capítulo 02 - Um perseguidor implacável
O zelo sem entendimento pode ser uma arma perigosíssima. Muitos crimes
hediondos têm sido praticados em nome de DEUS. Com Paulo, não foi diferente.
Ele foi um perseguidor implacável (Gl 1.13). Ele usou sua influência e força
para esmagar os discípulos de CRISTO. Perseguiu CRISTO (Atos 26.9), a religião
de CRISTO (Atos 22.4) e os seguidores de CRISTO (Atos 26.11).
Paulo foi o mais severo perseguidor da igreja em seus albores. Olhando pelo
retrovisor, fazendo uma retrospectiva do seu passado, escreveu a Timóteo: “a
mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente...” (1Tm
1.13). Ele feria os cristãos com a língua e com os punhos. Fazia isso com
arrogância e soberba. Usava os instrumentos legais e também a truculência
física.
Paulo é visto como perseguidor
Ressaltamos, aqui, alguns pontos importantes: Paulo via a si mesmo como
perseguidor. Ao escrever à igreja de Corinto, diz que se considerava o menor
dos apóstolos e até não era digno de ser chamado apóstolo, uma vez que
havia perseguido a igreja de DEUS (1Co 15.9). Escrevendo aos gálatas,
testemunha: “Porque ouvistes qual foi o meu proceder outrora no judaísmo,
como sobremaneira perseguia eu a igreja de DEUS e a devastava” (Gl 1.13).
Diante do povo de Jerusalém, confessou: “Persegui este Caminho até à
morte, prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres” (Atos 22.4).
Diante do rei Agripa, ele testemunhou: “Na verdade, a mim me parecia
que muitas cousas devia eu praticar contra o nome de JESUS, o Nazareno; e
assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais
sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o
meu voto, quando os matavam. Muitas vezes, os castiguei por todas
as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar. E, demasiadamente enfurecido
contra eles, mesmo por cidades estranhas os perseguia” (Atos 26.9-11).
CRISTO o viu como perseguidor. Quando Paulo, enfurecidamente, ia para Damasco
com o propósito de manietar e trazer amarrados os discípulos de CRISTO para
Jerusalém a fim de lançá-los na prisão, CRISTO apareceu-lhe, de maneira
gloriosa, na estrada de Damasco, perguntando-lhe: “... Saulo, Saulo, por
que me persegues? Dura cousa é recalcitrares contra os aguilhões” (Atos 26.14).
Perseguir a igreja é perseguir CRISTO. Perseguir os membros do Corpo é
perseguir a Cabeça do Corpo. Perseguir a noiva é perseguir o Noivo. Paulo
não estava apenas se levantando contra homens, mas contra o próprio DEUS.
Aqueles que ferem os santos de DEUS tocam na menina dos olhos de DEUS.
O povo de Damasco o viu como perseguidor. O zelo sem entendimento pode levar um
homem a fazer loucuras. Paulo atacou furiosamente os cristãos. Ananias, morador
de Damasco, disse ao Senhor acerca dele: “... Senhor, de muitos tenho
ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em
Jerusalém; e para aqui trouxe autorização dos principais sacerdotes
para prender a todos os que invocam o teu nome” (Atos 9.13,14). O mesmo
aconteceu logo que começou a pregar em Damasco. A reação do povo foi
imediata: “Ora, todos os que o ouviam estavam atônitos e diziam: Não é
este o que exterminava em Jerusalém os que invocavam o nome de JESUS e para
aqui veio precisamente com o fim de os levar amarrados aos principais
sacerdotes?” (Atos 9.21).
Os discípulos de Jerusalém o viram como perseguidor. Quando Paulo fugiu de
Damasco e foi para Jerusalém com a intenção de ser acolhido pelos discípulos,
eles não acreditaram nele. Pensaram que se tratava de mais um estratagema
para perseguir os cristãos. Lucas relata esse fato assim: “Tendo chegado a
Jerusalém, procurou juntar-se com os discípulos; todos, porém, o temiam,
não acreditando que ele fosse discípulo” (Atos 9.26).
Paulo é um perseguidor cruel e resistente
Duas descrições metafóricas ilustram a crueldade das perseguições de Paulo aos
cristãos.
Primeiro, ele é visto como uma fera selvagem. A igreja em Jerusalém foi
duramente perseguida, e muitos cristãos fugiram, pregando o evangelho (Atos
8.1-4). Alguns deles foram para Damasco. E agora, Paulo, ainda respirando
ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dispõe-se a ir a Damasco
para manietar, prender e arrastar presos para Jerusalém aqueles que professavam
o nome de CRISTO (Atos 9.1,2). Ele queria destruir os crentes em
Jerusalém, por isso os caçava por toda parte, para trazê-los de volta a
Jerusalém e ali os exterminar.
Essa expressão “respirando ameaças e morte” literalmente é a mesma para
descrever uma fera selvagem que furiosamente extermina o corpo de uma presa. Na
linguagem dos crentes de Damasco, Paulo era um exterminador (Atos 9.21).
Paulo era um monstro celerado, um carrasco impiedoso, um perseguidor
truculento, um tormento na vida dos cristãos primitivos.
A expressão “respirando ainda ameaças e morte” era também uma alusão ao arfar e
ao bufar dos animais selvagens. Paulo parecia mais um animal selvagem do que um
homem. Em suas próprias palavras, ele estava “demasiadamente enfurecido”
(Atos 26.11). Nada é mais perigoso do que o radicalismo religioso sem
entendimento. Muitas “guerras santas” já foram declaradas por causa dessa
atitude ensandecida. Milhares de pessoas já morreram em nome de DEUS para
sustentar essa causa inglória. Muito sangue já foi derramado para
satisfazer os caprichos desses religiosos dominados pelo zelo sem
entendimento.
A expressão “respirando ameaças e morte” descreve também uma fera selvagem
saltando sobre a presa para devorá-la. Paulo era uma fera selvagem, uma ameaça
concreta para todos aqueles que confessavam o nome de JESUS. Não poupava
homens nem mulheres. Perseguiu a religião do Caminho até a morte (Atos
22.4). Estava determinado a praticar muitas coisas contra o nome de JESUS,
o Nazareno (Atos 26.9). Ele estava determinado a banir da terra o cristianismo.
Não podia aceitar que um nazareno, crucificado como um criminoso, pudesse
ser o Messias prometido de DEUS. Não podia aceitar que os cristãos
anunciassem a ressurreição daquele que havia sido dependurado numa cruz.
Não podia crer que uma pessoa pregada na cruz e, consequentemente, considerada
pecadora e maldita pudesse ser o Salvador do mundo.
Segundo: ele é visto como um touro bravo. O Senhor JESUS, mesmo sendo
perseguido por Paulo, não abriu mão de sua vida. A fúria de Paulo pelo nome de
JESUS, o Nazareno, não anulou o propósito eletivo de DEUS, que escolheu
Paulo antes mesmo de ele nascer e o separou para o ministério. Paulo mesmo
testemunhou esse fato: “Quando, porém, ao que me separou antes de
eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve revelar seu Filho em mim...”
(Gl 1.15,16). Um touro bravo é amansado pelo aguilhão. O Senhor começou a
ferroar sua consciência, ao mostrar como aqueles discípulos presos,
torturados e mortos morriam com serenidade. O algoz estava furioso, mas as
vítimas morriam cantando e orando.
Quando Estêvão foi apedrejado em Jerusalém, e se derramava o seu sangue, Paulo
consentia em sua morte e guardava as vestes daqueles que o apedrejavam (Atos
22.20). Paulo, porém, recusava-se a ceder mesmo diante desses aguilhões.
Como uma fera selvagem, dirigiu-se a Damasco. Respirava ameaças e morte
(Atos 9.1). Seu prazer era matar em nome de DEUS aqueles que abraçavam a
fé cristã. JESUS então aparece-lhe em refulgente glória no caminho de
Damasco, derruba-o ao chão e lhe pergunta: “... Saulo, Saulo, por que me
persegues? Dura cousa é recalcitrares contra os aguilhões” (Atos 26.14). O
boi bravo, enfim, estava no chão, subjugado, manso, domado (Atos
9.3-5). Uma força maior do que seu ódio entrou em seu peito. Uma luz maior
do que seu zelo o dominou. Aquele a quem ele perseguia com todas as forças
da sua alma, agora conquista seu coração. Quebrado e submisso, ele
pergunta: “Quem és tu, Senhor?”. E o Senhor responde: “Eu sou JESUS,
a quem tu persegues” (Atos 26.15).
Paulo é um perseguidor violento
A Bíblia faz descrições dos variados métodos usados por Paulo para perseguir os
discípulos de CRISTO. Vamos analisar esses métodos.
Em primeiro lugar, Paulo perseguia os cristãos usando o recurso da lei. Paulo
usava sua influência e seu trânsito no sinédrio para munir-se de cartas de
autorização dos principais sacerdotes a fim de encerrar em prisões e matar
os cristãos (Atos 26.10). Sua perseguição tinha um ar de legalidade
e oficialidade. Ele representava o braço repressor da lei religiosa. Ele
lançava mão de artifícios legais para impor aos discípulos de CRISTO as
mais duras sanções. É importante ressaltar que nem tudo o que é legal é
moral. Nem tudo que é lícito é conveniente. Nem tudo o que a lei permite deve
ser feito. Há muitos facínoras que se escondem atrás da lei para matar e
oprimir os inocentes. Há muitos espertalhões que, despudoradamente, beneficiam-se
das filigranas da lei para se abastecerem e oprimirem o pobre. Há aqueles
que fazem as leis, torcem-nas e as manipulam para alcançar seus propósitos
escusos e inconfessos.
Em segundo lugar, Paulo perseguia os cristãos em seus redutos religiosos. Paulo
perseguia e castigava os cristãos por todas as sinagogas em Jerusalém, bem como
por cidades estranhas (Atos 26.11). Sua área de jurisdição transcendia os
limites da Palestina. Suas cruzadas furiosas avançavam além dos limites de
Israel e chegavam até Damasco, na Síria (Atos 9.1,2). As sinagogas eram os
locais principais de reunião, onde os judeus se congregavam para estudar a
lei e orar. Ali também os cristãos se reuniam para adorar CRISTO e
cultuá-lo. O lugar de comunhão transformou-se num palco de opressão. O
abrigo da sinagoga tornou-se um corredor de perseguição. Paulo não respeitava
os recintos sagrados. Ele pensava com isso estar prestando um serviço a
DEUS.
Em terceiro lugar, Paulo empregava a tortura psicológica. A perseguição
impetrada por essa fera selvagem e por esse boi bravo não consistia apenas em
sanções legais contra os novos convertidos. Ele os castigava não apenas
fisicamente, mas também psicologicamente. Ele mesmo testemunha: “Muitas
vezes, os castiguei por todas as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar...”
(Atos 26.11). Ele era blasfemo (1Tm 1.13) e forçava os neófitos a
blasfemarem. Alguns crentes, novos na fé, com medo da morte, recuavam e
blasfemavam. Outros, porém, suportavam os açoites, as prisões e a morte,
permanecendo fiéis (Atos 26.10). A tortura psicológica é pior do que o castigo
físico. Os campos de concentração nazistas usaram esse artifício maldito e
levaram muitas pessoas à loucura. Ainda hoje, a tortura é um dos
instrumentos mais aviltantes e ignominiosos, usados para
arrancar confissões e declarações que incriminam as vítimas ou aqueles que
se quer condenar.
Em quarto lugar, Paulo empregava a tortura física. Em sua carta aos Coríntios,
Paulo diz que perseguiu a igreja de DEUS (1Co 15.9). Aos crentes da Galácia,
seu relato é ainda mais contundente: “Porque ouvistes qual foi o meu
proceder outrora no judaísmo, como sobremaneira perseguia eu a igreja de
DEUS e a devastava” (Gl 1.13). Nessa perseguição, usou vários métodos:
Ele caçava os crentes por todas as partes. Paulo era um caçador implacável
(Atos 9.2; 22.5; 26.9). Ele não se contentou apenas em perseguir os cristãos em
Jerusalém; caçava-os por todas as cidades estranhas. Agora, escoltado por
uma soldadesca do sinédrio, marcha para Damasco, capital da Síria, para
prender os cristãos e levá-los manietados para Jerusalém (Atos 9.2). Seu
propósito em prender os cristãos em Damasco era trazê-los para Jerusalém e
puni-los, exatamente no local onde eles afirmavam que JESUS havia
ressuscitado (Atos 22.5). Sua intenção não era apenas castigar os
cristãos, mas jogar uma pá de cal no cristianismo.
Seu ódio, na verdade, não era propriamente contra os cristãos, mas contra
CRISTO. Ele testemunha ao rei Agripa: “Na verdade, a mim me parecia que muitas
coisas devia eu praticar contra o nome de JESUS, o Nazareno” (Atos 26.9).
Escrevendo a seu filho Timóteo, Paulo testemunha: “a mim, que, noutro
tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente...” (1Tm 1.13).
Paulo, ao perseguir a igreja, estava perseguindo o próprio CRISTO. Por isso,
quando JESUS aparece-lhe no caminho de Damasco, pergunta: “Saulo, Saulo, por
que me persegues?” (Atos 9.4). Ele então indaga: “Quem és tu, Senhor?”. E a
resposta foi: “Eu sou JESUS, o Nazareno, a quem tu persegues” (Atos 9.5).
Diante do sinédrio, Paulo disse: “Persegui este Caminho até à morte, prendendo
e metendo em cárceres homens e mulheres” (Atos 22.4). O povo de Damasco,
ao ouvir a pregação de Paulo, logo depois da sua conversão, reafirma como
Paulo perseguiu de forma implacável os crentes: “... Não é este o que
exterminava em Jerusalém os que invocavam o nome de JESUS e para aqui veio
precisamente com o fim de os levar amarrados aos principais sacerdotes?” (Atos
9.21).
Ele manietava os crentes. Ao entrar nas sinagogas, Paulo não apenas dava ordem
de prisão aos crentes, mas os amarrava e os levava assim aos principais
sacerdotes (Atos 9.21). Ele corrobora: “... e ia para Damasco, no
propósito de trazer manietados para Jerusalém os que também lá
estivessem, para serem punidos” (Atos 22.5).
Ele encerrava os crentes em prisões. O propósito de Paulo em ir a Damasco era
descobrir lá alguns crentes a fim de levá-los presos para Jerusalém (Atos 9.2).
Ele diz ao povo de Jerusalém: “Persegui este Caminho até à morte,
prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres” (Atos 22.4). Depois de
sua conversão, quando DEUS o mandou sair de Jerusalém, Paulo tentou argumentar
com DEUS, dizendo: “... Senhor, eles bem sabem que eu encerrava em prisão
[...] os que criam em ti” (Atos 22.19).
Ele açoitava os crentes. Paulo não somente acorrentava e prendia os cristãos,
mas também os castigava fisicamente (Atos 22.5). Ele disse: “... Senhor, eles
bem sabem que eu [...] açoitava os que criam em ti” (Atos 22.19). Diante
de Agripa, Paulo declara: “Muitas vezes, os castiguei por todas
as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar. E, demasiadamente enfurecido
contra eles, mesmo por cidades estranhas os perseguia” (Atos 26.11). Paulo
era um carrasco, um homem truculento, selvagem, bárbaro, um monstro
celerado em seu zelo ensandecido.
Ele matava os crentes. Paulo não apenas caçava os crentes como uma fera
selvagem caça a sua presa, como também os devorava. Ele não apenas os
acorrentava, prendia e açoitava, mas também os matava. Ele devastava a
igreja. Sempre que o sinédrio deliberava sobre a morte dos
crentes encerrados em prisão, Paulo dava seu voto para que fossem mortos.
Diz ele: “e assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização
dos principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e
contra estes dava o meu voto, quando os matavam” (Atos 26.10). Diante da
multidão amotinada de Jerusalém, Paulo testemunhou: “Quando se derramava o
sangue de Estêvão, tua testemunha, eu também estava presente, consentia
nisso e até guardei as vestes dos que o matavam” (Atos 22.20).
Capítulo 03 - Um touro indomável
A conversão de Paulo foi a mais importante da história. Talvez nenhum fato seja
mais marcante na história da igreja depois do Pentecostes. Nenhum homem exerceu
tanta influência no cristianismo. Nenhum homem foi tão notório na história da
humanidade. Lucas ficou tão impressionado com a importância da conversão
de Paulo que ele a relata três vezes em Atos (Atos 9, 22, 26). Destacamos
alguns pontos sobre a conversão de Paulo.
Paulo não se converteu; ele foi convertido
A causa da conversão de Paulo foi a graça soberana de DEUS. Ele não se decidiu
por CRISTO; estava perseguindo CRISTO. Na verdade, foi CRISTO quem se decidiu
por ele.
Paulo estava caçando os cristãos para prendê-los, e CRISTO estava caçando Paulo
para salvá-lo (Atos 9.1-6). Não era Paulo que estava buscando a JESUS; era
JESUS quem estava buscando a Paulo. A salvação de Paulo não foi iniciativa
dele; foi iniciativa de JESUS. Não foi Paulo quem clamou por JESUS; foi
JESUS quem chamou pelo nome de Paulo. A salvação é obra exclusiva de DEUS. Não
é o homem que se reconcilia com DEUS; é DEUS quem está em CRISTO
reconciliando consigo o mundo (2Co 5.18).
Paulo não é salvo por seus méritos; ele era uma fera selvagem, um perseguidor
implacável, um assassino insensível. Seus predicados religiosos, nos quais
confiava (circuncidado, fariseu, hebreu de hebreus, da tribo de Benjamim),
ele considerou como esterco (Fp 3.8, ARC). A nossa justiça aos olhos de
DEUS não passa de trapo de imundícia (Is 64.6).
Paulo era um touro bravo que resistiu aos aguilhões
A conversão de Paulo não foi de maneira nenhuma repentina. De acordo com a
própria narrativa de Paulo, JESUS lhe disse: “... Dura cousa é recalcitrares
contra os aguilhões” (Atos 26.14). JESUS comparou Paulo a um touro jovem,
forte e obstinado, e ele mesmo, a um fazendeiro que usa aguilhões para
domá-lo.
DEUS já estava trabalhando na vida de Paulo antes de ele se render no caminho
de Damasco. Paulo era como um touro bravo que recalcitrava contra os aguilhões
(Atos 26.14). JESUS já estava ferroando sua consciência quando ele viu
Estêvão sendo apedrejado e com rosto de anjo pedir ao Senhor para perdoar
seus algozes. A oração de Estêvão ainda latejava na alma de Paulo.
JESUS estava ferroando a consciência de Paulo quando ele prendia os cristãos e
dava seu voto para matá-los, e eles morriam cantando. Mas, como esse boi
selvagem não amansou com as ferroadas, JESUS apareceu a ele, o derrubou ao
chão e o subjugou totalmente no caminho de Damasco. Isso nos prova que a
eleição de DEUS é incondicional, que a graça de DEUS é irresistível, e que seu
chamado é irrecusável. Paulo precisou ser jogado ao chão e ficar cego para
se converter. Nabucodonosor precisou ir para o campo comer capim com os
animais para se dobrar. Até quando você vai resistir à voz do ESPÍRITO de
DEUS?
A conversão de Paulo no caminho de Damasco era o clímax repentino de um longo
processo em que o “Caçador dos céus” tinha estado em seu encalço. Curvou-se a
dura cerviz autossuficiente. O touro estava domado.
Paulo era um intelectual que resistiu à lógica divina (Atos 9.4-8)
Se a conversão de Paulo não foi repentina, também não foi compulsiva. CRISTO
falou com ele em vez de esmagá-lo. CRISTO o jogou ao chão, mas não violentou
sua personalidade. Sua conversão não foi um transe hipnótico. JESUS apelou
para sua razão e para seu entendimento.
JESUS perguntou: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Paulo respondeu: “Quem
és tu, Senhor?”. JESUS respondeu: “Eu sou JESUS, a quem tu persegues”. JESUS
ordenou: “Mas levanta-te”, e Paulo prontamente obedeceu! A resposta e a
obediência de Paulo foram racionais, conscientes e livres.
A soberania de DEUS não anula a responsabilidade humana. JESUS picou a mente e
a consciência de Paulo com os seus aguilhões. Então ele se revelou através da
luz e da voz, não para esmagá-lo, mas para salvá-lo. A graça de DEUS não
aprisiona. É o pecado que prende. A graça liberta!
Paulo foi um homem completamente transformado (Atos 9.3-20)
Destacamos três fatos benditos sobre essa súbita conversão de Paulo:
Em primeiro lugar, uma gloriosa manifestação de JESUS (Atos 9.3-6). Três coisas
aconteceram a Paulo:
Paulo viu uma luz (Atos 22.6,11). Subitamente, uma grande luz do céu brilhou ao
seu redor. Aquilo não foi uma miragem, um êxtase, uma visão subjetiva. Foi uma
grande luz do céu tão forte que lhe abriu os olhos da alma e tirou-lhe a
visão física. Ele ficou cego por causa do fulgor daquela luz (Atos 22.11).
Não foi apenas uma luz que apareceu a Paulo, mas o próprio JESUS (Atos 9.17).
Aquela luz era a glória do próprio Filho de DEUS ressurreto.
Paulo caiu por terra (Atos 22.7). O touro furioso, selvagem e indomável estava
subjugado. Aquele que prendia estava preso. Aquele que encerrava em prisão
estava dominado. Aquele que se achava detentor de todo o poder para
perseguir estava prostrado ao chão, impotente. O Senhor quebrou todas as
suas resistências.
Paulo ouviu uma voz (Atos 22.7). O mesmo JESUS que ferroara sua consciência com
aguilhões troveja, agora, aos seus ouvidos, desde o céu: “... Saulo, Saulo, por
que me persegues? Dura cousa é recalcitrares contra os aguilhões” (Atos
26.14). A voz do Senhor é poderosa. Ela despede chamas de fogo. Faz tremer
o deserto. É irresistível. Paulo então perguntou: “... quem és tu, Senhor? Ao
que JESUS respondeu: “... Eu sou JESUS, o Nazareno, a quem tu persegues”
(Atos 22.8). O mesmo Paulo que perseguia a JESUS (Atos 26.9) chama, agora,
JESUS de Senhor. Ele se curva. Ele se prostra. O boi selvagem foi
subjugado! Não há salvação sem que o pecador se renda aos pés do Senhor JESUS.
Em segundo lugar, uma humilde entrega de Paulo (Atos 22.8,10). Três coisas
devem ser destacadas:
Paulo reconhece que JESUS é o Senhor (Atos 22.8). Aquele a quem ele resistira e
perseguira é de fato o Senhor. Verdadeiramente, ele ressuscitou dentre os
mortos. Verdadeiramente, ele é o Messias, o Filho de DEUS. Aquela luz
brilhou na sua alma, iluminou seu coração, tirou as escamas dos seus olhos
espirituais (2Co 3.16).
Paulo reconhece que é pecador (Atos 22.8). Paulo toma conhecimento de que seu
zelo religioso não agradava a DEUS. Na verdade, estava perseguindo o próprio
Filho de DEUS. Ele reconhece que é o maior de todos os pecadores.
Reconhece que está perdido e precisa da salvação.
Paulo reconhece que precisa ser guiado pelo Senhor (Atos 22.10). A
autossuficiência de Paulo acaba no caminho de Damasco. Ele agora pergunta: “...
que farei, Senhor?...” (Atos 22.10). Agora quer ser guiado! Está pronto a
obedecer. Ele que esperava entrar em Damasco na plenitude de seu orgulho
e bravura, como um autoconfiante adversário de CRISTO, estava sendo guiado
por outros, humilhado e cego, capturado pelo CRISTO a quem se opunha. O
Senhor ressurreto aparecera a ele. A luz que viu era a glória de CRISTO, e
a voz que ouviu era a voz de CRISTO. CRISTO o capturou antes que ele
pudesse capturar qualquer crente em Damasco.
Em terceiro lugar, uma evidência incontestável da conversão de Paulo (Atos
9.10-20). Três verdades nos provam essa tese:
Paulo evidencia sua conversão pela vida de oração (Atos 9.10,11). A prova que
DEUS deu a Ananias de que Paulo agora era um irmão, e não um perseguidor, é que
ele estava orando. Quem nasce de novo tem prazer de clamar “Aba Pai”. Quem
é salvo tem prazer na comunhão com o Pai. Paulo é convertido e logo começa
a orar!
Paulo evidencia sua conversão pelo recebimento do ESPÍRITO SANTO (Atos 9.17).
Ananias impõe as mãos sobre ele, e ele recebe o ESPÍRITO e fica cheio do
ESPÍRITO SANTO. Charles Spurgeon disse que é mais fácil você convencer um
leão a ser vegetariano do que uma pessoa ser convertida sem a ação
do ESPÍRITO SANTO.
Paulo evidencia sua conversão pelo recebimento do batismo (Atos 9.18). Não é o
batismo que salva, mas o salvo deve ser batizado. O batismo é um testemunho da
salvação. Uma pessoa que crê precisa ser batizada e integrada na igreja.
Ananias chamou Paulo de irmão. Ele entrou para a família de DEUS.
Capítulo 04 - Uma pedra bruta lapidada
Depois de convertido, logo Paulo se transforma em pregador do evangelho. Em vez
de perseguir os cristãos, promove a fé evangélica. Em vez de tapar a boca dos
cristãos, abre a boca para testemunhar do nome de JESUS. Destaco três mudanças
radicais que aconteceram na vida de Paulo depois de sua conversão:
Em primeiro lugar, de agente de morte a pregador do evangelho. Paulo tornou-se
um embaixador de CRISTO, um pregador do evangelho imediatamente após sua
conversão (Atos 9.20). DEUS mesmo o escolheu para levar o evangelho aos
gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel (Atos 9.15).
Paulo pregou a tempo e fora de tempo. Em prisão e em liberdade. Com saúde ou
doente. Pregou nos lares, nas sinagogas, no templo, nas ruas, nas praças, na
praia, no navio, nos salões governamentais, nas escolas. Paulo pregou com
senso de urgência, com lágrimas e no poder do ESPÍRITO SANTO.
Aonde ele chegava, os corações eram impactados com o evangelho. Ele pregava não
apenas usando palavras de sabedoria, mas com demonstração do ESPÍRITO e de
poder (1Co 2.4; lTs 1.5).
Em segundo lugar, de devastador da igreja a plantador de igrejas. DEUS
encorajou Ananias a ir ao encontro de Saulo em Damasco, dando-lhe as seguintes
palavras: “... Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para
levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de
Israel” (Atos 9.15). O Senhor mesmo levantou Paulo como o maior evangelista, o
maior missionário, o maior pastor, o maior pregador, o maior teólogo e o
maior plantador de igrejas da história do cristianismo. Ele plantou
igrejas na região da Galácia, nas províncias da Macedônia, Acaia e Asia
Menor. Não apenas plantou igrejas, mas pastoreou-as com intenso zelo,
com profundo amor e com grave senso de responsabilidade. Pesava sobre ele
a preocupação com todas as igrejas (2Co 11.28).
Em terceiro lugar, de receptor de cartas para prender e matar a escritor de
cartas para abençoar e salvar. Como perseguidor e exterminador dos cristãos,
Paulo pedia cartas para prender, amarrar e matar os crentes (Atos 9.2,14).
Mas, depois de convertido, ele escreve cartas para abençoar. Paulo foi o
maior escritor do Novo Testamento. Ele escreveu treze cartas. Suas cartas
são mais conhecidas do que qualquer obra jamais escrita na história da
humanidade. Suas cartas têm sido alimento diário para milhões de crentes
em todos os tempos. Essas cartas são luzeiros que brilham; são pão que
alimenta; são água que dessedenta; são verdades inspiradas pelo ESPÍRITO
SANTO que ensinam, exortam e levam pessoas a CRISTO todos os dias!
Vejamos, agora, como DEUS trabalhou na vida de Paulo até transformá-lo no
apóstolo que foi. Mesmo que sua conversão tenha sido genuína e radical, seu
amadurecimento foi progressivo.
Pregando em Damasco
Logo após ser curado da cegueira, ser batizado e ter recebido o ESPÍRITO, Paulo
começou a pregar em Damasco, afirmando que JESUS é o Filho de DEUS (Atos 9.20).
Sua pregação consistia apenas numa declaração de que aquele a quem ele
perseguia era o Filho de DEUS. Essa pregação causou espanto nos
damascenos, em virtude de sua reputação de exterminador dos que invocavam o
nome de JESUS (Atos 9.21).
Seminário intensivo com JESUS na Arábia
Há um intervalo muito importante na vida de Paulo entre Atos 9.20,21 e Atos
9.22. No começo, Paulo apenas pregava e afirmava que JESUS era o Filho de DEUS
(Atos 9.20,21). Mas, depois, Paulo mais e mais se fortalecia e confundia
os judeus que moravam em Damasco, demonstrando que JESUS é o CRISTO (Atos
9.22). Demonstrar é mais do que afirmar. Demonstrar é provar cuidadosa
e meticulosamente o que se afirma. Demanda um exame acurado, uma
investigação precisa, uma análise profunda.
Onde Paulo esteve e o que aprendeu para passar do primeiro estágio da afirmação
para o segundo estágio da demonstração? O livro de Atos não nos responde, mas
encontramos a resposta na carta aos Gálatas. Após sua conversão, Paulo não
foi para Jerusalém, onde estavam os apóstolos, mas rumou para as regiões
da Arábia, onde permaneceu três anos, fazendo um seminário intensivo com o
próprio Senhor JESUS. O próprio Paulo registra esse fato, assim: “Faço-vos,
porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o
homem, porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante
revelação de JESUS CRISTO” (Gl 1.11,12).
Depois de passar três anos examinando cuidadosamente o Antigo Testamento, ele
descobriu que JESUS era, de fato, o Messias prometido. Paulo narra como foi que
isso aconteceu nesses três anos: “Quando, porém, ao que me separou antes
de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve revelar seu Filho em mim,
para que eu o pregasse entre os gentios, sem detença, não consultei
carne e sangue, nem subi a Jerusalém para os que já eram apóstolos antes
de mim, mas parti para as regiões da Arábia e voltei, outra vez, para
Damasco” (Gl 1.15-17).
Pregação mais precisa em Damasco
Ao voltar das regiões da Arábia para Damasco é que Paulo, agora, não apenas
afirma, mas demonstra que JESUS é o CRISTO, o Messias prometido (Atos 9.22).
Em vez de sua pregação encontrar guarida em Damasco, encontra, pelo contrário,
severa
resistência. Paulo precisa fugir de maneira humilhante num cesto muralha abaixo
para salvar a vida. Depois de três anos de sua conversão, de Damasco ele vai a
Jerusalém (Gl 1.18).
Rejeição e acolhimento em Jerusalém
Ao chegar a Jerusalém, a recepção de Paulo não foi nada calorosa. Os discípulos
não acreditavam na sinceridade de sua conversão. Pensavam que ele estava
blefando e armando uma cilada para perseguir a igreja. Essa rejeição,
possivelmente, foi mais um golpe que Paulo sofreu ainda nos albores da sua
caminhada. Estava colhendo os frutos de sua semeadura. Eis o relato de
Lucas: “Tendo chegado a Jerusalém, procurou [Paulo] juntar-se com os
discípulos; todos, porém, o temiam, não acreditando que ele fosse
discípulo” (Atos 9.26).
Barnabé, o filho da consolação, viu Paulo com outros olhos. Acreditou nele e
investiu em sua vida. Assim Lucas relata: “Mas Barnabé, tomando-o consigo,
levou-o aos apóstolos; e contou-lhes como ele vira o Senhor no caminho, e
que este lhe falara, e como em Damasco pregara ousadamente em nome de
JESUS” (Atos 9.27). Barnabé foi o instrumento usado por DEUS
para introduzir Paulo na comunidade cristã de Jerusalém, cidade onde ele
outrora devastara a fé que agora pregava (Gl 1.23).
Uma exagerada confiança em si mesmo
Uma vez acolhido na igreja-mãe, onde outrora perseguira com tanta fúria os
cristãos, Paulo tem livre trânsito para sair da cidade e entrar nela, a fim de
pregar aos judeus e discutir com os helenistas. Mas toda essa desenvoltura
não alcança os resultados que Paulo esperava. Talvez até aqui Paulo ainda
estivesse confiando em si mesmo para obter sucesso em seu ministério.
Ainda estava vivendo sob a égide da antiga aliança.
Em vez de frutos do seu trabalho, enfrenta mais perseguição. Eis o relato de
Lucas: “Estava com eles em Jerusalém, entrando e saindo, pregando ousadamente
em nome do Senhor. Falava e discutia com os helenistas; mas eles
procuravam tirar-lhe a vida” (Atos 9.28,29).
Ao dar testemunho de sua conversão muitos anos depois, ao ser preso nessa mesma
cidade de Jerusalém, Paulo narra uma experiência dramática. Ele não foi apenas
rejeitado pelo povo da cidade. Foi dispensado também da obra pelo próprio
DEUS. Acompanhemos o relato que o próprio apóstolo faz: “Tendo eu voltado
para Jerusalém, enquanto orava no templo, sobreveio-me um êxtase, e vi
aquele que falava comigo: Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque não
receberão o teu testemunho a meu respeito” (Atos 22.17,18).
Em vez de DEUS mudar os oponentes de Paulo, é Paulo que tem de mudar e sair da
cidade. Paulo não quer sair da igreja de Jerusalém. Ele chega a discutir com
DEUS. Pensa que DEUS está cometendo um erro estratégico ao tirá-lo desse
campo. Ele pensa ser o homem certo para essa empreitada. Mas DEUS não
cede; é Paulo que tem de arrumar as malas e ir embora. Vejamos
a argumentação de Paulo com DEUS: “Eu disse: Senhor, eles bem sabem que eu
encerrava em prisão e, nas sinagogas, açoitava os que criam em ti. Quando
se derramava o sangue de Estêvão, tua testemunha, eu também estava
presente, consentia nisso e até guardei as vestes dos que o matavam. Mas
ele me disse: Vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios” (Atos
22.19-21). Como Paulo reluta em sair, ele é retirado pelos irmãos: “Tendo,
porém, isto chegado ao conhecimento dos irmãos, levaram-no até Cesareia e
dali o enviaram para Tarso” (Atos 9.30).
O jovem Paulo sofre mais um golpe em seu orgulho. Quando ele arruma as malas e
vai embora de Jerusalém, imediatamente os problemas da igreja se resolvem: “A
Igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria,
edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do ESPÍRITO
SANTO, crescia em número” (Atos 9.31). Talvez nada fira tanto o orgulho de
um pastor do que sair da igreja e ver que após sua saída todos os
problemas dela se resolvem. Volte para casa, jovem!
Paulo saiu de Jerusalém e foi para Tarso, sua cidade natal. E ali ficou não
pouco tempo no anonimato, num completo ostracismo. Nada sabemos desse longo
período de sua vida. Aquele que estava com a mente povoada de muitos
sonhos, e nutrindo na alma o ideal de pregar a Palavra em Jerusalém, está,
agora, sozinho, esquecido, fora do palco, longe das luzes da ribalta.
É importante perceber que DEUS ainda está tratando com ele. Na verdade, DEUS
está mais interessado em quem nós somos do que no que fazemos. Vida com DEUS
precede trabalho para DEUS. A nossa maior prioridade não é fazer a obra de
DEUS, mas conhecer o DEUS da obra. O DEUS da obra é mais importante do que
a obra de DEUS. Paulo precisava aprender que o sucesso na obra não vinha
dele mesmo, mas de DEUS. Ele precisava passar da antiga aliança para a nova
aliança. Na antiga aliança, tudo depende de nós e nada, de DEUS; na nova
aliança, tudo depende de DEUS e nada, de nós. Se quisermos fazer a obra de
DEUS fiados em nossas próprias forças, fracassaremos. Se dependermos
apenas dos nossos recursos, nos frustraremos. A nossa suficiência vem de DEUS.
Tarso não foi um acidente na vida de Paulo, mas uma escola de treinamento. O
deserto é a escola superior do ESPÍRITO SANTO onde DEUS treina seus líderes
mais importantes. Tarso foi o deserto de Paulo. O deserto não é um
acidente em nossa vida, mas uma agenda de DEUS. É DEUS quem nos leva para
o deserto. Não gostamos do deserto. Ele não nos promove. Ele nos tira do palco.
Ele apaga as luzes dos holofotes e nos deixa sem qualquer projeção. DEUS
nos leva para o deserto não para nos exaltar, mas para nos humilhar. O
deserto é o lugar onde DEUS treina seus líderes mais importantes. DEUS não
tem pressa quando se trata de preparar os seus líderes. Vivemos
numa geração que tem muita pressa. Gostamos de restaurantes fast-food. Mas
os líderes não podem amadurecer no carbureto. Eles não podem pular o estágio
do deserto. DEUS preparou Moisés quarenta anos para usá-lo durante
quarenta anos. DEUS preparou Elias três anos e meio para usá-lo num único
dia, no cume do monte Carmelo. O Senhor JESUS só começou seu ministério com
30 anos de idade. Paulo passou quatorze anos em Tarso antes de ser
poderosamente usado por DEUS na obra missionária.
Aprenda a ser liderado antes de poder liderar
A evangelização do mundo estava a todo vapor, e isso sem a contribuição de
Paulo. Não há pessoas indispensáveis na obra. Somos apenas cooperadores, e não
os agentes da obra. O evangelho chegou a Antioquia, a terceira maior
cidade do mundo daquela época. A igreja de Jerusalém enviou para lá o
mesmo Barnabé que havia acolhido Paulo em Jerusalém. Ao chegar ali, alegrou-se
ao ver a obra de DEUS prosperando e lembrou-se de Paulo. Foi atrás dele e
o buscou para engrossar fileiras no ministério da evangelização e do
ensino naquela cidade metropolitana.
Durante um ano, eles ensinaram a Palavra de DEUS em Antioquia. A igreja era
multicultural e multirracial. Fortalecida na Palavra, a igreja orava e jejuava.
Foi nesse tempo que o ESPÍRITO SANTO separou Barnabé e Paulo para a grande
obra missionária, enviando-os para uma viagem missionária transcultural. É
digno de nota, porém, que o ESPÍRITO SANTO separou Barnabé e Paulo, e não Paulo
e Barnabé. O líder não era Paulo. Ele precisava aprender a ser liderado
antes de poder liderar. Ele precisava estar sob a autoridade de alguém
antes de poder exercer autoridade sobre alguém. Ele precisava aprender a
ser reserva antes de ocupar o lugar de titular.
Mais uma vez, estamos diante do fato de que DEUS está trabalhando na vida de
Paulo, ensinando-o a depender totalmente do Senhor e nada de si mesmo. DEUS
estava esvaziando a bola desse homem. Estava lapidando essa pedra,
aparando suas arestas e moldando-o como um oleiro faz com o vaso.
Esta, possivelmente, foi a lição mais importante que DEUS ensinou a Paulo em
sua trajetória missionária: como viver no poder da nova aliança. O mesmo
apóstolo compartilha como isso se deu em sua vida. Escrevendo sua segunda
carta aos Coríntios, ele fala das cinco marcas de uma vida vitoriosa:
otimismo indestrutível, sucesso constante, impacto inesquecível, integridade
irrefutável e realidade inegável (2Co 2.14-17; 3.1-3). Contudo, a grande
questão é: “... Quem, porém, é suficiente para estas cousas?” (2Co 2.16).
Ele não dá a resposta imediatamente. Só vai fazê-lo no capítulo seguinte,
quando escreve: “... a nossa suficiência vem de DEUS” (2Co 3.5). Só depois
de aprender esse princípio, Paulo está pronto para ser o grande líder, o
grande missionário, o homem poderosamente usado nas mãos de DEUS para
levar o evangelho aos mais distantes rincões do mundo.
Capítulo 05 - Semeando com lágrimas, colhendo com júbilo
A primeira viagem missionária de Paulo foi marcada por muitos incidentes e
acidentes. Ele enfrentou oposição, perseguição e até apedrejamento. A jornada
foi tão dura que o jovem João Marcos desistiu da viagem no meio do caminho.
A direção do ESPÍRITO SANTO na obra missionária
A igreja prega e ensina a Palavra (Atos 13.1), mas quem a dirige na obra
missionária é o ESPÍRITO SANTO (Atos 13.2). O ESPÍRITO SANTO é livre e soberano
na condução dos destinos da igreja. A orientação do ESPÍRITO é segundo a
Palavra, e não à parte dela. O ESPÍRITO se manifesta a uma
igreja centralizada na Palavra e a uma igreja que ora e jejua (Atos
13.2,3). O ESPÍRITO SANTO não age à parte da igreja, mas em sintonia com
ela. É a igreja que jejua e ora. É a igreja que impõe as mãos e despede,
mas é o ESPÍRITO quem envia os missionários (Atos 13.3,4).
Não podemos fazer a obra de DEUS sem a direção do ESPÍRITO SANTO. Ele nos foi
enviado para estar para sempre conosco. Ele nos guia a toda a verdade.
Precisamos do ESPÍRITO SANTO. Dependemos do ESPÍRITO SANTO. A igreja não
pode ver sequer uma conversão sem a obra do ESPÍRITO SANTO. Os pregadores
não terão virtude e poder para pregar sem a ação do ESPÍRITO SANTO.
Usando pontes de contato
Paulo anunciava a Palavra de DEUS (Atos 13.4,5), mas empregava os melhores
métodos e os meios mais adequados de fazê-lo (Atos 13.5). Paulo não ousava
mudar a mensagem, mas era sempre audacioso em usar os melhores métodos. Em
Salamina, eles anunciam a Palavra de DEUS nas sinagogas judaicas (Atos
13.5). Nesse lugar, judeus e gentios prosélitos se reuniam para estudar a
lei. Ali havia pessoas tementes a DEUS e piedosas. Essas pessoas já
estavam preparadas para receber a revelação de DEUS por meio do evangelho.
Precisamos de pontes de contato para atingir com eficácia as pessoas.
Precisamos ler a Bíblia e ler o povo. Precisamos conhecer o texto e o contexto.
Precisamos ler a Escritura e também a cultura. É sábio aproveitar as
portas abertas da cultura religiosa para anunciar o evangelho.
Onde alguém se abre para o evangelho, o diabo cria uma resistência
Quando os missionários Barnabé, Paulo e João Marcos chegaram a Pafos, o
procônsul Sérgio Paulo, homem inteligente, demonstrou interesse em ouvir a
Palavra de DEUS. Mas, imediatamente, certo judeu, mágico, falso profeta,
de nome Barjesus, opôs-se a eles. Esse mensageiro do diabo envidou todos
os esforços para afastar da fé o procônsul. É nesse momento que Paulo assume
o comando da obra missionária e repreende com autoridade esse embaixador
do engano com estas palavras: “Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e
de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os
retos caminhos do Senhor? Pois, agora, eis aí está sobre ti a mão do Senhor,
e ficarás cego, não vendo o sol por algum tempo. No mesmo instante, caiu sobre
ele névoa e escuridade, e, andando à roda, procurava quem o guiasse pela
mão” (Atos 13.10,11). O resultado foi que o procônsul, ao ver o ocorrido,
creu, maravilhado com a doutrina do Senhor (Atos 13.12).
Desistência no meio do caminho
Ao saírem de Pafos para Perge da Panfília, o jovem João Marcos desiste da
viagem missionária e retorna para sua casa em Jerusalém (Atos 13.13). Longe de
esse fato trazer aos dois veteranos da caravana, Paulo e Silas, qualquer
desestímulo, eles prosseguiram rumo a Antioquia da Pisídia,
onde encontraram uma larga porta aberta para o evangelho.
Por que João Marcos desistiu dessa primeira viagem missionária? O texto não nos
responde. Porém, temos pelo menos duas sugestões. A primeira delas é que João
Marcos era primo de Barnabé, e, quando saíram de Antioquia da Síria,
Barnabé era o líder da caravana; porém, a partir de Pafos, Paulo assumiu
essa liderança. Possivelmente, isso trouxe constrangimento e
até insegurança na vida desse jovem.
A segunda razão é que a viagem missionária tomou um rumo inesperado, ao
dirigir-se às regiões continentais em vez de concentrar-se apenas nas cidades
costeiras. Isso implicava maiores riscos e mais dificuldades de uma
retirada. O jovem João Marcos, possivelmente, julgou um preço muito alto a
pagar e, inexplicavelmente, desistiu da viagem e voltou para casa.
Uma porta aberta para o testemunho
Em Antioquia da Pisídia, os missionários foram convidados a dar uma palavra de
exortação ao povo reunido na sinagoga (Atos 13.15). Havia fome de DEUS naquela
cidade. Paulo e Barnabé aproveitaram essa oportunidade.
O sermão de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia é uma síntese
extraordinária da história de Israel (Atos 13.1641). Paulo se dirige aos
israelitas e aos prosélitos tementes a DEUS (Atos 13.16), começando sua
narrativa com o chamado dos patriarcas, o cativeiro no Egito e a peregrinação
de seus descendentes pelo deserto. Nesse tempo, DEUS suportou os maus
costumes do povo israelita durante quarenta anos no deserto. De forma
miraculosa, DEUS destruiu sete nações poderosas dessa terra e a deu a
Israel por herança. Depois de instalá-los nessa terra, deu-lhes juízes para
liderá-los, mas o povo, desejando imitar as nações pagãs ao redor, queria
um rei. Então lhes foi dado Saul. Por este não ser reto diante de DEUS, o
Senhor levantou Davi, homem segundo o coração de DEUS (Atos 13.22). Da
descendência de Davi, DEUS trouxe a Israel o Salvador do mundo, que é JESUS.
Paulo dirige-se aos judeus e prosélitos da sinagoga, fazendo uma poderosa
aplicação da sua mensagem. Mostra que o povo de Jerusalém e as autoridades
judaicas não conheceram JESUS nem entenderam a mensagem dos profetas, que
era lida todos os sábados em suas sinagogas, pois condenaram o Messias que
lhes fora prometido. Entretanto, ao condenarem JESUS, cumpriram
tudo aquilo que acerca dele estava escrito. Então Paulo foca sua mensagem
na morte, no sepultamento e na ressurreição de CRISTO, mostrando que esse
era o núcleo do evangelho que ele lhes anunciava. Paulo ainda afirma que é
por meio de JESUS, e não mediante a lei de Moisés, que eles tinham
a remissão de pecados e a justificação. O apóstolo termina sua exposição
alertando sobre o perigo de desprezar essa mensagem salvadora.
Um poderoso despertamento e uma cruel perseguição
A mensagem de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia foi tão impactante que
surtiu de imediato dois resultados. O primeiro deles é que os líderes da
sinagoga pediram uma repetição da mesma mensagem para o sábado seguinte
(Atos 13.42). O segundo resultado foi que muitos dos judeus e prosélitos
piedosos seguiram Paulo e Barnabé, aos quais estes persuadiram a perseverar
na graça de DEUS (Atos 13.43).
Durante aquela semana, algo extraordinário aconteceu na cidade. O evangelho
produziu um impacto tal nas pessoas que mal elas podiam esperar o sábado
seguinte para irem ao encontro dos homens de DEUS na sinagoga. O
historiador Lucas relata: “No sábado seguinte, afluiu quase toda a cidade
para ouvir a palavra de DEUS” (Atos 13.44). Chamamos isso de um avivamento!
Nenhum milagre é relatado na cidade, mas a Palavra de DEUS foi pregada com
fidelidade e poder, e uma cidade inteira foi despertada a ouvir a mensagem
evangélica.
O despertamento espiritual foi seguido imediatamente de implacável e cruel
perseguição. Os judeus, tomados de inveja, com blasfêmia contradiziam o que
Paulo falava. Nesse momento, Paulo e Barnabé, com toda a ousadia, ao verem
os judeus rejeitarem a vida eterna, voltam-se para os gentios (Atos
13.46,47). Os gentios muito se alegram e glorificam a Palavra do Senhor. E
Lucas relata: “... e creram todos os que haviam sido destinados para a
vida eterna” (Atos 13.48). Mesmo onde se manifestou rejeição, os eleitos
creram e foram salvos.
Os judeus, não dando o braço a torcer, manipularam as mulheres piedosas da alta
sociedade e as autoridades locais e, perseguindo Paulo e Barnabé,
expulsaram-nos do seu território. Os missionários sacudiram o pó de seus
pés e foram adiante rumo a Icônio. Os discípulos de CRISTO, porém,
transbordavam de alegria e do ESPÍRITO SANTO (Atos 13.50-52).
Pregando aos ouvidos e aos olhos
Paulo e Barnabé chegam a Icônio e ali demoram muito tempo, mesmo debaixo de
tensão e perseguição. Na sinagoga de Icônio, Paulo e Barnabé falam com tal
poder que uma grande multidão, composta de judeus e gregos, creu no Senhor
(Atos 14.1).
Os missionários não pregaram apenas aos ouvidos, mas também aos olhos. Não
apenas falaram, mas também demonstraram. Somos informados de que eles falavam
com ousadia no Senhor, o qual confirmava a palavra da sua graça,
concedendo que por mãos deles se fizessem sinais e prodígios (Atos 14.3).
Os milagres não são o evangelho, mas abrem portas para o evangelho. Os milagres
não são realizados pelos missionários, mas por DEUS, pela intermediação dos
missionários. A pregação do evangelho precisa ser em demonstração do
ESPÍRITO e de poder. Precisamos pregar não apenas aos ouvidos, mas também
aos olhos.
Uma orquestração contra os obreiros de DEUS
Se em Antioquia da Pisídia os judeus lideraram a perseguição contra Paulo (Atos
13.50), em Icônio os judeus incrédulos incitaram o ânimo dos gentios contra
Paulo e Barnabé, bem como contra os novos convertidos (Atos 14.2). A sanha
dos adversários foi tão virulenta que o povo da cidade se dividiu, uns se
posicionando a favor dos judeus, e outros se colocando ao lado dos apóstolos
(Atos 14.4). Vendo os adversários que a cidade estava dividida, usaram a arma
do tumulto, e assim, judeus e gentios, associando-se com as autoridades,
planejaram ultrajar e apedrejar Paulo e Barnabé (Atos 14.5,6).
Confiança em DEUS não dispensa prudência
Ao saber da trama armada contra eles, Paulo e Barnabé fogem para Listra e
Derbe, onde anunciam o evangelho (Atos 14.6,7). Eles não ignoraram os perigos.
Não desafiaram a fúria e a astúcia dos adversários. Não nutriram uma
confiança irresponsável, ignorando os perigos. Não enfrentaram de peito
aberto as ameaças. Antes, fugiram para outras cidades. Eles prosseguiram
fiéis ao mesmo ideal e labutaram na mesma obra. Continuaram pregando o
evangelho, mas mudaram de rota. Isso é prudência!
Confiança em DEUS não dispensa prudência e cuidado. DEUS age por meio do bom
senso. O contrário seria tentar DEUS. O Senhor nos deu entendimento e sabedoria
para serem usados. Esses recursos são dádivas de DEUS e devem ser usados
em favor da obra, e não contra ela. Se Paulo e Silas tivessem teimado em
permanecer naquelas plagas, poderiam ter sido silenciados precocemente, e
a obra de DEUS teria sofrido severas consequências.
Quando o céu se manifesta, o inferno se enfurece
Quando Paulo e Barnabé chegaram a Listra, um milagre logo aconteceu. Um homem
aleijado, paralítico desde o nascimento, que jamais pudera andar, ao ouvir a
mensagem de Paulo, tendo fé, foi curado imediatamente. O homem cujos ossos
e músculos deviam estar atrofiados começa a saltar e a andar (Atos
14.8-10). A falta de discernimento espiritual dos licaônios os levou a pensar
que Paulo e Silas fossem deuses; e, imediatamente, começaram a gritar e
sacrificar animais a eles (Atos 14.1113). Os embaixadores de DEUS então
rasgaram suas roupas e saltaram no meio da multidão idólatra, fazendo
cessar tais sacrifícios. Asseveraram que eram homens semelhantes a eles. Em vez
de aceitarem a exaltação pagã, Paulo e Silas aproveitam o ensejo para lhes
anunciar o evangelho, exortando-os a abandonar suas crenças vãs e
colocarem sua confiança no DEUS criador do céu, da terra e do mar, o DEUS
da providência (Atos 14.14-18).
Se o milagre do paralítico foi obra do céu, o alvoroço idólatra foi ação do
inferno. Onde DEUS realiza um prodígio, o diabo causa um tumulto. Onde o poder
de DEUS se manifesta, a fúria do inferno se faz sentir. Aquela bajulação
pagã era uma tentativa de desviar o foco da multidão de Listra, da mensagem
do evangelho, para os obreiros do evangelho. Sempre que o vaso chama
mais atenção do que o tesouro nele contido, algo está errado. Os obreiros
que gostam da bajulação da multidão roubam a glória que pertence somente a
DEUS.
Os milagres abrem portas para o evangelho e também atraem perseguição
A cura do paralítico em Listra abriu portas para o testemunho do evangelho
naquela cidade pagã, mas também despertou ferrenha oposição dos judeus de
Antioquia e Icônio. Eles, não se contentando apenas em expulsar Paulo e
Barnabé de suas cidades, perseguiram-nos até Listra. Tomados de inveja e
zelo sem entendimento, instigaram a multidão e se arremeteram contra
Paulo, para apedrejá-lo. O mesmo milagre que abriu portas ao testemunho do
evangelho trouxe ao apóstolo o duro golpe do apedrejamento. Os sofrimentos
de ordem emocional agora se transformam em agonias físicas. Talvez, Paulo
sentisse no corpo o que infligiu a Estêvão, o protomártir do cristianismo.
Talvez começasse a sentir na pele o que DEUS dissera em Damasco havia mais
de dez anos: “pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome”
(Atos 9.16). Por providência divina, Paulo se recupera das feridas e,
longe de reclamar ou queixar-se de DEUS, partiu com Silas para Derbe, onde
anunciou o evangelho e fez muitos discípulos (Atos 14.19-21).
Coragem e zelo pela igreja
Depois que Paulo e Barnabé anunciaram o evangelho em Derbe, tomaram a decisão
de voltar para o seu quartel-general, em Antioquia da Síria. Nessa volta, não
se afastam dos redutos de tensão. Ao contrário, passam pelas mesmas
cidades onde foram perseguidos, Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia, e
fazem isso por quatro razões:
Em primeiro lugar, para fortalecer a alma dos discípulos (Atos 14.22). Paulo e
Barnabé não eram apenas missionários itinerantes, mas também pastores do
rebanho. Eles não apenas geravam filhos espirituais, mas também cuidavam
desses neófitos. Sabiam que aqueles novos convertidos precisavam de encorajamento
para viver a vida cristã numa sociedade pagã e hostil.
Em segundo lugar, exortar os discípulos a permanecerem firmes na fé (Atos
14.22). Se os novos convertidos não forem ensinados e exortados, facilmente
podem ser enganados pelos falsos mestres ou desanimarem diante das
provações. Paulo tinha plena consciência da imperiosa necessidade
do discipulado. Diante das lutas, perseguições e ataques do adversário,
precisamos ser exortados a permanecer firmes na fé. Muitos se enfraquecem
ao lidar com a fúria do mundo ou com sua sedução.
Em terceiro lugar, mostrar que a vida cristã não é uma colônia de férias (Atos
14.22). A vida cristã não é ausência de luta. Somos salvos não da tribulação,
mas na tribulação. Importanos entrar no reino de DEUS por meio de muitas
tribulações. Não há amenidades no cristianismo. Ele não é uma redoma de
vidro. Estamos expostos à fraqueza da nossa natureza decaída, a este mundo
tenebroso e à fúria de Satanás. As tribulações não nos podem destruir nem
nos afastar do amor de DEUS. Elas não são castigo de DEUS, mas
instrumentos para o nosso aperfeiçoamento.
Em quarto lugar, fazer a eleição de presbíteros nas igrejas (Atos 14.23). Paulo
entendia que a igreja é um organismo e também uma organização. Toda comunidade
precisa de uma liderança. Essa liderança é coletiva. Paulo promovia a
eleição de presbíteros em cada igreja, e não a nomeação de um chefe. Esses
presbíteros deveriam pastorear o rebanho de DEUS. Eles eram pastores que
deviam ensinar a verdade e proteger o rebanho dos lobos vorazes. Essa
eleição não devia ser feita sem oração e jejum. Os líderes da igreja devem
ser escolhidos na total dependência de DEUS. É DEUS quem dá pastores à
igreja. É o ESPÍRITO quem constitui bispos para apascentar a igreja de DEUS,
que ele comprou com o seu próprio sangue.
Conta as muitas bênçãos, dize quantas são1
É hora de voltar para casa. É hora de recarregar as baterias. É hora de
testemunhar os grandes feitos de DEUS na obra missionária. Paulo e Barnabé
voltam para Antioquia da Síria, a igreja que os comissionara e enviara à
obra missionária (Atos 14.24-26). Esses bravos missionários fizeram
três coisas importantes ao chegar à igreja:
Em primeiro lugar, eles relataram as intervenções extraordinárias de DEUS em
sua vida (Atos 14.27). O testemunho é algo legítimo e necessário para encorajar
a igreja. A igreja estava reunida para ouvir as notícias desse primeiro
avanço missionário. Paulo e Barnabé relatam cuidadosamente não o
que fizeram por DEUS, mas o que DEUS fizera com eles e por eles. Não
testemunharam para exaltar a si mesmos. Não testemunharam para se colocar
sob os holofotes nem buscaram glórias para eles mesmos. A ênfase deles
está nos feitos de DEUS, e não nas suas realizações.
Em segundo lugar, eles relataram como DEUS abriu aos gentios a porta da fé
(Atos 14.27). O sucesso da obra missionária não foi devido ao poder inerente
dos missionários nem de seus métodos. Foi DEUS quem abriu aos gentios a
porta do evangelho. Foi DEUS quem abriu o coração dos pagãos para
a verdade. Foi DEUS quem invadiu as trevas do paganismo com a luz da
verdade. A obra de DEUS é feita por DEUS, mas mediante instrumentos
humanos. É DEUS quem opera nos evangelistas e também naqueles que recebem
o evangelho.
Em terceiro lugar, eles permaneceram muito tempo com os discípulos (Atos
14.28). Não há trabalho missionário desconectado da igreja local. Não há
ministério itinerante sem a ligação com a igreja. Paulo e Barnabé precisam
da igreja, e a igreja precisa dos missionários. Eles se abastecem
na comunhão da igreja e também encorajam a igreja a ser ainda mais
comprometida com a obra missionária.
Capítulo 06 - Uma agenda estabelecida no céu
Depois do concílio de Jerusalém, onde as estacas da liberdade cristã foram
fincadas e o jugo do judaísmo foi sacudido, era hora de alçar voos para uma
nova jornada missionária. As querelas religiosas levantadas pelos judaizantes,
vindos da Judeia, impondo aos gentios a necessidade da circuncisão para a
salvação, haviam sido respondidas com firmeza pelos apóstolos e presbíteros. A
fé em CRISTO é a única condição para a salvação. A mensagem que devia ser
anunciada aos gentios é que a graça de CRISTO é absolutamente suficiente
para a salvação.
Lançadas as estacas da verdade, é hora de estender o toldo da obra missionária.
A agenda missionária deveria contemplar os confins da terra. Novos horizontes
precisavam ser alcançados.
A iniciativa da segunda viagem missionária é de Paulo (Atos 15.36). Seu zelo
pastoral o constrange a voltar à mesma região da primeira viagem antes de
alargar a tenda para outros rincões (Atos 15.36). A lição fica clara: os
neófitos precisam ser confirmados, confortados e acompanhados. Paulo tem
o cuidado de evangelizá-los no seu primeiro contato, depois os visita
novamente no retorno de sua viagem rumo a Antioquia da Síria e agora,
antes de iniciar a segunda viagem missionária, toma a decisão de
visitá-los uma terceira vez.
Uma desavença entre os missionários
A obra de DEUS é perfeita; mas os seus obreiros, não. Barnabé quer dar uma
segunda chance ao jovem João Marcos, seu primo, que havia abandonado a primeira
viagem missionária; e, Paulo, de forma intransigente e radical, não achou
justo levá-lo depois de uma experiência fracassada. Barnabé, coerente com
seu nome, cujo significado é “filho da consolação” prefere indispor-se
com Paulo a desistir de João Marcos. Houve tal desavença entre Paulo e
Barnabé que não puderam caminhar juntos na segunda viagem missionária.
A providência de DEUS é maior do que nossos fracassos, e a graça de DEUS, maior
que os nossos pecados. Por causa dessa desavença, em vez de uma caravana
missionária, temos duas. Os obreiros podem errar, mas os propósitos de
DEUS jamais podem ser frustrados. Barnabé e João Marcos avançam na direção
de Chipre (Atos 15.39), e Paulo escolhe Silas. Encomendados pelos irmãos
da Síria à graça do Senhor, passam pela Síria e Cilícia, confirmando as
igrejas.
Mais um missionário se junta à equipe de Paulo
Quando Paulo retornou a Derbe e Listra, Timóteo, filho de pai grego e mãe judia
(Atos 16.1), ensinado nas Escrituras desde a infância por sua mãe Eunice e sua
avó Loide (2Tm 1.5; 3.14,15), mas convertido a CRISTO pelo ministério de
Paulo (1Tm 1.2), agrega-se à caravana missionária. Timóteo vem a se tornar
um dos maiores colaboradores de Paulo no ministério. Timóteo recebeu
o leite da piedade desde sua infância. Cresceu sob a égide da Palavra de
DEUS. Por meio de seu contato com o apóstolo Paulo, em sua primeira viagem
missionária, demonstrou um crescimento notável, uma vez que, tendo se
convertido, logo demonstrou maturidade espiritual, pois dele davam bom
testemunho tanto os irmãos de Listra como os de Icônio (Atos 16.2). Seu caráter
provado era uma hipoteca moral de seu trabalho. Quando Paulo escreveu aos
filipenses, disse que não tinha ninguém igual a Timóteo para enviar-lhes.
Olhando pelas lentes dessa carta paulina, destacaremos alguns atributos
desse jovem missionário:
Timóteo, um homem cooperador (Fp 2.19,23). Timóteo era filho na fé do apóstolo
Paulo (1Tm 1.2), cooperador de Paulo (Rm 16.21) e mensageiro de Paulo às
igrejas (1Ts 3.6; 1Co 4.17; 16.10,11; Fp 2.19). Ele esteve preso com Paulo
em Roma (Fp 1.1; Hb 13.23). Cuidava dos interesses de CRISTO (Fp 2.21) e
da igreja de CRISTO (Fp 2.20).
Timóteo, um homem singular (Fp 2.20a). Havia muitos cooperadores de Paulo, mas
Timóteo ocupava um lugar especial no coração do velho apóstolo. Ele era um
homem singular pela sua obediência e submissão a CRISTO e ao apóstolo como
um filho a um pai. Ele tinha o mesmo sentimento de Paulo, ou seja, era do
mesmo estofo. A palavra grega que Paulo usa para “igual sentimento” só
aparece aqui em todo o Novo Testamento. É a palavra grega isopsychos, que
significa “da mesma alma”. Esse termo foi usado no Antigo Testamento como
“meu igual” e “meu íntimo amigo” (Sl 55.13, LXX).
Timóteo, um homem que cuida dos interesses dos outros (Fp 2.20b). Timóteo
aprendeu o princípio ensinado por Paulo de buscar os interesses dos outros (Fp
2.4). Esse mesmo princípio foi exemplificado por CRISTO (Fp 2.5) e pelo
próprio apóstolo Paulo (Fp 2.17). Timóteo, de igual modo, vive de forma
altruísta, pois o centro da sua atenção não está em si mesmo, mas na igreja de
DEUS. Ele não busca riqueza nem promoção pessoal. Não está no ministério
em busca de vantagens; ele tem um alvo: cuidar dos interesses da igreja.
Timóteo, um homem que cuida dos interesses de CRISTO (Fp 2.21). Só existem dois
estilos de vida: aqueles que vivem para si mesmos (Fp 2.21) e aqueles que vivem
para CRISTO (Fp 1.21). Estamos em Filipenses 1.21 ou então estaremos em
Filipenses 2.21. Timóteo queria cuidar dos interesses de CRISTO, e não dos
seus próprios. Sua vida estava centrada em CRISTO (Fp 2.21) e nos irmãos
(Fp 2.20b), e não no seu próprio eu (Fp 2.21).
Timóteo, um homem de caráter provado (Fp 2.22). Timóteo tinha bom testemunho
antes de ser missionário (Atos 16.1,2) e, agora, quando Paulo está para lhe
passar o bastão, como continuador da sua obra, este dá testemunho de que
ele continua tendo um caráter provado (Fp 2.22). É lamentável que muitos
líderes religiosos que são grandes em fama e riqueza sejam anões em caráter.
Vivemos uma crise de integridade avassaladora no meio evangélico
brasileiro. Precisamos urgentemente de homens íntegros, provados, que
sejam modelo do rebanho.
Timóteo, um homem disposto a servir (Fp 2.22b). É digno de nota que Timóteo
serviu ao evangelho. Ele serviu com Paulo, e não a Paulo. Embora a relação
entre Paulo e Timóteo fosse de pai e filho, ambos estavam engajados no
mesmo projeto.
A agenda missionária é traçada no céu, e não na terra
A equipe missionária estava planejando avançar em direção à Asia, mas o
ESPÍRITO de JESUS não o permitiu (Atos 16.6,7). Durante a noite, Paulo teve uma
visão, na qual um varão macedônio lhe rogava ajuda. Discernindo ser essa a
vontade de DEUS, imediatamente Paulo e os demais membros da caravana partiram
para aquele destino (Atos 16.8-10). DEUS não apenas chama e envia os
missionários, mas norteia-lhes os passos. A agenda da obra missionária deve ser
estabelecida no céu, e não na terra. O campo é o mundo, mas as prioridades do
campo são estabelecidas por DEUS.
Devemos seguir a direção de DEUS, e não a nossa. Nossos planos devem estar
subalternos aos planos de DEUS. A vontade dele deve prevalecer sobre a nossa.
Essa mudança de rumo na obra missionária tem um reflexo profundo na história da
humanidade. DEUS deslocou o eixo do cristianismo do Oriente para o Ocidente, da
Asia para a Europa. Os resultados dessa guinada na direção missionária são a razão
principal de o Ocidente ser o berço evangélico do mundo. Se Paulo tivesse
entrado na Ásia, e não na Europa, nessa viagem, possivelmente o Oriente, e não
o Ocidente, teria sido o reduto mais evangelizado do mundo. Talvez, hoje,
o Ocidente estivesse mergulhado nas densas trevas do paganismo. Devemos
tributar a DEUS nossa gratidão por nos enviar o evangelho desde essas
priscas eras.
DEUS aponta o rumo, e o homem escolhe os melhores métodos
DEUS apontou o rumo da ação missionária, impedindo Paulo de entrar na Ásia e
direcionando seus passos para a Europa. Mas Paulo, ao entrar na Macedônia,
escolheu a cidade mais estratégica para pregar o evangelho. Não podemos
mudar o evangelho nem engessar os métodos. A mensagem precisa ser fiel,
mas também relevante. Paulo era um obreiro estratégico. Ele tinha
o cuidado de usar os obreiros, o tempo e os recursos de forma racional. Em
virtude da exiguidade do tempo, dava preferência às cidades estratégicas,
de onde o evangelho pudesse alcançar com mais rapidez outras regiões. Por
essa razão, passou batido em algumas cidades e fixou-se em outras.
Se DEUS nos dá a mensagem e a direção, devemos escolher os melhores métodos e
as estratégias mais sábias. Precisamos otimizar tanto os recursos de DEUS como
os obreiros de DEUS. Precisamos escolher os melhores métodos para
atingirmos os melhores fins.
Filipos, a porta de entrada da Europa
Por que Paulo passou batido por Samotrácia e Neápolis e fixou-se em Filipos?
Porque essa era uma colônia romana. Essa cidade ficava no entroncamento entre o
Oriente e o Ocidente. Filipos era estratégica tanto histórica como
geograficamente. Uma colônia romana era uma espécie de Roma em miniatura.
Seus cidadãos viviam sob os auspícios da capital do império. Ali se falava
a língua de Roma. Ali se cultivavam os costumes de Roma. Ali imperavam as
leis de Roma.
Paulo entendeu que, se o evangelho alcançasse Filipos, dali se espalharia tanto
para o Ocidente como para o Oriente. Aquela cidade se tornaria uma ponte para
estender para horizontes mais longínquos as boas-novas do evangelho.
O sucesso da evangelização em Filipos não foi sem dor. O evangelho agiu
livremente, mas os obreiros foram açoitados e presos. O sucesso da obra passou
pelo sofrimento dos obreiros.
A igreja de Filipos tornou-se um exemplo vivo da eficácia e universalidade do
evangelho. Três pessoas de diferentes classes sociais são alcançadas pelo
evangelho. A primeira delas foi Lídia, uma empresária, vendedora de
púrpura, oriunda de Tiatira, cidade da Asia Menor. A segunda pessoa
foi uma escrava, uma jovem sem quaisquer direitos sociais. A terceira
pessoa foi o carcereiro, um servidor público, da classe média.
Essas três pessoas representavam também diferentes convicções religiosas. Se
Lídia era uma mulher temente a DEUS, que frequentava uma reunião de oração, a
jovem vivia sob o cativeiro do diabo e de seus senhores, enquanto o
carcereiro tinha como deus o próprio imperador romano, a quem servia como
guardador de presos.
Essas três pessoas ainda tiveram experiências legítimas, porém muito distintas.
Lídia foi convertida num ambiente espiritual, numa reunião de oração, quando
ouvia a exposição da Palavra de DEUS. Ali mesmo, DEUS abriu seu coração, e
ela creu. A jovem escrava foi liberta num ambiente profundamente
carregado, quando estava tomada por espíritos enganadores. O carcereiro, por
sua vez, foi salvo nas ruínas de uma prisão abalada por um terremoto e à
beira do suicídio.
Quando os homens pensam que estão no controle e se interpõem no caminho de DEUS
para impedir sua obra, DEUS reverte as circunstâncias e revela sua soberania.
Paulo e Silas foram açoitados e lançados na prisão numa tentativa de
silenciá-los e impedir naquela cidade o avanço do evangelho, mas os
obreiros não se calaram. O evangelho não ficou amordaçado. O mesmo
DEUS que abriu o coração de Lídia, numa reunião de oração, também abriu as
portas da cadeia por meio de um terremoto e quebrou todas as resistências
do coração do carcereiro.
Lídia foi batizada com toda a sua casa. O carcereiro também foi batizado com
toda a sua família. Os obreiros foram embora da cidade, mas no coração daquela
colônia romana foi fincada a bandeira tremulante do evangelho. Aquela
igreja haveria de se tornar uma das maiores parceiras no ministério de
Paulo. Enviaria recursos para o apóstolo em Tessalônica, Corinto e Roma, além
de socorrer os pobres da Judeia.
Paulo em Tessalônica, a capital da província da Macedônia
O grande bandeirante do cristianismo saiu de Filipos com vergões no corpo, mas
com entusiasmo na alma. Longe de retroceder diante dos perigos, marchou
resoluto para alcançar a capital da província da Macedônia. Nesse
propósito, passou por Anfípolis e Apolônia e chegou a Tessalônica (Atos
17.1).
Na capital da província, Paulo buscou uma ponte de conexão para a pregação do
evangelho. Por isso, durante três sábados seguidos, foi a uma sinagoga de
judeus, onde arrazoou com eles sobre as Escrituras. O propósito do
apóstolo não era falar sobre prosperidade, curas ou milagres, mas expor
e demonstrar a necessidade da morte e ressurreição de CRISTO. Paulo era um
pregador cristocêntrico. Ele não era um mestre de banalidades. Sua
mensagem tocava o âmago da questão. O CRISTO deveria padecer e depois
ressurgir dentre os mortos. Paulo não anunciava um JESUS apenas de milagres,
mas o JESUS da cruz e do túmulo vazio.
Essa mensagem trouxe uma verdadeira revolução em Tessalônica (Atos 17.4).
Alguns judeus, uma multidão de gregos e diversas senhoras da alta sociedade se
uniram a Paulo. A oposição foi imediata. Movidos pela inveja, os líderes
judeus reuniram alguns agitadores e alvoroçaram a população contra os
missionários. Jasom, hospedeiro de Paulo e Silas, foi preso e levado
às autoridades. Somente depois de pagar fiança, conseguiu se livrar de
suas mãos. Os judeus invejosos formularam uma acusação contra Paulo e
Silas: “... Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui” (Atos
17.6). Afirmaram ainda que tanto os missionários como o próprio Jasom
estavam agindo contra os decretos de César (Atos 17.7). Essa afirmação
provocou apreensão na cidade, uma vez que Tessalônica perderia seus
privilégios de capital da província caso houvesse ali qualquer insurreição
ou oposição ao imperador romano (Atos 17.8). Paulo e Silas não puderam
permanecer em Tessalônica, mas a Palavra de DEUS continuou lá operando
maravilhas nos tessalonicenses e por meio deles (1Ts 1.5-10). A obra de
DEUS é maior do que seus obreiros. Os obreiros podem ser expulsos, mas a
Palavra de DEUS não pode ser banida. Os missionários podem ser presos, mas
a Palavra não pode ser algemada. Os pregadores podem ser perseguidos,
enxotados e mortos, mas a Palavra não pode ser detida.
Paulo em Bereia
Confiança em DEUS e prudência não são coisas antagônicas. Diante do alvoroço em
Tessalônica, Paulo e Silas foram retirados da cidade à noite, sem alarde, com
absoluta discrição (Atos 17.10). Levados para Bereia, não se intimidaram
nem mudaram sua agenda. Procuraram imediatamente uma sinagoga para
ensinarem a Palavra de DEUS. Os bereanos demonstraram ser mais nobres
que os tessalonicenses, pois não apenas ouviram, mas também evidenciaram
um vívido interesse, dedicando-se ao estudo diário das Escrituras e
conferindo na Palavra tudo que Paulo dizia (Atos 17.11). O resultado foi
extraordinário. Novamente uma multidão creu e engrossou as fileiras
da igreja nascente (Atos 17.12).
O sucesso da obra de DEUS incomodou novamente os adversários. Os judeus
invejosos, ao saberem dos resultados extraordinários da pregação de Paulo em
Bereia, rumaram para lá a fim de causar alvoroço e instigar a população
(Atos 17.13). Os irmãos bereanos, sem tardança, tiraram Paulo da cidade e
o enviaram ao litoral, enquanto Silas e Timóteo continuaram na cidade
consolidando o trabalho (Atos 17.14,15).
Paulo em Atenas
Paulo chega a Atenas, a capital intelectual do mundo, a cidade de Péricles,
Sócrates, Platão e Aristóteles. O veterano apóstolo pisa na terra dos grandes
corifeus da filosofia, dos homens que encheram bibliotecas com sua
erudição.
Atenas era o berço da filosofia e das artes. Ao mesmo tempo, ali ficava o
Partenon, templo de muitos deuses. Atenas estava eivada de deuses. Havia mais
de 30 mil estátuas dedicadas aos deuses naquela meca da filosofia. Havia
uma divindade para cada monumento e pórtico daquela cidade. Era mais fácil
encontrar um deus em Atenas do que um homem. Ao chegar à cidade, Paulo
ficou revoltado com a idolatria reinante. O mesmo povo bafejado pelo mais
refinado conhecimento filosófico estava também entregue à mais tosca
idolatria. Cultura não é sinônimo de discernimento espiritual. O povo
tinha a luz do conhecimento, mas estava cego espiritualmente. Tinha muitos deuses,
mas não conhecia o DEUS verdadeiro.
Paulo percorreu e agitou a cidade. Diagnosticou suas mazelas espirituais.
Conversou com o povo na praça e discutiu com os filósofos epicureus e estoicos.
Sua presença em Atenas tornou-se notória. O povo não falava de outra coisa
senão das últimas novidades que Paulo pregava. Arrastado ao Areópago, para
dar explicações de sua pregação, o veterano apóstolo fez um dos
mais extraordinários discursos da história, falando para os atenienses
acerca do DEUS desconhecido.
Destacamos quatro coisas importantes nessa passagem de Paulo em Atenas:
Em primeiro lugar, o que ele viu em Atenas (Atos 17.16). Paulo não chegou a
Atenas como um turista, admirado da beleza de seus monumentos. Ele não ficou
entusiasmado com seus templos nem com a multiplicidade de suas imagens.
Paulo olhou para toda aquela arte esculpida no mármore ou adornada pelo
marfim como uma manifestação de idolatria. Os muitos deuses do panteão
ateniense eram uma afronta ao DEUS verdadeiro. A religiosidade dos atenienses
bafejados de cultura não passava de tosca ignorância espiritual.
Em segundo lugar, o que ele sentiu em Atenas. Paulo não apenas viu a idolatria,
mas também ficou indignado. Seu espírito se revoltou diante da idolatria. A
idolatria de Atenas era uma afronta ao DEUS vivo. Era uma violação do
segundo mandamento da lei de DEUS. Era uma perversão do verdadeiro culto.
A revolta de Paulo estava no fato de ver o nome de DEUS sendo escarnecido
no meio de uma religiosidade profusa, mas sem discernimento.
Em terceiro lugar, o que Paulo fez (Atos 17.17). Paulo não apenas viu e se
indignou; ele aproveitou seu tempo em Atenas para ensinar, pregar e arrazoar
com os atenienses acerca do evangelho. Paulo pregou JESUS e a
ressurreição. Paulo foi proativo. Não apenas fez o diagnóstico certo, mas deu
o remédio correto. Não apenas constatou o problema, mas também apontou a
solução.
Em quarto lugar, o método que Paulo usou. Paulo ficou revoltado com a idolatria
da cidade, mas dirigiu-se aos atenienses com cortesia. Disse-lhes que eles eram
acentuadamente religiosos. Chegou até mesmo a citar o filósofo Aratos,
criando uma ponte cultural para levar-lhes o evangelho. Paulo não ficou
preso a questões periféricas; ao contrário, falou aos atenienses acerca da
pessoa de DEUS.
Paulo ergue sua voz para falar sobre o DEUS criador do universo na capital
intelectual do mundo. O mundo não veio de uma geração espontânea nem de uma
explosão cósmica. O mundo não deu a luz a si mesmo. Ele não é produto do
acaso nem de uma evolução de milhões e milhões de anos. DEUS criou todas
as coisas pela Palavra de seu poder. Paulo também apresenta aos atenienses
o DEUS da providência. Nele, nós vivemos, nos movemos e existimos. Ele é
quem enche a terra de fartura, alimenta as aves dos céus, veste os lírios
do campo e nos dá o pão de cada dia. O DEUS desconhecido dos atenienses é
o governador das nações. Ele está assentado num alto e sublime trono. Ele
reina. Ele levanta reis e depõe reis. Não há um centímetro desse vasto universo
do qual ele não seja Senhor. O DEUS desconhecido dos atenienses é o DEUS
salvador, que se fez carne e entrou no mundo para morrer e ressuscitar. Os
atenienses não conhecem DEUS como o Senhor absoluto do universo, diante de
quem todo joelho deve se dobrar. O DEUS desconhecido dos atenienses exige
arrependimento de todos os homens, uma vez que os julgará com justiça.
Ao terminar sua prédica, seu auditório se dividiu em três grupos: uns
escarneceram, outros disseram que o ouviriam em outra ocasião e alguns creram.
Embora não haja registro de multidões se convertendo como aconteceu em
Tessalônica e Bereia, a bandeira do evangelho foi fincada no topo da
montanha do mais tosco paganismo.
Paulo em Corinto
De Atenas, Paulo foi para a cidade de Corinto, a capital da província da Acaia.
Essa era uma cidade estrategicamente importante, uma vez que em suas cercanias
ficava o porto de Cencreia. Corinto era banhada pelo mar Jônico e também
pelo mar Egeu. Era uma cidade cosmopolita. Caravanas do mundo inteiro
passavam pela cidade. Navios procedentes de diversas partes do mundo
ancoravam todos os dias naquela febricitante cidade. Os Jogos Ístmicos de
Corinto só perdiam em importância para os Jogos Olímpicos de Atenas. A
cidade tinha uma economia forte, uma atividade esportiva invejável e
também uma intensa agenda religiosa. Ali ficava o templo de Afrodite, a
deusa do amor. Na acrópole da cidade, estava o templo dessa deusa, onde mais de
mil prostitutas cultuais exerciam sua atividade religiosa, promovendo a
mais aviltante promiscuidade sexual do mundo de então. Essas mesmas prostitutas
desciam à noite para o cais, e a cidade se tornava o palco da mais
deslavada imoralidade. O homossexualismo era uma prática comum e
até incentivada em Corinto.
Paulo chega a essa cidade e ali permanece dezoito meses, ensinando a Palavra e
pregando na virtude do ESPÍRITO SANTO (1Co 2.4). Em Corinto, Paulo planta uma
igreja vibrante, mas também uma igreja que vai trazer muitas lágrimas ao
apóstolo. Nenhuma igreja recebeu mais do apóstolo quanto Corinto, mas
também nenhuma o fez sofrer tanto quanto ela.
Em Corinto, Paulo foi perseguido. Foi chamado de impostor. A igreja não pagou
seu salário. Ele precisou trabalhar, fazendo tendas, e receber ajuda das
igrejas pobres da Macedônia para pastorear essa igreja.
De Corinto, Paulo escreveu as cartas aos Gálatas, aos Tessalonicenses e aos
Romanos. Nessa cidade, ele enfrentou as maiores pressões. Muitas pessoas da
igreja duvidaram das suas motivações, questionaram seu caráter, atacaram
sua honra e macularam seu nome.
A igreja de Corinto, embora fosse um canteiro fértil, onde floresciam todos os
dons espirituais, era desprovida de maturidade. A igreja estava dividida em
vários grupos e partidos. Havia imoralidade tal dentro da igreja que nem
mesmo no mundo se via coisa semelhante. Os crentes, em vez de
disciplinarem o faltoso e chorar por causa de sua prática ensandecida,
aplaudiam seu pecado. Havia brigas e contendas entre os crentes, e, em vez
de esses conflitos serem resolvidos domesticamente, eram levados aos
tribunais seculares, produzindo enfraquecimento do testemunho da igreja na
sociedade. A igreja de Corinto revelava a fragilidade dos relacionamentos
familiares e não sabia administrar com sabedoria a liberdade cristã. A
igreja havia feito alguns avanços espirituais, mas ainda estava tímida no
progresso da generosidade. Era uma igreja remissa quanto à prática da
comunhão interna e do amor externo. Tinha um coração trancado para amar e o
bolso fechado para contribuir. Se não bastasse tudo isso, a igreja ainda
cometia muitos desvios na sua maneira de cultuar DEUS. Havia deficiências
na sua teologia, bem como na sua liturgia.
Os filhos que mais fizeram o apóstolo sofrer foram os mais amados. Paulo muitas
vezes regou o solo duro com suas lágrimas. Mas suas lágrimas não foram em vão.
Em Corinto, Paulo deixou uma igreja que irradiou sua influência para
muitos outros recantos do Império Romano. Como a cidade era um corredor do
mundo, dali o evangelho se espalhou por vários rincões tanto da Acaia
quanto de horizontes mais distantes.
De Corinto, Paulo passou em Éfeso, deixando na capital da Asia Menor, Priscila
e Aquila. Dali, foi a Jerusalém, retornou à sua base em Antioquia da Síria e,
oportunamente, partiu dessa cidade para a sua terceira viagem missionária,
atravessando os territórios da Galácia e da Frígia, confirmando todos os
discípulos (Atos 18.18-23).
Paulo em Éfeso
Em sua terceira viagem missionária, Paulo fixou-se em Éfeso, capital da Ásia
Menor. Essa era uma das maiores cidades do mundo. Ali ficava o templo de Diana,
uma das sete maravilhas do mundo antigo. Era uma cidade idólatra, um
centro de magia, um canteiro fértil para a evangelização.
Nessa cidade, Paulo passou três anos, ensinando tanto a judeus como a gregos,
pregando tanto acerca do arrependimento como da fé. Paulo tanto evangelizava
como ensinava. Ele era um evangelista e um mestre. Em Éfeso, Paulo
enfrentou feras, tribulações maiores que suas forças. Em Éfeso, o
evangelho desbancou a idolatria. Em Éfeso, vários sinais de um poderoso
avivamento podem ser constatados.
Em primeiro lugar, os novos convertidos recebem um derramamento do ESPÍRITO
(Atos 19.1-7). Aqueles que haviam recebido apenas o batismo de João, ao ouvirem
sobre o ESPÍRITO SANTO, foram batizados em nome de JESUS, receberam o
ESPÍRITO SANTO e tanto profetizaram como falaram em línguas. A mesma
experiência que já havia acontecido em Jerusalém e Samaria agora acontecia
também em Éfeso. Era a dispensação da graça estendendo seus horizontes
para um campo totalmente gentílico. Jerusalém era a cidade dos judeus. Samaria
era uma cidade mista, em território palestino. Éfeso, por sua vez, era uma
cidade cosmopolita, essencialmente gentílica. O evangelho de CRISTO é
multirracial, multicultural e internacional.
Em segundo lugar, os que vivem distantes ouvem a Palavra de DEUS (Atos
19.8-10). A partir de Éfeso, o evangelho espalhou-se por toda a Asia Menor. Em
face da perseguição, Paulo deixou a sinagoga e foi para uma escola, e, dali, o
evangelho penetrou pelos corredores da Asia Menor, a tal ponto que todos os
seus habitantes, tanto judeus como gregos, ouviram a Palavra de DEUS.
Um avivamento que não transpira para fora dos portões não é genuíno.
Quando a igreja é impactada com o poder do ESPÍRITO SANTO, ela sai das
quatro paredes e, como fermento, penetra em todos os setores da sociedade.
Em terceiro lugar, os enfermos são curados (Atos 19.11,12). O evangelho em
Éfeso chegou não apenas em palavras, mas, sobretudo, em poder. Paulo pregou
tanto aos ouvidos quanto aos olhos. Não apenas as pessoas foram perdoadas
e salvas, mas também curadas e libertas. É importante ressaltar que a
fonte do poder para curar não estava em Paulo. O milagre não era feito pelo
poder inerente de Paulo. Não era o apóstolo o agente do poder. O
evangelista Lucas diz que DEUS, pelas mãos de Paulo, fazia milagres
extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu
uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam, e os espíritos malignos
se retiravam (Atos 19.11,12).
Em quarto lugar, os cativos são libertos (Atos 19.13-17). Paulo era um homem
conhecido tanto no céu como no inferno (Atos 19.15). Até os demônios sabiam
quem era ele. Os falsos exorcistas, filhos de Ceva, foram expostos à
vergonha pública ao tentarem libertar um homem endemoninhado, esconjurando
os demônios por JESUS, a quem Paulo pregava. Esses homens foram subjugados
pelos demônios, e não lhes restou outra opção senão fugir, nus e feridos.
Esse fato produziu grande temor sobre todos os efésios, e o nome de JESUS
era mais e mais engrandecido.
Em quinto lugar, os crentes confessavam e denunciavam publicamente suas obras
(Atos 19.18). Onde há avivamento, há confissão de pecados. Onde o pecado é
encoberto, as chuvas do céu são retidas. Onde o pecado é escondido, o
derramamento do ESPÍRITO não é revelado. Aqueles que creem verdadeiramente
em CRISTO são os que confessam publicamente suas obras más e as abandonam.
Os efésios convertidos a CRISTO não se ocuparam de denunciar os pecados
dos outros; eles denunciavam suas próprias obras, e isso de forma pública.
Em sexto lugar, os laços com o ocultismo foram decisivamente rompidos (Atos
19.19). Muitos dos efésios convertidos a CRISTO vieram dos redutos do
ocultismo, tão abundantes em Éfeso. Eles não apenas denunciaram suas obras
más, mas também queimaram em praça pública seus livros de artes mágicas.
Não há compatibilidade entre a fé cristã e o ocultismo. Não há ligação entre
CRISTO e os demônios. Não há sintonia entre o santuário de DEUS e os
ídolos. Não há comunhão entre a luz e as trevas.
Em sétimo lugar, a Palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente (Atos
19.20). O crescimento da igreja e o crescimento da Palavra são coisas
semelhantes. São termos correspondentes. Quando a Palavra cresce, a igreja
cresce. É possível a igreja crescer numericamente sem o crescimento
da Palavra. Mas esse não é o crescimento que vem de DEUS. Esse não é o
crescimento saudável. Nem todo crescimento da igreja exalta a CRISTO. Nem
sempre um grande ajuntamento ou uma grande congregação expressa o
verdadeiro crescimento da igreja. Não podemos mudar a mensagem
para agradar o gosto e a preferência das pessoas. Não podemos transigir
com os absolutos de DEUS para atrair as multidões. Não podemos oferecer ao
povo um caldo venenoso para mitigar-lhe a fome. Precisamos dar às
multidões trigo verdadeiro, e não palha. Precisamos saciar as pessoas com o
Pão vivo que desceu do céu. Estava fechado o ciclo da terceira viagem
missionária. Era tempo de o bandeirante do cristianismo retornar novamente
à sua base.
Em oitavo lugar, uma perseguição implacável (Atos 19.2140). Sempre que a obra
de DEUS avança, o diabo contra-ataca. Na mesma medida em que a igreja crescia
em Éfeso e a partir de Éfeso, uma implacável perseguição movida por
interesses religiosos e financeiros se instalou na cidade, capitaneada por
Demétrio, o ourives fabricante das estatuetas de Diana. A cidade ficou
totalmente alvoroçada. Uma grande multidão se ajuntou para gritar o nome
da deusa Diana a ponto de a maioria nem saber exatamente o que estava
acontecendo na cidade. Não fora a intervenção do escrivão da cidade,
aquele tumulto teria se transformado numa perigosa sedição,
provocando grandes desastres para os crentes efésios e, quiçá, para o
próprio apóstolo Paulo.
Capítulo 07 - Uma despedida regada de emoções
Depois de três anos de frutífero ministério em Éfeso, a capital da Asia Menor,
onde Paulo enfrentou lutas maiores do que suas forças e teve de travar
encardida luta com feras humanas e demoníacas, resolve fazer uma viagem a
Jerusalém para levar as ofertas recolhidas entre as igrejas da Macedônia,
Acaia e Ásia Menor para os pobres da Judeia. Antes de direcionar seu ministério
aos gentios, conforme propósito divino, Paulo assumiu um compromisso com
os líderes da igreja de Jerusalém de que não se esqueceria dos pobres (Gl
2.10). Em cumprimento a essa promessa, esse bandeirante da fé ruma para
Jerusalém com essas generosas ofertas, mesmo sabendo que à
frente encontraria tribulação e cadeias.
Antes de partir para a sua última visita a Jerusalém, onde fora criado aos pés
de Gamaliel, chamou os presbíteros de Éfeso para se encontrarem com ele no
porto de Mileto. Ali, sob a abóbada celeste, tangidos pela brisa do mar, o
veterano apóstolo, num clima regado de profunda emoção, dá suas últimas
instruções aos líderes da igreja de Éfeso, a quem ele mesmo havia levado
a CRISTO e exortado diariamente com lágrimas. Após essas palavras de
despedida, eles se ajoelham na praia e oram com Paulo, abraçando-o e
beijando-o afetuosamente.
Nesse exponencial sermão, Paulo fala sobre sete compromissos que assumiu:
Vamos, aqui, examiná-los mais detidamente:
Em primeiro lugar, o compromisso de Paulo com DEUS (Atos 20.19). O primeiro
compromisso de Paulo não é com a obra de DEUS, mas com o DEUS da obra.
Relacionamento com DEUS precede trabalho para DEUS. O primeiro chamado de
Paulo é para andar com DEUS e, como resultado dessa caminhada, fazer a
obra de DEUS. Ele serve a DEUS ministrando aos homens. Quem serve a
DEUS não busca projeção pessoal. Quem serve a DEUS não anda atrás de
aplausos e condecorações. Quem serve a DEUS não depende de elogios nem
desanima com as críticas. Quem serve a DEUS não teme ameaças nem se
intimida diante de perseguições. Quem teme a DEUS não teme os homens, nem
o mundo, nem mesmo o diabo. O líder espiritual deve servir a DEUS com
senso de profunda humildade. Muitos batem no peito, arrogantemente,
dizendo que são servos de DEUS. Outros, besuntados de orgulho, fazem
propaganda de seu próprio trabalho. Outros, ainda, servem a DEUS, mas
gostam dos holofotes. Há aqueles que fazem do serviço a DEUS um palco onde se
apresentam como os atores ilustres sob as luzes da ribalta. Um servo não
busca glória para si mesmo. Fazer a obra de DEUS sem humildade é construir
um monumento para si mesmo. É levantar outra modalidade da torre de Babel.
Mas o líder não deve esperar facilidades pelo fato de estar servindo a
DEUS. Quem serve a DEUS com humildade e integridade desperta animosidade e
muita hostilidade no arraial do inimigo. Paulo servia a DEUS com lágrimas. A
vida ministerial não lhe foi amena. Em vez de ganhar aplausos do mundo,
recebeu ameaças, açoites e prisões. Paulo manteve sua consciência pura
diante de DEUS e dos homens, mas os judeus tramaram ciladas contra ele.
Viveu num campo minado. Enfrentou inimigos reais, porém, às vezes,
ocultos. Nem sempre DEUS nos poupa dos problemas. Às vezes, ele nos treina
nos desertos mais tórridos e nos vales mais profundos e escuros.
Em segundo lugar, o compromisso de Paulo com ele mesmo (Atos 20.18,28a). O
apóstolo Paulo mostra a necessidade de o líder espiritual ter um sério
compromisso consigo mesmo. O líder precisa cuidar de si mesmo antes de
cuidar do rebanho de DEUS. A vida do líder é a vida da sua liderança.
Há muitos obreiros cansados da obra e na obra porque procuraram cuidar dos
outros sem cuidar de si mesmos. Antes de liderar os outros, precisamos
liderar a nós mesmos. Antes de exortar os outros, precisamos exortar a nós
mesmos. Antes de confrontarmos os pecados dos outros, precisamos confrontar
os nossos próprios pecados. O líder não pode ser um homem inconsistente. O
líder espiritual também precisa cuidar de si mesmo para não praticar o que
condena. A posição de liderança não é uma apólice de seguro contra o fracasso
espiritual. O líder espiritual ainda precisa cuidar de si mesmo para não
cair em descrédito. A integridade do líder é o fundamento sobre o qual ele
constrói seu trabalho. Sem vida íntegra, não existe liderança eficaz.
Em terceiro lugar, o compromisso de Paulo com a Palavra de DEUS (Atos
20.20-27). Paulo anunciou todo o conselho de DEUS (Atos 20.27). O líder
espiritual precisa ensinar só a Bíblia e toda a Bíblia. Ele não pode
aproximar-se das Escrituras com seletividade. Toda a Escritura é inspirada por
DEUS e útil para o ensino e a correção. A única maneira de o líder
espiritual cumprir esse desiderato é pregar a Palavra expositivamente. Não
pregar suas próprias ideias, mas a Palavra. Não entregar a sua mensagem,
mas a de DEUS. A mensagem deve emanar das Escrituras. DEUS não tem
nenhum compromisso com a palavra do pregador, mas apenas com a sua
Palavra. Paulo pregou para a salvação (Atos 20.21). Ele pregou
arrependimento e fé. Ele também ensinou com fidelidade a Palavra (Atos
20.20). Paulo não apenas evangelizava; ele também ensinava. Ele não apenas
gerava filhos espirituais, mas também os nutria com o alimento. O líder é
um discipulador. Ele deve mentorear seus discípulos. O líder espiritual é
um mestre. A ele cabe o privilégio de ensinar as verdades benditas do evangelho
ao povo de DEUS. O líder espiritual tem alegria de ensinar tanto as
multidões como os pequenos grupos (Atos 20.20). Paulo ensinava de casa em
casa e também publicamente. Há líderes que são loucos pelo glamour da
multidão, mas não se entusiasmam em falar para pequenos grupos. Há
pregadores que só pregam para grandes auditórios. Sentem-se importantes demais
para pregar numa pequena congregação ou numa reunião de grupo familiar.
Esses indivíduos pensam que são mais importantes do que o apóstolo Paulo.
O apóstolo pregava de casa em casa. JESUS pregou seus mais esplêndidos
sermões para uma única pessoa. Quem não se dispõe a pregar para um pequeno
grupo não está credenciado a pregar para um grande auditório. Nossa motivação
não deve estar nas pessoas, mas em DEUS.
Em quarto lugar, o compromisso de Paulo com os valores do ministério (Atos
20.24). O apóstolo sintetiza o seu ministério em três verdades sublimes. Ele
diz aos presbíteros de Éfeso: “Porém em nada considero a vida preciosa
para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que
recebi do Senhor JESUS para testemunhar o evangelho da graça de DEUS” (Atos
20.24). Paulo fala sobre três verdades: vocação, abnegação e paixão. Paulo
diz que recebeu seu ministério do Senhor JESUS. Ele não se lançou no ministério
por conta própria. Ele foi chamado, vocacionado e separado para esse
trabalho. Paulo não se tornou um pastor porque buscava vantagens
pessoais. Não entrou para as lides ministeriais buscando segurança,
emprego ou lucro financeiro. Não entrou no ministério com motivações
erradas. Paulo não tinha apenas convicção de sua vocação, mas também
consciência das implicações desse chamado. Era imperativo exercer uma boa dose
de abnegação. Paulo diz que não considerava a vida preciosa para ele mesmo
desde que cumprisse o seu ministério. O coração de Paulo não estava nas
vantagens auferidas do ministério. Ele não estava no ministério cobiçando
prata ou ouro. Não estava numa corrida desenfreada em busca de
prestígio ou fama. Seu propósito não era ser aplaudido pelos homens ou
ganhar prestígio entre os homens. Na verdade, ele estava pronto a
trabalhar com as próprias mãos para ser pastor. Estava pronto a sofrer
toda sorte de perseguição e privação para pastorear. Estava disposto a ser
preso, a sofrer ataques externos e temores internos para pastorear a
igreja de DEUS. Estava pronto a dar a própria vida para cumprir cabalmente
seu ministério. Finalmente, Paulo diz que no seu coração ardia uma grande
paixão. A grande paixão de Paulo era testemunhar o evangelho da graça de DEUS.
A pregação enchia o peito do velho apóstolo de entusiasmo. Ele sabia que o
evangelho é o poder de DEUS para salvação de todo que crê. Sabia que a
justiça de DEUS se revela no evangelho. Sabia que a mensagem do evangelho
de CRISTO é a única porta aberta por DEUS para a salvação do
pecador. Paulo se considerava um arauto, um embaixador, um evangelista, um
pregador, um ministro da reconciliação. Sua mente estava totalmente
voltada para a pregação. Seu tempo era todo dedicado à pregação. Mesmo
quando estava preso, entendia que a Palavra não estava algemada.
Em quinto lugar, o compromisso de Paulo com a igreja de DEUS (Atos 20.28-32).
Assim como Paulo se gastou no evangelho para cuidar da igreja de DEUS, o líder
espiritual deve cuidar de todo o rebanho, e não apenas das ovelhas mais
dóceis (Atos 20.28). Há ovelhas dóceis e ovelhas indóceis. Há ovelhas que
obedecem ao comando do pastor e ovelhas que se rebelam e fogem de sob o cajado
do pastor. Há ovelhas que escoiceiam o pastor e aquelas que são o deleite
do pastor. Há um grande perigo de o pastor cuidar apenas das ovelhas
amáveis e deixar de lado as outras. A ordem divina é que o pastor deve
cuidar de todo o rebanho, e não apenas de parte dele. O líder precisa saber que
ele não é o dono do rebanho, mas servo dele (Atos 20.28). A igreja é de
DEUS, e não do líder. JESUS é o único dono da igreja. O Senhor nunca nos
deu uma procuração para nos apossarmos da sua igreja. Na igreja de DEUS,
não existem chefes, caudilhos e donos. Na igreja, todos nós somos nivelados
no mesmo patamar, somos servos. Aqueles que se arvoram em donos da igreja
e tratam-na como uma empresa particular, buscando abastecer-se das ovelhas
em vez de servi-lhes e pastoreálas, estão em aberta oposição ao propósito
divino. Todo líder precisa ter também um claro entendimento do valor da
igreja aos olhos de DEUS (Atos 20.28). A igreja é a noiva do Cordeiro, a menina
dos olhos de DEUS. Ele a comprou com o sangue de JESUS. Tocar na igreja de
DEUS é ferir a noiva do Cordeiro.
DEUS tem zelo pelo seu povo. Perseguir a igreja é perseguir o próprio Senhor da
igreja. Finalmente, o líder precisa proteger o rebanho de DEUS dos ataques
externos e internos (Atos 20.29,30). Paulo diz que existem lobos do lado
de fora buscando uma oportunidade para entrar no meio do rebanho e devorar
as ovelhas, e lobos travestidos de ovelhas dentro do rebanho buscando uma
oportunidade para arrebatar as ovelhas. O pastor deve ser o guardião e o
protetor do rebanho. Como Davi, ele precisa declarar guerra aos ursos e
leões, protegendo o rebanho de seus dentes assassinos. Há muitos falsos
mestres, com suas perniciosas heresias, tentando entrar na igreja. O perigo,
porém, não vem apenas de fora, mas também de dentro. Há aqueles que se
levantam no meio da igreja declarando coisas perniciosas e arrastando após
si as ovelhas. Há falsos mestres enrustidos que buscam uma ocasião para se
manifestar e provocar um estrago no arraial de DEUS. O líder
espiritual precisa ser zeloso no ensino, não dando guarida nem
oportunidade aos oportunistas que se infiltram no meio da igreja para
disseminar suas heresias.
Em sexto lugar, o compromisso de Paulo com a honestidade financeira (Atos
20.33-35). Paulo não era amante do dinheiro. O líder espiritual não pode ser
possuído pelo dinheiro. O dinheiro não pode ser seu patrão. Aqueles que se
curvam diante de Mamom jamais se levantarão de forma íntegra na presença
dos homens. Aqueles que amam o lucro jamais servirão ao rebanho, mas se
abastecerão dele. O líder espiritual é aquele que trabalha na obra de DEUS
não para auferir lucro, mas com abnegação, apesar do sacrifício pessoal. A
regra áurea da economia do reino de DEUS é que é mais bem-aventurado dar
do que receber. O líder é alguém que faz a obra de DEUS sem ser motivado pelo
dinheiro (Atos 20.33). Paulo não foi a Éfeso para cobiçar prata ou ouro das
pessoas, mas para levar a elas as riquezas espirituais. O dinheiro jamais
foi o vetor do ministério de Paulo. Ele diz que não cobiçou dinheiro nem
vestes. Sua alegria no ministério não era receber benefícios da igreja,
mas dar sua vida pela igreja. O líder espiritual é alguém que se dedica à
obra mesmo quando lhe falta o dinheiro (Atos 20.34). Paulo trabalhou com
suas próprias mãos para continuar o ministério. Ele não abandonou o ministério
para trabalhar na fabricação de tendas nem jamais se empolgou com
a fabricação de tendas a ponto de diminuir seu entusiasmo com o
ministério. Quando as igrejas lhe pagavam o que lhe era devido, Paulo
concentrava-se integralmente no ministério, mas, se as igrejas sonegavam
seu salário, ele continuava exercendo o ministério, ainda que precisasse
trabalhar para isso. O líder espiritual é alguém que entende que mais
feliz é aquele que dá dinheiro do que quem recebe dinheiro (Atos 20.35).
Paulo cita uma expressão de JESUS: “... Mais bem-aventurado é dar
que receber”. A visão do líder espiritual não deve ser a de um homem
egoísta e avarento. Ele precisa ser um homem de coração generoso, mãos
dadivosas e bolso aberto.
Em sétimo lugar, o compromisso de Paulo com a afetividade (Atos 20.36-38). Os
presbíteros de Éfeso e Paulo se abraçaram, beijaram-se e choraram num lugar
público. Paulo havia passado três anos em Éfeso, e esse tempo foi
suficiente para eles formarem fortes elos de amizade. Agora,
eles demonstram a intensidade desse afeto nessa despedida. Nós somos seres
afetivos (Atos 20.37). O amor precisa ser verbalizado e demonstrado.
Nossas emoções precisam refletir nosso amor. Os presbíteros de Éfeso
abraçaram e beijaram Paulo numa praia, um lugar público. Eles não negaram, não
camuflaram nem esconderam suas emoções. A mídia empapuçada de violência está
minando as nossas emoções. Estamos ficando secos como um deserto. Não
conseguimos mais chorar nem expressar emoções. Uma senhora da igreja,
depois do culto, disse-me entre lágrimas: “Pastor, eu valorizo muito o seu
abraço na porta da igreja, porque é o único abraço que eu recebo na
semana”. Há momentos em que a maior necessidade de uma pessoa na igreja
não é de ouvir o coral, mas de receber um abraço de um irmão. Nós precisamos
demonstrar nosso afeto pelas pessoas que amamos (Atos 20.37). Há muitos
líderes que não conseguem expressar seus sentimentos nem verbalizar
seu amor pelos seus liderados. Precisamos aprender a declarar o nosso amor
pelas pessoas. Precisamos aprender a valorizar as pessoas enquanto elas
estão conosco. Precisamos demonstrar nosso apreço por elas enquanto elas
podem ouvir nossa voz. Nós precisamos entender a força terapêutica
da afetividade (Atos 20.36-38). O amor é o elo de perfeição que une as
pessoas. O amor é o cinturão que mantém unidas as demais peças da virtude
cristã. Uma pessoa não permanece numa igreja onde ela não tem amigos. A
comunhão e a evangelização são temas profundamente conectados. Onde
há união entre os irmãos, ali DEUS ordena sua bênção e a vida para sempre.
Certa feita, uma irmã da igreja me telefonou, informando-me de que estava
pretendendo transferir-se para uma igreja mais próxima de sua casa. Eu,
carinhosamente, lhe disse: “O problema é que você é tão importante para a
nossa igreja que não podemos abrir mão de sua presença”. Essa mulher começou a
chorar ao telefone e disse: “Pastor, na verdade eu não queria ir para
outra igreja. Era isso que eu precisava ouvir. Muito obrigada” e desligou
o telefone. As pessoas são carentes afetivamente, e os pastores precisam
compreender que o amor verbalizado e demonstrado tem um grande poder
terapêutico.
Capítulo 08 - Uma saraivada de problemas
A vida cristã não é um mar de rosas, mas uma tempestade na qual não faltam as
nuvens pardacentas e os trovões aterradores. Os covardes e medrosos, que têm
medo de decidir, não entrarão no reino de DEUS. A vida cristã não é feita de
amenidades, mas tecida por lutas renhidas. Não é uma viagem através de
águas calmas, mas uma navegação turbulenta em mares revoltos
e encapelados.
Um leitor desatento pensará que o relato de Paulo em 2Coríntios 6.4-10 é uma
coletânea de experiências sem nenhuma conexão. Porém, uma observação mais
detalhada do texto provará que Paulo fez um cuidadoso e lógico arranjo de
27 categorias, dividido em três grupos de nove cada. Nos versículos 4 e 5,
seus pensamentos são sobre suas provações; nos versículos 6 e 7, sobre a
divina provisão; e nos versículos 8 a 10, acerca da vitória sobre as
circunstâncias adversas.
O apóstolo Paulo começa esse catálogo de provas com uma das virtudes mais
robustas da vida cristã, a paciência triunfante (2Co 6.4). A palavra grega
usada, hupomone, não pode ser traduzida ao pé da letra. Ela não descreve o
tipo de mentalidade que se assenta com as mãos cruzadas e a cabeça baixa
até que passe a tormenta de problemas, numa resignação passiva. Descreve, ao
contrário, a habilidade de alguém suportar as coisas de uma maneira tão
triunfante que as transforma profundamente. Crisóstomo, o maior pregador
do Oriente, chama hupomone de a raiz de todo o bem, a mãe da piedade, o
fruto que não se seca jamais, a fortaleza que nunca pode ser
conquistada, o porto que não conhece tormentas. Para Crisóstomo, hupomone
é a rainha das virtudes, fundamento de todas as ações justas, paz no meio
da guerra, calma na tempestade, segurança nos tumultos.
Essa paciência não é uma capacidade natural de suportar algumas dificuldades da
vida, mas um corajoso triunfo, que recebe todas as pressões da vida e sai delas
com um brado de alegria. Não somente essa pessoa não se deixa abater pelas
dificuldades, mas mostra-se até grata pela oportunidade de passar por elas,
sabendo que isso trará glória a DEUS.
A “paciência” aqui é o cabeçalho geral de nove elementos que Paulo relaciona a
fim de recomendar seu ministério. Vamos examinar o texto em apreço sob quatro
perspectivas.
Quando a vida parece um mar tempestuoso
Escrevendo sua segunda carta aos Coríntios (2Co 6.3-5), sua epístola mais
pessoal, Paulo aborda
três grupos, cada um composto de três situações, em que a paciência é aplicada.
Em primeiro lugar, os conflitos internos da vida cristã (2Co 6.4). O apóstolo
Paulo menciona três conflitos internos que a paciência triunfante nos capacita
a vencer. Esse primeiro grupo expressa termos genéricos, a que todos os
cristãos estão sujeitos.
As aflições. A palavra grega que Paulo usa é thlipsis, que significa pressão
física, aflição ou tribulação. Representam aquelas situações que são fardos
para o coração humano, aquelas desilusões que podem destroçar a vida.
As privações. A palavra grega anagké significa literalmente as necessidades da
vida. Essa palavra é usada no sentido de sofrimento, muito possivelmente
torturas. São aqueles fardos inevitáveis da vida que retratam necessidades
materiais, emocionais e até físicas.
As angústias. A palavra grega que Paulo utiliza, stenochoria, significa um
lugar muito apertado. Essa palavra era usada para descrever a condição de um
exército encurralado num desfiladeiro estreito e rochoso sem lugar para
escapar.
Em segundo lugar, as tribulações externas da vida cristã (2Co 6.5). Mais uma
vez, o apóstolo Paulo menciona três circunstâncias difíceis que ele enfrentou.
Esse segundo grupo apresenta exemplos particulares.
Os açoites. O sofrimento de Paulo não era apenas espiritual, mas também físico.
Paulo foi açoitado várias vezes, fustigado com varas e até apedrejado. É
exatamente por que os cristãos primitivos enfrentaram as fogueiras, as
feras e toda sorte de castigos físicos que hoje recebemos o legado
do cristianismo. O próprio Paulo dá seu testemunho: “Cinco vezes recebi
dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com
varas; uma vez, apedrejado...” (2Co 11.24,25). Esses açoites lhe deixaram
cicatrizes, pelo que escreveu: “Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque
eu trago no corpo as marcas de JESUS” (Gl 6.17).
As prisões. Paulo foi preso várias vezes. O livro de Atos registra sua prisão
em Filipos, Jerusalém, Cesareia e Roma. Paulo passou vários anos do seu
ministério no cárcere. Ele terminou os seus dias numa masmorra romana, de
onde saiu para ser decapitado. Ao longo dos séculos, um séquito de crentes
em CRISTO suportou prisões e esteve disposto a abandonar sua liberdade em vez
da fé.
Os tumultos. Paulo não enfrentou apenas a severidade da lei judaica e romana
por onde passou, mas também a violência da multidão tresloucada. A palavra
grega usada por Paulo, akatastasia, significa instabilidade, multidões em
rebelião e desordens civis (Atos 13.50; 14.19; 16.19; 19.29). Esses
tumultos referem-se àqueles perigos criados pelos homens. Em quase toda cidade
por onde passou, Paulo enfrentou multidões enfurecidas, incitadas
principalmente pelos judeus. Em Antioquia da Pisídia, os judeus incitaram
as mulheres de alta posição e os principais da cidade para expulsarem
Paulo de seu território (Atos 13.49-52). Em Icônio, houve um complô para
apedrejar Paulo, e ele precisou sair da cidade (Atos 14.5,6). Em Listra,
uma ensandecida multidão apedrejou Paulo (Atos 14.19). Em Filipos, uma
multidão alvoroçada prendeu Paulo e Silas, açoitando-os e lançando-os na
prisão (Atos 16.22,23). Em Tessalônica, uma turba, procurando Paulo, alvoroçou
a cidade e arremeteu-se contra Jasom e sua casa (Atos 17.5). Em Éfeso,
houve um grande tumulto, e os amigos de viagem de Paulo foram presos (Atos
19.23-40). Mesmo durante o ministério de Paulo em
Corinto, ele também foi preso, e procuraram levá-lo diante do governador (Atos
18.12-17). Simon Kistemaker diz que o pior caso de agitação civil ocorreu em
Jerusalém. Ali o povo, amotinado, procurou matar Paulo (Atos 21.30-32).
Por todo lugar onde Paulo pregou o evangelho, ele se defrontou com
multidões tresloucadas.
Em terceiro lugar, as tribulações naturais da vida cristã (2Co 6.5b). As três
provas que Paulo passa a mencionar não vieram de fora nem de dentro, mas foram
abraçadas voluntariamente por ele. Trata-se de provações assumidas
voluntariamente por ele.
Os trabalhos. A palavra grega kopos, usada por Paulo, é muito sugestiva, pois
descreve o trabalho que leva ao esgotamento, o tipo de tarefa que exige todas
as forças que o corpo, a mente e o espírito do homem podem dar. O termo
kopos implica trabalhar até fatigar-se, o cansaço que segue após o uso das
forças ao máximo. Paulo chega a declarar que trabalhou mais do que todos os
outros apóstolos (1Co 15.10).
As vigílias. Algumas vezes, Paulo passava noites em oração, e outras vezes não
conseguia dormir em virtude dos tumultos e perseguições, quase sem trégua, que
vinham a ele de todos os lados. A palavra grega agrupnia, “vigílias”,
refere-se àquelas ocasiões em que Paulo voluntariamente ficava sem dormir
ou encurtava suas horas de sono a fim de devotar mais tempo ao seu
trabalho evangélico, a seu cuidado de todas as igrejas e à oração. Paulo
seguiu o exemplo de JESUS (Mc 1.35; Lc 6.12), passando muitas horas da
noite e da madrugada em oração.
Os jejuns. Os jejuns referidos por Paulo podem ser tanto os voluntários como os
involuntários. A palavra grega nesteía, “jejuns”, refere-se ao jejum voluntário
a fim de poder realizar mais trabalhos. Contudo, esses jejuns podem também
se referir àqueles momentos em que Paulo passou privações (2Co 11.9) e até
fome (2Co 11.27; 1Co 4.11; Fp 4.12).
Quando a vida parece cheia de contradições
Ainda na segunda carta aos coríntios (2Co 6.8-10), o apóstolo Paulo menciona
nove paradoxos e antíteses da vida cristã. Trata-se de uma série de contrastes
profundos. Aqui está clara a profunda diferença que existe entre a
perspectiva de DEUS e a perspectiva dos homens. O crente constitui-se num
enigma para os outros, uma perpétua contradição para os que não os compreendem,
pois sua vida consiste numa série de paradoxos.
Esses paradoxos falam dos dois lados opostos da vida de um homem de DEUS - o
lado secular e o lado espiritual. O lado visto pelo homem, e o lado visto por
DEUS. Essa passagem contrasta como DEUS avaliou o ministério de Paulo com
a maneira pela qual seus críticos o avaliaram. O verdadeiro discípulo
experimenta tanto o topo da montanha como as regiões mais baixas dos vales
mais profundos. Ele oscila entre a honra e a desonra, entre a infâmia e a
boa fama, entre a vida e a morte. Vamos considerar esses paradoxos.
Honra e desonra. Aos olhos do mundo, Paulo era um homem despojado de toda
honra. Era considerado o lixo do mundo e a escória de todos (1Co 4.13), mas aos
olhos de DEUS era mui honrado. A palavra grega atimia, usada para desonra,
significa a perda dos direitos de cidadão, a privação dos direitos civis.
Ainda que Paulo tivesse perdido todos os direitos como cidadão do mundo,
tinha recebido a maior de todas as honras. Ele era cidadão do reino de DEUS.
Tombou como mártir na terra, decapitado num patíbulo, mas levantou-se como
príncipe no céu (2Tm 4.68).
Infâmia e boa fama. Os opositores de Paulo criticavam cada uma de suas ações e
palavras, além de odiá-lo com ódio consumado. Além disso, Paulo sofria infâmia
de seus próprios filhos na fé. Embora Paulo e seu ministério obtivessem o
reconhecimento de muitos crentes coríntios (1Co 16.15-18), outros o
desonravam e falavam dele pelas costas (2Co 10.10; 11.7; 1Co
4.10-13,19). Porém, a despeito de ser difamado na terra, recebeu
certamente boa fama no céu.
Enganador e sendo verdadeiro. Os críticos de Paulo o consideravam um charlatão
ambulante e um impostor. Para eles, Paulo não era um autêntico apóstolo.
Contudo, sua vida, sua conduta e seu ministério irrepreensíveis refutaram
peremptoriamente as acusações levianas de seus inimigos. Paulo andou com
consciência limpa diante de DEUS e dos homens. Ele estava convicto de que
sua mensagem era a verdade do próprio DEUS.
Desconhecido, entretanto bem conhecido. Os judeus que o caluniavam diziam que
Paulo era um joão-ninguém, a quem faltava autoridade apostólica e a quem podiam
denegrir à vontade. Mas, para seus filhos na fé, Paulo era conhecido e amado. O
apóstolo Paulo foi, sem sombra de dúvida, o maior apóstolo, o maior
teólogo, o maior evangelista, o maior missionário e o maior plantador de
igrejas da história. A palavra grega agooumenoi, traduzida por
“desconhecidos”, traz a ideia de ser ignorante. Refere-se a “não valer
nada”, sem as credenciais adequadas. Paulo não recebeu reconhecimento do
mundo de seu tempo porque o mundo, a literatura, a política e a erudição não
se preocupavam com ele e não faziam dele fonte de conversas diárias, nem o
procuravam como grande orador. Porém, Paulo é hoje mais conhecido do que
qualquer imperador romano. Importa mais receber reconhecimento de DEUS do
que dos homens. Importa mais ser amado pelos cristãos do que odiado pelo
mundo.
Morrendo, contudo vivendo. Paulo viveu sob constante ameaça de morte. Foi
apedrejado em Listra, açoitado em Filipos, enfrentou feras em Éfeso e foi
atacado por uma multidão furiosa em Jerusalém. O poder divino que
ressuscitou JESUS dos mortos impediu que Paulo sofresse uma morte
prematura. Sua vida despertou fúria no inferno e tumulto na terra. Paulo,
porém, viveu para completar sua carreira e cumprir cabalmente seu
ministério (Atos 20.24; 2Tm 4.6-8). A julgar pelos padrões mundanos, a
carreira de Paulo foi miserável. Ele esteve continuamente exposto a perigos de
morte, sempre perseguido por multidões enfurecidas e pelas autoridades
civis, mas DEUS livrou-o vezes sem conta. Portanto, contra todas as
expectativas, enquanto o propósito de DEUS não se concretizou nele, ele
escapou da morte sem ser assassinado.
Castigado, porém não morto. Muitas vezes, Paulo enfrentou açoites, cadeias,
prisões, tumultos e até apedrejamento. DEUS, porém, o preservou da morte a fim
de que ele cumprisse o propósito de levar o evangelho até os confins da
terra. Os cristãos não devem entender suas aflições como indicação
da reprovação divina, mas, sim, regozijar-se nelas como oportunidades
graciosamente oferecidas para glorificarem o nome do Senhor. DEUS não
castiga seu povo por quem CRISTO morreu, pois nossa punição pelo pecado
foi colocada sobre CRISTO. Seu Filho sofreu em nosso lugar para que pudéssemos
ser absolvidos. Portanto, é incorreto dizer que os crentes sofrem a ira de
DEUS. O castigo mencionado aqui pelo apóstolo são medidas corretivas de
DEUS que têm o objetivo de nos levar para mais perto dele.
Entristecido, mas sempre alegre. As tristezas de Paulo vinham das
circunstâncias; sua alegria emanava de sua comunhão com DEUS. Ele se alegrava
não nas circunstâncias, mas apesar delas (Atos 16.19-26). Sua alegria não era
nem presença de coisas boas nem ausência de coisas ruins. Sua alegria era
uma Pessoa. Sua alegria era JESUS. A fonte da sua alegria não estava na terra,
mas no céu; não nos homens, mas em DEUS.
Pobre, mas enriquecendo a muitos (2Co 6.10). Paulo não era como os falsos
apóstolos que ganhavam dinheiro mercadejando a Palavra. Paulo era pobre. A
palavra ptokós, usada por Paulo, significa extremamente pobre, miserável,
indigente, destituído. Descreve a pobreza abjeta de quem não tem,
literalmente, nada e que está num perigo real e iminente de
morrer de fome. A palavra ptokós significa penúria completa, como aquela de um
mendigo. Ele não tinha dinheiro, mas tinha um tesouro mais precioso do que todo
o ouro da terra, o bendito evangelho de CRISTO. Ele enriquecia as pessoas
não com coisas materiais, mas com bênçãos espirituais.
Nada tendo, mas possuindo tudo. Paulo não possuía riquezas terrenas, mas era
herdeiro daquele que é o dono de todas as coisas. O ímpio tem posse provisória,
mas o cristão é dono de todas as coisas que pertencem ao Pai. Somos
herdeiros de DEUS e coerdeiros com CRISTO. O ímpio pode ter tudo aqui, mas
nada levará. Nós, nada tendo aqui, possuímos tudo.
Quando sofremos pela igreja de DEUS
O apóstolo Paulo, em 2Coríntios 11.23-33, destaca seis aspectos do seu
sofrimento:
Em primeiro lugar, trabalhos extenuados. "... em trabalhos, muito mais...”
(2Co 11.23). Paulo foi imbatível nesse item. Não apenas suplantou em muito os
falsos apóstolos nesse particular, mas trabalhou até mesmo mais do que os
legítimos apóstolos de CRISTO (1Co 15.10). O ministério de Paulo não teve
pausa. Ele trabalhou diuturnamente, sem intermitência, com saúde ou doente;
em liberdade ou na prisão; na fartura ou passando necessidades. Jamais
deixou de trabalhar pela causa de CRISTO.
Em segundo lugar, castigos físicos extremados. "... muito mais em prisões;
em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes. Cinco vezes recebi
dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado
com varas; uma vez, apedrejado...” (2Co 11.23-25). Destacamos aqui
os vários castigos sofridos por Paulo.
As prisões. Paulo foi preso várias vezes. O livro de Atos relata sua prisão em
Filipos, em Jerusalém, em Cesareia e em Roma. Paulo passou boa parte da sua
atividade apostólica preso. Ele podia estar encarcerado, mas a Palavra de
DEUS não estava algemada. Era um embaixador em cadeias. Jamais se sentiu
prisioneiro de homens, mas sempre prisioneiro de CRISTO.
Os açoites. Não foram poucas as ocasiões em que Paulo foi açoitado. O livro de
Atos não é exaustivo nesses relatos. Temos informação de que ele foi açoitado
em Filipos, mas, em muitas outras vezes, seu corpo foi surrado a ponto de
ele dizer aos gálatas que trazia no corpo as marcas de CRISTO (Gl 6.17).
Cinco vezes recebeu dos judeus 39 açoites. Esse castigo era tão severo que
muitos não resistiam. Os açoites eram o método judaico, baseado em
Deuteronômio 25.25. A pessoa tinha as suas duas mãos presas a um poste, e
suas roupas eram removidas, de modo que seu peito ficava descoberto. Com
um chicote feito de uma correia de couro de bezerro e duas de couro de jumento, ligadas
a um longo cabo, a pessoa recebia um terço das 39 chicotadas no tórax e dois
terços nas costas.
Os perigos de morte. O ministério de Paulo foi turbulento. Não teve folga nem
descanso. Aonde ele chegava, havia um tumulto para matá-lo. Foi perseguido em
Damasco, apedrejado em Listra, açoitado em Filipos, escorraçado de
Tessalônica, enxotado de Bereia, levado ao tribunal em Corinto, perturbado
em Éfeso, preso em Jerusalém, acusado em Cesareia, picado por uma
víbora em Malta e decapitado em Roma.
O flagelo de serfustigado com varas. Se a quarentena de açoites era um castigo
judaico (Dt 25.1-3), fustigar com varas era um castigo romano. Paulo sofreu
castigo tanto de judeus quanto de gentios. O livro de Atos só relata os
açoites que Paulo sofreu em Filipos. Mas aqui ele nos informa que
três vezes foi fustigado com varas.
O apedrejamento. Paulo foi apedrejado em Listra e arrastado da cidade como
morto. DEUS o levantou milagrosamente para dar prosseguimento a seu trabalho
missionário. A vida de Paulo é um milagre; seu sofrimento, um monumento;
suas cicatrizes, seu vibrante testemunho.
Em terceiro lugar, viagens perigosas. “... em naufrágio, três vezes; uma noite
e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de
rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos
entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no
mar, em perigos entre falsos irmãos” (2Co 11.25,26). As viagens de Paulo
foram aventuras épicas, cercadas sempre de muitos perigos. O livro de Atos
só relata o naufrágio que Paulo enfrentou em sua viagem para Roma, e
obviamente, quando Paulo escreveu essa carta, ela ainda não havia
ocorrido. Portanto, Paulo enfrentou quatro naufrágios. Não sabemos onde
nem quando, mas um dia e uma noite ficou à deriva, na voragem do mar. Nas
suas andanças, enfrentou perigos nos mares, nos rios, nas cidades e no
deserto. Enfrentou perigos entre judeus e gentios. Enfrentou perigos no
meio dos pagãos e também entre falsos irmãos.
Em quarto lugar, privações e necessidades dolorosas. “em trabalhos e fadigas,
em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e
nudez” (2Co 11.27). Paulo trabalhava não só na obra, mas também para seu
sustento, e isso com fadiga. Dormia pouco e trabalhava muito. Tinha senso
de urgência. Nas suas jornadas a pé ou de navio, passou fome e sede muitas
vezes. Não poucas vezes, a situação era tão grave que, mesmo tendo pão,
preferia jejuar. Nem sempre tinha roupas suficientes e adequadas para as
estações geladas do inverno. Enfrentou frio e também nudez.
Em quinto lugar, preocupação com todas as igrejas. “Além das cousas exteriores,
há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas” (2Co
11.28). A atitude de Paulo em relação aos falsos apóstolos era
gritantemente diferente. Enquanto eles se abasteciam das igrejas, Paulo
se desgastava por amor a elas, e isso diariamente. Enquanto Paulo usava
sua autoridade para fortalecer as igrejas, eles usavam as igrejas para
fortalecer sua autoridade. Enquanto Paulo trabalhava para servir às
igrejas, eles se abasteciam das igrejas. Enquanto eles esbofeteavam os crentes
no rosto, Paulo carregava os fardos dos crentes no coração. As outras
experiências haviam sido exteriores e ocasionais, mas o peso das igrejas
era interior e constante.
Em sexto lugar, fuga ignominiosa. “Em Damasco, o governador preposto do rei
Aretas montou guarda na cidade dos damascenos, para me prender; mas, num grande
cesto, me desceram por uma janela da muralha abaixo, e assim me livrei das
suas mãos” (2Co 11.32,33). No auge da narrativa de seus sofrimentos, Paulo
fala da experiência humilhante em Damasco. Paulo descreve de forma vívida
a primeira situação de sofrimento após sua conversão. Entrou na cidade de
Damasco para prender os crentes, e ele agora é quem estava preso. Os
judeus resolveram tirar-lhe a vida e vigiaram os portões da cidade (Atos
9.23,24) para ele não fugir, enquanto o governador gentio também montava
guarda na porta para o prender (2Co 11.32). O livramento de Paulo não
teve nada de espetacular. Ele escapou de forma humilhante. Para Paulo,
essa fuga clandestina de Damasco era o pior dos açoites. O valente Paulo
precisa fugir de forma inusitada na calada da noite. Essa fuga ignominiosa
de Damasco que Paulo narra contém pouquíssimos elementos de que
ele pudesse vangloriar-se. É o primeiro de muitos “perigos de morte” que
ele experimentou. Esses primeiros acontecimentos o marcam profundamente. E
precisamente essa imagem da recordação revela de forma singular sua
“fraqueza”.
Paulo conclui essa listagem de sofrimento, jogando uma pá de cal na presunção
de seus oponentes. Enquanto eles se gloriavam em suas virtudes e realizações,
Paulo diz: “Se tenho de gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à
minha fraqueza” (2Co 11.30). Paulo sabia que sua autoridade não vinha de
suas habilidades, mas de seu chamado (Rm 1.1,5); não de sua força, mas
de sua fraqueza; não de seus feitos, mas de suas cicatrizes.
Quando nosso sofrimento é bênção, e não castigo
No início de 2Coríntios 12, Paulo descreve seu arrebatamento ao terceiro céu e
sua visão gloriosa. Viu coisas que não é lícito ao homem referir. Depois da
glória, porém, vem a dor; depois do êxtase, vem o sofrimento. Em
2Coríntios 12.7-10, Paulo faz uma transição das visões celestiais para
o espinho na carne. DEUS sabe equilibrar em nossa vida as bênçãos e os
fardos, o sofrimento e a glória. Que contraste gritante entre as duas
experiências do apóstolo! Passou do paraíso à dor, da glória ao
sofrimento. Provou a bênção de DEUS no céu e sentiu os golpes de Satanás na
terra. Paulo passou do êxtase do céu à agonia da terra. Vamos examinar
alguns pontos importantes.
Em primeiro lugar, o sofrimento é inevitável. Paulo dá seu testemunho: “E, para
que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um
espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que
não me exalte” (2Co 12.7). Não há vida indolor. É impossível passar pela
vida sem sofrer. O sofrimento é inevitável. O sofrimento de Paulo é tanto
físico quanto espiritual. Elencamos aqui dois aspectos do sofrimento do
apóstolo.
O espinho na carne. O que seria esse espinho na carne de Paulo? Há muitas
ideias e nenhuma resposta conclusiva. Calvino acreditava que o espinho na carne
eram as tentações espirituais. Lutero achava que eram as perseguições dos
judeus. A palavra grega skolops, “espinho”, só aparece aqui em todo o Novo
Testamento. Trata-se de qualquer objeto pontiagudo. Era a palavra usada para
estaca, lasca de madeira ou ponta do anzol. O que era esse espinho na
carne de Paulo? Muitas respostas têm sido dadas. Vejamos algumas delas:
- Perturbações espirituais. Calvino acreditava que o espinho
na carne de Paulo consistia nessas tentações que o afligiam. Trata-se das
limitações de uma natureza corrompida pelo pecado, os tormentos da
tentação, ou a opressão demoníaca.
- Perseguição e oposição. Lutero pensava que o espinho na
carne de Paulo eram as muitas e variadas perseguições sofridas tanto nas
mãos dos judeus, como nas mãos dos gentios.
- Enfermidades físicas. A lista abrange desde a epilepsia,
gagueira, enxaqueca, ataques de malária até deficiência visual. A maioria
dos estudiosos concorda que esse termo skolops deve ser interpretado
literalmente, isto é, Paulo suportava dor física. Pessoalmente sou inclinado a
pensar que esse espinho na carne era uma deficiência visual de Paulo (Atos
9.9; Gl 4.15; 6.11; Rm 16.22; At 23.5).
A oração não atendida. Assim como JESUS orou três vezes no Getsêmani para DEUS
afastar-lhe o cálice e o Pai não o atendeu, mas enviou um anjo para o consolar,
Paulo orou também três vezes para DEUS remover o espinho de sua carne, mas
a resposta de DEUS não foi a remoção do espinho, mas a força para
suportá-lo. DEUS nem sempre nos livra do sofrimento, mas nos dá graça
para enfrentá-lo vitoriosamente. Paulo orou na aflição: orou ao Senhor,
orou com insistência e especificamente, e mesmo assim DEUS lhe disse não.
Em segundo lugar, o sofrimento é indispensável. Assim como JESUS aprendeu pelas
coisas que sofreu, também aprendemos pelo sofrimento. Por que o sofrimento é
indispensável?
Para evitar a soberba. O espinho na carne impediu que Paulo inchasse ou
explodisse de orgulho diante das gloriosas visões e revelações do Senhor. O
sofrimento nos põe em nosso devido lugar. Ele quebra nossa altivez e
esvazia toda nossa pretensão de glória pessoal. É o próprio DEUS quem nos
matricula na escola do sofrimento. O propósito de DEUS não é nossa destruição,
mas nossa qualificação para o desempenho do ministério. O fogo da prova
não pode chamuscar sequer um fio de cabelo da nossa cabeça; ele só queima
nossas amarras. O fogo das provas nos livra das amarras, e DEUS nos livra
do fogo.
O apóstolo Paulo diz que o espinho na carne era um mensageiro de Satanás. Ao
mesmo tempo que o mensageiro de Satanás infligia sofrimento ao apóstolo,
esbofeteando-lhe com golpes fulminantes, DEUS tratava com seu servo,
usando essa estranha providência, para o manter humilde. O campo de
atuação de Satanás é delimitado por DEUS. Satanás intenciona esbofetear Paulo;
DEUS intenciona aperfeiçoar o apóstolo.
Para gerar dependência constante de DEUS. “Por causa disto, três vezes pedi ao
Senhor que o afastasse de mim” (2Co 12.8). O sofrimento levou Paulo à oração. O
sofrimento nos mantém de
joelhos diante de DEUS para nos colocar de pé diante dos homens. Paulo sabe que
DEUS está no controle, não Satanás. Se Satanás realizasse seu desejo, ele teria
preferido que o apóstolo Paulo fosse orgulhoso em vez de humilde. Os
interesses de Satanás seriam muito melhor servidos se Paulo fosse se
tornar insuportavelmente arrogante.
Para mostrar a suficiência da graça. “Então, ele me disse: A minha graça te
basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me
gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de CRISTO”
(2Co 12.9). A graça de DEUS é melhor do que a vida. A graça de DEUS é que
nos capacita a enfrentar vitoriosamente o sofrimento. A graça de DEUS é o
tônico para a alma aflita, o remédio para o corpo frágil, a força que põe
de pé o caído. A graça de DEUS é a provisão de DEUS para tudo de que
precisamos, quando precisamos. A graça nunca está em falta. Ela está
continuamente disponível. Não devemos orar por vida fácil. Devemos orar para
sermos homens e mulheres capacitados pela graça. Não devemos orar por
tarefas iguais ao nosso poder, mas orar por poder igual às nossas tarefas.
Para trazer fortalecimento de poder. O poder de DEUS se aperfeiçoa na fraqueza.
Quando somos fracos, aí é que somos fortes. Esse é o grande paradoxo do
cristianismo. A força que sabe que é forte, na verdade é fraqueza, mas a
fraqueza que sabe que é fraca, na verdade é força. O poder de DEUS
revela-se nos fracos. Paulo pediu para DEUS substituição, mas DEUS lhe deu
transformação. DEUS não removeu sua aflição, mas lhe deu capacitação para
enfrentá-la vitoriosamente. DEUS não deu explicações a Paulo; fez-lhe
promessas: “A minha graça te basta”. Não vivemos de explicações; vivemos
de promessas. Nossos sentimentos mudam, mas as promessas de DEUS são sempre
as mesmas.
O poder de DEUS é suficiente para o cansaço físico. Paulo suportou toda sorte
de privações físicas: fome, sede e nudez. Suportou todo tipo de perseguição:
foi açoitado, apedrejado, fustigado com varas e preso. Enfrentou todo tipo
de perigos: de rios, de mares, de desertos, no campo, na cidade, entre
estrangeiros, entre patrícios e até no meio de falsos irmãos. Enfrentou toda
sorte de pressões emocionais: preocupava-se dia e noite com as igrejas.
Mas o poder de DEUS o sustentou em todas essas circunstâncias.
Em terceiro lugar, o sofrimento é pedagógico. A vida é a professora mais
implacável: primeiro, dá a prova e, depois, a lição. C. S. Lewis disse que
“DEUS sussurra em nossos prazeres e grita em nossas dores”. A dor sempre
tem um propósito, mais que uma causa. DEUS não desperdiça sofrimento
na vida de seus filhos. Se DEUS não remove o espinho é porque ele está
trabalhando em nós, para depois trabalhar por meio de nós.
Vejamos algumas lições importantes destacadas por Charles Stanley em seu livro
Como lidar com o sofrimento1:
Há um propósito divino em cada sofrimento. Há um propósito divino no
sofrimento. No começo dessa carta, Paulo diz que o nosso sofrimento e a nossa
consolação são instrumentos usados por DEUS para abençoar outras pessoas
(2Co 1.3). Na escola da vida, DEUS está nos preparando para sermos
consoladores. Quando DEUS não remove “o espinho”, é porque tem uma razão.
DEUS sempre tem um propósito no sofrimento. O propósito é de não nos
ensoberbecermos.
E possível que DEUS resolva revelar-nos o propósito do nosso sofrimento. No
caso de Paulo, DEUS decidiu revelar-lhe a razão de ser do “espinho”: evitar que
o apóstolo ficasse orgulhoso. Quando Paulo orou, nem perguntou por que
estava sofrendo; apenas pediu a remoção do sofrimento. Não é raro DEUS
revelar as razões do sofrimento. Ele revelou a Moisés a razão por que não lhe
seria permitido entrar na terra prometida. Disse a Josué por que ele e seu
exército haviam sido derrotados em Ai. O nosso sofrimento tem por
finalidade nos humilhar, nos aperfeiçoar, nos burilar e nos usar. É
possível também que DEUS não nos dê explicações diante do sofrimento. Foi o que
aconteceu com o patriarca Jó. Ele perdeu seus bens, seus filhos, sua
saúde, o apoio de sua mulher e de seus amigos, e, diante de seus
questionamentos, nenhuma explicação lhe foi dada. DEUS restaurou sua sorte,
mas não lhe deu a razão de seu sofrimento.
DEUS nunca nos repreende se perguntarmos por que sofremos, ou se pedirmos que
ele remova o sofrimento. Não há evidência de que DEUS tenha repreendido Paulo
pelo fato de ele ter-lhe pedido que removesse o espinho. DEUS entende
nossa fraqueza. Espera que clamemos quando estivermos passando por
sofrimento. DEUS nos manda lançar sobre ele toda a nossa ansiedade.
O sofrimento pode ser um dom de DEUS. Temos a tendência de pensar que o
sofrimento é algo que DEUS faz contra nós, e não por nós. Jacó disse: “...
Tendes-me privado de filhos: José já não existe, Simeão não está aqui, e
ides levar a Benjamim! Todas estas cousas me sobrevêm” (Gn 42.36).
O espinho de Paulo era uma dádiva, porque, por meio desse incômodo, DEUS
protegeu Paulo daquilo que ele mais temia - ser desqualificado
espiritualmente (1Co 9.27). Ele sabia que o orgulho destrói. Viu-o como
algo que DEUS fez a seu favor, e não contra ele.
Satanás pode ser o agente do sofrimento. Espere um pouco: é Satanás ou DEUS
quem está por trás do espinho na carne de Paulo? Como é que um mensageiro de
Satanás pode cooperar para o bem de um servo de DEUS? Parece uma
contradição total. A inferência é que DEUS, na sua soberania, usa os mensageiros
de Satanás na vida dos seus servos. As bofetadas de Satanás não anulam os
propósitos de DEUS, mas contribuem para eles. Até mesmo os esquemas
satânicos podem ser usados em nosso benefício e no avanço do reino de
DEUS. O diabo intentou contra Jó para afastá-lo de DEUS, mas só conseguiu
colocá-lo mais perto do Senhor.
DEUS nos conforta em nossas adversidades. A resposta que DEUS deu a Paulo não
era a que ele esperava nem a que ele queria, mas era a que ele precisava. DEUS
respondeu a Paulo que ele não o havia abandonado. Não sofria sozinho. DEUS
estava no controle da sua vida e operava nele com eficácia.
A graça de DEUS é suficiente nas horas de sofrimento. DEUS não deu a Paulo o
que ele pediu; deu-lhe algo melhor, melhor que a própria vida, a sua graça. A
graça de DEUS é melhor que a vida; pois por ela enfrentamos o sofrimento
vitoriosamente. O que é graça? É a provisão de DEUS para cada uma das
nossas necessidades. O nosso DEUS é o DEUS de toda a graça (1Pe 5.10).
Pode ser que DEUS decida que é melhor não remover o sofrimento. De todos os
princípios, esse é o mais difícil. Quantas vezes já pensamos e falamos: “Senhor
por que estou sofrendo? Por que desse jeito? Por que até agora? Por que o
Senhor ainda não agiu?”. Joni Eareckson ficou tetraplégica e numa cadeira
de rodas dá testemunho de JESUS. Fanny Crosby ficou cega com 42 dias e morreu
aos 92 anos sem jamais perder a doçura. Escreveu mais de 4 mil hinos.
Dietrich Bonhoeffer foi enforcado no dia 9 de abril de 1945 numa prisão nazista.
Se DEUS não remover o sofrimento, ele nos assistirá em nossa fraqueza, nos
consolará com sua graça e nos assistirá com seu poder.
Nossa alegria não se baseia na natureza de nossas circunstâncias. O que
determina a vida de um indivíduo não é o que lhe acontece, mas como reage ao
que lhe acontece. Não é o que as pessoas lhe fazem, mas como responde a
essas pessoas. Há pessoas que são infelizes tendo tudo; há outras que são
felizes não tendo nada. A felicidade não está fora, mas dentro de nós. Há
pessoas que pensam que a felicidade está nas coisas: casa, carro,
trabalho, renda. Mas Paulo era feliz mesmo passando por toda sorte de
adversidades (2Co 11.24-27). Mesmo passando por todas essas lutas, é capaz
de afirmar: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas
necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de CRISTO. Porque,
quando sou fraco, então é que sou forte” (2Co 12.10). O mesmo Paulo
comenta em sua carta aos filipenses: “Digo isto, não por causa da pobreza,
porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar
humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias,
já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância
como de escassez” (Fp 4.11,12).
A chave para crescermos nos sofrimentos é vê-los em função do amor por CRISTO.
Paulo sofria por amor a CRISTO. Sua razão de viver era glorificar CRISTO. O que
importava era agradar a CRISTO, servir a CRISTO, tornar CRISTO conhecido.
Jim Elliot, o missionário mártir entre os índios aucas, disse: “Não é tolo
perder o que não se pode reter, para ganhar o que não se pode perder”. DEUS
pode usar até o nosso sofrimento para sua glória. Paulo diz aos filipenses
que as coisas que lhe aconteceram contribuíram para o progresso do
evangelho (Fp 1.12).
Em quarto lugar, o sofrimento é passageiro. O sofrimento deve ser visto à luz
da revelação do céu, do paraíso. O sofrimento do tempo presente não é para se
comparar com as glórias por vir a serem reveladas em nós (Rm 8.18). A
nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória
(2Co 4.14-16). Aqueles que têm a visão do céu são os que triunfam diante do
sofrimento. Aqueles que ouvem as palavras inefáveis do paraíso são os que
não se intimidam com o rugido do leão.
DEUS mostrou a glória da herança antes do fogo do sofrimento. DEUS abriu as
cortinas do céu antes de apontar as areias esbraseantes do deserto. O
sofrimento é por breve tempo; o consolo é eterno. A dor vai passar; o céu
jamais! A caminhada pode ser difícil. O caminho pode ser estreito. Os
inimigos podem ser muitos. O espinho na carne pode doer. Mas a graça de CRISTO
nos basta. Só mais um pouco, e nós estaremos para sempre com o Senhor.
Então o espinho será tirado, as lágrimas serão enxugadas, e não haverá
mais pranto, nem luto, nem dor.
1. STANLEY, Charles. Como lidar com o sofrimento. Belo Horizonte: Betânia,
1995.
Capítulo 09 - Um homem sob ataque
O mesmo Paulo que já havia enfrentado prisões e açoites enfrentará agora uma
série de solavancos existenciais: prisão, acusação e conspiração. Neste
capítulo, vamos examinar a prisão de Paulo em Jerusalém e Cesareia.
Não espere gratidão, mas cadeias e tribulações
Paulo estava indo a Jerusalém para levar as ofertas levantadas entre as igrejas
gentílicas para os pobres da Judeia. Seu coração estava cheio de amor, e suas
mãos, cheias de dádivas. Sua motivação era a mais pura, e seu propósito, o
mais elevado. Porém, os judeus pagaram o bem com o mal. Em vez de
alegrarem-se com sua generosidade, conspiraram contra Paulo para matá-lo.
Paulo testemunha aos presbíteros de Éfeso, na cidade de Mileto, que não sabia o
que aconteceria em Jerusalém, mas o ESPÍRITO SANTO lhe assegurava que de cidade
em cidade cadeias e tribulações o esperavam (Atos 20.22,23). Ao
despedir-se dos presbíteros de Éfeso, Paulo tem o pressentimento de que
não mais veriam o seu rosto (Atos 20.38). Ao chegar a Cesareia, foi fortemente
alertado por um profeta judeu, chamado Agabo, de que seria preso em Jerusalém e
entregue nas mãos dos gentios (Atos 21.10,11). Diante dessa profecia, Lucas e
os irmãos que estavam em Cesareia tentaram demover Paulo de prosseguir
viagem para Jerusalém (Atos 21.12), mas este respondeu: “... Que
fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para
ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor JESUS”
(Atos 21.13). Diante da irredutibilidade de Paulo, os irmãos se
conformaram e capitularam ante a vontade de DEUS (Atos 21.14).
Paulo e sua comitiva partiram, pois, de Cesareia para Jerusalém. Ali chegando,
foram recebidos com alegria pelos irmãos da igreja (Atos 21.16,17). Depois de
dar um minucioso relatório do quanto DEUS fizera por seu intermédio à
liderança da igreja, foi alertado de que os judeus de Jerusalém nutriam
informações distorcidas do seu trabalho missionário. Um boato circulava entre
esses judeus de que Paulo estaria engajado numa missão anti-Moisés,
pervertendo a lei e os costumes judaicos (Atos 21.18-26).
Os judeus vindos da Ásia, ao ver Paulo no templo com seus companheiros de
viagem, alvoroçaram todo o povo e o agarraram, gritando: “... Israelitas,
socorro! Este é o homem que por toda parte ensina todos a serem contra o
povo, contra a lei e contra este lugar; ainda mais, introduziu até gregos
no templo e profanou este recinto sagrado” (Atos 21.28). Paulo foi
arrastado com violência de dentro do templo para fora, as portas foram
fechadas, e a cidade de Jerusalém se amotinou. O intento dos judeus era
matar o apóstolo. Já o espancavam quando o comandante e seus soldados
desfizeram o levante ensandecido. Arrebatado das mãos da multidão
sanguissedenta, Paulo foi acorrentado e passou a ficar sob custódia do
comandante e sua escolta (Atos 21.29-33).
Diante do vozerio ensurdecedor da multidão amotinada, que gritava infrene:
“Mata-o! Mata-o!”, Paulo foi recolhido à fortaleza. Enquanto era carregado para
a fortaleza, pediu permissão para falar ao povo. Da escada da fortaleza,
dirigiu-se à multidão, que silenciosamente o escutou (Atos 21.34-40).
Paulo então dá o seu testemunho, narrando sua trajetória desde o seu nascimento
em Tarso da Cilícia. Falou sobre seus estudos aos pés de Gamaliel em Jerusalém
e de sua implacável disposição de sufocar e exterminar a religião cristã,
ainda no seu nascedouro. Paulo disse à multidão furiosa que um dia também
odiou a religião do Caminho com todas as forças da sua alma. Disse que prendeu
e lançou em cárceres homens e mulheres. Contou que entrava nas sinagogas
para prender e açoitar os que criam em CRISTO. Declarou que esteve por
trás do assassinato do primeiro mártir do cristianismo, o diácono Estêvão.
Contou, de forma vívida, como saíra de Jerusalém rumo a Damasco para
prender e levar manietados os discípulos de CRISTO para Jerusalém. Porém, antes
de prender os cristãos, foi capturado por JESUS, ao ver uma luz
aurifulgente e ouvir uma voz poderosa. Ali, enquanto seus olhos foram
cegados, os olhos da sua alma se abriram, e compreendeu que aquele a quem estava
perseguindo era o próprio Senhor, o Filho de DEUS.
Paulo dirige-se à multidão dizendo que, ao estar em Jerusalém, pregando e
ensinando, foi dispensado pelo próprio DEUS de seu trabalho. DEUS lhe fechava a
porta em Jerusalém, mas abria-lhe uma janela para o mundo. DEUS encerrava seu
ministério entre os patrícios, mas o enviava para longe, aos gentios (Atos
22.1-21). Os judeus ouvem o discurso de Paulo até o momento em que ele faz
referência aos gentios. Então novamente a multidão se alvoroça, a ponto de
gritar e arrojar de si suas capas, atirando poeira para os ares. Por
questão de segurança, Paulo foi recolhido à fortaleza. O comandante,
perplexo diante da situação, mandou que Paulo fosse açoitado para saber os
detalhes de tão inflamada oposição. Nesse momento, o velho apóstolo
valeu-se de seu direito de cidadão romano e evitou que sofresse mais uma
surra (Atos 22.22-30).
Um cordeiro no meio de lobos
Quando o comandante descobriu que Paulo era cidadão romano, passou a tratá-lo
com deferência e convocou os principais sacerdotes e todo o sinédrio a fim de
que Paulo pudesse se explicar. Agora, o mesmo apóstolo que já se havia
defendido diante da multidão alvoroçada, dirige-se ao sinédrio enraivecido.
Bastou que Paulo abrisse a boca para afirmar que estava servindo a
DEUS com boa consciência para que levasse uma bofetada no rosto por ordem
do sumo sacerdote. Os representantes e fiscais da lei quebravam a lei em
nome da lei (Atos 23.1-5).
Com refinada sagacidade, Paulo tirou proveito da divisão interna do sinédrio.
Sabendo que esse egrégio concílio era formado de saduceus e fariseus; sabendo
que os saduceus eram teólogos progressistas e liberais que não acreditavam
na ressurreição nem na existência dos anjos e de espíritos, posicionou-se
como fariseu e disse que estava sendo perseguido por causa das
crenças defendidas pelos fariseus. Essa atitude atraiu imediata simpatia
do grupo dos fariseus, e os dois grupos começaram a se desentender no meio
da reunião. A estratégia de Paulo funcionou. O grupo que estava ali para
ouvi-lo engalfinhou-se em tal celeuma que o comandante resolveu tirar Paulo
do alvoroço e recolhê-lo à fortaleza (Atos 23.6-10).
Uma conspiração ameaçadora
Enquanto quarenta judeus se reuniam para jurar Paulo de morte (Atos 23.12-15),
DEUS se revelou a ele a fim de lhe dar forças e descortinar-lhe novos
horizontes. Na noite seguinte ao alvoroço do sinédrio, recolhido ainda à
fortaleza, o Senhor pôs-se ao lado de Paulo e lhe disse: “...
Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém,
assim importa que também o faças em Roma” (Atos 23.11).
A conspiração dos judeus para matar Paulo foi feita com juramento de que não
comeriam nem beberiam e seriam considerados malditos enquanto não assassinassem
Paulo. Esse pacto foi selado e comunicado aos principais sacerdotes e
anciãos. O comandante deveria trazer Paulo novamente ao sinédrio para uma
investigação mais detalhada. Antes de Paulo chegar à reunião, eles o atacariam
e o matariam (Atos 23.12-15).
Por providência divina, um sobrinho de Paulo descobriu a trama em tempo
oportuno, entrou na fortaleza e avisou a Paulo o que estava acontecendo nos
sórdidos bastidores do sinédrio. Paulo enviou seu sobrinho ao comandante,
e este foi avisado do plano traiçoeiro. Diante das pressões da massa, da
conspiração dos judeus radicais e da parcialidade do sinédrio, o comandante
resolveu enviar Paulo ao governador Félix, sob forte proteção, livrando o
bandeirante do cristianismo de uma morte prematura (Atos 23.16-25).
A prisão de Paulo em Cesareia
Cláudio Lísias escreve uma carta ao governador Félix e, sob a proteção de uma
escolta, envia Paulo a Cesareia, não sem antes dar seu parecer de que Paulo era
inocente e não merecia nem mesmo estar preso, quanto mais ser alvo de uma
conspiração de morte. Lísias informa a Félix que os judeus estavam
determinados a matar Paulo pela engenhosidade da traição por questões
puramente religiosas. E, porque esse velho missionário era cidadão romano,
não o podia entregar ao alvitre de uma turba tão alvoroçada e sanguinária.
Ao chegar a Cesareia, lida a carta de Cláudio Lísias, Félix ouve Paulo e,
sabedor de que ele era da província da Cilícia, recolhe-o à prisão até que seus
acusadores apresentem contra ele a peça de acusação.
Cinco dias depois, o sumo sacerdote Ananias, acompanhado de alguns anciãos e
aparelhado de um orador profissional chamado Tértulo, viaja para Cesareia e
comparece diante do governador para apresentar o libelo acusatório contra
Paulo. Tecendo elogios rasgados ao governador, Tértulo tenta ganhá-lo para
seu lado. Com retórica rebuscada, esse profissional da oratória,
profere acusações pesadas e levianas contra o apóstolo, chamando-o de
peste. Conspurca-lhe o caráter, denigre-lhe o nome, lança sobre sua honra
os mais aviltantes insultos. Desprovido de conhecimento, na contramão dos
fatos, Tértulo falseia a verdade ao dizer que Paulo promovia sedições
entre os judeus dispersos por todo o mundo. Maliciosamente, estadeia diante
do governador a acusação de que Paulo era o principal agitador da seita
dos nazarenos. Ainda acusa Paulo de profanar o templo, razão pela qual os
judeus o prenderam para julgá-lo diante do sinédrio. Em seu discurso
tendencioso, eivado de mentiras escabrosas, Tértulo ainda alfineta o
comandante Cláudio Lísias, dizendo que este havia arrebatado Paulo de suas
mãos com grande violência para enviá-lo a Cesareia.
Cessada a verborragia desse paladino da mentira, Paulo tem a oportunidade de
fazer sua defesa. Com palavras breves, com refinada retórica, o bandeirante do
cristianismo põe por terra o discurso de Tértulo, desmantelando ponto por
ponto todas as acusações assacadas contra ele. Paulo ressalta que o
propósito de sua visita a Jerusalém não foi profanar o templo, mas trazer
generosas ofertas aos pobres da Judeia, levantadas entre as igrejas
gentílicas. Também afirmou que estava sendo acusado pelo sinédrio
exatamente pelas mesmas convicções que os fariseus, membros do
sinédrio, defendiam, qual seja, a doutrina da ressurreição dos mortos.
O governador interessou-se por conhecer um pouco mais o cristianismo, chamado
de religião do Caminho. Mantendo Paulo preso e tratando-o com urbanidade,
aguardou a chegada do comandante Cláudio Lísias para prosseguir com o
julgamento. Nesse ínterim, Félix, acompanhado de sua mulher, uma judia
chamada Drusila, resolve ouvir Paulo particularmente acerca da fé
em CRISTO JESUS. Sem perder a oportunidade, Paulo disserta para o
governador e sua mulher acerca da justiça, do domínio próprio e do juízo
vindouro. Essa mensagem contundente deixa Félix amedrontado. Em vez de curvar-se
ao poder do evangelho, Félix dribla sua consciência, tapa os ouvidos à voz
de DEUS e busca novas oportunidades para receber alguma propina de Paulo, uma
vez que ele havia trazido das províncias da Macedônia e Acaia grandes
somas de dinheiro para os pobres da Judeia.
A prisão de Paulo estendeu-se por dois anos em Cesareia, e nenhuma decisão foi
tomada a seu respeito. Ao cabo desse tempo, o governador Félix foi substituído
por Pórcio Festo. Por interesses pessoais, buscando alcançar o favor dos
judeus, Félix manteve Paulo preso nesses dois anos. A justiça negada a
Paulo em Jerusalém nas mãos dos judeus também lhe foi negada em Cesareia
nas mãos dos romanos. Se Paulo estava sendo alvo de uma conspiração de
morte por parte dos judeus por motivos religiosos, ele estava prestes a
ser entregue à morte pelos romanos por motivos políticos e financeiros. A
justiça estava ausente em ambos os tribunais, judaico e romano.
Ao assumir o governo da província, três dias depois, Festo subiu de Cesareia a
Jerusalém, permanecendo lá cerca de oito a dez dias, tempo suficiente para os
judeus tentarem aliciar o governador, rogando-lhe que enviasse Paulo a
Jerusalém, com a intenção firme de armar ciladas contra ele para matálo.
Não cedendo de imediato ao desiderato dos judeus, Festo instruiu
aos requerentes da pugna que descessem com ele a Cesareia a fim de
apresentarem contra Paulo, no tribunal, suas acusações. Assim foi feito.
Os judeus apresentaram contra Paulo muitas e graves acusações, todas,
porém, sem a evidência de provas. Paulo se defende dizendo que jamais
havia cometido qualquer pecado contra a lei dos judeus, contra o templo ou
mesmo contra César.
Os interesses políticos novamente suplantaram a justiça. Festo, buscando ganhar
o favor dos judeus, disse a Paulo: “... Queres tu subir a Jerusalém e ser ali
julgado por mim a respeito destas cousas?” (Atos 25.9). Os judeus, os
governadores romanos (Félix e Festo), bem como Paulo sabiam que a intenção
de levá-lo a Jerusalém não era seu julgamento pelo critério da verdade, mas a
sua morte promovida por uma cilada judaica. Sem titubear, Paulo responde
ao covarde e tendencioso governador romano: “... Estou perante o tribunal
de César, onde convém seja eu julgado; nenhum agravo pratiquei contra os
judeus, como tu muito bem sabes. Caso, pois, tenha eu praticado algum mal
ou crime digno de morte, estou pronto para morrer; se, pelo contrário, não são
verdadeiras as cousas de que me acusam, ninguém, para lhes ser agradável,
pode entregar-me a eles. Apelo para César” (Atos 25.10,11). A resposta de
Paulo é uma reprovação severa à postura frouxa, covarde e tendenciosa do
governador e um aguilhão na consciência dos judeus. Paulo estava pronto
para morrer, mas não sem antes defender os seus direitos. Estava pronto
para morrer, mas não para servir aos interesses escusos de homens que
vendiam sua consciência por vantagens imediatas.
Diante da impossibilidade de Festo lograr alguma vantagem ou favor político por
parte dos judeus no julgamento de Paulo, o governador atende à solicitação do
apóstolo e decide enviá-lo a Roma (Atos 25.12).
Uma vez que a querela dos judeus contra Paulo não alcançara seu propósito,
Paulo foi guardado na prisão até ocasião oportuna de enviá-lo a Roma. Nesse
ínterim, chegam a Cesareia o rei Agripa e sua mulher Berenice para
saudarem o novo governador romano na província de Cesareia. Compartilhando
com eles o embate dos judeus contra Paulo e reconhecendo que os judeus
não fizeram nenhuma acusação de peso contra o réu, senão aquelas ligadas à
sua religião, Agripa demonstrou interesse em ouvir também esse prisioneiro
que estava causando tanto reboliço.
Numa audiência onde não faltou pompa e luxo, Paulo é trazido à presença de
Agripa. A intenção de Festo era encontrar alguma informação que lhe pudesse
servir de base para construir a peça de acusação contra esse judeu de
cidadania também romana. Paulo então tem permissão para falar. Com
brilhantismo, eloquência e poder, num discurso rebuscado de rara beleza, Paulo
abre o coração para narrar o que JESUS havia feito em sua vida.
Paulo relembra sua vida pregressa quando andava na ignorância e nas trevas.
Naquele tempo, era um carrasco, um perseguidor implacável, um monstro celerado,
pois perseguia com fúria incessante e rigor desmesurado os cristãos. Seu
intento era banir da terra a religião do Caminho, a chamada seita dos
nazarenos, insurgindo-se contra o nome de CRISTO e seus fiéis seguidores. Para
alcançar seu propósito, andou por todas as sinagogas de Israel e nações
vizinhas, açoitando os crentes, manietando-os, forçando-os a blasfemar e
os levando prisioneiros à cidade de Jerusalém. Foi com esse específico
desiderato que, como embaixador do sinédrio judaico, foi a Damasco.
Diante de um auditório atento, Paulo prossegue seu discurso, narrando sua
dramática experiência
no caminho de Damasco. Diz ele que estava ainda no caminho, na entrada de
Damasco, quando subitamente, uma luz aurifulgente caiu sobre ele, uma voz como
de trovão ribombou das alturas e o jogou ao chão, e ele, caído, vencido,
domado, ouviu aquela voz fuzilando seu coração: “... Saulo, Saulo, por que
me persegues? Dura cousa é recalcitrares contra os aguilhões” (Atos 26.14).
Já transformado e convertido, perguntou: “... Quem és tu, Senhor?...”. E
Senhor respondeu: “... Eu sou JESUS, a quem tu persegues” (Atos 26.15).
De forma vívida, Paulo mostrou ao seu seleto auditório como JESUS o havia
tirado das trevas para a luz e o havia enviado aos gentios para abrir-lhes os
olhos da alma, anunciando-lhes a luz de CRISTO. Em seu discurso, Paulo deu
testemunho da ressurreição de CRISTO, deixando claro que o mesmo JESUS que
havia vencido a morte também transformara sua vida e o comissionara a ser
um instrumento para a salvação dos gentios. Nesse momento, o governador
Festo o interrompeu em alta voz: “... Estás louco, Paulo! As muitas letras
te fazem delirar” (Atos 26.24). Mas Paulo respondeu com firmeza: “... Não
estou louco, ó excelentíssimo Festo! Pelo contrário, digo palavras de verdade
e bom senso” (Atos 26.25).
Então Paulo volta-se para o rei Agripa, encurrala-o dentro das cercas da sua
própria consciência e pergunta-lhe: “Acreditas, ó rei Agripa, nos profetas? Bem
sei que acreditas” (Atos 26.27). Agripa, que era testemunha de todas
aquelas verdades, tentando escapar, procurando fugir do cerne da questão e
livrar-se das mãos do DEUS Todo-Poderoso, tergiversa, atalha, contorna, fica em
cima do muro e diz: “... Por pouco me persuades a me fazer cristão” (Atos
26.28).
Agripa sente-se comovido. Na verdade, o testemunho de Paulo era verdadeiro.
Agripa está cônscio de que CRISTO é o Salvador do mundo, mas, movido pelo
orgulho, não abre seu coração. Com medo de perder seu prestígio político,
abafa a voz da consciência, envergonhado de render-se à verdade. Agripa
perde a grande oportunidade de sua vida e rejeita o evangelho. Ao recusar-se
a crer em JESUS, fechou atrás de si a única porta da salvação e deixou de
colocar os pés no único caminho que poderia reconciliá-lo com DEUS. Agripa
ficou no quase, e o quase o deixou imerso nas trevas mais espessas.
A audiência chegou ao fim, os convidados se dispersaram, e a opinião de Agripa
é a de que Paulo poderia ter sido solto caso não tivesse apelado para César. Ir
a Roma não era apenas um desejo de Paulo, mas também um propósito de DEUS.
E para lá é que o apóstolo dos gentios deve ir.
Capítulo 10 - A viagem de Paulo a Roma
Nós escolhemos o destino da nossa viagem, mas não a maneira de chegarmos lá.
Planejamos as coisas, mas não temos o poder de garantir sua execução. Muitas
vezes, planejamos uma coisa e acontece outra. Fazemos planos, mas a resposta
certa vem do Senhor. O sonho de Paulo era ir a Roma, mas ele chega à
cidade de Roma preso, depois de um naufrágio, após perder tudo.
A nossa vida é como uma viagem, às vezes tempestuosa. Muitos escritores têm
retratado a vida como uma viagem. Homero, em seu livro Odisseia1, descreve a
vida como uma viagem. John Bunyan, em seu livro O peregrino2, descreve a
vida do cristão como a caminhada de um homem pelos perigos até chegar ao
Paraíso. Na jornada da vida, passamos por caminhos cheios de
espinhos, despenhadeiros íngremes, pântanos lodacentos, pinguelas
estreitas e desertos causticantes.
Essa viagem de Paulo a Roma não é uma alegoria, mas uma dramática realidade,
com muitas lições oportunas.
Mesmo quando estamos fazendo a vontade de DEUS e também a nossa, encontramos
tempestades pela frente. O sonho de Paulo era ir a Roma e, dali, à Espanha (Rm
1.14-16 ; 15.28). Quando Paulo foi preso em Jerusalém, DEUS lhe disse que
queria que ele desse testemunho também em Roma (Atos 23.11). Portanto, era
da expressa vontade de DEUS que Paulo fosse a Roma. Mas, quando ele
embarcou para Roma, enfrentou uma terrível tempestade. Nem sempre estaremos
na contramão da vontade de DEUS quando enfrentarmos tempestades. Quando
estivermos passando por tempestades, DEUS estará nos guiando. Quando
nossos olhos estiverem embaçados pelas brumas espessas e pelo nevoeiro
denso da tempestade, podemos ter a garantia de que a mão de DEUS
ainda estará nos dirigindo. DEUS enxerga no escuro. A tempestade pode
arrancar o leme das nossas mãos, e o nosso navio pode estar fora do nosso
controle, mas não fora do controle de DEUS. Podemos chegar como náufragos
em uma ilha, tendo apenas a vida como despojo, mas DEUS ainda estará
nos guiando para realizarmos seus soberanos propósitos (Atos 27.26). Este
texto nos apresenta quatro verdades importantes: Em primeiro lugar, nas
tempestades da vida precisamos estar atentos às placas de sinalização de
DEUS (Atos 27.9-20). A segurança de uma viagem depende da obediência à
sinalização no caminho. Desobecer à sinalização é entrar em rota de
colisão e enveredar-se por caminhos de morte. Há quatro fatos dignos de
nota neste texto:
A advertência (Atos 27.10). Quando Paulo e seus companheiros de viagem
embarcaram para Roma, a viagem parecia segura e tranquila. Era um bom barco.
Havia um comandante e marinheiros experientes. Os passageiros estavam em
segurança. Mas, logo que começaram a viagem, começaram a soprar os ventos
contrários (Atos 27.4). Chegou a um ponto que Paulo os admoestava, dizendo:
“... vejo que a viagem vai ser trabalhosa, com dano e muito prejuízo, não só da
carga e do navio, mas também da nossa vida” (Atos 27.10).
Eles não ouviram o conselho de Paulo, e logo veio um tufão e tirou o navio da
mão deles. A maioria dos acidentes é provocado por pessoas que transgridem as
leis, não observando as placas e as advertências à beira do caminho. Dessa
maneira, elas põem em risco a sua vida e a dos outros. Um carro pode ser
uma arma mortal se o seu condutor não atentar para as placas de sinalização.
Em dezembro do ano 2000, fiz uma viagem de carro com a família, de Jackson,
Mississippi, à cidade de Boston, Massachusetts. Naquela semana, os noticiários
alertavam para o perigo das estradas. Estava chovendo e também nevando.
Preocupado com a longa viagem de mais de 2 mil quilômetros, pensei em
desistir. Mas, não desejando frustrar o grande amigo pastor Dalzir da
Silva, que me havia convidado para pregar em sua igreja, resolvi iniciar a
viagem. Saímos bem cedo e, por volta do meio-dia, paramos para almoçar já
no Estado de Alabama. Por volta das 13h30, reiniciamos a viagem. A
temperatura estava abaixo de zero, e uma chuva fina caía no asfalto.
De repente, entrei numa longa ponte e avistei que no final dela havia uma
aglomeração de pessoas. Segundos depois, percebi que o carro estava sem
controle. Não havia aderência, estávamos em cima de uma fina crosta de
gelo. O carro, desgovernado, girava sobre a ponte, fazendo piruetas,
enquanto clamávamos, aflitos, pela intervenção de DEUS. Em questão de
segundos, atravessamos a ponte, e o carro bateu de lado no para-choque de
uma picape, que também havia se desgovernado, e foi parar numa vala, entre
as duas pistas. O automóvel arrebentou-se todo, mas, pela providência
divina, fomos poupados da morte. Naquele dia, pude compreender que não é
seguro viajar sem observar os sinais de perigo.
O descrédito (Atos 27.11). A Bíblia diz: “Mas o centurião dava mais crédito ao
piloto e ao mestre do navio do que ao que Paulo dizia”. O centurião deve ter
pensado: esse Paulo pode saber alguma coisa de Bíblia, mas não entende
nada de mar. Assim, o centurião desprezou a advertência de Paulo
e prosseguiu viagem. Não é seguro seguir pelas estradas da vida sem
observar os sinais.
A voz da maioria nem sempre é a voz de DEUS (Atos 27.12). A maioria deles era
de opinião que partissem e não ouvissem o conselho de Paulo. A maioria nem
sempre está com a razão. A maioria nem sempre discerne a vontade de DEUS.
Seguir a cabeça da maioria pode nos colocar em grandes encrencas.
Quem não escuta conselho, escuta coitado (Atos 27.13-20). O insensato tapa os
ouvidos aos conselhos e colhe os frutos amargos da sua desobediência. Há cinco
resultados colhidos dessa indisposição de ouvir a advertência.
Primeiro, a aparente segurança (Atos 27.13). Logo que zarparam de Creta, em
desobediência à advertência de Paulo, perceberam que soprava um vento brando, e
o mar estava esmaltado por águas tranquilas. Certamente, deve ter havido
um buchicho dentro do navio, zombando dos conselhos de Paulo. O vento
brando faz muita gente confundir as circunstâncias da vida. Por
um momento, parecia que Paulo estava errado e a maioria, certa.
Segundo, o perigo (Atos 27.14). Depois do vento brando, repentinamente a
circunstância mudou, e surgiu um tufão. A crise chegou. O mar se revoltou.
Sempre que deixamos de observar as placas de DEUS ao longo da estrada da
vida, corremos o risco de sérios acidentes. De repente, o tufão chega,
a vida se transtorna, e tudo vira de cabeça para baixo. Os acidentes
acontecem repentinamente. Eles surgem inesperadamente. Basta seguir no
caminho sem observar as placas que mais cedo ou mais tarde o acidente
acontecerá.
Terceiro, a impotência (Atos 27.15). A fúria dos ventos era tão rigorosa que
eles perderam o controle do navio. O navio já não obedecia mais ao comando. O
leme já não estava mais nas mãos daqueles que conduziam o batel. O navio
ficou à deriva. As coisas fugiram do controle, e a vida ficou de
ponta-cabeça.
Quarto, o prejuízo (Atos 27.18,19). Precisaram aliviar o navio e jogar seus
bens fora para salvar a vida. Houve um grande prejuízo e muitas perdas
financeiras. O caminho da desobediência é um caminho de muitos desastres,
inclusive financeiro. Singrar as águas para a viagem da vida sem atender
às advertências de DEUS é candidatar-se ao naufrágio.
Quinto, a desesperança (Atos 27.20). Diz o historiador Lucas que “dissipou-se,
afinal, toda a esperança de salvamento”. O centurião, os marinheiros, a
tripulação e os 276 prisioneiros que estavam embarcados naquele navio
perderam completamente a esperança de sobrevivência. A morte parecia
inevitável. Eles haviam chegado ao fim da linha, ao fundo do poço, ao
desespero fatal.
Em segundo lugar, nas tempestades da vida precisamos olhar para DEUS, e não
para as circunstâncias (27.21-44). O desânimo é epidêmico; ele é capaz de tirar
o oxigênio da esperança de todos em questão de segundos. Apenas dez espias
incrédulos levaram toda uma nação ao fracasso no deserto. O relato
pessimista de dez homens provocou a morte de mais de 1 milhão de pessoas e
transformou o deserto do Sinai no maior cemitério da história. A história
de Israel seria muito diferente se apenas os dois espias confiantes em
DEUS, Josué e Calebe, tivessem relatado os acontecimentos à nação. Vejamos
algumas verdades sublimes:
Na tempestade, precisamos encorajar as pessoas (Atos 27.21,22). Quando toda a
esperança se dissipou, Paulo se posicionou como um agente da vida. Ele não
ficou dizendo: Eu avisei, benfeito! Agora estamos perdidos. Agora vamos
morrer todos. Agora vocês se virem. É fácil pisar em quem já está caído. É
fácil esmagar a cana quebrada. É fácil atar mais um fardo de culpa sobre aquele
que já está derrotado pelas circunstâncias da vida. Paulo procurou uma
alternativa para mudar a crise. Na tempestade, não procure culpados;
procure solução. Todo problema traz uma semente de vitória!
Na tempestade, abandone o medo (Atos 27.22). No fragor da tempestade, quando
todos estavam desesperados, Paulo disse: “...já agora, vos aconselho bom
ânimo”. Paulo não está tomado de medo; ele está tomado de fé. O medo é
inimigo da fé. O medo aumenta a sensação de perigo, drena suas forças e
embaça os seus olhos.
Na tempestade, abra seus olhos para a intervenção de DEUS (Atos 27.23-26).
Lembre-se, quando você estiver na sua noite mais escura, pensando que está
sozinho, DEUS está com você. Ele é DEUS Emanuel, que não vai embora na
hora da sua crise. Na jornada da fé, tem tempestade, mas também tem DEUS
conosco. Tem fornalha ardente, mas tem o quarto Homem. Tem cova de leões, mas
tem
o anjo do Senhor fechando a boca dos leões. DEUS não desampara você. Ele está
com você. Paulo disse: “Porque, esta mesma noite, um anjo de DEUS, de quem eu
sou e a quem sirvo, esteve comigo, dizendo: Paulo, não temas! [...]
Portanto, senhores, tende bom ânimo! Pois eu confio em DEUS que sucederá
do modo por que me foi dito” (Atos 27.23-25).
Na tempestade, precisamos lançar nossas âncoras (Atos 27.29). Na hora das
nossas lutas, precisamos lançar as nossas âncoras. Eles lançaram quatro
âncoras. Quais são essas âncoras?
Primeiro, a âncora da fé. Na tempestade, creia que DEUS está no controle. Ele
ainda não completou a obra na sua vida. O último capítulo da sua vida ainda não
foi escrito. Edméia Williams, uma grande amiga e irmã, pregadora das mais
ilustradas, tem um ministério social de grande envergadura no morro Santa
Marta, no Rio de Janeiro. Ela construiu um barraco de tábuas nesse morro
para cuidar de crianças carentes. Um dia, caiu um grande temporal, e o barraco
desabou. Lá estava a imprensa e muita gente questionando por que o único
barraco que havia caído era o barraco da Missão Evangélica. Edméia chorou
e perguntou: “DEUS, como vai ficar a tua honra?”. DEUS então segredou ao
seu coração: “Para construir um edifício de três andares, eu preciso
derrubar esse barraco de tábuas”. Edméia construiu um prédio de três
andares no lugar em que estavam os escombros daquele barraco de tábuas.
Quando as coisas parecem confusas, perdidas e olhamos para a vida e vemos
um montão de escombros, DEUS pode levantar desses escombros um projeto maior
e mais seguro. Em lugar de um barraco, DEUS pode lhe dar um prédio!
Segundo a âncora da esperança. Uma coisa é lançar a âncora da esperança quando
tudo dá certo; outra coisa é esperar em DEUS quando tudo parece errado. A
Bíblia diz que Abraão esperou contra a esperança. Ele empurrou um carrinho
de bebê aos 99 anos, mesmo sabendo que sua mulher nongentésima era
estéril. Ele creu e esperou em DEUS apesar das circunstâncias, e DEUS o fez pai
de grandes multidões. Em vez de lamentar e murmurar, espere em DEUS.
Aquiete a sua alma, e saiba que DEUS é poderoso para o guardar da fúria
dessa tempestade.
Terceiro, a âncora da oração (Atos 27.29). Quando os recursos da terra acabam,
os recursos de DEUS continuam ilimitados. Quando o homem trabalha, o homem
trabalha; mas, quando o homem ora, DEUS trabalha. Eles começaram a orar
para o dia romper. Ore para o seu dia romper. Ore para que a luz chegue. O
choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã. Quando o
dia amanheceu (Atos 27.39), eles chegaram a uma ilha. Eles perderam tudo,
mas se agarraram à vida como o maior patrimônio. DEUS nos leva para onde
nós nunca esperamos, para a realização de seus planos soberanos.
Quarto, a âncora da certeza (Atos 27.26). Paulo disse aos náufragos: “... é
necessário que vamos dar a uma ilha”. Existem coisas que são necessárias. Era
necessário dar a uma ilha (Atos 27.26), porque ali DEUS tinha um campo
missionário para o apóstolo Paulo. É necessário passar pela tempestade.
Esse necessário de DEUS levou Paulo para uma ilha como sobrevivente, como
náufrago, sem nada. Às vezes, as pessoas pensam que vamos sair da tempestade
ricos e abastados, mas Paulo saiu dessa tempestade só com a vida, e foi a
partir daí que DEUS começou um novo projeto em sua história!
Em terceiro lugar, nas tempestades da vida precisamos nos distinguir dos demais
(Atos 28.1-6). A tempestade é como uma encruzilhada: uns tomam o caminho certo,
outros seguem pelas veredas da morte. A crise sempre revela quem somos:
ela aponta os vencedores e denuncia os covardes. É do ventre da crise que
surgem os maiores líderes. O texto em apreço ensina-nos quatro preciosas
lições.
Aproxime-se da fogueira (Atos 28.1,2). Quando chegaram à ilha de Malta, estava
chovendo e fazendo frio (Atos 28.2). Os bárbaros malteses cuidaram daqueles
tripulantes e de 276 prisioneiros com singular humanidade, acendendo uma
fogueira para eles. Na tempestade, precisamos lutar pela vida. Não adianta
ficar revoltado com a crise, perder o ânimo de continuar lutando. Não
adianta desesperar-se nem revoltar-se contra DEUS. Há pessoas que, quando
começam a ter lutas, procuram se afastar da luz, fecham o coração para
DEUS, endurecem a cerviz e se unem com gente ainda mais amargurada. A luta
não é um ponto final, mas uma escada para você ir de fé em fé, de força
em força e de glória em glória. Na tempestade, volte-se para DEUS. Mantenha
seu coração aquecido pela devoção. Não desista de lutar pela vida,
glorifique a DEUS. Aproxime-se do calor.
Cate gravetos para alimentar a fogueira (Atos 28.3). O centurião, os
marinheiros e os presos estavam todos apenas desfrutando do calor da fogueira.
Eles só estavam pensando em resolver o problema imediato e nada fizeram
para alimentar aquela fogueira. Paulo, porém, buscou gravetos para
jogar na fogueira. Ele disse: eu vou ajudar, vou arranjar mais combustível
para esse fogo. Você precisa fazer investimento para o futuro. Você
precisa de azeite na sua candeia. Você precisa de combustível para
alimentar as chamas que o aquecem.
As víboras estão soltas; cuidado com elas (Atos 28.3). As víboras se
manifestarão quando você estiver buscando aquecer sua vida. Quando Paulo estava
jogando um feixe de gravetos na fogueira, uma víbora grudou na mão dele.
Então os malteses disseram: “... Certamente, este homem é
assassino, porque, salvo do mar, a Justiça não o deixa viver” (Atos 28.4).
Os malteses, sem saber, estavam desenterrando o passado de Paulo. De fato,
ele tinha sido um assassino. Ele foi um cruel perseguidor da igreja.
Quando o sinédrio apedrejou o diácono Estêvão, os algozes depositaram
suas vestes aos pés de Paulo. Quando, porém, o diabo vier lembrar a você o
seu passado, lembre-o do futuro dele. O seu passado já foi resolvido na
cruz. Lá seus pecados foram cancelados. Mas o futuro do diabo é o lago de
fogo, onde será atormentado eternamente.
Jogue a víbora no fogo (Atos 28.5). Paulo balançou a mão e jogou a víbora no
fogo. Ele tirou o veneno da sua vida. Use o escudo da fé e apague esses dardos
inflamados do diabo. Não abra brechas em sua vida para essas investidas do
inimigo. A especialidade do inimigo é lançar veneno. O diabo é a antiga
serpente. Essa serpente é sagaz, sedutora e mortífera. Precisamos lançar a
víbora no fogo e sacudir de nós esse veneno!
Em quarto lugar, nas tempestades da vida precisamos ser fortalecidos pelas
promessas de DEUS (Atos 28.2-10). O texto em apreço tem quatro promessas
preciosas que são tônico para o coração e lenitivo para a alma.
DEUS pode levantar pessoas desconhecidas para ajudar você (Atos 28.2). DEUS
levantou os bárbaros para ajudar Paulo e seus companheiros de viagem. DEUS pode
levantar os ímpios, seus parentes, gente de longe, para abençoar você,
para ajudá-lo em sua crise. DEUS pode fazer coisas inusitadas
para socorrê-lo em sua aflição. Quando os seus recursos acabam, os
celeiros de DEUS ainda continuam abarrotados. Ponha sua confiança no
provedor, mais do que na provisão.
DEUS é poderoso para o proteger de todo o mal (Atos 28.6). “mas eles esperavam
que ele viesse a inchar ou a cair morto de repente...”. O poder do livramento
de DEUS é maior do que o veneno da víbora. Maior é aquele que está em nós
do que aquele que está no mundo. DEUS é o nosso escudo. Ele é o nosso
protetor. Estamos escondidos com CRISTO em DEUS. Ele é a nossa cidade-refúgio.
Estamos seguros nos braços do Eterno.
Aqueles que rotularam você terão de mudar de parecer a seu respeito (Atos
28.6). As mesmas pessoas que disseram que Paulo era um assassino, que esperavam
que ele fosse inchar e cair morto, mudaram de parecer acerca dele. Quando
você cuida do seu caráter, DEUS cuida da sua reputação. Quando você anda
de forma irrepreensível, os críticos terão de se render à verdade incontroversa
de que você é de DEUS e terão de mudar de parecer a seu respeito.
A ilha do seu naufrágio pode ser a terra da sua oportunidade (Atos 28.10).
Paulo chegou a Malta como um prisioneiro e um náufrago, depois de perder tudo.
Mas ele ora pelo pai de Públio, o homem principal da ilha, e ele é curado
(Atos 28.8). À vista disso, os demais enfermos da ilha vieram, e
foram curados (Atos 28.9). Então abastecem Paulo de tudo o que ele
precisava para sua viagem a Roma. Agora, podemos entender por que Atos
27.26 diz que era necessário a Paulo dar a uma ilha. A ilha de Malta não
era um acidente, mas uma agenda. Não foi a tempestade que os levou a Malta, mas
a mão providente de DEUS. A ilha de Malta estava nos planos de DEUS.
Quando você vir as coisas fugindo de controle e sua vida à deriva, saiba
que a mão de DEUS pode estar conduzindo o barco da sua vida para que você
cumpra propósitos mais elevados. Quando você olhar para o cenário da
vida e só enxergar escuridão e não conseguir mais enxergar a luz do céu
nem o brilho das estrelas, saiba que DEUS enxerga no escuro e ele está
dirigindo você para o centro da sua soberana vontade. Um milagre de DEUS
está a caminho, na sua direção. O que é dificuldade para você é oportunidade
para DEUS. Glorifique o Senhor!
1. HOMERO. Odisseia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.
2. BUNYAN, John. O peregrino. São Paulo: Mundo Cristão, 2000.
Capítulo 11 - A primeira prisão em Roma
Paulo desejou ir a Roma várias vezes, mas sempre foi impedido de realizar seu
sonho (Rm 1.1-13). Queria chegar à capital do império e visitar os crentes com
alegria para recrear-se no meio deles (Rm 15.32). Tinha convicção de que
chegaria à igreja de Roma na plenitude da bênção de CRISTO (Rm 15.29).
Também desejava fazer da igreja de Roma seu novo quartel general, sua
base missionária para chegar à Espanha, última fronteira do império do
lado ocidental (Rm 15.24,28).
O tempo de DEUS não é o nosso. Paulo foi impedido de ir a Roma no tempo que
queria ir e da forma que desejava. Porque não pôde visitar a igreja de Roma
dentro desse tempo planejado por ele, acabou escrevendo à igreja. Se Paulo
tivesse visitado a igreja, talvez fôssemos privados desse grande tesouro
que é sua carta aos Romanos. Quando nossos caminhos parecem fechados,
DEUS está abrindo-nos uma porta maior. Os propósitos de DEUS não podem ser
frustrados. Os caminhos de DEUS são mais altos do que os nossos. Os
impedimentos de DEUS estavam na agenda de DEUS para um benefício maior,
não apenas da igreja de Roma, mas de todos os cristãos, de todos
os tempos.
Contudo, a visita de Paulo a Roma não era apenas sonho de Paulo; era também
projeto de DEUS. Quando Paulo foi preso em Jerusalém, ao testemunhar
ousadamente perante o sinédrio judaico, o próprio DEUS apareceu a ele numa
visão e lhe disse: “... Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a
meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma” (Atos
23.11).
Diante da pusilanimidade do rei Festo, que estava inclinado a ceder à pressão e
sedução dos judeus para entregar Paulo nas mãos de seus patrícios, este apelou
para ser julgado em Roma (Atos 25.10), no que foi imediatamente atendido (Atos
25.12).
Como vimos no capítulo anterior, sua viagem para Roma foi tumultuada e cheia de
percalços. Paulo chegou a Roma como um prisioneiro depois de enfrentar um
terrível naufrágio. Durante dois anos, ficou detido numa prisão domiciliar
em Roma (Atos 28.30), na companhia de um soldado da guarda pretoriana, que
o guardava (Atos 28.16; Fp 1.13). Nessa prisão domiciliar, numa casa
alugada por ele mesmo, tinha liberdade para receber as pessoas e
instruí-las (Atos 28.23). Nesse tempo, pregou o reino de DEUS com toda a
intrepidez, e sem nenhum impedimento ensinava as coisas referentes ao
Senhor JESUS CRISTO (Atos 28.31).
Paulo, um escritor prolífico
Paulo foi o maior escritor da nova dispensação. Escreveu treze dos 27 livros do
Novo Testamento. De Corinto, escreveu suas duas cartas à igreja de Tessalônica,
nas quais fez uma sublime abordagem sobre a escatologia, a doutrina das
últimas coisas, e a carta aos gálatas, uma consistente e robusta defesa da
fé cristã. De Éfeso, escreveu suas duas cartas a Corinto. A primeira carta
para resolver sérios problemas que estavam minando a igreja, como divisões,
intrigas, imoralidade, desvios quanto à liberdade cristã, à doutrina da
ceia, dos dons e da ressurreição. Na segunda carta, a missiva mais pessoal
do apóstolo, ele faz uma defesa contundente do seu apostolado. No fim da
terceira viagem missionária, antes de viajar para Jerusalém, possivelmente
de Corinto, escreveu sua carta aos romanos, o maior tratado teológico do
Novo Testamento.
De sua primeira prisão em Roma, Paulo escreveu quatro cartas: Efésios,
Filipenses, Colossenses e Filemom. A carta aos efésios é o maior tratado
eclesiológico do Novo Testamento. A carta aos colossenses foca sua atenção
na doutrina de CRISTO, sendo um robusto compêndio de cristologia. A carta
a Filemom é uma epístola pessoal do apóstolo, dirigida a um crente de Colossos,
cuja igreja se reunia em sua casa. Paulo escreve a Filemom para realçar a
necessidade de ele perdoar o seu escravo fugitivo, Onésimo, agora
convertido e filho na fé do velho apóstolo. Sua última carta da
primeira prisão foi Filipenses. Esta é a missiva da alegria. Nessa carta,
Paulo testemunha que as coisas que lhe aconteceram contribuíram para o
progresso do evangelho (Fp 1.12). Que coisas aconteceram a Paulo? Ele foi
perseguido em Damasco, rejeitado em Jerusalém, esquecido em Tarso,
apedrejado em Listra, açoitado e preso em Filipos, escorraçado de
Tessalônica, enxotado de Bereia, chamado de tagarela em Atenas e de
impostor em Corinto. Enfrentou feras em Éfeso, foi preso em Jerusalém,
acusado em Cesareia. Enfrentou um naufrágio na viagem para Roma e foi picado
por uma cobra em Malta. Chegou a Roma preso e algemado. Estava, agora, na antessala
do martírio, no corredor da morte, com o pé na sepultura e a cabeça na
guilhotina de Roma. Mas olhava para essas circunstâncias pelos óculos da
providência divina, dizendo que elas, longe de destruí-lo, contribuíram
para o progresso do evangelho.
Paulo, um embaixador em cadeias
Paulo jamais se considerou prisioneiro de César, mas prisioneiro de CRISTO.
Jamais murmurou atribuindo a Satanás suas cadeias. Embora Satanás tenha
intentado contra ele, nunca Paulo o considerou como o agente de seus
sofrimentos. Quem estava no comando de sua agenda não era o inimigo, mas
DEUS. Paulo não acreditava em casualidade nem em determinismo. Ele sabia que
a mão da Providência o guiava até mesmo na prisão. Ele foi perseguido,
odiado, caluniado, açoitado, enclausurado, mas jamais viu os seus
adversários como agentes autônomos nessa empreitada. Ele sempre olhou para
os acontecimentos na perspectiva da soberania e do propósito de
DEUS. Considerava-se embaixador em cadeias. Estava preso, mas a Palavra de
DEUS estava livre. Paulo considerava o evangelho mais importante que o
evangelista; a obra, mais importante que o obreiro. A divulgação do
evangelho é mais importante que o mensageiro. Por isso, na prisão Paulo foca
sua atenção na proclamação do evangelho, e não em si mesmo. Não importa se
o obreiro vive ou morre, desde que o evangelho seja anunciado (Fp 1.20). Porque
ele estava preso, três coisas maravilhosas aconteceram:
Em primeiro lugar, a igreja tornou-se mais ousada para pregar. Eis o testemunho
do veterano apóstolo: “e a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas
algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de DEUS” (Fp 1.14). A
perseguição não pode destruir a obra de DEUS. Pelo contrário, ela a
promove. A igreja de DEUS jamais foi destruída por tribulações e cadeias.
As cadeias de Paulo foram um tônico para a igreja, combustível para
alimentar a evangelização.
Em segundo lugar, toda a guarda pretoriana conheceu o evangelho. Paulo faz o
seguinte registro: “de maneira que as minhas cadeias, em CRISTO, se tornaram
conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais” (Fp 1.13). A
guarda pretoriana era corporação de elite do palácio do imperador. Era a
guarda de escol do império, a guarda imperial de Roma. Era a tropa de elite
instalada no palácio do imperador. Tratava-se de soldados que transitavam
no palácio e cuidavam da proteção do próprio imperador. Foi instituída por
Augusto e compreendia um corpo de 10 mil soldados escolhidos. Augusto a
havia mantido dispersa por toda a Roma e aldeias. Tibério a concentrou
em Roma, em um edifício especial com um campo fortificado. Vitélio
aumentou o número dessa guarda para 16 mil. Ao final de dezesseis anos de
serviço, esses soldados recebiam a cidadania romana. Essa guarda passou a
ser quase o corpo de guarda privado do imperador. Nos dois anos em que
Paulo ficou preso em Roma, aproveitou o ensejo para evangelizar cada soldado
encarregado de sua segurança. O rodízio dessa guarda era um verdadeiro
campo missionário para o embaixador em cadeias. Ao cabo de dois anos, toda
a guarda pretoriana e todos os demais ouviram as boas-novas do evangelho.
Dia e noite, durante dois anos, Paulo era preso a um soldado dessa guarda por
uma algema. Visto que cada soldado cumpria um turno de seis horas, a
prisão de Paulo abriu caminho para a pregação do evangelho no regimento
mais seleto do exército romano, a guarda imperial. Paulo, no mínimo, podia
pregar para quatro homens todos os dias. Toda a guarda pretoriana sabia
a razão pela qual Paulo estava preso, e muitos desses soldados foram
alcançados pelo evangelho. O resultado é que Paulo encontrou um campo
aberto para a evangelização dentro do próprio palácio. Quando escreveu sua
carta aos filipenses, ao remeter saudações à igreja de Filipos, os crentes
de Roma enviam saudações àquela igreja coirmã, e Paulo assim escreve:
“Todos os santos vos saúdam, especialmente os da casa de César” (Fp 4.22).
Em terceiro lugar, Paulo escreveu cartas que abençoam o mundo. Porque Paulo
estava preso, impedido de visitar as igrejas, escreveu cartas. Porque ele era
prisioneiro de CRISTO (Ef 3.1; 4.1) e embaixador em cadeias (Ef 6.20),
pastoreou as igrejas a distância por meio de suas missivas.
Essas epístolas (Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom) são
verdadeiros tesouros que têm edificado a igreja e fortalecido os cristãos
ao longo dos séculos. Certamente o que mais contribuiu para o progresso do
evangelho foram essas cartas que Paulo escreveu da prisão. Elas são luzeiros a
brilhar. Têm sido instrumento para levar milhões de pessoas a CRISTO e
edificar o povo de DEUS ao longo dos séculos.
Dessa prisão, Paulo saiu. E, ao sair, visitou as igrejas, deixando Timóteo em
Éfeso, Tito em Creta, e percorrendo outras regiões, sempre levando a edificação
ao povo de DEUS. Alguns escritores pensam que nesse tempo Paulo também
visitou a Espanha.
No espaço entre sua primeira e segunda prisões, Paulo escreveu duas cartas
pastorais: a primeira carta a Timóteo e a carta a Tito, nas quais orientou seus
cooperadores como proceder na igreja de DEUS.
O velho apóstolo era como uma vela acesa: brilhava com a mesma intensidade até
acabar. Paulo era um homem incansável, um espírito irrequieto, um evangelista
superlativo, um pregador incomparável. Depois de plantar igrejas nas quatro
províncias romanas - Galácia, Macedônia, Acaia e Asia Menor -, deixa também sua
marca na igreja de Roma, ainda que recolhido a uma prisão.
Paulo não granjeou riquezas, mas enriqueceu muitos. Paulo não tinha nada, mas
possuía tudo. Paulo não teve filhos naturais, mas gerou milhares de filhos
espirituais. Paulo não se casou, mas orienta em suas cartas milhões de
casais ainda hoje. Suas cartas inspiradas são monumentos da graça. Seu
exemplo, um legado para a igreja em todos os tempos. Suas cadeias, fonte de
inspiração para todos os cristãos. Sua morte, uma oferta de libação ao
Senhor.
Capítulo 12 - A segunda prisão em Roma e o martírio
A primeira prisão de Paulo foi por motivação religiosa; a segunda, por motivos
políticos. A primeira prisão estava ligada à perseguição judaica; a segunda,
vinculada ao decreto do imperador. Da primeira prisão, Paulo saiu para dar
continuidade à obra missionária; da segunda prisão, para o martírio.
No ano 49 d.C., o imperador Cláudio expulsou de Roma todos os judeus (Atos
18.2). Muitos deles, a essa altura, já eram cristãos. Mas no ano 64 d.C. houve
um terrível incêndio em Roma, e o imperador Nero pôs a culpa dessa
tragédia nos judeus e cristãos.
Nero chegou ao poder em outubro do ano 54. Insano, pervertido e mau, era filho
de Agripina, mulher promíscua e perversa. Na noite de 18 de julho de 64, um
incêndio catastrófico estourou em Roma. O fogo durou seis dias e sete
noites. Dez dos quatorze bairros da cidade foram destruídos pelas chamas
vorazes.
Segundo alguns historiadores, o incêndio foi provocado pelo próprio Nero, que
assistiu a ele do topo da torre de Mecenas, no cume do Paladino, vestido como
um ator de teatro, tocando sua lira e cantando versos acerca da destruição
de Troia. Pelo fato de dois bairros onde havia grande concentração de
judeus e cristãos não terem sido atingidos pelo incêndio, Nero encontrou uma
boa razão para culpar os cristãos pela tragédia.
Daí em diante, eclodiu uma sangrenta perseguição contra os cristãos. No governo
de Nero, o apóstolo Paulo foi preso e decapitado. Muitas foram as atrocidades e
crimes bárbaros que foram perpetrados contra os cristãos nessa época.
Milhares foram amarrados em postes e incendiados vivos, para iluminar as praças
e os jardins de Roma à noite. Outros, segundo o historiador Tácito, foram
jogados nas arenas, enrolados em peles de animais, para que cães famintos
os matassem a dentadas. Outros, ainda, foram lançados no picadeiro para
que touros enfurecidos os pisoteassem e esmagassem. A loucura de Nero só não
foi mais longe porque em 68 boa parte do império se rebelou contra ele, e
o senado romano o depôs. Desesperado, sem ter para onde ir, suicidou-se.
No tempo em que explodiu essa brutal perseguição, Paulo estava fora de Roma,
visitando as igrejas. Por ser o líder maior do cristianismo, tornou-se alvo
dessa ensandecida cruzada de morte. Possivelmente, quando estava em
Trôade, na casa de Carpo, Paulo foi preso pelos agentes de Nero e levado a
Roma para ser lançado numa masmorra úmida, fria e insalubre. Dessa prisão,
ele escreveu sua última missiva, a segunda carta a Timóteo. Nessa
epístola, ele não pede orações para sair da prisão nem tem qualquer
expectativa de prosseguir em seu trabalho missionário. O velho
apóstolo está convencido de que a hora de seu martírio havia chegado.
Ele está agora fechando as cortinas da vida, fazendo um balanço da sua jornada.
Pelas lentes do antropocentrismo idolátrico, Paulo encerra a carreira numa
grande depressão. Ele que se havia entregado de corpo e alma à causa do
evangelho, estava agora sozinho numa masmorra romana, sem dinheiro, sem
amigos e passando privações.
Destacaremos alguns pontos fundamentais acerca das atitudes desse bandeirante
da fé no momento em que ele estava no corredor da morte.
A vida não é simplesmente viver; a morte não é simplesmente morrer
Em 2Timóteo 4.6-8, Paulo faz uma profunda análise do seu ministério e, antes de
fechar as cortinas da sua vida, abre-nos uma luminosa clareira com respeito ao
seu passado, presente e futuro. Acompanhemos sua análise:
Em primeiro lugar, Paulo olhou para o passado com gratidão (2Tm 4.7). Paulo
está passando o bastão a seu filho Timóteo, mas, antes de enfrentar o martírio,
relembra-o de como havia sido sua vida: “Combati o bom combate, completei
a carreira, guardei a fé”. A vida para Paulo não foi uma feira de vaidades
nem um parque de diversões, mas um combate renhido. O apóstolo pode
morrer tranquilo porque havia concluído sua carreira, e isso era tudo o
que lhe importava (Atos 20.24). Mas também deixa claro que nessa peleja
jamais abandonou a verdade nem negou a fé. Não morre bem quem não vive bem.
A vida é mais do que viver, e morrer é mais do que morrer.
Em segundo lugar, Paulo olhou para o presente com serenidade (2Tm 4.6). O
veterano apóstolo sabe que vai morrer. Mas não é Roma que vai lhe tirar a vida;
é ele quem vai oferecê-la a DEUS. Assim escreve Paulo: “Quanto a mim,
estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida
é chegado”. Numa linguagem eufêmica, Paulo fala da sua morte como uma
partida. A palavra grega analyses, “partida”, era usada em três
circunstâncias: Primeira, significa aliviar alguém de uma carga. A morte
para Paulo era descansar de suas fadigas (Ap 14.13). Segunda, significa
levantar acampamento e deixar a tenda temporária para voltar para casa. A
morte para Paulo era mudar de endereço. Era deixar o corpo e habitar com o
Senhor (2Co 5.8). Era partir e estar com CRISTO, o que é incomparavelmente
melhor (Fp 1.23). Terceira, significa desatar o barco e singrar as águas
do rio e atravessar para o outro lado. A morte para Paulo era fazer a
última viagem da vida, e esta rumo à Pátria celestial. A morte não
intimidava Paulo. Ele chegou a afirmar: “... para mim, o viver é CRISTO, e
o morrer é lucro” (Fp 1.21).
Em terceiro lugar, Paulo olhou para o futuro com esperança (2Tm 4.8). A
gratidão do dever cumprido, associada à serenidade de saber que estava indo
para a presença de JESUS, dava a Paulo uma gostosa expectativa do futuro.
Mesmo que Nero o condenasse e o tribunal de Roma o considerasse culpado, o
reto e justo Juiz o consideraria inocente e lhe daria a coroa da justiça.
Como que num brado de triunfo diante do martírio, Paulo proclama: “Já
agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me
dará naquele Dia...” (2Tm 4.8).
A vitória não é ausência de lutas, mas triunfo apesar delas
O céu não é aqui. Aqui não pisamos tapetes aveludados nem caminhamos em ruas de
ouro, mas cruzamos vales de lágrimas. Aqui não recebemos os galardões, mas
bebemos o cálice da dor. Paulo certamente foi a maior expressão do
cristianismo. Viveu de forma superlativa e maiúscula. Pregador incomum,
teólogo incomparável, missionário sem precedentes, evangelista sem igual. Viveu
perto do Trono, mas, ao mesmo tempo, foi açoitado, preso, algemado e
degolado. Tombou como mártir na terra, mas levantou-se como príncipe no
céu. Ele não foi poupado dos problemas, mas triunfou no meio deles. Que
tipo de luta Paulo enfrentou na antessala do seu martírio?
Em primeiro lugar, Paulo enfrentou a solidão (2Tm 4.9,11,21). Paulo estava numa
cela fria, precisando de um ombro amigo. Sua espiritualidade não anula sua
humanidade. Ele roga a Timóteo que venha depressa ao seu encontro. Pede a
seu filho na fé para vir antes do inverno e trazer também João Marcos. O
gigante do cristianismo está precisando de gente amada ao seu lado,
antes de caminhar para o patíbulo. Sua comunhão com DEUS não o tornava um
super-homem. Dentro do seu peito, batia um coração sedento por
relacionamento.
Em segundo lugar, Paulo enfrentou o abandono (2Tm 4.10). Paulo passou a vida
investindo na vida das pessoas, e, na hora que mais precisou de ajuda, foi abandonado
e esquecido na prisão. Caminhou sozinho para o Getsêmani do seu martírio,
assistido apenas pela graça de DEUS.
Em terceiro lugar, Paulo enfrentou a ingratidão (2Tm 4.16). Paulo se arriscou
pelos outros; mas ninguém compareceu em sua primeira defesa para estar do seu
lado ou falar em seu favor. Mais perturbador do que o frio gelado que se
avizinhava pela chegada do inverno, era a geleira da ingratidão que Paulo
tinha de suportar no apagar das luzes de sua jornada na terra.
Em quarto lugar, Paulo enfrentou a perseguição (2Tm 4.14). Alexandre, o
latoeiro, causou-lhe muitos males, resistindo a ele e à sua mensagem. Os
historiadores dizem que foi esse Alexandre que delatou Paulo, resultando
em sua segunda prisão e consequente martírio na cidade de Roma. Alexandre
tornou-se inimigo do mensageiro e da mensagem.
Em quinto lugar, Paulo enfrentou as privações (2Tm 4.13). Paulo precisava de
amigos para a alma, livros para a mente e a capa para o corpo. Ele tinha
necessidades físicas, mentais e emocionais. As prisões romanas eram frias,
insalubres e escuras. Os prisioneiros morriam de lepra e outras
doenças contagiosas. O inverno se aproximava, e Paulo precisava de uma
capa quente para enfrentá-lo. Paulo também precisava de livros e dos
pergaminhos. Paulo estava no corredor da morte, mas queria aprender mais.
Paulo precisava de amigos, roupa e livros. Precisava de provisão para a
alma, a mente e o corpo.
Abandonado pelos homens, mas assistido por DEUS
O apóstolo dos gentios não está encerrando, frustrado, a carreira. Não está com
a alma amargurada. As agruras da terra não empalidecem as glórias do céu. A
ingratidão dos homens não enfraquece a assistência abundante de DEUS. A
graça de DEUS assistiu Paulo na hora da morte.
Quatro verdades devem ser aqui destacadas:
Em primeiro lugar, Paulo foi abandonado pelos homens, mas assistido por DEUS
(2Tm 4.17). Paulo foi vítima do abandono dos homens, mas foi acolhido e
assistido por DEUS. Assim como JESUS foi assistido pelos anjos no
Getsêmani quando seus discípulos dormiram, Paulo também foi assistido por
DEUS na hora da sua dor mais profunda. DEUS não nos livra do vale, mas caminha
conosco no vale. DEUS não nos livra da fornalha, mas nos livra na fornalha.
DEUS não nos livra da cova dos leões, mas nos livra na cova dos leões. Às
vezes, DEUS nos livra da morte; outras vezes, DEUS nos livra através da
morte. Em toda e qualquer situação, DEUS é o nosso refúgio.
Em segundo lugar, Paulo não foi poupado das provas, mas recebeu poder para
suportá-las (2Tm 4.17). DEUS revestiu Paulo de forças para que continuasse
pregando até o fim. Paulo foi preso, mas a Palavra estava livre e
espalhou-se para todos os gentios. Paulo foi levado ao patíbulo e
decapitado, mas sua voz ainda ecoa nos ouvidos da história. Suas cartas
são luzeiros no mundo.
Em terceiro lugar, DEUS não livrou Paulo da morte, mas na morte (2Tm 4.18).
Paulo não foi poupado da morte, mas libertado através da morte. A morte para
ele não foi castigo, perda ou derrota, mas vitória. O aguilhão da morte
foi tirado. Morrer é lucro, é precioso, é bem-aventurança, é ir para a
Casa do Pai, é entrar no céu e estar com CRISTO.
Em quarto lugar, Paulo não termina a vida com palavras de decepção, mas com um
tributo de glória ao Salvador (2Tm 4.18b). Paulo foi perseguido, rejeitado,
esquecido, apedrejado, fustigado com varas, preso, abandonado, condenado à
morte, degolado, mas, em vez de fechar as cortinas da vida com pessimismo,
amargura e ressentimento, termina erguendo ao céu um tributo de louvor ao
Senhor.
Posso imaginar a cena... O carrasco recebe um pedaço de couro com o nome de um
prisioneiro. Munido de uma tocha de fogo e com um pesado molho de chaves,
atravessa longos corredores escuros e gelados. Abre uma pesada porta de
ferro e grita com voz cavernosa: “Prisioneiro Paulo! Prisioneiro Paulo!
Prisioneiro Paulo!”. Do fundo da cela, o velho apóstolo, que trazia as marcas
de CRISTO no corpo e uma paz transcendente na alma, responde com firmeza:
“Sou eu, estou aqui!”. Paulo é acorrentado e sai da masmorra, atravessando
o corredor da morte. Depois de uma longa caminhada, chegam ao lugar do
patíbulo. Antes de colocar a cabeça de Paulo num tosco cepo de madeira
para decepá-la com a guilhotina romana, o capataz da morte lhe dá a chance de
proferir suas últimas palavras. Esperando que o velho prisioneiro soltasse
algum gemido de dor ou algum grito de revolta ou desespero, Paulo, de
forma imperturbável, com alegria na alma, ergue ao céu sua última
doxologia: “A ele, [o Senhor JESUS CRISTO] glória pelos séculos dos séculos.
Amém” (2Tm 4.18b). A guilhotina afiada, impiedosa e implacável faz tombar
na terra esse príncipe de DEUS. Sua morte, entretanto, não calou sua voz.
Suas cartas ainda falam. Sua voz póstuma é poderosa. Milhões de pessoas
são abençoadas ainda hoje pela sua vida e pelo seu legado. Cabe-nos,
tão-somente, agora, imitar esse homem como ele imitou CRISTO (1Co 11.1).
Sua opinião é importante para nós.- Por gentileza envie seus comentários pelo
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BILBIA DA LIDERANÇA CRSTÃ - ATOS DOS APOSTOLOS
Os seguidores de JESUS se transformam em líderes
Resumo
Atos dos Apóstolos é um livro de ação. Observe bem que ele é chamado de
"atos" ou "ações" e não de "reações". Ele relata
a iniciativa e a ação do ESPÍRITO SANTO na vida dos discípulos, que até pouco
antes eram covardes, inseguros e ignorantes. Esses homens, que, durante três
anos, aprenderam a seguir JESUS, agora estavam aprendendo a serem líderes!
Neste livro, que é uma sequência de seu Evangelho, Lucas relata que aqueles
primeiros discípulos mobilizaram a Igreja de maneira tão eficiente a ponto de
alcançarem cidades inteiras (At 9.35) e fartaram todas as terras com o
evangelho (At 19.10).
A ação descrita neste livro revela como DEUS delegou poder a homens e mulheres
que decidiram ser representantes de DEUS pelo poder do ESPÍRITO SANTO. Eles se
determinaram a ser pessoas de influência. Apesar de suas carências em atributos
humanos, eles começaram a ter influência na sociedade. DEUS concretizou isso
por meio de pessoas comuns, com um mínimo de instrução, de vivência política ou
prestígio (ICo 1.26).
Pedro, o pescador, tornou-se o Líder da igreja em Jerusalém. Filipe tornou-se o
primeiro missionário para grupos transculturais. Estêvão tomou partido contra
os falsos líderes religiosos de seus dias e, com isso, tornou-se o primeiro
mártir. Barnabé e Paulo ajudaram a primeira comunidade da Antioquia a preparar,
enviar e também liderar uma equipe missionária.
Esses líderes realizaram muito, porque eles estavam sendo governados pelas
prioridades de DEUS, encarnavam o poder de DEUS, estavam motivados pelos
propósitos de DEUS, permaneciam dependentes das provisões de DEUS e preparavam
o povo de DEUS. Todos estavam envolvidos nessa tarefa. Líderes equipam seus
seguidores e encorajam a Igreja, enquanto ela se adentra nessas culturas. Os
milagres se espalhavam. A comunidade tinha todo cuidado com as necessidades que
iam aparecendo no meio do povo.
Na medida em que você for lendo o livro, note quantos líderes surgiram do meio
da Igreja. Muitos deles não eram apóstolos. Nós deveríamos prestar atenção no
povo leigo. Agora, todo mundo parece estar comprometido com a visão de causar
um impacto no mundo em favor de CRISTO.
O papel de DEUS em Atos
DEUS encheu essas pessoas comuns com o ESPÍRITO SANTO e ordenou-lhes que
influenciassem o mundo todo. Os milagres iam acontecendo, e DEUS ia confirmando
sua palavra seguida de sinais (Mc 16.17-18). JESUS apareceu pessoalmente a
Paulo de Tarso, a fim de chamá-lo para tornar-se seu apóstolo (At 9.1-9). O
ESPÍRITO SANTO fundou a primeira Igreja sustentada na pureza, de maneira que
ele pôde capacitá-la sem impedimentos. DEUS confia seu poder aos puros. Observe
esta sequência: primeiro, a pureza: depois, o poder; depois, a proclamação e,
finalmente, o poder de influenciar a sociedade.
Líderes em Atos dos Apóstolos
Pedro e os primeiros apóstolos, Gamaliel e o Sinédrio, Estêvão, Filipe, Áqüila
e Priscila, Paulo, Barnabé, Festo, Apoio, Silas
Outras pessoas de influência em Atos
O principal grupo de pessoas que estavam no Cenáculo, Lídia, Lucas, Timóteo, os
negociantes de Éfeso, a família da igreja de Antioquia
Lições de liderança
• O poder do ESPÍRITO SANTO mais a liderança obediente são iguais ao
crescimento da igreja.
• DEUS levanta líderes com o intuito de levar todas as pessoas para si.
• Líderes quebram barreiras e unem as coisas familiares e não-familiares.
• Quanto mais líderes a Igreja tiver, mais ela terá seguidores.
• Não há sucesso sem sacrifício.
• A força viva vem como resultado da unidade.
• Líderes passam a prosperar quando não têm de lutar pela sobrevivência.
Destaque de liderança em ATOS
CARISMA: Pedro foi um ímã (2.1-41)
PEDRO: O líder mais hábil no improviso e na capacidade de dar reviravoltas
(3.1-26)
GENEROSIDADE: Ananias e Safira apenas fingiram (5.1-11)
PEDRO E A LEI DAS PRIORIDADES: Líderes compreendem que atividade não significa
cumprimento (6.1-7)
COMPROMETIMENTO: Estêvão sabia o que tinha valor e o que não tinha (7.2-60) —
p. 948 FILIPE: Um homem comum, resultados extraordinários (8.5-8)
BARNABÉ E A LEI DA DELEGAÇÃO DO PODER: Somente líderes seguros delegam poder a
outros (9.27)
CARÁTER: Herodes teve falta dele e perdeu tudo (12.1-23)
EDUCABILIDADE: Apoio aprendeu e cresceu (18.24-28)
ÁQÜILA E PRISCILA: Líderes que prepararam mais líderes (18.24-28)
FÉLIX, FESTO E AGRIPA: Líderes que cometeram falhas (23.23—26.32)
PAULO: O líder mais influente da Igreja primitiva (26.1-33)
VISÃO: OS LIDERES COMUNICAM SUA VISÃO PARA DELEGAR PODER E DIRECIONAR (At
1.4-8)
O Livro de Atos começa com uma explosão. JESUS fala suas últimas palavras para
seus discípulos antes de subir aos céus. Embora eles, agora, já fossem líderes,
mais do apenas seguidores, eles perguntaram a JESUS quando o seu Reino seriam
instaurado (At 1.6). JESUS não lhes respondeu, mas lhes comunicou uma visão de
como eles poderiam alcançar o mundo todo (At 1.8). Seus homens queriam ficar na
defensiva, JESUS os provocou para que pensassem na ofensiva.
JESUS os instruiu para que ficassem em Jerusalém até que recebessem o poder de
que necessitavam. Então, eles deveriam sair, crescendo passo a passo. Eles
deveriam começar por Jerusalém, depois ir para o restante da Judéia e até aos
confins da terra. Esta não era uma visão revelada por algum ser humano, mas por
DEUS. Veja quais são as diferenças:
LÍDERES QUALIFICADOS DEVEM SER SELECIONADOS (At 1.20-26)
Os apóstolos escolheram Matias para substituir Judas, que traiu JESUS e cometeu
suicídio logo em seguida. Preste atenção em duas coisas.
Primeira, eles não fizeram uma eleição. O Presbitério da Igreja nunca é
determinado por democracia no Novo Testamento. Os líderes eram selecionados e
não votados.
Segunda, os apóstolos lançaram sorte várias vezes para descobrir qual era a
escolha de DEUS para a posição, um método comum nos tempos bíblicos para
receber a orientação do Senhor. Hoje, os cristãos recebem a orientação por meio
do Novo Testamento (2Tm 3.16; Tt 1.5-9) e do testemunho do ESPÍRITO SANTO (Rm
8.14-16). Presbíteros sãos líderes escolhidos por DEUS e confirmados pela
Igreja.
O Livro de Atos faz dezoito referências a presbíteros, dez diretamente
relacionadas ao ministério do Presbitério da Igreja. As diversas palavras
gregas usadas para descrever a liderança são, frequentemente, traduzidas por
palavras como "presbítero", "bispo" e "diácono".
Todas elas dizem respeito à responsabilidade, à supervisão espiritual, à
inspeção, ao serviço e ao ministério.
DELEGAÇÃO DE PODER: LÍDERES PRECISAM, ANTES, SER CAPACITADOS PARA, DEPOIS,
PODEREM CAPACITAR (At 2.1-4)
Líderes jamais poderão capacitar qualquer pessoa se, antes, eles não tiverem
sido capacitados de modo sobrenatural. A frase "ficaram cheios do ESPÍRITO
SANTO" é usada cinco vezes no Novo Testamento (At 2.4; 4.8,31; 9.17;
13.9). Toda vez que alguém fica cheio do ESPÍRITO SANTO, alguma coisa acontece.
Líderes capacitados transmitem o poder de DEUS e, então, capacitam a outros.
21 Qualidades Carisma - Pedro foi um ímã (At 2.1-41)
Atos 2 é um marco do Novo Testamento. Cento e vinte homens e mulheres
constituem os membros fundadores da Igreja quando ela nasceu em uma sala do
andar superior, em algum lugar de Jerusalém. Ainda ao final desse capítulo, a
Igreja tem uma explosão de crescimento e eleva o número seus membros para mais
de três mil pessoas.
Depois que o ESPÍRITO SANTO desceu sobre os que criam (At 2.1-4), as pessoas
que visitavam Jerusalém ficaram maravilhadas de como aqueles discípulos de
JESUS conseguiam falarem tantas línguas (At 2.5-13). Ao passo que alguns
achavam que eles estivessem bêbados, muitos outros se sentiam confusos. O caos
perecia estar reinando.
Era isso que parecia, até que Pedro resolveu tomar a palavra e falar. Este
mesmo Pedro que havia fugido de medo na noite do julgamento de JESUS, agora
falava sobre ele abertamente. Em poucos minutos, ele havia conseguido a atenção
de todos com suas palavras instigantes. A multidão aceitou suas palavras
alegremente. Por quê? Ele tinha carisma. Por meio da combinação da ligação
divina e do dom do ESPÍRITO SANTO, esse líder cativou e motivou três mil
pessoas a seguirem CRISTO.
Quais são os traços de um líder carismático?
Muitas pessoas pensam que carisma é uma coisa mística, quase indefinível. Eles
pensam que o carisma nasce com a pessoa ou ela nunca o terá. Mas isso não é
verdade. Carisma é a habilidade de conduzir as pessoas para si mesmo e para sua
causa. Algumas pessoas possuem isso com mais naturalidade. Mas, da mesma forma
como outros traços de caráter, carisma pode ser aprendido. Veja o que fez de
Pedro um carismático (At 2.14-40).
1. Confiança
Pedro demonstrou a postura e otimismo de um animado comunicador.
2. Convicção
Ele sabia para onde estava indo e o que deveria dizer. Ele falou com a força de
seu coração.
3. Ligação
Ele não pôs o foco sobre si mesmo, mas sobre os outros. Ele ligou-se como um
ímã aos seus ouvintes.
4. Compaixão
Ele mostrou-se cordial e amoroso. Ele deu repostas práticas às necessidades das
pessoas.
Quando ele concluiu sua mensagem, todos perguntaram: "Que faremos?"
(At 2.37) Eles se sentiram motivados e prontos para agir. DEUS usou o carisma
de Pedro com um ímã.
Como nós podemos nos tornar carismáticos?
O que você diz de você mesmo? Você tem carisma? A fim de você se tornar o tipo
de pessoa que atrai as outras para si, siga os seguintes passos em sua vida:
1. Ame a vida. Celebre, não se queixe. Aprecie sua jornada.
2. Dê nota dez a todas as pessoas. Espere o melhor das pessoas e trate-as bem.
3. Dê esperança às pessoas. Todos querem ter esperança. Os líderes administram
bem isso.
4. Doe-se aos outros. Seja sensível e verdadeiro. Compartilhe seu coração,
sabedoria e recursos.
A LEI DO MAGNETISMO: LÍDERES APAIXONADOS SÃO ATRAENTES PARA OS OUTROS
(At 2.7-21)
Quando Pedro se pôs em pé para pregar, sem dúvida, a multidão viu nele os dons
do poder e do propósito de DEUS, mas, antes disso, eles viram o dom da paixão
que DEUS tinha lhe dado. A paixão fez com que a falta de dons naturais ou a
falta de instrução de Pedro pudessem ser superadas. Visto que Pedro se tornou
um ímã para, três mil pessoas se juntaram à Igreja naquele dia. Paixão atrai
paixão.
DEMONSTRAÇÃO + PROCLAMAÇÃO = CREDIBILIDADE (At 3.1-26)
Imediatamente após o Pentecostes, o movimento dos cristãos recebeu grande
energia. Dois de seus líderes. Pedro e João, encontraram um homem aleijado
quando estavam indo para o templo. Quando, em nome de JESUS, curaram aquele
homem, eles, imediatamente, ganharam credibilidade para pregar o evangelho. Em
outras palavras, uma vez que eles fizeram sua parte, conquistaram um público
para que pudessem falar. Veja como Atos 3 descreve esses líderes:
1.EIes fizeram com confiança o que sabiam que deveriam fazer (v. I);
2. Eles pararam o que estavam fazendo e foram sensíveis para resolveram uma
necessidade que se lhes apresentou (v. 3);
3. Eles tiveram coragem de encarar os problemas (v. 4);
4. Outros se anteciparam, recebendo soluções dadas por eles (v. 5);
5. Eles, naturalmente, admitiram sua falta de recursos materiais (v. 6);
6. Eles usaram sua autoridade dada por DEUS ser qualquer temor (v. 6);
7. Eles deram, generosamente, de seus recursos espirituais (v. 6);
8. Eles solucionaram problemas práticos (vs. 7-81
9. Eles ganharam credibilidade por meio da demonstração, não apenas pela
proclamação (vs. 9-10
10. A demonstração de Pedro deu-lhe uma base ir -ciai e um argumento
convincente (vs. 11-26)
Perfil de Liderança
PEDRO
O líder mais hábil no improviso e na capacidade de dar reviravoltas.
(At 3.1-26)
O apóstolo Pedro é, no Novo Testamento, possivelmente, o líder mais capaz de
dar reviravoltas.
Pedro, o mesmo homem que havia prometido seguir jesus mesmo que isso
significasse morrer, mas que morreu de medo quando uma empregada insignificante
o identificou como um dos seguidores de JESUS (Lc 22.56-57), agora gritava o
nome de CRISTO a todo pulmão e com autoridade e sem medo das possíveis consequências.
Pedro sabia do perigo que corria ao falar sobre JESUS. Ele sabia da hostilidade
que ele poderia provocar. Ele sabia que, por estar fazendo a vontade de DEUS e
pregando a CRISTO, estava entregando sua vida nas mãos de DEUS. No entanto, ele
não tinha escolha. Ele tinha de pregar. Ele tinha de falar o nome de JESUS. E
como ele tinha dito às autoridades que não podia fazer nada diferente disso.
Depois de todas as coisas que ele tinha visto e ouvido, depois do poderoso
toque que ele havia recebido do ESPÍRITO SANTO, se sentiu impelido a pregar o
evangelho (At 4.19-20).
Pedro pregou assim ... e o mundo todo ficou de pernas para o ar.
Esse é o tipo de reviravolta que acontece na vida de alguém que é tocado pelo
ESPÍRITO SANTO de DEUS. Quando nós temos um encontro genuíno com JESUS, quando
ele transforma nosso coração e mente, quando nos capacita e encoraja, nós
ficamos sem escolha: nós temos de pregar o evangelho, nós temos de falar a
Palavra de DEUS.
CORAGEM: UMA PESSOA COM CORAGEM SE TORNA UMA MAIORIA
(At 4.10-13)
Em Atos 4, nós podemos ver a coragem na tela da vida de Pedro e João. Esses
dois líderes foram jogados na prisão por estarem pregando o evangelho e por
terem realizado um milagre (vs. 1-4). Quando seus algozes os inquiriram a
respeito de seu ministério, Pedro, pessoalmente, afirmou que o nome de JESUS,
não seus próprios talentos, havia curado o aleijado (v. 10). Ele também
explicou que a salvação vem por meio de nenhum outro nome que não o de JESUS
(v. 12). O que lhe assegurava tanta coragem? Não era sua instrução, mas sua
experiência com JESUS (v. 13).
Liderança requer coragem. Todos os líderes precisam de coragem para:
1. Buscar a verdade
Você nunca se encontrará, a menos que você encontre a verdade.
2. Mudar
Coragem é o poder para deixar a zona de conforto para trás.
3. Expressar convicções
As convicções nos ajudam a ficar sós. O teste de coragem vem quando você faz
parte da minoria.
4. Superar obstáculos
Tudo quanto você fizer, alguém vai pensar que você está errado. Espere por
problemas. Projete sua coragem.
5. Aprender e crescer
Você ainda não aprendeu até que você tenha tentado. Corra riscos e faça algo
diferente.
6. Tomar a via principal
Depois do segundo quilômetro, não há engarrafamento.
7. Liderar outros
Liderança é a expressão de coragem que impulsiona os outros a fazerem a coisa
certa.
21 Qualidades Generosidade - Ananias e Safira apenas fingiram
(At 5.1-11)
Líderes dão de si mesmo liberalmente; pelo menos no Novo Testamento eles
fizeram assim. Toda a Igreja desfrutava de unidade e generosidade, e tudo tinha
seu início no exemplo que vem de cima. O exemplo dos apóstolos espalhou um
espírito de generosidade no meio de toda a Igreja. No entanto, um casal
fingido, desafortunadamente, Ananias e Safira, vendeu certa propriedade e deu
parte do valor aos apóstolos, dizendo-lhes que eles tinham dado todo o dinheiro
da venda para a Igreja. DEUS revelou sua mentira para Pedro, e ele os chamou
para conversar. Seu pecado não foi falta de generosidade, mas falta de
honestidade. Eles mentiram acerca do que tinham feito. Eles queriam ser tidos
por generosos sem terem pagado o preço para tanto. Ele retirou este câncer da
igreja de modo cirúrgico, ao tirar dos dois a vida deles. "E sobreveio
grande temor a toda a Igreja e a todos quantos ouviam a notícia destes
acontecimentos" (At 5.11).
Vamos olhar para esse problema um pouco mais de perto e especificá-lo. Ananias
e Safira...
1. Apegaram-se às suas posses;
2. Concordaram em mentir sobre sua oferta;
3. Fingiram ser uma coisa que não eram;
4. Pensaram que poderiam passar apenas pela aparência de generosidade;
5. Estavam mais preocupados com sua imagem do que com seu relacionamento com
DEUS.
Muitos líderes lutam com essas mesmas questões. Nós não apenas vivemos em um
mundo materialista, como também estamos inseridos neste mundo dominado por
interesses econômicos. Nós pensamos que, se nos apegarmos e nos prendermos às
nossas posses materiais com nossa inteligência, nós seremos, eventualmente,
capazes. A economia de DEUS é radicalmente diferente. Ele é o Senhor
extravagante, que dá com muita generosidade a todas as pessoas que têm alguma
necessidade. Ele se alegra em satisfazer as necessidades de seus seguidores,
direta e indiretamente. Ele não dá apenas de seus recursos; ele dá de si mesmo.
Cultivando a generosidade em sua vida
Nada fala mais aos outros ou lhes é mais útil do que a generosidade do líder.
Na verdade, os líderes conseguem recursos alheios e os administram para outros.
Considere alguns meios para cultivar a generosidade em sua vida:
1. Seja agradecido por tudo que você tem;
2. Ponha as pessoas em primeiro lugar;
3. Não permita que a ganância o domine;
4. Considere o dinheiro como um recurso;
5. Pratique o hábito de fazer doações e ofertas.
Algumas vezes, nós nos apegamos às nossas posses porque temos medo de passar
por dificuldades. A vida parece ser muito dura. Mas, quando nós cremos que dar
generosamente é modo de viver, nós iremos produzir mais no futuro. A vida
parece ser abundante. Essa é a vida que JESUS tinha em mente para nós (Jo
10.10).
CRESCIMENTO: SETE SINAIS DE LIDERANÇA NA IGREJA PRIMITIVA (At 5.1-42)
A liderança na Igreja primitiva produziu-lhe um crescimento natural. Os líderes
não perseguiam crescimento, mas eram obedientes, comprometidos, com
relacionamentos saudáveis e fé. Crescimento é uma conseqüência natural.
Esse é o sinal de uma liderança saudável. Em Atos 5, nós vemos os ingredientes
que permitem à Igreja que ela cresça:
1. Pureza (vs. I-II)
Os líderes não tinham nenhuma das coisas, senão sua integridade.
2. Poder (vs. 12-16)
Os líderes procuravam ter um poder sobrenatural, que lhes permitiriam resolver
as necessidades humanas.
3. Perseguição (vs. 17-18)
A oposição serviu para fortalecer os líderes e suas convicções.
4. Proclamação (vs. 19-28)
Os líderes proclamaram sua mensagem com avidez.
5. Prioridades (vs. 29-32)
Os líderes, claramente, definiam quais eram suas primeiras prioridades, e isso
lhes permitia tomar decisões mais facilmente.
6. Oração (v. 41)
Em meio à adversidade, os líderes mantinham uma atitude de gratidão e louvavam
a DEUS por todas as coisas.
7. Perseverança (v. 42)
Os líderes conseguiam influenciar outros porque vivenciavam suas convicções e
não seus medos.
LÍDERES DEVEM SER DETERMINADOS E DESENVOLVIDOS (At 6.3)
A boa liderança responde efetivamente à necessidade de mais líderes e
trabalhadores. Na Igreja primitiva, ninguém tinha o voto para determinar qual
qualidade que identificaria tais pessoas. Os apóstolos tinham em mente
qualificações bem específicas para os líderes que eles queriam junto de si.
Eles escolhiam pessoas que:
1. Eram conhecidas dentre seu círculo de influência - "procurem alguém
dentre vocês";
2. Pudessem trabalhar em equipe - "sete homens";
3. Tivessem crédito entre as pessoas - "de boa reputação";
4. Fossem capacitadas para a tarefa - "cheios do ESPÍRITO SANTO";
5. Competentes e inteligentes - "cheios de sabedoria";
6. Responsáveis - "a quem podemos confiar essa tarefa".
21 Qualidades Pedro e a Lei Das Prioridades - Líderes compreendem que atividade
não significa cumprimento
(At 6.1-7)
Líderes nunca alcançarão o lugar que eles não elegem como prioridade. Os bons
líderes elegem prioridades, não importa se estão conduzindo um pequeno grupo,
pastoreando uma igreja, empreendendo um pequeno negócio ou mesmo um negócio de
bilhões de dólares.
As coisas que trazem as maiores recompensas fazem brilhar o fervor na vida de
um líder. Nada traz mais energia a uma pessoa do que a paixão. Tim Redmond
admitiu: "Há muitas coisas que podem prender meus olhos, mas muito poucas
são capazes de prender meu coração."
Tome algum tempo para repensar as prioridades de sua liderança. Você está se
fazendo presente por todos os lugares' Ou você está focado em poucas coisas que
podem lhe trazer grandes recompensas? O maior sucesso só virá quando você focar
as pessoas no que realmente vale a pena.
Aguçando seu foco para alargar sua visão
Talvez você seja parecido com Pedro: ele começou cheio de paixão, mas com falta
de direção. A boa notícia é que você já tem a metade da equação. A má notícia é
que, se você não sabe para onde está indo, você pode acabar ficando no meio do
caminho ou ainda pior: você pode ficar anos trilhando uma direção equivocada.
Quando você sabe para onde vai, as suas prioridades se tornam claras, e suas
ações passam a fazer sentido. A equação vai se parecer com isso:
Uma grande paixão + visão clara = ação focada
Quando os judeus da Grécia foram levar-lhe suas queixas, Pedro reconheceu que
ele poderia expandir sua missão se ele resolvesse o problema deles. Mas ele
também reconheceu que havia sido chamado para focar as necessidades mais
profundas das pessoas: ouvir a verdade da Palavra de DEUS. Ao invés de tentar
fazer isso tudo sozinho, ele delegou a tarefa de solucionar as queixas para
sete pessoas competentes para fazê-lo. Como resultado, a Igreja, pode cuidar
dos dois problemas.
Ao examinar a situação de Pedro, nós aprendemos bastantes coisas sobre
manter-se focado nas prioridades porque não se perdeu de vista o grande quadro
da visão. Pedro demonstrou que, quando surge uma necessidade os líderes
focados...
1.Avaliam o valor da necessidade.
Líderes fortes, rapidamente, percebem quando o curso de uma ação precisa ser
adotado e, prontamente, consideram como deixar o trabalho resolvido. Pedro
sabia que a igreja poderia perder a oportunidade se ela não atendesse as
necessidades apontadas pelos judeus gregos. Mais do que tentar resolver o
problema por si mesmo (como muitos líderes fazem), ele imaginou outro meio de
fazê-lo.
Como você reage quando seu povo lhe traz uma necessidade legítima? Você pára de
fazer o que você está fazendo e, imediatamente, tenta atender seu pedido? Você
movimenta sua cabeça como quem está interessado, depois a põe para o outro lado
como quem quer esquecer-se disso? Ou, como Pedro, você pára, olha para sua
grande missão e determina-se a agir de acordo com suas prioridades?
2. Procure uma oportunidade de liderança.
Mesmo quando uma necessidade real não se enquadre em suas prioridades, isso
pode lhe ser uma grande oportu-nidade para alguém de seu grupo. Pedro,
rapidamente, percebeu que ele e os outros discípulos tinham necessidade de
continuarem pregando ao invés de ficarem distribuindo alimentos. Mas ele também
reconheceu nisso uma oportunidade de desenvolver alguns líderes que estavam
surgindo.
As pessoas estão na lista de suas grandes prioridades ? Antes de você colocar
algo sob sua responsabilidade, verifique ela se compatibiliza com as
responsabilidades de uma ou mais pessoas que estão com você. Os líderes mais
eficientes põem seu foco em algumas poucas coisas. Eles acreditam que outras
pessoas serão capazes de fazer o restante
3. Delegue a tarefa para pessoas competentes.
Líderes se valem da delegação do poder como uma ferramenta básica. Usando-a de
modo certo, ela pode levar sua eficiência a um padrão completamente novo. Pedro
e os discípulos escolheram uma equipe de sete pessoas cuidadosamente, a quem
eles consideravam ser maduras e capazes de suportar a tarefa.
Será sempre sua a responsabilidade de delegar poder às pessoas certas. Não há
nada mais constrangedor do que ter de rever uma tarefa, porque ela foi
designada para uma pessoa incompetente. Isso diminui sua eficiência e pode
manchar sua credibilidade. Por isso, antes de delegar uma tarefa, esteja certo
das qualidades e habilidades das pessoas de sua equipe.
4. Comissione e confirme as pessoas a quem delegou poder publicamente.
Pedro e os discípulos colocaram sua equipe de trabalho para que fossem bem
sucedidos. Eles não apenas estavam certos de que seriam capazes de dar conta da
tarefa como também os apresentaram aos outros como líderes dignos. Ao o fazerem
assim, eles deram a esses sete homens confiança e crédito.
Para você o mais importante é fazer coisas ou fazer coisas corretamente? Muitos
líderes apenas delegam certas tarefas para poderem constar em sua lista de
projetos feitos que a tarefa foi executada. Eles usam a delegação de tarefas
para distraírem a atenção e não para alcançarem eficiência. Contudo, os grandes
líderes compreendem que sua. eficiência depende do sucesso de seus delegados.
Por isso, faz parte de suas prioridades ajudá-los a vencer.
Tal qual todo líder eficiente, Pedro compreendeu a diferença entre ativismo e
realização. Primeiro, ele percebeu uma necessidade por meio da maior de todas
as lentes, sua missão. Em seguida, focou a atenção ao que deveria ser feito,
tanto por ele mesmo, como por meio de outros. Como resultado, as Escrituras
relatam que o número de cristãos crescia sem parar sob sua liderança.
O PRINCIPIO DE PARETO
Vinte por cento de suas prioridades lhe darão oitenta por cento de sua produção
21 Qualidades Comprometimento - Estêvão sabia o que tinha valor e o que não
tinha (At 7.2-60)
Estêvão, primeiro mártir cristão, tinha alcançado bastante influência junto ao
povo (At 6.8). Temendo perder sua influência, os líderes religiosos judeus
cercaram esse líder e o levaram diante de Concilio.
Em sua defesa, Estêvão revelou ter um inabalável comprometimento com suas
convicções. Diante das autoridades que tinham o poder de executá-lo, ele
sustentou e expressou aquilo que ele cria ser a verdade, tanto sobre CRISTO
quanto sobre a obstinação de coração dos líderes judeus. Isso o levou para o
apedrejamento (At 7.58-60). Seu modo franco deixou os líderes religiosos sem
argumentos; só lhes restou jogarem pedras nele. Mas nem mesmo isso o abalou.
Ele morreu, fitando os olhos nos céus, pedindo que DEUS perdoasse seus
assassinos.
De onde vem o comprometimento?
Vamos ver a fonte do comprometimento de Estêvão reparando em suas palavras e
sentindo sua atitude:
1. Ele tinha a presença de DEUS em sua vida (At 6.8,15);
2. Ele baseava seu comprometimento em fundamentos bíblicos (At 7.2-38);
3. Ele percebeu o erro do pensamento anterior (At 7.39-41);
4. Ele atingiu o ponto de resistência dos líderes religiosos (At 7.51-53);
5. Ele manteve seus olhos sobre JESUS, a verdade (At 7.55);
6. Ele conservou sua perspectiva (At 7.60).
O comprometimento leva para além das emoções e da razão e vai direto para a
vontade. Os antigos chineses diziam que a vontade de um homem é igual a uma
carroça puxada por dois cavalos: a emoção e a razão. Você precisa manter os
dois cavalos puxando para a mesma direção para conseguir pôr a carroça em
movimento. O comprometimento vem quando sua razão e sua emoção o levam para
frente, seja qual for o preço.
Os líderes não devem esperar que seus seguidores tenham comprometimento mais
profundo do que aquele que eles mesmos demonstram ter. Para desenvolvermos
nosso nível de comprometimento, nós precisamos compreender as seguintes
verdades:
1. Comprometimento começa no coração.
O comprometimento vem antes da ação. Procure dentro de si: onde está o
comprometimento de seu coração
2. Comprometimento é avaliado pela ação.
A única maneira real de medir o nível de comprometimento é a ação. Falar é
fácil; fazer tem um alto preço.
3. Comprometimento abre as portas para o cumprimento da missão.
Uma vez que você está comprometido, todas as coisas virão a seu encontro no
sentido de favorecê-lo a obter o sucesso.
4. Comprometimento pode ser medido.
Os líderes devem poder avaliar seu calendário e agendas para medirem seu
comprometimento.
5. Comprometimento capacita um líder a tomar decisões.
Líderes precisam decidir qual é a coisa mais digna, pela qual se deva morrer; e
tomam isso como base para suas decisões.
6. Comprometimento floresce com demonstração pública de sua responsabilidade.
Façam a pessoas verem o quanto você está comprometido, e, assim, você terá
incentivo para prosseguir.
Perfil de Liderança - FELIPE - Um homem comum, resultados extraordinários.
(At 8.5-8)
E extraordinário o que pode acontecer para e através de um homem comum quando
DEUS põe um pouco de dificuldade e o poder do SANTO ESPÍRITO na mistura.
Os crentes da igreja de Jerusalém começaram a abandonar a cidade em grande
número por causa das ondas de perseguição por causa do testemunho que estavam
dando a respeito de JESUS CRISTO. Mas aquilo que os inimigos do evangelho
pensavam ser mal DEUS usava como sendo bom, tal qual os crentes da Dispersão,
que, ao fugirem de Jerusalém, levaram consigo a mensagem da salvação por meio
de JESUS CRISTO.
Filipe deixou Jerusalém e foi até Samaria, onde, comprometido com a pregação do
evangelho, liderou a salvação de multidões. Quando Filipe realizou milagres,
expulsando demônios e curando muitos, o povo passou a ouvir as palavras de
Filipe a respeito do Messias, que o capacitou a realizar esses feitos
maravilhosos.
Um homem comum, uma pequena perseguição e um toque da parte do ESPÍRITO de DEUS
conduziram à conversão de massas na cidade de Samaria. Tal como JESUS havia predito,
a mensagem do evangelho fez o seu caminho, começando por Jerusalém e indo até
os confins da terra (At 1.8).
Filipe ilustra bem o que um líder, com a capacitação dada pelo ESPÍRITO SANTO e
com a autoridade de JESUS CRISTO, pode fazer para mudar o mundo.
DISCERNIMENTO: LÍDERES FAZEM UMA LEITURA DA REALIDADE ANTES DE LIDERAR (At
8.26-40)
Filipe ilustra a importância de um líder que tem capacidade de se adaptar a uma
nova situação para resolver um problema. Flexibilidade é o nome do jogo.
Filipe estava pregando e orando pelos doentes em Samaria. Aconteceu que, em
meio a um reavivamento, um anjo lhe disse que fosse ao Sul, para o caminho de
Gaza. Filipe teve de manobrar suas velas e rever o curso de sua viagem. Quando
estava no caminho de Gaza, ele compreendeu a situação. Um importante oficial do
tesouro real da Etiópia havia parado para ler a Escrituras. Filipe percebeu que
ele tinha ali uma oportunidade para introduzir aquele homem na fé em CRISTO.
Como os líderes podem ter uma leitura de situações semelhantes? Uma liderança
cheia do ESPÍRITO envolve...
1. Compreender suas responsabilidades (v. 25).
Filipe já estava fazendo que ele sabia fazer;
2. Renunciar seus direitos (vs. 26-28).
Filipe não ficou discutindo sobre o caminho que ele havia escolhido, mas foi
flexível. Ele deixou para trás um momento de reavivamento e foi para um
deserto.
3. Sentir a revelação (vs. 29-30).
Filipe ouviu o ESPÍRITO. DEUS pode falar por meio de pessoas, das Escrituras ou
intuição espiritual.
4. Compartilhar seu relacionamento (vs. 31-34).
Filipe aproximou-se de uma situação de necessidade tendo uma perspectiva de
relacionamento e não somente uma perspectiva de resultado.
5. Mostrar sua relevância (v. 35).
Filipe começou a interagir onde o eunuco estava e permaneceu interagindo com
ele naquele lugar.
6. Assegurar uma resposta (vs. 36-39).
Filipe conduziu o homem até o ponto de uma tomada de decisão e viu resultados.
LIDERANÇA: ESCOLHA DELIBERADA VERSUS ELEIÇÃO DEMOCRÁTICA
(At 9.1-20)
Saulo de Tarso havia iniciado sua viagem para se tornar o Apóstolo Paulo na
estrada de Damasco. DEUS sabia que Saulo era perfeitamente apropriado para a
tarefa.
Primeiramente, Paulo era hebreu e um fariseu. Ninguém poderia acusá-lo de
indiferença ou de insegurança para estabelecer um padrão. Ele havia estudado
com Gamaliel, de maneira que nenhum judeu poderia acusá-lo de ignorante das
Escrituras. Ele cresceu em Tarso, o que lhe dava a cidadania romana e lhe dava
passagem livre pelos caminhos do mundo. Ele tinha muita facilidade de
comunicação, o que fazia dele uma pessoa perfeita para escrever perto de dois
terços dos escritos do Novo Testamento. Ele buscava a perfeição com ardor, uma
paixão que o ajudou a alcançar a Ásia Menor.
DEUS elege líderes específicos para cumprirem uma missão. Ele não o faz por
meio do voto popular. Se ele o tivesse feito, nenhum dos cristãos da
Antigüidade teria votado nele. No entanto, DEUS viu as qualidades de Saulo e o
chamou tanto para seguir CRISTO como para guiar pessoas a ele.
21 LEIS - BARNABÉ E A LEI DA DELEGAÇÃO DO PODER - Somente líderes seguros
delegam poder a outros (At 9.27)
Somente pessoas capacitadas podem alcançar seu potencial. Quando um líder não
pode ou não quer capacitar outras pessoas, ele cria barreiras dentro da
organização que as pessoas não conseguirem superar. Se as barreiras
permanecerem por muito tempo, as pessoas desistem ou mudam para outros lugares
onde poderão maximizar seu potencial.
Se você deseja ser um líder de sucesso, você deve se tornar um capacitador.
Theodore Roosevelt afirmou que "o melhor executivo é aquele que tem a
sensibilidade suficiente para escolher bons homens, para que eles façam coisas
que ele deseja que aconteçam e que têm suficiente auto-resignação para
guardar-se de não interferirem enquanto eles estão fazendo o que lhes foi
solicitado."
A verdade é que o único caminho para que você possa se fazer indispensável é
você se fazer dispensável. Em outras palavras, se você tem a capacidade de
sempre delegar poder e capacitar outras pessoas e ajudá-las a desenvolverem seu
potencial de maneira que se tornem capazes de realizar sua tarefa, você se
tornará tão valioso para a organização que você se tornará indispensável.
Será que eu posso pegar uma carona?
Definitivamente, Barnabé foi um líder que sabia como animar as pessoas. Isso é
visto quando ele não deixa passar nenhuma oportunidade de acrescentar coisas
boas para os outros. E sua grande e simples contribuição no que diz respeito à
delegação de poder pode ser vista em sua interação com Paulo.
1. Ele acreditou em Paulo antes de qualquer outra pessoa.
É muito fácil dar uma opinião a favor de um assunto ou pessoa controvertida
diante de líderes que dão apoio a essa pessoa. Outra coisa é você levantar-se e
falar diante de outros que não o fazem. Mas foi isso o que Barnabé fez. Ele não
esperou que os outros apóstolos apoiassem Paulo para poder acreditar nele. Na
verdade, ele acreditou em Paulo, enquanto Pedro e os outros tinham medo dele.
Para ser um líder capaz de encorajar outros, você precisa estar disposto a dar
oportunidades às pessoas. Você deve ser capaz de perceber o potencial que há
nelas e encorajá-las a acreditar em si mesmas. Isso pode ser arriscado porque
elas podem não corresponder. Mas, se elas corresponderem, o retorno pode ser
imenso. Você pode tornar-se o responsável por inspirar um líder a pôr em
prática coisas que ele nunca tinha pensado que fosse possível. E os líderes
nunca esquecem a primeira pessoa que acredita neles.
2. Ele defendeu a liderança de Paulo diante dos outros.
As Escrituras dizem que Barnabé tomou a Paulo e levou até aos apóstolos. E ele
lhes declarou a respeito de como tinha visto o Senhor no caminho e aquilo que
ele lhe tinha falado e de como ele tinha pessoalmente pregado a respeito de
CRISTO em Damasco (At 9.27). Você pode imaginar como essas coisas teriam
acontecido em Jerusalém naqueles dias? Certa vez, quando Paulo chegou à cidade,
uma palavra chegou aos apóstolos de que ele estava dizendo que era um pregador
de JESUS CRISTO. Eles devem ter pensado de que se tratava de um truque.
Tratava-se da mesma pessoa que tinha estado diante de Estêvão, primeiro mártir,
e aprovado seu apedrejamento. Barnabé deve ter aparecido com Paulo a uma das
reuniões dos apóstolos na cidade. Um silêncio desconfortável sem dúvida, deve
ter caído sobre as pessoas que estavam reunidas quando elas souberam da
identidade daquele que acompanhava Barnabé. Então, Barnabé passou a contar a
história de Paulo. Paulo não precisou dizer uma única palavra. Todos os
cristãos conheciam Barnabé. Eles sabiam de sua reputação e integridade. Foi
isso que Barnabé fez As Escrituras dizem: "Estava com eles em Jerusalém,
entrando e saindo" (At 9.28). A Igreja tinha aceitado Paulo
3. Ele delegou poder a Paulo para alcançar seu potencial.
A ligação entre Barnabé e Paulo não terminou em Jerusalém. Depois que o endosso
de Barnabé possibilito que Paulo se movimentasse livremente em Jerusalém,
ensinando as pessoas e debatendo as verdades das Escrituras não demorou muito
para que Paulo se tornasse um inimigo dos que não criam no evangelho. Os
apóstolos, então sabiamente, enviaram Paulo de volta a Tarso, para sua
segurança pessoal.
Mais tarde, no entanto, quando Barnabé foi designado para dar assistência às
igrejas da Antioquia, ele encontrou Paulo e o leyou em sua companhia. Essa ação
delegou a Paulo o poder de ter seu primeiro serviço como um lider.
Isso também conduziu à parceria de Paulo e Barnabé como missionários, o papel
para o qual DEUS estava destinando Paulo.
Para ser um líder capacitado, você precisa mais do que acreditar em líderes que
estão surgindo. Você precisa dar passos adiante para ajudá-los a se tornarem
líderes de acordo com o potencial que eles têm para desenvolver. Você precisa
investir neles se você os quiser tornar capazes para darem o seu melhor.
Capacitar pessoas requer um investimento pessoal. Isso requer tempo e energia,
mas vale a pena. Se você o fizer bem feito, terá o privilégio de ver alguém
subir para o nível mais elevado. E, como um bônus adicional, ao delegar poder e
capacitar outros, você estará aumentando o poder de sua organização.
CORNÉLIO: O PARADIGMA DE PEDRO SE EXPANDIU (At 10.1-35)
Missiologistas o teriam chamado de etnocêntrico. Apesar de que Pedro sabia que
JESUS lhe tinha dito para ir ao mundo e pregar o evangelho, ele ainda tinha
dificuldade para falar com o centurião romano chamado Cornélio. Por causa
disso, DEUS providenciou uma visão nova para ele. O escritor Steve Moore fez
anotações a respeito da seqüência da construção da visão que DEUS levou a
Pedro:
1. Revelação sobrenatural (vs. 9-16)
DEUS ampliou os horizontes de Pedro e o ajudou a sair da caixa, educação que o
conduziu a uma nova convicção.
2. Convite sobrenatural (vs. 17-23)
DEUS enviou pessoas associadas a Cornélio para convidarem Pedro para ingressar
em uma nova forma de ministrar aos gentios, exposição que lhe deu uma compaixão
nova.
3. Confirmação sobrenatural (vs. 24-35)
DEUS confirmou esta visão ampliada com Cornélio receptivo e com sinais
concretos confirmando sua conversão, uma experiência que o levou a um novo
comprometimento.
Quando DEUS quer conquistar uma nova obediência de um servo seu, ele quase
sempre faz uma nova revelação. Foi exatamente o que aconteceu com Pedro.
EDUCABILIDADE: O NOVO EMPREENDIMENTO DE PEDRO FOI ACEITO PELOS LÍDERES DA
IGREJA
(At 11. 1-18)
JESUS devia estar falando sério quando ele disse à Igreja que fossem até os
gentios. Pedro relatou a seus pares como DEUS o havia guiado até um público
completamente novo. Quando eles ouviram essa história, renderam glórias a DEUS
pelo novo ministério. Eles continuavam aprendendo. No momento em que você parar
de estudar e aprender, você pára de liderar.
SER PRESTATIVO: NENHUM TRABALHO É SEM IMPORTÂNCIA (At 11.22-24)
Se um líder da Igreja antiga pode ser chamado de servo, este é Barnabé. Ele
tomou a iniciativa e fez tudo quanto achou que pudesse aumentar o ânimo, número
de pessoas ou dinheiro. Ele liderou com clareza e exemplo, tornando-se servo.
Ele não considerava nenhuma tarefa sem importância. O que permitiu a Barnabé
demonstrar um estilo de vida como este? Ele...
1. Não tinha nada a provar.
Ele não estava ali para brincar. Ele nunca procurou notoriedade. Quando ele
orientou Paulo, ele alegremente permitiu que esse apóstolo emergente o
superasse. Ele não sentia a necessidade de projetar sua própria dignidade ou
provar a si mesmo para quem quer que fosse.
2. Não tinha nada a perder.
Barnabé não tinha preocupação de preservar sua reputação ou que o medo pudesse
fazer perder sua popularidade. Ele veio para servir e não par ser servido. Isso
permitiu pôr seu foco em dar e não em receber. Como servo, ele não tinha
direitos a perder.
3. Não tinha nada a esconder.
Barnabé não precisava manter uma fachada ou imagem. Ele permaneceu autêntico,
vulnerável e transparente. Ele podia alegrar-se com a vitória dos outros (At
11.23) e nunca se maravilhou com sua própria fama.
Se DEUS chamasse você para ser um novo Barnabé para outro novo Paulo, se você
soubesse que esse novo e emergente líder iria rapidamente colocá-lo em sombras,
você aceitaria este chamado? Em outras palavras, você é mesmo um servo? Você
deve amar mais as pessoas que sua posição.
21 Qualidades Caráter - Herodes teve falta dele e perdeu tudo
(At 12.1-23)
O ego dirigia a vida de Herodes dos dias de Paulo, do mesmo jeito que havia
guiado seu pai e seu avô. Todos eles tinham uma irremediável falta de caráter.
Herodes era o sobrenome da família de reis que sustentava o poder com a
permissão do Império romano. Herodes o Grande, governou nos dias do nascimento
de JESUS. Foi ele que mandou matar todos os meninos de até dois anos em Belém.
Herodes Antipas foi quem ordenou a decapitação de João Batista. O Herodes de
Atos 12 é Herodes Agripa 1, o filho mais velho de Herodes, o Grande. A falta de
caráter de Herodes nos dá muitos exemplos a respeito do que não se deve fazer
como líder:
1. Ele maltratava seus próprios cidadãos (v. I).
Ele, injustamente ordenou a prisão de cristãos judeus a fim de fustigá-los.
2. Ele executou pessoas inocentes (v. 2).
Ele mandou matar Tiago à espada, embora Tiago não tivesse cometido crime
nenhum.
3. Ele tomou decisões, preocupado com sua popularidade (v. 3).
Quando ele percebeu que os judeus ficaram satisfeitos com a morte de Tiago,
mandou pôr Pedro na prisão também.
4. Ele agia de modo irracional em tempos de dificuldade (v. 19).
Ele mandou matar todos os 16 guardas que cuidavam da prisão no dia em Pedro
fugiu de lá.
5. Ele alimentou ódio por outros (v. 20).
Ele permaneceu irado contra grupos étnicos de fora e procurou meios de
subjugá-los.
6. Ele procurou poder para compensar sua insegurança (v. 20).
Ele gostava de controlar os outros e, especialmente, gostava bastante de poder
ter pessoas debaixo de sua misericórdia.
7. Ele projetava a imagem de ser infalível (vs. 21-22).
Ele amava vestir sua roupa real e ser reverenciado.
8. Ele se deixava cegar pelo seu ego (v. 23).
Ele vivia em um mundo irreal e não conseguia ver que seu ego estava sabotando
sua liderança.
Como você pode evitar as armadilhas de Herodes?
A fim de melhorar seu caráter e construir uma base sólida para a sua liderança,
você deve:
1. Procurar suas falhas.
Preste atenção nas principais áreas de sua vida. Identifique quais são os
pontos fracos ou em quais delas você costuma tomar atalhos;
2. Procurar parceiros.
Ainda há alguma fraqueza? Parceiros podem ajudá-lo a diagnosticar falhas no
caráter.
3. Encarar a realidade.
O reparo das falhas de caráter inicia quando você as encara e quando você
defende aquelas em que você a enganou.
4. Permanecer pronto para aprender e rever as coisas.
Uma vez que você enfrenta o passado, crie um plano para fortalecer-se
internamente.
A LEI DO CRESCIMENTO EXPLOSIVO: ANTIOQUIA COMISSIONOU LÍDERES
(At 13.1-3)
Pelo meio do Livro de Atos, vemos que três igrejas enviaram líderes
missionários: Cirene, Chipre e Jerusalém. Infelizmente, esses esforços parecem
ter sido fatos isolados. Em Atos 13, o cuidado de DEUS levou mudanças para a
igreja de Antioquia. Por quê? Porque ela continuava comprometida com os efeitos
globais do evangelho, ocupada em fazer surgir líderes que viessem a se tornar
agentes de mudança para o mundo todo. Jerusalém tinha deixado de ser o centro
das atividades de DEUS. Na verdade, ela tornou-se uma igreja com grandes
necessidades, necessitando do socorro das igrejas da Ásia e Grécia.
Antioquia floresceu por causa de sua boa visão de enviar líderes pelo mundo.
Ela enviava seus líderes como se fossem uma equipe, pessoas com dons que se
complementavam e com visão compartilhada. Isso os capacitou a ficarem ligados
com as pessoas e a conseguirem bons resultados em quase todos os lugares aos
quais iam.
DEUS fez o seu trabalho ao enviar equipe de líderes. JESUS enviou uma equipe de
doze (Lc 9.1 -6), e essas parcerias tiveram continuidade em Atos. A maioria
dessas equipes de líderes veio da igreja de Antioquia:
1. Pedro e João (At 3);
2. Filipe, Pedro e João (At 8);
3. Pedro e alguns irmãos (At 10);
4. Homens de Chipre e Cirene (At II);
5. Paulo e Barnabé (At 13 e 14);
ó. Judas, Silas e Paulo (At 15);
7. Barnabé e Marcos (At 15);
8. Timóteo, Paulo e Silas (At 16);
9. Paulo, Áqüila e Priscila (At 18);
10. Timóteo e Erasto (At 19).
RESPONSABILIZAÇÃO: A EQUIPE PERMANECEU RESPONDENDO PARA A IGREJA
(Atos 14.26-28)
Embora os líderes não requeiram uma posição formal para fazer a diferença,
DEUS, raramente, os chama para agirem sozinhos. DEUS, normalmente, os chama
para fazerem parte de uma equipe e os envia por meio de uma organização, como
uma igreja local, por exemplo. Alguns líderes enviam, outros vão. Cada um deve
dar suporte ao outro.
A LEI DA INTUIÇÃO: PEDRO PROPÔS UMA MUDANÇA MAIOR DAS COISAS ANTIGAS (At
15.7-11)
Pedro sugeriu mudanças para o modo como a igreja fazia as coisas. Deveria haver
um novo paradigma para o pensamento e a fé. Ele persuadiu os líderes a mudarem
por meio de uma comunicação convincente das coisas que DEUS estava fazendo.
Pedro viu a necessidade de mudanças antes dos demais. Sua percepção, associada
a sua credibilidade, fez a Igreja continuar indo para frente.
ALEI DA INFLUENCIA: O CONCÍLIO DA IGREJA LIBERTOU OS GENTIOS
(At 15.22-29)
Por meio de um documento, a igreja de Jerusalém libertou os cristãos de
qualquer localidade de terríveis encargos e culpas potenciais que lhes poderiam
ser atribuídas pela lei dos judeus. Eles usaram a sua influência e mudaram o
curso da história da igreja. Nem sempre o poder é mal. O Concilio da igreja de
Jerusalém exerceu uma influência positiva em seu tempo. Nós também podemos.
RECRUTANDO VOLUNTÁRIOS (At 15.32-35)
Organizações mantidas por meio de voluntários requerem liderança muito maior
sobre o grupo. Tais organizações precisam de bons líderes, porque o único
incentivo que os voluntários têm vem da visão de sua liderança. Essas
organizações não pagam salários, não oferecem benefícios nem ostentação.
Na verdade, apenas uma pequena percentagem dos voluntários realmente trabalha.
Em muitas igrejas, cerca de vinte por cento das pessoas fazem oitenta por cento
do trabalho. Por que isso ocorre? Por que mais pessoas não se envolvem?
1. Ninguém lhes pediu nada.
Com receio de se intrometerem em território alheio, eles esperam ser convidados
para ajudar.
2. Elas têm medo de assumir responsabilidades.
Receosos de que sejam cobrados a se comprometerem além do que desejam ou podem,
eles hesitam em fazer alguma coisa.
3. Elas sofrem com experiências passadas.
Tendo passado de "pilares" para "meros ouvintes", elas
sentem a necessidade de descansar e de serem alimentados.
4. Eles se sentem intimidadas por obreiros atuais.
"Pilares" que não estão abertos para mudanças acabam por manterem os
outros inúteis.
5. Elas desconhecem as diretrizes bíblicas para o ministério.
Muitas igrejas não estabelecem um padrão para o sacerdócio dos crentes ou para
a verdade exposta em Ef 4.11-12.
6. Elas estão muito preocupadas com seus próprios compromissos e ocupações.
A maioria das pessoas se esquiva de novas tarefas por causa de compromissos que
já assumiram, e as coisas que podem ser feitas depois perdem para as que
precisam ser feitas agora.
7. Elas se sentem despreparadas, mal equipadas ou desprovidas de dons.
Muitas pessoas, equivocadamente, pensam que apenas pessoas que têm certos dons
e são treinadas podem servir e, visto que não têm estes dons especiais ou não
foram treinadas, elas não estão qualificados para servir.
8. Elas não têm consciência das opções de trabalho que lhes estão disponíveis.
A maioria dos líderes, erroneamente, pensa que as pessoas sabem das vastas
possibilidades de serviços que estão à sua disposição.
9. Elas não se "apropriaram" da causa.
Muitas pessoas só aceitam participar do ministério se elas puderem ter a visão
de todo o quadro da missão. 10. Elas são egoístas, preguiçosas ou indiferentes.
Algumas não vão se envolver, simplesmente porque não se preocupam com nada mais
além de si mesmas.
Dessa forma, o que pode ser feito para mobilizar voluntários? Tente o seguinte:
1. Agende entrevistas com novos membros para expor-lhes as oportunidades;
2. Ofereça treinamento para cada cargo ou função; dê modelo de como servir;
3. Associe os dons espirituais com as oportunidades de trabalho;
4. Seguidamente, anuncie as opções de serviço disponíveis;
5. Faça o envolvimento no ministério partir do processo de recepção de membros;
6. Crie vários níveis de responsabilidades para os novos membros, que se sentem
apreensivos;
7. Ensine e exponha a visão do sacerdócio universal dos crentes; todos têm um
dom com o qual podem participar;
8. Desenvolva séries de compromissos realistas para que as pessoas possam
dividir as responsabilidades;
9. Promova o rodízio entre os líderes, tanto quanto possível, para criar espaço
para novas pessoas;
10. Seguidamente, elogie servos simples que acabam fazendo diferença.
DISCERNIMENTO: PAULO MUDOU SEUS PLANOS ASSIM QUE TEVE O DISCERNIMENTO DAS
NECESSIDADES (At 16.1-13)
Todos os líderes precisam ter discernimento. Paulo o tinha e o usava para
escolher novos líderes, para escolher as palavras que iria dizer diante de uma
corte e para saber onde deveria ir em seguida em suas viagens missionárias.
Quando a equipe de Paulo viajava através da Ásia, ele deveria ter estado a
ouvir o ESPÍRITO SANTO em seus momentos de silêncio. DEUS o proibiu de falar
certa vez na Ásia e o compeliu a ir adiante. Em seguida, o ESPÍRITO proibiu
Paulo de evangelizar na Ásia e na Bitínia. Em Trôade, ele teve a visão na qual
um homem o suplicava para visitar a Macedônia.
Assim era a dinâmica da liderança de DEUS. Líderes com discernimento,
usualmente, repartem alguns traços em comum. Esses são:
• bons ouvintes;
• intuitivos e perceptivos;
• bem conectados;
• flexíveis;
• otimistas.
A LEI DA LIGAÇÃO: PAULO FOI MUITO EFICIENTE EM ATENAS (At 17.22-34)
Pedro, Paulo e Estêvão se valeram da Lei da Ligação em todos os quatro sermões
que deles Lucas registra (At 2.14-36; 7.2-53; 13.16-41; 17.22-31). Esse que
Paulo pronunciou, registrado em Atos 17, é uma obra-prima. Ele conseguiu
estabelecer uma ligação brilhante com o povo de uma cultura diferente,
mostrando e compreendendo ambos, a sociedade grega e a necessidade humana. Leia
esta mensagem e veja um mestre da comunicação em ação:
1. Ele iniciou com uma afirmação (v. 22);
2. Ele fez uma ponte de seu assunto com o que era familiar aos gregos (v. 23);
3. Ele ampliou a visão que eles tinham de DEUS (vs. 24-25);
4. Ele usou uma linguagem inclusiva (v. 26);
5. Ele lhes deu encorajamento e esperança (v. 27);
6. Ele se identificou com um dos poetas deles (v. 28);
7. Ele lhes ofereceu passos específicos de ação (vs. 29-31).
Líderes efetivos conseguem uma ligação antes que eles esperem. Somente quando
Paulo conseguiu levantar pontes de relacionamento com as pessoas que ele
conseguiu um claro chamamento ao arrependimento. A ligação precede a decisão. E
o que foi que aconteceu? De acordo com o texto, cada um agiu. Uns riram de
Paulo, outros lhe disseram que o ouviriam em outra ocasião, e outros o seguiram
de imediato (vs. 32-34).
21 Qualidades Educabilidade Apoio aprendeu e cresceu
(At 18.24-28)
O Livro de Atos apresenta Apoio como um excelente professor. DEUS o usou
grandemente em várias culturas, ele tornou-se o braço direito do apóstolo.
O que mais impressiona a respeito de Apoio, contudo, é sua educabilidade. Ele
nunca pensou que tivesse aprendido tanto, que pudesse improvisar o que fazia.
Lucas aponta alguns fatos sobre esse homem:
1. Sua origem é de uma cidade culta (v. 24);
2. Ele era um homem de boa educação (v. 24);
3. Ele conhecia muito bem as Escrituras (v. 24);
4. Ele tinha sido instruído na fé cristã (v. 25);
5. Ele tinha um dom natural (v. 25);
6. Ele ensinava a verdade com denodo (v. 25);
7. Ele ensinava a verdade com paixão (v. 26).
A história da Igreja nos conta que Apoio foi era um professor tão bom, que
muitas pessoas queriam ouvir ma s ele do que ao apóstolo Paulo. Isso era mesmo
uma pena em seu chapéu! Isso pode nos fazer assumir que ele tinha tido todas as
coisas juntas. No entanto, Apoio tinha conhecido "apenas o batismo de
João" (At 18.25). Ele sabia o quanto era arrependimento. Ele compreendia o
que ele significava para a redenção de DEUS. Mas ele não estava familiarizado
com as verdades mais profundas do discipulado ou de uma vida na plenitude do ESPÍRITO.
Assim, Áqüila e Priscila se tornaram seus mentores, tomaram tempo para ouvi-lo,
avaliá-lo, para relatar-lhe coisas e expor-lhe "o caminho para DEUS"
(At 18.26).
Líderes enfrentam o perigo do contentamento por causa de seu 'status quo'.
Principalmente, se um líder já possa influência e já alcançou um bom nível de
respeito, que razão mais ele tem para querer crescer?
1. Seu crescimento determina quem você é.
2. Quem você é determina a quem você atrai.
3. Quem você atrai determina o sucesso de sua organização.
Líderes devem permanecer prontos para aprender. Observe estas cinco orientações
para se cultivar uma atitude de aprendizado:
1. Cure a doença de seu destino.
A falta de capacidade de aprender está enraizada no ativismo. Se você parar de
crescer, você pára de liderar
2. Supere seu sucesso.
O sucesso, frequentemente, impede educabilidade. Não fique olhando para os
troféus que já ganhou e, sim para as metas a serem alcançadas.
3. Prometa não mais usar atalhos.
Todas as coisas mensuráveis têm um preço. A maior distância entre dois pontos é
um atalho.
4. Desfaça-se do orgulho.
Admita que não sabe todas as coisas, mesmo a respeito daquelas que você sabe
alguma coisa.
5. Nunca pague o preço duas vezes pelo mesmo erro.
O crescimento implica em se cometerem erros, mas você precisa aprender com cada
um deles.
Perfil de Liderança - ÁQÜILA E PRISCILA - Líderes que prepararam mais líderes.
(At 18.24-28)
Liderança não significa exatamente conseguir outras pessoas para serem
seguidores. Liderança também significa equipar e preparar líderes para guiarem
o povo de DEUS. A responsabilidade de Áqüila e sua esposa Priscila, do apóstolo
Paulo e Apoio ilustram esse princípio.
Áqüila e Priscila, que, como Paulo, eram cristãos judeus e fabricantes de
tendas, tinham ido a Corinto de Roma quando o Imperador Cláudio ordenou que
todos os judeus abandonassem a cidade. Quando Paulo chegou a Corinto, ele
permaneceu com esse casal e, evidentemente, lhes ensinou muito a respeito das
coisas de DEUS. Eles levaram esses ensinamentos a sério, pois, quando eles
viajaram para Éfeso, eles instruíram um ministro chamado Apoio a respeito do
evangelho de JESUS CRISTO.
Apoio tinha ouvido e crido numa parte da mensagem cristã e, com grande eloquência,
estava ensinando vigorosamente o que tinha conhecido. Mas, quando Áqüila e
Priscila o ouviram pregar, eles perceberam que ele não tinha recebido toda a
mensagem, de maneira que o levaram para um lugar à parte e lhe expuseram de
modo mais completo. Depois disso, Apoio pôde pregar com muito mais eficiência.
Quando nós vamos a CRISTO para a salvação, DEUS está nos chamando para
"irmos e fazermos discípulos" (Mt 28.19). Do mesmo modo, quando DEUS
nos chama para sermos líderes, ele nos orienta a ajudar equipar outros para que
possam liderar de modo mais eficiente.
A LEI DO CRESCIMENTO EXPLOSIVO: O SEMINÁRIO DE PAULO ALCANÇOU A ÁSIA (At
19.8-10)
Paulo deu início a uma miniatura de seminário em Éfeso para ensinar a
estudantes os pró e os contra do evangelho. Durante dois anos, ele reuniu
jovens e os treinou na Escola de Tirano. Sem dúvida, a educação requer
aplicação prática, pondo as mãos na massa, experimentando, pois Lucas diz que
todos na Ásia Menor ouviram a pregação do evangelho durante estes dois anos (At
19.10).
Como ele estava orientando estudantes, Paulo permaneceu comprometido com o
povo, com o processo e com o propósito.Seu treinamento sempre resultou em
atividades de um grande comissionamento. Paulo comprometeu-se pessoalmente em
desenvolver líderes. Vamos ver como nós também podemos fazer ao treinarmos
líderes:
1. Conheça-se a si mesmo; fique familiarizado com suas fraquezas e fortalezas.
2. Conheça a pessoa que você quer desenvolver.
3. Defina, claramente, os objetivos e as atribuições.
4. Ensine os "porquês" depois das atribuições.
5. Discuta o processo de crescimento deles comparado com o seu.
6. Tome tempo para conviver com eles.
7. Permita-lhes observar você servindo e liderando.
8. Dê-lhes dos recursos de que você mesmo necessita.
9. Encoraje-os a fazerem registros durante o processo.
10. Tenha-os por responsáveis em seu trabalho.
11. Dê-lhes a liberdade de errar.
12. Avalie e confirme-os regularmente.
PAULO: O CORAÇÃO DE UMA LIDERANÇA EFICIENTE
(At 20.18-24)
O que você é advém do que você faz! Liderança é "ser" antes de
"fazer".
Enquanto Paulo falou aos efésios, ele descrevia os ingredientes para alguém ser
um líder efetivo. Paulo guiava de alma. Ele fez apelos, até chegou a chorar na
frente das pessoas. Mas uma coisa é certa: a liderança começa com o coração.
Paulo tinha um coração que era...
1. Consistente - ele viveu com serenidade enquanto esteve entre eles (v. 18);
2. Contrito - ele agiu de modo humilde e voluntariamente revelou suas fraquezas
(v. 19);
3. Corajoso - ele não se abalava por fazer as coisas de modo correto (v. 20);
4. Convicto - ele falava pessoalmente sobre suas convicções (v. 21);
5. Comprometido - ele deixou Jerusalém, desejoso de morrer por CRISTO (vs.
22-23);
6. Cativo - ele mostrou que uma pessoa que se rende a DEUS não precisa
sobreviver (v. 24).
COMUNICAÇÃO: PAULO ADAPTA E COMPARTILHA SUA HISTÓRIA PARA CONVENCER
(At 22.1-21; 26.4-23)
Por três vezes o Livro de Atos conta a história da conversão de Paulo. Por duas
vezes ele conta sua história diante de autoridades do governo. Em ambos os
casos, ele adapta sua história e enfatiza a parte que vai atender às
necessidades de sua platéia.
Líderes efetivos sabem não apenas o que dizer, mas também como dizer, de
maneira a tornar sua mensagem com poder de impacto maior diante de seus
ouvintes. Quando eles falam, eles levam em conta o impacto que isso vai causar,
não a impressão. Eles avaliam a sua platéia e lhe comunicam de modo que se
obtenha a melhor ligação com os ouvintes. Em seguida, eles os ajudam a fazer
aplicações práticas de sua mensagem.
Tente um pequeno exercício. Leia o testemunho de Paulo em Atos 22 e 26, com a
perspectiva de comparar e diferenciar os dois em seus interesses. Que
diferenças você notou? Quais são as semelhanças? Por que ele deu uma ênfase tal
a uma platéia e outra diferente para a segunda? O que você aprendeu com Paulo a
respeito de se dar uma forma especial para cada grupo diferente de ouvintes?
FELIX, FESTO E AGRIPA - Líderes que cometeram falhas
(At 23.23—26.32)
Quando esteve diante de dois homens poderosos, o Governador romano Festo e o
Rei Agripa, esse homem apareceu esfarrapado e algemado. Agora, Paulo, que
esteve na prisão mais de dois anos e que estava tendo de encarar a
possibilidade de sofrer sentença de morte, falou destemidamente sobre a
ressurreição de CRISTO.
Festo havia herdado essa questão de seu antecessor, Félix, que aprisionou Paulo
sob a acusação de estar incitando tumultos entre judeus e encorajando rebeliões
contra Roma. Ambos, Félix e Festo, estavam mais preocupados em agradar os
judeus do que em fazer o que é certo. Quando Festo falou ao rei Agripa, que o
visitava, a respeito do problema de Paulo, o rei lhe deu a oportunidade de uma
audiência. Paulo aproveitou essa oportunidade para apresentar suas experiências
com CRISTO, mas, quando Agripa as ouviu, elas pareceram a Festo como algo a
respeito do que nunca tinha ouvido nada.
Ambos os governantes tiveram, naquele dia, a oportunidade de se converterem a
CRISTO. Mas eles não aceitaram o convite. E por que não? Aparentemente, sua
posição de poder e de liderança lhes era mais valiosa do que a condição de sua
alma.
Líderes de DEUS sabem que a busca de um profundo conhecimento (ou obediência)
de JESUS é mais importante do que qualquer outra coisa, incluindo a obtenção do
poder ou a proteção que vem dele. O poder não somente corrompe; ele também
dispersa, diferentemente do genuíno caráter que podemos obter através da
submissão a CRISTO.
PAULO - O líder mais influente da Igreja primitiva
(At 26.1-23)
Desde o início de tudo, a vida de Paulo em CRISTO influenciou grandemente a
todos que estavam à sua volta.
Esse perseguidor da Igreja, agora feito apóstolo, esteve diante de reis,
governadores e de todas as estruturas de poder religioso de sua época. Seus
inimigos o acusavam, o aprisionaram, maltrataram e o ameaçaram com a morte. Ele
viajou milhares de quilômetros e ainda sobreviveu a um naufrágio. Em meio a
todas essas coisas, Paulo nunca deixou de defender e pregar com coragem e com
vigor o evangelho de JESUS CRISTO.
Paulo não se tornou um líder influente por causa de sua eloqüência ou por
possuir algum dom muito especial que os outros não possuíam. Paulo conseguiu
influência porque, apesar das circunstâncias, se ele esteve em algemas durante
qualquer outro interrogatório, se ele estivesse lançado em alguma prisão fria e
úmida ou se ele pudesse andar livremente para fazer seu trabalho, ele estaria
comprometido a uma única coisa: pregar o nome de JESUS CRISTO.
Sem questionamento, Paulo tornou-se o mais influente líder da primeira Igreja.
Nós continuamos a sentir ainda hoje o poder de sua influência.
Pelos padrões do mundo, então e agora, Paulo deve ter parecido um fanático. Mas
tudo o que ele fez foi obedecer ao chamado de DEUS para influenciar o mundo à
sua volta. Líderes sábios gostariam muito de poderem seguir o exemplo de Paulo
ao, propositadamente, falarem a Palavra de DEUS tanto para o Corpo de CRISTO,
como para o mundo descrente.
PERSUASÃO: LÍDERES FALAM PARA TRANSFORMAR E NÃO APENAS INFORMAR
(At 26.1-29)
Em uma de suas falas públicas mais instigantes, Paulo quis atingir o rei
Agripa. Quando você estiver lendo este capítulo, tente sentir a estratégia de
Paulo. Paulo acreditava que a melhor defesa seria uma boa forma de atacar e
rapidamente converter o rei Agripa. Observe como este líder tentou convencer
seu ouvinte:
1. Ele apareceu tranqüilo, embora usasse gestos bem animados (v. I);
2. Ele, humildemente, agradeceu ao rei lhe ter concedido a palavra (v. 2);
3. Ele reconheceu o conhecimento e habilidade do rei (v. 3);
4. Ele admitiu que sua vida era um livro aberto (v. 4);
5. Ele lhe recordou que sua vida passada era conhecida deles (v. 5-8);
6. Ele identificou que a oposição que ele enfrentava estava relacionada à nova
vida que ele tinha assumido (vs. 9-11);
7. Ele usou uma narrativa para defender a mudança de sua vida (vs. 12-18);
8. Ele descreveu que seus motivos eram puros e edificantes (vs. 18);
9. Ele admitiu que estava obedecendo a uma visão divina (vs. 19-20);
10. Ele expôs que a causa de seu sofrimento era por causa de sua obediência a
DEUS (v. 21);
11. Ele mostrou como DEUS lhe foi favorável durante sua vida (v. 22);
12. Ele afirmou que estava pregando as palavras das Escrituras (vs. 22-23);
13. Ele os desafiou com fatos verificáveis e racionais (v. 25);
14. Ele admitiu que o rei conhecia esses fatos (v. 26);
15. Ele confrontou diretamente o rei com uma questão (v. 27);
16. Ele pediu a eles que obedecessem a DEUS (v. 29).
VISÃO: A VISÃO DE PAULO O GUIOU PARA A VITÓRIA
(At 26.12-29)
A visão de Paulo no caminho de Damasco tornou-se a força que o mantinha cativo
ao seu sucesso O apóstolo nos ensina sobre o poder de uma visão A visão que
DEUS deu a Paulo realizou uma série de coisas:
I . Ela o parou (vs. 12-15).
A visão nos permite que vejamos a nós mesmos Nós vemos coisas não como elas
são, mas como nós somos.
2. Ela o enviou (vs. 16-18).
A visão nos permite ver os outros. Ela nos compele a agir.
3. Ela o fortaleceu (vs. 20-23).
A visão nos capacita a prosseguirmos apesar das lutas e de nossa falta de
recursos.
4. Ela lhe deu maior alcance (vs. 24-29).
A visão lhe deu poder para ficar em pé, confiaça para falar e compaixão para
dividir.
5. Ela o satisfez (v. 19).
A obediência a essa visão motivou Paulo a agir Isso o satisfez.
A LEI DE E. F. HUTTON: UM ACOMPANHANTE ASSUME O COMANDO
(At 27.1-44)
Como era um acompanhante em um navio-prisão virtual, Paulo, de início, não teve
influência
(At 27.11). Ao final da viagem, contudo, todos o estavam ouvindo, inclusive o
centurião. Veja como foi que esse líder conseguiu ser influente:
1. Ele conquistou a confiança (v. 3).
Júlio havia dado privilégios especiais a Paulo, percebendo sua probidade.
2. Ele tomou a iniciativa (vs. 9-10).
Mesmo sem permissão ou posição, Paulo tomou a dianteira e agiu.
3. Ele possuía boa opinião (v. 10).
A fala de Paulo revelava sabedoria e experiência.
4. Ele falava com autoridade e credibilidade (v. 21).
Sem constrangimento, Paulo falava para a tripulação que ele tinha tido razão
antes.
5. Ele era otimista e confiante (vs. 22-24).
Paulo falava cara a cara.
6. Ele deu encorajamento (v. 25).
Paulo deu esperança de sobrevivência e salvação.
7. Ele era honesto (v. 26).
Paulo falou com ternura à tripulação que eles deveriam enfrentar o problema.
8. Ele não se comprometeu em absoluto (vs. 27-32).
Paulo não quis jamais se afastar das instruções de DEUS.
9. Ele não perdeu seu foco (vs. 33-34).
Ele pôs seu foco em seus objetivos e não nos obstáculos.
10 . Ele liderou por meio do exemplo (vs. 35-38).
Paulo liderou ao dar um modelo de atitude correta.
11. Ele, finalmente, obteve sucesso (vs. 39-44).
Paulo, em conseqüência, realizava aquilo que ele se determinava a fazer.
A LEI DA BASE SÓLIDA: PAULO CONQUISTOU O DIREITO DE SER OUVIDO
(At 28.3-6)
Como Paulo permaneceu vivo depois que uma cobra o havia picado, os moradores
daquela ilha o proclamaram um deus (At 28.6). A credibilidade vem em uma dessas
maneiras: alguém pode lhe emprestar a sua ou você pode conquistá-la da vida que
você leva. As pessoas dão credibilidade aos líderes que concluem seu trabalho.
________________________________________
Comentário Esperança
Atos 26:1-7
– O DISCURSO DE PAULO PERANTE FESTO E AGRIPA- Atos 26.1-32
1 – A seguir, Agripa, dirigindo-se a Paulo, disse: É permitido que uses da
palavra em tua defesa. Então, Paulo, estendendo a mão, passou a defender-se
nestes termos:
2 – Tenho-me por feliz, ó rei Agripa, pelo privilégio de, hoje, na tua
presença, poder produzir a minha defesa de todas as acusações feitas contra mim
pelos judeus;
3 – mormente porque és versado em todos os costumes e questões que há entre os
judeus; por isso, eu te peço que me ouças com paciência.
4 – Quanto à minha vida, desde a mocidade, como decorreu desde o princípio
entre o meu povo e em Jerusalém, todos os judeus a conhecem;
5 – pois, na verdade, eu era conhecido deles desde o princípio, se assim o
quiserem testemunhar, porque vivi fariseu conforme a seita mais severa da nossa
religião.
6 – E, agora, estou sendo julgado por causa da esperança da promessa que por
DEUS foi feita a nossos pais,
7 – a qual as nossas doze tribos, servindo a DEUS fervorosamente de noite e de
dia, almejam alcançar; é no tocante a esta esperança, ó rei, que eu sou acusado
pelos judeus.
8 – Por que se julga incrível entre vós que DEUS ressuscite os mortos?
9 – Na verdade, a mim me parecia que muitas coisas devia eu praticar contra o
nome de JESUS, o Nazareno;
10 – e assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos
principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes
dava o meu voto, quando os matavam.
11 – Muitas vezes, os castiguei por todas as sinagogas, obrigando-os até a
blasfemar. E, demasiadamente enfurecido contra eles, mesmo por cidades
estranhas os perseguia.
Agripa não responde pessoalmente ao discurso de abertura do governador. Por
meio dela considera-se transformado em dirigente da reunião, cortesmente
concedendo a palavra a Paulo. Conseqüentemente, ouvimos, pela última vez, o
apóstolo num grande discurso. É um discurso de defesa, sendo também
expressamente designado como tal por Lucas. No entanto, ele se torna um ataque
evangelístico pessoal ao rei, porém igualmente aos ouvintes dessa hora
singular.
2/3 Novamente Paulo inicia o discurso com uma captatio benevolentiae, como
corresponde à natureza da questão e se esperava claramente na arte retórica.
Contudo também nesse ponto sua palavra não é artificial, mas objetivamente
acertada. Paulo pode se justificar perante um homem do judaísmo que não está
perplexo como Félix ou Festo diante “dos costumes e questões que há entre os
judeus”, mas que os conhece, e que apesar disso não está de antemão fechado
contra sua palavra através do ódio, como os sumo sacerdotes e anciãos. Paulo
sabe apreciar essa feliz conjuntura. Aqui ele pode falar com insistência e, não
obstante, contar com ser “ouvido com paciência”.
4/5 Sua justificativa não reside em determinadas opiniões, não em provas
fundamentais e correlações lógicas, mas reside única e exclusivamente em sua
história.546 Por isso ela é relatada mais uma vez, assim como Israel não se
cansava de recordar sua história com DEUS. Grande peso recai sobre seu rigoroso
passado judaico. Tarso já nem é mais mencionada. De antemão deve-se evitar
qualquer desconfiança de que Paulo seja um “judeu da diáspora”, para quem seria
relativamente fácil renegar a fé. Foi isso que ele também enfatizou no
retrospecto de Fp 3.5: “hebreu de hebreus”, ou seja, um israelita genuíno e
pleno apesar do nascimento em Tarso. Ele poderia trazer muitas testemunhas
desse fato. Contudo, esse passado não representa simplesmente um contraste com
sua atual condição de cristão.547 O verdadeiro fariseu não apenas olhou para a
lei e seu cumprimento rigoroso, mas precisamente desse modo visava o futuro, a
vinda do Messias. Nisso Paulo continuou sendo um “fariseu” é nisso que via o
ponto em comum.
6/7 Nesse sentido, com máxima seriedade, todo o serviço de Paulo tem como base
“a esperança da promessa que por DEUS foi feita a nossos pais, a qual as nossas
doze tribos, servindo548 (a DEUS) fervorosamente de noite e de dia, almejam
alcançar”. Sem dúvida havia nesse “serviço para DEUS”, que visa aproximar a
vinda do Messias, todo o “desconhecimento” da “justiça própria” diante de DEUS.
Contudo, apesar de toda a clareza e contundência do julgamento, também em Rm
10.2s Paulo teve de falar com respeito pessoal desse “zelo” por DEUS. Por que
não haveria de enfatizar outra vez, naquela hora diante do rei de seu povo, o
que o ligava a Israel e ao grupo fariseu em Israel? “Os dons e a vocação de
DEUS são irrevogáveis” (Rm 11.29). A incredulidade de Israel não consegue
anular a fidelidade de DEUS (Rm 3.3). As promessas emitidas a nossos pais
continuam em vigor. Essa sempre foi a convicção de Paulo, que lhe confere agora
uma formulação especial pelo fato de que, apesar das dez tribos do reino do
Norte, desaparecidas no exílio, continuam sendo “nossas doze tribos”. É capaz
de afirmá-lo honestamente, sem qualquer diplomacia inautêntica: “É por causa
desta esperança, ó rei, que estou sendo acusado pelos judeus.”
8 No entanto, parece que o rei fez um gesto de desaprovação ou pelo menos de
dúvida. “Paulo, não estás querendo afirmar que estás sendo odiado e acusado
pelos judeus por ser um fariseu rigoroso e sustentar a esperança messiânica de
Israel!” “Não, meu rei”, respondeu Paulo, “mas porque anuncio o verdadeiro
cumprimento da esperança de Israel pela ressurreição de JESUS dentre os mortos!549
Para mim ela se transformou, de mero dogma e expectativa incerta, em atualidade
viva pelo agir de DEUS. Isso, porém, as pessoas não querem ouvir!” Afinal, por
que não? “Por que se julga incrível entre vós que DEUS ressuscite os mortos?”
9 Paulo fala a partir da mesma situação em que também hoje muitos crentes ainda
prestam seu testemunho: simplesmente não conseguem conceber porque as pessoas
rejeitam a preciosa e libertadora mensagem de JESUS – e no passado elas mesmas
fizeram parte dos que a rejeitaram energicamente! É por isso que Paulo está
lembrando precisamente agora: “De minha parte, eu tinha na verdade julgado que
deveria combater por todos os meios o nome de JESUS, o nazareno” [TEB]. Em
parte alguma ele descreve sua atividade de perseguição de forma tão radical e
concreta.
10/11 Não fala apenas de aprisionamentos, como em At 8.3 e 9.2, mas também de
sentenças de morte, para as quais “dava seu voto” favorável.550 Sim, agora ele
revela suas recordações mais graves: “Muitas vezes, os castiguei por todas as
sinagogas, obrigando-os até a blasfemar.” Com que sentimentos ele pode ter
suportado pessoalmente os cinco flagelos nas sinagogas (2Co 11.24),
lembrando-se das pessoas que amavam a JESUS e que ele tentava forçar pelos
açoites a blasfemar contra o precioso nome de JESUS!551 Paulo fornece um dado
especial também a respeito da extensão de sua luta contra a igreja de JESUS:
“E, demasiadamente enfurecido contra eles, mesmo por cidades estrangeiras os
perseguia.” De acordo com a narrativa de At 8 e 9, poderíamos ter a impressão
de que Paulo escolheu Damasco como primeira localidade estrangeira após sua
atividade em Jerusalém. Na verdade, isso seria estranho e inverossímil. Agora
somos informados de que Paulo ampliou cada vez mais a área em que exercia a
perseguição.
RESUMOS DAS LIÇÕES - CPAD - https://www.cpad.com.br/revista-licoes-biblicas-aluno-4-tri-950004/p
O Apóstolo Paulo: Lições da Vida e Ministério do Apóstolo dos
Gentios para a Igreja de CRISTO
Subsídios das lições deste trimestre foi escrito por Marcelo Oliveira, chefe do
Setor de Educação Cristã; bacharel em Teologia, licenciado em Letras;
pós-graduado em Educação, Gestão e Docência.
Lição 1 - O Mundo do Apóstolo Paulo
Neste trimestre, estudaremos a vida e o ministério do apóstolo
Paulo. O mundo em que viveu, os processos pelos quais passou, os oponentes
contra a sua mensagem que enfrentou, enfim, as diferentes circunstâncias na
vida do apóstolo configuram uma série de lições edificantes para a nossa
caminhada cristã. Temas como perseguição, conversão, vocação, poder no
ESPÍRITO, plantação de igrejas, discipulado, liderança, dentre outros, serão
objetos de nosso estudo. Nesse sentido, ao longo deste quarto trimestre, temos
a oportunidade de aprender com o apóstolo dos gentios.
O assunto desta primeira lição é sobre o mundo em que o apóstolo viveu. Temos
como objetivo geral refletir sobre como o mundo de hoje pode ser uma porta
aberta para a pregação do Evangelho. Para atingir esse objetivo, estudaremos o
mundo do apóstolo Paulo no Império Romano, na cultura grega e na religião
judaica.
Resumo da lição
A respeito do império romano, estudaremos seu desdobramento político e
geográfico. Esse desdobramento impactou o ministério do apóstolo. Por meio da
“pax romana”, um ambiente de relativa paz no império, de suas malhas viárias e
seus meios de transportes, o apóstolo teve uma boa oportunidade para realizar
suas diversas viagens missionárias.
A respeito da cultura grega, o grego koinê mostrou-se relevante na difusão dos
escritos apostólicos, além de a filosofia grega abrir oportunidades para novos
pensamentos e ideias. Esse fenômeno linguístico e cultural trouxe grandes
oportunidades para o ministério do apóstolo no mundo gentílico.
A respeito da religião judaica, o apóstolo era perito em seus ensinamentos. A
religião judaica também influenciava determinadas áreas do império por meio das
sinagogas. A moral judaica como fruto da Lei de Moisés trouxe grande
contribuição ao ministério do apóstolo. Esse contexto ajudou na comunicação do
Evangelho pelo ministério do apóstolo.
Aplicação
É muito importante que façamos o seguinte exercício reflexivo: a exemplo do
apóstolo Paulo, devemos conscientizar-nos do que há no mundo hoje que seja possível
ser útil para a propagação do Evangelho. Às vezes a nossa profissão pode abrir
a porta do Evangelho. Uma viagem pode abrir a porta do Evangelho. O uso de uma
tecnologia ou de uma arte pode abrir a porta do Evangelho.
Lição 2 - Saulo de Tarso, o Perseguidor
Nesta lição, estudaremos sobre as características que constituíam a
personalidade persecutória de Saulo. O nosso objetivo geral com este estudo é
conscientizar os irmãos de nossas classes acerca do problema da perseguição
religiosa que milhares de cristãos espalhados pelo mundo sofrem. A perseguição
aos cristãos é um problema neste século e, infelizmente, por causa de
pensamento ideológico ou por puro preconceito, é solenemente ignorada pela ONU,
pela imprensa internacional e, principalmente, pelas organizações de Direitos
Humanos espalhadas pelo globo.
Resumo da lição
Para fazer essa conscientização, estudaremos as características persecutórias
de Saulo no primeiro tópico. Ali, há traços na personalidade de Saulo que
mostram como ele perseguia os cristãos. Primeiro, blasfemava contra eles,
insultando-os como heréticos do judaísmo. Segundo lugar, ele os perseguia nas
casas, nas praças, intentando sempre a envergonhá-los. Terceiro, os oprimia com
violência, açoites, sem qualquer respeito ao ser humano que professava a fé
cristã.
Um segundo objetivo específico é mostrar no segundo tópico a perseguição à
igreja de Atos por meio de um caráter mais amplo e sistemático. Ora, a igreja
não era perseguida apenas por um indivíduo, mas também por uma religião (o judaísmo),
sob o auspício de um império (o romano). Nesse sentido, por trás de Saulo,
havia o mecanismo da religião oficial e do poder imperial.
E, finalmente, o último objetivo específico é mostrar como esse sistema
religioso e político operava contra a igreja. Havia ali prisões deliberadas e
corroboradas pelo império romano. Havia açoites oficiais, confabulações entre a
religião oficial com o império romano. Toda a estrutura religiosa e estatal
estava a disposição para perseguir a igreja que nascia e crescia em Jerusalém.
Aplicação
Busque informações especializadas acerca da realidade persecutória da igreja
contemporânea. O site da Missão Portas Abertas é um dos que tem credibilidade
em dados. É uma das maiores instituições de apoio à igreja perseguida no mundo.
Converse com alunos a respeito de milhares de cristãos vivendo a mesma
realidade concreta dos crentes em Atos dos Apóstolos. Eles são perseguidos pela
religião oficial do país em que estão, bem como pelo poder político.
Lição 3 - A Conversão de Saulo de Tarso
Na lição desta semana, falaremos sobre a maravilhosa graça de DEUS na vida
de Saulo, o perseguidor, e, ao mesmo tempo, sua resposta em arrependimento e fé
ao Senhor JESUS. O nosso objetivo nesta lição é asseverar que o nosso Senhor
nos salva pela graça mediante a fé, mas, ao mesmo tempo, devemos responder a
esse chamado com arrependimento e fé. Assim ocorre a verdadeira conversão, o
novo nascimento.
Resumo da lição
O primeiro tópico apresenta a conversão de Saulo como um ato da graça de DEUS.
Ali, percebemos que a iniciativa de se revelar a Saulo foi do nosso Senhor. Ele
se revelou ao futuro apóstolo. Saulo viu o Senhor ressurreto por meio de uma
experiência sobrenatural.
O segundo tópico relaciona a conversão de Saulo a doutrina bíblica da
conversão, mostrando que a obra de conversão no ser humano começa no
arrependimento e perpassa uma vida de transformação. Arrepender-se é a condição
básica para a verdadeira conversão.
O terceiro tópico elenca três faculdades interiores do ser humano que são
afetadas com a verdadeira conversão: intelecto, emoção e vontade. A verdadeira
conversão faz com que o ser humano todo seja regenerado, então, ele pode agora
pensar, desejar e fazer o que é do alto.
Aplicação
Este estudo nos mostra que a verdadeira conversão traz uma nova maneira de
pensar, sentir e agir. Vivemos num tempo de profunda confusão existencial.
Pessoas pensam uma coisa, desejam outra e fazem outra coisa completamente
diferente do que pensam e desejam. A conversão bíblica harmoniza coração do
crente. Agora é possível pensar nas coisas do céu, desejá-las e executá-las (Fp
4.8; Cl 3.2-5). Assim, somos celestialmente coerentes, pois pensamos, sentimos
e agimos segundo o ESPÍRITO SANTO que habita em nós.
Num contexto de confusão espiritual, a presente lição destaca a importância de
cada seguidor de JESUS apresentar uma coerência existencial como resultado de
uma verdadeira conversão. Isso implica crente que não têm dúvidas a quem
pertencem. Essa convicção exige uma atitude destemida de viver o Evangelho de
maneira clara, coerente e profunda. Nós pertencemos ao Senhor, não há como
voltar ao antigo modo de vida. A única alternativa que a Palavra de DEUS nos dá
é avançar, seguir em frente. Jamais retroceder. Portanto, não retroceda.
Avance!
Lição 4 - Paulo, a Vocação para Ser Apóstolo
A lição desta semana tem como tema a vocação. Nela, através da vida e do
ministério do apóstolo Paulo, perceberemos como DEUS vocaciona pessoas para a
sua obra. Por isso, estudaremos sobre o ponto de partida para a vocação de
Paulo; a efetivação da vocação do apóstolo Paulo por meio do seu encontro com o
CRISTO Ressurreto; e o aprendizado de Paulo no deserto para exercer a sua
vocação.
Resumo da lição
O primeiro tópico salienta que a presciência divina e a pessoa do ESPÍRITO
SANTO são o ponto de partida para a vocação do apóstolo Paulo. DEUS o chamou
para uma grande obra para viver na plenitude do ESPÍRITO. A vocação de Paulo
tinha sido gestada em DEUS e confirmada no ESPÍRITO SANTO como agente
impulsionador do apóstolo.
O segundo tópico enfatiza a experiência gloriosa do apóstolo com o CRISTO
Ressurreto que fundamentou sua vocação apostólica. Paulo viu o esplendor
glorioso do CRISTO Ressurreto por meio de uma experiência sobrenatural que
mudou completamente sua vida e ministério. Essa experiência gloriosa mudou
definitivamente a vida do apóstolo.
O terceiro tópico relaciona a vocação de Paulo com o aprendizado no deserto.
Este aperfeiçoou a vocação do apóstolo em que sua vida foi tremendamente
trabalhada por DEUS para fazer a obra divina. As lições do deserto confrontaram
as convicções de Paulo e o prepararam para a sua mais nova etapa de vida. O
apóstolo foi forjado pelo ESPÍRITO SANTO.
Aplicação
A presente lição nos ensina que a vocação de DEUS traz experiências profundas.
Muitas vezes o ESPÍRITO SANTO usará circunstâncias em nossas vidas para nos
ensinar a respeito de coisas que servirão lá na frente para nos trazer
esperança com base na experiência. É preciso aprender com as lições do
“deserto” da vida ministerial. Os desafios são muitos. Os obstáculos são
grandes. Todavia, o aprendizado é muito maior para nos tornarmos maduros na fé.
Por isso devemos aproveitar as lições dos “desertos” que enfrentamos.
É tempo de confiar inteiramente em DEUS e em sua soberania. Quando Ele nos
chama, faz com que a nossa vida seja conduzida sempre em direção ao nosso
chamado. Muitas vezes não nos damos conta disso. Entretanto, é DEUS trabalhando
em nosso favor e nos levando ao centro de sua vontade. Que sejamos sensíveis à
voz do ESPÍRITO SANTO. Ouçamos o Senhor!
Lição 5 - “JESUS CRISTO, e Este Crucificado” – A Mensagem do Apóstolo
O objetivo desta lição é ressaltar o centro da mensagem cristã: JESUS, e este
crucificado. O apóstolo descobriu essa verdade sobre o CRISTO Ressurreto e,
como consequência, fez de sua missão de vida pregar o Evangelho por meio do
Crucificado aos gentios. Nesse sentido, o Crucificado é o centro da mensagem
apostólica. Logo, a vida e o ministério de Paulo estimulam-nos a ter esse mesmo
propósito e firme compromisso com a mensagem da Cruz.
Resumo da lição
Para desenvolver o propósito da lição, o primeiro tópico destaca a centralidade
da pregação de Paulo. Em Paulo, a pregação tem íntima relação com o CRISTO
Crucificado, por isso ela é considerada loucura da pregação entre judeus e
gentios. É uma mensagem humilde que faz com que o ser humano olhe para si mesmo
e peça misericórdia a DEUS pelas suas misérias.
O segundo tópico elenca as expressões-chave na pregação de Paulo. Expressões
como “Evangelho de CRISTO”, “CRISTO Crucificado” e “CRISTO Ressurreto” são trabalhadas
de modo a resumir o conteúdo da mensagem do apóstolo dos gentios. Podemos dizer
que o Evangelho de CRISTO pode ser sintetizado no “CRISTO Crucificado” e no
“CRISTO Ressurreto”.
O terceiro tópico pontua os efeitos da mensagem do Evangelho. Esses efeitos se
revelam no crente por meio de uma vida no poder de DEUS, na humildade e na
dependência do ESPÍRITO SANTO. Ora, a mensagem da cruz é uma mensagem de poder.
A mensagem da cruz nos constrange a viver de maneira humilde. E, finalmente, a
mensagem da cruz nos ensina a depender exclusivamente do ESPÍRITO.
Aplicação
A presente lição nos ensina que não podemos deixar de pregar mensagem da cruz
ao pecador. É uma mensagem de poder. Somos instados pelo ESPÍRITO SANTO a
proclamá-la com autoridade. Ao mesmo tempo, somos chamados a viver de maneira
humilde, pois a mensagem da cruz nos constrange a uma atitude singela e
abnegada.
É uma mensagem que nos faz contritos diante de DEUS. E, finalmente, somos
estimulados a viver na dependência do ESPÍRITO SANTO de DEUS na obra da
proclamação do Evangelho. Sem o ESPÍRITO SANTO não podemos ser bem-sucedidos.
A mensagem da cruz nos faz depender menos de nós mesmos e mais do ESPÍRITO
SANTO. Essa mensagem traz a verdadeira sabedoria para a vida. Amemos, portanto,
a mensagem da cruz e a proclamemos até a morte!
Lição 6 - Paulo no Poder do ESPÍRITO
O ponto mais importante desta lição é que o aluno, após estudá-la, esteja
consciente a respeito da necessidade de viver na plenitude do ESPÍRITO para
fazer a obra de DEUS. Nesse sentido, os demais tópicos colaborarão para que o
aluno tenha essa consciência. Não podemos deixar de reconhecer que é a
dependência do ESPÍRITO SANTO que garante a eficácia da evangelização e o
crescimento saudável da Igreja de CRISTO.
Resumo da lição
O primeiro tópico da lição procura expor a verdade de que CRISTO deve ser
pregado no poder do ESPÍRITO. No ministério de Paulo, observamos o quanto o
apóstolo era movido pelo ESPÍRITO SANTO. Todo o seu caminho percorrido na
exposição da Palavra de DEUS tinha o ESPÍRITO SANTO como agente confirmador e
sustentador. Pelo ESPÍRITO, Paulo não tinha outra missão, senão, a de pregar
CRISTO JESUS no poder do alto.
O segundo tópico tem como objetivo identificar o argumento de Paulo sobre a
plenitude do ESPÍRITO. O que o apóstolo quer dizer com essa expressão? Para
isso, o texto bíblico (At 18) mostra como Paulo agiu para que Apolo fosse
doutrinado acerca do ESPÍRITO SANTO. Apolo era um pregador habilidoso, mas não
havia experimentado ainda o poder do ESPÍRITO. Ou seja, além de nascer de novo,
o seguidor de JESUS pode e deve ter uma experiência sobrenatural por intermédio
do Batismo no ESPÍRITO SANTO com evidência das línguas estranhas.
Terceiro tópico apresenta as fontes de Paulo para a experiência no ESPÍRITO
SANTO. Em primeiro lugar, sem dúvida, eram as Escrituras Sagradas. Embora a
Terceira Pessoa da Santíssima Trindade não aparecesse de maneira clara no
Antigo Testamento, era possível percebê-la e confirmá-la com a revelação em
CRISTO JESUS que o apóstolo acabara de tomar contato. Em segundo, a experiência
do Pentecostes foi algo marcante que chegou ao apóstolo, embora este não
estivesse participado daquele evento.
Aplicação
Assim, fica claro que o Batismo no ESPÍRITO SANTO é uma capacitação
indispensável para a eficiência da obra de DEUS e o melhor exercício de uma
vocação. É preciso que os vocacionados se encham do ESPÍRITO SANTO para fazer a
obra de DEUS com poder. Um poder que vem do alto, que vem de DEUS. Deixe claro
que não é vontade divina viver uma vida espiritual sem experimentar uma
dimensão mais profunda do ESPÍRITO SANTO.
Lição 7 - Paulo, o Plantador de Igrejas
A Igreja de CRISTO tem a sua dimensão visível na igreja local. Para se
estabelecer uma igreja local é preciso que haja pessoas disponíveis, e que
tiveram uma experiência com CRISTO, para plantar igrejas. Nesse sentido, a
lição desta semana tem como propósito motivar a igreja local, especificamente
pessoas vocacionadas, a plantar novas igrejas. O Movimento Pentecostal cresceu
porque houve crentes dispostos que ouviram a voz do ESPÍRITO SANTO para abrir
suas casas como um ponto de pregação ou desbravar o interior do Brasil.
Resumo da lição
Para atingir a esse propósito, o tópico primeiro mostra que o apóstolo Paulo
foi um desbravador do Evangelho sob uma gloriosa obrigação de pregar o
Evangelho de CRISTO. Não há dúvidas de que o apóstolo foi o grande desbravador
do Evangelho no mundo gentílico. Ele plantou igrejas em lugares que pessoas
nunca haviam tido contato com o nome de JESUS. Essa disposição era vista pelo
apóstolo como uma gloriosa obrigação a ser cumprida. E ele a cumpriu com
alegria.
O tópico segundo procura sinalizar Antioquia como um lugar estratégico para o
crescimento da Igreja Primitiva. Tratava-se de uma igreja missionária. Dela,
muitas outras igrejas foram geradas no Reino de DEUS. Isso lembra muito o
crescimento das igrejas pentecostais no Brasil. A partir de uma igreja numa
determinada localidade, Belém do Pará, milhares de igrejas foram gestadas no
país. Uma igreja referência cumpre uma função estratégica para plantar novas
igrejas. Ela desempenha esse papel formando, capacitando e enviando novos
obreiros.
O terceiro tópico procura pontuar as características de um plantador de igreja.
Uma dessas primeiras características está na motivação do plantador. No
ministério de Paulo vemos que essa motivação se deu a partir de sua experiência
gloriosa com CRISTO. Essa experiência faz com que o plantador de igrejas tenha
um senso de urgência no mundo a respeito da evangelização. Além, claro, de esse
plantador ser experimentado nos obstáculos da caminhada e perseverar na
plantação de igrejas segundo as Escrituras.
Aplicação
Esta lição nos ensina que é preciso ter experiência com CRISTO. Quem tem essa
experiência verdadeira tem tudo para buscar a vocação missionária. É preciso
também ser compromissado com a Palavra de DEUS, a Bíblia. Ela é o esteio de
regra de fé e prática da igreja local.
Lição 8 - Paulo, o Discipulador de Vidas
Pregar e ensinar são uma missão integral da Igreja de CRISTO. É necessário
pregar o Evangelho, mas também é preciso formar pessoas segundo o Evangelho de
nosso Senhor. Para isso existe o discipulado cristão. O ministério de Paulo nos
ensina que, ao plantar igrejas, o apóstolo procurava sempre as confirmar, ou
seja, averiguar conforme elas estavam progredindo na fé em CRISTO.
Resumo da lição
O objetivo geral da lição é revelar a missão integral da igreja no discipulado:
pregar e ensinar. Para isso, o primeiro tópico relaciona o ministério do
apóstolo Paulo com o discipulado cristão. Nele, o discipulado aparece como
ordem do Senhor JESUS na Grande Comissão (Mt 28.19,20). Assim, o apóstolo
observou essa ordenança com fidelidade à medida que pregava o Evangelho e
discipulava os nascidos de novo. Seu método era simples: pregação, plantação de
igrejas e formação dos novos crentes.
O segundo tópico salienta a integralidade da missão da Igreja: pregar e
ensinar. Em Paulo, vemos que a pregação é o ponto de partida. Já o discipulado
é o processo formativo a partir das minúcias do Evangelho. Assim, a Palavra de
DEUS deixa claro que a igreja local deve ser um local de pregação com
autoridade do Evangelho e, ao mesmo tempo, uma agência que ensina a Bíblia de
maneira sistemática e didática a todo crente. Pregar e ensinar: eis a nobre e
integral missão da Igreja de CRISTO.
O terceiro tópico pondera a respeito do discipulado com pessoas de culturas
diferentes. O ministério de Paulo enfrentou o desafio de ensinar pessoas de
diferentes culturas. Por exemplo, a Carta aos Romanos mostra que o público-alvo
era constituído de judeus e gentios cristãos. Por isso, no capítulo 14 da
carta, o apóstolo trabalha a ideia da tolerância em que esses grupos devem
praticar entre eles. O desafio era cuidar da unidade no que era essencial. O
processo do discipulado nos traz desafios em que o choque de culturas aparecerá
inevitavelmente. Isso aconteceu em Romanos, aos coríntios, aos tessalonicenses.
O discipulado cristão traz desafios culturais.
Aplicação
É necessário capacitar pessoas para exercer com zelo e piedade o discipulado
cristão. Enfrentemos o desafio de chamar os pecadores e, posteriormente,
formá-los segundo o Evangelho que apresentamos. Estejamos prontos para o
desafio de comunicar o Evangelho aos outros.
Lição 9 - Paulo e sua Dedicação aos Vocacionados
Além de pregar, plantar igrejas, formar discípulos, o apóstolo dos gentios se
dedicava ao máximo aos novos obreiros. É tocante como ele trata obreiros novos,
como Timóteo e Tito, em suas cartas pastorais. O ESPÍRITO SANTO inspirou o
apóstolo a registrar em cartas tal preocupação para que essa também fosse a
preocupação das lideranças contemporâneas. Formar novas lideranças e cuidá-las
são responsabilidades das lideranças mais antigas. A vida e o ministério de
Paulo nos mostram que esse zelo é um aspecto importante de uma liderança sábia.
Resumo da lição
Neste propósito, o primeiro tópico aponta a cidade de Éfeso como ponto de
partida dos vocacionados. A história da Igreja mostra que dali grandes obreiros
se desenvolveram na seara do mestre. A despedida carinhosa de Paulo com os
anciões de Éfeso mostra o quanto esse cuidado paulino era reconhecido entre os
efésios. Não por acaso, a igreja de Éfeso ficou conhecida como a igreja que se
destacava no zelo doutrinário. Ou seja, seus obreiros eram muito bem formados.
Com o objetivo de assinalar o legado doutrinário de Paulo para os novos
líderes, o segundo tópico destaca advertência de Paulo a respeito dos
judaizantes e dos gnósticos em relação à saúde espiritual da igreja. O apóstolo
expôs ao longo de seu ministério o quanto era incompatível com a mensagem pura
do Evangelho os ensinos dos judaizantes e dos gnósticos. O legado de Paulo nos
mostra que salvação é mediante a graça de DEUS (advertência contra os
judaizantes), mas que essa graça não pode ser banalizada nem profanada
(advertência contra os gnósticos).
O terceiro tópico apela aos líderes a respeito do desprendimento material do
obreiro para fazer a obra de DEUS, sobre o cuidado pessoal do obreiro e quanto
às ameaças dos “lobos cruéis”. A vida e o ministério do apóstolo dos gentios
ensinam esse modo virtuoso de agir na obra de DEUS. É preciso aprender a estar
satisfeito com o que DEUS nos dá; precisamos nos apresentar a DEUS aprovados; é
nosso dever agir com prudência em relação aos falsos obreiros.
Aplicação
Há muitos entre nós que se sentem vocacionados por DEUS para uma obra. O
ministério de Paulo nos ensina que a igreja local, por meio de seus líderes
mais maduros, deve cuidar dessas novas vocações com zelo e cuidado. Não se pode
deixar essa chama se apagar.
Lição 10 - Paulo e seu Amor pela Igreja
Algo que se destaca com clareza no ministério de Paulo é o seu amor pela Igreja
de CRISTO. Podemos dizer que todo o seu ministério foi desenvolvido sob o
prisma do amor pela Noiva de CRISTO. Por isso, na lição desta semana, nosso
objetivo principal é compreender e estimular os alunos a amar a Igreja de
CRISTO. A relevância desta se lição está no contexto atual em que se tornou
muito comum, e de maneira mórbida, criticar a igreja. Assim, nosso objetivo é
olhar de maneira positiva sobre a importância da igreja local.
Resumo da lição
Para atingir esse objetivo, o primeiro tópico é um estímulo a amar a igreja
local. Ele destaca o amor de Paulo pela Igreja. Nesse tópico, o apóstolo
compara o seu amor pela Igreja como o de um pai para com o seu filho. Suas
admoestações, exortações e conselhos tinham como base fundamental o amor. Um
amor motivado pela causa do Evangelho. Um amor que norteava toda a vida do
apóstolo. Esse amor era visível na igreja em Tessalônica e, da mesma forma que
esse amor era visível na igreja do primeiro século, pode ser visível na igreja
contemporânea.
O segundo tópico relaciona o amor com a fé na Igreja. Na igreja em Tessalônica
a fé se relacionava com o amor, ou seja, a fé em CRISTO estimulava a vivência
no amor. Uma das coisas mais extraordinária na vida cristã é quando o fervor
espiritual estimula o amor fraternal, isto é, o desenvolvimento do fruto do
ESPÍRITO que só pode ser amadurecido no relacionamento com o próximo. Nesse
sentido, em Efésios, o apóstolo Paulo nos diz: “Enchei-vos do ESPÍRITO” (Ef
5.18). Assim, o resultado desse enchimento é visível na dimensão prática do
amor na relação do crente com o cônjuge, com os filhos, com o patrão e com os
funcionários (Ef 5.22 – 6.9).
O terceiro tópico elenca três virtudes visíveis na igreja em Tessalônica: fé,
amor e esperança. A virtude da fé nos fala de nossa devoção ao Senhor, de nossa
fé conforme a sã doutrina entregue pelos antigos. A virtude do amor diz
respeito ao sentimento muito profundo que se manifesta na prática concreta ao
próximo: carinho, atenção, suprir necessidade, cuidado, zelo. E, finalmente, a
terceira virtude é a esperança. Esta é uma “irmã gêmea” da fé. Quem espera,
persevera e, como consequência, tem esperança.
Aplicação
Nesta lição, somos chamados a amar a Igreja e, ao mesmo tempo, cultivar a fé e
a esperança na igreja local.
Lição 11 - O Zelo do Apóstolo Paulo pela Sã Doutrina
O objetivo geral desta semana é asseverar o zelo da Igreja pela Sã Doutrina.
Recebemos uma herança doutrinária dos apóstolos. Estes receberam-na do próprio
Senhor JESUS. Por isso, o nosso desafio é perseverar nesse santo ensinamento e
praticá-lo com todo zelo. Não podemos renunciar ao verdadeiro Evangelho. Num
contexto em que há muitas falsificações, urge estar alertas quanto à pureza da
preciosa doutrina.
Resumo da lição
Para desenvolver esse assunto, o primeiro tópico conceitua e relaciona os
termos Ortodoxia e Heterodoxia. No sentido de mostrar o que queremos dizer com
“zelo doutrinário”, é importante conhecer o que é ortodoxo e heterodoxo. Assim,
ortodoxo é todo ensinamento que está de acordo com o que JESUS CRISTO ensinou e
os apóstolos transmitiram aos novos seguidores de CRISTO. E heterodoxo é todo
ensino que escapa a ordem e o contexto do que JESUS e seus apóstolos ensinaram.
O segundo tópico adverte para o perigo da corrupção doutrinária. Ou seja,
qualquer ensino que escapa ao que JESUS e os apóstolos ensinaram. Na época
apostólica, ensinamentos espúrios ameaçavam as igrejas locais. Filosofias pagãs
eram disseminadas com vestimentas de ensinamento cristão. O apóstolo Paulo
advertiu sobre isso em suas cartas, mostrando que a igreja local deve ter
cautela e prudência, rejeitando sempre qualquer ensinamento que manche a pureza
do santo Evangelho.
Finalmente, o terceiro tópico apresenta a Igreja como a guardiã da Sã Doutrina
por excelência. Assim, o Senhor levantou ministros, pessoas chamadas para zelar
pela Palavra de DEUS, bem como sua inerrância e suficiência, a fim de que o
povo de DEUS seja edificado de maneira saudável. Logo, a Igreja de CRISTO deve
exercer o seu papel de “coluna e firmeza da verdade”.
Aplicação
A lição nos ensina que há uma doutrina verdadeira, legada pelo Senhor JESUS
CRISTO e seus apóstolos. É a nossa herança de fé. É um legado que não podemos
abrir mão. É preciso mergulhar nesse legado.
A lição também adverte que há um perigo real de corrupção doutrinária. Muitos,
infelizmente, dividiram igrejas por causa de modismos e vãos ensinamentos. É
preciso não ignorar o perigo de um falso ensinamento. Finalmente, como Igreja
de CRISTO, que é “coluna e firmeza da verdade”, devemos perseverar na Sã
Doutrina. Aquela doutrina legada pelo Senhor e seus apóstolos.
Lição 12 - A Coragem do Apóstolo Paulo diante da Morte
Ter coragem diante da morte. A Bíblia também nos ensina a respeito de como o
crente deve lidar com a morte. Por isso, a lição desta semana é uma
oportunidade de conscientizar a classe sobre ter coragem diante da morte a
partir da vida no ESPÍRITO e da esperança cristã. Quando a nossa consciência
tem uma imagem vívida da bendita esperança, somos motivados a perseverar diante
do sofrimento, conforme as palavras do salmista: “Ainda que eu andasse pelo
vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua
vara e o teu cajado me consolam” (Sl 23.4).
Resumo da lição
Para conscientizar a classe acerca desse importante ensinamento, o primeiro
tópico mostra a consciência de Paulo quanto a padecer por CRISTO. A narrativa
bíblica de Atos 21 apresenta a reação do apóstolo diante de uma profecia que
afirmava que ele seria entregue nas mãos dos gentios (At 21.11). A resposta de
Paulo revela a sua consciência profunda a respeito da esperança cristã: “[...]
Estou pronto não só a ser ligado, mas ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do
Senhor JESUS” (At 21.13). O ESPÍRITO SANTO enchia o apóstolo da esperança em
CRISTO para que ele fizesse o caminho voluntário do martírio.
O tópico segundo aponta essa coragem apostólica para enfrentar as ameaças de
morte. Ele revela que o ESPÍRITO SANTO era a fonte de sua coragem para morrer
pela causa do Evangelho. Como estudamos em lições anteriores, o ESPÍRITO SANTO
impulsionava o ministério apostólico de Paulo. Ele enchia o apóstolo e
falava-lhe ao coração para fazer a vontade divina, mesmo que isso significasse
correr riscos fatais pela causa do Evangelho.
O terceiro tópico destaca as acusações e prisões de Paulo no Templo. Essas
acusações mentirosas implicaram a prisão do apóstolo. Entretanto, mesmo preso,
o apóstolo foi muito produtivo na causa do Evangelho. Muitas de suas cartas
foram escritas na prisão. O ministério de Paulo mostra-nos uma das verdades
mais consoladora e encorajadora da fé cristã: quem vive na liberdade do
ESPÍRITO, ainda que esteja fisicamente preso, continua experimentando a
verdadeira liberdade em CRISTO.
Aplicação
O ESPÍRITO SANTO por meio da bendita esperança cristã nos encoraja e nos enche
de confiança quanto ao padecimento por amor à causa de CRISTO. O ESPÍRITO faz
isso por nós e em nós. Vivamos no ESPÍRITO! Tenhamos esperança!
Lição 13 - A Gloriosa Esperança do Apóstolo
Chegamos ao final de mais um trimestre. Esta última lição coroa o estudo sobre
a vida e o ministério do apóstolo Paulo. A Palavra de DEUS mostra que o
apóstolo cultivava a esperança cristã em sua vida e que ela cumpriu um papel
importante diante de circunstâncias das mais difíceis na vida do apóstolo.
Nesse sentido, com base na esperança apostólica, esta última lição tem como
objetivo enfatizar a gloriosa esperança dos cristãos.
Resumo da lição
O primeiro tópico ressalta a consciência de Paulo diante de morte. Uma das
coisas mais importantes na caminhada cristã é estar consciente diante do
enfrentamento que se trava. O apóstolo estava preso e estava consciente de que
a sua saída da cela era para a morte. Mas o que enchia o apóstolo de esperança
era a herança espiritual que lhe esperava. O apóstolo já estava completamente
desapegado da Terra, seu alvo era apenas ser participante da glória celestial
que breve estaria diante dele.
O segundo tópico apresenta a doutrina bíblica de Paulo sobre a volta do Senhor.
O tópico mostra que a volta de CRISTO se dará em duas fases: a primeira,
visível somente aos santos do Senhor; a segunda, visível a todos os homens. A
primeira fase é o Arrebatamento da Igreja e a segunda é vinda gloriosa e
triunfal do Senhor JESUS com sua Noiva.
O terceiro tópico expõe sobre os tempos e estações até a volta do Senhor. Esse
tópico ressalta que não cabe a nós adivinhar os tempos e as estações de que
todas essas coisas acontecerão. O precisamos cultivar é uma vida no ESPÍRITO,
com vigilância, aguardando que o Senhor venha a qualquer momento.
Aplicação
Com Paulo aprendemos que a esperança cristã lida com a morte de uma maneira
concreta. A morte existe e não podemos evitá-la. Entretanto, é possível
enfrentá-la de maneira gloriosa e sublime, pois a morte não é o fim, mas o
início de uma nova etapa da vida cristã. Devemos nos preparar para essa etapa
da vida cristã: o Arrebatamento da Igreja. Essa preparação envolve vigilância
espiritual, santidade na vida e cultivo da verdadeira esperança. Nossos olhos
devem estar voltados para esse grande acontecimento.
O nosso objetivo, portanto, não é adivinhar o dia e a hora da vinda do Senhor,
mas viver a vida cristã na dimensão do ESPÍRITO SANTO e na dimensão do porvir.
Nosso Senhor breve virá!
SUBSÍDIOS DA LIÇÃO 1 - CPAD
OBJETIVO GERAL - Saber como o mundo de hoje é uma porta aberta para
o Evangelho.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Apresentar o mundo de Paulo no império romano;
Discorrer sobre o mundo cultural de Paulo;
Descrever o mundo religioso de Paulo.
INTERAGINDO COM O PROFESSOR
Mais um ano está chegando ao fim. Neste último trimestre, estudaremos a vida e
o ministério de um grande homem usado por DEUS: o apóstolo Paulo. É uma
oportunidade para aprender e colocar em prática princípios eternos que
nortearam a vida desse mui digno homem de DEUS.
Nesta primeira lição, você pode propor uma reflexão aos alunos a respeito das
circunstâncias que o mundo de hoje nos oferece para pregar o Evangelho. À luz
do mundo político, cultural e religioso do apóstolo dos gentios, reflita com os
alunos as portas abertas para o Evangelho no mundo atual.
Apresente o comentarista do trimestre, o pastor Elienai Cabral, escritor,
conferencista e consultor doutrinário e teológico da CGADB/CPAD.
PONTO CENTRAL - O mundo de hoje é uma porta aberta para o Evangelho
SÍNTESE DO TÓPICO I - A “pax romana”, a geografia e os meios de
transporte urbanos e do campo do império romano contribuíram para a propagação
do Evangelho.
SÍNTESE DO TÓPICO II - O grego koinê era a principal língua do tempo do
apóstolo e, como mola propulsora da cultura grega, ela contribuiu para a
propagação da mensagem escrita do Evangelho.
SÍNTESE DO TÓPICO III - O apóstolo Paulo se identifica como judeu, pois ele foi
criado dentro da fé judaica.
SUBSÍDIO PEDAGÓGICO TOP1
Esta lição nos mostra os três “mundos” do apóstolo Paulo: o romano, o grego e o
judeu. O apóstolo teve certa liberdade para peregrinar dentro do império. Ele
também se comunicou na língua predominante da época, o grego koiné, bem como
fez uso da vasta literatura de seu tempo. Paulo também era judeu. A moral
judaica estava presente em algumas partes do império por meio das sinagogas. A
soma de tudo isso serviu ao ESPÍRITO SANTO para que a vida do apóstolo fosse
usada integralmente para a causa do Evangelho no mundo gentílico.
Por isso, sugerimos que você introduza o assunto desta lição perguntando aos
alunos acerca da contribuição cultural, política e religiosa que o mundo atual
nos dá para pregar o Evangelho. Quais as necessidades que o mundo de hoje
apresenta? Como o Evangelho pode preenchê-las?
SUBSÍDIO PENSAMENTO CRISTÃO TOP2
“À medida que o cristianismo se expandia no mundo romano, a Igreja Primitiva
enfrentava muitas questões e desafios novos. Os pais escreveram e ensinaram,
individualmente e em reuniões de concílios, no esforço de responder a essas
questões. Muitas de suas soluções ainda formam um fundamento essencial para a
reflexão teológica, a organização da igreja e a vida cristã.
Entre as contribuições da Igreja Primitiva para a formação de uma cosmovisão
cristã, quatro áreas foram particularmente importantes: 1) autodefinição, quer
dizer, a compreensão do que significa ser cristão em referência ao judaísmo, 2)
a relação do cristianismo com a cultura não-cristã [grega], segundo reflexões
feitas pelos apologistas ou defensores da fé, 3) a visão cristã de DEUS e de
JESUS CRISTO nos primeiros concílios ecumênicos, e 4) a relação do cristianismo
com o governo”(PALMER, Michael D. (Ed). Panorama do Pensamento Cristão. Rio de
Janeiro: CPAD, 2001, p.113).
CONHEÇA MAIS TOP2
*O Evangelho no mundo gentílico
“O Evangelho já havia sido pregado em Jerusalém, Judeia e Samaria. Desarraigado
pela mão feroz de Saulo, o perseguidor, estabeleceu-se na grande cidade de
Antioquia. O propósito do Evangelho era ser transplantado. Antioquia, que veio
a ser um centro missionário, foi o ponto de partida para Paulo.” Para ler mais,
consulte a obra “Atos: E a Igreja se Fez Missões”, editada pela CPAD, p.145.
SUBSÍDIO PENSAMENTO CRISTÃO TOP3
“Desde o princípio, a Igreja recém-nascida achou-se num mundo multicultural.
Seu contexto imediato e seus primeiros membros eram quase exclusivamente
judeus. Uma preocupação inicial que a comunidade de crentes enfrentou dizia
respeito à sua relação com o judaísmo do século I. O indivíduo tinha de se
tornar judeu para ser verdadeiro seguidor de JESUS? A identificação com a
comunidade de crentes livrava a pessoa de todas as expectativas tradicionais
dos judeus? E as Escrituras dos judeus? Elas foram substituídas em todo ou em
parte por JESUS CRISTO?
Estas preocupações estavam em primeiro lugar na mente dos autores
neotestamentários, especialmente de Paulo. Como ‘apóstolo aos gentios’, Paulo
estava particularmente preocupado que fossem permitidos tanto aos gregos, aos
bárbaros (os não-gregos), aos judeus e aos gentios, terem uma posição igual na
comunidade de fé (Gálatas 3.28; Colossenses 3.11).” (PALMER, Michael D. (Ed).
Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p.113).
PARA REFLETIR - A respeito de “O Mundo do Apóstolo Paulo”, responda:
Paulo era natural de qual cidade? Tarso, capital da Cilícia.
O que Atos 9 mostra? Atos 9 mostra que, em sua infinita sabedoria e
presciência, DEUS separou Paulo e o chamou a partir de uma experiência
espiritual sobrenatural, bem diferente dos demais apóstolos, para levar o nome
de JESUS ao mundo gentílico (At 9.15).
Qual era a língua mundial nos dias de Paulo? O grego koiné.
Como Paulo declara a sua defesa em Atos 22.3? Em Atos 22.3, Paulo declara a sua
defesa assim: “Eu sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia”.
A quem se restringia o mundo missionário dos primeiros apóstolos? O mundo
missionário dos apóstolos de JESUS restringia-se, numa visão inicialmente
limitada, apenas ao povo judeu (At 11.19).
CONSULTE - Revista Ensinador Cristão - CPAD, nº 87, p. 36.
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A Missão de Paulo e Barnabé - Atos 13:1-3 - Com. Bíblico
- Matthew Henry (Exaustivo) AT e NT– com correções e acréscimos do Pr. Henrique
Temos aqui a autorização e comissão
divinas dada a Barnabé e Saulo para irem pregar o evangelho entre os gentios e
a sua ordenação a esse ministério pela imposição de mãos, com jejum e oração.
Aqui está:
I
Um
relato do estado em que se encontrava a igreja que estava em Antioquia (v. 1),
que foi plantada no capítulo 11.20.
1. Como a igreja em Antioquia estava bem
provida de bons ministros. Havia alguns profetas e doutores (v. 1), homens
notáveis por dons, graça e utilidade. JESUS, quando subiu ao céu, “E ele mesmo
deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e
outros para pastores e doutores Efésios 4:11 | ACF.
Entre estes homens havia dois desses
ministérios: Alguns eram profetas e outros doutores. Ágabo, pelo visto, era
profeta e não doutor, e muitos eram doutores que não eram profetas. Barnabé e
Saulo (Paulo) eram doutores já que ensinavam em Antioquia (At 11.25-26; 2 Timóteo 1.11). Paulo se tornou Apóstolo, Evangelista e Doutor (2 Timóteo 1.11), acumulando JESUS três ministérios nele,
mais em sua vida ministerial vemos que os cinco ministérios operaram em sua
vida de serviço a DEUS os nove dons do ESPÍRITO SANTO lhe eram residentes (IMITADOR
DE JESUS). Os mencionados aqui eram, às vezes, divinamente inspirados e
recebiam instruções imediatamente do céu em ocasiões especiais, o que lhes dava
o título de profetas. Alguns eram doutores declarados da igreja nos cultos,
expunham as Escrituras e esclareciam a doutrina de CRISTO com aplicações
satisfatórias e sobrenaturais. Estes eram os profetas, sábios e escribas que JESUS
prometera enviar (Mt 23.34), que eram, de todos os modos, qualificados para o
serviço da igreja cristã. Antioquia era uma grande cidade com muitos cristãos,
de forma que não podiam se reunir todos num mesmo lugar. Fazia-se necessário
que tivessem muitos doutores para presidir suas respectivas reuniões e
apresentar os propósitos de DEUS ao povo. Na lista, Barnabé é citado em
primeiro lugar, provavelmente porque era o mais velho, e Saulo, por último,
provavelmente porque era o mais novo. Mas depois o último se tornou o primeiro
e Saulo foi mais célebre na igreja. Mais três nomes são citados. (1) Simeão (v.
1), que, com vistas a distingui-lo de outros do mesmo nome, era chamado Níger,
“o Negro”. (2) Lúcio (v. 1), de Cirene, que certos estudiosos pensam (inclusive
o Dr. Lightfoot) que se trata do mesmo Lucas que escreveu os Atos, era
originalmente de cireneu e teve sua formação educacional na faculdade ou
sinagoga cirenaica em Jerusalém, onde ouviu e recebeu o evangelho. (3) Manaém
(v. 1), indivíduo de certa dignidade porque foi criado com Herodes, o tetrarca,
o que quer dizer que ou se alimentaram do mesmo leite, ou frequentaram a mesma
escola, ou foram alunos do mesmo tutor, ou, preferivelmente, eram colegas e
companheiros constantes. Em cada parte da formação educacional de Manaém, Herodes
era seu companheiro e amigo íntimo, dando-lhe a clara perspectiva de cargo
honorífico na corte. Não obstante, ele abandonou todas essas esperanças por
amor a CRISTO. Foi como Moisés que, sendo já grande, recusou ser chamado filho
da filha de Faraó (Hb 11.24). Tivesse ele se unido a Herodes, com quem fora criado,
ele poderia ter tido o lugar de Blasto e sido camareiro do rei. Mas é melhor
ser companheiro de sofrimentos com um santo do que ser companheiro de
perseguições com um tetrarca.
2. Como os bons ministros da igreja em Antioquia
eram bem usados: Eles serviam ao Senhor e jejuavam (v. 2). Observe: (1) Os
doutores (ou mestres) fiéis e diligentes estão, na verdade, servindo ao Senhor.
Os que ensinam os cristãos estão servindo a CRISTO. Eles realmente o honram e
promovem os interesses do Reino. Os que servem à igreja pregando e orando
(ambas as funções estão inclusas aqui), estão servindo ao Senhor, pois eles são
os servos da igreja por amor a CRISTO. Em seus serviços eles têm de olhar para
Ele, e as suas recompensas, eles as receberão dele. (2) Servir ao Senhor, de um
modo ou de outro, tem de ser o negócio declarado das igrejas e seus doutores
(ou mestres). Devemos separar tempo para esta obra e passar uma parte do dia
nela. O que mais temos de fazer como cristãos e ministros senão servir a CRISTO,
o Senhor? (Cl 3.24; Rm 14.18). (3) O jejum é de utilidade em nosso serviço ao
Senhor como sinal de nossa humilhação e como meio de nossa mortificação. Esse
exercício religioso não foi praticado pelos discípulos de JESUS, enquanto o
esposo estava com eles (Mc 2.19,20), tanto quanto foi pelos discípulos de João
Batista e dos fariseus. Depois que o esposo foi tirado, eles jejuaram muitas
vezes como pessoas que aprenderam muito bem a negar a si mesmo e suportar as
dificuldades, JESUS disse: “jejuarão” (Mc 2.20).
II
As
ordens que o ESPÍRITO SANTO deu para separar Barnabé e Saulo, no meio de um
culto em que os ministros das várias congregações na cidade se uniram em um
jejum solene ou dia de oração: Disse o ESPÍRITO SANTO (v. 2) com quase certeza,
através de um dos profetas ali presentes: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a
obra a que os tenho chamado. Ele não indica a espécie da obra, mas alude a um chamado
já feito anteriormente, sobre o qual os dois sabiam o significado, enquanto os
demais poderiam ou não saber. Quanto a Saulo, fora-lhe dito especificamente que
tinha de levar o nome de CRISTO diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de
Israel (Atos 9:15 ACF), e ele foi enviado aos gentios (Atos 13.46-47, 22.21; Rm 11.13; Gl 2.2,7; Ef 3.8). A questão fora resolvida entre
eles em Jerusalém antes deste dia. Ficou resolvido que Pedro, Tiago e João se
disporiam entre os da circuncisão, para que Saulo e Barnabé fossem para os
gentios (Gl 2.7-9). É provável que Barnabé soubesse que fora escolhido para
fazer o mesmo serviço que Saulo. Contudo, eles não se atirariam a esta
colheita, ainda que copiosa e produtiva, até que recebessem ordens específicas
do Senhor da colheita: Lança a tua foice e sega! [...], porque já a seara da
terra está madura (Ap 14.15). As ordens eram: Apartai-me a Barnabé e a Saulo.
Observe aqui: 1. CRISTO, pelo seu ESPÍRITO, nomeia os seus ministros. É pelo ESPÍRITO
de CRISTO (ESPÍRITO SANTO) que, em certa medida, eles são qualificados para os
serviços, inclinados para isso e tirados de outros cuidados incompatíveis com
isso. JESU escolhe os ministros e o ESPÍRITO SANTO os capacita com dons. Há
aqueles que o ESPÍRITO SANTO separa para o serviço de CRISTO, distinguindo-os
dos outros como indivíduos que são oferecidos e que de boa vontade se oferecem
ao serviço do templo. Juízes competentes recebem orientações relativas à
suficiência da capacidade de tais indivíduos e da sinceridade de suas
inclinações: “Separai-os”. 2. Os ministros de CRISTO são separados para ele e
para o ESPÍRITO SANTO: “Separai-os para mim” (v. 2, versões NTLH e RA). Eles
devem ser empregados na obra de CRISTO e sob a orientação do ESPÍRITO, para a
glória de DEUS PAI. 3. Todos que são separados para CRISTO como seus ministros
são separados para trabalhar. JESUS não tem servos para ficarem à toa. Se
alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja (1 Tm 3.1). É para isso que
eles são separados: trabalhar na palavra e na doutrina (1 Tm 5.17). Eles são
separados para labutar, não para vadiar. 4. A obra dos ministros de CRISTO, à
qual eles são separados, é obra que já está determinada, para a qual todos os
ministros de CRISTO, até hoje, têm sido chamados e a que eles foram, por meio
de um chamado externo, orientados e escolheram.
III
A
ordenação de Barnabé e Saulo correspondente às ordens que o ESPÍRITO SANTO deu
para separá-los: Não foi para o ministério em geral (há muito que Barnabé e Saulo
já eram ministros), mas para um serviço em particular no ministério. Era algo
peculiar e que exigia novo comissionamento. DEUS considerou que o momento era
oportuno para transmitir essa ordem por meio das mãos desses profetas e
doutores a fim de que a igreja recebesse estas orientações: os doutores devem
ordenar doutores e profetas devem ordenar profetas (havia profetas na igreja e
um dos grandes exemplos é Silas que andava de contínuo com o apóstolo Paulo e o
profeta famoso chamado Ágabo – portanto, temos profetas na igreja) , e aqueles
a quem foram confiadas as palavras de CRISTO devem, para o benefício da
posteridade, confiá-las a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem
os outros (2 Tm 2.2). Assim, aqui, Simeão, Lúcio e Manaém, fiéis ministros
(prováveis profetas nesta reunião) neste tempo na igreja que estava em
Antioquia, tendo jejuado, orado e posto sobre [Barnabé e Saulo] as mãos, os
despediram (v. 3), de acordo com as orientações recebidas. Observe: 1. Simeão, Lúcio
e Manaém oraram por Barnabé e Saulo (v. 3). Quando bons homens são enviados
para fazer a boa obra devem receber as orações solenes e particulares da igreja,
especialmente dos irmãos que são companheiros de trabalho e companheiros de
armas. 2. Simeão, Lúcio e Manaém uniram o jejum às orações, como fizeram em
suas outras ministrações (v. 3). Foi o que JESUS nos ensinou: Ele mesmo jejuou
quarenta dias no deserto (Mt 4.2). 3. Simeão, Lúcio e Manaém puseram as mãos
sobre Barnabé e Saulo (v. 3). Com esse gesto: (1) Eles lhes deram sua
manumissão, demissão ou dispensa do serviço em que estavam engajados na igreja
em Antioquia, reconhecendo que saíram não só de modo justo e com aquiescência,
mas de modo honroso e com boa fama. (2) Eles rogaram a bênção sobre Barnabé e Saulo
no empreendimento que assumiam, pediram que DEUS estivesse com eles e lhes
desse sucesso. E para que conseguissem isso, oraram para que eles fossem cheios
do ESPÍRITO SANTO na obra a fazer. É a mesma coisa que está explicada no
capítulo 14.26, onde fala, em relação a Paulo e Barnabé, que de Antioquia, eles
tinham sido recomendados à graça de DEUS para a obra que já haviam cumprido.
Assim como era a mostra da humildade de Barnabé e Saulo o fato de se submeterem
à imposição das mãos dos seus colegas, ou mais propriamente, subordinados,
assim também era a mostra do bom temperamento dos outros ministros o fato de
eles não invejarem Barnabé e Saulo pela honra de terem sido escolhidos, mas de
alegremente terem lhes confiado esta honra com orações sinceras e vigorosas por
eles. Eles os despediram com a máxima urgência por pura preocupação pelas
regiões em que eles iam desbravar terras não evangelizadas.
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NA ÍNTEGRA COMO NA REVISTA 3º TRIMESTRE DE
2026
Escrita Lição 1, CPAD, O chamado para os gentios, 3Tr26, Com.
Extras Pr. Henrique, EBD NA TV
Para nos ajudar PIX 33195781620 (CPF) Luiz Henrique de Almeida
Silva
ESBOÇO DA LIÇÃO
I – O NASCIMENTO DA MISSÃO GENTÍLICA
1. Antioquia: um centro escolhido por DEUS (v.1).
2. Profetas e doutores servindo ao Senhor
(vv.1,2).
3. A separação de Paulo e Barnabé (vv.2,3).
II – O ESPÍRITO SANTO E A OBRA MISSIONÁRIA
1. O ESPÍRITO que conduz a missão.
2. O poder do ESPÍRITO na evangelização
dos gentios.
3. Evidências da ação missionária do ESPÍRITO
(At 13—14).
III – A IGREJA COMO AGÊNCIA MISSIONÁRIA
1. A Igreja que ouve a voz de DEUS.
2. Uma igreja que envia e sustenta seus
missionários.
3. Uma igreja que cumpre a Grande
Comissão.
TEXTO ÁUREO
“E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o ESPÍRITO SANTO:
Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.” (At 13.2)
VERDADE PRÁTICA
Quando a igreja ouve o ESPÍRITO, o Evangelho avança e vidas são
alcançadas para a glória de DEUS.
LEITURA DIÁRIA
Segunda - At 1.8 Sem o ESPÍRITO SANTO não há missão
verdadeira
Terça - At 11.26 A identidade e a missão caminham juntas
Quarta - Mt 6.16-18 O jejum fortalece nossa sensibilidade
espiritual
Quinta - Is 61.1 O ministério de JESUS começou pela unção
do ESPÍRITO
Sexta - At 4.31 A Igreja Primitiva avançava porque estava
cheia do ESPÍRITO
Sábado - Rm 10.14,15 Como ouvirão, se não há quem pregue?
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE - ATOS 13.1-12
1 - Na igreja que estava em Antioquia
havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé, e Simeão, chamado Níger, e
Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. 2 -
E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o ESPÍRITO SANTO: Apartai-me a
Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.
3 - Então, jejuando, e orando, e pondo
sobre eles as mãos, os despediram. 4 - E assim estes, enviados pelo ESPÍRITO SANTO,
desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. 5 - E, chegados a Salamina,
anunciavam a palavra de DEUS nas sinagogas dos judeus; e tinham também a João
como cooperador. 6 - E, havendo atravessado a ilha até Pafos, acharam um certo
judeu, mágico, falso profeta, chamado Barjesus, 7 - o qual estava com o
procônsul Sérgio Paulo, varão prudente. Este, chamando a si Barnabé e Saulo,
procurava muito ouvir a palavra de DEUS. 8 - Mas resistia-lhes Elimas, o
encantador (porque assim se interpreta o seu nome), procurando apartar da fé o
procônsul. 9 - Todavia, Saulo, que também se chama Paulo, cheio do ESPÍRITO SANTO
e fixando os olhos nele, disse: 10 - Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e
de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os
retos caminhos do Senhor? 11 - Eis aí, pois, agora, contra ti a mão do Senhor,
e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. No mesmo instante, a escuridão e
as trevas caíram sobre ele, e, andando à roda, buscava a quem o guiasse pela
mão. 12 - Então, o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado
da doutrina do Senhor.
HINOS SUGERIDOS: 24, 340, 358 da Harpa
Cristã
PLANO DE AULA
1. INTRODUÇÃO
Neste trimestre, estudaremos A Igreja dos
Gentios, acompanhando a expansão do Evangelho para além do contexto judaico e
evidenciando a direção soberana do ESPÍRITO SANTO na missão da Igreja. Nesta
primeira lição - O Chamado para os Gentios - analisamos Atos 13 e o envio de
Paulo e Barnabé a partir da igreja de Antioquia, destacando uma comunidade
sensível à voz do ESPÍRITO. O comentarista é o Pr. Wagner Gaby, líder da
Assembleia de DEUS em Curitiba (PR), conferencista, advogado e escritor, autor
de obras publicadas pela CPAD, como As Doenças do Século, Planejamento e Gestão
Eclesiástica, Relações Públicas para Líderes Cristãos e As Parábolas de JESUS.
2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A) Objetivos da Lição: I) Apresentar o
contexto histórico e espiritual da igreja de Antioquia e sua missão aos
gentios; II) Conduzir o aluno à reflexão sobre a atuação do ESPÍRITO SANTO na
condução da obra missionária e no envio dos obreiros; III) Aplicar os
princípios da igreja de Antioquia à vida da igreja local, assumindo a missão
cristã como identidade e compromisso.
B) Motivação: A missão da Igreja não nasce
de estratégias humanas, mas do agir soberano do ESPÍRITO SANTO. Ao estudar o
chamado para os gentios, somos convidados a ouvir a voz de DEUS, discernir seu
propósito e compreender que também fazemos parte do plano divino de alcançar
vidas e nações.
C) Sugestão de Método: Conduza a aula
partindo de uma breve pergunta provocativa sobre o alcance do Evangelho,
levando o aluno a refletir se a fé cristã se limita a um grupo específico, por
exemplo: Se o Evangelho é para todos, por que a Igreja Primitiva precisou
aprender isso ao longo do tempo? Em seguida, apresente a transição da igreja
judaica para a missão gentílica em Atos, destacando a ação do ESPÍRITO SANTO
conforme a exposição dos três tópicos. Por fim, promova uma aplicação prática,
mostrando que a igreja atual é herdeira dessa missão e chamada a viver o
Evangelho sem barreiras culturais ou étnicas.
3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A) Aplicação: Assim como a Igreja
Primitiva ouviu a voz do ESPÍRITO e superou limites culturais para obedecer à
missão, a igreja de hoje é chamada a examinar suas próprias barreiras -
sociais, culturais - que podem dificultar o alcance do Evangelho. Viver como
Igreja dos Gentios significa que deve haver abertura para que o ESPÍRITO SANTO
conduza a missão para além de nossas preferências e zonas de conforto.
4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena
conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de
apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 106, p.36, você encontrará um
subsídio especial para esta lição.
B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico,
você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O
texto "Antioquia da Síria", localizado depois do primeiro tópico,
aprofunda as características da igreja que se voltaria aos gentios; 2) O texto
"O ESPÍRITO SANTO Inspira as Missões", localizado ao final do segundo
tópico, reflete a respeito da motivação missionária da Igreja.
COMENTÁRIO - INTRODUÇÃO
Lucas registra o cumprimento progressivo
da promessa de JESUS em Atos 1.8: o Evangelho alcançaria Jerusalém, Judeia,
Samaria e chegaria aos confins da terra. Os capítulos 13 a 28 marcam a grande
virada da narrativa, quando o foco deixa de ser Jerusalém e passa a Antioquia.
É dessa igreja, caracterizada por diversidade, sensibilidade espiritual e
prática missionária madura, que o ESPÍRITO SANTO convoca Paulo e Barnabé para a
evangelização dos gentios. A partir desse ponto, o ministério de Paulo torna-se
central, e o ESPÍRITO é mostrado como o verdadeiro condutor da expansão cristã.
A Missão Gentílica nasce, portanto, não como estratégia humana, mas como
resposta ao chamado direto do ESPÍRITO para alcançar as nações.
PALAVRA-CHAVE - Gentios
I – O NASCIMENTO DA MISSÃO GENTÍLICA
1. Antioquia: um centro escolhido por DEUS (v.1).
Fundada por Seleuco Nicátor em 300 a.C.,
Antioquia da Síria tornou-se a terceira maior cidade do Império Romano, atrás
apenas de Roma e Alexandria. Culturalmente greco-helenista, abrigava
significativa população judaica e exercia forte influência intelectual e
comercial, contando com o porto de Selêucia (At 13.4). Foi ali que os
discípulos foram chamados “cristãos” pela primeira vez (At 11.26). Não por
acaso, DEUS escolheu Antioquia como base da missão gentílica, transformando
aquela igreja em um centro de envio para as nações — uma verdadeira base
missionária de envio às nações.
2. Profetas e doutores servindo ao Senhor
(vv.1,2).
A liderança local reunia profetas e
doutores (mestres), ministérios que, após o período apostólico, tornaram-se
pilares da edificação da igreja (1 Co 12.28). Os profetas exortavam mediante
inspiração direta; os mestres instruíam com base nas Escrituras e na tradição
dos ensinos de JESUS. Durante o serviço ao Senhor, marcado por oração e jejum,
o ESPÍRITO falou. A disposição desses líderes em buscar a vontade divina revela
uma comunidade madura, centrada em DEUS e apta a discernir o propósito do ESPÍRITO
para além das necessidades locais.
3. A separação de Paulo e Barnabé (vv.2,3).
O ESPÍRITO SANTO ordenou: “Apartai-me a
Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado”. A igreja respondeu com
jejum, oração e imposição de mãos, reconhecendo o chamado divino e enviando
seus melhores obreiros. Esse ato inaugura um novo momento da história cristã: a
missão aos gentios é assumida oficialmente pela igreja. A obediência da
congregação demonstra que a comunidade local é parte ativa da vocação
missionária e que o envio deve ser sempre acompanhado de intercessão,
consagração e dependência do ESPÍRITO.
SINÓPSE I - Em Antioquia, o ESPÍRITO inaugura a missão cristã entre os gentios.
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO - “ANTIOQUIA DA
SÍRIA.
A Antioquia da Síria foi um importante
centro político, econômico e religioso durante o período romano. A população
diversificada de Antioquia contribuiu para uma grande diversidade de religiões
ligadas à cidade. O seu subúrbio de Dafne era um importante local de culto para
o paganismo, e a cidade manteve grande população judaica ao longo da sua
história. Além disso, foi para Antioquia que muitos cristãos de Jerusalém
fugiram durante a perseguição inicial da igreja. Aqui, pela primeira vez, os
cristãos judeus começaram a focar intencionalmente em compartilhar o evangelho
para os gentios (At 11.19-21).
O resultado foi uma igreja grande,
multicultural e vibrante. A igreja em Antioquia era conhecida pela sua
diversidade étnica e cultural, a sua generosidade (enviou uma oferta a
Jerusalém durante uma fome; veja 11.27-30) e o seu coração voltado para missões
(serviu de sede para Paulo nas suas três viagens missionárias). Não
surpreendentemente, foi em Antioquia que os seguidores de CRISTO foram chamados
pela primeira vez de ‘cristãos’ (11.26)” (Dicionário Bíblico Baker. Rio
de Janeiro: CPAD, 2023, p.41).
II – O ESPÍRITO SANTO E A OBRA MISSIONÁRI
1. O ESPÍRITO que conduz a missão.
O Livro de Atos pode ser chamado, com
justiça, de “Atos do ESPÍRITO SANTO”. É Ele quem inspira, dirige, separa e
envia os missionários. A missão não nasce da criatividade humana, mas da
vontade soberana do ESPÍRITO. Sem o poder do ESPÍRITO, até os apóstolos
permaneceram retraídos; com o Pentecostes, tornaram-se proclamadores ousados da
fé. Assim, toda iniciativa evangelizadora autêntica é fruto da ação do ESPÍRITO
no coração da igreja.
2. O poder do ESPÍRITO na evangelização
dos gentios.
Os discípulos viviam cheios do ESPÍRITO, e
por isso evangelizavam com coragem, discernimento e alegria (At 4.31; 5.41;
7.55). O Batismo no ESPÍRITO SANTO lhes deu poder para testemunhar de CRISTO, e
eficácia em sua mensagem (At 1.8). Essa unção não apenas fortaleceu a pregação,
mas também conferiu autoridade espiritual para enfrentar resistências, realizar
sinais e consolidar igrejas em diversos povos e regiões. A expansão registrada
em Atos — de 120 discípulos a multidões — é resultado direto dessa obra sobrenatural.
"A obediência da congregação
demonstra que a comunidade local é
parte ativa da vocação missionária [...].”
3. Evidências da ação missionária do ESPÍRITO
(At 13—14).
As primeiras viagens missionárias mostram
a clara intervenção do ESPÍRITO: portas se abrem, vidas são transformadas, e
igrejas são plantadas apesar de perseguições. Em Pafos, o confronto entre Paulo
e Elimas não é apenas um episódio de oposição, mas uma demonstração de que a
luz do Evangelho prevalece sobre as trevas. A conversão do procônsul Sérgio
Paulo revela que nenhum nível social está além do alcance de DEUS. A missão
avança porque o ESPÍRITO autentica a mensagem e confirma a autoridade dos
enviados.
SINÓPSE II - O ESPÍRITO SANTO conduz e sustenta a expansão missionária da Igreja.
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO - “O ESPÍRITO SANTO
INSPIRA AS MISSÕES.
Notemos a palavra ‘apartar’. A tendência
natural das igrejas, naqueles dias como hoje, era estabelecerem-se como grupos
firmados. Não prestavam a devida atenção à expansão missionária. A igreja em
Jerusalém começou a se acomodar como grupo firme, centralizado naquela cidade.
O Senhor, então, quebrou aquela organização e fez os pedaços se espalharem por
toda a Palestina. Agora, de entre os ministros de Antioquia, retiram estes dois
para uma missão especial” (PEARMAN, Myer. Atos: A Igreja Primitiva na Força
e na Unção do ESPÍRITO. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, pp.144-45).
III – A IGREJA COMO AGÊNCIA MISSIONÁRIA
1. A Igreja que ouve a voz de DEUS.
Antioquia serve de modelo para toda
comunidade cristã: uma igreja que ora, jejua e discerne a direção divina. Uma
igreja missionária cresce na comunhão e age por obediência. A obra missionária
não é programação, mas identidade. Em Atos 13, vemos que o ESPÍRITO fala à
igreja que se coloca diante de DEUS com reverência e compromisso.
2. Uma igreja que envia e sustenta seus
missionários.
A imposição de mãos sobre Paulo e Barnabé
mostra que a igreja participa ativamente do envio. Não retem seus melhores
servos, mas os consagra ao propósito eterno. Sustentar, interceder e acompanhar
missionários é parte inseparável da vocação eclesial. Assim como Antioquia se
tornou um centro de envio, cada igreja local é chamada a tornar-se base de
operação para que o Evangelho alcance novos povos e culturas.
3. Uma igreja que cumpre a Grande
Comissão.
A ordem de JESUS permanece: ir, pregar,
fazer discípulos e alcançar as nações (Mt 28.19,20). No mundo, ainda há povos
que nunca ouviram o Evangelho. Como ouvirão, se não há quem pregue? (Rm 10.14).
E como pregarão, se não forem enviados? (Rm 10.15). O ESPÍRITO continua
chamando homens e mulheres para essa obra, e cabe à igreja atender ao chamado
com prontidão, oração, recursos e disposição para ir.
SINÓPSE III - A igreja responde ao chamado do ESPÍRITO enviando e sustentando os
missionários.
CONCLUSÃO
A missão entre os gentios começa com
oração, jejum e sensibilidade à voz do ESPÍRITO. A igreja de Antioquia mostra
que DEUS fala, chama, separa e envia; e que a igreja responde, intercede e
sustenta. A Palavra de DEUS é poderosa para transformar todo pecador em uma
pessoa regenerada, alcançada pela graça. Hoje, o ESPÍRITO continua chamando sua
igreja para alcançar as nações. Estamos dispostos a ouvir, obedecer e
participar da missão que ainda está em andamento?
REVISANDO O CONTEÚDO
1. Em qual cidade os discípulos foram
chamados “cristãos” pela primeira vez?
Antioquia.
2. Quem ordenou para que separassem Saulo
e Barnabé para as nações?
O ESPÍRITO SANTO.
3. Por que os discípulos evangelizavam com
coragem, discernimento e alegria?
Porque os discípulos viviam cheios do ESPÍRITO.
4. Quais evidências mostram a clara
intervenção do ESPÍRITO nas primeiras viagens missionárias?
Portas se abrem, vidas são transformadas e
igrejas são plantadas apesar de perseguições.
5. Por que Antioquia serve de modelo para
toda a comunidade cristã?
Antioquia é uma igreja que ora, jejua e
discerne a direção divina.
LEITURAS PARA APROFUNDAR
A Igreja em Jerusalém; A Igreja no Século
XXI (CPAD)

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